18 agosto 2022

OS TÉCNICOS TÊM SEMPRE UMA EXPLICAÇÃO PARA AS ALTERAÇÕES DE TEMPERATURA

18 de Agosto de 1932. Em contraste com o de 2022, o Verão europeu de 1932 foi anormalmente frio. E o Diário de Lisboa não resistia a publicar uma explicação científica para o fenómeno, produzida pelo padre Guido Alfani, o director do Observatório Ximeniano de Florença, Itália. Seria interessante talvez esclarecer os leitores que a especialidade do padre Alfani seria mais a sismologia (a ciência que avaliou os efeitos do recente discurso de Luís Montenegro em 4,5 na escala de Richter). O que importante é que, em procurando, há sempre explicações para publicar sobre os fenómenos atmosféricos. Um outro ponto a suscitar perplexidade é que o assunto eram as temperaturas do Verão europeu, mas o artigo aparecia oriundo de Buenos Aires, Argentina, América do Sul, no hemisfério Sul. Onde era Inverno...

17 agosto 2022

A MAIS FAMOSA VÍTIMA DO MURO DE BERLIM

17 de Agosto de 1962. Peter Fechter era um jovem berlinense de 18 anos que decidira, com um amigo da mesma idade, tentar fugir para a metade ocidental de Berlim. Até ao ano anterior fora simples. Mas agora havia um Muro a dividir a cidade. Um Muro que era patrulhado por guardas armados e com instruções para atirar em quem tentasse fugir. Ao princípio da tarde, Peter e o seu amigo Helmut atravessaram a correr a zona da morte adjacente ao muro, para o tentarem escalar o mais rapidamente possível, ignorando as ordens dos guardas orientais, que acabaram por disparar, atingindo-o enquanto o amigo chegava incólume ao Ocidente. Atingido, Peter ali ficou durante quase uma hora ainda em território da Alemanha Oriental, esvaindo-se em sangue e pedindo ajuda de forma cada vez mais débil, numa situação escandalosa do ponto de vista humanitário, mas imensamente delicada do ponto de vista político, diplomático e militar. Só ao fim desse tempo é que, diante de centenas de berlinenses do lado ocidental (os do lado oriental haviam sido removidos pela polícia), os guardas do outro lado terão recebido autorização para ir buscar Peter, agora já cadáver. Não deixa de ser uma ironia descobrir que os que passam por salvadores de Peter Fechter nesta famosa fotografia acima houvessem sido também os agentes da sua morte. Aliás, quem domina a fotografia não é o morto, antes a cara assustada do guarda da direita, numa demonstração quanto os medos da guerra-fria seriam recíprocos… Mas que essa constatação não sirva de distracção sobre a quem atribuir a responsabilidade pelo assassinato. 

16 agosto 2022

POR ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS: O GASODUTO E O TGV

A propósito desta recente iniciativa do chanceler Scholz, a emendar a mão de um desastrado erro estratégico do seu país, para que se construa um gasoduto com origem em Portugal que esteja conectado ao centro da Europa, ocorreu-me, por associação de ideias, levantar a questão - que não vi debatida ainda - de como poderá ser o traçado futuro desse futuro gasoduto que (os países do centro da Europa) a Alemanha agora descobriu ser bastante importante para si. E ocorreu-me porque, tratando-se de mais uma conexão do território português ao centro da Europa, põe-se a questão se o gasoduto também terá de passar forçosamente por Madrid, como os governos espanhóis têm insistido desde há décadas, sempre que se discute o traçado do hipotético TGV a conectar Portugal e Espanha ao resto da Europa. Ou então talvez não, que os (países do centro da Europa) alemães o caso do gasoduto estarão interessados num traçado verdadeiramente rápido e eficiente.

OS MITOS DO CLIMA BRITÂNICO

De 13 para 16 de Agosto, a descrição que os jornais britânicos fazem do tempo que por lá faz, passou, em meras 72 horas, da seca, incêndios e altas temperaturas, para chuva intensa e inundações que perturbam o tráfego rodoviário e ferroviário. Não sei como a meteorologia analisará este contraste mas, considerado do ponto de vista noticioso, lá se vai o mito da monotonia do clima britânico.

O (OUTRO) ROCAMBOLESCO GOLPE DE ESTADO CONTRA O REI DE MARROCOS

16 de Agosto de 1972. Depois de ter sido alvo de um pitoresco atentado contra a sua vida no Verão do ano passado, o rei Hassan II de Marrocos voltava a ser alvo de uma outra tentativa burilada de assassinato, que, se tivesse sido bem sucedida, corresponderia naquelas circunstâncias a um golpe de Estado. O rei regressava do estrangeiro, viajando num Boeing-727 da Royal Air Maroc fretado exclusivamente para o efeito, quando os novos caças militares F-5 da base aérea de Kenitra que haviam sido enviados para o saudar e escoltar resolveram, por assim dizer, mudar de atitude e fazer “tiro ao alvo" com o Boeing-727 onde viajava Hassan II e a comitiva que o acompanhava… O avião conseguiu, mesmo depois de alvejado, vir a aterrar como pode (acima) no aeroporto de Rabat. Daí Hassan II conseguiu convocar as tropas fiéis e fazer abortar o golpe. Os mentores do golpe acabaram todos executados. O episódio deve contar do top 10 dos mais desagradáveis regressos de férias de que há registo. E a lenda faz constar que o piloto do Boieng-727 (que era um antigo piloto militar, colega dos pilotos dos F-5 que o perseguiram e alvejaram) era convictamente republicano, mas que haviam sido as próprias circunstâncias do golpe que o haviam motivado a salvar a sua própria pele…

15 agosto 2022

«A PARTIR DE HOJE, A ÍNDIA GOVERNAR-SE-Á POR SI PRÓPRIA» e «UM ENCONTRO COM O DESTINO»

A Índia tornou-se independente há precisamente 75 anos. Tornar-se-ia de imediato o segundo país mais populoso do Mundo. Só apenas esse aspecto, conferiria imenso destaque ao acontecimento. Contudo, preste-se atenção à sobriedade da redacção do título escolhido pelo Diário de Lisboa para o anunciar. Constate-se como a palavra independência não aparece nem uma única vez naqueles primeiros parágrafos da notícia. E como, por causa do cuidado em evitar usá-la, o que se noticia parece por isso resumir-se, ridiculamente, a um simples novo procedimento administrativo: «A partir de hoje, a Índia governar-se-á por si própria». Em contraste, ouça-se e leia-se mais abaixo a tradução do início do discurso proferido na ocasião pelo primeiro primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru - «A Tryst with Destiny» (Um Encontro com o Destino). É considerado um dos dez mais importantes discursos em língua inglesa de todo o século XX.
Há muitos anos marcámos um encontro com o destino, e agora chega o momento em que resgataremos essa nossa promessa, não na sua totalidade ou plenamente, mas muito substancialmente.

Ao soar da meia-noite, enquanto o Mundo dorme, a Índia despertará para a Vida e para a Liberdade. Chega um daqueles momentos, que raramente ocorre na História, em que se sai do velho para o novo, quando termina uma Era e quando a Alma de uma nação, há muito reprimida, encontra a sua Expressão.

TUDO O QUE PASSA, PASSA NA TSF

Felizmente desta vez, e em vez dos tradicionais politólogos, a avaliação das consequências do discurso de Luís Montenegro no Algarve ficou a cargo de verdadeiros cientistas: sismólogos. Aquele, apesar de se ter registado a 62 quilómetros de profundidade, é considerado um acontecimento superficial. E tendo atingido a magnitude de 4,5 na escala de Richter é considerado um terramoto ligeiro. A comunicação social terá sentido toda o sismo, mas o abalo «não causou danos pessoais ou materiais».

14 agosto 2022

A ARTE DE «ENCHER CHOURIÇOS»... COM HISTÓRIAS IMAGINADAS SOBRE NAVES ESPACIAIS

É conhecida a proverbial dificuldade em arranjar assunto para preencher as páginas noticiosas do mês de Agosto. Para solucionar esse vazio, em 14 de Agosto de 1962, o Diário de Lisboa socorria-se de uma missão espacial soviética, que se compusera de duas naves espaciais tripuladas (Vostoks 3 e 4) que haviam sido lançadas quase em simultâneo para o espaço, o que constituía um feito inédito até então. A imagem acima mostra o alargado espaço que o jornal dedicava em primeira e última página a esse acontecimento. Isso seria aceitável, não fosse o facto de que muito desse espaço era preenchido com especulações que se verificou depois serem descabidas: a) haviam sido «captados sinais de um possível Vostok 5» que nunca existiu; ou então b) «as duas naves espaciais podiam ter-se tocado», mas nunca se tocaram, o mais próximo que estiveram seria a 6,5 km uma da outra. Nenhuma das naves - a fotografia de uma delas, inclusa no artigo, era uma completa invenção! - tinha capacidade de manobrar autonomamente no espaço, para se que de pudessem aproximar. Muito menos que os cosmonautas a bordo «transbordassem» de uma para a outra nave. Tratava-se tudo de especulações para «encher»... e entreter. Porque está a decorrer a guerra na Ucrânia, ocasião em que se mente mais do que muito, esta é apenas mais uma chamada de atenção para recordar que aquilo que aparece publicado nos jornais e aquilo que é verdade pode divergir substancialmente, especialmente quando a falta de transparência e de assunto estimula as imaginações.

13 agosto 2022

O TEMPO DOS BALADEIROS CONVENCIDOS

13 de Agosto de 1982. No rescaldo de mais um Festival de Vilar de Mouros que terminara dias antes, o Diário de Lisboa dava ressonância às queixas do baladeiro Vitorino, queixas essas que se estendiam do valor do cachets oferecidos aos artistas portugueses quando em comparação com os estrangeiros, até à programação do próprio festival, permitindo-se fazer a sua interpretação do que fora «o sentido crítico muito elevado» do público, que até esquecera «o "rock", apresentado como prato forte do festival». E no entanto, mais de vinte anos decorridos (2005), numa publicação de um outro jornal (Diário de Notícias), recordava-se essa edição por ter sido «a primeira visita a Portugal» de uma então modesta banda irlandesa chamada U2! Nitidamente esta última prestação passara ao lado do baladeiro Vitorino, nesses tempos em que os baladeiros se achavam - ridiculamente - detentores da verdade do que seria a qualidade musical e interpretes únicos do que seria o gosto (uniforme) do público.

12 agosto 2022

A QUEDA DE UM ANJO


Na verdade, o romance de Camilo Castelo Branco pouco tem a ver com a essência do tema sobre o qual escrevo, mas reconheça-se a beleza única do título escolhido por aquele grande romancista. E se há algum produto de higiene que se revista de uma aura angelical, esse será o pó de talco que, ao longo de gerações serviu de profiláctico às assaduras de rabinhos de tantos anjos... de fraldas. Mas os tempos evoluíram. E se, por um lado, as fraldas se tornaram de uma sofisticação complexa que absorve tudo e não irrita a pele dos cuzinhos dos anjinhos, por outro predominam agora correntes de opinião que se mostram contrárias à aplicação do pó de talco nas partes delicadas dos querubins do século XXI. E é assim que lemos o anúncio que a farmacêutica norte-americana Jonhson & Johnson terá acabado de tomar a decisão de «suspender» a comercialização do pó de talco a partir de 2023.

QUANDO AS PROMOÇÕES A OFICIAL GENERAL ERAM UM TÓPICO PARLAMENTAR

12 de Agosto de 1922. Na sessão parlamentar da Câmara de Deputados, os trabalhos haviam sido dominados pela apresentação de uma proposta para a promoção a oficial general de vários coronéis do exército. E a aprovação de quatro deles. Creio que duas conclusões se podem retirar deste Portugal bizarro de há precisamente cem anos. Em primeiro lugar, que o país em geral e os seus deputados em particular não iam todos de férias em Agosto. Havia quem continuasse a trabalhar para além dos empregados de hotelaria no Algarve. E em segundo lugar que aquelas nossas elites avoengas também não se tocavam sobre o ridículo. Além de se assistir à interferência do poder legislativo numa esfera de competências onde, em princípio, deveriam primar as regras estabelecidas pela própria corporação, a própria sessão parlamentar fora uma embaraçosa exposição de ciúmes e invejas que levara alguns dos deputados a desaparecerem oportunamente do hemiciclo quando da votação.

10 agosto 2022

DONALD TRUMP E A 5ª EMENDA

Exibem-se aqui cinco vezes em que, no passado, Donald Trump havia verberado o recurso à invocação da 5ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, uma norma que permite aos cidadãos recusarem-se a responder às questões que lhe são colocadas em tribunal, invocando que a resposta os levaria a incriminarem-se a si próprios. Naquela sua lógica básica, vocacionada para ter ressonância nas bancadas, e como o vemos perguntar-se repetidamente nas imagens acima: «Se estão inocentes, porque é que invocam a 5ª Emenda?» E agora há o comportamento de Donald Trump, quando, ao fim de anos e anos de manobras dilatórias, finalmente conseguiram colocá-lo a depor oficialmente (abaixo). Em circunstâncias onde as mentiras podem ser sancionadas com acusações de perjúrio. E ali, pelo menos no que se refere ao assunto das suas finanças pessoais, o ex-presidente não parece estar nada inocente, fazendo fé na sua própria lógica quanto à questão das motivações para a invocação da 5ª Emenda constitucional. Se a opinião pública americana se regesse por alguma consistência, este episódio seria a constatação que afinal as pessoas se podem incriminar a si próprias, mesmo invocando a 5ª Emenda, ou até mesmo precisamente por a invocar, considerando os precedentes de quem a invoca. Mas a opinião pública americana é uma coisa muuuito esquisita.

A COLHER DE SOBREMESA SUJA

O ambiente no restaurante era óptimo, o jantar estava excelente, só que a colher que acompanhava a mousse de limão da sobremesa - por sinal, deliciosíssima! - a colher estava notoriamente suja, o que me obrigou a pedir outra, enquanto me lembrava deste famoso sketch dos Monty Python, intitulado Garfo Sujo.

09 agosto 2022

SINFONIA POR UMA CIDADE QUE ENTRETANTO JÁ MUDOU (OUTRA VEZ) DE NOME

9 de Agosto de 1942. Há precisamente 80 anos estreava, numa Leninegrado que estava então cercada pelos exércitos alemães e finlandeses, a sinfonia nº 7 de Dmitri Shostakovich. A sinfonia nº 7 fora especialmente composta e dedicada pelo compositor (ele próprio ali nascido em 1906) à cidade e às condições particularmente difíceis por que os seus habitantes estavam a passar. A première de uma tal composição em tais circunstâncias (houve membros originais da orquestra que morreram antes da estreia por causa da fome!) tornou-se uma tremenda operação de ânimo e de propaganda para os soviéticos, com impacto tanto local quanto global. O vídeo abaixo é apenas a primeira parte do primeiro movimento da sinfonia, os seis minutos e meio iniciais de uma peça que tem uma duração de quase hora e meia (eis a ligação para quem a quiser ouvir na totalidade). A ovação final da assistência, ao bom estilo soviético de então, terá durado outra hora suplementar! Por coincidência, acrescente-se que o próprio Dmitri Shostakovich veio a falecer num outro 9 de Agosto (1975). Entretanto, Leninegrado, que se chamara São Petersburgo quando Shostakovich ali nascera e Petrogrado entre 1914 e 1924, retornou aquele que fora o seu nome original depois do fim da União Soviética em 1991. De uma certa forma, a sinfonia nº 7 foi dedicada a uma cidade que, se hoje existe, existe de uma forma diferente.

A ÚLTIMA TOMADA DE POSSE DE AMÉRICO TOMÁS E A ÚLTIMA ACÇÃO BOMBISTA DO PCP

9 de Agosto de 1972. Tem lugar a cerimónia solene de posse para um terceiro mandato (de 7 anos) do presidente da República, almirante Américo Tomás. Não se sabia então, mas seria a última tomada de posse de um presidente do Estado Novo. O Diário de Lisboa dava o destaque obrigatório à cerimónia e ao discurso (a verde), que o empossado era conhecido pela fraqueza dos seus dotes oratórios.
No mesmo dia, e compartilhando o destaque de primeira página no mesmo jornal (a vermelho), o PCP participava (à sua maneira) na tomada de posse do almirante, desencadeando uma acção bombista múltipla visando um conjunto seleccionado de torres de transporte de electricidade. Não se sabia então, mas seria também a última acção daquela organização do PCP, denominada ARA.

07 agosto 2022

«KON-TIKI» - A HISTÓRIA ERA BONITA MAS AFINAL ESTAVA MAL CONTADA

A 7 de Agosto de 1947 chegava ao fim uma saga de seis navegadores que, numa jangada construída tanto quanto possível de acordo com as técnicas dos antigos indígenas sul americanos, tentara provar que era possível que esses povos houvessem alcançado as ilhas do Pacífico vários séculos antes da chegada dos europeus. O promotor da tese e líder da expedição era um norueguês de 32 anos de idade chamado Thor Heyerdahl. A jangada, baptizada Kon Tiki, largara do porto peruano de Callao a 28 de Abril e, 101 dias e 7.000 km depois, terminava a viagem num pequeno atol da Polinésia Francesa (abaixo). O feito foi muito promovido na época, Heyerdahl escreveu um livro de sucesso e havia sido rodado um filme documentário sobre a viagem, que veio a ganhar o Óscar da categoria em 1951.
Mas sempre existiu uma certa confusão naquilo que o sucesso da viagem pudera provar, a distinção entre algo poder ser feito e a certeza disso ter sido realmente feito - o que não podia ser concluído apenas a partir da proeza realizada por Heyerdahl e seus companheiros. Uma resposta mais concreta só apareceu décadas depois, vinda de uma disciplina científica completamente diferente: a genética. Foi através dela, da sequenciação do ADN humano que se começou a identificar os graus de parentesco entre as várias populações espalhadas pelos arquipélagos do Pacífico (abaixo). As conclusões que se conseguem extrair dos marcadores genéticos dessas populações são completamente distintas da tese que impeliu Thor Heyderdahl a realizar a sua viagem de há 70 anos.
Como se pode apreciar pelo mapa acima, a colonização do Pacífico terá sido realizada em várias fases, ao longo de milénios, mas protagonizada por populações austronésias, originalmente asiáticas. À direita e recorrendo a uma seta tracejada de duplo sentido com um ponto de interrogação, o mapa, caridosamente, deixa em aberto a hipótese de Thor Heyerdahl. Por perto, o ponto vermelho assinala o término da viagem da Kon Tiki. Mas mesmo o levantamento genético realizado na ilha da Páscoa, a mais ocidental de todas as ilhas habitadas, revela uma contribuição de 76% de material austronésio, 16% europeu e apenas 8% sul americano. Os valores nos outros arquipélagos da Polinésia são ainda mais significativos. A tese de Heyerdahl era bonita mas parece cada vez mais improvável.

06 agosto 2022

QUANDO OS POLÍTICOS FINGEM QUE LÊEM

Ainda o Expresso, agora na sua página 14, num dos artigos tradicionais desta época, quando os políticos são questionados e se põem a inventar as leituras de férias que nunca farão. O destaque do disparate entre os que responderam ao jornal vai para Cotrim de Figueiredo e Jerónimo de Sousa. O primeiro por ser um aldrabão descarado que enuncia que levará 11 livros para ler nas férias! Achará ele que alguém acreditará que alguém lê onze livros nas férias e anda faz mais algumas coisas («cozinhar para família e amigos (...) ao som de playlists "soul & funky"»)? O segundo só enuncia um livro, mas é o mais que ortodoxo "Levantado do Chão" de José Saramago, descrito por Jerónimo de Sousa como «um retrato da história da heroica luta do povo e dos trabalhadores agrícolas contra a exploração secular e pelas suas condições de vida». Com todo este pedigree ainda não lhe dera para o ler? O livro tem 42 anos! E o Alentejo mudou muito desde a sua edição: nestas últimas eleições (2022), o PCP perdeu até a sua representação por Évora...

05 agosto 2022

SAUDADES DO ESPESSO

Hoje comprei o Expresso. Fi-lo pela primeira vez em muitos anos. Tantos, que nem consigo estimar quantos. E os tempos estão muito mudados. O jornal continua a ser vendido em multiplos fascículos e num daqueles sacos cuja ostentação, outrora, conferia a quem o carregava uma gravitas intelectual muito própria. Apercebi-me que passear o saco perdeu qualquer valia sociológica para o povo que agora entupia e fazia fila na tabacaria preocupado apenas com o seu euromilhões e a raspadinha. E se no saco continuam a aparecer aquelas separatas para as quais nem se deita uma vista de olhos, já não aparecem, em contrapartida, aqueles guias para coleccionar, sobre os recantos, os restaurantes, os monumentos de Portugal. Seria uma forma idealizada de fazer turismo interno que poucos praticariam com gosto genuíno. Por outro lado, agora as aplicações como o TripAdvisor substituem isso tudo. E no entanto, ele há coisas que perduram no Expresso. Como a ignorância arrogante de quem lá escreve, simbolizada em figuras do passado como os seus antigos directores José António Saraiva ou Ricardo Costa

Tomemos o exemplo da página 7, um artigo da jornalista Rita Dinis a respeito do conflito entre o governo e as empresas de energia que começa assim: «Criada no final dos anos 30, a bomba nuclear tinha dois propósitos: funcionar como arma de destruição maciça e como arma dissuasora. Preventiva. A intenção era não ser usada. (...)» Esqueça-se o artigo que se segue sobre a possível conduta de Costa, este intróito é uma caso flagrante do chorrilho de asneiras: a) a bomba começou a ser desenvolvida já nos anos 40, em plena Segunda Guerra Mundial; b) Nesse projecto (Manhattan), o propósito era um e só um: obter a bomba antes dos alemães; c) E, finalmente, a intenção era usá-la, tanto mais que foi mesmo usada, há 77 anos em Hiroxima. O conceito de arma dissuasora só apareceu em 1949, quando a União Soviética detonou, por sua vez, o seu engenho nuclear. Em suma, a jornalista Rita Dinis começa o seu artigo por uma imaginativa analogia, invocando um assunto sobre o qual é evidente que não percebe nada. E, se lhe dissermos alguma coisa a respeito do seu requinte de erudição histórica, antecipo que ainda a veremos abespinhar-se, ofendida. É nestas coisas que o Expresso, embora já menos espesso, me parece intemporal.

04 agosto 2022

A EXPULSÃO DA COMUNIDADE INDIANA DO UGANDA

4 de Agosto de 1972. O presidente ugandês Idi Amin endereça um ultimato aos membros da comunidade indiana residentes no país que haviam mantido a nacionalidade britânica: teriam 90 dias para abandonar o Uganda. A acompanhar a declaração desencadeia-se uma intensa campanha de propaganda tendo como alvo aquela população, que é acusada pelas autoridades e pela comunicação social de minar a economia nacional e de perpetuar a corrupção. Cinco dias passados e o ultimato é alargado aos residentes que fossem titulares de passaportes indianos, paquistaneses e bengalis. A medida abrange mais de 50.000 pessoas de ascendência indiana ou paquistanesa, apenas excluindo cerca de 23.000 membros daquelas comunidades que haviam optado pela nacionalidade ugandesa. Contudo, o ambiente era tão insuportável para todos eles, que, no fim do prazo, apenas 4.000 pessoas haviam optado por permanecer no Uganda e. mais de 5.000 empresas e propriedades haviam sido confiscadas. Apesar das condenações internacionais, a começar pelos governos afectados, britânico, indiano, paquistanês, a decisão prevaleceu porque não houve sanções significativas sobre o regime ditatorial de Idi Amin. Este é um dos exemplos mais flagrantes de perseguição racista dirigida a uma comunidade específica e ocorreu em África, perpetrada por africanos negros. Não se enquadra com as narrativas convencionais: algoz - europeu branco; vítima -qualquer outra raça. Deve ser por isso que quase ninguém está interessado em evocar esta expulsão súbita de 75.000 pessoas por motivos descaradamente cúpidos.

02 agosto 2022

APAZIGUAMENTO: DO QUE OS BRITÂNICOS FIZERAM A HITLER AO QUE OS ALEMÃES FIZERAM A PUTIN

«Appeasement» é uma palavra proscrita do léxico político porque representou, para as potências ocidentais, uma abordagem diplomática que fracassou clamorosamente perante as ambições inexoráveis de Adolf Hitler que desembocou na Segunda Guerra Mundial. No entanto e por detrás da diplomacia que tentou impedir esta última a todo o custo, os britânicos, mesmo na altura em que Chamberlain ainda negociava com Hitler (acima), já haviam inflectido a sua política internamente e, com um acelerado processo de investimento na defesa a partir da segunda metade da década de 1930, haviam começado a preparar-se para o cenário alternativo - e desagradável - de um segundo grande conflito europeu. Visto a esta distância, o appeasement não era assim tão ingénuo quanto aparentaria. Havia um grande programa de Defesa em curso e o Reino Unido estava essencialmente preparado para subsistir mesmo numa situação de emergência, como se veio a verificar a partir do Verão de 1940.
Contudo, o tão depreciado «appeasement» dos britânicos é capaz de se vir a tornar num sagaz exemplo de precaução, quando comparado com a «Beschwichtigungspolitik» (apaziguamento, mas em alemão...) que os alemães haviam dado mostras em relação à Rússia nestes últimos vinte anos. A maior diferença é que, neste caso, não temos (felizmente...) uma Grande Guerra na Europa, mas, mesmo assim e para aquilo a que temos estado habituados, é uma guerra assim-assim a que está em curso, resultante da invasão da Ucrânia pelos russos. A segunda grande diferença e a questão deste texto é que, do ponto de vista das fontes de energia, a Alemanha não parece ter investido no cenário alternativo - e desagradável - a que as suas principais fontes de energia (russas) fossem cortadas. Logo eles, que passam por ser tão organizados e que criaram a palavra ersatz! E é assim que temos os alemães a fazer a figura de ainda mais ingénuos e impreparados do que pareciam os franco-britânicos de Munique em 1938. Por isso os alemães irão tomar muitos (e merecidos) banhos de água fria. Porque é certo e sabido que, se o problema do abastecimento de gás natural tivesse ocorrido na Argélia em vez da Rússia, não seriam eles - alemães - que nos viriam cá aquecer a nossa água solidariamente.