4 de Agosto de 1972. O presidente ugandês Idi Amin endereça um ultimato aos membros da comunidade indiana residentes no país que haviam mantido a nacionalidade britânica: teriam 90 dias para abandonar o Uganda. A acompanhar a declaração desencadeia-se uma intensa campanha de propaganda tendo como alvo aquela população, que é acusada pelas autoridades e pela comunicação social de minar a economia nacional e de perpetuar a corrupção. Cinco dias passados e o ultimato é alargado aos residentes que fossem titulares de passaportes indianos, paquistaneses e bengalis. A medida abrange mais de 50.000 pessoas de ascendência indiana ou paquistanesa, apenas excluindo cerca de 23.000 membros daquelas comunidades que haviam optado pela nacionalidade ugandesa. Contudo, o ambiente era tão insuportável para todos eles, que, no fim do prazo, apenas 4.000 pessoas haviam optado por permanecer no Uganda e. mais de 5.000 empresas e propriedades haviam sido confiscadas. Apesar das condenações internacionais, a começar pelos governos afectados, britânico, indiano, paquistanês, a decisão prevaleceu porque não houve sanções significativas sobre o regime ditatorial de Idi Amin. Este é um dos exemplos mais flagrantes de perseguição racista dirigida a uma comunidade específica e ocorreu em África, perpetrada por africanos negros. Não se enquadra com as narrativas convencionais: algoz - europeu branco; vítima -qualquer outra raça. Deve ser por isso que quase ninguém está interessado em evocar esta expulsão súbita de 75.000 pessoas por motivos descaradamente cúpidos.
04 agosto 2022
02 agosto 2022
APAZIGUAMENTO: DO QUE OS BRITÂNICOS FIZERAM A HITLER AO QUE OS ALEMÃES FIZERAM A PUTIN
«Appeasement» é uma palavra proscrita do léxico político porque representou, para as potências ocidentais, uma abordagem diplomática que fracassou clamorosamente perante as ambições inexoráveis de Adolf Hitler que desembocou na Segunda Guerra Mundial. No entanto e por detrás da diplomacia que tentou impedir esta última a todo o custo, os britânicos, mesmo na altura em que Chamberlain ainda negociava com Hitler (acima), já haviam inflectido a sua política internamente e, com um acelerado processo de investimento na defesa a partir da segunda metade da década de 1930, haviam começado a preparar-se para o cenário alternativo - e desagradável - de um segundo grande conflito europeu. Visto a esta distância, o appeasement não era assim tão ingénuo quanto aparentaria. Havia um grande programa de Defesa em curso e o Reino Unido estava essencialmente preparado para subsistir mesmo numa situação de emergência, como se veio a verificar a partir do Verão de 1940.
Contudo, o tão depreciado «appeasement» dos britânicos é capaz de se vir a tornar num sagaz exemplo de precaução, quando comparado com a «Beschwichtigungspolitik» (apaziguamento, mas em alemão...) que os alemães haviam dado mostras em relação à Rússia nestes últimos vinte anos. A maior diferença é que, neste caso, não temos (felizmente...) uma Grande Guerra na Europa, mas, mesmo assim e para aquilo a que temos estado habituados, é uma guerra assim-assim a que está em curso, resultante da invasão da Ucrânia pelos russos. A segunda grande diferença e a questão deste texto é que, do ponto de vista das fontes de energia, a Alemanha não parece ter investido no cenário alternativo - e desagradável - a que as suas principais fontes de energia (russas) fossem cortadas. Logo eles, que passam por ser tão organizados e que criaram a palavra ersatz! E é assim que temos os alemães a fazer a figura de ainda mais ingénuos e impreparados do que pareciam os franco-britânicos de Munique em 1938. Por isso os alemães irão tomar muitos (e merecidos) banhos de água fria. Porque é certo e sabido que, se o problema do abastecimento de gás natural tivesse ocorrido na Argélia em vez da Rússia, não seriam eles - alemães - que nos viriam cá aquecer a nossa água solidariamente.
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31 julho 2022
DEPOIS DE 1972, OS AGENTES DO FBI DEIXARAM DE SER FOTOGRAFADOS EM TROUSSES...
31 de Julho de 1972. Um avião DC-8 da Delta Air Lines que fazia uma ligação doméstica entre as cidades de Detroit e Miami quando foi sequestrado por um grupo de passageiros - mais tarde apurou-se que o grupo era composto por cinco adultos e três crianças e que os adultos pertenciam ao Black Liberation Army, uma organização radical armada de afro-americanos. O avião aterrou em Miami como previsto e foi nesse aeroporto que se realizaram as negociações com os sequestradores. Para libertarem os 86 passageiros os sequestradores exigiram um resgate de um milhão de dólares e são as operações de entrega do resgate que as fotografias mostram: como medida de segurança, para retirar quaisquer possibilidades que o fizessem armados, foi exigido aos agentes que procederam à entrega do dinheiro que só vestissem trousses. Foram imagens que humilharam as autoridades em geral, e a do FBI (que conduzia as negociações) em particular.
Depois da recepção do resgate e já transportando apenas a tripulação e os sequestradores, o avião voou para Boston, onde foi reabastecido para uma viagem transatlântica até Argel. À chegada, não tendo concedido asilo político aos piratas do ar, as autoridades argelinas apreenderam o aparelho, o dinheiro do resgate e libertaram a tripulação, devolvendo-os à origem. Mas os sequestradores não foram extraditados. Fazendo-se eco do que dizia a imprensa internacional, o que o Diário de Lisboa destacava do episódio no dia seguinte era o facto dos sequestradores serem negros. Mas o futuro iria reservar uma muito maior intimidade entre Portugal e um dos protagonistas desta acção terrorista... Quatro dos cinco foram capturados em 1976 em França e aí julgados e condenados a três anos de prisão ,sendo libertados em 1981. O último permaneceu desaparecido durante quase 30 anos depois disso, até ser descoberto em 2011, a viver em Portugal, com um nome falso, mas possuidor de uma genuína cidadania portuguesa. O pedido de extradição norte-americano foi recusado por causa desse motivo.
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30 julho 2022
O SENADOR «CORAJOSO»
Josh Howley (42 anos) é um dos dois senadores republicanos americanos eleitos pelo estado do Missouri. Mas nas últimas semanas, ele tem adquirido uma verdadeira notoriedade nacional, depois de ter visto o seu comportamento a ser exposto pela Comissão que investiga a invasão do Capitólio em 6 de Janeiro de 2021. Nesse dia, e numa primeira fase, numa fotografia vê-se o senador - por detrás do perímetro de segurança... - a saudar de punho erguido os manifestantes que então ainda cercavam apenas o Capitólio. Mais tarde, quando a invasão do edifício parecia iminente, o Comité foi recuperar imagens das câmaras de segurança internas mostrando o mesmo senador a escapulir-se, correndo, da turba com a qual se mostrara tão solidário momentos antes. Como se vê no video acima, a montagem do episódio foi acolhida com uma sonora gargalhada pela audiência à sessão da Comissão. Na onda, o episódio foi tornado assunto de cartoon (abaixo): um polícia com as roupas esfrangalhadas diz para alguém que não se vê e que está escondido num esgoto: «Já é seguro sair daí, senador Hawley». Isto, em princípio, seria fatal para a carreira política de Josh Hawley. Só que, em termos de avaliar o impacto eleitoral destas palhaçadas, o Missouri é um estado onde Donald Trump ganhou as eleições com 57% dos votos, tanto em 2016 como em 2020.
UMA CONDENAÇÃO DE POL POT
30 de Julho de 1997. Tornam-se públicas as imagens de um julgamento a que fora submetido Pol Pot em que o réu, como sentença, fora condenado a «prisão perpétua». Para o mundo da informação tratava-se de um grande feito, já que o antigo ditador cambojano, responsável maior de um regime (1975-79) conhecido por ter executado milhões de compatriotas, andara desaparecido durante 18 anos. Mas para quase todos os outros mundos, era uma frustração daquilo que era a capacidade abstracta da Justiça. Afinal, Pol Pot só fora julgado porque perdera um conflito interno pelo poder dentro da organização que dirigira ferreamente até aí. Os juízes eram os seus antigos companheiros que se haviam concertado para o derrubar, receando pela própria vida. As imagens do julgamento tornavam-no numa paródia. Mostravam um sala de reuniões aberta: lá dentro as pessoas estavam segregadas por sexo e levantavam os punhos, aplaudiam e cantavam em uníssono slogans como «Longa vida à estratégia nacional!» ou «Esmague-se, esmague-se, esmague-se Pol Pot e a sua camarilha!» As testemunhas(?) aparecem a uma mesa, equipada com um microfone onde denunciam o réu pelos seus crimes. Toda esta representação só se vem a tornar conhecida há precisamente 25 anos porque os juízes se encarregaram de contratar dois jornalistas ocidentais (Nate Thayer e David McKaige como operador de câmara) para, num exclusivo mundial, dar ressonância aquela encenação. Este é um daqueles momentos simbólicos, em que se procede a uma paródia de julgamento de um dos maiores criminosos da história recente, e onde os promotores desse julgamento trataram o mundo da informação como um cão amestrado, com o qual se brinca com um pau. O mundo da informação abocanhou o pau e lá o trouxe, obedientemente. O assunto ainda hoje é discutido academicamente. Mas não se espere ver essa discussão activamente transposta para os próprios meios de informação. O Circo da Informação tem uma lógica que os próprios artistas não se atrevem a questionar. Quanto a Pol Pot, esse morreu no ano seguinte, é difícil considerá-lo outra coisa que não ainda impune.
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29 julho 2022
TARDE, MAL E NUNCA
Este mosaico de notícias do Público mostra exemplarmente em que consiste na realidade «a resolução de parte dos problemas do SNS» (sic...) prometida por António Costa já há umas boas cinco semanas. Nesse mosaico consegue ver-se que «o aumento das remunerações para médicos que façam mais urgências» tanto serve para ser anunciado a 15 de Junho (canto superior esquerdo) como para ser reanunciado a 19 de Julho (canto superior direito), ou seja, mais de um mês depois. E quanto finalmente o documento se materializa a 26 de Julho (canto inferior esquerdo), mesmo assim uma semana depois do segundo anúncio da ministra, descobre-se que o decreto-lei contém várias cláusulas que não haviam ficado muito evidenciadas nos anúncios preliminares da ministra, nomeadamente uma denominada "norma-travão" (canto inferior direito) que não permite aumentos da despesa em relação à execução de 2019. A dita "norma" tresanda a ministério das Finanças, por muito que o titular da pasta, Fernando Medina, se ande a armar em sonso. O importante é que aqui é que se notam as divergências entre a resolução prometida por António Costa e a solução prometida (e reprometida...) por Marta Temido e os agentes - administradores hospitalares e médicos - que, na estrutura, têm que resolver concretamente os problemas com que o SNS se confronta. A tarefa desses não se esgota em dizer coisas apropriadas para a comunicação social. Neste episódio que ridiculariza ainda mais os governantes, há uma expressão do português antigo (séculos XVI e XVII) que descreve perfeitamente a iniciativa governamental: tarde, mal e nunca.
AS TELENOVELAS DO PCP QUE A SIC PASSA NO PROGRAMA DA MANHÃ
A notícia dá o destaque ao nome de Carlos Moedas mas a telenovela em que a SIC embarcou foi montada pelos comunistas para tentar dar a João Ferreira mais um pouco do palco, palco esse que eles perderam depois dos resultados desastrosos do PCP nas eleições legislativas de Janeiro de 2022. Se pensarmos para além do episódio teatral encenado, é um completo disparate querer considerar uma reunião municipal como fórum adequado e apropriado para discutir o tema d«o futuro aeroporto de Lisboa». E ainda mais disparatado valorizar a ausência do presidente da edilidade por causa de uma discussão que sabemos irrelevante. Para mais quando o órgão se cinge à cidade de Lisboa e nem sequer abrange a respectiva área metropolitana. A SIC Notícias alguma vez deu notícias sobre o que se tenha passado nas reuniões camarárias de Alcochete, do Montijo ou de Alenquer (Ota) a respeito do que pensam os vereadores locais?... Não, pois não? Quanto ao resto, azar, oh camaradas, o povo - que é quem mais ordena - deu-vos votos para eleger seis, e só seis deputados. E, pelos vistos, enganaram-se a organizar e ordenar as listas. E agora querem dar um bocado de palco ao prometido próximo secretário-geral do partido, mas isto assim é um bocadinho descarado demais.Os jornalistas da SIC Notícias, como de costume, fazem a figura de otários.
A PROIBIÇÃO DOS COMÍCIOS FASCISTAS NA INGLATERRA?
29 de Julho de 1962. Um comício do movimento fascista britânico desencadeia as cenas de violência que as imagens documentam. A história da extrema direita britânica era dominada desde os anos 30 pela figura de Oswald Mosley (1896-1980). Mosley é o orador e a figura mais destacada das imagens do vídeo. Mas a intenção dos comícios dos fascistas britânicos não seria propriamente a difusão da mensagem do seu líder histórico, antes a repercussão mediática das imagens de violência que se sabia ocorrem em todos os seus comícios. Nesse mesmo dia 29 de Julho e em vez de noticiar o que acontecera em Manchester (acima), o Diário de Lisboa dava nota de uma iniciativa dos trabalhistas britânicos (na oposição), procurando obstar à campanha política promocional da extrema direita no Reino Unido, feita destas imagens de cenas de pancadaria e de pessoas ensanguentadas. É importante referir que, nas urnas, Mosley conseguira 8% no círculo eleitoral de Kensington Norte, por onde se apresentara nas últimas eleições gerais, realizadas em 1959, e onde carregara na questão da imigração dos caribenhos para o Reino Unido. Como ainda hoje acontece noutros casos, nomeadamente cá em Portugal, costuma ser muito mais a ressonância mediática obtida pelos extremistas, do que a sua verdadeira influência sociológica.
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28 julho 2022
O PEDRO NUNO SANTOS DE HÁ CEM ANOS
Tirando os estudiosos do período, poucos portugueses saberão hoje quem foi Alfredo Rodrigues Gaspar. Há cem anos era o ministro das Colónias, uma pasta em que o próprio se julgaria assaz competente, já que era a quarta vez que a ocupava. E era essa segurança acompanhada de uma indiscutível diligência, que o tornava personagem central de um assunto que transbordara para os jornais de 28 de Julho de 1922. Tudo começara com a publicação de uma notícia no dia anterior (canto superior direito), tornando pública as suas ordens para que fossem revistos todos os diplomas dimanados dos altos comissários das duas maiores colónias africanas: Moçambique e Angola. Qualquer daqueles dois altos comissários que haviam sido humilhados, Brito Camacho em Moçambique e Norton de Matos em Angola, eram tidos por pesos pesados da política nacional de quem seria de esperar uma reacção. Porém, mais do que um recuo em função das pressões que terá decerto recebido (a maçonaria protege os seus...), no dia seguinte (aqui a fazer-nos lembrar Pedro Nuno Santos no seu dia seguinte...), o ministro Rodrigues Gaspar volta à carga - artigo acima: Os actos dos altos comissários - produzindo um esclarecimento que é pior do que o original: não só disciplina os altos comissários como faz isso há mais tempo! Mais do que isso, nessa mesma edição de 28 de Julho de 1922 e numa outra notícia o ministro faz uma exibição adicional da força de Lisboa sobre as autonomias administrativas das colónias da Guiné, de São Tomé e da Índia Portuguesa. Sobre a evolução deste braço-de-ferro parece-nos esclarecedor que Rodrigues Gaspar tenha continuado a ocupar a pasta das Colónias até Novembro de 1923, durante os três governos consecutivos de António Maria da Silva. Pelos padrões da época, tratava-se de uma eternidade. Quando abandonou o cargo, também os dois altos comissários já haviam abandonado os seus. Rodrigues Gaspar veio a chefiar um governo entre Julho e Novembro de 1924. Claro que a sua passagem pelo cargo não alterou o padrão errático da política da República e, reconhecendo-lhe a coragem política (aqui demonstrada), vale a pena recordar que só há homens providenciais quando as circunstâncias também são providenciais. (os mais crédulos que esqueçam o almirante das vacinas...)
O «EXÉRCITO DO BÓNUS»
28 de Julho de 1932. Quando da sua desmobilização, os veteranos norte-americanos da Primeira Guerra Mundial haviam recebido como bónus uns títulos do tesouro, títulos esses que não podiam ser resgatados até 1945. O problema é que os Estados Unidos haviam entrado na Grande Depressão a partir do Outono de 1929 e, quando mais os seus efeitos se faziam sentir, mais crescia o movimento entre aqueles veteranos de guerra a quem a vida estava a correr mal, para que fosse possível, àqueles que o desejassem, resgatar esses títulos imediatamente, quando o capital lhes estavam a fazer mais falta. No Verão de 1932, quando (sabe-se agora) as consequências da Depressão mais se estavam a sentir, organizou-se uma grande manifestação em Washington d.C. (17.000 veteranos, acompanhados pelas famílias), pressionando pelo resgate dos títulos. Acampados pelos parques da capital dos Estados Unidos, junto à Casa Branca e ao Capitólio, os cerca de 43.000 manifestante receberam da imprensa o epíteto de o «exército do bónus» (bonus army). E é sobre este dito «exército» que, há 90 anos, as autoridades policiais atacam nos seus acampamentos, reforçadas com efectivos militares (incluindo tropas de cavalaria e mesmo 5 tanques). Militarmente, a operação foi um sucesso, os manifestantes foram corridos de Washington. Politicamente foi um fiasco embaraçoso, a simpatia da opinião pública foi toda para as imagens de uns pobres diabos que reclamavam receber aquilo que lhes fora prometido, só que quando lhes fazia realmente falta! Quanto ao envolvimento do exército - comandado à época pelo controverso general Douglas MacArthur - o desprezo público que o gesto suscitou perdura até hoje como uma das lições emblemáticas do que é que aquela instituição não deve fazer quando solicitada a intervir em assuntos de política doméstica - como Donald Trump descobriu recentemente à sua própria custa: os militares têm fama de uma obediência cega, mas ele há assuntos específicos em que se insubordinam.
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27 julho 2022
O DESASTRE NO ESPECTÁCULO AÉREO DE SKNYLIV
27 de Julho de 2002. Ocorre um desastre no espectáculo aéreo que estava a decorrer em Sknyliv, nos arredores de Lviv, na Ucrânia ocidental. Um Sukhoi Su-27UB (bilugar de treino) da Força Aérea Ucraniana estava a realizar a sua demonstração acrobática, quando uma das suas asas atinge o solo, e o aparelho se desfaz numa rodopiante bola de fogo que vai atingir uma das bancadas onde se encontravam milhares de espectadores, que assistiam ao espectáculo aéreo. O acidente provocou a morte de 77 pessoas e ferimentos em outras 543, das quais uma centena requereu hospitalização. 28 dos mortos eram crianças. Pelo número de vítimas, foi o maior desastre em espectáculo aéreo até à data. Ironicamente, e porque se ejectaram fracções de segundo antes do avião explodir, os dois pilotos sobreviveram, para depois virem a ser condenados a pesadas penas de prisão por negligência. Há vinte anos tinham que acontecer coisas destas para que a Ucrânia viesse nas notícias...
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26 julho 2022
CINCO «SEGUNDAS-FEIRAS» DEPOIS...
Recapitulemos: a 17 de Junho (já lá vão algumas semanas...), o primeiro ministro, pressionado pelo problema dos fechos das urgências de ginecologia e obstetrícia e em declarações à (sempre simpática) agência Lusa, mantinha a confiança na ministra Marta Temido e garantia a resolução de «parte dos problemas» do SNS para a segunda feira seguinte (acima). Entre as medidas que haviam sido anunciadas dois dias antes pela ministra, e que constituiriam nesta versão bombástica de António Costa a resolução de parte dos problemas do SNS destacava-se «a revisão das remunerações dos médicos, designadamente dos profissionais em serviço de urgência em todos os sectores e não só no de ginecologia e obstetrícia, que tem sido o mais afectado.» A ministra até fora citada dizendo: “Somos sensíveis à necessidade de investir na valorização dos nossos profissionais, é o compromisso que assumimos”, e anunciara uma reunião com os sindicatos para preparar “um projecto de diploma” nesta matéria. Pois bem, querem saber quando é que o referido diploma entrou em vigor? Hoje. (26 de Julho) Ou seja, ocorre quase seis semanas depois das manifestações de sensibilidade da ministra Marta Temido e cinco semanas depois da hipotética segunda feira salvífica do SNS do primeiro-ministro António Costa... Nessas semanas e quanto ao problema das urgências, a aparência é que está tudo na mesma e que a aposta governamental que a pressão aliviasse porque a comunicação social se passaria a entreter com os fogos de Verão, essa aposta não terá resultado. Se ele quer viver a mesma realidade dos compatriotas e para além de admitir pagar as contas de supermercado, António Costa tem que admitir conhecer (e responsabilizar-se pel)a dinâmica do aparelho do Estado que dirige, para não estar a anunciar para o dia seguinte soluções urgentes que depois demoram semanas, senão mesmo meses, a concretizar-se. Erros desses eu desculparia a um primeiro ministro maçarico. Mas ele está lá há quase sete anos! E eu e Portugal precisamos de um primeiro ministro que resolva problemas, não que se limite a anunciá-los resolvidos quando todos (os envolvidos) sabemos que o não estão!
A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL
26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.
A MORTE DE EVA PERÓN
26 de Julho de 1952. Morte de Eva Perón. Se o peronismo já é um fenómeno sociológico demasiado complexo para poder ser explicado sumariamente nas poucas linhas de um poste, muito mais complicado seria sintetizar onde é que cabe nele a figura de Eva Perón, a esposa do presidente que foi ao mesmo tempo a personificação das preocupações sociais de um regime que, em termos europeus, se aproximaria do que havia sido o fascismo. Após a Segunda Guerra Mundial, o fascismo desaparecera na Europa, mas subsistia pujante, e demonstrando preocupações sociais na América do Sul. Mas o mito de Eva Perón sustentar-se-á até hoje sobretudo pela sua brevidade - meia dúzia de anos (1946-52). Morta aos 33 anos, Eva foi uma estrela do firmamento político argentino que não chegou a fenecer, no mesmo estilo de uma estrela de Hollywood quase contemporânea como James Dean. Mas o passado pode ser mesmo uma realidade paralela: ouvir Evita a discursar ao fim de 70 anos, pode ser um exercício confrangedor, tal o exagero primário dos seus discursos (abaixo). Como é que milhões se puderam encantar com tal primarismo?
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25 julho 2022
A ILUSÃO DE (QUASE) TODA A HUMANIDADE
25 de Julho de 1992. Há 30 anos tinha lugar a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. A cerimónia foi dominada pela forma verdadeiramente espectacular como a pira olímpica foi acesa, com uma flecha em fogo disparada por um archeiro de dentro do estádio. Tomando em consideração a colocação da câmara de televisão, fica a impressão para quase toda a Humanidade que seguiu o acontecimento à distância (impressão essa que perdurou, porque ninguém a desmentiu nos dias que se seguiram), que o arqueiro conseguira colocar a flecha precisamente dentro da pira, incendiando-a.
Na verdade, deve ter sido o truque de magia que alcançou a maior audiência de sempre até aquela data - uma audiência verdadeiramente planetária! Como se compreende, a organização não se poderia permitir correr o risco de que houvesse um fiasco numa situação tão delicada. E assim os arqueiros foram submetidos a intensos ensaios, mas apenas a direccionar o tiro, a pira seria acesa quando a seta lhe passasse por cima e competiria ao posicionamento da câmara de televisão criar o resto da ilusão. Ilusão essa que não foi compartilhada pelos milhares presentes no estádio, como se depreende pela fotografia abaixo.
24 julho 2022
UMA POLÍTICA DE «BANHOS FRIOS»
Há uma dúzia de anos, por ocasião da crise das dívidas públicas da zona euro, as opiniões públicas dos países mediterrânicos da União Europeia atingidas pela crise apanharam todas um banho de água fria, quanto ao que era o verdadeiro significado da solidariedade europeia, que anteriormente tanto lhes fora impingida nos comunicados de sucessivas cimeiras europeias precedentes. Desses tempos resultaram como símbolos desse espírito, por um lado a praça Sintagma em Atenas como local de protesto, e, como protagonistas maiores dessa solidariedade europeia do cada um por si, a dupla do alemão Schäuble com o holandês Dijsselbloem (foto abaixo, para quem já se tenha esquecido daquelas duas carinhas larocas...). Agora, a propósito da redistribuição da escassez de gás natural, como consequência da invasão russa da Ucrânia, e como se percebe pelas rejeições do plano de solidariedade de Bruxelas, estaremos a assistir a uma devolução descomplexada dessa solidariedade que as opiniões públicas do Sul assumiram que não existe. Será altura de os alemães apanharem, por sua vez, o seu banho de realidade, um banho não apenas metafórica mas realmente frio, já que o problema incide sobre a falta de gás para os seus esquentadores. No fim disto tudo e muito relutantemente, nós ajudá-los-emos, mas os alemães têm que ouvir-nos dizer-lhes que eles não podem viver acima das suas disponibilidades energéticas.
23 julho 2022
«FAKE NEWS» DE HÁ CEM ANOS
23 de Julho de 1922. Esta carta de há cem anos, escrita pelo major António Ribeiro de Carvalho, oficial da guarnição do Regimento de Infantaria 19, aquartelado em Chaves, é uma demonstração de como as agora denominadas «fake news» são afinal um fenómeno secular. A carta é uma resposta/esclarecimento a uma crónica que fora publicada dois dias antes no Diário de Lisboa (abaixo), lamentando a ausência do soldado Milhões, herói da Grande Guerra, das festas da cidade de Chaves. Uns escassos quatro anos passados depois do fim daquele conflito, o herói, que era oriundo de uma freguesia das redondezas, e que regressara entretanto à vida civil e que alegadamente vivia com dificuldades, nem sequer fora convidado para as festas da cidade que era a sede da unidade militar pela qual fora mobilizado para França (o RI 19).
A carta do major António Ribeiro de Carvalho apresenta-se como um desmentido célere a tudo isso. O pior é que, para além de se enganar no local da sua naturalidade (freguesia de Jou), o major dá o herói por morto «há coisa de um ano», explicação «simples» para que não tivesse sido convidado às festas da cidade de Chaves. Só que o soldado Milhões não morrera, isso só acontecerá daí por 48 anos(!). O que, pela dimensão da mentira, nos leva a questionar seriamente não apenas toda a argumentação da carta (nomeadamente o interesse assumido do autor da missiva pelo bem estar do herói...), como até mesmo a honestidade intelectual do próprio major António Ribeiro de Carvalho. Então Aníbal Augusto Milhais «único soldado português condecorado em França com a Torre e Espada» tinha morrido e o major nem conseguia precisar a data porque os «seus camaradas de regimento» nem sequer se haviam feito representar na cerimónia?... António Ribeiro de Carvalho era um maçon e um exemplar típico das elites da época... Virá a ser ministro da Guerra durante 70 dias, entre 18 de Dezembro de 1923 e 26 de Fevereiro de 1924.
A NOITE DOS «BIKBACHIS»
23 de Julho de 1952. No Egipto tem lugar um golpe de Estado que depõe o regime monárquico. O pronunciamento militar é encabeçado por coronéis («bikbachis»), embora tenha por figura de proa o general Naguib. O verdadeiro líder é o coronel Gamal Abdel Nasser de 34 anos, que o substituirá também nas funções formais da chefia do Egipto dali por dois anos e meio, depois de uma breve luta política. Esta história de BD abaixo, descreve o episódio de há 70 anos numa maneira necessariamente sumária, mas também muito lisonjeira para com Nasser. O regime edificado por Nasser, que veio a morrer em 1970, foi uma ditadura, por muito que tivesse sido encabeçada por um ditador carismático, protegido por uma promoção pública despropositadamente benigna para a sua pessoa.
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