08 março 2020

A ALEMANHA PROCURA TRANQUILIZAR A POLÓNIA

8 de Março de 1990. O parlamento alemão (Bundestag) aprovava uma resolução apresentada pelos partidos da coligação governamental (CDU/CSU e FDP) em que se reconhecia o direito dos polacos a «viverem em fronteiras seguras». Implicitamente, a resolução representava uma aceitação - que a Alemanha Ocidental nunca fizera até então - da fronteira oriental da Alemanha com a Polónia que, passando pelos cursos dos rios Óder e Neisse, havia sido imposta aos alemães unilateralmente pelos Aliados enquanto vencedores no final da Segunda Guerra Mundial. E o texto da resolução era ainda mais explícito: «O povo polaco deve ficar ciente que não questionaremos por meio de reivindicações territoriais o seu direito a viver em fronteiras seguras». Para Leste dessa fronteira ficava um território com mais de 100.000 km² (uma área superior a Portugal) que a Alemanha perdera consecutivamente nos finais da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Só que, em primeiro lugar, de 1920 para 1990 o valor económico relativo do factor terra depreciara-se imenso quando em comparação com os factores capital e trabalho; em segundo lugar, o valor do prestígio político de qualquer país por causa das expansões territoriais perdera-se depois de 1945; e em último lugar, last but not least, o sacrifício valia bem a pena, quando o fito era tranquilizar a vizinhança, preocupada com a reunificação das duas repúblicas alemãs que, aliás, viria a ter lugar no final daquele ano.

A fotografia acima foi feita no extremo mais setentrional da fronteira em causa, mesmo junto ao mar Báltico, que aliás se vê ao fundo. Do lado direito pode identificar-se um poste pintado com as cores nacionais polacas (vermelho e branco) e do lado esquerdo um poste pintado com as cores alemãs (preto, vermelho e amarelo).

O HOMICIDA E O ABUSADOR

6 de Março de 1970. Charles Manson (1934-2017), então preso e a aguardar julgamento pela autoria moral de seis homicídios, lança o seu primeiro disco de rock psicadélico, com a intenção professa de financiar a sua defesa judicial. 7 de Março de 2020. Como se pode ler acima, os colaboradores de um grupo editorial que iria proximamente publicar a autobiografia de Woody Allen, fazem uma greve de protesto por causa das acusações de abuso sexual que incidiram sobre o autobiografado. Para quem não conheça o percurso psicopático de Charles Manson, pode ler o artigo a seu respeito na Wikipedia. Condenado a prisão perpétua, morreu na prisão. Com a associação que faço, não pretendo exonerar Woody Allen de responsabilidades. Mas vale a pena enfatizar que de um lado se trata de abusos sexuais e do outro de seis homicídios, sem que na editora discográfica os trabalhadores se tivessem incomodado com o facto (e feito greve). Alguma coisa terá mudado nos costumes nestes últimos cinquenta anos. E aparentemente, devíamos ficar satisfeitos com a evolução. Se tiver havido evolução, porque o disco de Manson continua à venda, e assim, os princípios invocados por quem quer boicotar o livro de Allen, parecem-me muito mais circunstanciais do que fundamentais...  

07 março 2020

ANTÓNIO JOSÉ TEIXEIRA E O LIMITE DE CHANDRASECKHAR

«...alguém vai “carregar” nas cores e, porventura, se não estamos suficientemente preparados e informados, vamos ser “inoculados” com o tal medo, com o tal pânico que é um inimigo bastante maior do que o novo coronavírus. E esse é o problema. Mas esse problema não tem solução. (...) apenas se vai tornar mais intenso. Portanto a questão que se coloca numa sociedade assim é que temos que actuar face àqueles que propagam o medo, o receio e o pânico, com informação. Informação válida, informação que dê segurança às pessoas, que lhes diga o que é que têm que fazer, lhes dêem também a noção relativa da ameaça. E, por exemplo, em relação a este covid-19 (...) a taxa de mortalidade que a OMS diz que este vírus tem é de 0,7%. Zero virgula sete por cento. E para termos ideia do que isto vale, a gripe sazonal, a gripe dita “normal”, tem uma taxa de mortalidade de 1%. É baixa, mas é ainda superior. São dados da Organização Mundial de Saúde.»

Interrompa-se a transcrição desta passagem da participação de António José Teixeira no programa semanal de comentário, o Contraditório. O programa pode ouvir-se aqui, na totalidade, e a passagem supra começa aos 23:20 mas o que é importante para a continuação deste meu comentário é reter o que ele disse sobre a qualidade da informação («válida», «que dê segurança às pessoas») e sobretudo os números que António José Teixeira citou sobre a taxa de mortalidade do «covid-19»: Zero virgula sete por cento.

E permitam-me mudar a conversa para um outro tópico. Um artigo publicado há três dias na revista Universe Today, onde se discute a descoberta a 150 anos-luz de distância de uma estrela anã-branca super-maciça, que, pelas características, os astrónomos julgam resultar da fusão progressiva de duas estrelas menores, ambas anãs brancas também. Até aqui, os astrofísicos consideravam que a partir de 1,4 massas solares, o destino de uma estrela seria o de explodir como uma supernova. Como se realça na passagem abaixo do artigo, esse limite pode ser questionado com esta descoberta. Não aparecendo citado no artigo, posso acrescentar que o tal limite se designa por Limite de Chandrasekhar, o nome do físico indiano que o deduziu matematicamente há 90 anos.
Há até uma história interessante e cheia de moral no fim a respeito das dificuldades da aceitação do trabalho de Chandrasekhar numa Inglaterra repleta de preconceitos, que é contada pelo livro abaixo. Mas, liguemos este assunto com aquele por onde começámos. E pela importância de que, quando se fala publicamente de um qualquer assunto é preciso ter tido uma formação propedêutica a respeito. Ter lido Empire of the Stars não me transforma num astrofísico, mas foi-me muito útil para perceber o enquadramento do que pode estar em questão com a WDJ0551+4135 (é o nome da estrela...). Isso - algum conhecimento consolidado sobre o assunto de que se vai falar em público - costuma ser particularmente útil em vários outros ramos do saber (as artes, o direito, a economia ou a história), mas torna-se indispensável quando se trata das ciências duras.

É por isso que, se pode dizer ironicamente e com toda a segurança, que jamais se correrá o risco de ver um qualquer jornalista a discutir física quântica. Há artigos na Wikipedia, mas o jornalista típico nem sabe o que há de fazer com uma matriz(!). Chegados aqui e às limitações da classe profissional que mais aparece em público a dizer coisas, regressemos então a António José Teixeira e ao que ele disse no Contraditório sobre a qualidade da informação («válida», «que dê segurança às pessoas») e as taxas de mortalidade que citou. Estão erradas. Mais, grosseiramente erradas. Pior, a informação que o desmente foi prestada pelo director-geral da Organização Mundial de Saúde num briefing com a comunicação social que teve lugar há quatro dias. Há lá uma passagem onde se pode ler: «Em termos globais, cerca de 3,4% dos casos notificados de COVID-19 faleceram. Em comparação, a gripe sazonal geralmente mata muito menos de 1% daqueles que são infectados*». Obviamente, António José Teixeira enganou-se. Enganou-se nos dados e enganou-se na conclusão. O COVID-19 é mais letal do que as gripes sazonais. Agora devia retractar-se. E ficar calado daqui para diante para que a qualidade da informação seja válida e dê segurança às pessoas. Ou então pode ir estudar. O Relvas foi estudar.
* Globally, about 3.4% of reported COVID-19 cases have died. By comparison, seasonal flu generally kills far fewer than 1% of those infected.

A CARPIDEIRA

Por muito interesse etnográfico que possa ter, a profissão de carpideira é coisa do passado. E, como acontece com as prostitutas, a nossa compreensão para com as profissionais (abaixo), não se estende às que o praticam (ao carpir público) como amadoras (acima). Ao contrário do que acontece com a profissional abaixo, que se terá mostrado inicialmente relutante para depois se entusiasmar, para a manifestação do nosso desconforto, nem será preciso questionar a veracidade dos sentimentos que são manifestados pela amadora (Paula Teixeira da Cruz) acima, admitemo-los genuínos. Mas, sendo genuínos, suponho que poderiam muito bem ter sido transmitidos directa e discretamente à família. O que não haveria necessidade era desta exuberante proclamação num jornal, num preito público que, pela redacção, parece descaradamente destinada a ser lida pelos terceiros e mais endereçado ao viúvo do que à defunta («Mas Laura e Pedro eram muito especiais.»). Ainda mais chocante do que passar-se por carpideira, é a Paula mostrar esta falta de jeito para esse papel.

CARREGAMENTO DE UM AUTOMÓVEL ELÉCTRICO EM 1919

Esta fotografia, originária dos Estados Unidos há cem anos, mostra-nos um automóvel eléctrico a ser recarregado. Trata-se de um Detroit Electric, um dos da dezena de milhar construídos na década de 1910-20. Tinha uma velocidade máxima de 30 km/h e uma autonomia de 130 km. A sua existência serve-nos de lembrete que durante as primeiras décadas da história do automóvel houve uma grande disputa e indecisão quanto ao processo ideal de motorização. Em 1900, nos Estados Unidos, 40% dos 4.200 veículos vendidos eram movidos a vapor (como os comboios), 38% eram-no a electricidade e só 22% é que usavam os motores de combustão interna que se vieram a impor posteriormente. Foram circunstâncias técnicas e económicas que vieram a fazer prevalecer os motores a gasolina (e gasóleo). O charme que tem presidido ao lançamento de viaturas eléctricas por quase todas as marcas automóveis no século XXI, esquece-se de mencionar o detalhe de que não se trata de uma tecnologia verdadeiramente nova; é apenas uma tecnologia que já havia sido explorada e descartada nos primórdios do desenvolvimento automóvel e que agora, por razões completamente outras - e que não são apenas as ambientais... - se pretende forçar o ritmo de desenvolvimento.

06 março 2020

SE «OS ÓCULOS» SÃO DE ANDRÉ VENTURA, QUEM É QUE FORNECE «AS ARMAÇÕES»?

Na edição de hoje do Público, aparece o artigo de opinião acima, assinado pela antiga directora do jornal, Bárbara Reis. Porque o conteúdo do mesmo é exclusivo para os assinantes, é preferível que eu o sintetize, deixando o benefício de poder ler o original para aqueles que sejam assinantes. Como se deixa antever pelo subtítulo, a estrela é o deputado do Chega, e a colunista dedica-se ao exercício de seleccionar um robusto conjunto de notícias da actualidade (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10) (11) (12) a que dá o mesmo género de tratamento tremendista que tanto popularizou André Ventura. A ironia subjacente é que os tópicos que foram escolhidos por Bárbara Reis são precisamente aqueles que André Ventura prefere nem lhes tocar: as podridões do futebol, nomeadamente as do Benfica, as broncas envolvendo despotismo e corrupção policial, ou então a corrupção de pequena escala nas autarquias (Ventura gosta de denunciar a GRANDE corrupção - com excepção da do Benfica, da qual não fala...).

A conclusão de Bárbara Reis é cristalina: o estilo - que ela designa por "enviesamento da negatividade" - é facílimo de copiar. Até este momento do texto, eu estava completamente de acordo com o que ia lendo. Só que depois, na identificação do elenco que o pratica, eu deixo de me sintonizar com Bárbara Reis. Até posso acompanhá-la na sua descrição, que vai de baixo para cima, do «tom usado e abusado» que se estende «dos taxistas até às elites», mas constato a ausência, contornante, de uma referência aos seus colegas jornalistas, tanto mais quando a sua demonstração se alicerça num encadeado de notícias que percebemos temperadas para desencadear o ultraje do leitor. Ou, pegando-lhe na metáfora, se «dos taxistas às elites» é comum que haja quem veja as coisas pelos «óculos de André Ventura», será Bárbara Reis capaz de me dizer quem serão os maiores responsáveis por fornecer as «armações» para tais «óculos»?

O GOVERNO QUE SUCEDEU AO GOVERNO DOS CINCO MINUTOS... E QUE DUROU QUARENTA E CINCO DIAS

6 de Março de 1920. Não sei se aqueles que acompanham as efemérides deste blogue ainda se lembram do centenário do governo dos cinco minutos, o governo que era para tomar posse mas nem chegou a isso. Foi a 15 de Janeiro, há pouco mais de mês e meio e, se levarmos em conta a semana que o governo seguinte tomou para se constituir (empossado 21 de Janeiro), a acção governativa do que lhe sucede terá durado precisamente os 45 dias. Encabeçado por Domingos Leite Pereira (acima), esse governo apresentava por sua vez a demissão há precisamente cem anos. Os sete anos e meio que vão mediar entre o fim da República Nova de Sidónio Pais (Dezembro de 1918) e a Ditadura Militar de Maio de 1926 (89 meses) vão assistir à formação de 27 governos, o que representa uma média de menos de três meses e meio de duração por governo.

05 março 2020

APRENDA A APROVEITAR-SE DA CRISE DO CORONAVÍRUS

Bebi logo duas este almoço. Para quem aprecia, informo que as cervejas mexicanas Corona estão em promoção, e a um preço muito atractivo. Imagine-se lá porquê... É por causa disto que me fica a sensação que uma parte da Humanidade nunca evoluiu substantivamente desde o Paleolítico: a ciência continua a ser um mistério. Apenas terão seguido as tendências da História. Agora, com a liberdade expressiva das redes sociais, percebe-se mais facilmente a distância que separa essa parte da Humanidade da outra, a que domina, por exemplo, o conceito de informação...

A AUTORIZAÇÃO PARA A EXECUÇÃO DO MASSACRE DE KATYN

5 de Março de 1940 (data que se pode notar assinalada a branco no documento acima: 5-III-40). Há precisamente oitenta anos Estaline recebia este memorando de Lavrentiy Beria em que este lhe propunha a eliminação de 25.700 «nacionalistas contra-revolucionários» polacos aprisionados pelos soviéticos por ocasião da «sua» invasão da Polónia (oriental). Os visados naquele documento, que eram apenas uma fracção dos mais de 300.000 prisioneiros polacos originalmente capturados pelos soviéticos, resultavam já de um processo de triagem executado nos meses anteriores pelo NKVD (a polícia política soviética) e representavam uma parte da elite - eram quase todos oficiais e eram quase todos os oficiais... - da sociedade polaca. Estaline apôs no documento os seus comentários, usando os lápis de cor de que tanto gostava, e o assunto foi a discussão no Politburo logo no mesmo dia: o selo da aprovação (e da co-responsabilização...) é compartilhado por Estaline com Kaganovich, Kalinin, Mikoyan, Molotov e Voroshilov. Os prisioneiros a liquidar estavam distribuídos por três campos mas será uma floresta junto a um deles que emprestará o seu nome a mais este crime da História: Katyn. As execuções iriam começar dali por um mês e prolongar-se-iam pelo mês seguinte, Abril e Maio de 1940. Por esta vez, e num registo irónico à terminologia que costumava ser empregue para o registo dos planos quinquenais, ainda bem que, neste caso, as quotas de produção não chegaram a ser atingidas. Ficaram-se apenas pelos 85% do objectivo (25.700) Mesmo assim, foram quase 22.000 mortos. E é um assunto que ainda hoje, oitenta anos passados, ensombra as relações entre a Polónia e a Rússia.

04 março 2020

O «BRAÇO DE FERRO»

4 de Março de 1980. Tendo tomado posse há cerca de dois meses, o governo da AD, o primeiro governo assumidamente de direita do regime democrático, confrontava-se num verdadeiro braço de ferro político com a esquerda, nomeadamente com os comunistas, que accionaram o seu braço sindical da CGTP para fomentar uma greve simultânea dos transportes públicos urbanos, e assim dar uma demonstração da sua capacidade para conseguir parar o país - em especial a área metropolitana da grande Lisboa. Escalpelizando os detalhes da situação, percebe-se que até poderia ter havido razões de índole verdadeiramente laboral para que os trabalhadores da Rodoviária Nacional recorressem à greve, assim como para que os maquinistas da CP fizessem o mesmo, mas, como se podia ouvir no noticiário da RTP desse dia, os restantes trabalhadores da CP, os da Carris, da Transtejo ou do Metro haviam aderido à paralisação por «solidariedade». A ideia era mesmo a de tentar bloquear os sítios nevrálgicos, para que tudo o resto ficasse bloqueado. Os jornais simpatizantes da causa desse dia, como o Diário de Lisboa acima, não eram propriamente um primor de objectividade. A maior ironia era o assunto aparecer numa página dedicada (supostamente...) ao trabalho, quando as greves eram descaradamente políticas! Do lado governamental, também os jornais mais à direita, como O Dia, A Tarde ou O Diabo, se puseram a desenvolver disparatadas teses conspiratórias, envolvendo conselheiros da revolução, o que provocou uma reacção irritada da presidência, no dia seguinte. Quanto às consequências concretas e visto à distância de quarenta anos, os portugueses desenrascaram-se como puderam, e o episódio terá tido um impacto mais político do que social, com as suas repercussões muito constrictas à capital. O PCP terá ficado agradado com os resultados e voltou a empregar o processo mais algumas vezes, chamando-lhes Greve Geral, mas as greves nunca foram realmente gerais - ao contrário do que aconteceu na Polónia comunista, quando foi paralisada pelo Solidariedade; Portugal era uma verdadeira Democracia e os governos sempre tinham legitimidade democrática, coisa que os comunistas nunca compreenderam (ou, pelo menos, não o compreenderam até 1989...).

03 março 2020

A PRÓXIMA DERROTA ANUNCIADA DOS ESTADOS UNIDOS

Com uma notável discrição política e mediática, os Estados Unidos assinaram em finais de Fevereiro um documento visando pôr fim ao seu engajamento de 18 anos no Afeganistão. Tais serão as cautelas na viabilidade do que foi assinado, que se foi muito cuidadoso no título escolhido: é um acordo, mas não de paz, antes para trazer a paz. Se calhar, ficamo-nos mesmo pelas intenções: dois dias depois da cerimónia da assinatura, o anúncio de uma facção dos taliban de que eles vão prosseguir com os seus ataques contra as forças governamentais (embora não contra as tropas americanas), arrisca-se a fazer descarrilar o comboio do que terá sido acordado e logo na primeira agulha. Mas não se tratará propriamente de uma novidade: as pantominas da diplomacia externa da administração americana sob Donald Trump tornaram-se numa «constante da vida» (para glosar os dois primeiros versos da «pedra filosofal»).

E contudo, a cena desta assinatura remete para outros tempos, quando os norte-americanos se davam a outros respeitos. Esta cerimónia de Doha induz a uma analogia quase imediata com um outro processo negocial em circunstâncias muito parecidas, Paris em 1973, quando eles estavam à procura de uma retirada honrosa do Vietname. Também naquela ocasião e apesar das aparências satisfeitas dos intervenientes, existia a sensação de que os Estados Unidos se haviam descartado completamente dos interesses daqueles que haviam sido até aí os seus aliados na região (o governo sul-vietnamita). O que eximia Kissinger (e Nixon) das criticas da derrota era o benefício da dúvida do que seria o futuro, dúvidas essas que, dois anos depois, vieram a ser esclarecidas... 47 anos depois e tomando em conta o precedente, já não há dúvidas: os Estados Unidos também perderam esta guerra no Afeganistão.

O objectivo proclamado dos taliban é, não apenas simples, como também o mesmo que fora quanto os soviéticos haviam ocupado o país em 1979: correr com as tropas estrangeiras. E é isso que eles parecem em vias de conseguir dentro de 14 meses. Quanto aos americanos, os seus objectivos no longínquo e já esquecido ano de 2001, eram os seguintes: a) derrotar os taliban: eles ainda ali estão; b) controlar os circuitos de produção e distribuição dos opiáceos que os sustentam: também parece ter falhado; c) criar um governo afegão alternativo, legítimo e eficaz: não parece que exista; d) criar forças armadas que o suportassem contra os taliban: se as houvesse, a retirada já se teria processado há muito tempo. Mas tudo isto é a irrelevante realidade afegã. O que é importante é considerar estes acontecimentos à luz da disputa eleitoral deste ano nos Estados Unidos: onde Donald Trump quer exibir a coisa que foi assinada como uma peça de campanha.

Não foi Donald Trump a começar o envolvimento dos Estados Unidos no Afeganistão. George W. Bush terá obedecido a um impulso de retaliar mas terá sido sobretudo a Barack Obama, que lhe sucedeu, que terá faltado a coragem política de assumir o fiasco em que esse envolvimento se tornara. E para este desfecho, os Estados Unidos também não se poderão queixar, nestes 18 anos, de falta de solidariedade dos seus aliados em geral, os da NATO em particular. Mas é à luz desta última realidade que vale a pena voltar a Donald Trump e às lições de moral como ele tem marcado as cimeiras da organização com as suas recriminações para que os seus aliados gastem mais com a defesa. Quanto a isso, e comparando com o resto do Mundo, há imensas maneiras de demonstrar que os Estados Unidos é que vão com o passo trocado na formatura. Há várias maneiras de o concluir a partir dos dados deste gráfico que se exibe abaixo:
Constata-se que: os Estados Unidos gastam quase 40% das despesas mundiais com a defesa. Que os seus gastos são o quádruplo do seu mais imediato rival, a China, e o décuplo do seu tradicional rival, a Rússia. Que aquilo que eles gastam com a defesa equivale em valor ao total dos gastos dos dez outros países que mais gastam com a defesa a seguir a si - dos quais sete são seus aliados desde há setenta anos. E no entanto, apesar de todos aqueles recursos pletóricos, o Estados Unidos preparam-se para assumir finalmente uma derrota político-militar num país que está situado num dos rincões mais remotos do Mundo e onde intervieram para dar satisfação a uma opinião pública que não sabia muito bem quem culpar pelo que acontecera em 11 de Setembro de 2001. Lá se comprova mais uma vez o ditado de que «o dinheiro não compra tudo e que nem tudo se compra com dinheiro».

02 março 2020

FINALMENTE! E, PARA COMPENSAR A ESPERA, FORAM LOGO DOIS CASOS EM VEZ DE UM...

Deve haver champanhe a correr nas redacções! E foi uma vitória do Nuorte, carago!

FOI HÁ QUATRO ANOS...

A política britânica é que é muito conhecida pelas atitudes de desafio como a acima protagonizada por Pedro Passos Coelho há precisamente quatro anos, contava então o governo da geringonça com uns escassos três meses de funções. Mas a diferença substancial que nos separa dos britânicos é que estes costumam cobrar estas proclamações: ainda recentemente (2015), um político britânico que prometera «comer o chapéu» se os resultados do seu partido fossem tão maus quanto as previsões, no dia seguinte foi confrontado na entrevista televisiva com um chapéu para comer (abaixo). Pela expressão do visado (Paddy Ashdown), vê-se o quanto o ridículo a que o protagonista se expõe costuma funcionar como dissuasor à proclamação fácil destas fanfarronadas. Em Portugal e a este respeito somos um país de enconados. Corre por aí a história de um senhor que se passeia sem ponta de vergonha (Vasco Rato) e que terá prometido que se despia, em pleno Rossio ao que parece, se se não encontrassem armas de destruição maciça no Iraque. Como se depreenderá, isto já foi há mais de quinze anos, não havia mesmo armas de destruição maciça e a caricata promessa continua por cumprir. A promessa acima de Pedro Passos Coelho só tem quatro anos (1 de Março de 2016) e não envolve gestos tão ousados quanto um strip tease, mas também continua por cumprir: não dei por ele a fazer campanha em Outubro passado. Não dei por ele a fazer campanha pelo PS, nem pelo PCP, nem pelo Bloco,... nem tão pouco pelo PSD.

A LIBERTAÇÃO DE PINOCHET

2 de Março de 2000. Chegava ao fim um dos mais embaraçantes processos de pedido de extradição da história diplomática mundial, o de Augusto Pinochet. Começara dezasseis meses e meio antes, quando as autoridades espanholas haviam solicitado às suas homólogas britânicas o pedido de extradição do antigo presidente chileno, que se encontrava em tratamento num hospital londrino. O autor do pedido fora um juiz espanhol sedento de publicidade e muito dado a gestos espectaculares chamado Baltazar Garzón. A causa por detrás do pedido: o destino - a presumível detenção e assassinato... - de vários cidadãos espanhóis durante a fase da repressão que se seguira ao famigerado golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 que levara o general Pinochet ao poder. Para que o caso viesse a ser apreciado em Espanha, as autoridades britânicas haviam cumprido a solicitação espanhola, detendo-o em 16 de Outubro de 1998, quando Pinochet se encontrava internado num hospital londrino, recuperando de uma cirurgia. A extradição de Augusto Pinochet para Espanha, a concretizar-se, iria violar normas consuetudinárias (mas não escritas...) entre os dirigentes políticos de todo o Mundo. Tradicionalmente, os antigos ditadores, quando se aposentam, costumam morrer descalços e livres, mas, mesmo mesmo quando isso não acontece, isso dever-se-á sempre à justiça do seu próprio país, neste caso a chilena. O caso do tribunal de Nuremberga depois da Segunda Guerra Mundial e o julgamento dos dignitários nazis havia sido apenas uma grande excepção a essa tradição implícita na relação entre nações.

O juiz espanhol estragara toda esta tradição. Seguiram-se mais de 500 dias de uma encenação que chegou a ser cómica de ridícula, em que, aos formalismos previstos para estas circunstâncias pelos aparelhos judiciais intervenientes, se contrapuseram os expedientes a que tiveram que recorrer os poderes políticos envolvidos para que Pinochet não fosse mesmo para Espanha. Pelo seu lado, se o Reino Unido não queria cumprir o mandato, também não queria aparecer conotado aos olhos das opiniões públicas (própria, espanhola e também e sobretudo chilena) como o facilitador que permitira a evasão do general. Por fim, lá se arranjou uma junta médica (britânica) que considerasse Augusto Pinochet como demasiado debilitado para enfrentar um julgamento, o que permitiu ao ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, ter o pretexto para o libertar por razões humanitárias, o que aconteceu há precisamente vinte anos. Fora engraçado enquanto durara e foi um momento simbólico de toda a história, mas não foi o seu fim. Quando, no dia seguinte, a comunicação social chilena se aprestou a cobrir a chegada do antigo presidente ao Chile em avião militar (vídeo acima), e se preparava para ver um Augusto Pinochet extremamente debilitado, conforme a narrativa que possibilitara a sua libertação, eis senão quando o visado dispensa a cadeira de rodas preparada para a encenação e se movimenta diante das câmaras com o à vontade que permitiriam os seus 84 anos(!). Parecia que, chegado ao Chile, já deixara de ser preciso fingir. Os anos que se seguirão demonstrar-lhe-ão que não era bem assim: Pinochet irá passar os seis anos restantes da sua vida (virá a falecer em 2006) sempre sob o crivo de encadeados processos judiciais chilenos (incluindo por enriquecimento ilícito).

O futuro também não se irá mostrar muito generoso para Baltazar Garzón: em 2012 ele foi expulso da magistratura pelo Supremo Tribunal, por ter recorrido a escutas ilegais das conversas entre presos e os seus advogados, quando de um processo que investigava. Mas que não restem dúvidas que todo o processo foi muito divertido enquanto durou: por quase ano e meio os poderes políticos estiveram presos às consequências da lógica da propaganda que lhes é conveniente e que tantas vezes se reveste de uma simplicidade maniqueísta. Se Augusto Pinochet havia sido aquele ditador chileno tão terrível, porque é que não o deixavam ser julgado por quem o queria julgar?... A resposta é: para que, daqui para amanhã, o Irão não se lembre de pedir uma ordem de extradição de um Donald Trump aposentado a um terceiro país.

01 março 2020

O «COLOON» DE FIM DE SEMANA

É sempre reconfortante visitar as páginas do jornal on-line ao fim de semana e encontrar boas notícias. Quer dizer, o que lá está escrito é aparentemente mau (Uma tempestade aproxima-se da Europa), mas o colunista em questão tem uma tal tradição de escrever asneiras e de se enganar rotundamente no que prevê que a reacção do leitor normal só pode ser a de ler o que lá aparece... e imaginar o contrário. No caso concreto, João Marques de Almeida acaba de prorrogar a presença de Angela Merkel à frente do governo alemão, ele que já há uns bons dois anos havia antecipado o fim da senhora (abaixo). Os jornais tradicionais caracterizavam-se pela publicação de cartoons - «desenho humorístico (...) de carácter extremamente crítico que retrata, muito sinteticamente, algo que envolve o dia a dia de uma sociedade». Creio que o Observador terá inovado ao conceber uma coisa parecida que designaremos por coloon. (palavra resultante da fusão de coluna de opinião e de cartoon) É o mesmo conceito humorístico do cartoon, mas não é desenhado, é antes redigido por um colunista e o efeito cómico resulta do facto do colunista sintetizar a sua opinião em títulos e subtítulos que se percebe estarem, ou se vêm a revelar, completamente errados. Como acontece com os cartoons, para os leitores que se afeiçoam ao estilo, percebe-se logo a piada, não vale a pena ler mais. Há vários opinion makers em Portugal que se especializaram nestes coloons, mas João Marques de Almeida, muito por causa do patrocínio que o Observador lhe tem dado desde que o jornal apareceu, é dos melhores. Portanto, e para regressarmos ao princípio, se ele antecipa que uma tempestade se aproxima, há razões para esperar que a evolução dos acontecimentos seja melhor do que se teme.

ELEIÇÃO DE UM PRESIDENTE QUE NÃO O CHEGOU A SER

1 de Março de 1930. Realizam-se eleições presidenciais no Brasil da qual sairá vencedor o candidato Júlio Prestes. Os resultados do escrutínio só serão anunciados oficialmente em 22 de Maio. Era a vitória do situacionismo: as oligarquias de dezassete estados brasileiros apoiaram a candidatura vencedora. Mas também era a ruptura de um acordo tácito, que fizera com que até aí na presidência se costumassem revezar um presidente mineiro com um presidente paulista, uma rotação que se convencionara designar pela política do café com leite. Mas sobretudo era a pretensão ingénua de que se manteria um ambiente de calma política, quando a Crise Económica Mundial de 1929 acabara de estalar: a posse do presidente eleito do Brasil só estava prevista para dali a oito meses e meio, em 15 de Novembro. Júlio Prestes até podia ter-se tornado numa figura em destaque, visitar Washington DC e o presidente norte-americano Herbert Hoover, apreciem-no até abaixo como capa da revista Time pela ocasião, em Junho de 1930. Mas não vai chegar a tomar posse como presidente. A Revolução de 1930, fomentada pelos derrotados desta eleição de há noventa anos, vai levá-los ao poder e a um novo regime no Brasil. Um novo regime em que a vontade daqueles que haviam depositado votos nas urnas iria contar ainda menos do que contara até aí. 

29 fevereiro 2020

A DEMOCRACIA PODE SER FODIDA

Esta é a capa de hoje da The EconomistPesadelo Americano. Mas o desenho, sendo muito inventivo, é falso. Os norte-americanos estão muito longe de ser aquele paciente atemorizado que se protege debaixo da almofada. Isso é o que os ideólogos por detrás da revista nos querem fazer crer. Se os dois candidatos presidenciais das eleições de Novembro próximo forem Bernie Sanders e Donald Trump (como a imagem sugere), a selecção terá resultado de processos democráticos, amplamente participados, de triagem dentro das duas grandes formações partidárias do sistema político norte-americano. Com eleitores activos e empenhados, não intimidados como o desenho sugere. Se o prolongado processo funcionou desde sempre, para grande orgulho da nação americana, e agora ele está a incomodar, preocupar e mesmo assustar o establishment (aqui protagonizado ironicamente por uma revista liberal, mas britânica - a The Economist), então é porque as causas para este output menos aceitável serão outras. Por detrás das selecções e das eleições radicais de protagonistas também radicais, o que se afigura mais plausível é que exista uma profunda insatisfação generalizada com a sociedade que se instituiu, resultante dos paradigmas (indisputados depois do fim da Guerra Fria) do liberalismo. O boneco da América devia estar levantado e com uns olhos irritados em vez de assustados, nestes tempos em que as vozes do povo, mesmo quando expressas em liberdade nas urnas, parecem ser um incómodo para quem se arroga o direito de deter o poder. Sobretudo porque essas vozes são quase sempre do contra. Em 2016 contra Hillary, elegendo Trump e agora em 2020, precisamente pela mesma lógica, antecipa-se um cenário em que, contra Trump, ser-se do contra é o mais poderoso argumento para eleger Sanders. Mas, insisto, os norte-americanos são colectivamente, os agentes dessa perspectiva política, não as suas vítimas, como o desenho acima pretende subtil e perniciosamente sugerir.


Nota: vale a pena ler o curioso artigo aparecido no princípio deste mês na revista Político (inglês), que postula que não existe essa coisa denominada por voto dos indecisos, pelo menos a indecisão de ir votar num ou no outro candidato. No que pode haver indecisão é entre as pessoas irem votar ou não. E um dos motores mais eficazes para motivar as pessoas a votar é o facto de detestarem o outro. Ao ler isto, dei-me a especular o quanto se poderia dever a este fenómeno o sucesso eleitoral inicial de José Sócrates. Em Fevereiro de 2005, creio que os portugueses não o conheceriam assim tão bem para lhe terem dado a maioria parlamentar que alcançou (era líder do PS há apenas cinco meses); agora o que os portugueses pensavam conhecer muito bem era a incompetência do seu rival Pedro Santana Lopes. Até foram votar mais 300 mil pessoas que nas duas eleições legislativas anteriores...  

CEM ANOS QUE SE PASSARAM E NÃO RESTA NADA

29 de Fevereiro de 1920. A Assembleia Nacional checoslovaca aprova a Constituição do novo país. A Checoslováquia irá ter uma história acidentada. Desaparecerá como país uma primeira vez em 1939, invadido, dividido e transformado num satélite alemão. Reaparecerá (aparentemente) autónomo em 1945. Tornar-se-á um país comunista e, submetido a essa realidade, adoptará depois mais duas constituições, uma em 1948 e outra em 1960. Em 1968, o país esteve nas bocas do mundo e por más razões, invadido pela Rússia. Com a queda do comunismo, o país dividiu-se em 1993. Uma lição da fragilidade da História: passaram-se cem anos e das esperanças que adivinhamos a estes senhores da fotografia acima, não resta nada.

28 fevereiro 2020

TRATAMENTO POR «ATACADO» DOS SUSPEITOS DO CORONAVÍRUS

Depois de terem compreendido que se haviam tornado ridículos pelos excessos noticiosos, os órgãos de comunicação social fizeram uma inflexão no formato como noticiam o aparecimento de mais casos suspeitos de coronavírus. Deixaram de trabalhar a retalho para passarem a ser grossistas, tratando o assunto da despistagem dos suspeitos por infecção por atacado. Como se depreende pelo título da notícia acima passou a haver sempre uma dúzia, dúzia e meia «à espera de análises», mesmo que com isso se perca a emoção da espera e o frenesim do desfecho: foi desta que apareceu o primeiro caso em Portugal! Não, não foi... Esse caso irá aparecer mas, por esta vez, tem a sua piada que a comunicação social tenha sido vítima de si mesma e dos próprios ritmos noticiosos que ela impõe para captar a atenção do público. A mesma notícia quando repetida no mesmo formato por mais de três dias ou sai de agenda ou torna-se objecto de chacota. Ou então tem que ser reformulada num design menos dramático, como aconteceu neste caso.

POR DETRÁS DO TÍTULO GARRAFAL COM A PALAVRA REFORMA AGRÁRIA

28 de Fevereiro de 1970. A realização de um colóquio no Instituto Superior de Agronomia tornava-se pretexto para que o Diário de Lisboa, navegando as correntes permissivas do marcelismo, destacasse em primeira página e em letras garrafais a expressão mais ou menos proibida de Reforma Agrária. O que se escrevia sobre o mencionado colóquio, sobretudo se aclarado pelo que hoje sabemos sobre os intervenientes, é digno de ser analisado, cinquenta anos depois. A mesa dos trabalhos era, como previsível, dominada por pessoas de esquerda. «A sessão, organizada pela Associação de Estudantes, foi presidida pelo professor Henrique de Barros» (que virá a ser deputado constituinte, eleito pelo PS e presidente da Assembleia Constituinte de 1975 a 1976), os dois conferencistas eram «o eng.º Carlos Silva, chefe do Departamento de Sociologia do Centro de Estudos de Economia Agrária, e o eng.º Blasco Hugo Fernandes, publicista.» (sobre o primeiro não encontrei referências on-line, mas sobre o segundo, o 25 de Abril virá a confirmá-lo como um poputchik* na órbita do PCP) A acrescer, «foi lido, por um membro da Associação, o texto de um autor cujo nome não foi divulgado». (prometia...)

A abrir a sessão, Henrique de Barros declarou «Pertenço ao número de professores que acreditam na utilidade das Associações de Estudantes, desde que sejam representativas.» O jornalista considerou a intervenção seguinte, do eng.º Carlos Silva, «burilada e extensa», lida «em tom monocórdico». A do eng.º Blasco Hugo Fernandes «recordou as noções de "modo de produção", "forças produtivas" e "relações de produção"». (ou seja, embora o jornalista não o tivesse escrito, a típica langue de bois marxista-leninista...) Mas estas terão sido apenas as actuações da primeira parte, antes da banda principal ir tocar. «A comunicação do autor anónimo tomou como ponto de partida a denúncia do conceito do desenvolvimento corrente em sociedades capitalistas.» E o jornalista que cobriu o colóquio chegou ao ponto de citar o anónimo em discurso directo: «É preciso eliminar qualquer ideia de reforma agrária que sirva a todos. Uma reforma serve sempre os interesses de uma classe.» E prosseguia num apanhado histórico de «várias experiências de reforma agrária - da hitleriana (?) e da mussoliniana (??) à cubana e à da República Democrática da Coreia (!!!)»**.  Depois «abordou o actual estado das relações (e das tensões) sociais no campo português.» E regressando ao discurso directo: «Em 59-61 apenas 25% do rendimento do sector agrícola foi afectado a salários: actualmente o rendimento do trabalhador agrícola é equivalente a 5,2 contos por ano». (e é este último número que é recuperado para o título da contracapa - acima, do lado direito - o que é notável se levarmos em conta que, se alguém o quisesse cientificamente contestar, o responsável pelo seu cálculo fora... um anónimo)

Mas o espectáculo não acabara. «Após as intervenções da mesa um grupo de estudantes pediu a palavra para, em tom antidiscursivo, contestar as comunicações apresentadas pelos eng.º Carlos Silva e Blasco Hugo. O prof. Henrique de Barros tentou moderar-lhes o ímpeto e o eng.º Blasco Hugo Fernandes designou-os por "jograis". Depois do incidente, o colóquio prosseguiu tal como tivera início, com pouco dinamismo e com muito formalismo». Ou seja, e se me é permitida a interpretação, a malta estava lá para fazer choldra e nem o gajo do PCP (ou sobretudo ele...) escapava. A esta distância percebe-se que a Associação de Estudante aproveitara e malbaratara a ocasião para um confronto ideológico entre a esquerda mais clássica e a extrema esquerda urbana maoista que então despontava. A propósito de maoismo, hoje sabemos - então não se sabia - que aqueles mesmos anos de 1959-61, citados na comunicação do anónimo, haviam sido a época de uma grande reforma nos campos na China... e de uma grande fome na China. São as ironias que estas evocações revelam...
* também designados pela expressão compagnon de route: individuo cujas simpatias políticas são consonantes com as do partido comunista, embora não seja militante.
** Os pontos de interrogação (?) servem para comentar o que não existiu, as reformas agrárias na Alemanha nazi e na Itália fascista; os pontos de exclamação (!) para comentar o que, existindo, nunca teve importância alguma, como sejam as reformas agrárias nas terras da dinastia dos Kim, a Coreia do Norte.