Já não há censura, mas os dias que correm são tempos em que há umas notícias que são mais iguais que outras (para parafrasear Orwell noutro contexto). Mesmo que as umas sejam o reverso das outras. Tome-se este bem recente exemplo, de como foi amplificadamente noticiada a ruptura dos grupos de saúde privados com o Estado, colocando-os a falar grosso e exigentes, e da discrição desta semana como foi noticiada a reversão da atitude desses mesmos grupos económicos. As três primeiras notícias versus as duas últimas, separadas apenas por um mês. Felizmente e no computo global, parece que se estará a caminho de um acordo mas, comprovadamente, saúde exclusivamente privada em Portugal, como actividade económica independente do Estado: esqueçam lá isso. Sem o Estado a bancar, os privados fecham as portas. O que a CUF e a Luz Saúde escusavam é de ter andado para aí, na comunicação social, armados em marialvas (com a cumplicidade do jornalismo do costume). Já que o óbvio é óbvio: «A ADSE tem uma grande arrogância na negociação»
16 março 2019
VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE QUANTO PARECEU IMPORTANTE O QUE AS AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO PENSAVAM DAS FINANÇAS PORTUGUESAS?
Ainda se lembra daquele período em que pareceu fundamental o que as agências de notação financeira pensavam das finanças públicas portuguesas? E de como o assunto era apresentado como se essa reputação se transferisse individualmente para todos e cada um de nós? A vergonha de sermos "lixo" parecia recair em todos e cada um de nós. Os gráficos a esse respeito evidenciavam o caminho da degradação (veja-se abaixo, a inclusão dos símbolos partidários do governo em funções à data da reclassificação foi um acrescento meu). E de como a mensagem que invariavelmente se lhe seguia era que apenas o bom comportamento preconizado pelas políticas de Vítor Gaspar era o caminho da salvação?
Ainda se lembra? Foi assim e, por sinal, a coisa até correu bastante mal para Passos Coelho porque Vítor Gaspar, apesar de incensado cá dentro e lá fora, se revelou um ministro assaz medíocre e a reacção das agências de rating não se quis adaptar às necessidades do ciclo político do PàF. O assunto acabou descartado do palco político e os gráficos prontamente esquecidos, já que iriam demonstrar um colossal fracasso. só mesmo eu para perversamente os ir actualizando, a mostrar aquilo que não era suposto mostrarem: que foi o nerd do Centeno a fazer aquilo que se esperava que o Gaspar, por ser nerd, fizesse. E é assim que, oito anos passados, um jornal simpático para Passos Coelho como o Observador (que, por sinal, aparecido apenas em 2014, ainda não existia nos anos mais rubros do "não há alternativa à austeridade"), de toda a forma um jornal da causa, se limita a subcontratar a agência Lusa para noticiar o que, noutras circunstâncias, seria noticiado como um espectacular salto de dois níveis no rating da dívida pública portuguesa.
QUANDO CUNHAL REGRESSAVA DE MOSCOVO PARA «PÔR FIM A UMA CERTA DESORIENTAÇÃO NO SEIO DO PCP»
Quinta-Feira, 16 de Março de 1989. Duas notícias distintas, respectivamente do noticiário nacional e internacional, publicadas no "seu" Diário de Lisboa, ajudam a recordar as desventuras por que então passavam os comunistas há trinta anos, enquanto o Muro de Convicções que haviam erigido à volta da sua argumentação se desmoronava com fragor. Em Moscovo, «o plenário do Comité Central do Partido Comunista Soviético» debatia «as propostas de Mikhail Gorbachev tendentes a vencer a escassez crónica de produtos alimentares» (afinal, havia-a, as filas não eram montagens fotográficas da propaganda capitalista...). Mais estranho, o camarada secretário-geral era citado empregando um slogan («devolver a terra a quem a trabalha») precisamente igual àquele que fora brandido em terras alentejanos na segunda metade da década de 70 pelo PCP, quando da sua tentativa de implementação de uma "reforma agrária" em tudo igual ao regime de propriedade da terra que vigorava na União Soviética, em que, só para lhe dar um colorido local, os Kolkhozes se denominavam UCPs. Regime esse que Gorbachev se propunha agora reformar, reformando a Reforma Agrária. Confuso. Nessa mesma edição do jornal, mas a dez páginas de distância, noticiava-se que o camarada Álvaro Cunhal regressava de Moscovo «para, finalmente, pôr fim a uma certa desorientação (natural, acrescentar-se-ia...) no seio do PCP.» Cunhal fora «passar férias» e «fazer exames médicos de rotina», sem que ninguém lhe perguntasse porque prescindira para isso do SNS português, que era (e continua a ser) na propaganda do PCP, «uma conquista de Abril». Outra incongruência da viagem de Cunhal fora a outorga de uma segunda condecoração soviética, a Ordem de Lenine. Incongruência, porque à época e mesmo depois, Cunhal recusara e continuaria a recusar a atribuição de qualquer condecoração portuguesa, quando sondado sucessivamente por Eanes, por Soares e por Sampaio. A modéstia não lhe terá permitido aceitar qualquer condecoração portuguesa, mas, saiba-se lá porquê, a Moscovo não conseguia dizer que não... Mas regressado curado e condecorado há precisamente trinta anos, o «revolucionário inflexível, verdadeiro patriota e internacionalista convicto» revelava-se indispensável para definir a atitude dos comunistas portugueses face ao vacilar dos dogmas de fé da ideologia deles.
Para o que interessa, a Reforma da Reforma Agrária na União Soviética veio a revelar-se aquilo a que em inglês se qualifica por "too little and too late". Mas essa é toda uma outra história...
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13 março 2019
AS MARCAS DO ACONTECIMENTO
Há fotografias que nos contam uma história. Dispensam legendas. Mas é preciso disposição e tempo para apreender a história que a imagem nos conta, por muito desagradável que a história nos pareça. Neste caso acima e para os que até agora não descortinaram o que os rastos na neve nos contam, um qualquer daqueles mamíferos pequenos, saltitante e fofinho por causa da pelagem de Inverno, foi atacado por uma grande ave de rapina. A comparação até pode ser forçada, mas lembrei-me dela depois de mais uma derrota do governo de Theresa May no parlamento britânico. Se o resultado do desfecho do referendo do Brexit parecia chocante, o comportamento das elites políticas britânicas para gerir posteriormente as consequências está a deixar uma marca indelével no solo...
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12 março 2019
AS VOLTAS QUE A EUROPA LEVOU EM VINTE ANOS
12 de Março de 1999. No Museu Harry S. Truman, no Missouri, tem lugar a cerimónia da adesão da Hungria, Polónia e República Checa à NATO. Na imagem acima, vemos a anfitriã, a então secretária de Estado Madeleine Albright (por sinal, nascida em Praga), a discursar perante os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países recém-admitidos, num momento que parecia de consagração para a ampliação da esfera de influência dos Estados Unidos na Europa. Vinte anos depois, aqueles mesmos três países estão considerados entre os mais mal comportados da Europa (veja-se o vídeo abaixo), sendo votados a um semi-ostracismo por causa do autoritarismo dos seus regimes e a mesma Madeleine Albright que lhes terá servido de madrinha escreve, não apenas a seu respeito, mas também por causa do que está a acontecer na Europa de Leste, um livro intitulado «Fascismo - Um Alerta». São só precisos vinte anos para que na Europa se tenha dado uma grande volta...
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A PRESSÃO DIPLOMÁTICA DOS ALIADOS SOBRE A NEUTRALIDADE IRLANDESA
12 de Março de 1944. Os jornais daquele dia davam conta da intensa manobra de pressão diplomática que estava a ser promovida pelos Estados Unidos (com a cumplicidade britânica...) para que a Irlanda abandonasse a sua neutralidade e rompesse as relações diplomáticas com os países do Eixo. Eamon de Valera, o primeiro-ministro irlandês, resistiu às pressões, e a Irlanda manteve-se neutral até ao final da Segunda Guerra Mundial. As cordialidade das relações americano-irlandesas atingiu um nadir. As antipatias de Washington pelos países que insistiam em permanecer neutrais, e que no caso dos dois países ibéricos eram justificadas pelo facto de se tratar de ditaduras, perdiam a máscara neste caso da Irlanda , já que esta tinha um governo democraticamente eleito e, por não fazer aquilo que os Estados Unidos desejavam que fizesse, não era melhor tratada por causa disso. A conduta de Franklin D. Roosevelt foi de verdadeiro bullying, mas hoje isso não interessa nada ser lembrado.
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11 março 2019
O GABINETE DE CERA DE MADAME TUSSAUD
Antiga de 51 anos e no francês original, uma história em BD sucinta sobre as origens do Museu de figuras de cera de Madame Tussaud e de como a arte de uma francesa alsaciana se veio a popularizar em Londres, antes de se espalhar daí para o resto do Mundo (excepto, curiosamente, a França...).
MAPAS MUNDO ÀS ESCALAS POPULACIONAL E ECONÓMICA
Neste redesenho geográfico, os países continuam a ser apresentados com o formato que lhes conhecemos, só que as dimensões estão ajustadas à escala demográfica da sua população. A Rússia e as suas regiões despovoadas da Sibéria fazem com que o país, imponente nas representações convencionais, neste formato quase passe desapercebido com apenas 1,9% da população mundial. Mas a Ásia continua a impor-se, só que neste caso por causa das populações chinesa e indiana. Uma outra forma de representar a importância relativa dos países do Mundo é repetir o exercício anterior só que, em vez das populações, se considera o peso das respectivas economias (abaixo). É qualquer dos casos, é toda uma outra geografia.
10 março 2019
SENHOR TARDÀ!... SENHOR TARDÀ...
Joan Tardà é um deputado catalão às Cortes espanholas, eleito desde 2004 nas listas da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha). E a notícia é que ele não tenciona voltar a apresentar-se às próximas eleições legislativas de 28 de Abril. O que é uma pena. Tardà é alguém que, como dizia o slogan de Fernando Pessoa, «primeiro estranha-se e depois se entranha». E que, como o chato que é, só pode ser devidamente apreciado no estrangeiro, a uma certa distância. Como professor de língua e literatura catalãs (profissão mais teórica que prática, já que tem dedicado a sua carreira à política), a atitude de Tardà, de defesa intransigente do seu idioma face à hegemonia do castelhano que o Estado espanhol impõe em todos os seus procedimentos, tem-no feito protagonista de inúmeros momentos mediáticos, começando quase sempre por se expressar em catalão e forçando as autoridades a chamar-lhe a atenção para o fazer mudar de idioma. Uma das ocasiões mais recentes em que isso aconteceu foi quando compareceu como testemunha no julgamento dos membros da Generalitat catalã que estão a ser julgados pela realização do referendo independentista de 1 de Outubro de 2017.
Os comentários recriminatórios que lhe são dirigidos (e que recuperei para título), tornaram-se assim uma imagem de marca de muitas aparições televisivas de Joan Tardà. Como diz o juiz presidente no vídeo acima (ao seu pedido para que responda às perguntas do Vox em catalão), «...não começámos bem...». Na verdade, com Tardà e a sua insistência em falar catalão e perante uma superestrutura organizada desde sempre para impor o idioma castelhano (a que se chama impropriamente espanhol), é garantido que, com ele, raramente se começa bem. Continua melhor mas, reconheça-se que, de uma certa forma, Joan Tardà continua a sua saga numa espécie de atitude de guerrilha, empregando um castelhano arrevesadíssimo, num país, aliás, onde a prática de assassinar um idioma à custa de um sotaque que o torne ininteligível é prática social aceite... com o inglês. Mais a sério, e ainda a pretexto da questão linguística, outros comentários de Tardà merecem verdadeira reflexão. Exemplo, um de 2009, em que comentava que o rei (na época, João Carlos) não sabia falar nem basco, nem catalão, nem galego, mesmo depois de mais de 30 anos de reinado. Para bom entendedor e descontados aquelas coreografias em que o monarca lê um discurso preparado de antemão num idioma alheio, a ausência de qualquer desmentido veemente da parte do palácio real tem um significado ribombante. Ou, como se perguntava o nacionalista Daniel Castelão (1886-1950), embora o fizesse a respeito do galego, «Com que direito é que se nos obriga a aprender a língua de Castela, sem que se obrigue os castelhanos a aprender também a nossa?...»
A atitude de Joan Tardà é mais inconveniente do que radical, como se percebe aliás, pelo atitude a respeito dos mais recentes desenvolvimentos políticos na Catalunha (acima). Por tudo isso, porque é um chato, mas também porque incomoda, porque é pertinente e ao mesmo tempo ponderado, a sua saída é uma perda para todos.
O CONFLITO CHECO ESLOVACO
10 de Março de 1939. A notícia que abalava a Europa há oitenta anos era a demissão do chefe de governo eslovaco, monsenhor Jozef Tiso (1887-1947), por parte do presidente checoslovaco Emil Hácha (1872-1945). O conflito civil checoslovaco, que viera a ser fomentado pela Alemanha, vai ser aproveitado por ela dali por uma semana, para estender a sua ocupação militar ao resto das províncias checas da Checoslováquia (Boémia e Morávia), enquanto a Eslováquia proclamava por seu lado a sua «independência».
Adolf Hitler ganhou esta jogada mas, a má fé de que deu mostras na forma como conduzira a questão, fez com que perdesse qualquer credibilidade diplomática com qualquer parceiro. Foi só em Março de 1939 que até os políticos mais crentes tiveram que se render à evidência que Adolf Hitler não era parceiro de se fiar. O pacto Germano Soviético que virá a ser assinado em Agosto de 1939 (para que a Alemanha possa atacar a Polónia à vontade) é tanto mais sórdido quando é assinado de má fé pelas duas partes: nem Stalin confia em Hitler, nem Hitler confia em Stalin; estão ambos a ganhar tempo: só que o calendário de Hitler se veio a revelar mais premente do que o de Stalin.
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09 março 2019
THE SHAGGS; POSSIVELMENTE O PIOR ÁLBUM DE ROCK DE SEMPRE
9 de Março de 1969. O conjunto rock The Shaggs inicia (e termina...) as suas sessões de gravação em estúdio daquele que vai ser o primeiro (e único...) trabalho. The Shaggs são uma banda de vanguarda, originária de Fremont, estado norte americano do New Hampshire (1.000 habitantes), sendo uma das suas particularidades o facto de ser totalmente feminina, composta por três irmãs, Dorothy ("Dot"), Betty e Helen Wiggin. Esta compilação de doze músicas que elas gravaram há precisamente 50 anos vai receber o título colectivo da primeira dessas músicas, Philosophy of the World. Para que o leitor possa apreciar o estilo das Shaggs coloquei o vídeo abaixo com essa música de abertura. Há também a possibilidade de apreciar o disco no seu conjunto.
Reconheça-se que, logo aos primeiros acordes(?), é fácil perceber as razões por que o disco não foi um sucesso musical na época. Nem depois, de resto. Pode dizer-se a seu respeito que é um estilo musical que levará a denominação rock-de-garagem(-que-nunca-devia-ter-saído-da-garagem) a novas fronteiras. Uma classificação de um crítico da Rolling Stone qualificou-o, em 1980, como o pior álbum de rock de sempre. Frank Zappa, Kurt Cobain e, provavelmente, Miguel Esteves Cardoso (caso tivesse sido convidado para criticar o disco), serão de opinião diferente, trata-se de uma sonoridade distinta. Desde há 50 anos que é possível dizer o que nos ocorre sobre cacofonias, é como o Conan Osíris e os telemóveis dele, só que sem coisas de metal penduradas na cara...
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08 março 2019
SIGLAS POLÍTICAS COM PESO HISTÓRICO: A AOC
A AOC (Aliança Operário Camponesa) foi uma organização política portuguesa que concorreu às eleições legislativas de 1976 e que se notabilizou, nessa época, por ter uma presença televisiva muito própria. Tanta e tão memorável, que a evoquei aqui no Herdeiro de Aécio vai para dez anos. A AOC e, especialmente, o seu inconfundível slogan eleitoral - CADA DEPUTADO ELEITO DA AOC SERÁ UMA ESPINHA CRAVADA NA GARGANTA DO CUNHAL - constituirá decerto um dos elementos do património imaterial do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) quando apresentarmos tal candidatura à UNESCO.
Compreenda-se agora a minha surpresa quando constatei que o mundo da comunicação social norte-americana está a recuperar precisamente esta mesma sigla AOC para designar a nova coqueluche da sua extrema esquerda parlamentar, Alexandria Ocasio-Cortez. Com aquela resistência tradicional a pronunciar fluentemente idiomas estrangeiros, a locução dos canais americanos conseguiu acordar tacitamente em passar a designá-la correntemente por AOC, para não tropeçarem nas armadilhas do castelhanismo do seu nome. (E que contraste com a desenvoltura como a senhora da AOC original (mais acima) se referia ao «... partido do Barreirinhas Cunhal...»! Se eles se queixam de Ocasio-Cortez, experimentem lá pôr um locutor americano a pronunciar Barreirinhas!)
Enfim, para o que interessa, existe uma nova AOC, desta vez nos Estados Unidos e é uma pena que a tradicional ignorância dos americanos acerca do que se passa no resto do Mundo, não lhes permita compreender a subtileza da piada de dizer que esta nova AOC bem pode ser considerada UMA ESPINHA CRAVADA NA GARGANTA DO TRUMP...
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07 março 2019
QUANDO O POVO SE AFIRMA, JÁ NÃO É PARA FAZER REVOLUÇÕES
Alguém me chamou a atenção para este vídeo, bem recente, da Porta dos Fundos. Desmanchamo-nos a rir com a cena. Muito bem montada, num ritmo crescente de acontecimentos cada vez mais disparatados, revela-se, numa primeira leitura, uma paródia à atitude patronal moderna de tentar enrolar os seus empregados, rebaptizando-os de colaboradores e complementado a cenografia (que tantas vezes se pretende substituta de remunerações mais adequadas...) por outras acessoriedades, como festas de empresa e iniciativas correlativas, uma apreciável parte delas denominadas em inglês, para lhes conferir mais seriedade (já ouviu falar, por exemplo, de team buildings?...). Pois bem, há um certo prazer perverso em ver a iniciativa de festejar o Carnaval na empresa, acolhida a princípio com tanta relutância, numa desbunda de que a hierarquia perdeu totalmente o controle. Funciona também como uma daquelas parábolas (bíblicas) dos tempos modernos, ensinando que não vale o risco de perguntar aos britânicos se eles querem sair da União Europeia, ou então apresentar candidatos como Trump ou Bolsonaro a eleições presidenciais...
06 março 2019
O «HOMEM FORTE» DA GUINÉ EQUATORIAL
6 de Março de 1969. Não se chegaram a completar cinco meses para que a recém independente Guiné Equatorial adquirisse um «homem forte»... e acessoriamente começasse a perder a quase totalidade dos quadros espanhóis que faziam funcionar a sua economia e administração. A causa prendia-se com a degradação das relações entre o novo país e a antiga potência colonial, a Espanha. A notícia do Diário de Lisboa de há 50 anos dá conta da situação mas, por censura ou por ignorância, o relato não explica verdadeiramente aquilo que está a acontecer no novo país (e que se pode ler wikipedia). Os espanhóis estavam a contar controlar o novo país mas Francisco Macias, o inesperado vencedor das eleições que haviam organizado não estava pelos ajustes. E, quando os espanhóis tentaram motivar os seus opositores locais a promover um golpe de força, Macias matou-os a todos sem contemplações. Espanha viu-se na situação ridícula de dispor da força militar para depor Francisco Macias, mas não existir nenhum protagonista político alternativo que, suportada por ela, encarnasse a ficção de um poder político guineense. Macias apelou para a ONU; os espanhóis não podiam tornar a recolonizar o país. Até ao final do mês de Abril, evacuados apressadamente em navios da Armada espanhola e noutros navios civis espanhóis que estivessem no Golfo da Guiné, serão 6.800 os residentes espanhóis (o que corresponderá a uns 2,5% da população), acompanhados de mais de 500 viaturas (uma substantiva percentagem do parque automóvel guineense), que irão abandonar a Guiné Equatorial. É um episódio desconhecido e não muito dignificante da História recente de Espanha, mas não só: como aconteceu em tantos outros países africanos, a Guiné Equatorial iria atravessar um período de retrocesso que lhe custaria décadas a recuperar.
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05 março 2019
OS VULCÕES DE IO
5 de Março de 1979. Na sua aproximação ao planeta Júpiter, e na sua passagem pelos quatro grandes satélites galileanos, a sonda Voyager 1 fornece as primeiras imagens de Io, o primeiro corpo celeste para além da Terra a dar mostras de uma actividade vulcânica pujante e mesmo recente. Na imagem acima podemos apreciar o mosaico de fotografias (montado) que foram tiradas quando a sonda passava a uma distância de 862.000 km de Io, mostrando aquilo que os cientistas descreveram à época como «a casa de uma laranja a apodrecer», uma superfície geologicamente infantil, onde não se consegue detectar qualquer vestígio de uma cratera de impacto que seja. Na análise complementar de outras fotografias tomadas quando desse trânsito, veio a identificar-se uma outra onde até aparecia um vulcão em erupção (abaixo, com o destaque).
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04 março 2019
AS TOMADAS DE POSSE DOS PRESIDENTES AMERICANOS ULYSSES S. GRANT E DE HERBERT HOOVER
Até 1933, 4 de Março foi a data tradicional para a tomada de posse dos presidentes norte americanos, vencedores das eleições realizadas em Novembro do ano anterior. Neste dia 4 de Março de 1869, há 150 anos, tomava posse Ulysses S. Grant (1822-1885), conforme se pode apreciar na fotografia acima, e, neste mesmo dia 4 de Março, mas de 1929, há 90 anos, o empossado era Herbert Hoover (1874-1964), conforme se pode ver nas imagens abaixo. Valha a verdade que, semelhantes apenas na forma, na substância as responsabilidades da América de Grant nada tinham de parecido com as muitíssimo superiores que se pediam a Hoover, e que a História e as circunstâncias, nomeadamente a eclosão da Grande Depressão, não se mostraram nada caridosas para com este último.
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03 março 2019
A GREVE GERAL EM BERLIM
3 de Março de 1919. Através do jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha) do KPD (Partido Comunista da Alemanha), em nome dos comités operários de Berlim, proclama-se a Greve Geral:
«Trabalhadores! Proletários! Mais uma vez chegou a Hora! Mais uma vez a Morte ameaça! O Governo "socialista" de Ebert-Scheidemann-Noske tornou-se no carrasco do Proletariado alemão... Em qualquer local que o proletariado controle, Noske envia os seus cães de fila. Berlim, Bremen, Wilhelmshaven, Cuxhaven, Gotha, Erfurt, Halle - essas são os pregos sangrentos da cruz na cruzada de Noske contra o Proletariado alemão. Milhares de irmãos estão a ser maltratados, jogados nas cadeias, assassinados - abatidos como se se tratasse de cães raivosos! Lembrem-se de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht. Os assassinos saem em liberdade protegidos por Ebert-Scheidemann-Noske enquanto os vossos camaradas apodrecem na prisão.
A Revolução só pode avançar passando por cima das sepulturas da maioria Social Democrata.
Pela Greve Geral!
Pela nova Luta Revolucionária!
Pela nova batalha contra os opressores!
Que cesse todo o trabalho! Permaneçam quietos nas fábricas. Não deixem que as tropas as ocupem. Reúnam-se em assembleias. Expliquem as coisas aos camaradas hesitantes ou derrotistas. Não se envolvam em tiroteios inúteis. Noske está apenas à espera disso para ter um pretexto para derramar mais sangue. Agrupem-se nos vossos locais de trabalhos, prontos para a acção às primeiras ordens.
A mais elevada disciplina!
A mais elevada discrição!
Uma Calma de Ferro!
Mas também uma Vontade de Ferro!
Trabalhadores! Proletários! O destino do Mundo está nas vossas mãos! Abaixo com Ebert, Scheidemann, Noske e todos os traidores e assassinos. Abaixo com a Assembleia Nacional (constituinte)! Para a Batalha! Para a Greve Geral!»
Apesar dos cem anos transcorridos, reconhece-se no texto a retórica comunista típica de sempre, mas sublinhei passagens significativas dos tempos que se viviam na Alemanha (não imagino Ana Avoila, por exemplo, a recomendar aos funcionários públicos portugueses que não se envolvam em tiroteios inúteis ...). Depois de uma primeira insurreição em Janeiro de 1919, lançada imediatamente antes das eleições para a Assembleia Constituinte, e que lhes haviam custado a vida aos seus dois dirigentes teóricos de maior envergadura (Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, expressamente mencionados no apelo acima), os comunistas alemães voltavam à carga com uma nova acção insurrecional, cujos contornos eles pretendiam limitar nas fronteiras para cá da violência armada, território que já haviam aprendido que lhes era desfavorável. Era ao governo - social democrata, frise-se, que os odiados Ebert, Scheidemann e Noske do editorial acima são todos políticos social democratas - era a esse governo (também de esquerda) que convinha precipitar os acontecimentos. E eles precipitaram-se dia 9 de Março, com o rumor de que uma das esquadras de polícia de Berlim havia sido assaltada pelos revolucionários, causando 70 mortos. Era um boato, mas era o boato necessário para que, mais do que o exército regular, os elementos paramilitares dos Freikorps (veteranos de guerra acabados de desmobilizar e que, vendo-se sem emprego, regressavam às fileiras) passassem ao ataque. Quando a situação foi dada como controlada, a 13 de Março de 1919, 1.200 a 1.500 pessoas haviam morrido e uma esmagadora maioria dos mortos havia resultado de execuções sumárias. Por exemplo, não é garantido que o prisioneiro da fotografia acima haja sobrevivido muito tempo depois dela. Estes são os episódios da Alemanha de há cem anos, vários anos antes da ascensão de Adolf Hitler ao poder. Quem os desconhece nunca compreenderá verdadeiramente como germinou a ascensão do nazismo, de que Hitler é apenas o expoente.
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02 março 2019
O COLINHO DE RUI TAVARES
Tem vezes em que vale a pena deixar repousar as nossas reacções mais imediatas, como se se tratasse de açúcar disperso em cima da salada de frutas, para que elas se transformem com o tempo numa calda açucarada que envolva o ridículo da situação inicial. Aqui há três semanas, entre as vozes que se fizeram ouvir comentando o despropósito da promoção dada à nova formação política de Pedro Santana Lopes contou-se a de Rui Tavares (acima). Ora, o colunista do Público conta-se entre aquela escassa meia dúzia - talvez - de políticos em Portugal que não tem moral nenhuma para falar do favorecimento de Pedro Santana Lopes, já que goza de um tratamento benigno similar na comunicação social. Foi só preciso escoar-se pouco mais de uma semana (dez dias) para o tornarmos a constatar, com uma promoção despropositada (feita no mesmo jornal onde escreve, o Público) à candidatura da sua pessoa às eleições europeias. As eleições primárias do Livre terão lugar amanhã e desafio o leitor a encontrar naquele e noutros jornais, artigos referentes a outras candidaturas concorrentes no Livre ou mesmo sequer a quaisquer outras prospectivas candidaturas às eleições europeias de outros partidos marginais. Porque, valha verdade, e quanto ao estatuto marginal do Livre (e, já agora da Aliança de Pedro Santana Lopes), a última sondagem que se acabou de publicar, dando um resultado irrisório à segunda formação (1,7% para a Aliança), humilha ainda mais o Livre, rebaixando-o à condição de irrelevante: nem aparece. Sendo assim, qual a relevância jornalística da candidatura de Rui Tavares à Europa que a distinga da do Ricardo Arroja ou do Tino de Rãs? É por Tavares ser um gajo porreiro? Eu também o acho porreiro. E então?...
A ELEIÇÃO DE PIO XII
2 de Março de 1939. Em três votações, que duraram dia e meio, o Cardeal Eugénio Pacelli (1876-1958) era eleito e proclamado como o novo Papa Pio XII. E dava-se a coincidência de, nesse mesmo dia, o eleito completar 63 anos. Foi o conclave - eleições para Papa - mais rápido do Século XX e, já escolhido como Secretário de Estado pelo seu antecessor, Pio XI, pode dizer-se que o novo Papa funcionara não apenas como anfitrião como, no processo eleitoral, jogara, por assim dizer, em casa... Daí a rapidez da decisão. Tempos longínquos aqueles de há oitenta anos, em que os assuntos da Igreja eram escusos (como haviam sido desde sempre), mas não envolviam a questão do encobrimento da pedofilia.
01 março 2019
EM JEITO DE INVOCAÇÃO DE ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO
Na cena invocada de Alien, o Oitavo Passageiro (1979), a fixação do ser à cara da vítima era algo de assustador. Hoje, olhando em volta, o susto é o facto de se tratar de um acto voluntário.
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