15 fevereiro 2019

AS CERIMÓNIAS DA RETIRADA DAS ÚLTIMAS TROPAS SOVIÉTICAS DO AFEGANISTÃO

15 de Fevereiro de 1989. Tinham lugar as cerimónias que assinalavam a retirada das últimas tropas soviéticas estacionadas no Afeganistão. Era um momento triste para o imperialismo russo/soviético mas isso não obstava a que esse momento fosse coreografado com o maior cuidado possível para que ele não parecesse aquilo que era: uma humilhante derrota, que replicava na simetria, aquela que os rivais norte-americanos haviam sofrido havia catorze anos no Vietname do Sul. Note-se, através das fotografias acima, o cuidado dedicado à cenografia, com as bandeiras desfraldadas, o cartaz afixado num dos arcos da ponte, destinado a ser lido pelas câmaras que recebem os veteranos e o enxame de fotógrafos e operadores de câmara que os acolhe do lado soviético da fronteira, cuidadosamente cortados da fotografia da esquerda.

Os canais das televisões dos Estados Unidos dão eco a todas essas cenas, incluindo o beijo e o ramo de flores do filho de 15 anos que acolheu o último comandante soviético, o general Boris Gromov (um general fotogénico, quase escolhido como se tivesse havido um casting, com apenas 45 anos...). A complacência dos norte-americanos em retransmitir tanta propaganda não escondia, porém, uma certa volúpia pelo significado do que transmitiam. Tanta (falsa) alegria não escondia o facto de que o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário não viviam os seus melhores dias. Eloquente quanto a isso, até no nosso conhecido Diário de Lisboa, o prognóstico que se dava quanto à sobrevivência a curto prazo do regime que os soviéticos haviam deixado em Cabul era muito reservado. Curiosamente, e numa última reviravolta dialéctica, esse regime vai iludir inimigos e aliados e subsistir por mais três anos.

A FRANÇA MOSTRA-SE IRRITADA COM A ATITUDE ALEMÃ

15 de Fevereiro de 1969. «A França, irritada por ser ignorada pelos associados no Mercado Comum, ameaça abandonar a União da Europa Ocidental, constituída por sete países e que liga a Grã-Bretanha e os «seis». A ameaça está expressa num comentário não oficial - mas, contudo, claro como cristal - feito a noite passada pela France-Presse.» Dois dias depois do apoio público dado pela Alemanha à candidatura britânica ao Mercado Comum, a reacção francesa de de Gaulle não podia ser mais clara. Contudo, o espavento da ameaça não camuflava o facto de, ao contrário de outras atitudes precedentes da França, como a saída da estrutura militar da NATO em 1966, a UEO ser uma organização irrelevante e, como tal, a ameaça da saída da França outra irrelevância.

14 fevereiro 2019

A BATALHA DE BEREZA KARTUSKA

14 de Fevereiro de 1919. Na pequena cidade de Biaroza (actualmente conta com 30.000 habitantes e situa-se na Bielorrússia ocidental) trava-se aquela que alguns autores consideram a primeira batalha de um conflito polaco-soviético que se irá prolongar pelos dois anos seguintes. Ficou conhecida com a designação da mesma povoação, mas em polaco: Bereza Kartuska. Tratou-se de um engajamento táctico menor: cerca de 60 polacos confrontaram-se com um destacamento soviético de efectivos um pouco superiores (80). Mas foram os polacos que venceram.
Em condições normais, o poder militar polaco não teria qualquer capacidade de se opor ao russo. Mas as condições de há cem anos estavam longe de ser normais. A Primeira Guerra Mundial acabara há três meses. E a Polónia reconstituída, reunindo territórios que haviam pertencido aos Impérios russo, alemão e austríaco, era um país apenas em nome, sem instituições nem fronteiras. As forças armadas vencedoras da batalha existiam mas ainda não possuíam sequer enquadramento legal, que apenas virá a ser aprovado pelo parlamento polaco (Sejm) dali a duas semanas, a 26 de Fevereiro de 1919.
Do lado dos russos, o regime era mais antigo mas nem tanto assim: a famosa revolução que levara os bolcheviques ao poder tivera lugar em Novembro de 1917, há apenas quinze meses. E a partir daí o poder soviético confrontara-se com uma guerra civil. Se os meios militares dos soviéticos eram muito superiores aos polacos, também é verdade que aqueles tinham que os dispersar por causa da multiplicidade dos seus inimigos. Se na Europa Ocidental já se negociavam os termos da Paz, do outro lado do continente, a sua instauração ainda iria demorar mais uns dois ou três anos...

13 fevereiro 2019

O «BENNY HILL» DA POLÍTICA PORTUGUESA

Benny Hill (1924-1992) foi um comediante britânico que protagonizou um show televisivo com o seu nome (The Benny Hill Show) que foi transmitido pela TV britânica ao longo de 20 anos, entre 1969 e 1989. Significativamente, o programa alcançou a sua maior audiência doméstica logo em 1971 quando registou uma assistência de 21,67 milhões de telespectadores! Depois disso, o programa passou a ser exportado, e tornou-se um sucesso mundial, transmitido em mais de cem países! Mas em todos eles - e o mesmo aconteceu em Portugal quando o programa cá foi transmitido - assistiu-se a uma rápida saturação da audiência pela repetição e previsibilidade dos gags. Assistir a três episódios era conhecê-los a todos, assistir a meia dúzia era a confirmação que o reportório se repetia com uma regularidade previsível (constate-se a enésima vez em que Benny Hill recorre ao gag da bicicleta que perde o selim antes do ciclista se sentar...). Havia uma esmagadora maioria das audiências televisivas que se saturava com as mesmas piadas, mas havia também uma minoria que lhe permanecia fiel precisamente por as piadas serem sempre as mesmas. Pois bem, descontando o sucesso internacional (que Santana Lopes não tem) e não se tratar aqui de comédia mas de coisa pretensamente séria, parece-me que acontece precisamente o mesmo fenómeno do Benny Hill Show com Santana Lopes. O homem, estando muito longe de se situar na vanguarda intelectual, é considerado como tendo sempre uma audiência televisiva cativa que gosta dos seus gags. Falta aferir aquilo em que o Benny Hill original nunca foi avaliado: será que isso se concretiza em votos?

HÁ CINQUENTA ANOS, A IDEIA ERA ACELERAR A ENTRADA DA GRÃ BRETANHA NA CEE...

13 de Fevereiro de 1969. «O primeiro-ministro britânico, Harold Wilson e o dr. Kurt Georg Kiesinger, o chanceler alemão ocidental, concluem hoje dois dias de conversações, tendo prometido um ao outro tentarem conseguir que a Grã-Bretanha entre o mais depressa possível para o Mercado Comum Europeu.» É impossível lermos esta notícia de há cinquenta anos sem esboçar um sorriso irónico: na situação que se vive, a modernidade consiste no gesto de Theresa May ir a Berlim pedir a Angela Merkel que a ajude a sair com alguma coisa de tangível na mão...

11 fevereiro 2019

A ASSINATURA DO TRATADO DE LATRÃO

11 de Fevereiro de 1929. Assinatura em Roma do Tratado de Latrão que regulariza as relações entre a Itália e a Santa Sé. A diplomacia do Vaticano, célebre pela sua paciência, já havia esperado 58 anos pela resolução da Questão Romana, mas apercebera-se que naquele caso o tempo não se apresentava, decididamente, a seu favor. A Pio IX, que em 1871 se recusara a reconhecer a perda da sua soberania temporal sobre Roma e as regiões históricas adjacentes do papado, haviam-se sucedido quatro outros papas (Leão XIII, Pio X, Bento XV e, agora, Pio XI) que se haviam obrigado a passar todo o seu pontificado encerrados no Vaticano. O Tratado que era então assinado (assinale-se, por curiosidade, que era véspera de Carnaval) juntava as assinaturas do Cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado (1º ministro) do Vaticano e do Duce Benito Mussolini, pelo lado italiano. Apesar do destaque que se pode apreciar abaixo (Portugal era um país católico, a resolução da questão era um facto importante), o acontecimento só foi noticiado em Portugal dois dias depois. As ULTIMAS NOTICIAS eram então uma realidade diferente...

10 fevereiro 2019

PRÓXIMO! (O JORNALISTA DESCARTÁVEL)

Esta semana António Costa deu uma entrevista à SIC. E o entrevistador foi José Gomes Ferreira, prosseguindo uma tradição a que aquela estação nos habituou. O problema para a SIC é que, como pode acontecer com os combates de boxe quando eles se repetem e com resultados consistentemente a favor de um dos contendores, o histórico dos matches anteriores afecta o interesse pelo embate (e o consequente volume das apostas... mas isso aqui não interessa nada). Quando apanhamos o primeiro ministro com aquela expressão falsamente simpática na imagem acima, está ele apenas a reavivar as cicatrizes que deixara no entrevistador em embates prévios:
- (...) mas, para já, fico muito satisfeito com uma coisa:
- O quê?
- Há três anos atrás, o que (o José Gomes Ferreira) anunciava é que vinha aí uma enorme tormenta, porque regressavam os terríveis socialistas, que iam fazer obras públicas ao disparate, iam arruinar e endividar o país, com as obras públicas todas... Vejo que agora, três anos depois, está bastante mais sereno, quanto a este receio...
- (falando por cima) Não estou, mas também estou a fazer eco de quem acha que não há obra...
- ...e pelo contrário, crítica a ausência de obra. Eu registo e fico satisfeito (...).
Veja-se a cena nesta ligação. A pergunta que aparece em rodapé, sobre os investimentos ferroviários, até parece assaz pertinente e a resposta não se afigurará fácil, só que o histórico do entrevistador a martelar gráficos e a arriscar-se a fazer profecias catastrofistas que depois não se concretizaram permitiram a António Costa deflectir o problema para o antagonista. Obviamente que o momento não se conta entre os sete momentos seleccionados pela SIC para destacar a entrevista concedida pelo primeiro ministro...
Este é o problema do jornalismo espectáculo praticado pelas televisões, em que o entrevistador se crê um parceiro em pé de igualdade com o entrevistado. É um estilo que nem sei se vingará a curto prazo como elas, televisões, pretenderão. Mas, no longo prazo, de forma geral, mas mais especificamente neste caso, e enquanto António Costa ocupar o cargo de primeiro ministro, a pessoa de José Gomes Ferreira como jornalista político tem tanta utilidade para a SIC como uma Gillette romba ou uma BIC sem tinta... O jornalismo espectáculo produz jornalistas descartáveis.

09 fevereiro 2019

O PRIMEIRO VOO DO BOEING 747

9 de Fevereiro de 1969. Tem lugar o primeiro voo do Boeing 747. Se em finais de Setembro do ano passado evocámos o cinquentenário da primeira exibição pública da aeronave, em cerimonia muito badalada, convém deixar claro com esta outra evocação, quatro meses passados, como as fases de lançamento de um modelo de avião comercial são ritualizadas e têm os seus ritmos, até ao momento em que o avião realiza pela primeira vez aquilo para que foi verdadeiramente concebido: voar... Como em tantas outras coisas na vida, nem sempre é o que é mais publicitado aquilo que contém mais significado. No caso do Boeing 747, seguir-se-iam vários meses de voos de teste e formação da tripulação, até à sua efectiva entrada ao serviço dali por quase um ano.

08 fevereiro 2019

A PROMOÇÃO DISPARATADA AO DISPARATE

A série televisiva M*A*S*H passou na nossa televisão vai para uns 40 anos. Como o filme original que a inspirara (MASH, de 1970) também ali a acção (num registo cómico e, ao mesmo tempo, irónico) se desenrolava num hospital de campanha norte-americano durante a Guerra da Coreia (1950-53). Já aqui mostrei no Herdeiro de Aécio que não era um grande admirador da série. Isso não impede que recorde, quando a propósito, algumas das cenas e personagens mais vincadas do filme e da série.
Na série, uma das personagens que mais dava nas vistas era o cabo Maxwell Klinger, que se notabilizava por aparecer vestido com roupas femininas. A intenção confessa do cabo Klinger era a de ser passado mais cedo à disponibilidade ao abrigo de uma cláusula aplicável a quem mostrasse desequilíbrios mentais. Como se adivinha, nunca teve essa sorte, e a piada do gag foi-se desgastando à medida que se repetia de episódio em episódio. Mas, mesmo cansada, a história ressurgiu-se-me por ocasião de uma polémica ontem noticiada pelo Jornal de Notícias.
Hoje tornou-se comum haver mulheres nas forças armadas. Mas que não se fardam como o cabo Klinger. Muito se terá evoluído em quarenta anos mas o Meridiano do bom senso não evoluiu tanto assim. E insolências atrevidas de alunos do 11º ano sempre as terá havido nesses quarenta anos. O que não tem sentido algum é que agora haja organizações políticas como o Bloco de Esquerda a dar-lhes uma seriedade e que haja órgãos de informação (porque injectados pelos partidos sem qualquer controle editorial) a facultar uma promoção disparatada ao disparate.

O PROGRAMA DO MARCELO

Nunca é demais frisar as vantagens da concorrência na TV: é por ela existir que aquilo que para uns era merecedor de ir para o lixo, é para outros merecedor de lhe continuar a ser dado utilidade. O programa Quadratura do Círculo, extinto na SIC, transitou para a TVI e passou a denominar-se Circulatura do Quadrado. Ontem foi a primeira emissão do velho formato no novo local e contou com a presença do presidente da República. Em suma, foi uma coisa completamente diferente: foi um programa do presidente da República... O presidente da República quando vai à TV é que não tem concorrência...

06 fevereiro 2019

CENAS DO OCASO DE UM DITADOR

5 de Fevereiro de 1969. Salazar abandonava a clínica onde estivera internado durante os últimos cinco meses. O velho ditador deixara de ser notícia. Só as edições mais tardias dos jornais daquele dia publicavam uma muito breve notícia a respeito do assunto. Apesar do antigo presidente regressar à sua residência oficial de São Bento, no entretanto, o poder e as consequentes disputas à sua volta haviam migrado para outro lado. A edição do dia seguinte dos jornais nada tinham a acrescentar à breve nota que se vê abaixo.

05 fevereiro 2019

A FOTOGRAFIA É UMA ARMA...

Há quarenta e tal anos, durante o PREC e ainda por uns tempos depois de ressaca, houve uma canção revolucionária que marcou a memória pela intensidade do refrão: A Cantiga é uma Arma. Hoje que se vivem os tempos da ressaca do PREC de direita, os revolucionários nostálgicos deste nosso século XXI, também têm uma Arma, só que agora se trata da Fotografia. Reflicta-se sobre esta fotografia de lançamento da campanha do CDS-PP às próximas eleições europeias: cria-se uma photo-op para que os fotógrafos da imprensa (as sombras no chão...) fotografem Assunção Cristas e Nuno Melo a autofotografarem-se diante de um grande cartaz dominado pela fotografia do cabeça de lista Nuno Melo. Onde os outros usavam (e abusavam) do som, hoje, com estes, parece cingir-se à imagem...

O CENTENÁRIO DA PRODUTORA UNITED ARTISTS


5 de Fevereiro de 1919 é considerada a data de fundação da United Artists, um dos grandes estúdios de cinema de Hollywood. A denominação - artistas unidos - foi-a buscar à composição inicial do capital social da empresa, detida em partes iguais pelos actores Charlie Chaplin (1889-1977), Douglas Fairbanks (1883-1939), Mary Pickford (1892-1979) e pelo realizador David Griffith (1875-1948). A ideia original da associação era associar os protagonistas da indústria cinematográfica para que eles fizessem frente ao poder crescente das grandes corporações cinematográficas. Não foi bem assim, mas a história destes cem anos é extensa e irrelevante para esta evocação. Para mim, na década de 80, a United Artists tinha este belíssimo logo que aparecia no princípio dos filmes que produzia.

04 fevereiro 2019

UMA CURIOSA OBSERVAÇÃO A RESPEITO DA VERSÃO DISPONIBILIZADA DA AUDITORIA À CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

Quando os documentos são censurados antes da sua disponibilização pública (vamos utilizar a expressão sanitizados, tradução directa da expressão em inglês), existem duas grandes escolas de apresentação do documento resultante. As que deixam as parcelas omitidas em tinta escura, realçando o que foi feito (acima à esquerda, no documento A), e as que procuram ser subtis nas consequências do que deixa de estar acessível do documento original (é o caso em B). Pode parecer uma questão meramente estética, mas a experiência demonstra que raramente o é. Os autores da tinta escura normalmente assumem o que fizeram e porque o fizeram, os da tinta clara costumam ser os sonsos. É por isso que, quando fui ver as páginas do relatório da Auditoria à Caixa Geral de Depósitos (esta abaixo é apenas a página 48 das 263 que o compõem), fiquei francamente desagradado mesmo ainda antes de deduzir aquilo que fora sanitizado. Para além da constatação que, mais do que os protagonistas, até os próprios números foram censurados, deu-me logo uma má ideia da atitude preocupada como o documento fora disponibilizado, e não deve ter sido preocupação com a poupança de toner no caso de vir a ser fotocopiado...

«PAPO SECO SEM MIOLO»

«...é como um papo seco sem miolo». Foi como ontem ouvi ser descrito um daqueles opinadores que povoam o nosso espaço mediático com redobrada insistência sem que, desde sempre, se descortinem as razões que o guindaram a tal estatuto e lá o perpetuam. Não apenas pela falta do miolo, mas também pela aparente robustez (mediática) da crosta, «papo seco sem miolo» é uma metáfora memorável, uma descrição estarrecedora, naquele caso, referindo-se a Daniel Oliveira, mas aplicável a uma espécie específica de pães ocos que pululam por aí, produzidos por um empresa de panificação que os protege e promove, sem que se percebam as razões para tal contínua aposta na falta de qualidade do pão.

03 fevereiro 2019

REFLEXÕES SOBRE FRASES CÉLEBRES LHANAS

Mesmo que Luís Montenegro tenha hipotecado as suas hipóteses de ascender no PSD com este seu desafio recente (e francamente prematuro) ao presidente em funções Rui Rio, creio que ele já havia conquistado o seu direito à notoriedade intelectual neste ciclo político por causa de uma frase sua de há cinco anos, pretendendo que a melhoria do país era uma realidade paralela à de quem nele vive - A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor. Nestes cinco anos o seu autor foi - merecidamente - gozado, mas sem que as críticas produzissem uma resposta simetricamente lhana que a refutasse, encaixando-se perfeitamente na sofisticação do debate político. Demorou cinco anos, mas encontrei hoje, e no jornal El País, na opinião de um senhor chamado Joaquín Estefanía (que nem sei quem é) aquilo que considero a mais feliz antítese à famosa tese montenegrina de 2014: Uma das razões pelas quais a gente percebe que está pior, ainda que o PIB cresça, é porque está pior. Não é elaborado, mas não foi de elaboração que andei à espera cinco anos...

A FOTOGRAFIA QUE TORNOU DENG XIAOPING SIMPÁTICO AOS AMERICANOS

A aliança entre os Estados Unidos e a China, que fora forjada pela tão gabada quando inesperada visita de Nixon à China em Fevereiro de 1972, só veio a ser completamente incorporada pela opinião pública norte-americana sete anos depois, já Nixon caíra em completa desgraça e Mao morrera. Para isso foi indispensável uma viagem do sucessor deste último, Deng Xiaoping, aos Estados Unidos e umas imagens fortes de propaganda como esta acima, do pequeno líder chinês de chapéu de cowboy na cabeça, uma oferta quando da sua visita a Houston no Texas. Comprovativo do sucesso da operação mediática então lançada a forma despeitada como o acompanhamento da visita era registado na edição de há quarenta anos de um jornal português (Diário de Lisboa) cujas simpatias eram indisputavelmente pró-soviéticas (sublinhado abaixo, do lado direito - Deng Xiaoping no país da coca cola). Aliás, não seria coincidência a oportunidade como, na mesma página, o mesmo jornal fazia questão de recordar como o combate político ainda não se encerrara na cúpula do partido comunista chinês, ao destacar o episódio da autocrítica de Hua Guofeng. (Hoje já ninguém sabe quem foi Hua Guofeng, embora o Herdeiro de Aécio ajude...) Mas deixei a verdadeira nota irónica para o fim: se a fotografia de Deng pretendia induzir na percepção da opinião pública dos Estados Unidos uma afinidade para com os valores do oeste americano, a Verdade é que era o seu grande rival Leonid Brejnev quem possuía genuinamente (quase de forma infantil) essa afinidade com o Oeste, como já tive oportunidade de lembrar aqui no Herdeiro de Aécio. Mas, como não me canso de repetir e demonstrar, a propaganda política só se socorre da verdade quando ela lhe é conveniente.

02 fevereiro 2019

UM LENINE MODERNO, MAIS A GOSTO DOS BLOQUISTAS?

Faz hoje precisamente uma semana que José Pacheco Pereira escreveu um artigo a que deu o título «A esquerda "identitária" (ou seja, o Bloco) diz adeus a Marx». «Resumindo de forma simplificada: a nação não conta, a religião não conta, a origem social não conta, a condição social não conta, a classe social conta cada vez menos, mas a raça, a cor, o sexo e o género contam muito, quase tudo.» E, vai daí, o (nosso) célebre barbudo (José Pacheco Pereira) virou 180º a fotografia do (internacionalmente consagrado) célebre barbudo (o original: Karl Marx). O que está incorrecto. No Bloco não haverá densidade teórica para se lerem os clássicos do século XIX e debater com o autor de As lutas operárias contra a carestia de vida em Portugal, mas há decerto a sensibilidade estética para se acautelarem as imagens icónicas do século XX. E, em vez de se inverter uma imagem de Marx, perguntamo-nos se no Bloco não preferem ver a coisa de forma mais progressista: que tal montar uma imagem de Lenin mais acomodatícia com a narrativa bloquista a respeito dos acontecimentos do bairro da Jamaica? (acima) Ou contribuir com uma nova linha de roupa para o esclarecimento do proletariado sobre o quem é quem na esquerda? (abaixo)

01 fevereiro 2019

COMO DAVOS - E A PACIÊNCIA COM A EVASÃO FISCAL DOS MULTIMILIONÁRIOS - PARECEM ESTAR A SAIR DE MODA...


Sem a presença de Trump, May, Macron o Forum de Davos deste ano parecia fadado a juntar-se sem nota relevante ao merecido esquecimento dos fóruns dos anos antecedentes, não tivesse havido esta intervenção acima de um historiador holandês desconhecido de 30 anos chamado Rutger Bregman, que, novato naquelas andanças, resolveu estragar a coreografia e dizer o que pensava verdadeiramente. Como se pode ler no artigo do The Guardian que o entrevista:
 
«I more or less ignored the question asked by the moderator and gave my speech instead. It was mainly to ease my own conscience: someone has to say what needs to be said. (...) nobody raises the issue of tax avoidance and the rich not paying their share. It is like going to a firefighters’ conference and not talking about water
 
Perdida entre milhares de intervenções, esta em particular, ocorrida nos primeiros dois minutos de um painel sobre a desigualdade que fora organizado pela revista Time, e deverá à linguagem vívida do orador («stupid philanthropy schemes») e ao acolhimento das redes sociais a sua posterior popularidade inconveniente. Como aconteceu anteriormente com outros protagonistas de outras iconoclastias (Tobin, Piketty), arrisco-me a antecipar que o momento o irá catapultar para famas que durarão mais de quinze minutos. Só que, depois, não acontece nada. Quanto aos leitores que prefiram a versão traduzida da intervenção (e a correspondente cobertura do acontecimento...) sugiro-lhes que esperem pela do Observador... Fazem-no com o entusiasmo de quem mastiga um sapo, mas, mesmo a respeito destes assuntos, eles obrigam-se aos serviços mínimos...

DA SÉRIE «PROMESSAS SOLENES QUE SE FAZEM QUANDO DOS TEMPOS DE ANTENA»...

...e que depois nunca são escrutinadas, a não ser que os seus rivais políticos directos queiram derrubar aqueles que as fizeram. Na perspectiva dominante do tandem existente entre política e jornalismo, a pergunta óbvia aqui seria: porque é que valeria a pena estar ainda a embirrar com Maria Luís Albuquerque, quando ela já há tanto tempo deixou de ser ministra das Finanças e nem perspectivas terá de ascender a breve prazo dentro do PSD? Ou seja, a ideia prevalecente é que a crítica política não é para ter ética, apenas se compreende à luz da sua oportunidade e funcionalidade, e isso mesmo que os motivos invocados sejam éticos. Entendamo-nos: o problema aqui não é de Maria Luís Albuquerque, que até poderia ter as razões mais aceitáveis para não estar presente naquelas sessões da Assembleia Municipal, a questão é porque é que nenhum jornalista lho quis perguntar, tendo em atenção especialmente as promessas eleitorais que ela fizera na campanha...