11 fevereiro 2009

ROCK SPAGHETTI: BLACK IS BLACK

Uma das grandes injustiças do mundo do cinema é a designação de Western Spaghetti. Os italianos apropriaram-se da designação, parecem ser os verdadeiros e únicos autores do género, mas a verdade é que a esmagadora maioria daqueles filmes que se vieram a popularizar ao longo dos anos sessenta foram rodados em Espanha e com uma contribuição maioritária de espanhóis. Foi precisamente para ironizar com essa tremenda injustiça que resolvi classificar de Rock Spaghetti a música de um conjunto espanhol chamado Los Bravos.
Assim como os filmes de Western Spaghetti vieram a receber reconhecimento no país que fora o criador original do género Western, os Estados Unidos, também os Los Bravos cometeram a proeza de editar um êxito musical no Verão de 1966 que chegou ao segundo lugar nas tabelas de vendas do Reino Unido e ao quarto lugar na dos Estados Unidos, os dois países pioneiros do Rock´n´Roll. Chamava-se Black is Black e terá sido muito importante para o sucesso o facto do vocalista ser o único membro da banda que não era espanhol

10 fevereiro 2009

F – 117 O FIASCO FURTIVO

Uma produção típica da Guerra-Fria, o F – 117 foi o resultado de um daqueles programas ultra-secretos dos Estados Unidos, cujo objectivo foi o de criar um avião de caça furtivo que, atacando de noite, fosse praticamente impossível de ser detectado pelos radares inimigos. Para o construir, recorreu-se a uma tecnologia que estava então (anos 70) em fase embrionária e que permitia absorver as ondas de radar. O resultado foi o avião que se pode aqui ver, de uma cor preta discreta e um aspecto bizarro.
A contrapartida a pagar pelo resultado eram, não só custos proibitivos de produção (*), como uma enorme lista de limitações para que o F – 117 mantivesse a capacidade de não ser visto pelos radares inimigos: por um lado, não podia atingir grandes velocidades (no máximo 1.000 km/h) mas era extremamente instável quando em baixas; não podia possuir um radar próprio para localizar os alvos senão seria imediatamente identificado, etc. Terá sido por isso que permaneceu um projecto secreto?…
Entre 1983 e 1988 a USAF entregou-se a um interessante jogo, negando a existência de um avião com tais características, excitando a curiosidade pública. Quando foi utilizado pela primeira vez em operações durante a Guerra do Golfo (1991) e, como costuma acontecer quando há um filho deficiente na família, foi dado um destaque desmesurado às proezas realizadas pelos F – 117 (normalmente bombardeamento de alvos) quando em comparação com o desempenho dos outros tipos de aeronaves norte-americanas.
As suas insuficiências só vieram ao de cima quando pela primeira vez teve que enfrentar um inimigo que, para além de equipado, era também qualificado: o exército jugoslavo (1999). É que experimentalmente os jugoslavos vieram a descobrir que usando os seus sistemas de radares soviéticos mesmo obsoletos em comprimentos de onda extra-longos conseguiam detectar a localização do tal avião que fora concebido para não ser detectado… E o F – 117 nem sequer fora concebido para detectar que fora detectado…
Houve apenas um F – 117 a ser abatido sobre a Jugoslávia em Março de 1999. Foi-o até por um míssil terra-ar SA-3 de concepção soviética (acima), um venerável sistema de armamento originalmente concebido em 1963… Mas esse abate bastou para ser o fim de um enorme bluff concebido pela USAF, embora a retirada dos F – 117 do serviço activo se tenha processado com a mesma panache que acompanhara a sua introdução: apenas em Abril de 2008 é que isso finalmente aconteceu (**)...

(*) Cada F - 117 teve um custo de produção unitário três vezes superior ao de um F-16, um outro avião de caça norte-americano seu contemporâneo, que ainda é hoje utilizado pela Força Aérea Portuguesa e pela maioria das Forças Aéreas da NATO.
(**) Enquanto o F - 117 (1983) saía de serviço, outros aparelhos de caça mais antigos continuam ao serviço da USAF, como são os casos do F-15 (1976) ou do F-16 (1978).

A VIDA PRIVADA DE SALAZAR OU SALAZAR O PUTANHEIRO?

Ele há coisas que são irónicas… Tendo-o feito de forma ribombante, já me esqueci quem terá sido o Historiador (*) de entre os nomes consagrados que emprestou o seu nome ao lançamento há uns anos de uma nova História de Portugal que prometia ser verdadeiramente inovadora: até defendia uma tese que adicionava mais uma dinastia às tradicionais quatro da historiografia tradicional portuguesa!...
Desvendado o segredo, afinal tudo se resumia à decomposição da Primeira Dinastia em duas, uma com os quatro primeiros reis e outra que começava com Afonso III (1248), no seguimento da Guerra Civil que afastara o irmão (Sancho II) do trono. A reacção maioritária a esta descoberta pode ser sintetizada numa expressão que a minha avó muito gostava de empregar especificamente para estas ocasiões: Olha, vai-te catar!
Esta promoção canhestra parece assemelhar-se, em erudito, à promoção popular promovida pela SIC à sua série A Vida Privada de Salazar. O Diário de Notícias de Domingo dava-lhe um destaque de primeira página central (acima) assim como à descoberta que Salazar caiu na banheira e não da cadeira, o que prometia um belo pretexto para uma cena com um velho em pelota a dar um estoiro numa daquelas banheiras esmaltadas…
Quanto ao conteúdo da série, o mesmo jornal na sua edição de hoje, serve-se da opinião de Irene Pimentel para a arrasar. Subscrevo quase tudo o que lá está escrito, mas o que mais aborrece é a atitude hipócrita de quem está associado à produção de séries deste estilo, que mais não procuram que realçar a faceta escabrosa daquilo que se trata. O produto final não teria tido muito mais eficácia se o tivessem baptizado logo de Salazar, o Putanheiro?

(*) Creio, mas não posso jurar, que o autor em questão terá sido José Mattoso.

09 fevereiro 2009

TANTA INOCÊNCIA…

O filme The Party (1968) tem um momento musical em que uma das convidadas da festa (a actriz e cantora Claudine Longet) interpreta uma canção íntima e doce (Nothing to Lose) para os convidados da festa enquanto um deles (Peter Sellers) se contorce numa esquina, incapaz de cometer a indelicadeza de se ausentar durante a interpretação, embora esteja aflitíssimo para ir à casa de banho…
A cena vive tanto das exibições histriónicas de Sellers (que no filme faz de um indiano convidado por engano para aquela festa) como do aspecto inocente da intérprete da canção… O paradoxo da cena é que a mesma pessoa (Claudine Longet) viria alguns anos mais tarde a ser acusada de ter morto o namorado a tiro (abaixo), tendo conseguido aliviar a sentença alegando que a arma se disparara acidentalmente
Moral da história: não se avaliem as pessoas apenas pela aparência... É uma ideia que, descontados os efeitos cómicos, também se aplica ao poste imediatamente abaixo, embora não seja minha intenção sugerir que Joana Amaral Dias é uma potencial assassina...

A MARCHA VIRTUAL

Torna-se impossível resistir à ironia bem-humorada do Abaixo-Assinado a pedir para que Salvem a Joana Amaral Dias. Há nele pormenores com que não concordo, a começar pelo destinatário do pedido, que não devia ser um abstracto Bloco de Esquerda, antes os membros concretos da direcção do partido, a começar por Francisco Louçã. Mas a ideia de denunciar as sanções disciplinares internas da sua última Convenção recorrendo a uma daquelas iniciativas virtuais, muito moderna, muito esquerda caviar, é particular feliz… Afinal, devemos ser muitos os que julgamos que a Joana Amaral Dias é mais importante que as baleias…

08 fevereiro 2009

DE CABEÇA E SEM CABEÇA

Luís Figo voltou aos golos, o que não acontecia há mais de um ano e quatro meses. O internacional português, já com 36 anos marcou o segundo golo da vitória do Inter de José Mourinho sobre o Lecce (3-0). Ainda por cima de cabeça, uma raridade na carreira do médio, contribuindo para o dilatar da vantagem do actual líder do campeonato italiano no topo da tabela. J.M.M.

(Transcrito da coluna do Sobe e Desce do Público de hoje (8/2/09) – Luís Figo tem uma seta indicativa de quem sobe).

É sempre ingrato sustentar com profundidade uma opinião quando se está limitado a uma meia dúzia de frases. Mas esse problema dificilmente se aplica aqui, porque essa meia dúzia serviu para dizer que Figo marcou um golo (que é o que se espera de um jogador de futebol…), que não tem marcado muitos (o que já é pior…), que esse golo não foi decisivo para o resultado final (foi o segundo golo numa vitória de 3-0) e que foi marcado de cabeça, pelos vistos uma coisa rara na carreira do jogador (e daí?...).

Se Luís Figo se mostrou pontualmente habilidoso no emprego da sua cabeça, a atitude podia ter servido de inspiração para J.M.M., o autor do texto acima, que podia também ter empregue mais adequadamente a sua cabeça (especialmente o interior) para sustentar com propriedade as razões que merecessem (se merecerem) dar assim um destaque tão grande ao veterano português… A.T.

SÃO MARTINHO

Recordo dos Compêndios de Geografia que as Antilhas de dividem entre as Grandes e as Pequenas Antilhas (no mapa acima). Estas últimas são ilhas de pequenas dimensões e compartilham uma história comum, tendo quase todas sido descobertas durante as viagens de Cristóvão Colombo (aliás, a maioria delas foram baptizadas com nomes de santos), a que se seguiu a chegada dos europeus, a extinção das populações originais, o povoamento com uma elite de origem europeia e uma massa de escravos africanos dedicados a uma economia de plantação da cana de açúcar.
Originalmente todas espanholas, a maioria das ilhas vieram a trocar violentamente de proprietário posteriormente, algumas até por várias vezes, e hoje, para além das que entretanto se tornaram independentes, ainda há ali ilhas que são dependências do Reino Unido, da França, dos Estados Unidos e dos Países Baixos. Mas, mais do que contar as histórias que foram a regra das disputas violentas entre armadas ao longo dos Séculos XVII e XVIII, pretende-se contar aqui a de uma ilha (a Noroeste no mapa acima), em que essas disputas foram resolvidas de uma forma pacífica quase desde o princípio.
É isso que faz com que a pequena ilha de São Martinho, com 87 km², quase dez vezes mais pequena que a da Madeira, seja uma anomalia política do mundo moderno: trata-se do mais pequeno território contíguo habitado que está submetido a duas soberanias distintas. Há assim uma possessão holandesa chamada Sint Maarten, com 37.600 habitantes e 34 km², que tem uma fronteira a norte com a extensão de 10,2 km com uma outra possessão, essa francesa, que se chama Saint-Martin e que possui 53 km² e 35.300 habitantes. E isso acontece depois de um Tratado que foi assinado em 1648...
Como acontecia outrora com a produção de açúcar, todas as Antilhas continuam a concorrer entre si, embora agora seja como destinos turísticos para europeus e norte-americanos. Mas todas as ilhas acabam por oferecer essencialmente mais ou menos a mesma coisa como programa de férias e qualquer detalhe que sirva para as distinguir da concorrência é explorado até à exaustão. E o pormenor que distingue São Martinho das outras ilhas adjacentes é, no mínimo, bizarro: é o seu aeroporto. Situado no lado holandês (acima, a Sudoeste) da ilha, as suas pistas estendem-se até à beira da praia…
Para os entusiastas que gostam de fotografar e filmar de perto as chegadas e partidas dos aviões, a praia de Maho, que se situa precisamente no enfiamento da pista do aeroporto tornou-se num local de referência mundial. Para quem aprecie, juntei ao poste o vídeo de uma aterragem de um Boeing 747 da KLM holandesa e também outro do princípio de uma descolagem de outro Boeing 747 mas da Air France, porque, embora os franceses possuam um aeroporto bastante mais pequeno na metade norte da ilha, também neste aspecto a colaboração entre as duas potências coloniais parece ser a regra…

07 fevereiro 2009

EM PLAY-BACK (PUM-PUM), EM PLAY-BACK (PUM-PUM), EM PLAY-BAAAACK!!!

Corria o ano de 1981 quando o Festival RTP foi ganho por uma canção cantada por Carlos Paião que se intitulada Play-Back (acima). O tema da canção era, como o título indica, o play-back (a prática de fingir que se está a cantar em palco enquanto o que se ouve é uma gravação) e a letra, apesar de simples e repetitiva, possuía um cunho de troça e de denúncia da prática, uma coisa rara no comportamento tipicamente português, onde essas atitudes críticas raramente se assumem assim dessa forma tão frontal… Mais do que isso, a popularidade do evento e do intérprete fizeram com que o gesto tivesse algum conteúdo pedagógico junto de uma audiência pouco esclarecida.
Possuir uma audiência esclarecida quanto a esses expedientes faz com que, por exemplo, incidentes como o ocorrido mais de vinte anos depois com um vocalista de uma banda que tocava num directo de uma daquelas galas da TVI (acima), em que ele cai subitamente do palco abaixo sem que a sua interpretação seja minimamente afectada pelo trambolhão, acabe por ser saudado com sorrisos de entendimento da matéria por parte de toda a audiência… Não sei se será mais difícil explicar à mesma audiência as mesmas aldrabices mas quando os play-backs já não são musicais…
Veja-se agora o vídeo com uma reportagem acéfala (*) da SIC sobre a implosão de duas torres da península de Tróia, onde se encenou que seria o 1º Ministro José Sócrates a accionar o dispositivo que desencadearia a explosão. Ora, porque a SIC fez a sobreposição dos dois planos (o de Sócrates e o das torres), quando termina a contagem (ao 1m58s do vídeo), percebe-se que Sócrates hesita enquanto se começam a ouvir as explosões que deveria ter sido ele a desencadear… Na fotografia abaixo (aos 2m00s), Sócrates ainda não accionou o dispositivo e já se nota o fumo das primeiras explosões no edifício mais afastado, à direita… Não foi um play-back, mas terá sido um press-back!
(*) Precisamente no estilo das reportagens do reporter TSF em cima do acontecimento, toca-a-dizer-mais-qualquer-coisa-trivial-só-para-ocupar-mais-um-pedaço-de-tempo, só que aqui com menos desculpa, porque até há imagens...

06 fevereiro 2009

OS EXOPLANETAS

Exoplaneta é a designação escolhida para os planetas que têm vindo a ser descobertos orbitando estrelas que não o nosso Sol. Trata-se de um campo científico em ampla expansão. O primeiro planeta extra-solar descoberto a orbitar uma estrela e confirmado para além de quaisquer dúvidas científicas aconteceu apenas em 1995 (*), mas actualmente os exoplanetas recenseados já são bem mais de 300 (**), mostrando-se um campo de exploração científica que está em franca expansão. Nos dois últimos anos foram sendo descobertos novos exoplanetas a um ritmo médio de cerca de cinco por mês (ver abaixo) e este campo de investigação não parece ter sido atingido pela crise porque já foram descobertos quatro novos exoplanetas desde o princípio de 2009.
Há vários processos para detectar planetas orbitando as estrelas adjacentes. Explicar como funcionam fica um pouco para além daquilo que considero relevante para um poste informativo sobre o assunto (***). Contudo, vale a pena saber que uma consequência dos processos empregues fazem com sejam detectados primordialmente: a) os planetas maiores e b) os planetas que possuem órbitas mais próximas das suas estrelas. Há por isso a consciência que a lista crescente de exoplanetas descobertos não é uma amostra verdadeiramente representativa do que pode ser a população de planetas do Universo. Mesmo assim, tudo o que tem vindo a ser descoberto tem servido para embaraçar, por limitada, a imaginação dos escritores de ficção científica.
É evidente que os exoplanetas aproveitáveis para as aventuras do Capitão Kirk (acima) teriam que ser todos de características semelhantes às terrestres, com atmosfera respirável e até mesmo com uma gravidade superficial que fosse idêntica à nossa... No entanto, nem mesmo a ficção científica literária (que não tinha esses constrangimentos orçamentais…), pôde antecipar a variedade e o exotismo do que tem vindo a ser as descobertas neste campo. Convém dizer que, ao contrário do que acontecia na ficção científica, os exoplanetas têm designações extremamente analíticas – HD 7924b é um exemplo, a do último a ser descoberto – completamente desprovidas da poesia de um nome como Vulcano, para quem ainda se lembra, o planeta de origem de Mr. Spock (abaixo)…
É improvável que qualquer exoplaneta venha a ser visitado ainda neste século. O mais próximo até agora descoberto é um gigante gasoso (Épsilon Eridani b) um pouco mais maciço que Júpiter que está situado a cerca de 10 anos-luz da Terra, e que orbita a sua estrela a uma distância intermédia entre o que seriam as órbitas de Marte e de Júpiter no nosso sistema solar demorando cerca de 7 anos a completar cada órbita. Mas este é um exoplaneta de que se estaria à espera de encontrar, tomando em conta a única referência de que se dispunha: o Sistema Solar. Já o que não se estaria à espera – no nosso caso, Mercúrio demora 88 dias a completar uma órbita à volta do Sol – era encontrar planetas que descrevessem órbitas tão próximas das suas estrelas...
O planeta (estando ainda por confirmar a descoberta) que descreve a sua órbita à volta da sua estrela no período mais breve chama-se Sweeps-10, localiza-se a cerca de 22.000 anos-luz de distância e o seu equivalente ao nosso ano dura… 10 horas. A estrela é uma Anã vermelha, com uma temperatura superficial muito inferior à do Sol (abaixo dos 3.200º C) e é isso que permite que um gigante gasoso que será, pelo menos, 60% mais maciço que Júpiter, descreva uma órbita à volta da sua estrela tão próxima que equivalerá apenas ao triplo da distância que a Lua descreve em volta da Terra… Mesmo assim, estima-se que a temperatura superficial do planeta (a expressão não tem muito sentido pois, como gigante gasoso, ele não tem superfície) atinja os 1.650º C!
Em redor da estrela 55 Cancri A, que se situa a 55 anos-luz do Sol, já se identificaram até agora 5 exoplanetas, confirmando as suspeitas que sistemas como o nosso podem ser comuns no Universo. Os planetas orbitam a estrela em ciclos de respectivamente, 2,8, 15 e 44 dias (todos mais próximos do que a órbita de Mercúrio), 260 (entre a de Vénus e a da Terra) e 5.218 dias (um pouco para lá da de Júpiter). Este último planeta é um colosso, quatro vezes mais maciço do que o gigante joviano. Em contraste, a descoberta de outro colosso, o 91 Aquarii Ab a 148 anos-luz de nós (com o triplo da massa de Júpiter e com uma órbita semelhante à percorrida por Mercúrio), representou a adição de um planeta a um sistema que sabíamos ser composto por cinco estrelas!
Como se pode perceber por estes exemplos, que representam apenas 2% daquilo que já foi descoberto, e voltando a comparar esta busca por novos exoplanetas com o Star Trek (acima), embora a busca não seja transmitida semanalmente na televisão e tenha provavelmente muito menos fãs (sobretudo muito menos exuberantes…), trata-se de uma outra maneira de, como dizia o genérico original da série televisiva, to boldly go where no man has gone before (****). Se alguma coisa se pode concluir destes primeiros 15 anos de explorações para lá do nosso Sistema Solar, lembrando-nos de tudo o que se aprendeu entretanto, é a dimensão colossal da nossa ignorância sobre o Universo…

(*) Como muitas outras descobertas científicas esta também está envolta em controvérsia e os autores e a data da primeira descoberta dependem da nacionalidade das fontes consultadas.
(**) Conforme as fontes, mais ou menos actualizadas, entre 321 e 339.
(***) No entanto, essas explicações estão disponíveis, quer em artigos científicos on-line, quer na Wikipedia.
(****) Chegar audaciosamente até onde ninguém ainda tinha chegado.

05 fevereiro 2009

ÀS TRÊS PANCADAS



Saído em 1974, o terceiro disco de Sérgio Godinho foi baptizado de à queima roupa mas desconfio que também poderia ter recebido o nome de às três pancadas, tanta era a pressão para a edição de mais um disco com músicas revolucionárias para passar nas rádios que então viviam com um reportório limitado de músicas daquele género. Por isso, as canções mais conhecidas de à queima roupa, como Liberdade e Os Pontos nos Iis tornaram-se grandes hits musicais que se integravam plenamente no espírito do PREC que atingia todo o Portugal.

De menor rigor revolucionário era a maioria das outras canções do mesmo disco, onde se nota a falta de maturação nos arranjos e nas letras, consequência provável da premência da edição do disco em detrimento da qualidade do seu conteúdo. Um dos casos em que isso é mais evidente é numa canção que se chama Independência, em que o tema da letra é a, então candente, questão colonial. Apesar de paupérrima(*), a letra é inequívoca quanto à opinião de Sérgio Godinho sobre aquela questão: A África é dos africanos, já chega quinhentos anos.

É um truísmo como o tempo e as circunstâncias demonstraram. Só que essas circuntâncias evoluíram tanto desde aí que não deixaria de ser irónico e não seria surpreendesse se se visse actualmente organizações extremistas de direita a recuperar, distorcer e readaptar um slogan tão simplista quanto o usado por Sérgio Godinho naquela sua música (A África é dos africanos) para o empregar numa sua campanha racista e xenófoba - A Europa é para os europeus. A demagogia é mesmo transversal ao espectro político…

(*)
Quem diz que sim quem diz que não
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação

E ainda anda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez

Independência
Independência

A África é dos africanos
já chega quinhentos anos
já chega quinhentos anos
A África é dos africanos

Quem diz que sim quem diz que não
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação

E ainda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez
E a dizer “pois sim”
E a dizer “pois é”
E a dizer “que remédio”
E a dizer “Rodésia”
E a dizer “mas sabe”
E a dizer “que pena”
E faz e acontece

Independência

UM CLÁSSICO

O episódio que irei contar parece-me ser um clássico e ouvi-o hoje de manhã através também de um meio clássico, numa daquelas celebradas emissões matinais da TSF que ruidosamente alarma e agita o auditório, mas que raramente serve para que se esclareça alguma coisa… O assunto em questão foi a resistência à futura mudança do Tribunal da Boa-Hora para um edifício do Parque das Nações, resistência essa protagonizada por aqueles que trabalham naquele Tribunal.

Como é clássico, o depoimento da representante do poder judicial, a Juíza Presidente do Tribunal (contra a mudança), não deixou de ser proferido de forma gongórica onde não faltou a palavra compaginável… De forma igualmente clássica, o depoimento do representante do poder executivo, o Secretário de Estado da Justiça (a favor da mudança), foi outro exemplo de gongorismo, embora recorrendo a um vocabulário radicalmente diferente e onde não faltou a palavra sinergias

Como é clássico, foi claro que os gongorismos recíprocos não abordaram o importante. Como é clássico, a configuração e as adaptações interiores do novo edifício devem ter sido feitos sem a participação dos futuros utilizadores e conterão inúmeros erros de concepção - quantos edifícios não conhecemos nós que foram funcionalmente mal concebidos de raiz? Como é clássico, a tolerância para com esses erros e a disposição à adaptação é nula por parte de todos aqueles que vão ter de efectuar a mudança…

Como é clássico quando se trata de juristas, torna-se sempre preferível apresentar vários argumentos em vez de ter apenas um, ainda que ele seja sólido. Deve ser isso que fez a Juíza Presidente gabar o sentido de dignidade do Tribunal actual, quando ele resulta da conversão de um antigo Convento, nacionalizado em 1834, transformado depois em quartel e cujas fases de instalação como tribunal foram tão cheias de vicissitudes quanto as do actual edifício do Parque das Nações…

Como é clássico, sobre o assunto em causa, a notícia TSF pegou no microfone, passou os dois depoimentos e foi incapaz de esclarecer em profundidade o auditório sobre o que estava em disputa, nem que fosse com estas trivialidades que acabei de escrever. Pior que isso, a notícia que a emissora colocou em rede, omite as declarações do Secretário de Estado e torna-se totalmente parcial. E, já que estamos em clima de gongorismos, este estilo de informação merecer-me-ia um turpilóquio

E isso, disseram-me, já não é clássico

04 fevereiro 2009

JOGADAS DO GRANDE JOGO

No livro de espionagem O Cardeal do Kremlin (1988), o autor Tom Clancy faz com que parte da acção do livro decorra numa das repúblicas soviéticas da Ásia Central, o Tajiquistão, país que faz fronteira com o Afeganistão, e onde, de resto, naquela época os soviéticos estavam atascados numa guerra contra-subversiva que estavam prestes a perder. De forma imaginativa, Clancy faz com que um grupo de guerrilheiros afegãos entrasse em território soviético para tomarem a iniciativa de irem atacar umas instalações militares onde se realizavam pesquisas sobre um hipotético equivalente soviético da Iniciativa de Defesa Estratégica dos Estados Unidos da época de Reagan, que ficou mais conhecida pela alcunha de Guerra das Estrelas (abaixo).
Como qualquer bom livro de espionagem, a situação por ele criado era exótica, não só por decorrer em regiões que nos eram desconhecidas por pertencerem ao outro Bloco, como por envolverem uma invasão da União Soviética, país que, por causa do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro, pesava no imaginário ocidental por estar associado a fronteiras muradas, guardadas e vigiadas... 20 anos depois da publicação de O Cardeal do Kremlin, a União Soviética desapareceu, as cinco repúblicas da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguízia, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão) tornaram-se países independentes e quem está atascado numa guerra contra-subversiva no Afeganistão e em riscos de a perder são os Estados Unidos…
Os cinco países, que outrora haviam estado sob tutela soviética e que também já passaram por um período intermédio em que a maioria deles se colocou sob protecção norte-americana, atingiram agora uma fase, especialmente depois dos norte-americanos invadirem o Afeganistão, em que estão no meio de uma disputa aberta entre norte-americanos e russos quanto às respectivas áreas de influência. Os segundos têm conseguido ultimamente algumas vitórias, a última das quais ontem, quando o Presidente da Quirguízia, Kurmanbek Bakiyev, anunciou durante uma visita oficial que estava a realizar a Moscovo (…) que pretendia vir a retirar as facilidades que haviam sido concedidas aos Estados Unidos na utilização da base aérea de Manas.
Depois do governo do Uzbequistão ter solicitado aos Estados Unidos que eles cessassem de utilizar a sua base aérea de Karshi-Khanabad (ver mapa acima) em Novembro de 2005, a base aérea de Manas tornou-se essencial em termos logísticos (*), especialmente para o trânsito de pessoal entre os Estados Unidos e o Afeganistão. Há quem acredite que este anúncio não passe de uma jogada negocial do Presidente Bakiyev, insatisfeito com as contrapartidas que o seu país recebe dos Estados Unidos pela utilização da base. Mas mesmo admitindo que o seja, a verdade é que se trata de uma demonstração de que, ao contrário dos órgãos de informação, os actores políticos não estão nada impressionados com a chegada de Barack Obama ao poder…

(*) Como se pode observar pelo mapa, e existindo o espaço aéreo do Tajiquistão de permeio, a base aérea de Manas tem uma importância táctica muito limitada em relação às operações no próprio território afegão.

03 fevereiro 2009

HÁ SEMPRE LUGAR PARA MAIS UM...


Ontem, a propósito de uma conversa sobre os incidentes associados ao facto de se viajar em transportes públicos completamente apinhados (acima), lembrei-me de um gag de um filme que havia visto faz mais de 30 anos. E não é que depois de algumas pesquisas consegui encontrar a cena a que me referia no You Tube?! Inseria-a neste poste, o filme intitula-se O Grande Bazar, é francês e protagonizado por Les Charlots, um grupo cómico que, conforme se escreve na Wikipedia, foram moderadamente populares durante a primeira metade dos anos 70.

O gag a que me referia surge aos 5m30 deste segundo vídeo. Mas, para os mais nostálgicos, creio que vale mesmo a pena verem o vídeo desde o princípio, para recordar a moda da época, já que o filme deve ter sido feito na época em que as bocas de sino das calças devem ter atingido o seu diâmetro máximo… Uma outra curiosidade é a de os heróis morarem em edifícios típicos HLM(*) que, dali por 30 e tal anos e segundo algumas análises sociológicas muito respeitadas, justificariam o comportamento das minorias não integradas na sociedade francesa (abaixo)…
(*) – Abreviatura de Habitation à Loyer Modéré (habitação social, à letra habitação com rendas moderadas).

02 fevereiro 2009

DE IR ÀS LÁGRIMAS...

Há alguns casos em que posso compreender perfeitamente aquelas pessoas que se emocionam nos filmes a ponto de, quando as luzes se acendem no final, terem de recorrer a expedientes para esconderem os olhos chorosos e os narizes vermelhos. Um desses casos é A Lista de Schindler (1993). No caso particular desse filme, o apelo às lágrimas nem sequer será sobretudo pelo argumento mas mais pela sua banda sonora. Como em tudo o resto naquele filme, Steven Spielberg (realizador mas também co-produtor) não se poupou a despesas e o tema do filme (da autoria de John Williams) é interpretado por Itzhak Perlman, um violinista israelita que se contará entre os melhores, senão mesmo o melhor, do mundo na actualidade.

A VIDA DE MARINHEIRO

Porque não faz parte da orientação que quero dar a este blogue, não me pronunciei até agora sobre tudo o que tem estado associado ao episódio Freeport. Aliás, suponho que coisa que não falta nessa blogosfera são opiniões, variadíssimas, acerca dos inúmeros aspectos de que se foi revestindo o episódio, depois transformado em folhetim. Mas agora, que julgo que a pilha de assuntos associados ao episódio construída freneticamente pela comunicação social já se desmoronou por causa da patetice de alguns assuntos que para lá foram sendo adicionados, achei oportuno questionar-me sobre a (im)parcialidade dos critérios que levam os jornalistas a elegerem os seus alvos nestes casos de escândalo.

Parece-me evidente que José Sócrates já estará há tempo suficiente no poder para agora só estar rodeado de uma camarilha servil e concordante. É esse conceito muito elevado da sua importância que costuma atacar infelizmente quem ocupa o poder mais do que um par de anos, ampliado pela caixa de ressonância dos que o rodeiam que explicam – mas não desculpam... – aqueles exageros da campanha negra. Chegados aqui, deixem-me mudar para um outro assunto, ou, adoptando a expressão de José Sócrates e dos seus apaniguados, para uma outra campanha, esta branca por possuir a virtude de nem se ter dado por ela. Falo do Caso da Carta de Patrão de Costa de Joaquim Ferreira do Amaral
É um episódio que, como o do Freeport, deixei que também amadurecesse: apareceu na imprensa em 13 de Janeiro, mas hoje constata-se com evidência que não houve órgão de comunicação social que o quisesse desenvolver. E, contudo, vejam quanto ele parece ser bastante interessante: é um caso de corrupção associado aos exames que conferem direito às Cartas de Marinheiro, de Patrão Local e de Patrão de Costa. Há uma Escola sedeada em Matosinhos que se ufanava de uma alta taxa de aprovação dos seus alunos. E para mais, os alunos só precisavam de a frequentar durante 4 dias… Trata-se de uma bela notícia com corruptores, corrompidos e 43 arguidos, um dos quais se chama Joaquim Ferreira do Amaral…

O depoimento que o ex-ministro de Cavaco Silva, ex-candidato a Presidente da República e actual presidente da Lusoponte prestou ao Correio da Manhã chega a ser tocante pela sua candura: ele e o filho foram de Cascais até Matosinhos(*) para obter a tal Carta de Patrão de Costa porque ali o curso era melhor e só durava quatro dias, além de que, quando Ferreira do Amaral recebeu o SMS com as respostas certas ao exame, já nem estava dentro da sala… Mais uma vez, depois de Dias Loureiro, temos oportunidade de ouvir as declarações de um ex-governante ingénuo, a quem nunca lhe passou pela cabeça que pudesse vir a estar associado a algo ilegal: Qual não é o meu espanto quando a polícia me chamou!...
Eu, e creio que muita gente mais, não teria ficado nada espantado, considerando a anomalia da situação (...é que não se costumam receber SMS com respostas durante os exames) e que o esquema viera a ser denunciado… Agora, o que me deixou deveras espantado foi a discrição com que todo este suculento incidente veio a ser tratado pela comunicação social, para mais quando estas atitudes ingénuas apenas conseguem é excitar ainda mais as feras… Atendendo ao tema e à (falta de) reacção mediática, e ao contrário do que cantavam Os Sitiados, precisamente nos tempos do apogeu do cavaquismo e de Ferreira do Amaral (1992), há casos e pessoas em que parece que esta vida de marinheiro não dá cabo delas…
(*) - Claro que há variadíssimas escolas na região da Grande Lisboa onde eles poderiam obter precisamente a mesma Carta...

01 fevereiro 2009

FORMOSA, A AMBICIOSA

No futuro, qualquer compilação das imagens importantes do Século XX incluirão, quase obrigatoriamente, as que constam do vídeo acima: a 31 de Outubro de 1949, depois de terem vencido a Guerra Civil, Mao Zedong, o líder dos comunistas chineses, proclamava a República Popular da China. Após terem perdido a posição de vanguarda tecnológica e económica mundial em proveito dos europeus durante os séculos anteriores, os chineses recuperavam naquele momento a unidade política da China, que se revelava indispensável para poderem começar a recuperar desse seu atraso. Como acontece com imensa frequência, naquela época não se percebeu completamente todo o significado histórico da cerimónia então realizada na Praça Tiananmen de Pequim.
A vitória fora decisiva, mas não total. Os vencidos da Guerra Civil tinham-se refugiado na ilha de Taiwan, conhecida em português pelo nome de Formosa, onde se exerciam ainda os poderes da derrotada República da China. Embora de dimensão irrisória à escala da China (veja-se acima a ilha Formosa, assinalada a azul, quando comparada com a China continental, a vermelho), a ilha ainda possuía uma massa crítica suficiente (36.000 km² e 22.900.000 habitantes em 2007) para que pudesse subsistir de uma forma autónoma, ainda que precisasse da assistência militar dos Estados Unidos. Mais do que isso, graças a eles e durante os 22 anos seguintes (1949-71), o governo da Formosa foi considerado pela ONU e outras organizações internacionais como se fosse o governo legítimo de toda a China…
Progressivamente essa ficção veio a perder-se e hoje não tem praticamente qualquer significado, a não ser internamente, dentro da própria República da China. Paradoxalmente, são precisamente essas debilidades quanto ao seu estatuto que obrigam a República da China a ser muito mais rígida que a sua irmã gigante (a República Popular da China) quanto às reivindicações territoriais que a China possa ter em relação aos seus países limítrofes. Enquanto a República Popular da China tem dado mostras de pragmatismo na forma como se relaciona com os vizinhos, as reivindicações formais da República da China (abaixo) incluem potenciais diferendos com o Japão, a Birmânia, a Índia, o Butão, o Paquistão, o Afeganistão, o Tajiquistão e a Rússia, além da anexação total da Mongólia…
O mapa pode ser ampliado, clicando em cima dele

31 janeiro 2009

A "GRANDE" GAFFE, O PEQUENO INQUÉRITO E O GRANDE PROBLEMA

Através do Água Lisa descobri que outro dia ocorreu um lapso numas declarações da Ministra da Saúde. O episódio foi considerado com tal relevância pela redacção do Portugal Diário que esta lhe resolveu dar o destaque que se pode observar nas suas páginas. Parece-me ser um daqueles casos em que creio que se percebe automaticamente qual terá sido a causa da asneira de Ana Jorge: habituada a referir-se por rotina à Checoslováquia (que, contudo, é um país que já não existe há 16 anos…), corrigiu o engano referindo-se a um dos dois países resultantes da cisão, a Eslováquia, precisamente o errado, aquele onde não fica Praga.
Talvez também tenha influenciado a correcção o facto da outra metade do país ter uma designação pesada que não se pode simplificar: República Checa. São países (como a República Dominicana ou a República Centro-Africana) em que é quase preciso alterar o ritmo ao discurso para os designar. E, já que estamos numa de asneiras, vale a pena evocar aqui uma das cómicas, a do comentador da Antena 1 que relatava o República Checa 1 - Portugal 0, dos quartos de final do Europeu 1996 que, em cima da irritação do golo de Poborsky, ainda insistia em designar os jogadores adversários por republicanos checos… É que, se calhar, devia haver uma selecção rival composta por checos monárquicos
Em suma, como em tudo, em geografia também há pequenos e grandes disparates e o enorme relevo dado pela redacção do Portugal Diário à gaffe da Ministra da Saúde ao localizar Praga na Eslováquia mereceria que eles fossem brindados também com um pequeno, famoso e arrasador inquérito aos conhecimentos de geografia mundial que apareceu num episódio da série Yes, Prime Minister:
1- Onde fica o Alto Volta?
2- Qual é a capital do Chade?
3- Que língua falam no Mali?
4- Quem é o presidente do Peru?
5- Qual é a religião nacional dos Camarões?
Claro que o inquérito é para se responder sem consulta… e eu gostaria muito de ouvir as respostas dos membros da redacção do Portugal Diário para também as afixar na Net... A sério e muito mais importante, vale a pena reflectir sobre o assunto que levou Ana Jorge a referir-se a Praga e às universidades espanholas: a previsível falta de médicos que virá a ocorrer no futuro em Portugal. E, sobre esse assunto, a redacção do Portugal Diário terá para entrevistar uma extensa sucessão de antigos Ministros da Saúde, do tempo em que ainda havia Checoslováquia e onde em Portugal se reduziam os lugares de acesso ao ensino superior em Medicina até se ter criado o problema actual…

ADENDA (de 3 de Fevereiro):

Porque não tenho a pretensão de que o Herdeiro de Aécio seja lido em toda a parte, tive a oportunidade de inserir o comentário abaixo na caixa dos ditos do artigo do Portugal Diário que se indignava com a ignorância da ministra:

Dado o destaque que deram nesta notícia à gaffe da ministra quando localizou Praga na Eslováquia, gostaria de verificar como estão os conhecimentos de geografia aí dos membros da vossa redacção - pois parece-me que é a redacção que colectivamente assina essa notícia onde se mostram impressionados com a ignorância ministerial.

São apenas cinco perguntas elementares sobre geografia política - para responder sem consulta... - que retirei dum episódio da série
Yes, Prime Minister
:

1- Onde fica o Alto Volta?
2- Qual é a capital do Chade?
3- Que língua falam no Mali?
4- Quem é o presidente do Peru?
5- Qual é a religião nacional dos Camarões?

Fico à espera das vossas respostas (sem batota...) para o meu
e-mail. Entretanto, talvez não fosse mau que aí na redacção moderassem as vossas indignações com as ignorâncias alheias...

Antes de lá ir espreitar, alguém quer fazer uma aposta sobre o que aconteceu ao comentário?...

30 janeiro 2009

MÚSICA E POLÍTICA IRLANDESAS


A música do vídeo acima assinala a primeira vitória de uma concorrente irlandesa no Festival da Eurovisão em 1970. A canção chamava-se All Kinds of Everything, a intérprete Dana, então com 18 anos. Veja-se o vídeo e os mais nostálgicos recordarão como era um tempo de uma outra ingenuidade e não me refiro apenas à infantilidade da letra da música ou à piroseira da orquestração: onde é que hoje em dia seria possível que Dana fosse a um Festival da Eurovisão sem que não passasse antes por um dentista que lhe corrigisse o buraco que ela tem no meio dos dois dentes da frente?

Por detrás de toda essa inocência, tinham começado os anos terríveis dos confrontos entre os católicos e os protestantes na Irlanda do Norte, e Dana, por muito que a sua canção se dedicasse ao seu namorado e a todas as coisas da natureza que a faziam lembrar-se dele, também se tornou um factor, ainda que involuntário, dessa disputa. É que, apesar de se ter apresentado a concurso representando a Irlanda, Dana era uma católica originária da cidade de Derry (veja-se no mapa abaixo) na Irlanda do Norte e como tal, vencera-o representando um país que não o seu (que era o Reino Unido).
Desnecessário será dizer que o entusiasmo com que Dana foi recebida na sua cidade natal terá superado em muito aquele com que havido sido acolhida em Dublin, a capital da Irlanda. Entre os políticos da comunidade católica da Irlanda do Norte aproveitou-se a ocasião para que o acontecimento e a jovem intérprete fossem os pretextos para a propaganda da sua causa: a reunificação da Irlanda! Os acontecimentos subsequentes evoluíram para um progressivo aumento da hostilidade entre as duas comunidades numa guerra surda que veio a atingir o seu apogeu entre os anos de 1972 e 1976.
A propósito do ano de 1972, de Derry e de hoje ser 30 de Janeiro, completam-se nesta data 37 anos sobre a data do Bloody Sunday(*), um incidente bastante grave, ocorrido precisamente em Derry, onde pára-quedistas britânicos dispararam sobre uma multidão de manifestantes católicos, tendo morto 14 e ferido mais outros 13 entre participantes e alguns assistentes que estavam no local da manifestação. O incidente veio a tornar-se mundialmente conhecido por causa da banda irlandesa U2 e do seu sucesso de 1983, Sunday Bloody Sunday, aqui abaixo cantada ao vivo no vídeo do Concerto Live Aid de 1985.
Se a associação da canção de letra ingénua de Dana com os problemas irlandeses será surpreendente, também a canção de letra engajada de Bono, o vocalista dos U2, tem algo para nos surpreender. É que, tendo como pretexto um incidente que resulta da aplicação desproporcionada da força pelos militares britânicos, esse facto não devia fazer esquecer que, de entre as 3.523 vítimas mortais que o conflito na Irlanda produziu entre 1969 e 2001, 58% delas foram da autoria dos nacionalistas católicos (2.055), 29% dos lealistas protestantes (1.020), mas menos de 11% (368) da responsabilidade das forças de segurança(**)

(*) Domingo Sangrento
(**) É uma questão distinta do comportamento posterior das autoridades britânicas, quando tentaram, de forma inadmissível, encobrir as responsabilidades dos pára-quedistas no incidente.

29 janeiro 2009

LAWRENCE DA ARÁBIA E FAIÇAL DA EUROPA

A História também se faz, por vezes, de imagens fortes, que é que parece ser o caso da fotografia acima, bastante conhecida, onde aparece um europeu vestido de trajes tradicionais árabes. Trata-se de T.E. Lawrence (1888-1935), um arqueólogo que, durante a Primeira Guerra Mundial, se tornou conhecido por causa do seu papel de agitador durante a insurreição que os britânicos fomentaram junto dos árabes contra o Império Otomano. A figura de Lawrence veio depois a popularizar-se ainda mais com o aparecimento de um filme em 1962, baseado não muito rigorosamente nesse período da sua vida e intitulado precisamente Lawrence da Arábia (abaixo), onde o seu papel é interpretado pelo actor Peter O´Toole.
Nesse mesmo filme, o segundo papel mais importante foi atribuído ao actor Alec Guiness, que representou o papel do Príncipe Faiçal (1883-1933), o principal dirigente da coligação de tribos árabes que, construída sob a inspiração de Lawrence, se bateu e contribuiu para derrubar o domínio otomano. Depois da Guerra e da divisão do Império Otomano, o Príncipe veio a tornar-se a partir de 1921 o Rei Faiçal I do Iraque, depois de ter sido escolhido por um plebiscito onde venceu com 96% de votos favoráveis… A fotografia de baixo é a fotografia oficial do Rei Faiçal dessa época. Ao invés da outra, muito mais popular, em vez de vermos um europeu vestido de trajes tradicionais árabes, temos um árabe vestido à ocidental…
A fotografia oficial do verdadeiro Faiçal pode ser menos exótica do que a de Lawrence, mas será porventura mais significativa da importância dos padrões e dos valores que estavam então em vigor naquela época. Um soberano devia fazer-se retratar vestido apropriadamente, e isso implicava um fato talhado impecavelmente por um alfaiate de nomeada. Além das fortes, a História também se deve fazer das imagens verdadeiras…

28 janeiro 2009

PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO

Sem dizer uma única palavra, um homem armado assaltou, esta sexta-feira, à hora do almoço, uma agência da Caixa Geral de Depósitos, em Vila Nova de Gaia. Segundo o JN apurou, tudo aconteceu poucos minutos antes das 13 horas, na dependência situada na Avenida da República, próximo a Soares dos Reis. O assaltante, que usava um chapéu azul e foi descrito por testemunhas como alto e magro, começou por se dirigir ao balcão, colocando em cima da mesa um papel onde estava escrito: Isto é um assalto. Eu sou mudo.
O texto é uma transcrição parcial de uma notícia do Jornal de Notícias de 24 de Janeiro e o vídeo é uma cena de um filme de 1969, Take the Money and Run. O Mudo de Gaia saiu-se melhor do assalto do que Woody Allen... Provavelmente porque, apesar de mudo e ao contrário do desastrado Allen do filme, não terá tido problemas com a caligrafia, nem mostrado receio em empunhar a caneta...