26 julho 2007

OS JUSTICEIROS

Tenho por adquirido que não basta apenas denunciar injustiças. Mesmo entre aquelas que são consensuais, reconhecidas por quase todos (como parece ser o caso da situação actual em Darfur, no Sudão), tem que haver sempre um ou mais elementos no sistema que tenham capacidade de intervenção e que estejam interessados em corrigir as referidas injustiças. Também é bem possível que as novas regras poderão produzir, por sua vez, outras injustiças e assim o ciclo continuará…
O que as três pessoas retratadas neste poste terão em comum, para além de todas serem membros destacados do aparelho judicial dos seus países, e desse países serem culturalmente aparentados (Itália, Espanha e Portugal) é a coincidência de terem sido os protagonistas de equipas que criaram momentos de inflexão na aplicação da justiça quando aparentemente parecia não haver elementos nos vários sistemas onde intervieram que estivessem interessados em corrigir as injustiças existentes.

O italiano Antonio di Pietro (acima) foi a cara mais visível da equipa que procedeu à exposição do corrupto sistema político vigente na Itália desde o fim da Segunda Guerra Mundial, num processo que ficou conhecido pelo nome de Operação Mani Pulite (mãos limpas) em 1992. O sistema político acabou por ruir e reformar-se, mas parece que a causa próxima para isso terá sido o fim da Guerra-Fria e a possibilidade de haver finalmente rotatividade dos partidos no poder.
Entre os casos de maior exposição internacional associados ao espanhol Baltazar Garzon, conta-se o pedido de extradição de Augusto Pinochet por responsabilidade pela tortura e morte de cidadãos espanhóis no Chile, enquanto o ex-presidente estava em tratamento no Reino Unido (1998). O incidente foi sobretudo um embaraço para as diplomacias internacionais ao confrontá-las com a aplicação prática dos seus discursos sobre direitos humanos. Pinochet acabou por se escapar e retornar ao Chile…

Finalmente, Maria José Morgado tornou-se a face da equipa de investigação do processo designado por Apito Dourado. É inequívoco que, por detrás da indignação pública, não existe ninguém verdadeiramente interessado em desmanchar a imensa teia que as notícias mostram parecer cobrir os órgãos dirigentes do futebol português, envolvendo os membros da federação portuguesa de futebol, da liga de clubes e dos clubes propriamente ditos*.
Como aconteceu com o sistema político italiano, que não caiu por causa de di Pietro, como aconteceu com a diplomacia internacional, que só continua a reparar na questão dos direitos humanos quando lhe dá jeito, também desconfio, resulte o que resultar dos processos de Maria José Morgado, que a gestão do futebol português, falha de quem lhe queira impor rigor, há-de continuar a ser a fraude de sempre. Haverá alguém entre os leitores a quem o nome Inocêncio Calabote ainda diga alguma coisa?

* Há uns anos atrás, Artur Jorge tentou concorrer ao cargo de presidente da federação em alternativa a Gilberto Madaíl: nem conseguiu reunir o número de assinaturas necessário para o efeito… Nem a União Nacional de Salazar conseguia isso!

25 julho 2007

OS PROBLEMAS LOGÍSTICOS DA CONFERÊNCIA DE POTSDAM

Ao contrário do que acontecera com Yalta, a Conferência de Potsdam, que decorreu durante a segunda quinzena de Julho de 1945 (há precisamente 62 anos atrás), já teve lugar dois meses passados depois da vitória aliada no fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. O local de encontro escolhido para o encontro carregava o simbolismo de se situar nos arredores da capital dos vencidos – Berlim.

Outros factores também contavam na apreciação favorável de Estaline: Potsdam estava sob controlo do Exército Vermelho e era um local onde ele podia chegar de comboio… O sempre solícito Beria precisava, num relatório que enviara antecipadamente para Estaline: o percurso ferroviário seria de 1.923 km, dos quais 1.095 km na União Soviética, 594 na Polónia e 234 na Alemanha.

Não se sabe é que fronteiras terá usado Beria para atribuir nacionalidades ao percurso ferroviário, pois o tema do traçado dessas fronteiras era um dos que viria a estar em cima da mesa para discussão, muito embora Estaline já tivesse uma ideia bem precisa do que queria. Também os seus dois aliados ocidentais também tinham uma ideia muito aproximada do que ele iria exigir… e do que iriam conceder…
O lugar escolhido para a Conferência seria o Palácio Cecilienhof, mandado construir em plena Primeira Guerra Mundial (1914-17) pelo último Kaiser, Guilherme II, destinado ao seu filho Guilherme e, sobretudo, à sua nora Cecília de Mecklenburg-Schwerin, a quem o Palácio fora buscar o nome, pois o príncipe herdeiro tinha sido mobilizado para assumir o comando de um dos exércitos imperiais na frente ocidental, em França.

As preocupações logísticas dos soviéticos para esta Conferência eram muito menores do que haviam sido as de Yalta. Finda a guerra, e havendo ficado estabelecido o acordo de princípio que a cidade de Berlim ficaria dividida em sectores de ocupação distintos para cada um dos aliados, ficou subentendido que seria por conta dos dois parceiros anglo-saxónicos a responsabilidade do abastecimento das suas comitivas.

Caso distinto era a questão da segurança dos conferencistas, numa região da Alemanha onde a responsabilidade pertencia inequivocamente aos soviéticos e numa época onde ainda não era de excluir o cenário de um golpe de mão espectacular suicida perpetrado por fanáticos nazis: sete regimentos de tropas do NKVD foram destacados para o efeito alem de vários destacamentos do Exército Vermelho.

Mas a confiança não imperava, como se deduz do relatório prévio de Beria, que específica que as forças do NKVD tinham vindo de Moscovo, iriam operar num dispositivo de três círculos de segurança concêntricos e iriam ser comandadas pelo general (do NKVD) Sergei Kruglov (um homem de toda a confiança, já responsável pela segurança em Teerão*). Além disso, havia dois aeródromos de prevenção…

Mas, mesmo só preocupados com a delegação soviética, as medidas adoptadas pelo NKVD para o apoio logístico do evento foram um excesso, só explicável pela desforra de terem lugar numa Alemanha recém vencida. Foram requisitadas (e desalojados os respectivos moradores…) 63 moradias, incluindo uma moradia maior de 15 assoalhadas, 400 m² e uma grande varanda e jardim, especialmente para Estaline.
A moradia escolhida para Molotov** era, obviamente, um pouco mais pequena: tinha onze assoalhadas, e não fora equipada com o enorme centro de comunicações que permitia a Estaline estar em contacto imediato com Moscovo e com as diversas Frentes de Exércitos na Europa e no Extremo Oriente. Com quase uma vivenda por conferencista estava-se muito longe dos 16 a 20 oficiais por camarata de Yalta

Além dos tradicionais suprimentos alimentares para a confecção das refeições que viessem a ser oferecidas pela delegação soviética, o NKVD encarregara-se de trazer gado vivo, construir aviários, e construir depósitos de vegetais e bebidas em quintas próximas, nos arredores de Potsdam, para evitar qualquer eventualidade de ruptura de stocks. Duas padarias de campanha estavam também afectas ao serviço dos conferencistas.

Em relação às presenças de Yalta, um dos líderes de delegação havia mudado: Harry Truman tornara-se o novo presidente dos Estados Unidos, depois da morte súbita de Franklin D. Roosevelt em Abril de 1945. E durante a Conferência, a titularidade de outro dos líderes também estava em jogo: a 5 de Julho haviam decorrido eleições gerais no Reino Unido e o escrutínio ainda estava em curso.

Como o sistema eleitoral britânico elege deputados por círculos uninominais, os votos precisam de ser contados no círculo de residência do eleitor o que, com quase cinco milhões de eleitores mobilizados e dispersos, a cumprir serviço nas forças armadas ou requisitados para serviços cívicos, ou no estrangeiro, tornava o voto por correspondência numa fracção apreciável da votação total. E havia que esperar que essas cartas chegassem.

Entretanto, prevendo as duas eventualidades, Clement Attlee, o líder do Partido Trabalhista e natural indigitado para o cargo de primeiro-ministro em caso de vitória do seu partido, acompanhara Winston Churchill e era mantido ao corrente de tudo o que de relevante se passava – creio que é possível identificá-lo pela careca, sentado em frente, dois lugares à direita de Churchill na fotografia da grande mesa de reuniões (abaixo).
O Partido Trabalhista ganhou folgadamente (49,7%) as eleições (os resultados saíram a 26 de Julho de 1945) e foi Clement Attlee que ficou a assumir a direcção da delegação britânica e que veio a figurar a partir daí nas fotografias das cerimónias da Conferência. Do grupo original já só restava Estaline. Sem a deficiência de Roosevelt, agora já se podia tirar fotografias institucionais onde os líderes aparecessem de pé

Estaline, por sua vez, como agradecimento pela sabedoria demonstrada com a sua vitória na Grande Guerra Patriótica (assim chamam os soviéticos à Segunda Guerra Mundial) fora promovido em Junho ao novo posto de Generalíssimo, para o distinguir da proliferação de Marechais que a guerra produzira. As fotografias mostram-no com o seu novo uniforme, casaco claro e calças listadas, correspondente ao seu novo posto.
Consta que quando lho mostraram inicialmente, Estaline mandou bugiar os proponentes, perguntando se eles queriam que ele parecesse um porteiro de um restaurante de luxo… Foi um prodígio da persuasão socialista, simbólico do ambiente que se vivia no Kremlin, que a corte que o rodeava o convencesse como ele estava enganado. Dessa vez é que Estaline devia ter sido mais desconfiado… porque é isso mesmo que ele parece!...

Agora quanto à história da Conferência? Isso é outra História…

* Conferência ocorrida em 1943.
** Vyacheslav Molotov, Ministro dos Negócios Estrangeiros.

24 julho 2007

OS PROBLEMAS LOGÍSTICOS DA CONFERÊNCIA DE YALTA

Será conveniente começar este poste por um mapa que mostre a localização da cidade que recebeu a afamada Conferência em Fevereiro de 1945, onde se considera que as grandes potências beligerantes aliadas, representadas ao mais alto nível por Roosevelt, Estaline e Churchill, decidiram como seria a organização da futura Europa que sairia da derrota próxima da Alemanha.

Localizada na península da Crimeia, e protegida do clima continental da Rússia por um maciço montanhoso, a cidade de Yalta só se havia tornado russa nos finais do século XVIII (1783), depois de um historial em que a cidade aceitara tradicionalmente a tutela da potência comercial que controlasse os fluxos do comércio no Mar Negro: os gregos, os romanos, os bizantinos, os genoveses e finalmente os turcos otomanos.
O aparecimento do turismo de luxo nos finais do século XIX transformou Yalta no equivalente russo das estâncias de Verão que as famílias reais, as famílias nobres e as famílias ricas europeias frequentavam durante o período estival. Indissociável de tal actividade foi a construção de imponentes casas de férias, à escala do poder associado ao mandante; no caso das casas reais tratava-se de verdadeiros palácios.

Com o período soviético assistiu-se a uma mudança substancial da composição das pessoas que frequentavam Yalta no Verão, embora não tivesse havido mudança alguma quanto às qualificações que faziam deles os novos frequentadores: tratava-se da elite do estado russo (agora soviético). Durante as ferias, Estaline alojava-se no Palácio Massandra, mandado construir em 1889 pelo czar Alexandre III.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Yalta, com quase todo o resto da Crimeia, foi conquistada pelos alemães em Setembro de 1941, uns escassos três meses depois do começo da invasão à União Soviética., para só vir a ser reconquistada pelo Exército Vermelho em Abril de 1944. Numa e noutra ocasião os que retiravam preocuparam-se em deixar o menos possível à disposição dos conquistadores.

Foi neste local que tivera uma reputação aprazível mas onde o menor traço de conforto havia sido destruído ou saqueado que Estaline (porque tinha um medo pânico de voar, o georgiano só acordava encontrar-se em locais que fossem acessíveis por caminho de ferro desde Moscovo: Teerão, Yalta, Potsdam…) concordou em encontrar-se com os seus homólogos anglo-saxónicos.

Para estes últimos e as respectivas comitivas, a viagem foi uma chatice monumental, porque, a acrescer ao incómodo habitual, os aeródromos designados pelos russos como seguros e capazes de albergar os vários C-54 e Avro York quadrimotores* e C-47 bimotores* das comitivas, ficavam a 200 Km de Yalta, aonde só se chegava através de uma estrada de montanha sinuosa que demorou seis horas a percorrer de carro...

É fácil de imaginar como Churchill, tradicionalmente conhecido pela sua predisposição para se submeter a riscos mas não a incómodos, deve ter chegado de mau humor, a que a visão do local de alojamento não deve ter servido para alegrar. O Palácio Vorontzov, datado de 1848 e a 17 Km de Yalta, ia buscar o nome a um governador-geral da Crimeia daquela época. O problema é que era pitoresco mas não era grande e fora completamente saqueado…
A comitiva britânica era composta por três marechais, dois almirantes, dezenas de generais e coronéis, além de outras dezenas de funcionários superiores do Foreign Office**. Em grupos de meia dúzia, ou pouco menos, ainda foi possível alojar ali as patentes mais elevadas da comitiva mas o resto teve que ficar num dos sanatórios (contra a tuberculose) da região, muito mais moderno, construído já no período soviético.

O problema particular deste sanatório, onde generais, coronéis e altos funcionários se instalaram em generosas camaratas, aos 20 em cada uma, era a falta de planificação socialista das instalações sanitárias (havia um lavatório por camarata...), o que obrigou à requisição de bacias suplementares para que o generalato britânico se pudesse apresentar devidamente escanhoado pela manhã, às mesas da Conferência…
Mas não se pense que os norte-americanos estavam muito melhor instalados. O Palácio Livadia (mais acima), onde tiveram lugar as sessões mais importantes, originalmente pertencera a uma família nobre polaca mas fora comprado depois pela casa reinante em 1860, onde Nicolau II, o último czar, lhe mandara fazer obras de ampliação em 1911. Mesmo assim, os generais eram oito por cada quarto e os coronéis, eram dezasseis...

Mas a grande verdade por detrás destas histórias é que os russos deram o seu melhor para montar esta logística com que os aliados gozavam, de tão espartana. Tudo teve que vir de fora, inclusive o pessoal encarregado dos serviços de hotelaria, requisitado de surpresa sem mais explicações a dois hoteis moscovitas, numa época em que acontecimentos idênticos acabavam na Sibéria, num dos hotéis do arquipélago Gulag.

Os requisitados devem ter sentido um enorme alívio ao verem-se em Fevereiro, em paragens quentes, na Crimeia!... Pior, mas apenas um detalhe, foi a descoberta de um stock de botins de salto alto, requinte impossível de descobrir em países em guerra (milagres de país socialista!…), a que as empregadas não tiveram tempo de se conseguirem habituar, protagonizando grandes espalhanços, para preocupação dos convidados…
Todos estes milagres, que só podem ser atribuíveis à intervenção de Lavrentiy Beria, o dirigente do NKVD que estaria provavelmente a cumprir as ordens de Estaline (supõe-se que mais de 50 comboios foram desviados do esforço de guerra para levar tudo o que era necessário de Moscovo para a Crimeia), eram também patentes na forma como os desejos dos convidados estrangeiros eram escutados e resolvidos de imediato.

Numa das vezes, foi o Marechal do Ar Charles Portal***, que reparou que não havia peixinhos vermelhos nos lagos dos jardins que rodeavam o palácio. Os peixes logo apareceram no dia seguinte… Noutra ocasião, um dos britânicos notou a falta de casca de limão para adicionar aos cocktails. O problema resolveu-se pelo aparecimento súbito, durante a noite, de um limoeiro entre as árvores do jardim do palácio…

Agora quanto à história da Conferência? Isso é outra História…

* Aquela é a designação militar dos aparelhos empregue na altura. A sua designação civil é mais conhecida: trata-se do DC-4 (C-54) e do DC-3 (C-47).
** Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico.
*** Nesta última fotografia, é ele que aparece por detrás de Churchill, falando com o almirante Andrew Cunningham, mostrando-se relutante em assumir a careca.

23 julho 2007

ÉPOCA DE DEFENESTRAÇÕES?

Ainda a propósito dos Habsburgos, e da má relação que nós, portugueses, viemos a desenvolver com eles, ainda são muitos os que se recordam de um famoso episódio da Restauração de 1 de Dezembro de 1640 em que Miguel de Vasconcelos, o secretário de estado da Duquesa de Mântua, a Vice Rainha de Portugal em nome de Filipe IV, foi atirado janela fora (numas versões já morto, noutras ainda vivo) pelos conspiradores que haviam desencadeado a sublevação palaciana naquele dia.
O que já é menos conhecido é que toda a história poderá ser apócrifa, inspirada num episódio semelhante que ocorrera 22 anos antes em Praga, e que ficou conhecido pela Defenestração de Praga, quando os dois representantes e o escrivão de uma delegação enviada por um outro monarca Habsburgo (Fernando II) sofreu igual tratamento e voaram janela fora depois de exasperarem a delegação de nobre checos com quem haviam sido encarregados de negociar (gravura acima).
Este segundo episódio foi menos sangrento que o anterior, embora mais humilhante, porque, alegadamente, os três defenestrados aterraram numa enorme pilha de estrume de cavalo que lhes amorteceu a queda, o que os deve ter deixado combalidos, mal cheirosos, mas incólumes… Dando a volta à Europa, esta história deve ter transformado o gesto da defenestração, aplicado a representantes de um poder central, como um acto poderosamente simbólico de recusa da aceitação de um poder central opressivo.
Fica-me a dúvida sobre quem, por estes dias, me apeteceria mandar pela janela fora para que aterrasse noutro monte de estrume: se Teresa de Sousa e o poder mediático, que se tornou numa espécie de porta-voz, raramente rebatida, da benignidade congénita do poder comunitário; se José Sócrates e o poder político, que, parecendo um adolescente cuja vaidade foi facilmente manipulável pelos interesses alemães, tomou como sua a tarefa das negociações de um tratado que os alemães, pelos anticorpos que geram, dificilmente conseguiriam fazer aprovar.

22 julho 2007

O BORDA D´ÁGUA

Alguém acredita que é possível no mês de Agosto reflectir, apresentar e discutir quaisquer ideias para o partido e o país? Alguém acredita que é possível no mês de Agosto desenvolver actividades junto dos militantes do PSD para que estes possam tomar conhecimento de novas soluções para o partido, de modo que possam votar apenas segundo as consciências bem informadas?

José Pedro Aguiar Branco

Quem assim sustenta as razões que o levam a desistir da sua candidatura à liderança do PSD, recorrendo ao mês do calendário, a que junta ainda a crítica à data limite – 10 de Setembro – para o pagamento das quotas dos militantes que queiram votar, apenas me deixa curioso sobre quais seriam as justificações que apresentaria para os meses de Setembro ou de Outubro… Já nem é caso de embirrar directamente com este promitente militante, é caso de passar a embirrar com quem o classificou de promissor…

A ÁGUIA BICÉFALA DOS HABSBURGOS

Um dos meus problemas para seguir o debate sobre a necessidade do aprofundamento da unidade europeia é a sua abstracção excessiva. Será defeito meu, mas slogans como o hoje caído em desuso a unidade europeia aprofunda-se enquanto avança ou o argumento da premência para que ela se realize como resposta a uma ordem mundial futura constituída por grandes blocos (Estados Unidos, China, Índia) parecem-me ser justificações demasiado simples.

Não me parece justificação suficiente que se abrace um projecto de tal magnitude apenas por causas reactivas – tem de se fazer como os outros, senão… – nem me parece que o estafado slogan de cima explique mais do que uma doutrina de acção sem qualquer outro propósito ideológico que o sustente. Agora, parece ter sido substituído por um não podemos ficar de fora como se tudo não passasse de uma espécie de estampido numa manada que atropelasse a nossa inércia…
E, continuando com a mesma metáfora, parece que o desconforto tem vindo a aumentar entre os vaqueiros, quando certas manadas, após consulta popular, não têm entrado nos currais que lhes pareciam ser destinados. É que, contrariamente às ovelhas da famosa quinta revolucionária de Animal Farm de George Orwell, estes animais são bastante mais difíceis de ensaiar para que eles modifiquem a sua opinião*: quais são as vantagens e qual é a oportunidade da introdução deste novo tratado?

De facto, as explicações dos analistas políticos que me parecem estar mais ajustadas aos factos que se vão desenrolando na política europeia, baseiam-se em manobras de política real e em estadistas que manobram em função das vantagens que venham a ser adquiridas pelo seu país natal. Fica a sobrar muito pouco para o ideal europeu, a não ser para referências ao professado pelos pais fundadores como Monnet (1888-1979) ou Schuman (1886-1963), e mesmo esses porque já morreram há muito...
Mas, se a opção for a de tomar o assunto pelo seu lado pragmático, torna-se um exercício muito curioso pegar na União Europeia com o seu formato actual de 27 países e tentar compará-la com alguns aspectos do antigo Império Austro-Húngaro de 1918. Diga-se, de antemão, que há diferenças evidentes entre eles: abrangendo quase toda a Europa, a União Europeia actual já tomou dimensões que os Habsburgos nunca sonharam que o seu Império viesse a ter – e se eles eram ambiciosos**…

Para mais, enquanto o velho Império apareceu como uma super-estrutura feudal que se formou, através de uma política matrimonial oportunista e cuidadosamente reflectida, e que foi sendo concretizada muito antes do aparecimento da importância do factor das nacionalidades para a definição das fronteiras da Europa, a actual União Europeia partiu precisamente já dessas fronteiras traçadas pelas nacionalidades e procura agora métodos de as diluir, dando poderes à super-estrutura central.
Mesmo com as direcções políticas centrais lutando com as da periferia para evitar que se desse a desagregação do Império Austro-Húngaro ou, inversamente, lutando contra elas para forçar a agregação da União Europeia, parece que as duas estruturas são capazes de se terem encontrado numa distribuição de poderes entre centro e periferias muito aproximada, embora tendo vindo de direcções políticas diametralmente opostas. E há ainda muitos outros aspectos adicionais que tornam a comparação relevante.

Suponho que a visão do mapa étnico-linguístico do Império Austro-Húngaro em 1914 (acima), pode servir de amostra de como era a sua complexidade interna, e como ele pode servir como uma versão em miniatura do que acontece com a diversidade da União Europeia actual. Mais do que isso, há ainda que recordar como estas representações gráficas têm de ser necessariamente simplificadas, e não podem mostrar na forma devida, as coabitações entre as diversas populações***, hoje empoladas ainda mais pelas imigrações.
Curiosamente, ainda hoje tem renome a burocracia imperial e quão inventiva ela se podia mostrar a arranjar lugares confortáveis aos potenciais líderes nacionalistas e às clientelas deles dependentes, quando eles pudessem pôr em perigo a harmonia vigente dentro do Império. O preço a pagar, por esse sacrifício de recursos para a compra de paz social interna, era um estádio de desenvolvimento económico inferior ao das outras potências europeias. Seria o equivalente da nossa Europa Social moderna.

Outra semelhança engraçada foi a forma como se convencionou, a partir de 1867, reformar a direcção política numa liderança conjunta entre austríacos e húngaros (a lembrar o sempre citado - e agora muito fanado - eixo franco-alemão), com governos distintos em Viena e Budapeste, embora compartilhando o mesmo ministro dos estrangeiros (tal qual Javier Solana?). Como no caso do eixo actual, aquela bicefalia aparente escondia uma superioridade clara dos parceiros germânicos...
Embora o futuro da Europa seja uma incógnita, o exemplo que recolho da História que mais se aproximará do que creio que possa vir a ser o modelo mais plausível de vir a ser aplicado a prazo na União é precisamente este, o do Império Austro-Húngaro... Que, não tendo o carisma histórico doutros grandes Impérios do passado que se costumam evocar quando se fala da construção europeia (como é o caso do Império Romano ou do Império Carolíngio) também teve as suas virtudes****...

E, porque este modelo imperial me parece uma boa concretização do modelo de um certo futuro europeu, que se torna muito mais compreensível que as formulações abstractas que os defensores do aprofundamento dos poderes centrais costumam apresentar em defesa das suas teses, mais se reforçam as minhas reservas quanto à utilidade política da aceleração do ritmo a que elas se venham a processar, através do agendamento forçado da ratificação de tratados de cuja necessidade se desconfia cada vez mais…

Ou, dito de maneira clara, não vejo razões para que haja tanta pressa para que uma espécie de nova águia bicéfala paire sobre o continente…

* Recorde-se que as ovelhas eram os animais encarregados de repetir slogans para abafar o debate. Inicialmente, quando da revolta dos animais, o slogan era quatro patas bom, duas patas mau!; depois, quando os porcos passaram a andar em duas patas e depois de um período de ensaio o slogan mudou para quatro patas bom, duas patas melhor!!!…
** O mote da família era: Austria est imperare orbi universo (AEIOU) - Compete à Áustria governar todo o mundo.
*** No censo de 1910, numa população de 51,4 milhões de habitantes, 12 milhões foram classificados como alemães (na realidade, declararam falar predominantemente o alemão em contactos sociais), 10 milhões como húngaros, 6,4 como checos, 5,0 como polacos, 4,4 servo-croatas, 4,0 ucranianos, 3,2 romenos, 2,0 eslovacos, 1,3 eslovenos e 0,8 italianos. Para complicar, a maioria confessava-se católica (39,4 milhões – 76,6%), mas havia minorias significativas de protestantes e ortodoxos (4,6 e 4,5 milhões), além de 2,3 milhões de judeus espalhados por todo o Império e ainda 700 mil muçulmanos!
**** Nomeadamente, ter servido para manter a Europa Central sob hegemonia alemã durante o século XIX, o que parece ser um dos objectivos prioritários que os alemães querem recuperar no século XXI.

21 julho 2007

JOÃO COITO

Antes da política ter entrado para a televisão como assunto normal, o que só aconteceu depois de 25 de Abril de 1974, os assuntos de política, ou eram tratados directamente do produtor para o consumidor, sem vestígios de contraditório, como acontecia com as famosas Conversas em Família do presidente do conselho, Marcello Caetano, ou então estavam a cargo de comentários dos comentadores especializados de jornalistas devidamente doutrinados como era o caso de João Coito (abaixo).
O que melhor recordo de João Coito era a sua voz, que era ao mesmo tempo tão grave quanto extremamente seca. Lembro-me também de como a maioria das pessoas não prestavam atenção ao que dizia, como se o assunto de que falava fosse para entendidos, como uma página de economia ou de cotações de bolsa, ou um qualquer programa de filatelia. E de como, para quem lhe prestava atenção, a sua tarefa era explicar assuntos que, mesmo para um leigo, tinham facetas de inexplicável.
Mesmo para um puto muito atento e extremamente receptivo como eu era então, tornava-se difícil captar a importância que João Coito pretendia conferir a uma cerimónia como foi a da reeleição do presidente Américo Thomaz por um colégio eleitoral em Julho de 1972 - o colégio era composto maioritariamente por velhos jarretas, eu vi, a televisão deu a cerimónia em directo... Se só havia um candidato, onde estava a importância, a emoção e o interesse da cerimónia? Solenidade? Estamos de acordo. Agora o resto…
A subtileza de muitos outros assuntos que João Coito tratava, escapava-me. Os actos eleitorais, contudo, com a ausência de disputas entre esquerdas e direitas, como se ouvia que acontecia no estrangeiro eram um verdadeiro desapontamento – vide as eleições legislativas de 1973 (cartaz de cima). Também não era assunto que se falasse frequentemente, tanto em casa, como entre amigos. Será este desinteresse actual pela política de que se fala um retorno à mesma fase de um ciclo que se repete? É que, desta vez, a culpa não é do fascismo…

OS MIRAGE III E OS MIG 21, OS COW-BOYS E OS ÍNDIOS DO AR

O Estado de Israel passou os primeiros 20 anos da sua existência (1948-67) a desenvolver um notável programa de capitalização das simpatias alheias, a começar pelos sentimentos de remorso dos países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Poucos saberão que a União Soviética de Estaline foi a primeira potência a reconhecer o Estado de Israel e que a Checoslováquia foi um dos seus primeiros fornecedores de material de guerra. Só depois, a lógica da Guerra-Fria os colocou em campos opostos.

O sucesso do programa constatava-se nos princípios de 1967 quando o bloco ocidental em peso tomava como suas as penas de Israel no conflito israelo-árabe. Depois, Israel passou os 40 anos seguintes a ser muito mais selectivo nas opiniões públicas que procurava cativar (Estados Unidos), até chegar à situação actual, onde a hostilidade europeia o levou a desenterrar o fantasma do congénito anti-semitismo europeu… Mas isso, não interessa agora para a nossa história.
Pelo contrário, nessa outra encarnação eram os norte-americanos que eram antipáticos e não queriam fornecer a aviação militar aos israelitas que se equilibrasse áquela que os soviéticos estavam a fornecer aos países árabes. Foi a oportunidade de ouro de ver os produtos da indústria francesa (os caças Mirage III – primeira fotografia) a participarem no que era percebido como uma frente de combate da Guerra-Fria contra o último grito da tecnologia soviética (os caças Mig 21 – fotografia de baixo).
Nesta disputa explicada com a simplicidade de um jogo de crianças, com cow-boys bons e índios maus, a reputação do Mirage III cresceu subitamente, como se fosse impulsionada por um afterburner (ou pós-combustão*), devido ao sucesso israelita na Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, que começou a ser ganha quando os israelitas adquiriram superioridade aérea sobre os árabes: os combates terrestres – donde Israel saiu sempre vitorioso – foram todos travados sob um céu israelita

Sob essa impressão de superioridade técnica, o Mirage III tornou-se um poderoso argumento da política externa francesa junto da generalidade dos países árabes, especialmente os produtores de petróleo. Assim, em 1970, por exemplo, a França acordou vender 50 Mirages III à Líbia, numa transacção aparentemente absurda para um país que tinha naquela época uma força aérea militar incipiente. O tema foi levado também para a ficção, nomeadamente através da BD de Tanguy e Laverdure (abaixo).
O emirato dessa ficção chamava-se Sarrakat, ficava algures na península Arábica, era riquíssimo em petróleo (claro está!) e o emir designado chamava-se Azraf, estava a formar-se incógnito como piloto de caça na força aérea francesa e era baixinho e com um bigode fino, parecia decalcado da figura do rei Hussein da Jordânia. Os maus tinham usurpado o trono e comprado Migs 21 e Azraf, quando chegasse ao trono, iria provavelmente comprar muitos Mirages III, que os bateriam em combate aéreo (abaixo)…
A verdadeira História é outra… A esmagadora maioria da aviação árabe (incluindo os Mig 21) foi abatida no solo – como se vê na fotografia abaixo, onde ainda se nota a silhueta do Mirage III de reconhecimento, encarregado de avaliar os estragos… – e os resultados dos combates individuais no ar travados naquela Guerra, embora fossem globalmente favoráveis aos israelitas, isso resultava muito mais do melhor treino fornecido aos seus pilotos do que às características técnicas dos aparelhos que pilotavam…
O que os israelitas pensavam realmente da superioridade dos Mirage III face à tecnologia soviética, veio a compreender-se depois, quando eles não descansaram enquanto não equiparam a sua força aérea, no final da década de 70, com caças F-15 de origem norte-americana e não impediram os seus potenciais oponentes – nomeadamente o Egipto – de os vir a adquirir. Hoje, os F-15 – um caça que é só operado por israelitas, sauditas e japoneses, além do país de origem... – ainda constituem a coluna vertebral da sua força aérea…

* Dispositivo acoplado aos tradicionais motores a reacção que permite, à custa de um consumo de combustível múltiplo do normal, obter acelerações significativas. Só costuma ser usado pela aviação militar.

20 julho 2007

O DESVIO QUE NÃO FOI DE DIREITA NEM DE ESQUERDA, DE INCOMPETÊNCIA TÃO SOMENTE

Escreveu José Pacheco Pereira ontem no seu blogue, num diário da crise do seu partido:

(...) É por essas e por outras do mesmo tipo que nenhum debate no interior do PSD que não coloque a questão da governação PSD-PP com Durão Barroso e Santana Lopes, com maioria absoluta, não chega sequer à superfície de nada.
Como costuma ser frequente, José Pacheco Pereira é extremamente perspicaz na identificação do diagnóstico embora ele seja acompanhado pela – também tradicional – falta de sentido prático. É muito óbvio onde quer chegar e que conclusões extrair com a sua proposta de debate no interior no PSD. O partido teria que renegar e purgar-se de uma fase (triste) do seu passado, à semelhança do que aconteceu com o desvio de direita de Júlio Fogaça no PCP, como ele o irá retratar provavelmente no próximo volume da sua biografia de Cunhal.
Só que o PSD actual é um partido muito mais impuro e muito mais civil do que o PCP da clandestinidade, é composto de interesseiros vulgares e desenrascados, que não têm nada de parecido com as disciplinadas hostes do marxismo-leninismo que visivelmente ainda encantam José Pacheco Pereira. O debate que propõe, sendo sério, seria conflituoso, poderia conduzir a purgas e abandonos, nomeadamente entre a centena de conselheiros nacionais que, calando a deserção de Durão Barroso, ainda por cima sancionaram a ascensão de Pedro Santana Lopes…
Houve uma época em que o PSD funcionou assim, com rupturas, cisões, mas isso passou-se antes de José Pacheco Pereira ter lá chegado. O PSD de agora já não tem nada disso e perdeu essa herança. Pedir-lhe que debata internamente os seus próprios desvios passados, embora seja a solução racional, funcionará com a mesma eficiência com que funcionou a desnazificação que os norte-americanos impuseram aos alemães depois da Segunda Guerra Mundial: muita cosmética enquanto eles pressionaram para depois o assunto ser rapidamente esquecido…
Para mais, suponho que a maioria dos militantes que tiveram cargos de responsabilidade partidária e governamental durante o período de Durão Barroso e Santana Lopes assumiriam honestamente como sua a réplica de um diálogo hipotético travado numa anedota, entre dois membros do aparelho de um partido comunista da Europa de Leste:
- Ouve lá, tu não te desviaste da linha do partido?...
- Não, eu desviei-me sempre com a linha do partido…
O eleitorado, enquanto não se esquecer das suas promessas, é que não lhes perdoa… E quanto a isso, José Pacheco Pereira, não há XX Congresso que valha ao PSD, apenas resignação...

19 julho 2007

MAGALHÃES PASTA, MINISTRO SEM MOTA

O fluir do tempo pode pregar partidas. Já lá vão mais de trinta anos e, em vez da memória dar importância aos que mais se destacaram durante o PREC, hierarquizando-os por ordem de importância conforme o grau de envolvimento no processo, empurra-nos para faces e vozes daqueles que o atravessaram dando mostras de não estarem nada imbuídos do espírito da época, com um grau de distanciamento e uma espécie de olhar trocista sobre a loucura colectiva que envolveu Portugal naquela altura, a que o tempo encarregou de lhes darmos razão.
Joaquim Magalhães Mota foi um dos fundadores do PPD (Partido Popular Democrático, hoje PSD) em Maio de 1974 e foi em representação do partido que fez parte do II, III e IV governos provisórios de Vasco Gonçalves, nas funções de ministro sem pasta (com Mário Soares e Álvaro Cunhal), e onde se criou o trocadilho que o tornou conhecido: de Magalhães Mota, Ministro sem Pasta, para Magalhães Pasta, Ministro sem Mota… Não devem ter sido tempos fáceis para o PPD e seus representantes, apesar do partido se reclamar também do caminho para o socialismo…
Como exemplo de pormenor mas significativo, lembro-me da ordem por que eram apresentados os ministros sem pasta (representantes dos partidos) pertencentes ao IV governo provisório que estiveram presentes nas cerimónias da independência de Moçambique, que se realizou a 25 de Junho de 1975: Álvaro Cunhal, Mário Soares, Pereira de Moura (do MDP/CDE) e Magalhães Mota… Ora os resultados da vontade popular das eleições de 25 de Abril de 1975 (precisamente dois meses antes) tinha ordenado os partidos políticos de uma maneira muito distinta daquela que era enunciada pela comunicação social*…
Mas a imagem de marca que recordo de Magalhães Mota é a televisiva, num daqueles programas de política pura e dura (Responder ao País), onde foi entrevistado por jornalistas claramente engajados** (como então era costume), que lhe faziam perguntas onde a preocupação predominante era a de demonstrar como o PPD era um partido desenquadrado do PREC, e do seu olhar, onde se misturava uma certa bonomia com a ironia com que ouvia a arenga, enquanto atacava, acendia e puxava grossas fumaças de um enorme cachimbo*** para depois responder de uma forma arrastada e exasperadamente calma. Outros tempos, outro partido, apesar de também ter problemas de liderança naquela altura…

* O PS (Mário Soares) tinha tido 37,9% dos votos, o PPD (Magalhães Mota) 26,4%, o PCP (Álvaro Cunhal) 12,5% e o MDP/CDE (Pereira de Moura) apenas 4,1%. Não sendo pelo socialismo, o CDS (de Freitas do Amaral), com 7,6%, não fazia parte do governo.
** Adelino Gomes, José Carlos Megre e José Manuel Galvão Teles.
*** Nos tempos em que se podia fumar na televisão...

RUI RIO

Percebe-se bem como existe um enorme clã que não gosta de Rui Rio e como esse clã tem capacidade de expressão e não perde ocasião de lhe malhar em público, mas, ao proferir declarações especificando claramente que considerava que não se verificava uma situação extrema que o levasse a interromper o seu mandato autárquico, percebe-se como é nestas ocasiões que Rio se afirma por ter um estilo seu, distinto.
Na coreografia habitual das declarações públicas de políticos nacionais, Rui Rio fica com a reputação de não sacar muitos votos pelo método meloso tradicional mas, dando-se ao respeito, talvez os saque à sua maneira – como Jorge Nuno Pinto da Costa terá descoberto, à sua própria custa… Mais do que isso, dentro do PSD dever-se-ia saber que copiar na oposição o modelo do que está no governo nunca compensa…
Basta recordar como no PS, depois das eleições de 1985, se terem convencido que eleger economistas era o que estava a dar e catapultaram Vítor Constâncio para o lugar de secretário-geral para este levar um banho dois anos depois*… Ora, de que serve agora ao PSD apresentar uma personalidade autoritária, no limiar do despótico, a dirigi-lo, quando o PS, além de estar no governo, está tão bem servido a esse respeito?

* As eleições legislativas foram precisamente há 20 anos, a 19 de Julho de 1987 - afluência de 71,5%... O PSD (com Cavaco Silva) recebeu 50,2% dos votos e elegeu 148 deputados enquanto o PS (com Constâncio) teve 22,1% e elegeu 60…

18 julho 2007

OS DOIS RETRATOS DE FRANCISCO I DE FRANÇA

Francisco I (1494-1547), rei de França desde 1515, podia dizer no seu leito de morte que, tirando o facto de não compreender o seu filho Henrique, fora alguém a quem a vida lhe correra particularmente bem. Pertencendo a um ramo colateral da casa real francesa, só um encadeamento especial de acontecimentos o poderia levar a herdar o trono. Sua mãe, Luísa de Sabóia, que enviuvara de seu pai, Carlos de Orleães, quando Francisco tinha apenas dois anos, consagrara o resto da sua vida estragando o filho com mimos, apostando na eventualidade de ele vir a tornar-se rei de França.
Carlos VIII, que fora o único dos cinco filhos de Luís XI (1423-1483) a sobreviver-lhe, morreu acidentalmente em 1498, com apenas 28 anos, sem descendência, depois de ter dado uma descomunal cabeçada num lintel de pedra… Só que o primeiro herdeiro colateral ao trono era o cunhado mais velho de Luísa, Luís de Orleães, que se torna rei com o nome de Luís XII (1462-1515). Ao subir ao trono, com 36 anos, Luís XII anulou um casamento anterior sem filhos e casou com Ana da Bretanha de quem teve 6 filhos, mas onde apenas duas filhas sobreviveram à infância*. A rainha veio a morrer em 1514.

As expectativas entusiasmadas de Luísa de Sabóia sofreram novo abalo quando o rei, ainda no mesmo ano em que enviuvou, se veio ainda a casar aos 52 anos com Maria Tudor, irmã de Henrique VIII de Inglaterra. Mas Luís XII encontrava-se já muito doente e não estava destinado a durar muito mais, tendo chamado o sobrinho (e genro, pelo casamento de Francisco I com a filha Cláudia da Bretanha) para lhe anunciar a previsível sucessão. Pouco tempo depois Luís XII veio a morrer e o ambiente no castelo onde Luísa morava não era propriamente de pesar: O meu filho, o meu César, é rei!Conhecendo este ambiente indulgente que rodeava Francisco I, de quem foi levado a crer que nascera debaixo de uma boa estrela e que valia sempre a pena desafiar a sorte, é mais fácil perceber todas as peripécias posteriores do seu reinado e qual dos dois retratos deste poste que mais será fiel ao seu retrato psicológico. Qual o mais ensaiado e qual o mais genuíno? O retrato de cima é de Jean Clouet (1480-1541) – pai de François, autor de Senhora no Banho, de que já aqui falei – e está datado de 1535, enquanto o de baixo foi pintado em 1534 e é da autoria de Joos de Cléves (1484 ou 1485 – 1540).

* Pela Lei Sálica em vigor em França os direitos de sucessão não podiam ser transmitidos por via feminina.

17 julho 2007

O ESTRANHO CASO DA MORTE DO GENERAL VATUTIN

É raro, mas os generais de alta patente dos exércitos vencedores também podem morrer em acção. Foi o que aconteceu aos generais norte-americanos Lesley J. McNair, que morreu em Julho de 1944 na Normandia, devido a fogo de artilharia amiga e Simon Bolívar Buckner Jr., que morreu em Junho de 1945 em Oquinawa, devido a fogo de artilharia inimiga (japonesa).
Na Frente Leste, depois do Exército Vermelho ter recuperado a iniciativa com a vitória em Estalinegrado (Janeiro de 1943), destacaram-se os casos dos generais Nicolai F. Vatutin, comandante da 1ª Frente da Ucrânia, que morreu em Abril de 1944 e Ivan D. Tcherniakhovsky, comandante da 3ª Frente da Bielorrússia, que era o mais novo dos generais da sua patente (38 anos), quando morreu em Fevereiro de 1945.
Só que os detalhes sobre a forma como haviam morrido os dois generais soviéticos nunca vieram a ser divulgados. Sabe-se hoje que Vatunin morreu em consequência dos ferimentos recebidos numa emboscada montada em Fevereiro de 1944 por guerrilheiros nacionalistas ucranianos, que lutavam simultaneamente contra os alemães e contra os soviéticos. Percebe-se a razão da omissão das autoridades soviéticas.
De facto, ao contrário do que proclamava a sua propaganda, as zonas libertadas da ocupação nazi nem sempre acolheram o retorno dos soviéticos de braços abertos. Os seus relatórios daquela época e posteriores faziam balanços das suas acções de contra-subversão que não se distinguiriam muito dos que viriam a ser feitos pelos portugueses nas colónias dali por vinte anos…
Assim, em Abril de 1946, quase um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial, um relatório abrangendo a região ocidental da Ucrânia referia que 8.360 guerrilheiros haviam sido mortos ou capturados, conjuntamente com 8 morteiros, 22 metralhadoras, 712 pistolas-metralhadoras, 2.002 espingardas, 600 pistolas, 1.766 granadas, 4 impressoras e 33 máquinas de escrever com o custo de 200 mortos entre as nossas tropas…Os relatórios para Spínola, Costa Gomes ou Kaulza de Arriaga não teriam sido muito distintos… Mesmo com o fim da União Soviética, não encontrei mais detalhes sobre as condições da morte de Tcherniakhovsky na Prússia. Até pode ter sido um acidente (o norte-americano George S. Patton Jr. morreu num desastre de viação, o alemão Von Reichenau num de aviação, por exemplo), mas com os soviéticos nunca se sabe…

Fotografias (de cima para baixo): McNair, Buckner, Vatutin, Tcherniakhovsky e Von Reichenau.

´PERA, ´PERA, ´PERA!...

´Pera, ´pera, ´pera!... era uma expressão com que Jô Soares interrompia a explicação do seu parceiro num dos quadros do seu programa O Planeta dos Homens. Repetindo-se a maioria dos quadros de episódio para episódio, como se recordarão os que ainda se lembram do programa, nesse quadro o diálogo entre os dois intervenientes era sempre este:
- Oi, Juca!
- Oi, Zé!
- Você já sabe da última?
- Qu´é que foi?
Aí o Zé começava a contar a novidade, absurda.
- ´Pera, ´pera, ´pera!... – Cortava o Juca (Jô Soares), confundido. E então recapitulava na forma interrogativa o absurdo da novidade que lhe estava a ser contada pelo Zé. Terminava, retirando umas enormes luvas que trazia calçadas, carregado de ironia:
- Eu quero aplaudir…
A novidade que me mereceu o ´pera, ´pera, ´pera instintivo, idêntico ao do Juca, foram as notícias do aparecimento na disputa pela liderança do PSD, a par de Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, da figura não muito conhecida de José Pedro Aguiar Branco. Não se tratará do mesmo Aguiar Branco que, num dos programas Prós & Contras sobre o Aborto na RTP, no princípio deste ano, quando criticava a redacção da pergunta que ia ser posta a referendo, foi confrontado pelo seu companheiro de partido Vasco Rato sobre qual havia sido o sentido do seu voto enquanto deputado, quando questionado sobre a redacção da pergunta?
É que, creio que se trata do mesmo Aguiar Branco, e a sua resposta da altura, expondo a enorme incoerência entre a sua posição enquanto parlamentar (votara-a favoravelmente) e a que ali defendia (criticava-a frontalmente), tornou-se num dos mais interessantes momentos de televisão que presenciei nos últimos tempos. Um episódio embaraçoso e muito pouco abonatório quanto à coerência de Aguiar Branco, embora ache a expressão assassinato de carácter excessiva para o que se passou: em televisão há sempre hipótese que, com o tempo, o carácter ressuscite. Mas não tão depressa… Assim vai o PSD, tão triste e tão frágil, que nem merece a ironia feroz do: - Eu quero aplaudir…

16 julho 2007

A VERDADEIRA GLOBALIZAÇÃO…

… acontecerá quando os figurantes aliciados para a festa de consagração de António Costa, em vez de Teixoso, Cabeceiras de Basto ou Alandroal, vierem da Ucrânia porque a mão-de-obra de lá é (ainda) mais barata…