08 abril 2020

AS MASSAS, OS METAIS E AS MÁSCARAS

Uma das consequências colaterais da presente situação de quarentena é que raramente nos deparamos com grandes ajuntamentos de pessoas. Foi apenas hoje, à porta de uma grande superfície comercial, que constatei o inusitado número de pessoas que passou a envergar máscara. As máscaras são o item da Moda Primavera 2020. De todos os géneros, para todos os gostos, para todos os rostos. Enquanto aguardava (e se aguardei...) a minha vez para fazer compras, a minha imaginação transportou-me até imagens da Segunda Guerra Mundial como as que se vêem acima, quando houve enormes campanhas para angariar sucata de metal, cuja finalidade (aparente) era o seu aproveitamento para a fabricação de armamento: um tanque do exército exigiria uma vintena de toneladas de metal; um navio para a Marinha de guerra, algumas centenas, pelo menos. Nas sociedades dos países em guerra criou-se uma dinâmica competitiva e quase frenética, para a angariação de objectos metálicos. Podiam ser as panelas e as frigideiras de alumínio que os participantes na campanha gostavam de imaginar transformadas em aviões ou então os gradeamentos de ferro forjado, transformados numa outra coisa qualquer (um avião de ferro forjado teria uma certa dificuldade em descolar do solo...). Na verdade, o efeito real desses donativos na produção de guerra foi, na mais generosa das hipóteses, assaz marginal. Os processos de produção de material de guerra exigem um grau de qualidade dos materiais siderúrgicos e metalúrgicos que não se compadeciam com tanta espontaneidade. O verdadeiro valor das campanhas era incrementar o moral dos cidadãos, fazendo com que se sentissem participantes no esforço de guerra.

E é aqui que chegamos às máscaras. A Organização Mundial de Saúde e a Direcção Geral de Saúde não preconizam o uso extensivo de máscaras. Mas as pessoas querem fazer qualquer coisa e participar, tanto mais que, neste caso, sentem que o fazem para sua própria defesa. E é assim que vemos os jornais a publicar instruções como fazer máscaras em casa (abaixo). Nem vale a pena evocar as incongruências de andar a fazer máscaras de pano com roupa velha lá de casa. Como o exemplo de cima, parece-me tratar-se mais de um instrumento para incrementar o moral dos cidadãos do que uma medida verdadeiramente eficaz. Mas, como se costuma dizer consoladoramente nestas ocasiões: mal não faz.

1 comentário:

  1. Não desista Luís Lavoura. Continue a visitar o meu blogue e a tentar publicar comentários despropositados. Um dia destes ainda lhe faço uma imerecida homenagem.

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