Aparentemente, passou de moda complementar a apreciação dos fenómenos políticos recém acontecidos com a reacção das bolsas de valores. Data dessa época a pronúncia da palavra «mercádos», com a sílaba central pronunciada com o a bastante aberto, reforçando pela pronúncia a sua «personalidade» própria - a dos «mercádos», entenda-se... Assim, naquele figurino, a história tradicional era que o eleitorado havia votado num sentido, mas os «mercádos» haviam castigado o eleitorado com uma quebra em bolsa nos dias seguintes, induzindo o leitor desatento a considerar os dois fenómenos em pé de igualdade. Assim, os escrutínios de algumas votações populares valeriam (quase) o mesmo que os indexes de algumas sessões bolsistas... Entretanto, a prática parece ter passado de moda, entre outras razões porque os «mercádos» nem sempre «reagem» a contento da narrativa de quem os quer invocar na defesa de uma tese em que o povo é geralmente estúpido, e que a verdadeira inteligência se deve aferir pelos investidores profissionais e respectivos operadores de bolsa. Passou de moda... e não passou. Aprecie-se o exemplo recentíssimo de uma prometida reconquista das duas câmaras do legislativo norte-americano pelos republicanos em consequência das eleições intercalares, episódio esse que foi crismado em antecipação por red wave, onda essa que, tanto quanto prometida pela comunicação social norte-americana, também veio a ser propagandeada por alguns pategos locais (abaixo, a página de facebook de um desses pategos). A importância da red wave não advinha da cor da onda (vermelho é a cor dos republicanos), mas do facto da vitória dos republicanos representar uma desforra da facção trumpista dentro daquele partido. Só que não houve red wave, o mar ficou flat, para adoptar uma expressão dos surfistas. E os pategos desengalanaram as páginas do facebook logo no dia seguinte. Em 24 horas, red wave tornou-se uma expressão proscrita. Mas não só isso. Os «mercádos» parecem ter acolhido essa calmaria das águas positivamente, aprecie-se acima a subida brusca do índice bolsista Dow Jones, em linha com os restante índices bolsistas americanos. Aconteceu, mas por esta vez ninguém se lembrou de ligar o fenómeno à esta espécie de derrota do trumpismo, vá-se lá saber porquê...
11 novembro 2022
A MORTE DE BREJNEV
11 de Novembro de 1982. Pessoalmente e quando morreu, Leonid Brejnev representava a única União Soviética que eu conhecera. Embora a questão da estrutura peculiar do poder dos países comunistas - era o líder do partido comunista que dirigia o país, não o presidente, não o chefe de governo - colocasse aos jornalistas o desafio de descrever aquilo que Brejnev (neste caso) fizera: ficámo-nos pelo «dirigiu os destinos da URSS durante 18 anos». Torna-se engraçado como tenho Brejnev como pessoalmente simpático, de uma candura rústica, algo caricata, se nos esquecermos daquilo que ele representava: uma espécie de almirante Américo Tomás dos comunistas russos. Hoje sabe-se que Brejnev morreu na noite de 9 para 10 de Novembro, mas que a sua morte só foi anunciada ao fim da manhã de dia 11. Para um regime opaco como era o soviético, a revelação da notícia foi de uma celeridade extrema.
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10 novembro 2022
A DEMISSÃO DO SECRETÁRIO GERAL DA ONU
10 de Novembro de 1952. O norueguês Trygve Lie (1896-1968), o então secretário-geral da ONU demite-se inesperadamente. A sua situação tornara-se extremamente difícil ao contar com a hostilidade declarada da União Soviética (e dos países do respectivo bloco) por causa do comportamento que o secretário-geral adoptara aquando da invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte em Junho de 1950. Desde essa altura, o comportamento dos soviéticos e seus aliados fora sistemático no boicote à acção do norueguês. Mas a gota de água terá sido um ataque vindo do outro lado, dos Estados Unidos e do McCarthysmo, que começara a perseguir funcionários das Nações Unidas de nacionalidade norte-americana por estarem associados a outros acusados daqueles processos anti-comunistas. A posição do secretário-geral tornara-se insustentável. Comprovadamente, qualquer secretário-geral da ONU tem que ter princípios para suscitar respeito, mas não pode ter demasiados princípios, senão arrisca-se a incorrer na ira dos grandes actores da cena internacional. Trygve Lie veio a ser substituído dali por cinco meses (Abril de 1953) pelo sueco Dag Hammarskjöld (1905-1961). A efeméride é também um pretexto para recordar António Guterres, uma grande honra para Portugal, assim como Trygve Lie foi uma grande honra para a Noruega.
ABENÇOADO PAÍS! ABENÇOADO JORNAL! ABENÇOADAS ESTATÍSTICAS!
A pequena notícia consta da primeira página do Diário de Lisboa de 10 de Novembro de 1932.
«Segundo informações oficiais que foram tornadas públicas, verifica-se que o número de desempregados no nosso país é de 30.000, tendo aumentado ligeiramente em relação ao último computo, feito em 30 de Setembro.
Como estamos na quadra em que o desemprego transitório se manifesta com mais intensidade na classe rural, diz o relatório a que nos reportamos, conclui-se que o aumento de desempregados em relação ao mês anterior não é para causar maior abalo sobre a situação económica e social da crise do desemprego».
Para um país que contava então com 6.826.000 habitantes (de acordo com o censo de 1930) e, em função disso, com uma estimativa de uns 3 milhões de activos, isto corresponderia a uma taxa de desemprego de... 1%*. O actual primeiro-ministro António Costa até se deve roer de inveja de como era fácil dar boas notícias há 90 anos, quando o palácio de São Bento era ocupado por António Salazar.
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09 novembro 2022
DE WEBSUMMIT A WEBULLSHIT
Há que reconhecer que a imagem que as organizações das sucessivas Websummits tinham conseguido fixar entre os leigos era, não apenas a da modernidade (com palavras de código como unicórnio e outras mais...), mas também e sobretudo a da excelência. Podia não ser assim na essência, mas era assim na aparência para o exterior. Sobretudo porque o exterior era a opinião pública portuguesa. Era uma magnífica operação de relações públicas concebida para convencer os portugueses que o evento muito importante lá fora. O que acabámos de assistir foi ao colapso do que esteve a ser montado laboriosamente ao longo destes últimos anos: mostrando a fragilidade em que tudo assentava, bastou à estrela da crítica social do momento, Joana Marques, escalpelizar a intervenção na Websummit da estrela televisiva do momento, Cristina Ferreira. Se deixaram esta última ir lá dizer banalidades motivacionais em inglês macarrónico, estamos conversados sobre o que esperar da excelência do evento... E, no entanto, repare-se abaixo como as críticas se concentram na palestrante, e não na organização que a acolheu, apesar da mediocridade dos conteúdos...
O ESCÂNDALO PETRAEUS
O Herdeiro de Aécio já é do tempo em que a figura do general David Petraeus era uma esperança de resolução dos problemas conjuntos do Iraque e do Afeganistão em que os Estados Unidos haviam imergido no final do segundo mandato da administração W. Bush em finais de 2007. O general estava prometido para mais altos voos, veio a assumir mesmo a direcção da CIA em Setembro de 2011, até cair a pique, como Ícaro, neste mesmo dia 9 de Novembro de 2012 em que apresentou a demissão ao recém reeleito presidente Barack Obama, por causa de um caso... de saias. No caso, tornou-se público que David Petraeus, de 60 anos, mantinha uma relação extra-conjugal com a tenente-coronel Paula Broadwell, de 40, que acessoriamente estava a escrever a sua biografia. Pululavam os comentários sobre a dimensão a que a biógrafa se propusera estudar o biografado. Mas, por detrás do humor que procuraria aligeirar o caso, o verdadeiro escândalo Petraeus era outro e esse só se veio a perceber em toda a sua verdadeira dimensão dali por dois anos e meio, quando as televisões e jornais já se haviam esquecido do assunto. E o público também. Em Abril de 2015 o general David Petraeus era condenado a dois anos de pena suspensa e ao pagamento de uma multa de 100 mil dólares, dando-se como culpado de acusações de uso inapropriado de material classificado. Aparentemente, o que havia de incorrecto na relação extra-conjugal é que a namorada de Petraeus tivera acesso, por seu intermédio, a muito material classificado (secreto), ao qual não tinha direito. Portanto, há precisamente dez anos, a carreira política desfazia-se em fumo, por causa do uso e abuso de material classificado. Considerada a gravidade do caso, o FBI desejava uma sentença mais severa, que Petraeus cumprisse pena efectiva. Agora mudemos de assunto: e Donald Trump? Como é que estamos no caso dele de uso e abuso de material classificado?
08 novembro 2022
O BICENTENÁRIO DA BATALHA DE PIRAJÁ
8 de Novembro de 1822. Trava-se a batalha de Pirajá nos arredores da cidade de Salvador na Baía, num local que, entretanto, foi engolido pela expansão metropolitana da cidade (mapa incluso). Para a guarnição portuguesa, onde imperava o atentismo, à espera de instruções de Lisboa depois da proclamação, dois meses antes, da independência do Brasil pelo príncipe-herdeiro, tratou-se de um recontro assim um pouco mais engajado, com um punhado de baixas, tanto mais difíceis de substituir materialmente quando consideradas as circunstâncias das comunicações com a metrópole. Para os assaltantes brasileiros foi uma grande vitória, em que, consideradas as discrepâncias das várias versões entre detalhes da batalha, o número de tropas engajadas e o número de baixas sofridas pelos dois beligerantes, é razoável admitir que a grande baixa deste recontro baiano, terá sido mesmo a verdade sobre o que aconteceu.
OPERAÇÃO VILLAIN
Domingo, 8 de Novembro de 1942, foi um dia destinado a ser histórico: pela primeira vez, os Estados Unidos envolveram-se de uma forma directa no Grande Teatro de Operações da Europa no decurso da Segunda Guerra Mundial. Fizeram-no desembarcando forças suas em conjunção com os britânicos no Norte de África, numa mega-operação anfíbia designada por Operação Torch, cuja intenção era desembarcar um pouco mais de 100.000 homens nas colónias francesas da Argélia e de Marrocos (mapa acima). Enquadradas na Operação Torch estavam previstas algumas operações mais específicas para o controlo de objectivos especiais como portos e aeroportos. Havia, por exemplo, a Operação Terminal, uma acção naval destinada a conquistar intacto o porto de Argel e havia também a Operação Villain, destinada à captura dos aeródromos de Tarafaoui e de La Sénia a Sul da cidade argelina de Orão, operação que tinha a particularidade de ser a primeira acção de combate dos paraquedistas norte-americanos. Seria uma Operação que poderia ter sido a gloriosa percursora de muitas outras executadas pelas tropas aerotransportadas norte-americanas, depois e ainda hoje transformadas em unidades de elite do exército norte-americano,… mas não foi.
Embora destinados a tornarem-se em várias dezenas de milhares até ao final do conflito, os pára-quedistas norte-americanos em finais de 1942 eram ainda muito poucos. As forças disponíveis para a Operação cingiam-se a 556 homens pertencentes ao 2º batalhão do 509º Regimento de Paraquedistas (acima), comandado pelo major Edson D. Raff, que embora já colocados em Inglaterra, prosseguiam ainda o seu aperfeiçoamento operacional naquele país. Os aviões de transporte eram 39 C-47, os melhores aviões de transporte da época. Mas tudo o resto que se relacionava com a Operação eram problemas nascidos da falta de experiência. O ritual que acompanhou o embarque, onde havia instruções específicas de como arrumar os artigos pelos bolsos dos uniformes de salto – dois lápis no bolso peitoral esquerdo, o papel higiénico no das ancas, do lado direito, uma máquina de barbear com quatro lâminas no bolso imediatamente abaixo, o da coxa, as quatro granadas regulamentares nos bolsos do casaco – condena-se mais pela atitude do que pelo rigor, tentando organizar aquilo que a experiência viria a demonstrar depois ser imprevisível. Outros erros, porém, eram mais fácil e mais directamente identificáveis.
Descolando da Península da Cornualha no Sudoeste de Inglaterra, os C-47 teriam que fazer um percurso de 1.800 km, correspondente a cerca de 9 horas de voo, cuja primeira parte seria a afastar-se das costas de França sob controlo alemão para depois atravessar a Baía da Biscaia e a Espanha teoricamente neutral (mas tendencialmente pró-alemã) até atingirem o objectivo (veja-se o trajecto acima ampliando o mapa). Além do entorpecimento, as condições não seriam as melhores para os passageiros, a 10.000 pés de altitude em cabines não pressurizadas. Além disso, como a autonomia do C-47 ronda os 2.500 km, os aparelhos nunca poderiam regressar a Inglaterra, ficava por resolver o problema do seu destino na eventualidade de os paraquedistas não conseguirem capturar em tempo útil os seus objectivos ou se a Força Aérea francesa deixasse as pistas inutilizáveis. Para sete aviões o problema nem se chegou a colocar porque se dispersaram durante a penosa travessia de Espanha, tendo um – o sortudo desse grupo – vindo a aterrar na Base britânica de Gibraltar, outros dois em Fez, no Marrocos francês, que era suposto ser invadido nesse mesmo dia, mas a partir do mar e em Casablanca (ver mapa inicial), e ainda mais quatro que aterraram no Marrocos espanhol neutral, onde as tripulações e os 57 paraquedistas ficaram internados nos três meses que se seguiram.
Mas, se os outros 32 C-47 chegaram à Argélia, o melhor resultado foi obtido por um grupo de três, onde se contava o do comandante do batalhão, que conseguiu acertar com o aeródromo de La Sénia… para serem acolhidos com fogo preciso de artilharia anti-aérea francesa que os impossibilitou lançar os pára-quedistas. A maior concentração de transportadores, mais de uma dúzia e ainda com os pára-quedistas a bordo, acabou por vir a formar no grande lago salgado de Sebkra d’Orão, onde alguns C-47 desorientados que o sobrevoavam se foram reunindo… até atraírem a atenção da aviação francesa que os veio atacar naquele aeródromo improvisado. O major Edson D. Raff que, recorde-se, ainda estava no ar, tentou salvar a honra da unidade, saltando em primeiro lugar do seu avião quando decidiu atacar pela retaguarda uma coluna militar que se aproximava ameaçadoramente da concentração de aviões do lago salgado. Caiu mal, fracturou algumas costelas, e estava doloridamente a cuspir sangue quando descobriu que a ameaçadora coluna militar era afinal norte-americana… As outras tripulações e outros pára-quedistas iam entretanto aterrando desgarrados pela Argélia e por isso sendo feitos prisioneiros pelos franceses. Os pára-quedistas restantes do 509º só alcançaram o aeródromo de Tafaraoui no dia seguinte em camiões, cortesia da 1ª Divisão Blindada dos Estados Unidos.
Com a Operação Villain aprendeu-se imenso mas foi um estrondoso fracasso. Goza do duvidoso privilégio de nem sequer ser mencionada autonomamente na Wikipedia, ao contrário de outros fiascos equivalentes registados naquela mesma altura em Operações anfíbias (Reservist e Terminal), que foram depois promovidas a gloriosos fracassos, através daquele segredo que a Royal Navy sabe tão bem preservar. Com menos pompa mas mais objectividade, na Operação Villain, além de não se ter conseguido atingir nenhum dos objectivos, um balanço efectuado três dias depois constatava que só 14 dos 39 C-47 utilizados permaneciam operacionais. O desgaste humano, incluindo a viagem de nove horas a temperaturas gélidas, fora muito superior: só restavam 15 paraquedistas aptos para nova missão. Só mesmo os mais curiosos conhecem esta alvorada tão pouco auspiciosa das operações aerotransportadas norte-americanas.
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A VITÓRIA ELEITORAL RIBOMBANTE DE FRANKLIN D. ROOSEVELT
A 8 de Novembro de 1932 realizavam-se eleições presidenciais nos Estados Unidos. Para compreender o que aconteceu naquele dia convém perceber como era a geografia eleitoral norte-americana de então, nomeadamente como se haviam distribuído os resultados eleitorais nas eleições presidenciais precedentes ao longo da década de 20. A hegemonia era republicana e os Estados Unidos pareciam politicamente seccionados de uma forma assaz consistente. Nas eleições presidenciais de 1920, 1924 e 1928, os candidatos democratas pareciam estar condenados e confinados a vencer apenas nos estados do Sul, que permanecia o bastião tradicional do seu partido ainda 60 anos depois do fim da Guerra de Secessão (1861-65).
As eleições que há 90 anos tiveram lugar modificaram isso tudo. Mais do que a vitória eleitoral do candidato Franklin D. Roosevelt o que impressiona foi a dimensão de que essa vitória se revestiu quando se comparam os mapas acima e abaixo: mesmo concorrendo contra o presidente Herbert H. Hoover, o candidato democrata venceu em quase todos os estados, transmitindo uma impressão de insatisfação geral do eleitorado com a situação geral dos Estados Unidos no apogeu da Depressão. Numa mais se registou uma transferência de um partido para outro tão ribombante quanto esta e o partido democrata deixou de estar confinado ao seu bastião sulista. Pelo contrário e ironicamente, nos dias que correm os estados do Sul tornaram-se num bastião republicano.
07 novembro 2022
A CONSAGRAÇÃO DA IGNORÂNCIA DA CLASSE PROFISSIONAL DOS OPINADORES POLÍTICOS
Se há alguma ideia forte a reter da maneira como se processou esta recente mudança de secretário-geral do PCP, é que o mundo do nosso jornalismo não "pesca" rigorosamente nada daquilo que realmente se passa no interior do partido comunista. Não fosse assim, e não tinham ficado todos de boca aberta, entre o inquisitivo e o ignorante, sobre a identidade do novo secretário-geral, Paulo Raimundo, apanhados em contrapé pela decisão de Jerónimo de Sousa, que deixou escoarem-se uns bons nove meses, depois do imediato pós-eleitoral em que se pediam as cabeças dos responsáveis dos partidos que se haviam saído mal das eleições, o PCP entre eles. O fiasco. Contudo... Hoje, que é quarta-feira de cinzas desse carnaval da torca de liderança, podemos observar uns, e adivinhar para breve, outros patetas do costume a tentar repegar o fio à meada, como se o que aconteceu não tivesse acontecido. Acima, o exemplo é Ana Sá Lopes que agora nos pretende explicar quem é o gajo que há dois dias ela nem sabia que existia... Mas, como ela, vai haver tantos outros, do António José Teixeira ao José Manuel Fernandes que se vão mostrar incapazes de superar os desafios da honestidade e modéstia para nos confessar, olhos nos olhos, «não faço a mínima ideia de quem se tratava!... Vou aprender e já vos digo.» Já sabem... É sobre esta "qualidade intelectual" que assenta o "opinativismo" em Portugal. E este é apenas um episódio que comprova que as estrelas do métier me parecem muito medíocres e muito pretensiosas, (não sei se) lamento dizê-lo.
PETER SELLERS E O SEU MERCEDES NOVINHO EM FOLHA
Esta fotografia tem data: 7 de Novembro de 1962. O actor britânico Peter Sellers (1925-1980) posa ao lado do seu Mercedes-Benz 300 SE acabado de comprar. O actor preparava-se para começar as filmagens de «A Pantera Cor-de-rosa», filme para o qual criaria uma das suas personagens mais famosas, o inspector Jacques Clouseau.
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06 novembro 2022
UM PAÍS EM TRANSIÇÃO PARA O COMUNISMO
6 de Novembro de 1947. Os últimos ministros não comunistas do governo romeno abandonam-no. Os números da votação da Câmara de Deputados ou estão errados, ou mais de metade dos deputados não votaram, já que a Câmara era composta por 414 membros. Seja como for, o executivo passa a ser exclusivamente comunista e o único anacronismo que fica a subsistir na Roménia é o facto de ser uma monarquia e a existência de um rei, mas isso ia resolver-se rapidamente com a sua abdicação no final daquele mesmo ano a 30 de Dezembro.
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05 novembro 2022
PÚBLICO: CASA ARROMBADA, TRANCAS À PORTA E INSULTOS À INTELIGÊNCIA DOS LEITORES
Eu não sei quem é que José Manuel Barata-Feyo e Manuel Carvalho quererão enganar com esta sua nova dinâmica anti-plágio: «O PÚBLICO vai adoptar um "código penal" interno que visa prevenir com seriedade os autores de plágios» Depois da cobertura que os dois deram ao protagonista do episódio Belanciano, dá-lhes agora esta metamorfose de lagarta para borboleta. Agora, vêm acompanhar mais uma investida e uma denúncia, clamorosa (e, imagine-se, também esta involuntária...), como se fossem forcados de uma daquelas pegas de cernelha, em que se evita ficar de frente para o touro... E se José Manuel Barata-Feyo, que tem um estatuto específico naquele jornal, mostrasse ter vergonha naquela cara?... Pelos vistos, ele não percebe que ele há mudanças que não podem ser feitas naquele jornal avalizadas por pessoas que construíram uma reputação recente como a dele.
O ABOLETAMENTO DE TROPAS
As notícias da Lusa são um monumento à ignorância e à incompetência. No caso acima, a crítica principal que fazem aos militares russos é de uma prática tão antiga quanto a guerra: o aboletamento, o alojar ou aquartelar soldados em casas particulares por falta de instalações adequadas. São situações que estão previstas no nosso próprio Código de Justiça Militar! Quanto a ignorância atinge uma tal dimensão, pode dizer-se mal de tudo, porque não se possui uma perspectiva da razoabilidade de nada. E este género de ignorância é eclética e imparcial: hoje é anti-russo; amanhã é anti-ucraniano.
«QUELQU'UN M'A DIT»
5 de Novembro de 2002. É a data do lançamento deste sucesso musical interpretado pela «manequim depois tornada autora-compositora-intérprete» Carla Bruni. O disco irá vender 2 milhões de exemplares (1,2 milhões em França e 0,8 no estrangeiro). Dali por um pouco mais de cinco anos, Carla Bruni irá tornar-se ainda mais famosa, ao adicionar um bom bocado mais de glamour ao palácio do Eliseu, quando casou com o presidente de França da altura. A venda dos seus discos é que diminuiu bastante depois disso - 75.000 exemplares em 2013...
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04 novembro 2022
O ASSASSINATO DO GENERAL VICTOR LAGO ROMAN
4 de Novembro de 1982. A ETA assassina em Madrid o general comandante da divisão blindada «Brunete», a mais importante e simbólica unidade do exército espanhol. Havia-se passado unicamente uma semana desde a vitória dos socialistas do PSOE nas eleições legislativas e a organização terrorista basca marcava a agenda política com este atentado, que era uma descarada provocação à instituição militar espanhola, que constituía, com a (muito mais discreta) magistratura, um dos dois pilares mais retrógrados (franquistas) da sociedade espanhola. O alvo fora escolhido pela ETA com toda a precisão. O general Victor Lago Roman, aos 63 anos, constituía um dos últimos verdadeiros veteranos da guerra civil (1936-39) que ainda permanecia no exercício de verdadeiras funções de comando: galego (como Franco), Victor Lago apresentara-se como voluntário no início da guerra, ainda com 17 anos, para, a partir daí, prosseguir uma carreira destacada como oficial que incluía a indispensável presença na divisão Azul, que lutou ao lado dos alemães na frente Leste durante a Segunda Guerra Mundial. A sua pessoa e a sua atitude constituíam um dos últimos símbolos de uma certa arrogância desfasada dos da sua geração, sem quaisquer procedimentos de segurança contra atentados terroristas: viatura sem escolta, ostensivamente assinalada, sem guarda-costas e frases grandiloquentes: «Si vienen por mí, que vengan; no tengo miedo, pero no quiero que muera nadie más». Um herói... e um alvo fácil. Não se sabe quando as cúpulas da ETA decidiram o atentado, mas a sua montagem terá sido simples. Uma moto, dois passageiros armados e um engarrafamento tradicional matinal no centro de Madrid. Só seria uma surpresa para aqueles que se tivessem esquecido que naquela mesma cidade e nove anos antes, a mesma ETA assassinara num outro atentado à bomba contra a viatura que passava, o próprio presidente do Conselho de Ministros espanhol, almirante Carrero Blanco... Mas, ao contrário deste, que parece ter sido accionado do pé para a mão, esse outro atentado dera-lhes muito trabalho a planear... Acessoriamente, este blogue completa hoje 17 anos; para o ano já pode votar...
03 novembro 2022
«Porque é que Miguel Alves ainda continua no Governo?»
Por muito que me irrite e frustre a resposta que tenho para dar à pergunta (enviesada) de João Miguel Tavares, tenho que reconhecer que, colectivamente, todos sabemos intimamente que, tivesse Miguel Alves permanecido na Câmara de Caminha, e este escândalo, que tanto indigna João Miguel Tavares, nunca teria sido escândalo, i.e., assim promovido na opinião publicada. Não tivesse Miguel Alves vindo para o governo há apenas mês e meio e a «história edificante» - na descrição do opinador, com o qual concordo totalmente no desprezo que ele manifesta pelas habilidades do protagonista - a «história», escrevia eu, nunca teria chegado às narinas de José António Cerejo, que só é um grande jornalista de investigação quando o abastecem de material. E é ai que «a porca torce o rabo». Há um ditado popular português que é mais citado do que entendido: ou há moralidade ou comem todos. E aqui «a moralidade» seria o exercício cívico de denunciar a profusão de ilegalidades que se suspeita - com algum fundamento - que ocorrerão nas 300(!) autarquias deste país. Mesmo nas irregularidades que são denunciadas, como é o exemplo recente da de Montalegre, não se costuma dar o ênfase suficiente aos anos de impunidade que precederam a denúncia dos escândalos: «...a detenção do presidente da câmara não apanhou ninguém de surpresa» - é o que se lê em título. Por outro lado, o que descredibiliza o panorama é haver uma selectividade de denúncias em função das inimizades políticas e pessoais (neste caso em concreto, não me surpreenderia nada que a denúncia tivesse saído de um rival local do PS...), ou então a selectividade das denúncias estabelece-se em função da atractividade mediática do denunciado. Ainda na semana que passou, houve uma notícia que nomeava um conjunto de seis autarcas vários acusados pelo MP do crime de prevaricação, mas os cabeçalhos iam todos para o nome... de Isaltino Morais (por aí se vê que os jornalistas é que sabem do que o povo gosta...). Em suma, quem quer prestar atenção a todos estes episódios de irregularidades e corrupção nas autarquias - que, desconfia-se, chegariam para encher páginas quotidianas - não pode levar a sério aqueles que aparecem porque se percebe haver uma selectividade nas denúncias. E quem os quer levar a sério - como aparentemente será a intenção acima de João Miguel Tavares - ... não deveria, porque é uma parte diminuta e distorcida das denúncias das irregularidades autárquicas. E é aqui que eu tenho que reconhecer, embora contrariado, que António Costa agora, mas os presidentes dos executivos em geral em Portugal, no passado, se podem marimbar para estes exercícios de indignação moralizadora, como este que agora é protagonizado mais acima por João Miguel Tavares. É que o escândalo mais escandaloso parece ser o escândalo do momento; mas é comprovado que depois aquilo passa depressa... E é que eu estou mesmo a imaginar António Costa a parafrasear Harry Truman sobre um ditadorzeco de uma república centro americana e a respeito deste Miguel Alves trazido de Caminha para a capital: «É um aldrabão? Mas é um dos nossos aldrabões.» Um aldrabão dos do Costa, não dos meus, que não tenho preferências...
Adenda de dia 7 de Novembro: Toda a argumentação supra assentava no pressuposto que o visado se iria manter calado, hirto e firme como uma barra de ferro, naquela descrição inolvidável do professor Alexandrino, hipnotizador. Mas não: Miguel Alves saiu a terreiro, ontem deu uma entrevista à TSF em que tentou defender o indefensável, gesto que veio alterar as minhas premissas do problema. Como diz o outro: fizeram-lhe cócegas, ele riu-se, agora vai-se foder... e eu não tenho pena.
AINDA UM OUTRO EPISÓDIO DA GUERRA SINO-INDIANA
3 de Novembro de 1962. Apesar das atenções do mundo se concentrarem no bloqueio naval de Cuba e na disputa entre soviéticos e norte-americanos, estes últimos não se distraíam dessa outra confrontação que estava a decorrer ao mesmo tempo nos cumes da cordilheira dos Himalaias entre chineses e indianos. E, surpreendentemente para o que vieram a ser os alinhamentos da Índia e da China depois disso até ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos saíam neste caso em apoio da Índia - que estava a ser derrotada - fornecendo-lhes armamento pertencente às tropas norte-americanas então estacionadas na Europa. Transportadas desde a Alemanha e mais do que se pode ler na notícia acima, aviões C-130 começaram a transportar para Calcutá, para além do armamento acima descriminado, artilharia de montanha para contrariar a superioridade que os chineses estavam a exibir nos campos de batalha. E este é apenas mais um daquelas dezenas de episódios, depois de 1945, em que os Estados Unidos municiaram generosamente aqueles que eles consideravam estar a combater por interesses estratégicos que lhes convinham, aos próprios Estados Unidos. Como hoje está a acontecer com a Ucrânia...
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02 novembro 2022
COMUNISTAS E SINDICALISTAS, UMA DISPUTA DE RUFIAS
2 de Novembro de 1922. Esta notícia do Diário de Lisboa fornece uma excelente imagem de como os meios dominantes à época apreciavam as disputas sindicais. José Gomes Pereira, o «Avante», filiado no Partido Comunista, havia sido apunhalado, e em retaliação, o sindicalista Manuel Maria foi para o Alto de S. João. Se a Central Operária C.G.T. se tornou apenas numa memória, o mesmo não se poderá dizer do Partido Comunista (Português), formação centenária, para a qual esta sua fase embrionária em que se empenhava em disputar a condução da classe operária aos anarco-sindicalistas da CGT, se assemelharia a uma guerra de gangues, episódio bastante embaraçoso. Tão embaraçoso que terá tanto de valor histórico como valor político para ser convenientemente esquecido... Aquele slogan tão repetido pelos comunistas das justas lutas dos trabalhadores não é para eles o verem associado a tiros e navalhadas.
01 novembro 2022
BORIS JOHNSON E O «COPYRIGHT»
Para que não se diga que andamos sempre na cauda da Europa, aquilo que acima vemos Boris Johnson a fazer é a recuperar uma ideia - aliás, bastante óbvia - já usada por Pedro Santana Lopes nos princípios do século e a aplicá-la a sacos de serapilheira ou coisa parecida. Desde o canto superior esquerdo e no sentido dos ponteiros do relógio: Benjamin Disraeli (1804-1881), Winston Churchill (1874-1965), Margaret Thatcher (1925-2013) e BoJo Himself (Boris Johnson 1964-....). Aparentemente, e não esquecendo a adição mais recente de Pedro Passos Coelho e apesar dos seus quase 50 anos de história, o PSD terá mais primeiros-ministros por que se orgulhar do que os 220 anos de história dos tories...
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