01 fevereiro 2019

COMO DAVOS - E A PACIÊNCIA COM A EVASÃO FISCAL DOS MULTIMILIONÁRIOS - PARECEM ESTAR A SAIR DE MODA...


Sem a presença de Trump, May, Macron o Forum de Davos deste ano parecia fadado a juntar-se sem nota relevante ao merecido esquecimento dos fóruns dos anos antecedentes, não tivesse havido esta intervenção acima de um historiador holandês desconhecido de 30 anos chamado Rutger Bregman, que, novato naquelas andanças, resolveu estragar a coreografia e dizer o que pensava verdadeiramente. Como se pode ler no artigo do The Guardian que o entrevista:
 
«I more or less ignored the question asked by the moderator and gave my speech instead. It was mainly to ease my own conscience: someone has to say what needs to be said. (...) nobody raises the issue of tax avoidance and the rich not paying their share. It is like going to a firefighters’ conference and not talking about water.»
 
Perdida entre milhares de intervenções, esta em particular, ocorrida nos primeiros dois minutos de um painel sobre a desigualdade que fora organizado pela revista Time, e deverá à linguagem vívida do orador («stupid philanthropy schemes») e ao acolhimento das redes sociais a sua posterior popularidade inconveniente. Como aconteceu anteriormente com outros protagonistas de outras iconoclastias (Tobin, Piketty), arrisco-me a antecipar que o momento o irá catapultar para famas que durarão mais de quinze minutos. Só que, depois, não acontece nada. Quanto aos leitores que prefiram a versão traduzida da intervenção (e a correspondente cobertura do acontecimento...) sugiro-lhes que esperem pela do Observador... Fazem-no com o entusiasmo de quem mastiga um sapo, mas, mesmo a respeito destes assuntos, eles obrigam-se aos serviços mínimos...

DA SÉRIE «PROMESSAS SOLENES QUE SE FAZEM QUANDO DOS TEMPOS DE ANTENA»...

...e que depois nunca são escrutinadas, a não ser que os seus rivais políticos directos queiram derrubar aqueles que as fizeram. Na perspectiva dominante do tandem existente entre política e jornalismo, a pergunta óbvia aqui seria: porque é que valeria a pena estar ainda a embirrar com Maria Luís Albuquerque, quando ela já há tanto tempo deixou de ser ministra das Finanças e nem perspectivas terá de ascender a breve prazo dentro do PSD? Ou seja, a ideia prevalecente é que a crítica política não é para ter ética, apenas se compreende à luz da sua oportunidade e funcionalidade, e isso mesmo que os motivos invocados sejam éticos. Entendamo-nos: o problema aqui não é de Maria Luís Albuquerque, que até poderia ter as razões mais aceitáveis para não estar presente naquelas sessões da Assembleia Municipal, a questão é porque é que nenhum jornalista lho quis perguntar, tendo em atenção especialmente as promessas eleitorais que ela fizera na campanha...

30 janeiro 2019

O «ROOFTOP CONCERT» DOS BEATLES


30 de Janeiro de 1969. Data da última actuação pública dos Beatles que, ainda por cima, teve lugar no terraço do edifício do nº3 de Savile Row em Londres, onde estava sedeada a Apple, a editora discográfica dos músicos da banda. A actuação durou uns três quartos de hora até a polícia ter aparecido - saudada pelo hit Get Back (abaixo) - a pedir que baixassem o volume de som. Por essa altura, já substancial parte de toda a vizinhança se tornara espectador da actuação. Hoje o evento é recordado como o rooftop concert dos Beatles.

29 janeiro 2019

S(TARB)UCKS

Em honestidade, começo por confessar que não aprecio o conceito do franchise Starbucks. Não terei entrado muito mais do que umas três vezes nas suas lojas. É um estrangeirismo que não acrescentou valor aos espaços de lazer que já possuíamos naquele mesmo género. Mas o que possa pensar sobre as especificidades da actividade são irrelevantes para o que quero deixar expresso da protocandidatura deste senhor Howard Schultz. Como se assinala no título, também eu não gosto, embora creia que o faça por razões diferentes das dos democratas e de Donald Trump. É que me parece que a protocandidatura assentará no pressuposto que se poderá substituir a disfuncionalidade de Donald Trump por um outro multimilionário, mais qualificado, mais cultivado, com um ego mais suportável e com os pés mais assentes na terra que o actual inquilino da Casa Branca. Ora essa ideia que os Estados Unidos podem ser governados como se se tratasse de uma gigantesca corporação - a U.S.A. Inc.- constitui um daqueles mitos que, de quando em vez, reaparece à superfície - a última vez precisamente em 2016. Ressurgência que está a ser flagrantemente desmentida pela evidência dos factos: o Congresso dos Estados Unidos não é uma daquelas complacentes assembleias de accionistas que aprovam de mão beijada tudo o que o CEO quer e com que esta gente (Trump, mas também Schultz) está habituada a lidar. Penitenciando-me porque o trocadilho é primário e, ainda por cima, está em inglês, esta candidatura do ex-patrão da Starbucks just sucks.

«I DON'T LIKE MONDAYS»

29 de Janeiro de 1979. Segunda Feira. Brenda Ann Spencer de 16 anos, pegou na espingarda que recebera pelo Natal começou a disparar de sua casa para o recreio da escola primária que ficava do outro lado da rua. Matou dois adultos, feriu oito crianças e ainda um polícia que acorrera ao incidente. Teria sido mais um episódio do género nos Estados Unidos, rapidamente suplantado na atenção mediática por outro igualmente horroroso, não fora a celebridade da resposta que deu a um repórter que a conseguiu contactar por telefone enquanto se encontrava barricada em casa: quando questionada porque estava a agir daquela maneira respondeu que «Não gostava de Segundas -Feiras. E que o que estava a fazer animava o dia.» Se a violência e a associablidade alguma vez puderem ser qualificadas de cândidas, esta seria uma grande ocasião para o fazer. Apesar da ser menor, Brenda Spencer veio a ser julgada como adulta e condenada a uma pena entre os 25 anos de prisão e a perpetuidade. Quarenta anos depois ela continua a cumprir a pena, mas quem terá ganho a maior notoriedade com tudo aquilo que aconteceu terá sido a banda irlandesa Boomtown Rats que lançou naquele mesmo ano a música I Don't Like Mondays, que alcançou o top de vendas. Considerado o sucesso que alcanço, na época e ainda hoje, haverá quem (re)conheça a melodia sem conhecer, para além do refrão da música, os detalhes sinistros da história que está por detrás.

28 janeiro 2019

PORQUE É QUE OS ESCÂNDALOS NA ALEMANHA SÃO MENOS ESCANDALOSOS QUE NO RESTO DO MUNDO?

Berlim tem um aeroporto novo, (quase) pronto a estrear, que anda há mais de meia dúzia de anos à espera para ser utilizado. Ao contrário do da Portela, que só foi baptizado depois de usado até à exaustão, este novo de Berlim até já foi baptizado antes de ter préstimo, e com o nome apropriado de Willy Brandt. Desde a unificação (que já ocorreu há 28 anos!), que se percebeu a necessidade de concentrar os vários (três!) aeroportos que serviam uma cidade dividida: Berlim Ocidental era servida pelos de Tegel e Tempelhoff (este entretanto foi encerrado em 2008) e Berlim Oriental usava o de Schönefeld. Junto a este último decidiu-se construir um novo aeroporto, muito maior, que substituísse os dois primeiros, que já não tinham possibilidades de expansão porque localizados dentro da cidade (onde é que já se ouviu isto?). As obras para a construção do novo aeroporto iniciaram-se em Setembro de 2006 e... ainda não acabaram. A última data prevista para a inauguração, depois de dezenas delas terem sido anunciadas, é Outubro de 2020 - o que corresponde a um atraso de nove anos em relação às previsões iniciais! É daquelas coisas que não se explicam mas, quem me estiver a ler e se quiser entreter, tente fazê-lo nas páginas da wikipedia ou em outras publicações. Mas aquilo que considero mais peculiar em todo o assunto não tem nada a ver com a engenharia, mas com a cultura: não se consegue traduzir a expressão obras de Santa Engrácia para alemão. Nesta coisa de aeroportos, podemos ter problemas como o português, de ir protelando a implementação de uma solução aeroportuária para a cidade de Lisboa; podemos ter problemas como o espanhol do aeroporto de Ciudad Real, uma solução complementar desnecessária para a cidade de Madrid (o verdadeiro mamarracho); mas não parece haver problemas com a solução que há anos se aguarda para Berlim: se não forem devidamente explorados pelos actores políticos e, através deles, pela comunicação social, os escândalos e as malversações de dinheiro público deixam de existir na consciência da esmagadora maioria das pessoas.

27 janeiro 2019

DUAS NOTÍCIAS DIALÉCTICAS DE HÁ SESSENTA ANOS

27 de Janeiro de 1959. Emparelhadas na última página do jornal, duas notícias importantes para os comunistas de todo o mundo, unidos:
a) Ocorrera a inauguração, em Moscovo, do 21º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Expressamente ao contrário do que acontecera durante o congresso precedente, ainda hoje reputado pelo secretismo do discurso de Khrushchev onde fizera a denúncia dos excessos do estalinismo. Este congresso, que consagrava a consolidação no poder do secretário-geral, era uma exuberância de cobertura noticiosa quando em comparação (abaixo). Mais, quando se percebia que desta vez o discurso de abertura do mesmo Khrushchev durara sete(!) horas, assaltar-nos-ia a dúvida se não seria merecido conservar todos os discursos dele em segredo...

b) Ficava-se a saber que, em Cuba, Fidel Castro estabelecera uma ordem de sucessão revolucionária e que designara o seu irmão Raúl para lhe suceder no caso de lhe acontecer um «acidente». Apesar do dramatismo da decisão, e de hoje se saber que algumas ameaças eram sérias num país onde o preço das vidas era muito barato (vejam-se as notícias dos fuzilamentos), o «acidente» só viria a ocorrer 45 anos depois e quis a ironia da história que não passasse de um trôpego tropeço no degrau de um palco (que fracturou o joelho do velho revolucionário), ocorrido diante das câmaras de televisão. Raúl Castro só veio a tornar-se presidente de Cuba, sucedendo ao irmão, de 2008 a 2018.

26 janeiro 2019

...DEPOIS DO «SHUTDOWN» NA AMÉRICA


Quem não tenha inglês suficiente para acompanhar a entrevista acima que me desculpe, mas eu não podia deixar de a publicar. Foi transmitida hoje na CNN e serve para mostrar de que é composta a sociedade americana. Que é diversíssima e que nós aqui da Europa não compreendemos de todo. Não sei quantos mais existirão, que percentagem representarão estes funcionários públicos americanos que, apesar de terem sido licenciados e por isso terem passado um mês sem receber, continuam inabaláveis no seu apoio ao presidente Donald Trump e nos seus propósitos. Esquecemo-nos de quantas decisões cruciais foram tomadas derrotando democraticamente minorias muito significativas do outro lado: quantos ainda se lembram que um escroque como Vale e Azevedo foi removido da presidência do benfica recebendo ainda 38% dos votos?... Ora isso são números bastante próximos daqueles que as sondagens vão dando a Donald Trump.

25 janeiro 2019

AINDA SE LEMBRA COMO ERA IMPORTANTE A GRÉCIA DE HÁ QUATRO ANOS?


25 de Janeiro de 2015. Realizam-se eleições legislativas na Grécia em que, pela primeira vez, o Syriza, além de as ter vencido, quase alcançou a maioria absoluta da representação parlamentar (149 em 300 lugares), vindo posteriormente a formar governo em coligação com uma formação política nacionalista de direita. Mas a data precisa das eleições é apenas pretexto para evocar e relembrar o que aconteceu nas semanas que se seguiram entre certos círculos político-informativos portugueses, que desencadearam uma ferocíssima barragem opinativa sobre o que acabara de acontecer no outro canto da Europa. A razão de tal afã é hoje perfeitamente evidente: combater o efeito de contágio, nem que para isso, e por algum tempo e de uma forma que a distância temporal tornou ridícula, quisessem tornar a Grécia um dos países europeus mais importantes do panorama noticioso nacional. Hoje, que já se conhecem os desenvolvimentos da história (além do Syriza ter tornado a vencer outras eleições em Setembro seguinte, foi encerrado o procedimento por défice excessivo, a economia do país está a gerar excedentes primários - e tudo isso sob a égide do Syriza!), é de toda a justiça evocar quem então se prestou a emitir tais opiniões... para sobretudo compreender a quantos deles lhes assaltou, a respeito do tema, aquele sentimento - sempre nobre - da contrição. É que entre as figuras abaixo está Paulo Almeida Sande, que Pedro Santana Lopes escolheu para cabeça de lista do seu partido às próximas europeias. É para nós não nos esquecermos, apesar de só se terem passado quatro anos...
Como nota de rodapé e ainda a respeito da Grécia de há quatro anos, gostaria de relembrar que, se a cobertura do enviado especial da RTP a essas eleições (José Rodrigues dos Santos) se tornou famosa e caricata pelo seu facciosismo, e por isso escolhi uma das suas intervenções para encabeçar este poste, a da SIC (de que não se fala), não lhe fica atrás em incompetência. Logo no primeiro minuto da reportagem abaixo o enviado especial Pedro Cruz consegue enganar-se consecutivamente dizendo que em Portugal há 260 deputados (não: são 230) e que na Grécia são 500 deputados (não: são 300). A partir daí, Pedro Cruz entusiasma-se com uma diatribe baseada no facto do «parlamento grego ter perto do dobro do número de deputados em Portugal» (0:50s). Por acaso, é mentira. Olhem se isto fosse discutido como o são os erros de arbitragem ou como se no Bloco de Esquerda se tivesse verdadeiro interesse em denunciar as incompetências dos repórteres de televisão...

24 janeiro 2019

ESTADO DE EMERGÊNCIA EM ESPANHA

24 de Janeiro de 1969. Francisco Franco decretava o estado de emergência em Espanha. Depois do que acontecera em França em Maio de 1968, os países europeus, e por maioria de razão, as ditaduras, não se arriscavam a que a contestação dos estudantes universitários transbordasse para níveis que se tornassem incontroláveis. Há cinquenta anos, o ministro da Informação, Manuel Fraga Iribarne, anunciava um conjunto de medidas repressivas que o Diário de Lisboa do dia seguinte detalhava numa página interior (abaixo). Ali, um subtil, mas que não cremos casual, critério de paginação, anexava á notícia de primeira página uma outra da condenação de cinco nacionalistas bascos, numa sugestão que os problemas em Espanha eram mais complexos do que apenas a agitação estudantil em Madrid. Um pouco mais acima, lia-se que a situação em Paris ainda não fora totalmente pacificada. E, do outro lado da página, percebia-se que as cautelas não se cingiam apenas a este lado da Cortina de Ferro: do lado de lá, entre outras ditaduras, e por causa de um protesto, da (hoje famosa) imolação de um estudante checoslovaco (Jan Palach) que ocorrera alguns dias antes, as forças «da ordem» haviam entrado «em estado de alerta».

23 janeiro 2019

OS POTENCIAIS DOADORES DE MERDA

A imagem acima do abstract do artigo acabadíssimo de publicar (21 de Janeiro) destina-se a certificar o leitor quanto o assunto sobre o qual aqui se discorre é cientificamente sério. O que eu consegui perceber da leitura é que, se todos nos cagamos, há quem o produza com mais atributos objectivos que outros. Há uns eleitos que, descobriu-se agora, conseguem produzir laradas de reputada qualidade terapêutica para o tratamento de doenças inflamatórias intestinais e de diabetes tipo 2. O tratamento por transplante fecal já é conhecido de há muito, mas este novo estudo, realizado na Universidade de Auckland na Nova Zelândia, terá vindo revelar que existem super-doadores, aquilo que, à falta de melhor e ainda que o façamos provisoriamente, poderemos designar por cus vintages. É tudo uma questão de microbiologia. A ser verdade, por alteração dos pressupostos, antecipo um futuro menos risonho àquele sábio provérbio popular que estabelecia que «...se merda valesse dinheiro, os pobres não tinham cu...»

O FUTEBOL NÃO É PARA QUEM TENHA MEMÓRIA E VERGONHA

Há sete anos, e no seguimento de uma outra derrota diante do futebol clube do porto, o presidente do benfica «desafiava» o árbitro do jogo a deixar de «apitar jogos do benfica» (abaixo). Ontem, o benfica tornou a perder um jogo diante do mesmo futebol clube do porto e o ultraje do presidente que lá continua no cargo foi o mesmo, a culpa tornou a ser do árbitro, que «não pode apitar mais!». Suprema ironia: o presidente do benfica assistiu ao jogo sentado mesmo ao lado do «senhor Pedro Proença», o tal que há sete anos devia ter «deixado de apitar jogos do benfica»... Este mundo do futebol é um mundo sem princípios ou coerência, de uma completa mediocridade moral. E por isso, eu até nem sou contra a que ele subsista (naturalmente...) entre os medíocres. O que sou contra é que o veja a ser patrocinado desta maneira muito para além do círculo daquela mediocridade... Os órgãos de informação deviam ter aprendido qualquer coisa com o episódio Bruno de Carvalho.

O DIA EM QUE FINGIRAM QUE NÃO QUISERAM ASSASSINAR LEONID BREJNEV

23 de Janeiro de 1969. A notícia que dominava o noticiário internacional era um intrigante e absurdo atentado de que haviam sido vítimas os quatro cosmonautas soviéticos das naves espaciais Soyuz 4 e 5, quando cumpriam em Moscovo as celebrações do sucesso do seu voo conjunto (abaixo). Era uma semi-verdade. Como já foi explicado há uns bons anos aqui no Herdeiro de Aécio, o alvo do atentado era o próprio secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Leonid Brejnev, que foi confundido na ocasião com um outro cosmonauta de um voo anterior de uma outra missão Soyuz, também presente no cortejo, e fisionomicamente muito parecido com Brejnev. Com a captura do autor dos disparos, as autoridades russas aperceberam-se rapidamente do que acontecera e porque acontecera, mas o assunto ficou propositadamente por esclarecer, já que a versão inexplicável lhes era mais conveniente do que a compreensível. Numa sociedade avançada como o socialismo os cidadãos não desenvolviam ganas de matar os seus dirigentes. Isso eram fraquezas do capitalismo...

22 janeiro 2019

O TESTE DOS OITOCENTOS FUNCIONÁRIOS QUE NÃO RECEBEM SALÁRIO

A notícia é de hoje já tem algumas horas, a sua origem é indisputável, a agência Lusa, e o tópico são as iniciativas desencadeadas por alguns congressistas norte-americanos para desbloquear o impasse que por lá se verifica desde há um mês. Ah, e a notícia contém uma gralha óbvia bem logo no início do texto, quando refere a existência de 800 funcionários públicos que não estão a receber salários... Num país com mais de trezentos milhões de habitantes tal pormenor dificilmente seria relevante. O número correcto, porém, aliás repetido exaustivamente ao longo deste último mês, são oitocentos mil os funcionários que não têm recebido os seus ordenados. Pois bem, tente-se descobrir, pela amostra abaixo, quantas publicações não se deram ao incómodo de rever minimamente a notícia que haviam recebido da Lusa e o publicaram, com gralha e tudo...
Atendendo à hora a que este poste está a ser redigido (11H00 da manhã), deito-me a imaginar quantos se disporiam a tolerar um bolo de arroz amaçarocado ou uma bola de Berlim de creme azedo a acompanhar o café que a esta hora tanta falta faz. Mesmo que aquele bolo não se revista da importância de ser o momento gastronómico do dia, convinha que, ao menos, estivesse em condições. Não será caso para reclamar com o dono da pastelaria, para que ele reclamasse com o fornecedor, senão éramos nós que mudávamos de pastelaria? Mas, então, porque é que parece rebuscado fazer-se com a informação aquilo que não o parece quando feito a propósito de bolos de pastelaria?...

O ASSASSINATO DO COMANDANTE OPERACIONAL DO SETEMBRO NEGRO


22 de Janeiro de 1979. Quem visse estas imagens recolhidas pela Associated Press no dia seguinte numa rua comercial de Beirute, com carros destruídos e edifícios danificados, jamais se poderia aperceber da importância do que ali acontecera. Ali Hassan Salameh (1940-1979) era o chefe de operações da organização palestiniana Setembro Negro cuja notoriedade mundial se produzira seis anos e meio antes (no Verão de 1972), ao patrocinar o sequestro em Munique da delegação israelita aos Jogos Olímpicos. A retaliação engendrada pelos israelitas sobre os autores do que veio a ser um massacre dos reféns, veio a ser popularizada pelo filme Munich de Steven Spielberg (2005). Mas nem mesmo esse filme exibe a operação retaliatória israelita de há quarenta anos contra Ali Salameh, aquele que terá sido o principal responsável operacional pelo que acontecera em Munique. A carrinha Chevrolet em que ele seguia naquela tarde (15:35) com os seguranças, passou mesmo ao lado de um Volkswagen carocha carregado com 100 kg de explosivos, que foram detonados à distância à sua passagem por um agente do Mossad. Quatro guarda-costas de Salameh e mais quatro transeuntes morreram na explosão. O visado ainda sobreviveu mas, apesar de transportado de imediato para um hospital, morreu meia hora depois enquanto estava a ser operado. Outras dezasseis pessoas ficaram feridas. A casualidade como os afectados parecem lidar com a situação no vídeo acima explica-se pelo facto de, desde há quatro anos, o Líbano viver uma destrutiva guerra civil em que tais incidentes eram comuns. O tempo veio demonstrar que Ali Hassan Salameh fora também um canal de comunicação entre a OLP e a CIA, e, por causa disso (mas não só...), especula-se que esse estatuto o terá levado a pensar que o colocaria razoavelmente a coberto das intenções vingativas dos israelitas. Enganou-se. Nas notícias do dia seguinte (abaixo), a OLP, numa raiva despeitada, proclamava que «decidira intensificar a luta contra Israel». E então?...

21 janeiro 2019

AQUILO QUE LHES INTERESSA «CHECKAR»

Começo por avisar que esta notícia abaixo, com a pretensa checkagem dos resultados da execução orçamental portuguesa é uma montagem: escusam de a ir procurar ao Observador porque a notícia não está lá. Mas atenção: a primeira parte da notícia, os resultados da execução orçamental, são mesmos verdadeiros, o que eu forjei foi esta pretensa iniciativa daquele mesmo jornal em checkar o apuramento de contas feito pelo Eurostat. A habilidade da utilização destas rúbricas de fact check para fins políticos consiste precisamente no critério com que se elegem os factos a serem checkados. E este caso não presta para o Observador: não só a confirmação (muito provável) da sua veracidade representaria um bónus ao governo, como o carácter neutro do seu autor (o Eurostat) nem sequer lhes permitiria inseminar a dúvida quanto à objectividade de quem fez as contas. A ironia da situação é que o trimestre em questão parece ter sido atípico - já o diziam as conclusões apresentadas a semana passada pelo Conselho das Finanças Públicas. E nesse âmbito e por causa disso, faria todo o sentido checkarem-se os factos do que terá acontecido/estará a acontecer. Mas como qualquer conclusão a que se chegasse nunca afectaria negativamente a imagem governamental, não será coisa com que o Observador perca tempo. Sim, porque se a preocupação aparente do jornal é com os factos, o que ele quer concluir com os factos tem sido sempre de natureza política, não tem nada a ver com o que lhe está associado, neste caso, finanças públicas.

20 janeiro 2019

O ASSALTO AOS PAIÓIS DE LEBACH

20 de Janeiro de 1969. Em Lebach, povoação do estado alemão federal do Sarre, situada a uns 30 km da fronteira com a França e por volta das 03H00 da madrugada, dois homens armados acompanhados de um cúmplice, assaltaram os paióis do Batalhão Paraquedista 261, matando a tiro quatro dos guardas em serviço enquanto estes dormiam, e ferindo gravemente os dois restantes membros da guarnição. O produto do roubo torna-se ridiculamente desproporcionado quando em comparação com o massacre perpetrado: duas pistolas Walther P38 com 50 cartuchos de 9 mm e ainda três espingardas automáticas G-3, complementadas com mil munições de calibre 7,62 mm NATO. Foi realmente o aspecto sangrento do roubo, mais do que o facto dele ter ocorrido numas instalações militares, que mais chamou a atenção para o acontecido, a ponto de ele ser destacado para a primeira página da edição do Diário de Lisboa daquele dia (acima). A evocação deste acontecimento de há cinquenta anos tem também a pertinência de poder ser apresentado em contraponto aos acontecimentos de Tancos de há ano e meio e ao alarmismo então produzido por entendidos como o Nuno Rogeiro. Os assaltantes vieram a ser julgados no Verão de 1970: ambos foram condenados a prisão perpétua (por causa dos homicídios); o cúmplice que os acompanhava foi-o a seis anos de prisão. Um dos réus ainda permanecia preso em 2016. Quando percebemos do assunto em notícia, aí conseguimos colocá-lo em contexto; quando não percebemos, o que acontece numa maioria de vezes, a ideia seria contar com alguém - os jornalistas - que o fizesse por nós: a notícia acima enfatiza a gravidade do que aconteceu mas sem perder a sobriedade. A comparação do como era com o como é, mostra o que é que mudou na informação nestes cinquenta anos.

19 janeiro 2019

O PROCURADOR GERAL QUE FOI «DENTRO»

19 de Janeiro de 1979. John N. Mitchell (1913-1988), que fora o antigo procurador-geral dos Estados Unidos durante a Administração Nixon entre 1969 e 1972, sai em liberdade condicional da prisão federal onde cumprira até aí (apenas) dezanove meses da sentença de um total de dois e meio a oito anos a que fora condenado por conspiração, obstrução à justiça e perjúrio no quadro dos vários acontecimentos associados àquilo que veio a ser conhecido colectivamente por Caso Watergate. Se, de Watergate, aquilo que mais se retém é a resignação do presidente Richard Nixon em 8 de Agosto de 1974, em antecipação à sua demissão forçada, perde-se com frequência a perspectiva de que Richard Nixon arrastou consigo em todos aqueles processos 69 dos seus colaboradores, 48 dos quais foram considerados culpados nos tribunais. Mais do que um evento isolado, Watergate foi uma derrocada de pinos de bowling até ao próprio ocupante da Casa Branca. E John Mitchell, que superintendera a faceta executiva do aparelho judicial norte americano enquanto procurador-geral dos Estados Unidos será provavelmente o mais anacrónico de todos aqueles pinos. A completar a ironia haviam decorrido quase precisamente dez anos (22 de Janeiro de 1969) que John Mitchell tomara posse do cargo diante desse mesmo presidente que o arrastará para a ignominia da prisão.
Frequentemente, e agora cada vez com mais frequência, se refere a analogia do caso de Richard Nixon com o de Donald Trump. Há aspectos análogos, há outros muito distintos. Mas uma das formas que creio mais úteis de interpretar a tendência dos acontecimentos, pode não ter a ver com os acontecimentos que envolvem directamente o presidente, mas concentrarmo-nos antes no ritmo a que estão a ser derrubados os pinos de bowling que o rodeiam...

18 janeiro 2019

ABERTURA DA CONFERÊNCIA DE PAZ DE PARIS

18 de Janeiro de 1919. É o dia da abertura da grande Conferência da Paz que, em Paris, se propunha criar a nova Ordem Internacional que se seguiria ao fim da Grande Guerra. Para o efeito, o próprio presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, cometera a proeza inédita de se deslocar pessoalmente à Europa para as conversações com os outros representantes das potências vencedoras. Na capa do livro acima, vêmo-lo à direita, acompanhado do anfitrião francês Georges Clémenceau ao centro e do primeiro-ministro britânico David Lloyd George à esquerda. As personagens principais estão de cartola, as secundárias de palhinha. O livro em questão, intitulado Paris 1919 - Seis Meses que Mudaram o Mundo é um excelente livro para nos explicar aquilo que aconteceu durante a Conferência. Está muito bem escrito e estruturado, recebeu por isso o Prémio Samuel Johnson em 2002 (é considerado o mais prestigiado prémio literário britânico para obras de não ficção). O único óbice é que não está traduzido - pelo menos para português europeu. E é nestas ocasiões que apetece descarregar a nossa ira frustrada:
a) Nos críticos literários domésticos que se especializaram em não perceber um avo de obras de não ficção.
b) Nas editoras portuguesas, por não se darem ao trabalho de traduzir e editar em tempo estas obras de referência (para vergonha, a versão turca de Paris 1919)
c) Nas mesmas editoras portuguesas, porque, quando finalmente editam uma dessas obras, ao fim de uns vinte anos, fazem uma promoção que apenas as menoriza.

16 janeiro 2019

DUAS SÉRIES CLÁSSICAS DE TELEVISÃO DA BBC

Entre as prendas que ofereci este Natal contam-se estas duas antigas séries televisivas, ambas de 1974 e ambas produzidas pela BBC, por muitos anos reputada pela qualidade das suas produções. Gostei de as ver (rever no primeiro caso, já que Fall of Eagles foi transmitida pela nossa RTP ao longo do Outono de 1975), embora compreendendo quanto a linguagem televisiva evoluiu muito nos 45 anos entretanto decorridos. A esmagadora maioria das cenas (talvez 90% do tempo) decorrem em cenários interiores e o género dos diálogos tem fortes reminiscências teatrais. Estou convencido que a grande maioria dos espectadores actuais, habituados a outras gramáticas televisivas, não as iriam apreciar. Sobretudo porque, tanto num caso como noutro, Fall of Eagles e Microbes and Men assentam as suas narrativas no pressuposto que o espectador possuirá uns conhecimentos escolares mínimos (de História no primeiro caso e de Ciências no segundo) que o fazem conseguir envolver-se com a trama. Se calhar, isso nunca foi verdade, havia apenas a vergonha social em admitir que os ensinamentos escolares há muito estavam esquecidos, e em 1974 apenas algumas elites apreciavam genuinamente aquelas séries de televisão. Era uma outra época, em que as televisões se propunham informar, educar e entreter e séries como estas pretendiam associar os dois últimos objecivos. Na actualidade, aquela pretensão de educar o espectador perdeu-se completamente. Canais que se pretendiam originalmente temáticos, casos do canal História ou do Odisseia tiveram que inflectir nitidamente nos conteúdos da sua programação para permanecerem competitivos na disputa das audiências marginais: como se comprova pelo facto de se programar aliens para o canal História. Ora os aliens não têm nada a ver com História; aliás, do ponto de vista científico, os aliens não têm a ver com nada...