19 janeiro 2014

«THE BIG AMERICAN AND THE LITTLE ASIAN»

Acima vê-se a capa da edição de 25 de Agosto de 1967 da revista LIFE e, não se tratando de inspiração, será uma tremenda coincidência – não só visualmente mas também pela sugestão de incomunicabilidade benigna entre o norte-americano e o asiático – que ela se pareça repetir na cena abaixo de Lost in Translation, que só veio a ser filmada 36 anos depois. Por curiosidade: o companheiro de Bill Murray estará a perguntar-lhe há quantos anos é que ele estava no Japão; todos aqueles seus gestos onomatopaicos serão esforços para reproduzir a hipotética viagem de vinda de Murray; e as senhoras lá atrás estão genuinamente perdidas de riso.

18 janeiro 2014

«ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS»

Esta fotografia foi tirada em Simla, na Índia, data dos princípios de Julho de 1972 e reúne os dirigentes de então do Paquistão e da Índia, respectivamente Zulfiqar Ali Bhutto (1928-1979) e Indira Gandhi (ao centro, 1917-1984) e ainda a filha do primeiro, Benazir (1953-2007). Esta última virá a dirigir posteriormente o Paquistão e o mesmo acontecerá também na Índia com o filho de Indira, Rajiv (1944-1991, ausente da fotografia). Todos os quatro, filhos e progenitores, virão a morrer violentamente. Parafraseando o título do filme de sucesso dos irmãos Cohen, na política e tão impressionante quanto a hereditariedade, aquele subcontinente não é para velhos.

17 janeiro 2014

O QUE É VERGONHOSO NUM REFERENDO RIDÍCULO

O que hoje se passou no Parlamento, a aprovação da proposta de realização de um referendo à co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo, não passará isoladamente de um expediente político, de uma palhaçada sem muita importância. O que a torna um insulto aos portugueses e um opróbrio a toda uma geração dos seus dirigentes políticos é a comparação da decisão ora tomada pelo Parlamento quando enquadrada retrospectivamente, relembrando os referendos sobre assuntos realmente importantes que deveriam ter tido e nunca tiveram lugar em Portugal – alguns deles solenemente prometidos (como se recorda acima) e depois desprometidos em narrativas hoje esquecidas por responsáveis ainda hoje no poder…

CONTRIBUIÇÃO EXTRAORDINÁRIA DE SOLIDARIEDADE


16 janeiro 2014

AS PERIPÉCIAS DOS DUPONDT NA LUA

Na versão actual da aventura Tintin na Lua as peripécias por que passam os Dupondt foram substancialmente encurtadas em relação ao que acontecia na versão original de 1953. Aprecie-se em primeiro lugar como aparece a versão actual (clicar para ampliar):
E depois como era a versão original, correspondente a cerca de duas páginas e meia adicionais de peripécias, onde os Dupondt se perdiam, tinham de ser resgatados e reabastecidos de oxigénio, ocasião para que um deles se embriagasse:
E, para rematar, umas imagens de uma peripécia lunar real, embora muito mais comedida do que as que haviam sido imaginadas por Hergé, quando Alan Shepard, o comandante da missão Apollo XIV em Fevereiro de 1971, se pôs a dar tacadas em bolas de golfe:

A RECUPERAÇÃO

As notícias sobre a recuperação portuguesa, como todo o noticiário deliberadamente orientado, tendem a ser de um optimismo distorcido, veja-se apenas o exemplo de uma colocação da dívida a curto prazo realizada e noticiada ontem, com um destaque e de um sucesso tal que comparava muito favoravelmente com operações idênticas anteriores realizadas em Novembro passado (leia-se a passagem acima). Essas outras operações têm contudo o óbice de não terem sido sequer noticiadas na altura em que tiveram lugar, dando lugar à suspeição que nestes casos só há notícia quando a coisa corre francamente bem… Tanto facciosismo parecerá estar a incomodar até o campeão do optimismo, o padrinho da abusiva expressão Milagre Económico, o ministro Pires de Lima himself, que hoje parece alertar para o risco de uma onda de excessivo optimismo. É imbuído desse alerta que aqui insiro esta adequada fotografia de Walter Rosenblum a que dei o apropriado título de A Recuperação.

15 janeiro 2014

AS IRMÃS DE ALÉCIO DE ANDRADE

Na década de 1960, apesar da realização e das transformações geradas pelo Concílio Vaticano II (1962-65), ainda a imagem da Igreja Católica não evoluíra o suficiente para não tornar recompensador escolher as irmãs para algumas fotografias de temas provocadores tiradas em Paris pelo fotógrafo brasileiro Alécio de Andrade.

14 janeiro 2014

A PROMOÇÃO À AK-47

Ainda a propósito de armamento e daqueles mesmos anos referidos no poste anterior, aprecie-se esta capa da revista norte-americana LIFE na sua edição de 23 de Junho de 1967 e de como, para ilustrar a vitória israelita na Guerra dos Seis Dias que acabara de ter lugar, a LIFE acabava por fazer uma enorme promoção às AK-47 de construção soviética: o soldado israelita vitorioso que se banhava nas águas do Canal do Suez empunhava orgulhosamente uma arma dessas, certamente capturada a um inimigo e que ele preferiria ao seu armamento regulamentar. A sugestão de que os vencidos estariam melhor equipados que os vencedores até pode ser uma humilhação adicional para os primeiros mas a promoção tem de ser involuntária porque aqueles tempos de Guerra-Fria eram tempos lineares e destituídos de malícia, onde uma revista norte-americana não se atreveria a promover deliberadamente a excelência do equipamento militar soviético.

A EXPLOSÃO E O ARMAMENTO

Esta explosão faz parte de uma cena de uma aventura de Blake & Mortimer: O Caso do Colar. É curiosa a forma como Edgar Pierre Jacobs a desenha e o realce que nela é dado ao armamento que existia no local da explosão: aparecem algumas armas individuais a voar, pentes de munições e carregadores, granadas de mão e de morteiro. Por associação de datas e considerada a época em que a aventura foi, pela primeira vez publicada em Portugal (1968-69, na revista Tintin), o panorama assemelhava-se muito às exibições de material capturado ao IN (inimigo no calão militar) com que se nos pretendia convencer que estávamos a ganhar as guerras em África.

13 janeiro 2014

WAGAH

Há um sítio no mundo onde as demonstrações de chauvinismo e de (uma cuidadosamente coreografada) hostilidade para com o país vizinho se tornaram no fulcro de uma próspera actividade turística. Trata-se de um posto da fronteira chamado Wagah (acima), situado na linha divisória que foi traçada em 1947 separando o Punjabe Oriental (de maioria sikh) do muito maior Punjabe Ocidental (de maioria muçulmana), e que a partir de então passou a constituir a secção panjabi da fronteira entre a Índia e o Paquistão.
O foco da atracção turística é a cerimónia quotidiana do arriar das bandeiras ao fim da tarde. Na verdade, como se poderá descobrir pelos vídeos mais abaixo, o espectáculo começa muito antes, com as assistências dos dois lados da fronteira, que se adivinham ali presentes eivadas de um enorme fervor nacionalista, a proclamarem desde o princípio as suas simpatias como se de um match desportivo se tratasse. Quanto à cerimónia propriamente dita e melhor do que qualquer descrição, será preferível assistir a ela nos dois vídeos abaixo:

Cada vídeo tem a particularidade de ter sido filmado do seu lado da fronteira e de socorrer-se da apresentação do seu comediante britânico: trata-se de Michael Palin (dos Monty Phyton) que o cobriu do lado paquistanês (identificável porque os soldados envergam um fardamento mais escuro), e de Sanjeev Bhaskar (de Goodness, Gracious Me) que o viu do lado indiano – embora seja paradoxalmente este último que faz a associação aos silly walks que se tornaram tão populares por causa da série que foi protagonizada pelo primeiro…

Na sua apresentação, Michael Palin chama a atenção para como a cuidadosa coreografia das manifestações de hostilidade para com o adversário só podem ser devidamente conseguidas, não apenas com a sua conivência passiva, mas também com a colaboração activa (e mesmo ensaiada) desse adversário. E tudo isso decorre sob uma chuva de incentivos incessantes de cada lado. As imagens de Wagah, mesmo sem todo o seu cerimonial, acabaram por se vir a tornar no símbolo das relações atribuladas entre a Índia e o Paquistão.
Apesar de sempre ter sido, e de continuar a ser, a expressão caricata de um assunto sério, já há 40 anos o desenhador belga Bob de Moor aproveitara a ideia para uma aventura de Barelli chamada O Buda Amuado, onde dois países imaginários daquela região chamados Crounchir e Yogadhor (veja-se o mapa abaixo) se disputavam pelo privilégio de uma actuação teatral de Barelli no seu dia da independência (que era o mesmo, como acontece com a Índia e o Paquistão), através de exércitos muito motivados mas, felizmente, muito mal equipados.

MAMBO JAMBO ou A CERTEZA QUE O FREAMUNDE NÃO GANHA


É com anúncios como o de cima que nos chega a desconfiança que a distância das respeitáveis agências de notação financeira internacional para os professores africanos que nos tratam dos maus-olhados domésticos se pode mostrar escassa, quiçá quase inexistente. O professor Chibanga mostra-nos as habilidades de como evitar fazer previsões arriscadas – fazendo-as para 2070 ou assegurando-nos então da certeza que o Freamunde não ganha! – mas a melhor solução para as ultrapassar é mesmo fazer como o mambo jambo da Moody’s: adiá-las até que a instabilidade passe…Ainda de volta ao vídeo, adivinhe-se lá agora quem é que merece a carta do estúpido.

O AVÔZINHO BONDOSO

O ministro das finanças alemão afinal não será tão mau como o pintam. Reapareceu depois do Natal, com a legitimidade reforçada de quem foi recentemente reempossado, afirmando-se e reafirmando-se em entrevistas à comunicação social alemã disponível para ajudar a Grécia, uma atitude que, recorde-se um vídeo de uma conversa sua com Vítor Gaspar aqui há quase dois anos (abaixo), já lhe conhecíamos adoptada para o caso português, especial e exclusivamente por Portugal – subentendia-se na altura – se ter mostrado um bom aluno na adopção das medidas preconizadas pela troika. Embora a Grécia se tenha mostrado continuamente um aluno muito mais renitente e mesmo até insolente – Evangelos Venizelos, o vice-primeiro-ministro grego utilizou os mesmos meios de Schäuble (o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung) para lhe responder, recordando cruamente que se a Grécia sair da zona euro, isso pode ser uma ameaça para o contribuinte alemão – a evidência tomada pelo distanciamento das intimidades com Gaspar é que a condescendência tolerante do ministro das finanças alemão, qual avôzinho bondoso, acaba pragmaticamente por se assemelhar em qualquer dos casos, independentemente do comportamento dos países prevaricadores.

12 janeiro 2014

ARIEL SHARON E AS EXIBIÇÕES POLÍTICAS DE PESAR

A nota necrológica sobre Ariel Sharon já há muito devia estar preparada. O que há de inusitado na sua morte é ela ter sido antecedida de oito anos passados em coma, num limbo onde ele já estava politicamente morto, onde apenas faltava o reconhecimento da sua morte física. É curioso como durante esses últimos oito anos ele, que fora uma das figuras mais controversas da política israelita, deixou de ser atacado pelos seus inimigos por ter deixado de ser um agente político activo, mas também não passou a ser evocado nem enaltecido pelos seus amigos e aliados políticos, porque isso são gestos que só se costumam ter quando da efectivação da morte. De entre todas as hipocrisias a que a actividade política obriga, nenhuma parece ser mais escabrosa do que estas que envolvem os rituais associados à morte dos seus protagonistas. A série Yes, Prime Minister caricatura (como só ela o sabe…) um momento desses, onde o primeiro-ministro James Hacker desabafava indignado contra as indiscrições que o seu antecessor pretende incluir num seu livro de Memórias a publicar até que Bernard, o secretário, recebe uma chamada…

(...) Por que escreveu o anterior primeiro-ministro toda esta porcaria? Simplesmente para aumentar as vendas do livro, pelo facto de inventar histórias? Acho que não. Algumas pessoas mentem não porque isso seja do seu interesse, mas sim porque lhes está no sangue.
- É um estupor vil, traidor e malevolente – disse eu a Bernard – e se está à espera de conseguir mais honras e tachos ou comissões reais, o melhor que tem a fazer é tirar daí o sentido. Não terá o menor reconhecimento oficial, enquanto eu cá estiver. Lamentei esta explosão porque, nesse preciso momento, o telefone tocou. Bernard atendeu a chamada.
- Sim?... é mesmo importante, porque… Oh!... Ah!... Oh, morreu quando chegou?... Compreendo.
Solenemente, pousou o telefone.
- Más notícias? – perguntei.
- Sim e não – respondeu cautelosamente. – O seu antecessor, o anterior primeiro-ministro da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte acaba de falecer de um ataque de coração.
- Que tragédia! – disse eu imediatamente. Sei dizer as palavras adequadas a situações dessas.
- Realmente – responderam, em coro, Bernard e Humphrey.
- Um grande homem – disse eu, para que constasse.
- Um grande homem – repetiram eles em uníssono.
- A sua falta será profundamente sentida - afinal de contas, alguém tem de sentir a sua falta.
- Será profundamente sentida – repetiram os que se encontravam do outro lado da mesa.
- E as suas memórias também serão – acrescentei eu.
- Memórias que nunca poderão ser concluídas! – disse Bernard.
- Infelizmente! – suspirou Humphrey.
- Infelizmente! – exclamei eu.
- Segundo parece, senhor primeiro-ministro – informou Bernard – ele manifestou a esperança de ter um funeral oficial, mesmo antes… do fim. Mas, em face do seu desejo de não lhe conceder mais honras…
Bernard estava redondamente enganado. Um funeral era uma honra que eu tinha muito prazer em lhe conceder. Disse a Bernard que não tinha percebido nada do que lhe dissera. (...)

11 janeiro 2014

QUEM SE LEMBRA DESTA «OUTRA» ALA LIBERAL?

Confesso que este não é um verdadeiro poste, apenas uma forma de pirraça em dia em que a informação aparece dominada pelo Congresso do CDS/PP e pelas controvérsias tradicionais de tais eventos que a comunicação social tanto gosta de fulanizar para agrado dos fulanos, embora seja obrigatório contrariar essa forma de descrever os acontecimentos, o que importa são as ideias... Aparentemente, a comunicação social passou a ter desde há uns tempos António Pires de Lima numa excelente conta, permitindo-lhe anúncios de abandonos futuros da política¹ (lembram-se dos de Cavaco Silva, outro não-político?), ou dando destaque aos seus estados de alma quando as medidas que propõe são rejeitadas pelo conselho de ministros² (porque não destacaram os estados de alma do seu antecessor Álvaro Santos Pereira?). Mas o que eu gostaria mesmo de saber é quantos jornalistas, comentadores, politólogos, Ricardos Costas e fauna afim é que ainda se lembram de uma tal de Ala Liberal, protagonizada pelo mesmo António Pires de Lima (acima, clicar para ampliar), descrita na época como uma corrente de opinião dentro do CDS, cujo espaço na internet apareceu vai para seis anos e que, meses depois, morreu de morte morrida sem ter alcançado a notoriedade (esqueçam lá a consistência política...) da sua ilustre antepassada. Terá acontecido que o liberalismo militante de Pedro Passos Coelho os ultrapassou em zelo e os esvaziou em conteúdo?...

A OPÇÃO DO GENERAL VON FALKENHAYN

Quando durante a Primeira Guerra Mundial, mas já em finais de 1915, o general Erich von Falkenhayn (Chefe do Estado-Maior alemão), se decidiu a retomar a ofensiva numa Frente Ocidental que entretanto tinha estagnado em trincheiras, teve que escolher o local para a desencadear. E, de acordo com a sua concepção de que haveria de vencer os franceses pelo desgaste em homens e material, escolheu a cidade de Verdun. Verdun (veja-se o mapa abaixo) situava-se numa reentrância da Frente que a fazia estar praticamente cercada pelos exércitos alemães por três lados, tornando-se por causa disso, numa posição onde o reabastecimento (e, em consequência, a defesa) do lado francês era difícil.
Porém, por outro lado, Verdun era uma cidade-fortaleza situada sobre o rio Meuse na intersecção das vias naturais que ligavam o coração de França à Renânia, com uma história disputada que fizera com que ela só se viesse a tornar definitivamente francesa no Século XVII. Por causa disso (e não pela adopção dos mais saudáveis princípios tácticos que recomendariam a evacuação de uma posição demasiado exposta), Falkenhayn contava que os seus inimigos disputassem Verdun encarniçada e desvantajosamente. Assim foi: a Batalha de Verdun começou em Fevereiro de 1916 e quando terminou, em Dezembro seguinte, os alemães haviam sofrido 280.000 baixas e os franceses 440.000.
Os acontecimentos desencadeados (não apenas nos blogues e redes sociais mas também na comunicação social) na sequência da gaffe memorialística de José Sócrates sobre Eusébio fizeram-me lembrar este episódio da Primeira Guerra Mundial. Neles surpreendeu-me menos a agressividade daqueles que atacaram José Sócrates¹ (num meio que é conhecido por trucidar reputações a pretexto, muitas vezes, de razões pueris), do que o denodo daqueles que saíram em sua defesa nas formas e formatos mais diversos, numa atitude de louvar mas bizarra neste jogo em que se costumam desfazer reputações com uma facilidade que é facilitada pela ausência de quem apareça em defesa dos alvos.
Contrastes concretos: o tratamento quotidiano que de há muito tem vindo a ser dado a António José Seguro, entre figuras de esquerda; ou a forma como foi ridicularizado há uns anos o vídeo contra a liberalização do aborto de Marcelo Rebelo de Sousa, entre comentadores televisivos, antigos dirigentes partidários. Nos dois casos, ao contrário de Sócrates, não se dá (nem se deu) por quem os viesse salvar. Não sei se haverá um Falkenhayn que comande o exército de antipatias que José Sócrates desencadeia mas reconhece-se do outro lado uma vontade tão férrea de defender José Sócrates como a dos franceses de outrora em defender Verdun à outrance. O que só transforma Sócrates num alvo remunerador…
¹ Entre os quais me conto.

10 janeiro 2014

SOBRE A POLIVALÊNCIA DE CERTOS GRUPOS PROFISSIONAIS


Quando se pretende discutir se os méritos dos grandes futebolistas serão compatíveis com a sua presença no Panteão Nacional, deixem-me mostrar-vos um exemplo de como os jogadores podem ser polivalentes, recuperando um exemplo tornado entretanto num clássico britânico, quando Glenn Hoddle e Chris Waddle (duas antigas vedetas do Tottenham Hotspur) fizeram uma incursão em 1987 no mundo musical tendo então o seu disco alcançado um surpreendente 12º lugar nas charts com a canção Diamond Lights. Alerta-se que a canção é uma merda e que eles são uma verdadeira lástima a cantar (como se comprova pelo vídeo acima), mas alguém me pode informar, por exemplo, se o Pedro Abrunhosa, que nem canta melhor que eles, é ao menos bom de bola? De toda a maneira, se desta ideia de projectar jogadores de futebol para o estrelato da canção nunca dei que tivesse havido neste nosso jardim à beira-mar plantado (para mais num povo que teve a sabedoria de criar o proverbio cautelar: Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?), há que reconhecer que os portugueses parecem não ter competidores internacionais no ramo dos apresentadores de telejornal vocacionados para a literatura de sucesso…

SÓCRATES E EUSÉBIO (3) – MAS TAMBÉM MARCELO E A CARÍNTIA

Estou profundamente surpreendido com a ferocidade da celeuma provocada pelo episódio de criatividade evocativa protagonizado por José Sócrates no seu programa do passado Domingo. Faço-o com a tranquilidade de quem está acostumado a encontrar episódios televisivos muito semelhantes, alguns a merecerem, pelo ridículo, o privilégio de os destacar aqui no blogue: ainda há vários meses me diverti aqui com Marcelo a justificar uma das suas aprofundadas análises sobre a situação política interna da Alemanha com as consequências de umas eleições estaduais que tinham tido lugar… na Áustria. Como se esta última já tivesse sido devidamente reanexada pela Alemanha.

Há que reconhecer que toda a gente saberá quem foi o Eusébio e que praticamente toda essa gente não sabe, não quer saber e terá mesmo raiva de quem sabe onde fica a Caríntia. Será por isso que poucos terão a coragem de se indignar com as (frequentes) miscelâneas de Marcelo com a mesma veemência como agora se está a fazer com o ataque à inventividade de Sócrates. As vicissitudes do jogo Portugal – Coreia do Norte de 1966 ou o calendário das férias escolares desse ano estarão ao alcance – em opiniões tanto favoráveis quanto desfavoráveis a Sócrates – da massa dos comentadores da internet, enquanto localizar a Caríntia ou mesmo saber pronunciar a palavra Anschluß, aí já é preciso meter explicador…

09 janeiro 2014

O QUE É ESTRANHO…E O QUE É AINDA MAIS ESTRANHO


Este vídeo tornou-se recentemente viral ao mostrar uma jornalista de um canal de TV norte-americano do Utah que desmaia a meio de uma entrevista para se reanimar segundos depois e a continuar, sentada no chão, como se se tratasse de uma cena burlesca. Reconheço que essa parte do episódio é bizarra mas apenas valida um certo estilo de jornalismo televisivo moderno que cultiva a obtusidade às circunstâncias e que insiste, por exemplo, em assestar os microfones e atirar perguntas mesmo quando o destinatário delas já deu todos os sinais de não pretender prestar quaisquer declarações. Contudo, o que me deixou deveras surpreendido foi a voz desagradavelmente dissonante da jornalista, a fazer lembrar a do Zed, uma personagem caricata dos filmes da série Academia de Polícia. Supunha eu que os critérios de admissão para trabalhar num meio audiovisual incluiriam também atender ao áudio para além do visual. Pelos vistos, naquela estação de televisão não.

A «MADAME»

Frank Horvat fotografou este casal em 1964 numa povoação da Espanha profunda. À primeira vista, as atenções dever-se-iam concentrar no marido, um guardia civil trajado a preceito, luvas calçadas, mas é a esposa que acaba por dominar a fotografia, olhando de soslaio para a objectiva, inflada de satisfação num requinte tão modesto quanto rústico, nuns sapatos que o seu arcaboiço plebeu transformou numas chancas. Embora sejam fisicamente do que menos se pode assemelhar a Aníbal e Maria Cavaco Silva, e mesmo levando em conta os 50 anos de antiguidade que ela já leva, considero esta fotografia um dos melhores retratos mentais da forma como concebo o actual casal presidencial português.

08 janeiro 2014

AS CONFISSÕES

Ainda a pretexto de José Sócrates, que mostra não se arrepender nem dos seus actos passados nem da forma imaginativa como os descreve, torna-se oportuno à laia de uma hipotética penitência substituta inserir aqui este mosaico de confissões, desde o quadro pintado em 1838 por Giuseppe Molteni, à fotografia tirada em 1955 no nosso Mosteiro dos Jerónimos por Henri Cartier-Bresson, à fotografia ainda mais moderna de uma confissão também num estilo mais moderno por Elliot Erwitt.