O filme The Party (1968) tem um momento musical em que uma das convidadas da festa (a actriz e cantora Claudine Longet) interpreta uma canção íntima e doce (Nothing to Lose) para os convidados da festa enquanto um deles (Peter Sellers) se contorce numa esquina, incapaz de cometer a indelicadeza de se ausentar durante a interpretação, embora esteja aflitíssimo para ir à casa de banho…
A cena vive tanto das exibições histriónicas de Sellers (que no filme faz de um indiano convidado por engano para aquela festa) como do aspecto inocente da intérprete da canção… O paradoxo da cena é que a mesma pessoa (Claudine Longet) viria alguns anos mais tarde a ser acusada de ter morto o namorado a tiro (abaixo), tendo conseguido aliviar a sentença alegando que a arma se disparara acidentalmente…
09 fevereiro 2009
A MARCHA VIRTUAL
Torna-se impossível resistir à ironia bem-humorada do Abaixo-Assinado a pedir para que Salvem a Joana Amaral Dias. Há nele pormenores com que não concordo, a começar pelo destinatário do pedido, que não devia ser um abstracto Bloco de Esquerda, antes os membros concretos da direcção do partido, a começar por Francisco Louçã. Mas a ideia de denunciar as sanções disciplinares internas da sua última Convenção recorrendo a uma daquelas iniciativas virtuais, muito moderna, muito esquerda caviar, é particular feliz… Afinal, devemos ser muitos os que julgamos que a Joana Amaral Dias é mais importante que as baleias…
08 fevereiro 2009
DE CABEÇA E SEM CABEÇA
Luís Figo voltou aos golos, o que não acontecia há mais de um ano e quatro meses. O internacional português, já com 36 anos marcou o segundo golo da vitória do Inter de José Mourinho sobre o Lecce (3-0). Ainda por cima de cabeça, uma raridade na carreira do médio, contribuindo para o dilatar da vantagem do actual líder do campeonato italiano no topo da tabela. J.M.M.(Transcrito da coluna do Sobe e Desce do Público de hoje (8/2/09) – Luís Figo tem uma seta indicativa de quem sobe).
É sempre ingrato sustentar com profundidade uma opinião quando se está limitado a uma meia dúzia de frases. Mas esse problema dificilmente se aplica aqui, porque essa meia dúzia serviu para dizer que Figo marcou um golo (que é o que se espera de um jogador de futebol…), que não tem marcado muitos (o que já é pior…), que esse golo não foi decisivo para o resultado final (foi o segundo golo numa vitória de 3-0) e que foi marcado de cabeça, pelos vistos uma coisa rara na carreira do jogador (e daí?...).
Se Luís Figo se mostrou pontualmente habilidoso no emprego da sua cabeça, a atitude podia ter servido de inspiração para J.M.M., o autor do texto acima, que podia também ter empregue mais adequadamente a sua cabeça (especialmente o interior) para sustentar com propriedade as razões que merecessem (se merecerem) dar assim um destaque tão grande ao veterano português… A.T.
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SÃO MARTINHO
Recordo dos Compêndios de Geografia que as Antilhas de dividem entre as Grandes e as Pequenas Antilhas (no mapa acima). Estas últimas são ilhas de pequenas dimensões e compartilham uma história comum, tendo quase todas sido descobertas durante as viagens de Cristóvão Colombo (aliás, a maioria delas foram baptizadas com nomes de santos), a que se seguiu a chegada dos europeus, a extinção das populações originais, o povoamento com uma elite de origem europeia e uma massa de escravos africanos dedicados a uma economia de plantação da cana de açúcar.
Para os entusiastas que gostam de fotografar e filmar de perto as chegadas e partidas dos aviões, a praia de Maho, que se situa precisamente no enfiamento da pista do aeroporto tornou-se num local de referência mundial. Para quem aprecie, juntei ao poste o vídeo de uma aterragem de um Boeing 747 da KLM holandesa e também outro do princípio de uma descolagem de outro Boeing 747 mas da Air France, porque, embora os franceses possuam um aeroporto bastante mais pequeno na metade norte da ilha, também neste aspecto a colaboração entre as duas potências coloniais parece ser a regra… 07 fevereiro 2009
EM PLAY-BACK (PUM-PUM), EM PLAY-BACK (PUM-PUM), EM PLAY-BAAAACK!!!
Corria o ano de 1981 quando o Festival RTP foi ganho por uma canção cantada por Carlos Paião que se intitulada Play-Back (acima). O tema da canção era, como o título indica, o play-back (a prática de fingir que se está a cantar em palco enquanto o que se ouve é uma gravação) e a letra, apesar de simples e repetitiva, possuía um cunho de troça e de denúncia da prática, uma coisa rara no comportamento tipicamente português, onde essas atitudes críticas raramente se assumem assim dessa forma tão frontal… Mais do que isso, a popularidade do evento e do intérprete fizeram com que o gesto tivesse algum conteúdo pedagógico junto de uma audiência pouco esclarecida.
Possuir uma audiência esclarecida quanto a esses expedientes faz com que, por exemplo, incidentes como o ocorrido mais de vinte anos depois com um vocalista de uma banda que tocava num directo de uma daquelas galas da TVI (acima), em que ele cai subitamente do palco abaixo sem que a sua interpretação seja minimamente afectada pelo trambolhão, acabe por ser saudado com sorrisos de entendimento da matéria por parte de toda a audiência… Não sei se será mais difícil explicar à mesma audiência as mesmas aldrabices mas quando os play-backs já não são musicais…
Veja-se agora o vídeo com uma reportagem acéfala (*) da SIC sobre a implosão de duas torres da península de Tróia, onde se encenou que seria o 1º Ministro José Sócrates a accionar o dispositivo que desencadearia a explosão. Ora, porque a SIC fez a sobreposição dos dois planos (o de Sócrates e o das torres), quando termina a contagem (ao 1m58s do vídeo), percebe-se que Sócrates hesita enquanto se começam a ouvir as explosões que deveria ter sido ele a desencadear… Na fotografia abaixo (aos 2m00s), Sócrates ainda não accionou o dispositivo e já se nota o fumo das primeiras explosões no edifício mais afastado, à direita… Não foi um play-back, mas terá sido um press-back!
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06 fevereiro 2009
OS EXOPLANETAS
Exoplaneta é a designação escolhida para os planetas que têm vindo a ser descobertos orbitando estrelas que não o nosso Sol. Trata-se de um campo científico em ampla expansão. O primeiro planeta extra-solar descoberto a orbitar uma estrela e confirmado para além de quaisquer dúvidas científicas aconteceu apenas em 1995 (*), mas actualmente os exoplanetas recenseados já são bem mais de 300 (**), mostrando-se um campo de exploração científica que está em franca expansão. Nos dois últimos anos foram sendo descobertos novos exoplanetas a um ritmo médio de cerca de cinco por mês (ver abaixo) e este campo de investigação não parece ter sido atingido pela crise porque já foram descobertos quatro novos exoplanetas desde o princípio de 2009.
Há vários processos para detectar planetas orbitando as estrelas adjacentes. Explicar como funcionam fica um pouco para além daquilo que considero relevante para um poste informativo sobre o assunto (***). Contudo, vale a pena saber que uma consequência dos processos empregues fazem com sejam detectados primordialmente: a) os planetas maiores e b) os planetas que possuem órbitas mais próximas das suas estrelas. Há por isso a consciência que a lista crescente de exoplanetas descobertos não é uma amostra verdadeiramente representativa do que pode ser a população de planetas do Universo. Mesmo assim, tudo o que tem vindo a ser descoberto tem servido para embaraçar, por limitada, a imaginação dos escritores de ficção científica.
É evidente que os exoplanetas aproveitáveis para as aventuras do Capitão Kirk (acima) teriam que ser todos de características semelhantes às terrestres, com atmosfera respirável e até mesmo com uma gravidade superficial que fosse idêntica à nossa... No entanto, nem mesmo a ficção científica literária (que não tinha esses constrangimentos orçamentais…), pôde antecipar a variedade e o exotismo do que tem vindo a ser as descobertas neste campo. Convém dizer que, ao contrário do que acontecia na ficção científica, os exoplanetas têm designações extremamente analíticas – HD 7924b é um exemplo, a do último a ser descoberto – completamente desprovidas da poesia de um nome como Vulcano, para quem ainda se lembra, o planeta de origem de Mr. Spock (abaixo)…
É improvável que qualquer exoplaneta venha a ser visitado ainda neste século. O mais próximo até agora descoberto é um gigante gasoso (Épsilon Eridani b) um pouco mais maciço que Júpiter que está situado a cerca de 10 anos-luz da Terra, e que orbita a sua estrela a uma distância intermédia entre o que seriam as órbitas de Marte e de Júpiter no nosso sistema solar demorando cerca de 7 anos a completar cada órbita. Mas este é um exoplaneta de que se estaria à espera de encontrar, tomando em conta a única referência de que se dispunha: o Sistema Solar. Já o que não se estaria à espera – no nosso caso, Mercúrio demora 88 dias a completar uma órbita à volta do Sol – era encontrar planetas que descrevessem órbitas tão próximas das suas estrelas...
O planeta (estando ainda por confirmar a descoberta) que descreve a sua órbita à volta da sua estrela no período mais breve chama-se Sweeps-10, localiza-se a cerca de 22.000 anos-luz de distância e o seu equivalente ao nosso ano dura… 10 horas. A estrela é uma Anã vermelha, com uma temperatura superficial muito inferior à do Sol (abaixo dos 3.200º C) e é isso que permite que um gigante gasoso que será, pelo menos, 60% mais maciço que Júpiter, descreva uma órbita à volta da sua estrela tão próxima que equivalerá apenas ao triplo da distância que a Lua descreve em volta da Terra… Mesmo assim, estima-se que a temperatura superficial do planeta (a expressão não tem muito sentido pois, como gigante gasoso, ele não tem superfície) atinja os 1.650º C!
Em redor da estrela 55 Cancri A, que se situa a 55 anos-luz do Sol, já se identificaram até agora 5 exoplanetas, confirmando as suspeitas que sistemas como o nosso podem ser comuns no Universo. Os planetas orbitam a estrela em ciclos de respectivamente, 2,8, 15 e 44 dias (todos mais próximos do que a órbita de Mercúrio), 260 (entre a de Vénus e a da Terra) e 5.218 dias (um pouco para lá da de Júpiter). Este último planeta é um colosso, quatro vezes mais maciço do que o gigante joviano. Em contraste, a descoberta de outro colosso, o 91 Aquarii Ab a 148 anos-luz de nós (com o triplo da massa de Júpiter e com uma órbita semelhante à percorrida por Mercúrio), representou a adição de um planeta a um sistema que sabíamos ser composto por cinco estrelas!(*) Como muitas outras descobertas científicas esta também está envolta em controvérsia e os autores e a data da primeira descoberta dependem da nacionalidade das fontes consultadas.
(**) Conforme as fontes, mais ou menos actualizadas, entre 321 e 339.
(***) No entanto, essas explicações estão disponíveis, quer em artigos científicos on-line, quer na Wikipedia.
(****) Chegar audaciosamente até onde ninguém ainda tinha chegado.
05 fevereiro 2009
ÀS TRÊS PANCADAS
De menor rigor revolucionário era a maioria das outras canções do mesmo disco, onde se nota a falta de maturação nos arranjos e nas letras, consequência provável da premência da edição do disco em detrimento da qualidade do seu conteúdo. Um dos casos em que isso é mais evidente é numa canção que se chama Independência, em que o tema da letra é a, então candente, questão colonial. Apesar de paupérrima(*), a letra é inequívoca quanto à opinião de Sérgio Godinho sobre aquela questão: A África é dos africanos, já chega quinhentos anos.
É um truísmo como o tempo e as circunstâncias demonstraram. Só que essas circuntâncias evoluíram tanto desde aí que não deixaria de ser irónico e não seria surpreendesse se se visse actualmente organizações extremistas de direita a recuperar, distorcer e readaptar um slogan tão simplista quanto o usado por Sérgio Godinho naquela sua música (A África é dos africanos) para o empregar numa sua campanha racista e xenófoba - A Europa é para os europeus. A demagogia é mesmo transversal ao espectro político…
(*)
Quem diz que sim quem diz que não
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação
E ainda anda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez
Independência
Independência
A África é dos africanos
já chega quinhentos anos
já chega quinhentos anos
A África é dos africanos
Quem diz que sim quem diz que não
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação
E ainda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez
E a dizer “pois sim”
E a dizer “pois é”
E a dizer “que remédio”
E a dizer “Rodésia”
E a dizer “mas sabe”
E a dizer “que pena”
E faz e acontece
Independência
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação
E ainda anda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez
Independência
Independência
A África é dos africanos
já chega quinhentos anos
já chega quinhentos anos
A África é dos africanos
Quem diz que sim quem diz que não
Quem diz que sim quem diz que não
São os movimentos de libertação
São os movimentos de libertação
E ainda tanto português
A dizer talvez, a dizer talvez
A dizer talvez, a dizer talvez
E a dizer “pois sim”
E a dizer “pois é”
E a dizer “que remédio”
E a dizer “Rodésia”
E a dizer “mas sabe”
E a dizer “que pena”
E faz e acontece
Independência
UM CLÁSSICO
O episódio que irei contar parece-me ser um clássico e ouvi-o hoje de manhã através também de um meio clássico, numa daquelas celebradas emissões matinais da TSF que ruidosamente alarma e agita o auditório, mas que raramente serve para que se esclareça alguma coisa… O assunto em questão foi a resistência à futura mudança do Tribunal da Boa-Hora para um edifício do Parque das Nações, resistência essa protagonizada por aqueles que trabalham naquele Tribunal.Como é clássico, o depoimento da representante do poder judicial, a Juíza Presidente do Tribunal (contra a mudança), não deixou de ser proferido de forma gongórica onde não faltou a palavra compaginável… De forma igualmente clássica, o depoimento do representante do poder executivo, o Secretário de Estado da Justiça (a favor da mudança), foi outro exemplo de gongorismo, embora recorrendo a um vocabulário radicalmente diferente e onde não faltou a palavra sinergias…
Como é clássico, foi claro que os gongorismos recíprocos não abordaram o importante. Como é clássico, a configuração e as adaptações interiores do novo edifício devem ter sido feitos sem a participação dos futuros utilizadores e conterão inúmeros erros de concepção - quantos edifícios não conhecemos nós que foram funcionalmente mal concebidos de raiz? Como é clássico, a tolerância para com esses erros e a disposição à adaptação é nula por parte de todos aqueles que vão ter de efectuar a mudança…
Como é clássico quando se trata de juristas, torna-se sempre preferível apresentar vários argumentos em vez de ter apenas um, ainda que ele seja sólido. Deve ser isso que fez a Juíza Presidente gabar o sentido de dignidade do Tribunal actual, quando ele resulta da conversão de um antigo Convento, nacionalizado em 1834, transformado depois em quartel e cujas fases de instalação como tribunal foram tão cheias de vicissitudes quanto as do actual edifício do Parque das Nações…
Como é clássico, sobre o assunto em causa, a notícia TSF pegou no microfone, passou os dois depoimentos e foi incapaz de esclarecer em profundidade o auditório sobre o que estava em disputa, nem que fosse com estas trivialidades que acabei de escrever. Pior que isso, a notícia que a emissora colocou em rede, omite as declarações do Secretário de Estado e torna-se totalmente parcial. E, já que estamos em clima de gongorismos, este estilo de informação merecer-me-ia um turpilóquio…
E isso, disseram-me, já não é clássico…
04 fevereiro 2009
JOGADAS DO GRANDE JOGO
Como qualquer bom livro de espionagem, a situação por ele criado era exótica, não só por decorrer em regiões que nos eram desconhecidas por pertencerem ao outro Bloco, como por envolverem uma invasão da União Soviética, país que, por causa do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro, pesava no imaginário ocidental por estar associado a fronteiras muradas, guardadas e vigiadas... 20 anos depois da publicação de O Cardeal do Kremlin, a União Soviética desapareceu, as cinco repúblicas da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguízia, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão) tornaram-se países independentes e quem está atascado numa guerra contra-subversiva no Afeganistão e em riscos de a perder são os Estados Unidos…
Os cinco países, que outrora haviam estado sob tutela soviética e que também já passaram por um período intermédio em que a maioria deles se colocou sob protecção norte-americana, atingiram agora uma fase, especialmente depois dos norte-americanos invadirem o Afeganistão, em que estão no meio de uma disputa aberta entre norte-americanos e russos quanto às respectivas áreas de influência. Os segundos têm conseguido ultimamente algumas vitórias, a última das quais ontem, quando o Presidente da Quirguízia, Kurmanbek Bakiyev, anunciou durante uma visita oficial que estava a realizar a Moscovo (…) que pretendia vir a retirar as facilidades que haviam sido concedidas aos Estados Unidos na utilização da base aérea de Manas.
Depois do governo do Uzbequistão ter solicitado aos Estados Unidos que eles cessassem de utilizar a sua base aérea de Karshi-Khanabad (ver mapa acima) em Novembro de 2005, a base aérea de Manas tornou-se essencial em termos logísticos (*), especialmente para o trânsito de pessoal entre os Estados Unidos e o Afeganistão. Há quem acredite que este anúncio não passe de uma jogada negocial do Presidente Bakiyev, insatisfeito com as contrapartidas que o seu país recebe dos Estados Unidos pela utilização da base. Mas mesmo admitindo que o seja, a verdade é que se trata de uma demonstração de que, ao contrário dos órgãos de informação, os actores políticos não estão nada impressionados com a chegada de Barack Obama ao poder…(*) Como se pode observar pelo mapa, e existindo o espaço aéreo do Tajiquistão de permeio, a base aérea de Manas tem uma importância táctica muito limitada em relação às operações no próprio território afegão.
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03 fevereiro 2009
HÁ SEMPRE LUGAR PARA MAIS UM...
Ontem, a propósito de uma conversa sobre os incidentes associados ao facto de se viajar em transportes públicos completamente apinhados (acima), lembrei-me de um gag de um filme que havia visto faz mais de 30 anos. E não é que depois de algumas pesquisas consegui encontrar a cena a que me referia no You Tube?! Inseria-a neste poste, o filme intitula-se O Grande Bazar, é francês e protagonizado por Les Charlots, um grupo cómico que, conforme se escreve na Wikipedia, foram moderadamente populares durante a primeira metade dos anos 70.
O gag a que me referia surge aos 5m30 deste segundo vídeo. Mas, para os mais nostálgicos, creio que vale mesmo a pena verem o vídeo desde o princípio, para recordar a moda da época, já que o filme deve ter sido feito na época em que as bocas de sino das calças devem ter atingido o seu diâmetro máximo… Uma outra curiosidade é a de os heróis morarem em edifícios típicos HLM(*) que, dali por 30 e tal anos e segundo algumas análises sociológicas muito respeitadas, justificariam o comportamento das minorias não integradas na sociedade francesa (abaixo)…
O gag a que me referia surge aos 5m30 deste segundo vídeo. Mas, para os mais nostálgicos, creio que vale mesmo a pena verem o vídeo desde o princípio, para recordar a moda da época, já que o filme deve ter sido feito na época em que as bocas de sino das calças devem ter atingido o seu diâmetro máximo… Uma outra curiosidade é a de os heróis morarem em edifícios típicos HLM(*) que, dali por 30 e tal anos e segundo algumas análises sociológicas muito respeitadas, justificariam o comportamento das minorias não integradas na sociedade francesa (abaixo)…
02 fevereiro 2009
DE IR ÀS LÁGRIMAS...
Há alguns casos em que posso compreender perfeitamente aquelas pessoas que se emocionam nos filmes a ponto de, quando as luzes se acendem no final, terem de recorrer a expedientes para esconderem os olhos chorosos e os narizes vermelhos. Um desses casos é A Lista de Schindler (1993). No caso particular desse filme, o apelo às lágrimas nem sequer será sobretudo pelo argumento mas mais pela sua banda sonora. Como em tudo o resto naquele filme, Steven Spielberg (realizador mas também co-produtor) não se poupou a despesas e o tema do filme (da autoria de John Williams) é interpretado por Itzhak Perlman, um violinista israelita que se contará entre os melhores, senão mesmo o melhor, do mundo na actualidade.
A VIDA DE MARINHEIRO
Porque não faz parte da orientação que quero dar a este blogue, não me pronunciei até agora sobre tudo o que tem estado associado ao episódio Freeport. Aliás, suponho que coisa que não falta nessa blogosfera são opiniões, variadíssimas, acerca dos inúmeros aspectos de que se foi revestindo o episódio, depois transformado em folhetim. Mas agora, que julgo que a pilha de assuntos associados ao episódio construída freneticamente pela comunicação social já se desmoronou por causa da patetice de alguns assuntos que para lá foram sendo adicionados, achei oportuno questionar-me sobre a (im)parcialidade dos critérios que levam os jornalistas a elegerem os seus alvos nestes casos de escândalo.
Parece-me evidente que José Sócrates já estará há tempo suficiente no poder para agora só estar rodeado de uma camarilha servil e concordante. É esse conceito muito elevado da sua importância que costuma atacar infelizmente quem ocupa o poder mais do que um par de anos, ampliado pela caixa de ressonância dos que o rodeiam que explicam – mas não desculpam... – aqueles exageros da campanha negra. Chegados aqui, deixem-me mudar para um outro assunto, ou, adoptando a expressão de José Sócrates e dos seus apaniguados, para uma outra campanha, esta branca por possuir a virtude de nem se ter dado por ela. Falo do Caso da Carta de Patrão de Costa de Joaquim Ferreira do Amaral…
É um episódio que, como o do Freeport, deixei que também amadurecesse: apareceu na imprensa em 13 de Janeiro, mas hoje constata-se com evidência que não houve órgão de comunicação social que o quisesse desenvolver. E, contudo, vejam quanto ele parece ser bastante interessante: é um caso de corrupção associado aos exames que conferem direito às Cartas de Marinheiro, de Patrão Local e de Patrão de Costa. Há uma Escola sedeada em Matosinhos que se ufanava de uma alta taxa de aprovação dos seus alunos. E para mais, os alunos só precisavam de a frequentar durante 4 dias… Trata-se de uma bela notícia com corruptores, corrompidos e 43 arguidos, um dos quais se chama Joaquim Ferreira do Amaral…
O depoimento que o ex-ministro de Cavaco Silva, ex-candidato a Presidente da República e actual presidente da Lusoponte prestou ao Correio da Manhã chega a ser tocante pela sua candura: ele e o filho foram de Cascais até Matosinhos(*) para obter a tal Carta de Patrão de Costa porque ali o curso era melhor e só durava quatro dias, além de que, quando Ferreira do Amaral recebeu o SMS com as respostas certas ao exame, já nem estava dentro da sala… Mais uma vez, depois de Dias Loureiro, temos oportunidade de ouvir as declarações de um ex-governante ingénuo, a quem nunca lhe passou pela cabeça que pudesse vir a estar associado a algo ilegal: Qual não é o meu espanto quando a polícia me chamou!...
Eu, e creio que muita gente mais, não teria ficado nada espantado, considerando a anomalia da situação (...é que não se costumam receber SMS com respostas durante os exames) e que o esquema viera a ser denunciado… Agora, o que me deixou deveras espantado foi a discrição com que todo este suculento incidente veio a ser tratado pela comunicação social, para mais quando estas atitudes ingénuas apenas conseguem é excitar ainda mais as feras… Atendendo ao tema e à (falta de) reacção mediática, e ao contrário do que cantavam Os Sitiados, precisamente nos tempos do apogeu do cavaquismo e de Ferreira do Amaral (1992), há casos e pessoas em que parece que esta vida de marinheiro não dá cabo delas…
(*) - Claro que há variadíssimas escolas na região da Grande Lisboa onde eles poderiam obter precisamente a mesma Carta...
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01 fevereiro 2009
FORMOSA, A AMBICIOSA
No futuro, qualquer compilação das imagens importantes do Século XX incluirão, quase obrigatoriamente, as que constam do vídeo acima: a 31 de Outubro de 1949, depois de terem vencido a Guerra Civil, Mao Zedong, o líder dos comunistas chineses, proclamava a República Popular da China. Após terem perdido a posição de vanguarda tecnológica e económica mundial em proveito dos europeus durante os séculos anteriores, os chineses recuperavam naquele momento a unidade política da China, que se revelava indispensável para poderem começar a recuperar desse seu atraso. Como acontece com imensa frequência, naquela época não se percebeu completamente todo o significado histórico da cerimónia então realizada na Praça Tiananmen de Pequim.
A vitória fora decisiva, mas não total. Os vencidos da Guerra Civil tinham-se refugiado na ilha de Taiwan, conhecida em português pelo nome de Formosa, onde se exerciam ainda os poderes da derrotada República da China. Embora de dimensão irrisória à escala da China (veja-se acima a ilha Formosa, assinalada a azul, quando comparada com a China continental, a vermelho), a ilha ainda possuía uma massa crítica suficiente (36.000 km² e 22.900.000 habitantes em 2007) para que pudesse subsistir de uma forma autónoma, ainda que precisasse da assistência militar dos Estados Unidos. Mais do que isso, graças a eles e durante os 22 anos seguintes (1949-71), o governo da Formosa foi considerado pela ONU e outras organizações internacionais como se fosse o governo legítimo de toda a China…
Progressivamente essa ficção veio a perder-se e hoje não tem praticamente qualquer significado, a não ser internamente, dentro da própria República da China. Paradoxalmente, são precisamente essas debilidades quanto ao seu estatuto que obrigam a República da China a ser muito mais rígida que a sua irmã gigante (a República Popular da China) quanto às reivindicações territoriais que a China possa ter em relação aos seus países limítrofes. Enquanto a República Popular da China tem dado mostras de pragmatismo na forma como se relaciona com os vizinhos, as reivindicações formais da República da China (abaixo) incluem potenciais diferendos com o Japão, a Birmânia, a Índia, o Butão, o Paquistão, o Afeganistão, o Tajiquistão e a Rússia, além da anexação total da Mongólia…
O mapa pode ser ampliado, clicando em cima dele
31 janeiro 2009
A "GRANDE" GAFFE, O PEQUENO INQUÉRITO E O GRANDE PROBLEMA
Através do Água Lisa descobri que outro dia ocorreu um lapso numas declarações da Ministra da Saúde. O episódio foi considerado com tal relevância pela redacção do Portugal Diário que esta lhe resolveu dar o destaque que se pode observar nas suas páginas. Parece-me ser um daqueles casos em que creio que se percebe automaticamente qual terá sido a causa da asneira de Ana Jorge: habituada a referir-se por rotina à Checoslováquia (que, contudo, é um país que já não existe há 16 anos…), corrigiu o engano referindo-se a um dos dois países resultantes da cisão, a Eslováquia, precisamente o errado, aquele onde não fica Praga.
Talvez também tenha influenciado a correcção o facto da outra metade do país ter uma designação pesada que não se pode simplificar: República Checa. São países (como a República Dominicana ou a República Centro-Africana) em que é quase preciso alterar o ritmo ao discurso para os designar. E, já que estamos numa de asneiras, vale a pena evocar aqui uma das cómicas, a do comentador da Antena 1 que relatava o República Checa 1 - Portugal 0, dos quartos de final do Europeu 1996 que, em cima da irritação do golo de Poborsky, ainda insistia em designar os jogadores adversários por republicanos checos… É que, se calhar, devia haver uma selecção rival composta por checos monárquicos…
Em suma, como em tudo, em geografia também há pequenos e grandes disparates e o enorme relevo dado pela redacção do Portugal Diário à gaffe da Ministra da Saúde ao localizar Praga na Eslováquia mereceria que eles fossem brindados também com um pequeno, famoso e arrasador inquérito aos conhecimentos de geografia mundial que apareceu num episódio da série Yes, Prime Minister:1- Onde fica o Alto Volta?
2- Qual é a capital do Chade?
3- Que língua falam no Mali?
4- Quem é o presidente do Peru?
5- Qual é a religião nacional dos Camarões?
2- Qual é a capital do Chade?
3- Que língua falam no Mali?
4- Quem é o presidente do Peru?
5- Qual é a religião nacional dos Camarões?
ADENDA (de 3 de Fevereiro):
Porque não tenho a pretensão de que o Herdeiro de Aécio seja lido em toda a parte, tive a oportunidade de inserir o comentário abaixo na caixa dos ditos do artigo do Portugal Diário que se indignava com a ignorância da ministra:
Dado o destaque que deram nesta notícia à gaffe da ministra quando localizou Praga na Eslováquia, gostaria de verificar como estão os conhecimentos de geografia aí dos membros da vossa redacção - pois parece-me que é a redacção que colectivamente assina essa notícia onde se mostram impressionados com a ignorância ministerial.
São apenas cinco perguntas elementares sobre geografia política - para responder sem consulta... - que retirei dum episódio da série Yes, Prime Minister:
1- Onde fica o Alto Volta?
2- Qual é a capital do Chade?
3- Que língua falam no Mali?
4- Quem é o presidente do Peru?
5- Qual é a religião nacional dos Camarões?
Fico à espera das vossas respostas (sem batota...) para o meu e-mail. Entretanto, talvez não fosse mau que aí na redacção moderassem as vossas indignações com as ignorâncias alheias...
Antes de lá ir espreitar, alguém quer fazer uma aposta sobre o que aconteceu ao comentário?...
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30 janeiro 2009
MÚSICA E POLÍTICA IRLANDESAS
A música do vídeo acima assinala a primeira vitória de uma concorrente irlandesa no Festival da Eurovisão em 1970. A canção chamava-se All Kinds of Everything, a intérprete Dana, então com 18 anos. Veja-se o vídeo e os mais nostálgicos recordarão como era um tempo de uma outra ingenuidade e não me refiro apenas à infantilidade da letra da música ou à piroseira da orquestração: onde é que hoje em dia seria possível que Dana fosse a um Festival da Eurovisão sem que não passasse antes por um dentista que lhe corrigisse o buraco que ela tem no meio dos dois dentes da frente?
Por detrás de toda essa inocência, tinham começado os anos terríveis dos confrontos entre os católicos e os protestantes na Irlanda do Norte, e Dana, por muito que a sua canção se dedicasse ao seu namorado e a todas as coisas da natureza que a faziam lembrar-se dele, também se tornou um factor, ainda que involuntário, dessa disputa. É que, apesar de se ter apresentado a concurso representando a Irlanda, Dana era uma católica originária da cidade de Derry (veja-se no mapa abaixo) na Irlanda do Norte e como tal, vencera-o representando um país que não o seu (que era o Reino Unido).
Desnecessário será dizer que o entusiasmo com que Dana foi recebida na sua cidade natal terá superado em muito aquele com que havido sido acolhida em Dublin, a capital da Irlanda. Entre os políticos da comunidade católica da Irlanda do Norte aproveitou-se a ocasião para que o acontecimento e a jovem intérprete fossem os pretextos para a propaganda da sua causa: a reunificação da Irlanda! Os acontecimentos subsequentes evoluíram para um progressivo aumento da hostilidade entre as duas comunidades numa guerra surda que veio a atingir o seu apogeu entre os anos de 1972 e 1976.
A propósito do ano de 1972, de Derry e de hoje ser 30 de Janeiro, completam-se nesta data 37 anos sobre a data do Bloody Sunday(*), um incidente bastante grave, ocorrido precisamente em Derry, onde pára-quedistas britânicos dispararam sobre uma multidão de manifestantes católicos, tendo morto 14 e ferido mais outros 13 entre participantes e alguns assistentes que estavam no local da manifestação. O incidente veio a tornar-se mundialmente conhecido por causa da banda irlandesa U2 e do seu sucesso de 1983, Sunday Bloody Sunday, aqui abaixo cantada ao vivo no vídeo do Concerto Live Aid de 1985.(*) Domingo Sangrento
(**) É uma questão distinta do comportamento posterior das autoridades britânicas, quando tentaram, de forma inadmissível, encobrir as responsabilidades dos pára-quedistas no incidente.
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29 janeiro 2009
LAWRENCE DA ARÁBIA E FAIÇAL DA EUROPA
A História também se faz, por vezes, de imagens fortes, que é que parece ser o caso da fotografia acima, bastante conhecida, onde aparece um europeu vestido de trajes tradicionais árabes. Trata-se de T.E. Lawrence (1888-1935), um arqueólogo que, durante a Primeira Guerra Mundial, se tornou conhecido por causa do seu papel de agitador durante a insurreição que os britânicos fomentaram junto dos árabes contra o Império Otomano. A figura de Lawrence veio depois a popularizar-se ainda mais com o aparecimento de um filme em 1962, baseado não muito rigorosamente nesse período da sua vida e intitulado precisamente Lawrence da Arábia (abaixo), onde o seu papel é interpretado pelo actor Peter O´Toole.
Nesse mesmo filme, o segundo papel mais importante foi atribuído ao actor Alec Guiness, que representou o papel do Príncipe Faiçal (1883-1933), o principal dirigente da coligação de tribos árabes que, construída sob a inspiração de Lawrence, se bateu e contribuiu para derrubar o domínio otomano. Depois da Guerra e da divisão do Império Otomano, o Príncipe veio a tornar-se a partir de 1921 o Rei Faiçal I do Iraque, depois de ter sido escolhido por um plebiscito onde venceu com 96% de votos favoráveis… A fotografia de baixo é a fotografia oficial do Rei Faiçal dessa época. Ao invés da outra, muito mais popular, em vez de vermos um europeu vestido de trajes tradicionais árabes, temos um árabe vestido à ocidental…
A fotografia oficial do verdadeiro Faiçal pode ser menos exótica do que a de Lawrence, mas será porventura mais significativa da importância dos padrões e dos valores que estavam então em vigor naquela época. Um soberano devia fazer-se retratar vestido apropriadamente, e isso implicava um fato talhado impecavelmente por um alfaiate de nomeada. Além das fortes, a História também se deve fazer das imagens verdadeiras… 28 janeiro 2009
PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO
Sem dizer uma única palavra, um homem armado assaltou, esta sexta-feira, à hora do almoço, uma agência da Caixa Geral de Depósitos, em Vila Nova de Gaia. Segundo o JN apurou, tudo aconteceu poucos minutos antes das 13 horas, na dependência situada na Avenida da República, próximo a Soares dos Reis. O assaltante, que usava um chapéu azul e foi descrito por testemunhas como alto e magro, começou por se dirigir ao balcão, colocando em cima da mesa um papel onde estava escrito: Isto é um assalto. Eu sou mudo.
O texto é uma transcrição parcial de uma notícia do Jornal de Notícias de 24 de Janeiro e o vídeo é uma cena de um filme de 1969, Take the Money and Run. O Mudo de Gaia saiu-se melhor do assalto do que Woody Allen... Provavelmente porque, apesar de mudo e ao contrário do desastrado Allen do filme, não terá tido problemas com a caligrafia, nem mostrado receio em empunhar a caneta...
DO ERRO DE DESCARTES À ANÁLISE DOS CASOS DO JOGO FEITA POR JOSÉ PACHECO PEREIRA
Entre aquelas pequenas coisas misteriosas que me intrigam no mundo editorial, conta-se as causas para o sucesso fulgurante do livro O Erro de Descartes de António Damásio, quando ele foi publicado em Portugal, vai para uns 14 anos. Saído em Maio de 1995, três meses depois o livro já atingira a 12ª Edição! O que, convenhamos, para livros de carácter científico é uma coisa raríssima… Ora o meu mistério, mesmo não me pronunciando sobre o seu conteúdo científico, que para tal não estou habilitado, é que, apesar do sucesso, tenho do referido livro uma opinião muito negativa...
Tratando-se de uma tradução do original inglês, a forma como se abordam os assuntos naquele livro, tornam-no num exemplo acabado do livro maçudo para quem o leia como informação geral. Nem o acabei de ler. Desconfio também que os que aguentaram até ao fim terão sido uma minoria ínfima entre os vários milhares de compradores que justificaram aquelas 12 edições. Mas, mesmo desistente, ainda retenho do que li n´O Erro de Descartes a questão do mapeamento das diversas áreas funcionais do cérebro, nomeadamente onde se produzem as emoções.
Não sei se Damásio já terá identificado a área que no cérebro dos intelectuais está afecta aos momentos delirantemente escapistas e irracionais, que se costumam exprimir em comentários descaradamente tendenciosos sobre o desempenho do seu clube de futebol. Sei que, caso exista essa área no cérebro, então os intelectuais, como Francisco José Viegas ou António Pedro Vasconcelos, tê-la-ão hipertrofiada, conforme se constata pelas suas intervenções públicas na televisão ou pelos seus comentários na blogosfera. Mas há uma excepção a esta regra: José Pacheco Pereira.
José Pacheco Pereira, ao confessar-se honestamente pessoa totalmente desinteressada do fenómeno do futebol (e não estou a falar da sua prática…), acaba por não ter actividade onde sublimar a sua parcialidade oriunda da tal área do cérebro que, quase de certeza, existe, apenas não sei se Damásio já a terá descoberto… Conclusão: acabam por ser as suas análises da situação política nacional que sofrem com isso, com momentos delirantemente tendenciosos, parecidos com qualquer apreciação do desempenho de uma qualquer equipa de arbitragem que prejudicou o nosso (dele) clube… o PSD.Ou seja, segundo o Abrupto, aquilo do Freeport foi um penalti que ficou por marcar!...
27 janeiro 2009
CONSTANTINOPLA, 13 de Abril de 1204
A famosa Queda de Constantinopla, conquistada pelos turcos, aconteceu a 29 de Maio de 1453. O acontecimento foi escolhido pelos historiadores não só para assinalar o fim definitivo do Império Romano (do Oriente) acompanhado da morte heróica do último Imperador (Constantino XI) de armas na mão, como também se convencionou que esse ano de 1453 serviria para assinalar o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Mas uma outra maneira de contar precisamente a mesma história, poder-nos-ia fazer concluir que o Império Romano do Oriente já havia acabado quase precisamente 250 anos, com uma muito mais embaraçosa e discreta Queda de Constantinopla, a 13 de Abril de 1204.
A razão principal do embaraço é que os que desempenharam o papel de conquistadores nessa prévia Queda de Constantinopla foram os cruzados oriundos de toda a Europa ocidental que a partir de 1202 se haviam reunido para a realização da Quarta Cruzada. A cidade de Jerusalém voltara ao controle muçulmano em 1187. Em reacção a isso, o Ocidente europeu organizara uma nova Cruzada, a Terceira (1189-1192), recheada de quase todas as vedetas coroadas do continente: os Reis de França e de Inglaterra e mesmo o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Frederico Barbarossa. Foi um fiasco. Frederico morreu afogado no Leste da Turquia em 1190 e depois disso gerou-se a confusão total na expedição...
Os cruzados conquistaram pela primeira vez Constantinopla em 18 de Julho de 1203, para lá instalar um novo Imperador Romano, Aleixo IV. O pretexto para a interferência dos venezianos e dos cruzados fora uma disputa dinástica entre o novo Imperador e o seu tio (Aleixo III). Dessa vez, pelo menos formalmente, os cruzados foram ainda apenas um instrumento de uma das facções do poder político bizantino. Mas quando voltaram a atacar e a (re)conquistar a cidade nove meses depois, a 13 de Abril de 1204, já agiram autonomamente, contra o poder político que haviam anteriormente instalado e com quem, entretanto, já se haviam incompatibilizado.
Houve dois deles que assumiram mesmo o título, pretensioso naquelas circunstâncias, de Imperador (em grego Basileus), como se se tratasse daquilo que hoje designaríamos como um de governo no exílio: foram os soberanos de Niceia e de Trebizonda. Foi em 25 de Julho de 1261 que se registou mais uma Queda de Constantinopla, desta vez nas mãos de um pequeno destacamento ao serviço do Imperador de Niceia, Miguel VIII. Este último, mal pôde, partiu para Constantinopla onde se fez coroar novamente a 15 de Agosto de 1261. Por essa altura, depois de 57 anos de administração latina, com uma população estimada em 35.000 habitantes, a cidade era uma sombra do que fora.
É por isso que convém aceitar com cautela algumas ideias que se difundiram sobre a Queda de Constantinopla que ficou mais famosa, a de 1453. É que a cidade que os turcos conquistaram não possuía quase nada do esplendor imperial de outrora. As várias Quedas anteriores haviam-na despojado de muita da magnificência dos períodos de ouro. Nem as suas muralhas eram assim tão inexpugnáveis, que só os enormes canhões do Sultão, armas que só haviam sido inventadas depois da descoberta das aplicações militares da pólvora, podiam agora derrubar. Os acontecimentos de 1203 e 1204 mostraram como as operações de cerco medievais, quando eram devidamente preparadas, podiam ser bem sucedidas…
Os três mapas apresentados são reproduções parciais do Sudeste da Europa do The Times Atlas of European History para os anos de 1180, 1223 e 1270.
25 janeiro 2009
UMA OUTRA DIVISÃO DA EUROPA
Há inúmeras maneiras de apresentar divisões internas que existam na Europa. Resolvi apresentar em poste a do mapa abaixo (pode clicar em cima para o aumentar), traçada a azul-escuro, porque foi uma novidade para mim. Trata-se de uma linha de alturas – é uma divisão geográfica física, portanto – que separa as redes hidrográficas que fazem desaguar as suas águas no Oceano Atlântico ou nos seus anexos (como o Mar Báltico), que se situa a Norte e Ocidente, das redes que estão orientadas para o Mar Mediterrâneo e seus respectivos anexos (como o Mar Negro), que se situam a Sul e Oriente da linha divisória.
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