11 de Fevereiro de 1990. Libertação de Nelson Mandela de uma prisão sul-africana situada perto da cidade do Cabo. Estivera preso durante 27 anos. Foi um acontecimento coberto pela televisão norte-americana em directo e assim, implicitamente, tornou-se um acontecimento (televisivo) de dimensão mundial. Em Portugal, também a RTP o transmitiu em directo. Só no dia seguinte (11 de Fevereiro foi um Domingo), a comunicação social mais vetusta pode acompanhar o acontecimento. O Diário de Lisboa desenvolveu-o por quatro páginas e escolheu dar-lhe um retoque de exotismo africano, recorrendo a uma expressão de uma das línguas nativas da África do Sul («Amandla») que, por sinal, os leitores portugueses nunca haviam ouvido e não conheciam, e que, por sinal, o jornal traduziu mal*.
* Estes expedientes informativos de profunda densidade antropológica, adoptando palavras que convidam o leitor a tornar-se num iniciado, estavam destinados a um futuro tão brilhante quanto fugaz. Recordemos apenas dois exemplos: o do próprio Nelson Mandela, tratado recorrentemente por Madiba (e muitos outros nomes exóticos), ou então Yasser Arafat, cuja sede do seu poder na Palestina era a Mukataa e os israelitas cercavam-no na Mukataa.
Durante o período das guerras em África, ficaram conhecidos por abatises (uma palavra originalmente francesa) aqueles obstáculos (normalmente troncos de árvore de grande porte) que os guerrilheiros colocavam ao longo das vias rodoviárias para dificultar o trânsito das viaturas das tropas portuguesas. Não causavam baixas, não se ganha uma guerra só com isso, mas eram uma chatice. E os que as colocavam sabiam disso e, por isso mesmo, colocavam mais. Esta era das redes sociais criou uma coisa que se reveste da mesma estrutura moral dos abatises: refiro-me a uma espécie de fauna que, lendo o que os outros escrevem, se especializou em colocar comentários desagradáveis e sempre e só desagradáveis nas caixas previstas para esse fim. Até podia ser que, muito de vez em quanto e em vez de um (comentário) tronco atravessado na estrada, colocassem dois ou três por cima da depressão de um pequeno curso de água (inócuos ou perturbadoramente elogiosos), para facilitar a circulação. Mas não. Parece não ser essa a ideia, a de ser equilibrado e distribuir tanto críticas quanto elogios, ainda que esparsos. A ideia é ser mesmo e só «amigo da onça». Ampliando a analogia, também não se adivinha entre os autores destes comentários desagradáveis uma preocupação por aí além em acompanhar os esforços (as respostas e críticas que os seus comentários suscitam) para resolver os incómodos que causam, como acontecia com os autores dos abates de árvores à beira da estrada. Ou seja, tudo se parece limitar à tarefa de chatear outros, só pelo prazer de se notabilizar chateando-os. Mas com uma diferença alicerçal: os guerrilheiros que colocavam os troncos consideravam-se em guerra contra o exército português; os autores destes abatises virtuais do século XXI estão em guerra com o resto dos frequentadores do meio, o que é uma estupidez.
Luís Napoleão Bonaparte (1808-1873), mais conhecido por Napoleão III, Imperador dos franceses desde 1852, numa fotografia tomada em 1857, onde ele, aos 49 anos, já goza do estatuto imperial. Contudo, talvez porque a fotografia fosse então só uma técnica e estivesse ainda na infância da arte, aquilo que resulta não beneficia particularmente a augusta figura: o elaborado bigode, que deveria terminar em duas agulhas laterais, aparece assimétrico, a barbicha, descomposta, lembra algodão desfeito, e o cabelo mostra-se empastado com umas pontas rebeldes, curiosamente reminiscente do estilo hoje popularizado por Donald Trump. Mas é o olhar e os olhos de Luís Napoleão que tornam a fotografia mais interessante, porque vão contra os cânones da representação das grandes figuras históricas dessa segunda metade do Século XIX. No olhar, apontado à objectiva, adivinha-se um tédio cansado e os olhos, apesar da fotografia ser a preto e branco, adivinham-se de um azul claro, uma surpresa para quem ia buscar a sua legitimidade hereditária aos Bonaparte, a uma família oriunda de um local emblemático da Europa meridional, mediterrânica e de tez escura, como é o caso da ilha da Córsega.
10 de Fevereiro de 1940. Em Paris, a Assembleia Nacional, reunida à porta fechada em sessão secreta sobre assuntos respeitantes à Guerra em curso, produz uma votação onde é alcançada a unanimidade dos deputados presentes (534 votos!). O teor secreto da sessão não permite esclarecer qual terá sido o conteúdo do que foi submetido a votação, mas, os jornais parisienses primeiro, e depois os do resto do Mundo simpático para com a causa aliada, são unânimes em saudar a unanimidade dos deputados franceses. Valha a verdade que, para se alcançar esta unanimidade, a Assembleia Nacional francesa se purgara entretanto dos seus deputados comunistas mais internacionalistas (leia-se: obedientes a Moscovo), já que Moscovo e Berlim eram então aliados. Mas, minudências à parte, a unanimidade dos parlamentares franceses causara uma excelente impressão, tanto em Londres, como mais longe, em Washington D.C., lê-se na notícia acima. Desconhecido de todos, o governo de Édouard Daladier, o herói deste dia de há oitenta anos, iria cair pouco mais de um mês depois, a 20 de Março de 1940...
9 de Fevereiro de 1950. Num discurso proferido numa discreta reunião de mulheres republicanas que teve lugar na pequena cidade de Wheeling (Virgínia Ocidental), o senador norte-americano Joseph McCarthy usa pela primeira vez o expediente de pegar numa folha de papel enquanto comenta: «Embora não tenha aqui tempo para nomear todos os membros do Departamento de Estado que são membros do partido comunista ou de de círculos de espionagem, eu tenho aqui, na minha mão, uma lista de 205 nomes - uma lista de nomes que são conhecidos pelo Secretário de Estado e que, no entanto, ainda continuam a trabalhar e a definir políticas naquele Departamento.» Com este gesto coreografado, que ele irá repetir consecutivamente nos anos que se seguirão (fotografia acima) com pequenas nuances (nomeadamente quanto ao número de nomes suspeitos e quanto às instituições infiltradas...), mas sempre com a mesma acusação, abriu-se a era daquilo que veio a ser conhecido na América pelo "Macarthismo". Mas terá sido preciso muito mais do que um senador ambicioso e sem escrúpulos para que o Macarthismo tivesse existido. Primo, foi preciso que a opinião pública dos Estados Unidos não quisesse aceitar os factos da política internacional, nomeadamente que a sua supremacia mundial, que parecia (e era) indisputada no final da Segunda Guerra Mundial, passara a sê-lo pela Rússia e na China, uns meros cinco anos depois.
Mas foi também preciso uma enorme dose de cobardia dos poderes institucionais dos Estados Unidos para não afrontarem o popular discurso do demagogo que apontava bodes expiatórios internos a torto e a direito, alguns plausíveis, outros absurdos, cobardia essa que passou por todos os ramos dos poderes, o executivo (os presidentes Truman e Eisenhower acobardaram-se), o legislativo (os colegas do Congresso também) e o judicial (os tribunais quase nada fizeram, quando não cooperaram mesmo com as perseguições). A narrativa que mais tarde se veio a adoptar para recontar o que aconteceu ao longo do período, com os seus heróis, como Ed Morrow e o seu Boa Noite e Boa Sorte, tende a passar em claro que o Macarthismo perdurou por uns pujantes quatro anos, período durante o qual o senador chegou a ser eleito para presidir a uma das comissões do Senado, estatuto que ele usou, naturalmente, para melhor promover a sua agenda. O oportunismo e a cobardia políticas não são, por isso, um fenómeno de hoje da política americana (veja-se o cartoon abaixo, o elefante representa o partido republicano). Não é de estranhar assim, que sejam excepções muito excepcionais aquelas que se levantam hoje no partido republicano contra o presidente eleito pelo seu ticket. A História, lá mais para diante, ainda vai dar uma reviravolta ao que agora se passa e Mitt Romney ainda passará a herói, mas para o momento corrente, ele é o vilão.
Se os jornalistas não fossem a merda que são, faria todo o sentido que, em pleno congresso do PSD, onde se confirma a liderança de Rui Rio, os jornalistas fossem chatear (até à medula!) José Miguel Júdice para o confrontar com as baboseiras que ele andou a proferir há seis meses, antecipando-lhe (a Rio) um futuro muito breve como líder do PSD. Tratou-se de um erro de análise (de palmatória!) e a não resposta ou a resposta evasiva de Júdice seriam, só por si, uma notícia tão interessante e de merecer o mesmo destaque que estas suas antevisões. Se a SIC Notícias (acima) e o Observador (abaixo) acham que as opiniões de Júdice são tão interessantes e de considerar, o interesse jornalístico pela figura só aumenta quando, o tempo, como acontece neste caso, faz com que as antevisõesse revelem redondamente erradas. E está muito longe de ser a primeira vez que isto acontece. Mas seria para colocar essas perguntas ao seu convidado que lá deveria estar Clara de Sousa no programa em que a senhora, solícita, com ele contracena, e não para ser uma espécie de compère do número artístico do mágico (Júdice) em que a jornalista se limita a abrir muito os braços e a entrar para um caixote para ser metaforicamente serrada lá dentro. Eu não me canso de me intrigar com os mecanismos ocultos que perpetuam estes completos cretinos no circuitos intelectuais da opinião publicada.
É por brasserie Lipp que costuma ser designada a fotografia acima, tirada em 1969 pelo famoso fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson. A brasserie Lipp, situada no boulevard de Saint-Germain, é uma daquelas referências da Paris turística. E como acontece normalmente quando o caso é esse e a reputação se basta a si própria, uma consulta ao tripadvisor informa-nos que a qualidade do estabelecimento, especialmente o serviço e o atendimento, são uma merda (abaixo uma fotografia actual da brasserie). Mas, apesar do título, o seu avançado é apenas o local e o pretexto da fotografia, cujo tema é um indiscutível choque de gerações. Há décadas a separar as duas mulheres sentadas e essa distância é visível em quase tudo o que as rodeia. Desde o mais óbvio, aquilo que vestem (a mini saia versus o chapéu), à forma rígida ou descontraída como se sentam, ao que pediram (a mesa desimpedida da mais nova versus a mesa cheia da outra). Distinguem-se também pelo jornal que lêem, o Le Figaro versus o (mais difícil de decifrar pela disposição...) Le Monde. E por fim há a atitude, um olhar de soslaio e passível de múltiplas interpretações da mais velha na direcção da mais nova que, de dedo na boca, como que acentuando uma certa infantilidade da postura, parece absorta ao que a rodeia. Os cabelos tapam-lhe os olhos, ao contrário da sua colega de foto, interessa menos o que ela está a ver do que o facto de ser vista. Trata-se de um momento no tempo muito bem captado por Cartier-Bresson: hoje calharia à segunda, com os seus setenta e tal anos, a competência de olhar à sua volta, enquanto a representante da modernidade se fixaria no ecrã do telemóvel.
7 de Fevereiro de 1970. A notícia é pequena e discreta, inclusa no fundo da página 17 do jornal do dia, e nela se dá conta que o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, num discurso que fizera na noite anterior em Chicago, pedira «a mobilização total dos governos federal e locais e da indústria dos Estados Unidos para se desencadear uma guerra contra a poluição da água e da atmosfera. (...) Nixon fez estas observações a seguir a uma conferência do seu novo conselho de qualidade do meio ambiente, na qual participaram os governadores dos quatro estados fronteiriços ao lago Michigan.» Em 1970 as questões ambientais apresentavam-se como uma novidade e não muito importante, se atendermos ao destaque dado à notícia, embora se perceba que a presidência dos Estados Unidos estivesse em cima das tendências políticas para o futuro. Mas o que torna portentosa esta discreta notícia com cinquenta anos é o contraste que constitui a atitude do presidente Richard Nixon quando comparada com a do seu longínquo sucessor Donald Trump, que há uns escassos dois dias proferiu um solene e extenso discurso de uma hora e vinte ao país sem que fizesse uma referência que fosse à questão ambiental. Recuperando a expressão de Richard Nixon em todo o seu engajamento bélico, a Guerra que ele desencadeou há cinquenta anos foi agora interrompida por um armistício pedido por Donald Trump.
Não é preciso assistir a muito mais do que dois minutos do programa para se perceber que «o mestre em estratégia» tem ali tanto cabimento quanto uma viola num enterro. Ao preço a que são remunerados os direitos de autor e considerando as probabilidades maiores que zero que ele terá de vender um livro, que seja, em consequência da sua presença num programa tão idiota, digamos que Abílio Lousada se terá disposto a receber para aí uns dois euros - e nem esses são garantidos! - para ir fazer um completa figura de parvo num programa de TV. Programa esse que, como acima se constata, é de uma superficialidade idiota em quase todos os aspectos: desde o apresentador Fernando Alvim aos restantes convidados que, esses sim, estarão no sítio certo para se promoverem. Quanto ao mestre, o intelectual que não faz lá falta nenhuma, lembremo-lo que, para se ser um bom estratega, teria tido que pensar a campanha antes de a desencadear. Estes convites para programas deste género costumam ser mais um conforto para o ego do autor do que um verdadeiro instrumento de promoção das suas obras.
6 de Fevereiro de 1995. No quadro de uma ampla colaboração espacial entre russos e americanos, o programa Shuttle-Mir, que só se começara a concretizar depois do fim da Guerra-Fria, havia tido lugar o primeiro voo tripulado norte-americano (vaivém Discovery) que se encarregaria de posicionar nas proximidades da estação espacial russa Mir. Saídos de Cabo Canaveral na madrugada de dia 3 de Fevereiro, foi só no dia 6 - ou seja, há precisamente vinte e cinco anos - que as duas naves se aproximaram o suficiente para que se comprovasse a imagem acima do emblema da missão STS-63. A próxima fase, que envolveria finalmente a atracagem de um vaivém espacial com a estação espacial, só se viria a realizar numa missão posterior, a STS-71, realizada em Junho desse mesmo ano. Apesar de se perceber que, apesar das aparências, a rivalidade de décadas não iria desaparecer de um momento para o outro, era salutar observar estes situações concretas de cooperação no espaço. A ironia da situação, vista a esta distância de tempo, é que então eram os americanos que se ofereciam para transportar os cosmonautas russos para órbita, já que as suas naves Soyuz só podiam transportar 3 tripulantes de cada vez, e os vaivéns americanos tinham uma capacidade muito superior (como se lê acima, nesta missão viajavam 6 astronautas, um dos quais russo); actualmente, e porque cancelaram os vaivéns sem que dispusessem de uma alternativa operacional, os americanos estão dependentes dessas mesmíssimas naves Soyuz para colocarem os seus astronautas em órbita...
5 de Fevereiro de 2000. Novye Aldi é uma localidade dos arredores de Grózni, capital da Chechénia, uma das Repúblicas adjacentes à Federação Russa. Foi aí que há precisamente vinte anos ocorreu um massacre de população civil, inscrito no quadro da Segunda Guerra da Chechénia então em curso. Nos dois meses que antecederam o massacre (Dezembro de 1999 e Janeiro de 2000), travara-se uma batalha convencional em que as unidades russas cercavam a capital chechena, defendida pelos separatistas. O poder de fogo russo superiorizara-se. As suas salvas de artilharia haviam caído sobre a cidade e os arredores, desertificando-os e causando vítimas entre a população civil que permanecera. Novye Aldi, por exemplo, que teria uns 27.000 habitantes antes da guerra, estava reduzida a umas 2.000 pessoas e havia perdido outras 60 pessoas apanhadas pelos obuses russos. Mas aquilo que veio a acontecer em 5 de Fevereiro foi diferente. Trazendo infelizes reminiscências das descrições que os civis alemães faziam da chegada dos soviéticos em 1945, também aqui as primeiras unidades russas a chegar a Novye Aldi em 4 de Fevereiro eram compostas por soldados combatentes e disciplinados. Só que, no dia seguinte, eles abandonaram a localidade e continuaram a sua progressão até ao centro de Grózni. Como acontecera em 1945, atrás das unidades bem enquadradas é que vinha o restolho. O restolho era composto maioritariamente por homens de uma força policial originalmente constituída para combater o terrorismo e que aqui se destacaram por serem militarmente uns parasitas e humanamente uns trastes: roubos, pilhagens, destruição gratuita (aprecie-se a casa a arder em fundo), violações e execuções de civis. No computo global, e mencionando apenas os mortos, terão sido cerca de 80. Só que estamos na Rússia: os russos não costumam ligar nenhuma a estas coisas dos massacres e os ocidentais, que ligam, também não ligam muito porque se trata de um massacre entre russos, que têm uma língua que ninguém entende no resto da Europa (abaixo), e as vítimas são chechenos, que até são muçulmanos. Resultado: não tem assim muito interesse nem utilidade política. Ninguém chateia os gajos do PC com isto. Aconteceu há precisamente vinte anos.
É o episódio mediático do dia. E, porque um video como o acima corre o risco sério de ser retirado quando, daqui por um punhado de semanas, nos esquecermos do que nele se exibe, convém aqui descrevê-lo: começa pelas cenas do início da cerimónia do discurso sobre o Estado da União que costuma ser tradicionalmente proferido pelo presidente dos Estados Unidos nesta altura do ano. E porque esse discurso é pronunciado diante das duas câmaras do Congresso (Senado e Representantes), por detrás de Donald Trump vêem-se os presidentes dos dois órgãos: o vice-presidente Mike Pence (Senado) e a congressista californiana Nancy Pelosi (Representantes). Ambos batem palmas até que o presidente se vira para trás e lhes entrega duas cópias dos discurso que irá proferir, quando Trump ignora a mão estendida de Pelosi. Sensivelmente uma hora e vinte depois, quando Trump conclui o discurso e se chega à ocasião dos aplausos, Pelosi aproveita a ocasião em que as câmaras e as atenções estão centradas no orador para, por detrás dele, se levantar (como Pence também faz, mas aplaudindo) e rasgar ostensivamente as folhas que lhe haviam sido entregues por Trump no início da cerimónia. Por ser tão inédito, e porque os interesses mediáticos se pautam pelas aparências e não pela substância, o gesto ofuscou tudo o que se poderia comentar a respeito do discurso sobre o Estado da União. O que se constata também é que, quando Trump sai da redoma em que sempre o encerram e quando é obrigado a contracenar com intervenientes que não se intimidam com a sua brutalidade (já aconteceu outras vezes com Pelosi, mas também já aconteceu com Emanuel Macron), as coisas têm tendência para correr mal à coreografia da respeitabilidade que a Casa Branca deseja que exista sempre ao redor do presidente dos Estados Unidos...
Mas reconheçamos que tudo isto são problemas da responsabilidades dos americanos que a eles e só a eles compete dirimir. O que me entretém neste episódio do dia é outra coisa, atitude tipicamente nossa, no oportunismo como já me deparei com um, dois, três coelhos que parecem ter saído da toca para se manifestarem indignados com os papéis rasgados por Nancy Pelosi. Qualifico-os por coelhos porque habitualmente conseguem permanecer proeminentes na paisagem das redes sociais, mas selectivos sobre o que opinam, e, sobre a actualidade americana, comprovadamente desprovidos de opiniões firmes a respeito de episódios sucessivos que transformaram num enorme embrulho a presidência de Donald Trump. Apareceram hoje, mostrando desta vez firmeza, mas na condenação do gesto da presidente da câmara dos Representantes. É uma outra maneira de defender Donald Trump, que os coelhos porventura pensarão ardilosa, sem se exporem ao ridículo de o defender directamente, atacando apenas quem o confronta. Encontrei-os, aos três coelhos, sem os querer achar, que a época da caça ao bicho está fechada. É que, ainda por cima, a dois dos três que encontrei, descobrira-os entusiastas mas efémeros apoiantes de Luís Montenegro à presidência do PSD no mês passado, outro assunto sobre o qual, agora e com a aproximação do congresso do partido, também não têm saído da toca... São os comentadores que têm sempre razão porque quando a não têm, cobardemente tentam dissimular-se com a paisagem. (adenda: dois cartoons políticos a respeito do incidente e da forma como foi acolhido)
4 de Fevereiro de 1970. O reverenciado Tratado de Roma já estava em vigor há mais de doze anos quando os ministros dos seis países originais conseguiram alcançar um acordo para a livre circulação de um produto agrícola tão prosaico quanto o vinho. Como de costume, num mecanismo que Portugal virá a conhecer por dentro, as regras de excepção da CEE aplica(va)m-se a quase todos os produtos onde, pela própria natureza do clima, os países meridionais têm vantagens comparativas na sua produção, produzindo em melhor qualidade e preço do que os países do Norte da Europa. Neste caso do vinho, e numa CEE ainda restrita aos seis membros originais, era - naturalmente - a Itália que se queixava do proteccionismo de franceses e alemães e que à época aproveitara o desejo dos parceiros em aprovar um novo regulamento financeiro para a agricultura, para fazerem uma chantagem descarada. Bem sucedida para o comércio do vinho e prometida para o do tabaco. O edifício europeu está edificado sobre uma data de golpadas do mesmo género e é por isso que dá pena que o Reino Unido, que tantas golpadas deu, desperdice agora esse capital abandonando a organização.
4 de Fevereiro de 1945. Há setenta e cinco anos iniciava-se a conferência de Yalta. E há doze anos e meio publiquei aqui no Herdeiro de Aécio um poste onde falava de alguns dos problemas logísticos que se puseram aos soviéticos para organizar a conferência num território (Crimeia) que meses antes ainda estava ocupado pelos alemães. Haveria outras soluções mas Estaline não se dispunha a deslocar-se para muito longe e, dizem as más línguas, que tinha medo de voar. De facto, constata-se que a todas as conferências com os aliados a que compareceu (3 - Teerão, Yalta e Potsdam), deslocou-se sempre de comboio. Sobre a conferência propriamente dita e como eu já sugerira anteriormente: há bastantes por aí, uns melhor, outros menos bem, que se dispõem a explicar aquilo que aconteceu há 75 anos na Crimeia. Já aqui tive também oportunidade de lembrar, quando quiseram dar à expressão um sentido negativo em Outubro de 2015, que aquela magna aliança militar também foi uma coligação negativa (contra a Alemanha).
Não estarei a arriscar muito se predisser que 99% dos efectivos e potenciais leitores do Observador não sabem as regras do futebol americano. E que essa ignorância e desconhecimento não se deverão à particular complexidade das mesmas (regras). No entanto, a publicação bombardeia-os, aos leitores (existentes e potenciais), com o painel de notícias que acima se pode apreciar a pretexto da realização da final do campeonato norte-americano da modalidade que ontem teve lugar a horas impróprias para que a maioria dos europeus a seguisse em directo (o jogo começou às 23H30 de Lisboa). Contudo, e porque o processo parece ter vingado para outros casos, insiste-se em forçar a adoptação de padrões de consumo da sociedade norte-americana como se eles existissem, idênticos, na Europa. Anda há dois meses aprendi mais um: o Black Friday... Este mês de Fevereiro, então, é prodigioso em acontecimentos do faz-de-conta que são iguaizinhos na Europa e na América do Norte: depois do Super Bowl (com maiúsculas), na próxima semana hão-de vir os Óscares, essa cerimónia que vai deixar, mais uma vez, o continente europeu insone (já que a terá que acompanhar em directo a partir das 3 da madrugada), a que se seguirá, na semana seguinte, essa data incontornável no calendário dos santos da igreja católica (e do amor) que é o Dia de São Valentim... Antecipo que, a todas elas, o Observador e o resto da jornalada irá dar a atenção que todas elas merecem, presos na armadilha: ou fazem barulho a propósito destas irrelevâncias, ou então não fazem barulho algum e aí têm medo de serem esquecidos. Bute aí promover as nossas marchas populares nos Estados Unidos?
3 de Fevereiro de 1950. Prisão (pela contra-espionagem britânica) de Klaus Fuchs. A pretensão do livro acima (2014), de que ele terá mudado o Mundo é provavelmente excessiva. Mas aquilo que torna a sua história desinteressante para ser explorada como epopeia de propaganda, quer do lado ocidental, quer do lado soviético, é o facto de a sua história ser desprovida da emoção e moralidade de que as histórias de espiões que prestam precisam ter para serem popularizadas para propaganda. Klaus Fuchs foi um físico teórico e, como tal, acabou prestando relevantes serviços como tal ao desenvolvimento do programa nuclear que criou as primeiras armas atómicas em 1945, nos Estados Unidos. Foi um espião que, apesar de ter sido espião, foi um espião útil à causa contra a qual veio a espiar. E não foi um espião muito dissimulado. Quando o Reino Unido o contratou, em 1933, o seu percurso e as suas simpatias comunistas na Alemanha eram conhecidas; aliás, fora por isso que fugira ao nazismo. Quanto à sua carreira como espião, ele foi um espião activo mas menor: aquilo em que os soviéticos estiveram verdadeiramente interessados de 1945 em diante era nas soluções práticas para a construção da arma nuclear, informações que ele, como físico teórico, apenas acompanhava colateralmente. A acrescer, documentos que mais tarde vieram a ser conhecidos (projecto Venona), parecem indiciar que a contra-espionagem dos Estados Unidos desde muito cedo (1943) soubera que havia espiões soviéticos no seu programa nuclear, e que um dos suspeitos principais era Fuchs. Isto torna intrigante o facto de os britânicos terem esperado quase cinco anos para questionarem Fuchs e finalmente o prenderem há 70 anos. Uma análise à sua actividade como físico teórico e como espião mostra que os prejuízos que Fuchs havia causado com a sua segunda actividade haviam ocorrido em 1946 e que em 1950 Fuchs já teria acesso a pouco material que interessasse aos soviéticos. Aquilo que mudara recentemente fora o anúncio da detonação da primeira bomba atómica soviética, em Setembro de 1949 e a percepção pelas opiniões públicas dos países ocidentais que os Estados Unidos haviam perdido a vantagem da exclusividade do armamento nuclear. O que obrigara a respostas como aquela que aqui publicámos anteontem, com o anúncio norte-americano do desenvolvimento de uma bomba termonuclear (Bomba H), muito mais poderosa. O resto da história de Klaus Fuchs parece mostrar que a sua prisão terá sido muito mais ditada pelas circunstâncias dos poderes quererem que se aplacasse uma opinião pública (e não só...) desagradada do que verdadeiramente capturar alguém que passara informações ao inimigo. No Reino Unido, o First Sea LordBruce Fraser perguntava alto, dando voz a tantos: «Como é que é possível que, sabendo aquilo que nós sabemos sobre armamento nuclear desde 1945, ainda não possuímos uma bomba atómica, em contraste com o que acontece com os russos que, partindo do nada, aparentemente já nos ultrapassaram?» Para justificar e amenizar as vozes que assim se indignavam, no imediato um bode expiatório como Fuchs foi julgado e condenado em tempo record. Em menos de um mês (1 de Março de 1950) e num julgamento que terá durado hora e meio, ele recebeu uma pena de catorze anos de prisão por espionagem. Além disso, perdeu a nacionalidade britânica. Klaus Fuchs cumpriu a pena até Junho de 1959, quando foi amnistiado com uma redução por bom comportamento. Tinha ainda 47 anos. Foi viver para a Alemanha Oriental, para Dresden, onde se situa o Instituto de Pesquisa Nuclear, onde se tornou uma figura proeminente. O regime comunista deu-lhe alguns cargos de prestígio como a presidência da Academia de Ciências e um lugar no comité central do partido. Reformou-se em 1979, faleceu em 1988. Tendo trabalhado para os dois lados, é um espião com o qual é difícil antipatizar.
...em primeiro lugar porque se trata de um assunto tão à moda que, a respeito dele, funciona o princípio de que há certas opiniões que são como os cus: todos têm um e cada qual tem a sua (opinião). E num destacado segundo lugar porque ler a opinião de um palerma que já se fartou de profetizar asneiras grosseiras e desmentidas pelos factos (como o de o professor Marcelo não se chegar a candidatar à presidência da República e, se o fizesse, perderia...) é um perfeito exercício de masoquismo e de perda de tempo. A avaliação está para além da discordância política, o João Marques de Almeida é, comprovadamente, um idiota e, ano após ano (há dois anos antecipava para breve «o fim de Merkel»...), remodela-se o painel de colunistas, mas o Observador mantém-no por razões que obviamente nada terão a ver com a qualidade da escrita e a argúcia da sua análise política. No artigo que escreve este Domingo (pagam-lho?), bem pode ele invocar o «sistema» que «ataca o Chega»... Certamente não há só esse «sistema» e, antes desse outro que persegue tudo o que venha da extrema direita, o que me intriga é este outro «sistema» que concede uma plataforma semanal a esta mediocridade atestada. Há assim tantos leitores do Observador a lerem-no e a reconhecerem-se no que escreve? É que, ainda por cima, é uma colaboração vintage (premium)!
2 de Fevereiro de 1960. Em consequência e como resposta à «semana das barricadas» que acabara de ser finalmente controlada em Argel, em Paris, o Presidente Charles de Gaulle solicita à (e obterá da) Assembleia Nacional um voto de plenos poderes por mais de um ano para que o governo de Michel Debré solucione o problema argelino. O resultado da votação (uma esmagadora maioria de 449 votos a favor versus 79 contra) é um sucesso governamental e uma primeira indicação bastante clara que a a classe política da França metropolitana não se mostra disposta a suportar nem as intenções integracionistas da comunidade argelina de origem europeia (pieds-noirs), nem o prosseguimento da Guerra da Argélia para as sustentar. No processo, dois deputados, promotoresactivos dos acontecimentos em Argel, são pronunciados por atentado contra a segurança interna do Estado.
Só quem conhece a história do Médio Oriente conhecerá a dimensão dos esforços diplomáticos que foram ali investidos ao longo de décadas para a resolução do problema da convivência entre árabes e judeus. O problema é extremamente complexo, envolve, para além de Israel, quatro países árabes que com ele fazem fronteira (Líbano, Síria, Jordânia e Egipto) e ainda os próprios habitantes árabes que, em Israel e nos territórios por ele ocupados, coabitam com os israelitas. E depois há ainda os outros países árabes que, por razões históricas e variadas, também pretendem ter algo a dizer sobre o assunto como a Arábia Saudita, o Iraque, os países petrolíferos do Golfo, etc. Só quem conhece essa história e as suas nuances, aprendeu através dela, a precaução de não ser demasiado ribombante por ocasião de novas cerimónias de assinatura de acordos, já que os que foram firmados pelas partes interessadas naquela região têm a tendência para deslaçarem pouco tempo depois de serem solenemente firmados, pela pro-actividade dos múltiplos interesses afectados. Mas, por esta vez, consigo endossar a Donald Trump o cumprimento de ser o protagonista de um acontecimento que nenhum presidente americano realizara antes dele: pela primeira vez, na Casa Branca, houve a coragem de dar-se o nome de plano de paza um documento de 181 páginas que bem poderia ser o script de um daqueles concursos de televisão, estilo querido, mudei a casa! ou pesadelo na cozinha. A apresentação esteve à altura: o plano de paz seria para ser aceite por duas partes e uma dessas partes primou pela ausência. Mas, como diria a Teresa Guilherme (que não destoaria na ocasião ao lado de Trump e Netanyahu): isso agora... não interessa nada! Ou, na versão Trump, os árabes são capazes de estar um bocado aborrecidos agora mas vão acabar por se conformar. «We'll see what happens» (normalmente não acontece nada, mas ninguém tem coragem de confrontar Trump com isso). A atitude do autor do script,Jared Kushner (que é genro de Donald Trump e que decerto estudou aprofundadamente o problema israelo-palestiniano...), nas entrevistas que deu a cadeias de TV como a CNN ou a al-Jazeera, foi a de explicar o seu texto, deflectindo as perguntas incómodas, com a explicação que ele não concordava com as premissas dos jornalistas, e por isso dizendo o que lhe apetecia sobre um outro assunto; e, por outro lado, culpando os dirigentes árabes por não se disporem a aceitar o espectacular plano que ele engendrara, que aparentemente, e pela satisfação manifestada por Netanyahu, concede à parte israelita quase tudo aquilo que ela deseja. Como acontece com os dois concursos que citei, não interessou esmiuçar a razoabilidade das propostas, assim como não interessa investigar se os berros e as sugestões do mestre-cuca do pesadelo na cozinha tiveram algum impacto na qualidade da comida e no aumento da freguesia do restaurante; também não vi qualquer interesse dos proponentes em discutir a evolução do plano ao longo do tempo, assim como no querido, mudei a casa! ninguém lá vai dali por seis meses constatar que os cortinados já desbotaram e que o papel de parede descolou. Este não irá ser o primeiro plano de paz para aquela região a fracassar, mas não me lembro de outro a ser apresentado de maneira tão pueril.
1 de Fevereiro de 1950. A primeira e última páginas da edição do dia do Diário de Lisboa davam a verdadeira panorâmica do que era um jornal de um jornal do apogeu da Guerra Fria. Em destaque na primeira página a ordem que o presidente Truman dos Estados Unidos dera, no dia anterior, para que se prosseguissem as investigações para a montagem de uma bomba de hidrogénio. A corrida ao armamento nuclear é (mais) um daqueles assuntos em que, nas redes sociais, sempre encontrei muito mais opiniões (vincadas) do que informações (fundamentadas). Na mesma página e também em Washington, o secretário da Força Aérea punha os Estados Unidos de sobreaviso contra o perigo duma agressão soviética. O desenvolvimento destes dois assuntos era prosseguido na última página, local onde outros episódios das tensões entre o Ocidente e o Leste eram relatados: em Londres, o Foreign Office (negócios estrangeiros), e em resposta a uma solicitação pacifista dos quakers, produzira e publicitara uma nota recusando-a, por inútil, deplorando o comportamento do governo soviético nos últimos anos; enquanto que em Paris, o governo francês enviara uma nota de protesto aos soviéticos pelo reconhecimento que este prestara ao governo vietnamita de Ho Chi Minh, convocando dramaticamente o embaixador soviético acreditado na capital francesa. Viviam-se tempos conturbados, onde se nota que a linguagem diplomática era bem pouco diplomática.