10 maio 2006

O SUMO DA LARANJA

Tive ontem oportunidade de assistir a um dos melhores exercícios de jornalismo de que me recordo. A protagonista foi Fátima Campos Ferreira, jornalista da RTP, mas o auditório, para variar, até foi restrito: os convidados para a sessão de lançamento do livro “O Império debaixo de Fogo” do general Loureiro dos Santos.

Como apresentadora do livro, Fátima Campos Ferreira descreveu o livro de uma forma tal, contendo uma fluência narrativa que galvanizou a audiência e obrigou o autor (que falou posteriormente) a, prudentemente, baixar as expectativas do auditório para um sóbrio livro de análise prospectiva sob a actualidade política mundial.

Mas a metáfora que melhor descreverá a proeza da jornalista foi a da forma como, do livro, lhe extraiu o sumo, dando-lhe uma aparência mais atractiva e fácil de absorver. Sem prejuízo das outras qualidades profissionais de Fátima Campos Ferreira, que publicista e que argumentista ali se perdeu…

09 maio 2006

TOURADA

O Festival da Canção da RTP de 1973 foi disputadíssimo e terminou com a vitória de uma canção intitulada Tourada, com música e interpretação de Fernando Tordo e letra de Ary dos Santos.

Se a intelectualidade normalmente primava em piscar o olho ao público, passando-lhe a sua mensagem subtilmente, diante do olhar bovino da censura, nesta canção a letra é de uma subtileza taurina e não deixa dúvidas que está a gozar e até com quem está a gozar.

Foi um escândalo. Embora a tourada não faça parte dos famosos 3 efes que se diz terem sido os pilares do regime (fado, futebol e Fátima), tem a sua sociologia própria, muito hierarquizada, que não achou piada nenhuma ao acontecimento e colocou os maiores obstáculos à carreira posterior da canção. Eis a letra:

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
e esperas.
Entram guizos, chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas, chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos, cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés, dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram
as canções…

Reparem que a certa altura se faz menção aos peões de brega, cuja profissão não pega. Não sei se pegaria naquela altura, no estertor do regime e na figura de Cazal Ribeiro, o deputado ultra, encarregado de dar troco e neutralizar as intervenções na Assembleia Nacional dos membros pertencentes à ala liberal.
Hoje, é olhar para figuras como Guilherme Silva e agora para Vitalino Canas para reconhecer que a profissão de peão de brega está longe de se extinguir. E sempre tem a sua utilidade, embora o Dr. Teixeira dos Santos a devesse considerar como profissão de desgaste rápido para efeitos de tributação de IRS…

08 maio 2006

PDC-MIRN/PDP-FN

Nas eleições legislativas de 1980 apareceu uma coligação concorrente que reunia tudo o que existia em legalidade na extrema-direita portuguesa e que decidira concorrer em coligação, porque as coligações eram o que estava na moda.

Naquele ano, havia a AD (Aliança Democrática), com o PSD, o CDS, o minúsculo PPM e ainda uns rapazes intelectuais (António Barreto, Francisco Sousa Tavares, Medeiros Ferreira) que gostavam de ser designados por Reformadores.

Havia a FRS (Frente Republicana Socialista), onde o PS se coligava com outros rapazes intelectuais (Sousa Franco, Lopes Cardoso), só que estes usavam siglas (ASDI, UEDS), como se fossem partidos, para o conjunto parecer uma verdadeira coligação.

Havia a APU (Aliança Povo Unido), onde o PC se coligava com outra malta do PC, a fingir que não era do PC, e com malta que não era mesmo do PC e eram apenas progressistas, um eufemismo que os consolava e defendia de serem considerados comunistas e que até tinha uma organização com duas siglas: MDP/CDE.

Mas o campeão das siglas naquela disputa eleitoral foi mesmo aquela coligação da extrema-direita, capaz mesmo de tirar o fôlego a quem a ousasse anunciá-la em voz alta sem qualquer preparação respiratória: PDC-MIRN/PDP-FN.

Aquelas letras todas valiam pelos acrónimos de: Partido da Democracia Cristã, Movimento Independente para a Reconstrução Nacional, Partido da Direita Portuguesa e Frente Nacional. As duas siglas do meio referiam-se à mesma organização que, mais do que pelas sete letras da sigla (MIRN/PDP), procurava impressionar pelo nome do seu dirigente: Kaúlza de Arriaga, o general que representara a ala conservadora do regime antes de 74.

Receberam um pouco menos de 24.000 votos e 0,4% nas eleições legislativas de Outubro. Devem ter-se separado e pouco mais se ouviu falar de qualquer uma das três organizações. Maldosamente, lembrei-me que, pelo andar de todos estes congressos a demonstrar tanta unidade, o CDS/PP, que já tem duas siglas, só lhe falta arranjar mais duas…

O TERNO DE TRUNFO

Antigamente a terminologia era simplificada: havia a situação e havia a oposição. Recuperando-a, entre os políticos, muitas vezes a elegância e a categoria de cada um deles via-se na forma como defendiam o governo quando eram da situação. Quando se é da oposição, já se sabe, é para malhar.

Eu supunha já se terem atingido os limiares mais baixos da falta de jeito na defesa das posições governamentais quando Luís Delgado – que não sendo político, é um jornalista totalmente engajado, o que vem dar a mesma coisa – deu em defender o “milagre” do crescimento económico estimado de 2% que constava do orçamento do governo de Pedro Santana Lopes.

Só ele, pensei naquela altura, só Luís Delgado se lembraria de tentar transformar as previsões de um crescimento económico sofrível num feito notável. Estava enganado. Redondamente enganado!

Num post de hoje no seu blog Causa Nossa, intitulado Trunfo, Vital Moreira – que não sendo político, é um especialista em direito constitucional totalmente engajado, o que vem a dar a mesma coisa – dá um aspecto coloridamente positivo à revisão, pela comissão europeia, do crescimento da economia portuguesa para este ano de 0,8 para 0,9%. Ena!

Vital Moreira tem todo o direito constitucional de chamar ao acontecimento um trunfo, mas eu também tenho o meu direito constitucional de considerar que, a ser trunfo, é uma carta assim muito baixinha, um duque ou um terno…

UM DESPORTO. UM ESPECTÁCULO. UM NEGÓCIO

A propósito de um excelente poste no blogue Sesimbra e Ventos a respeito da associação entre a prestação do Benfica no jogo de ontem contra o Paços de Ferreira e a cor dos equipamentos que envergaram, domina-me a nostalgia do autor do post sobre uma época em que se jogava futebol a sério, mas com uma motivação completamente diferente da actual.

Na minha modesta opinião, há muito, muito tempo, o futebol começou por ser um desporto, popular pela sua simplicidade; depois tornou-se um espectáculo, com uma assistência crescentemente maior, a ponto de não ser possível concentrá-la fisicamente num mesmo local, daí os relatos e as transmissões; e hoje é um negócio, com um volume de negócios impressionante à escala mundial, onde já não há espaço para erros e pouco para o sentimentalismo.

A análise e as observações de António Cagica Rapaz, sustentadas pela sua experiência em primeira-mão enquanto jogador, são extremamente pertinentes para a fase do futebol espectáculo, quando o vermelho faria mais contraste com o amarelo do Paços de Ferreira, e a cor e o emblema galvanizariam os membros da equipa. Hoje, suspeito que tanto faz.

Hoje, o futebol profissional puro e duro encontra-se desprovido de qualquer simbologia substancial no que respeita aos participantes directos. Exemplo? Mandem-se os elementos da equipa do Benfica cantar o hino do "seu” clube… A simbologia que ainda resta parece-me estar agora reservada para o futebol de selecções.

O que se torna paradoxal é a forma comprometida como organismos como a FIFA e a UEFA ainda fazem um jogo de faz de conta pretendendo que as coisas não tem evoluído, só os montantes em disputa e circulação do dinheiro é que têm vindo a crescer.

Um exemplo engraçado, e abafado, ocorreu no último Mundial de 2002, quando a RAI comprou os direitos de transmissão televisiva (que haviam quintuplicado ou decuplicado em relação ao Mundial anterior) na expectativa de ver a Itália chegar próximo da final do torneio. Ora a Itália acabou por ser afastada por uma arbitragem medonha no jogo com a Coreia do Sul (o que também acontecera a Portugal e à Espanha).

Como aconteceria em qualquer outro negócio, a RAI manifestou a intenção de processar a FIFA por erro técnico grosseiro (a arbitragem) causador de perdas e danos – as audiências que a RAI deixaria de ter pela eliminação prematura da equipa italiana. Mas o assunto acabou abafado nos sussurros dos corredores*…

Por isso, a minha recomendação para quem aprecie verdadeiramente futebol é que levante o rabo do sofá e vá ver os jogos de juniores, juvenis ou iniciados… Algo de verdadeiramente inocente (às vezes…). Ou isso, ou mude de modalidade ou de entretenimento…
* Como é legítimo suspeitar que algo de muito semelhante - um acordo informal - tenha estado por detrás da benevolência da sanção a João Pinto depois do soco ao árbitro argentino...

LÁ ESTAVA ELE!

Aquela manifestação à porta de São Bento, baptizada de “das grávidas de Barcelos” (de que nem uma vi na televisão…), parece-me uma daquelas expressões do folclore popular em vias de extinção, só que nestas não existe qualquer interesse antropológico na sua preservação.

Podendo sintetizar-se a atitude dos barcelenses naquele ditado popular “quem não chora, não mama”, o que é até metaforicamente muito apropriado quando o pretexto é reter a existência de uma maternidade na sua terra, o evento suscitou a cobertura mediática entusiasmada de qualquer corso do carnaval de Loulé ou da Mealhada. Morno, tudo muito morno.

Não fosse a aparição de alguém, que, não conseguindo ainda aparecer, nem em efígie, nos corsos originais, se conseguiu, desta vez, deixar filmar solidário e entusiasmado em plena manifestação: o, de há uns tempos desaparecido, Francisco Louçã.

Que, apesar de saber o que é gerar uma vida – como afirmou a Paulo Portas – não parecia ter engravidado – à semelhança do que aconteceu a Schwarzenegger no filme Júnior – para participar na dita manifestação das grávidas.

Poderei estar a ser injusto, mas julgo não estar sozinho quando manifesto a minha saturação quanto aos slogans do Bloco de Esquerda como “esquerda plural” ou “esquerda de causas”. É coincidência, ou as causas são das que dão sempre para aparecer na televisão?

07 maio 2006

AS ESSÊNCIAS E AS APARÊNCIAS

Há figuras emblemáticas das histórias nacionais, que simbolizam como quase nenhuma outra o respectivo nacionalismo e contudo, quando se sabem alguns detalhes das suas vidas, percebemos como há paradoxos que acompanham o facto indiscutível de se terem tornado num ícone duma história nacional.

Comecemos pela figura de Vitória (1819-1901), Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda, e mais tarde Imperatriz da Índia, o maior símbolo do apogeu britânico no mundo, cujo primeiro idioma materno foi o alemão, casou com um alemão e usou o alemão como o idioma doméstico.

Contudo, na Alemanha, o rei Frederico II da Prússia (1712-1786), conhecido para a história germânica como Frederico o Grande, aprendeu o francês simultaneamente com o alemão, e foi o primeiro idioma que sempre viria a preferir durante toda a sua vida, quer na correspondência, quer nos inúmeros textos que produziu.

Mas em França, a única pessoa que poderá disputar ao general de Gaulle, a personificação do espírito francês do século XX, Georges Clemenceau (1841-1929), falava inglês com grande fluência, tendo trabalhado nos Estados Unidos durante quatro anos, onde aliás tinha casado. Apesar do francês ser a linguagem diplomática da época, foi em inglês que decorreram as cimeiras dos líderes das três grandes potências (Clemenceau, Lloyd George pelo Reino Unido e Wilson pelos Estados Unidos) que levaram aos Tratados de Paz de 1919.

Sabendo tudo isto, e até por ter um precedente notável na história do seu país, que mensagem pretenderá Jacques Chirac passar, ou que figura pretenderá fazer, quando nas cimeiras internacionais pretende não perceber o inglês? Fazer passar-se por importante, por interessante, ou por decadente?

DAQUI NÃO SAIO, DAQUI NINGUÉM ME TIRA

Os congressos partidários podem decorrer de duas maneiras: ou são uma espécie de wrestling verbal, em que aquilo é tudo a fingir, ou são genuínos, como um verdadeiro combate de boxe verbal, com emoção até ao fim sobre qual o desfecho. Para isso, é preciso que esteja em disputa algo que as partes considerem importantes.

O do CDS/PP, ontem, só animou lá para a noite, quando a direcção vigente ameaçou entalar o grupo parlamentar, pedindo-lhes os lugares de deputados de volta. E foi só perante a pressão concreta e a hipótese de ficarem mal na fotografia, que o trio dos mosqueteiros do D´Artagnan Portas (Pires de Lima, Telmo Correia e Nuno Melo) saiu a terreiro para se defender.

Mais para o fim da noite, acabou por se vir a colar ao visualmente mais bem penteado e intelectualmente menos bem apetrechado dos três mosqueteiros, Nuno Melo (na fotografia), a imagem negativa de que, de São Bento aquela malta não sai, nem à bala. Foi o resultado de uma manobra bem montada pelo grupo de Ribeiro e Castro.
Permitindo-me uma interpretação livre, parece-me que ficou exposto, para quem ainda tivesse dúvidas que aquela rapaziada* se considera pessoalmente grata a Portas, que lhes arranjou os lugares à custa dos seus esforços em campanha e não ao partido onde militam.

Agora, armando uma pergunta arguta daquelas de comentador profissional: no caso de uma ruptura declarada, como se irá sair daqui para o futuro o partido (CDS) sem grupo parlamentar? E, mais arguta ainda, como se comportará aquele grupo parlamentar se ficar sem partido? Os Portas´ boys?

* E raparigada. Não esquecer Teresa Caeiro, na altura da formação do governo de Santana Lopes fatalmente fadada para a secretaria de estado da defesa por ser "filha e neta de militares" (Portas dixit), e a quem saiu a secretaria de artes e espectáculos possivelmente por ser neta de pintora e bisneta de palhaço...

06 maio 2006

A IMPORTÂNCIA DE SE SAIR OU NÃO SAIR BEM NA TELEVISÃO


Talvez já não se recordem de um senhor chamado Dan Quayle (à esquerda), que foi vice-presidente dos Estados Unidos de 1989 a 1993, conjuntamente com George Bush pai. Normalmente um vice-presidente atinado – como Al Gore, com Clinton - não é notícia, mas Dan Quayle fartou-se de ser notícia.

Desde uma gaffe demonstrativa de um analfabetismo funcional (ensinou um aluno da primária a escrever potatoe – batata - em vez da ortografia correcta potato) a polémicas desnecessárias com um episódio de uma série cómica de sucesso (Murphy Brown), as enrascadas de Quayle tornaram-no e tornaram-se lendárias.

Um debate colateral que se desenvolveu, a propósito da sua pessoa, foi o de questionar se uma boa aparência televisiva – a telegenia – se poderia estar a sobrepor demasiado a outros atributos na gestão de uma carreira política nos Estados Unidos. Para todos os efeitos Quayle, quando foi eleito, já era um senador veterano!

Lembrei-me de Quayle, quando vi a jovem esperança e candidato a líder do PP, João Almeida (à direita), à entrada do Congresso, hoje na televisão. É que, ao menos, a este último, nada lhe fica bem: vista o que vestir, penteie-se como se pentear, coloque a voz como quiser, não se escapa da imagem de puto que ninguém leva a sério.

Eu bem sei que a circunstância de combinar cargos de direcção de juventudes partidárias com as de claques de clubes de futebol dá de João Almeida uma imagem de quem pode considerar as duas actividades aparentadas. E que o seu CV dificilmente englobará outras actividades além das ocupadas por mérito partidário, como os de chefe de gabinete de Maria José Nogueira Pinto ou de deputado.

Mas, no debate que se antecipa para o congresso do CDS, é importante ouvir João Almeida e julgá-lo pelo que diz e pelas ideias que apresenta, em vez de sorrir com condescendência pelo que ele parece. Foram raciocínios simplistas como esse que projectaram Quayle à vice-presidência dos Estados Unidos.

O MÁSCARA DE FERRO

Segundo consta, o delfim, filho de Luís XV, e pai de Luís XVI, que morreu sem ter chegado a ser rei de França, teria perguntado ao rei certo dia, tendo já passado tanto tempo, qual era afinal a identidade do já então famoso máscara de ferro.

- Meu filho, se soubesses quem era, verias que nada havia de interessante – teria sido a resposta do rei, que nada mais adiantou, para satisfação de quem se dedica a estas coisas dos mistérios históricos, cabalas, ovnis e fenómenos aparentados.

Parece que, ultimamente e talvez por influência do sucesso do Código Da Vinci, a ocupação de analista político também precisa do seu q.b. de mistério, conspirações, artimanhas e manobras escusas que a tornem mais atraente para o leitor.

Há muuuito tempo, ainda Marcelo escrevia no Expresso, eram muito criticadas as suas análises políticas, quer pelo seu maquiavelismo, quer pelo pensamento rebuscado com que eram traçados os seus cenários para o futuro. Mas foi um exemplo destinado a fazer escola.

Qualquer exemplo actual, e temos um exemplo recente na análise de Constança Cunha e Sá de ontem no Público, não escapa à atribuição de intenções rebuscadas a alguns intervenientes – curiosamente, naquele exemplo, um deles é o próprio Marcelo – para apimentar o conjunto.

Em suma, a Constança acha que Marcelo ainda quer regressar à liderança do PSD. Eu, como se pode perceber pelo post de ontem, acho que nem por isso. E a beleza desta coisa é mesmo essa: por muito que digamos daqui para a frente ninguém é obrigado a mudar de opinião!

Mas posso argumentar indirectamente: opino, mas no meu blog, não sou remunerado pelo que escrevo, e quando o faço não penso ser avaliado pela argúcia de que dou mostras nos meus escritos. São coisas que me separam da Constança, que é muito mais famosa que eu, e que tem essa fama a preservar.

Por isso a classificaria no clube daqueles a quem não interessaria a revelação do nome do máscara de ferro. Vamos a ver e o prisioneiro era um Zé Ninguém; vamos a ver e o Marcelo deu a sua carreira politica por encerrada. Não tira o interesse todo à história?

05 maio 2006

NEM QUE CRISTO ASCENDA AOS CÉUS!

É conhecida e muito apreciada a resposta de Marcelo Rebelo de Sousa a um jornalista quando, antes de um Congresso do PSD, lhe perguntaram sobre as suas intenções de se candidatar e tornar-se presidente do partido: Nem que Cristo desça à Terra! – terá sido a resposta.

Além da desagradável evocação do santo nome de Deus em vão por parte de quem se reclama ser um crente fervoroso, o episódio levou para novos territórios o requinte metafórico da aldrabice ao jornalista, pois Marcelo saiu desse Congresso como presidente do PSD.

E foi, há que reconhecê-lo, presidente do partido numa época muito difícil para a oposição, onde a nossa sociedade pretendia teimosamente interpretar como positiva a atitude da liderança de Guterres que, na realidade e como se descobriu depois, não passava de inércia e inépcia.

Agora, esta ideia de andar a fazer sondagens sobre quem seria o melhor líder do PSD nesta altura do campeonato, com umas eleições internas dentro do partido para esse propósito, é que, para empregar uma das expressões favoritas de Marcelo, não lembra a um careca!

Feita a sondagem à população em geral – e não ao universo decisor: os militantes do PSD – Marcelo aparece evidentemente destacado, seguido dos que não sabem ou não respondem (abençoados por não alinharem em palhaçadas!), de Manuela Ferreira Leite, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes, etc.

Exceptuando Marques Mendes, contra quem parece que esta sondagem é dirigida, parece haver até uma correlação directa entre a colocação na lista de preferências e a frequência de aparições televisivas. Fosse o José Castelo Branco militante do PSD e ainda se arriscaria a estragar esta tabela com um fabuloso 2º ou 3º lugar…

Tenho Marcelo por um indivíduo genuinamente brilhante, com o grande problema de ser brilhante demais e ter um feitio terrível, que o impede de formar um núcleo de fiéis de boa qualidade à sua volta que sejam o núcleo de uma equipa de trabalho. E o tempo já não é de solitários providenciais como Salazar…

Parece óbvio que Marcelo vai sacudir as conclusões dos resultados desta sondagem com a qual, aliás, penso que não tem nada a ver. Mas não se esmere nas figuras de estilo com que o nega! Senão o pessoal desconfia…

04 maio 2006

MÁRIO LINO

Um dos grandes inconvenientes de Mário Lino, do qual ele não tem culpa nenhuma, é o de não ser nada fotogénico. Então para quem mora no concelho de Oeiras, como eu, esse problema quase atingiu proporções de filme de terror nas derradeiras eleições autárquicas.

Alguém, presumivelmente um seu inimigo pessoal, ficou encarregue de escolher as fotografias para figurarem nos cartazes eleitorais concelhios do PS, onde Mário Lino aparecia, como cabeça de lista à Assembleia Municipal, com uns dentes amarelados e uma expressão de alguém que inspira muito pouca confiança.

Enfim, pode ser marketing e que seja a inclinação do eleitorado do município simpatizar com tal tipo de pessoas… O que pretendo destacar e justificar é esta minha má predisposição para com o ministro das obras públicas, que todas as vicissitudes subsequentes do episódio da Ota e do TGV nada fizeram para melhorar. Quando Mário Lino fala, eu, instintivamente, ponho a mão na carteira.

Há uns poucos de dias, lembro-me de ter lido num Diário de Notícias a notícia de uma intervenção na Galiza em que Mário Lino dava mostras de um iberismo entusiasmado. Curiosamente a notícia não teve grande desenvolvimento, mas também é verdade que rapidamente (em meia dúzia de horas) desapareceu da versão on-line do DN.

Até reaparecer em todo o seu esplendor e muito comentada aqui na blogosfera, a partir de um jornal galego: o Faro de Vigo. Contrariamente a muitos colegas de outros blogues não estou surpreendido nem indignado com a apaixonada profissão de fé de Mário Lino. As opiniões são livres e eu já gastei toda a minha indignação com o descaramento do episódio Pina Moura.

Mas estou curioso. Depois desse exemplo de um seu ilustre antecessor, haverá alguma empresa espanhola que esteja disposta a oferecer a Mário Lino um confortável cargo de direcção, quando ele deixar de ser ministro?

ROSA CASACO

Considero Rosa Casaco um misto de travo intelectualizado entre as histórias do Dr. Joseph Mengele e a de Fátima Felgueiras. Mengele porque Rosa Casaco, como o médico alemão, é responsável por um assassinato. Felgueiras porque, como a distinta autarca, tem andado a gozar com a justiça portuguesa. O condimento intelectual é adicionado pelo seu livro de memórias, publicado e vendido no país cuja justiça anda há uma data de tempo a persegui-lo.
De facto, nem Felgueiras matou ninguém, nem Mengele teve a ousadia de zombar dos aparelhos judiciais que o perseguiram. E nenhum deles teve a ousadia de facturar uns direitos de autor à conta da publicação da sua história, embora desconfie que isto tenha sido uma iniciativa que não tenha escapado à arguta autarca brasileira.

Sendo nós portugueses um povo de gajos porreiros, com um ex-presidente que é um porreiraço, emociona-se, chora e tudo (Jorge Sampaio), um procurador-geral do mais porreiro que há (Souto Moura), que só chateia as pessoas quando tem mesmo de ser, é para mim um embaraço enorme que seja um escritor humorístico, do grupo dos porreiros profissionais, como Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje, que nos relembre a desfaçatez da publicação das Memórias do Meu Tempo da autoria de Rosa Casaco.
Eu bem me recordo de um comentário irónico antigo que dizia que já não havia rapazes maus: o Padre Américo tinha-os tomado a todos sob a sua protecção. Com os PIDES também passou a ser assim? E quem os tomou sob a sua protecção?

Porque, parece que me começo a aperceber das verdadeiras razões do enfado de certos intervenientes em certos escândalos recentes que resultam da inoperacionalidade judicial. O que deve ser novidade e os incomoda deve ser a exposição mediática com que agora se nota que escapam impunes...

JESSE JAMES E A EUROPA

Numa das histórias de Lucky Luke, o argumentista René Goscinny, põe na boca de um dos personagens, o bandido Jesse James, reputado por ser uma espécie de moderno Robin dos Bosques do Oeste, uma das frases mais castiças que recordo terem saído da imaginação de Goscinny:

- Gosto muito de assaltar comboios! Há muita gente nos comboios, ricos e pobres… e vários pobres, quando se quotizam equivalem a um rico…

É um raciocínio aparentado com este o produzido por Timothy Garton Ash, um historiador que muito prezo e que se encontra de visita a Portugal, no artigo da sua autoria hoje publicado no jornal inglês Guardian.

Intitulado “O que uma Europa maior precisa é de países pequenos capazes de pensar em grande *”, um tema a que julgo não ter sido indiferente a sua visita a Portugal, como se vem a notar, aliás, com a leitura do referido artigo, evocando, como seria de esperar, o glorioso passado do Portugal dos Séculos XV e XVI e todo o potencial da lusofonia.

Um aspecto curioso a que Garton Ash dá destaque e elogia é a adaptabilidade demonstrada pelo presidente da comissão europeia, Durão Barroso, que, segundo ele, pensa como um inglês quando fala em inglês e como um francês quando usa essa outra língua em constraste com a inflexibilidade dos seus antecessores.

O que, seguindo o mesmo raciocínio, não dará grande prestígio à expressão “pensar como um português” quando ele fala no seu idioma nativo. É que, saberá o Timothy, nós por cá temos uma certa dificuldade em considerar as capacidades camaleónicas de Durão Barroso como uma qualidade.

Imagine que nós até nos convencemos que ele tinha sido eleito por nós para primeiro ministro do governo português e que estava genuinamente empenhado em governar Portugal e resolver os nossos problema, conforme ele dizia...

Sinceramente, acaba-se o artigo de Ash e fica-se com a sensação de uma volta redonda em que não se percebe onde o autor quer chegar. Há realidades que são incontornáveis, como os interesses nacionais – e o autor sabe-o bem e já o demonstrou em inúmeros outros artigos que publicou anteriormente.

Como historiador, Ash deve saber muito melhor que eu que os pequenos países europeus só se comportaram como grandes quando tinham um país grande por trás a apoiá-lo ou quando possuíam um império comercial de além-mar que lhes multiplicava o potencial estratégico.

Nos bolsos de Jesse James, depois do saque, a junção dos haveres saqueados a vários pobres podiam valer o mesmo do que as posses roubadas a um só rico; mas na União Europeia, as confederações de interesses de vários estados pequenos não se podem equivaler aos interesses de um estado grande.

* What a larger Europe needs is small countries able to think big.

03 maio 2006

COMO DISPARAR FRONTALMENTE UMA METRALHADORA QUANDO UM AVIÃO É MOVIDO A HÉLICE

Aposto que este seria um título que os Monty Phyton não desdenhariam para um dos seus episódios. Contudo, foi um problema sério com que se defrontaram os pioneiros da aviação no princípio da 1ª Guerra Mundial.

Quando acontecia que dois pilotos inimigos se cruzavam nos céus nas pacíficas missões iniciais de reconhecimento, primeiro cumprimentavam-se, depois passaram a ir armados e a disparar para o avião adversário, mas com uma eficácia reduzida, porque pilotar e fazer pontaria - lateralmente - não combinava bem.

A área frontal não podia ser usada como área de tiro por causa dos hélices que podiam ser danificados pelo próprio piloto ao disparar a sua arma. Para a criação de aviões verdadeiramente vocacionados para o combate aéreo contornou-se este problema de quatro maneiras distintas.

- Voltando à prancheta, os desenhadores transferiram o hélice para a traseira, atrás das asas. O avião passava a poder atirar em frente mas era muito mais difícil de manobrar.
- Desenrascando o problema concreto, pondo duas chapas de aço deflectoras na traseira dos hélices do avião. O avião ficava desequilibradamente mais pesado e também difícil de manobrar.

- Criando um novo avião em que a metralhadora estava instalada no eixo central do hélice. Eficaz mas limitava o design do avião e o seu poder de fogo a apenas uma metralhadora.

- Concebendo um sistema que sincronizasse o disparo das metralhadoras com o da passagem das pás dos hélices. Foi o que prevaleceu e, primeiramente usado pelos alemães, acabou adaptado por todos os contendores.

Adiantemo-nos agora 90 anos e pretendamos que este problema – a forma como disparar frontalmente uma metralhadora quando um avião é movido a hélice - fosse ser resolvido pela sociedade portuguesa actual:

É evidente que, dada a gravidade do problema e a premência de uma solução, o ministro António Costa - sempre atento - viria à televisão anunciar a formação imediata duma comissão de estudos do problema no âmbito do seu ministério, gesto a que os outros ministros corresponderiam, formando as suas.

Entre as várias comissões ministeriais formadas para o efeito, haveria duas (as dos ministérios da defesa e da indústria) que entre os relatórios de, respectivamente, 237 e 344 páginas chegariam a produzir dois esboços que poderiam eventualmente vir a servir de base para uma ideia viável.

A comissão do ministério da ciência exceder-se-ia e teria produzido mesmo um relatório de 215 páginas de onde constava um desenho pormenorizado de um avião que, com um hélice traseiro, podia resolver o problema do tiro frontal. Mas havia agora que formar uma nova comissão, esta de coordenação com o ministério da indústria, para a produção de um protótipo desse aparelho revolucionário.

Em contrapartida o teor do relatório da comissão do ministério da educação incidia mais sobre as relações hierárquicas entre os pilotos e os mecânicos dos aviões, o que se afastava ligeiramente da solicitação original: como se pode disparar frontalmente de um avião sem danificar os hélices. Tudo ficou explicado quando se constatou que 14 dos 16 membros da comissão tinham formação na área da sociologia, psicologia ou aparentada.

Longe deste frenesim governamental, um funcionário da conservatória do registo predial de Trancoso, inventor nas horas vagas, tinha concebido na garagem de sua casa um deflector em aço que se aplicava aos hélices dos aviões desviando as balas. Tinha vindo à televisão à procura de um empresário que se interessasse pelo seu invento.

Tinham até aparecido dois ou três empresários que até estavam na disposição de comprar a patente do invento mas pelo preço simbólico de um euro. Entretanto, apareceu um outro empresário que, fora do que se estava a discutir, se propôs criar uma fábrica de foguetes espaciais em Sines, mas precisava de uns subsídios governamentais suplementares.

Mas, tudo isso eram acontecimentos que se estavam a passar lá longe das elites citadinas de Lisboa e Porto, as que se consideram orientadoras da formação da opinião pública nacional.

Entre os editoriais dos grandes jornais, o de António José Teixeira, no Diário de Noticias, reconheceria que Portugal se defrontava com um problema sério. O de José Manuel Fernandes, no Público, seria algo semelhante mas concluiria nos dois parágrafos finais sobre as boas fundamentações da intervenção norte-americana no Iraque.

Entre os comentadores de maior nomeada, José Pacheco Pereira consideraria que estava lá tudo, na forma como os pilotos mal controlavam os seus aviões quando voavam em formação e como seria necessário remodelar o ensino de voo. Vital Moreira ter-se-ia pronunciado sobre a inconstitucionalidade do hélice. E Vasco Pulido Valente não tinha dúvidas em afirmar que os portugueses não eram feitos para voar quanto mais para andar lá em cima aos tiros.

Enquanto tudo isto se passava, o primeiro-ministro José Sócrates viria por diversas vezes à televisão, sob diversos pretextos, ladeado pelos ministros Pinho e Lino, reafirmar o seu maior interesse na tecnologia e como adorava voar…

Agora a sério: como é que, pertencendo a uma sociedade que tem um deficit mais do que evidente em pessoas que resolvam concretamente problemas, não existe entre nós a apreciação social devida àqueles que mostram saber fazê-lo?

02 maio 2006

GRANDE, GIGANTE E FAMILIAR

Não sei se já prestaram atenção às designações que dão aos pacotes de detergente. Nunca há um pacote que se chame pequeno ou mesmo médio, é tudo de grande para cima: grande, gigante e familiar. Deve ser para convencer o comprador que está a poupar…

Claro que a ideia pegou e já se fazem piadas com isso, como por exemplo a velocidade dos alentejanos: devagar, devagarinho e parado. Lembrei-me destes exemplos a propósito da dificuldade que existe na televisão em produzir análises mais aprofundadas sobre qualquer problema, dado o tempo ser escasso.

Há as análises superficiais, as análises pela rama e as análises de Domingo do Marcelo.

A VER SE O JOGO ANIMA…

Ao reler-me no poste sobre as nacionalizações da Bolívia, surpreendi-me pela faceta quase entusiasmada da minha descrição do gesto de Evo Morales. Mas a explicação é bem simples:

Imaginem que estavam a assistir a um jogo de futebol disputado entre Ultraliberais e Nacionalizadores, em que não têm nenhuma simpatia especial por nenhum dos lados. Os Ultraliberais estão a ganhar por 5 a 0. De repente Evo Morales, dos Nacionalizadores marca um golo. 5-1.

Você até bate palmas! É para ver se o jogo anima… Ainda para mais quando os Ultraliberais jogam em casa e têm a claque toda! Agora já andam a dizer que o golo foi irregular e que o preço do petróleo vai subir por causa de Morales… O que sendo residualmente verdadeiro, soa mesmo como um argumento faccioso de adepto de futebol…

NINGUÉM

Entre as pessoas que conheço, sendo saudáveis e normais:

Ninguém pronúncia o verbo estar como o escreve.

Ninguém respeita o limite máximo de velocidade de 120 km/h nas auto-estradas.

Ninguém fica à espera de uma decisão do Vaticano sobre as condições de uso do preservativo.

Porquê fazer desta última notícia de jornal?

NACIONALIZAÇÕES

Há muito tempo que o verbo nacionalizar, ou um dos seus derivados, não aparecia assim num cabeçalho de jornal. Já ninguém nacionaliza, a nacionalização tinha saído de moda, tudo o que é público destinava-se a vir a ser privatizado, porque os privados, e o Fernando Pinto da TAP, é que sabem como gerir mais eficientemente as empresas.

E o poder, contrariamente ao que se andava a dizer por aí, parecia estar na ponta do cifrão, que a das armas está entupida com todos os cravos que lá puseram. E, importantíssimo, tudo isto se está a passar em sintonia com as grandes correntes internacionais da globalização, a tal a que não nos podemos furtar.

Eis senão quando um senhor de aspecto índio e de nome Evo Morales, presidente da Bolívia (em cima na fotografia à esquerda de Hugo Chavez, presidente da Venezuela) deu em nacionalizar o sector da produção do petróleo e gás natural boliviano, acompanhando o gesto de uma ocupação das instalações por destacamentos das forças armadas bolivianas.

Não existissem arquivos e até pensaríamos estar a assistir a algo de radicalmente novo. Não é. Todos os grandes países produtores da OPEP negociaram no passado com as petrolíferas em posição de força e de coação (a expropriação), de forma a vergá-las negocialmente. O que parece ser precisamente o objectivo anunciado por Morales.

Estes novos eixos que se andam a formar pela América Latina (Cuba, Venezuela, Bolívia), que se reclamam da figura de Simon Bolívar mas onde Che Guevara seria um ícone mais apropriado, têm o cimento frágil da hostilidade comum aos Estados Unidos e ao seu comportamento histórico naquela região mas têm as suas potencialidades de manobras multiplicadas pela riqueza da alta do preço do petróleo de que a Venezuela é um grande produtor.

Só a auto-confiança venezuelana transposta para um apoio incondicional de Chavez a Morales pode explicar a ousadia de um pequeno país como a Bolívia romper um status quo de cerca de 25 anos e regressar, embora circunstancialmente, à trilha das boas e velhas nacionalizações. Sem golden shares ou outras legislações específicas e manhosas.

01 maio 2006

GEORGES SIMENON

Consta que Georges Simenon (1903-1989), o famoso escritor belga universalmente conhecido como o autor dos inquéritos do Comissário Maigret, não gostava de escrever as histórias policiais que lhe traziam tanta fama e tanto proveito. Até ao fim da sua vida, Simenon sempre ficou com a amargura de que o reconhecimento lhe vinha das obras que ele não gostava de produzir.

Não sei até que ponto esta versão corresponderá rigorosamente à realidade, mas é notório que, ao longo dos mais de 40 anos que duram ao inquéritos de Maigret, houve várias tentativas para os encerrar, vindo a ser retomados passado um hiato de vários anos. No fim da sua carreira, parece que Simenon se resignou ao ritmo de escrever um Maigret por ano, aproximadamente.

O exemplo de Simenon, reconhecido simultaneamente como um excelente escritor de língua francesa e um escritor popular, com mais de 500 milhões de exemplares de livros seus vendidos, ocorreu-me a propósito da recente controvérsia sobre a literatura light e da crítica a tal estilo literário, envolvendo Margarida Rebelo Pinto, a sua editora e João Pedro George, um crítico literário.

Sugiro que este último siga o exemplo e atinja a sua superioridade moral de Simenon quando menosprezava a literatura popular, escrevendo um livro de literatura light e publicando-o sob um pseudónimo. Aos 15.000 exemplares vendidos poderá expor a fraude e os direitos de autor poderão ir para obras de assistência. Pelo exemplo, não precisará de dizer mais nada sobre a simplicidade e a menoridade de tal estilo.

Assim como está, arrisca-se sempre a que, quando João Pedro George aborda o assunto Margarida Rebelo Pinto, encontremos no ar a suspeita do odor discreto do despeito…