16 julho 2016

DE UMA CENA EVOCATIVA DO FILME «MASH» ATÉ AO INTRIGANTE DINAMISMO DA NOSSA IMPRENSA ECONÓMICA

Até por outro dia aqui me ter referido aqui ao filme MASH creio que vale a pena evocar uma cena do filme, que envolve Frank Burns (interpretado por Robert Duvall), um cirurgião devoto e também não muito bem formado, que não se integra, nem se dispõe a integrar, no espírito descontraído e trapalhão dos restantes colegas do hospital de campanha MASH 4077 que dá o título ao filme. O outro interveniente nessa cena é uma ordenança de seu nome Boone (abaixo), um soldado para ali destacado, sem quaisquer qualificações médicas mas ingénuo e disponível. Surge uma complicação pós operatória a um paciente do cirurgião Burns que parece entrar em choque e este pede a Boone que lhe vá buscar rapidamente adrenalina e uma agulha cardíaca. Quando este regressa momentos depois, já o paciente se fora, mas Burns tem o mau gosto de culpar o prestável e ingénuo Boone por este se ter aparentemente enganado nos itens: Idiota! Eu disse uma agulha cardíaca. É demasiado tarde. Acabaste de o matar. O crédulo Boone ficou completamente arrasado.
Como o filme pretende ter uma moral, a cena foi presenciada por um outro cirurgião, Trapper John (Elliot Gould), que mais tarde, aproveitando uma situação discreta e mesmo à traição, arreia um enxerto de porrada no major Frank Burns. Pois bem: eu não sei se no quadro do Diário Económico subsistirão ainda jornalistas com a ingenuidade do soldado Boone. É muito provável que não. Mas mesmo sem ser em nome (ou a pretexto) desses ingénuos, a administradora judicial daquele jornal, Paula Mattamouros Resende, parece-me uma excelente candidata a levar um atesto semelhante ao de Frank Burns (metaforicamente falando, claro). A explicação que se pode ler na notícia do Observador abaixo, tem uma falta de consistência tão absurda quanta a da história da agulha cardíaca assassina. Os jornalistas reclamavam pelo pagamento de salários em atraso, incluindo até o subsídio de Natal de 2015, fizeram uma greve de 24 horas e isso, diz a senhora, contribuiu para a falência do Diário Económico? Porque não acusar também a mulher da limpeza por ter deixado a torneira a pingar e ter assim aumentado desnecessariamente a factura da água?
Eu gosto particularmente de expressões como a que foi retirada do artigo do Observador e atribuída à referida administradora: Apesar dos números razoáveis que está a gerar, estes não são suficientes para tornar viável a manutenção da empresa. Diz-me a observação e também a forma como está redigido o texto supra que, quando há tal dedicação aos números e tão pouca às pessoas tudo tende a descambar no síndrome do cavalo do escocês, o tal que acaba acidentalmente por morrer depois de o administrador da insolvência se ter convencido que ele já se havia habituado a deixar de comer... Também no Diário Económico os números até podem ser razoáveis mas se se esquecerem de pagar com regularidade às pessoas pode ser que deixem de contar com elas... Contudo, no meio de tanta miséria, não deixa de surpreender o dinamismo da imprensa económica, qual espécie de fénix do bem prega frei Tomás (faz o que ele diz, não faças o que ele faz), conforme se constata por este anúncio de hoje no Expresso (abaixo). Promete-se o pluralismo do costume (sem "accionista dominante") e nós ficamos para ver, como nas representações do circo, para o fim, para quando chegar aos bilhetes do par charro do alto...  

15 julho 2016

O «GANG» DO AEROPORTO

Esta notícia parece-me capaz de explicar (pelo menos numa boa parte) aquele atraso permanente como as bagagens costumam ser distribuídas no aeroporto da Portela, quando em comparação com o que acontece na maioria dos outros aeroportos europeus. Vamos a ver se, com o desaparecimento da fase de triagem suplementar entre o porão do avião e os tapetes de distribuição que a polícia acabou de desmantelar, os tempos de espera dos passageiros acabados de aterrar passam a ser mais normais... Diga-se, em jeito de remate que, depois da exploração dos aeroportos ter sido privatizada e para além do aumento dos preços (os do estacionamento, por exemplo), tardo em ver as tão propaladas virtudes da exploração privada...

EU TAMBÉM SOU CONTRA A EUROPA DAS MORALIDADES

Todos nós por cá teremos as nossas razões para detestar José Manuel Durão Barroso. Mas, se for um escroque, é um dos nossos escroques. No meu Portugal ideal, a sua chegada a um local público devia ser saudada pela colectividade presente com as expressões saturadas que se fazem quando alguém se peidou. Mas as aldrabices que nos pregou em 2002 e o expediente subsequente de se desenfiar à primeira oportunidade, conjuntamente com a prorrogativa de o insultar por ter aceite um tacho dado pela Goldman Sachs, são queixas e privilégios nossos que não queremos tornar compartilháveis pelos nossos parceiros europeus. É como a soberania sobre as 200 milhas marítimas. Pode ter havido já imensas transferências de soberania mas os tratados nada contemplam quanto às transferências de ódios de estimação. São intransmissíveis, como as selecções de futebol. É por isso que se tornam inaceitáveis as declarações de François Hollande ao qualificar de moralement inacceptable o novo cargo de Durão Barroso. Ao contrário de outros países, que o afirmam sobriamente, ou nem isso, a França e em França têm-se desmultiplicado em declarações nesse sentido. Até podem ter razão mas não compete ao presidente francês (e à máquina mediática francesa) comentar exuberantemente o assunto como o tem feito - a ponto de levantar suspeitas às razões que os motivam. Por causa das contradições do passado. Era a eles (e não a nós) que teria competido comentar a moralidade da escolha para director do FMI de Dominique Strauss-Kahn, o garanhão que foi apanhado literalmente de cuecas pelos tornozelos em Maio de 2011 e que teve de se demitir depois disso. Eram segredo os instintos sexuais do visado? Ou tentar assaltar a primeira fêmea que lhe passa à frente é moralement acceptable? E não é que é uma coincidência do caraças que a sua sucessora fosse também precisamente francesa?
Adenda: Em contrapartida, e para que se perceba mais claramente que as minhas críticas a Hollande e aos franceses não têm a intenção de exonerar Durão Barroso das críticas que lhe endereçaram, dou aqui publicidade a um abaixo assinado promovido pelos funcionários das instituições europeias, pedindo a suspensão da sua pensão e dos títulos honorários que possa auferir como antigo presidente da comissão.

14 julho 2016

(UM)A VERDADE A QUE (NÃO) TEMOS DIREITO

A operação de colocação da dívida pública que ontem teve lugar ou correu bem - como a noticiou o Diário Económico - ou foi um desastre - como a descreveu o Observador. O que não pode acontecer é ter sido simultaneamente uma coisa e o seu contrário. É o mesmo copo e a mesma água. Eu continuo convicto que a expressão A Verdade a que temos direito, que foi inventada há uns quarenta anos pelos comunistas portugueses para o seu jornal civil O Diário, é uma expressão profundamente estúpida (numa Democracia), mas surpreendo-me a encontrar quem, então assim também a consideraria, mas que hoje parece reciclado pelo direito a uma Verdade similar pela deturpação militante a essa outra Verdade.

«I WAS THE FUTURE, ONCE»


Será que David Cameron irá deixar de passar alguns dias das suas férias em Portugal? Será que ele continuará a dispor-se a tirar algumas horas dessas férias para ir comprar lulas - e apenas e sempre lulas - ao mercado mais próximo? Provavelmente não, pela parte que me toca não me surpreenderia descobrir que David Cameron nem gosta de lulas, mas mesmo que aquilo fosse genuíno e que continue a gostar de as ir comprar ao mercado com a mulher, Samantha, dispensar-se-á a atenção de todos aqueles tabloides britânicos para quem o episódio já não se revestiria de qualquer importância. Esses não estão minimamente interessados em saber como é que John Major ou Gordon Brown (por exemplo) ocupam os seus tempos livres. Mas, até ao arriar da bandeira, o aparelho que o apoiou até aqui permanece solidamente em funções: nas sínteses da sua última intervenção como PM nos Comuns (a de cima é do WSJ) e no meio de tanto laracha bem-humorada, em momento algum se ouve algum remoque vindo da sua bancada ou da adversa por ele ter subido a parada da aposta de convocar o referendo que perdeu...

O JUNCKER E O SCHULZ, O SCHULZ E O JUNCKER, O DUPONT E O DUPOND

Para poder apreciar devidamente a entrevista conjunta dada por Jean-Claude Juncker e Martin Schulz à revista alemã Der Spiegel e publicada pelo Diário de Notícias de hoje (acima), o melhor será ter um ataque de amnésia para esquecer como aquelas duas figuras se rivalizaram na campanha das eleições europeias de Maio de 2014, como candidatos ao mesmo lugar de presidente da Comissão. Aliás, na época ambos vieram cá a Portugal para nos dizer o quanto, na sua rivalidade, nos adoravam, a nós portugueses (abaixo). Agora isso estará tudo esquecido - a rivalidade decerto, a adoração por nós também talvez... - e o que se consegue interpretar do essencial da mensagem que pretendem passar com a entrevista supra é o grau de cumplicidade que estabeleceram entre ambos: telefonam-se logo de manhãzinha, por exemplo. É uma relação que, com os últimos desenvolvimentos da correcção política das designações de género, se poderá classificar por de beijo na boca (agora já sem vislumbre de ironia). Este é o modelo de funcionamento das instituições políticas que alemães e outros europeus setentrionais mais apreciarão, mas que os portugueses e os outros meridionais nunca se disporão, creio, a compreender. A perspectiva dos Europeus do Norte nestas coisas costuma ser integradora - na sua ascensão ao poder o partido nazi alemão incluiu outra formações nacionalistas de extrema direita - enquanto a perspectiva dos Europeus do Sul tende a ser miseravelmente fraccionista - mesmo no seu apogeu no poder, o partido fascista italiano nunca passou de uma confederação de clãs rivais. Aliás, naquelas mesmas eleições europeias de 2014 onde Juncker e Schulz se enfrentavam civilizadamente, à escala nacional e embora Paulo Rangel fosse federalista e o seu rival Francisco Assis apenas um euroentusiasta, a ideia das respectivas máquinas de campanha era passarem o tempo a agredirem-se reciprocamente, acentuando nos pormenores aquilo que não os dividia no campo das ideias para a Europa. É esta conjugação de circunstâncias, esta atonia distintiva, que transforma as eleições europeias num soporífero. Em que o voto só tem consequência se escolhido algum candidato (ou opção) que parta a loiça (seja qual for a loiça que se parta): em 2014 em Portugal era Marinho e Pinto; em França é a sempiterna Marine Le Pen; no Reino Unido de há poucas semanas foi escolher o Brexit. Quem se queixa das respostas desestruturadas dos eleitorados, esquece-se que as perguntas raramente são colocadas por forma a permiti-las, às respostas, estruturadas. E também não é só uma questão de os alemães e quejandos apreciarem soluções em jeito de große Koalition, como a imagem abraçada que Juncker e Schulz procuram impingir nesta sua entrevista; é que desconfio que, entre a esmagadora maioria de todos os outros, não é nada daquilo que essa (hipotética) maioria quererá, da Europa, da política e da política europeia. Concretamente, um prosaico (mas consequente) nacionalista de direita português, depois do desaparecimento do Partido Popular de Manuel Monteiro já há quase 20 anos, onde é que ele tem podido votar depois disso?...

13 julho 2016

TV NOSTALGIA - 87 (ELLERY QUEEN)

No primeiro trimestre de 1977 a televisão portuguesa passou às Terças-feiras uma série televisiva baseada nos romances de Ellery Queen. Teve um sucesso muito mitigado - como aliás aconteceu também no seu país de origem, onde só sobreviveu uma época, com 22 episódios. O segredo do seu insucesso radicará talvez na estrutura dos episódios: a certa altura, Ellery Queen, ao bom estilo clássico do policial whodunnit, derrubava a quarta parede, virava-se para o telespectador e, em função das provas disponíveis, desafiava-o a descobrir quem fora o assassino. Se na época ainda era duvidoso, hoje tornou-se óbvio que a esmagadora maioria da audiência televisiva não se senta diante de um ecrã para pensar, seja no que for...

OS VENCEDORES DA ANOREXIA

Acima, uma fotografia de Wolfgang Schäuble e Maria Luís Albuquerque nos tempos em que os dois eram felizes juntos (2013-2015). O Século XXI e a política da União Europeia caracterizaram-se por uma degradação tão acentuada do conteúdo e lógica das mensagens políticas que actualmente já só é preciso que as mensagens pareçam coerentes no momento em que são produzidas porque se pressupõe que os destinatários nem têm (nem se preocupam em ter) memória do que acontecera anteriormente. No caso da fotografia abaixo, esse tempo anterior seria aquele em que o dono da t-shirt era magro como um espeto. Ou então, assume-se a laracha e é para não levar o dono da t-shirt a sério... Mas se assim for, porque levar então a sério os trajectos e discursos contorcidos de Schäuble e de Maria Luís Albuquerque?... Por ele ser alemão?

12 julho 2016

ATÉ NO PAÍS DO SENHOR DIJSSELBLOEM

Compilar notícias com o mesmo tema pode dar nisto: a mesma «Holanda que será "severamente" afectada se o Reino Unido deixar a União Europeia» parece possuir uma parcela apreciável de cidadãos que, um mês depois e mesmo com a consumação da saída do Reino Unido da União, se estarão marimbando para a afectação severa. Ou será mais outro episódio de milhões acometidos de outra estupidez abissal?
A Holanda da notícia inicial do texto incluso mais acima, mais os 10 mil milhões de «eventuais perdas comerciais» que ali lemos anunciadas, não incluirão porventura as perdas perspectivadas pelos 48% de holandeses da notícia imediatamente abaixo que querem sair também da União? Ou será que tudo isto não passa de uma mesma história, que tem um desfecho previsível: pôr-nos sempre a pensar de uma determinada maneira?

COMENTÁRIO DE UMA LINEARIDADE DE TWITTER

Se lhes assiste em Bruxelas todo o direito de não embarcarem em futebóis, assiste-nos cá em Lisboa todo o direito de não se contribuir para o enredo de uma novela... Extra-twitter: dizem os despachos que a votação foi por unanimidade: parece que até os gregos (do governo do Syriza) votaram contra nós e contra os espanhóis. E, se as votações não tiverem sido conjuntas, nós votamos contra os espanhóis e os espanhóis votaram contra nós. Ora isso não costuma acontecer nas histórias para pessoas crescidas...

11 julho 2016

COM FERNANDO SANTOS ATÉ OS PERUS CONSEGUEM VOAR...

O título de ontem e as circunstâncias novelescas como foi alcançado geraram uma onda de tal autoconfiança, que hoje parece possível acreditar-se que Fernando Santos é até capaz de fazer os perus voarem...

MAGNANIMIDADE


Devíamos convidar este puto para estar presente como adjunto do Centeno na reunião de hoje do Ecofin, para que desse, pelo seu exemplo, uma lição de boas maneiras a Herr Schäuble. Pode estar-se por cima sem se ser uma besta. Aditamento: A publicitação de uma photo-op como a abaixo é uma verdadeira novidade (pelo menos com aquele ministro das Finanças de Portugal...).

...E ESTÁ TUDO DITO.

10 julho 2016

AS CINQUENTA TONALIDADES DE AZUL

Sem qualquer pretensão erótica mas descaradamente inspirada em - embora também mais cromático que - fifty shades of grey, temos aqui as cinquenta tonalidades de azul.

09 julho 2016

CORAZÓN AQUINO


Quando os enviados especiais do New York Times (Abe Rosenthal, Seth Mydans e Warren Hoge) tiveram ocasião de entrevistar em profundidade pela primeira vez a viúva e sucessora de Benigno Aquino, que se tornara após o assassinato do marido na líder da oposição filipina, tiveram uma surpresa monumental. Conjuntamente com a entrevista truncada, acompanhava-a um relatório onde a expressão marcante para descrever a entrevistada era twittering housewife (dona de casa chilreadora), antes de twitter se tornar o poderoso utilitário informático - embora não propriamente substantivo quanto ao detalhe das ideias transmitidas... - que o futuro viria a revelar. Rosenthal teve ocasião de complementar tal relatório por ocasião de um jantar para que foi convidado na Casa Branca onde teve oportunidade de dizer pessoalmente ao presidente Ronald Reagan (que também não tinha uma reputação intelectual muito forte...), que Corazón Aquino era uma cabeça oca, sem quaisquer convicções políticas. Tanto foi o alarme que, entre os seus aliados norte-americanos, houve quem rapidamente contratasse uma firma de consultoria política, a DH Sawyer & Associates, que a industriou a dizer o que fosse conveniente, tanto em termos domésticos como internacionais. O resultado pode ser apreciado acima e o sucesso da empresa pode ser medido sobretudo pelos resultados: Corazón Aquino veio a tornar-se presidente das Filipinas em 25 de Fevereiro de 1986, depois de um volte-face militar a umas eleições fraudulentas organizadas pelo seu antecessor Ferdinando Marcos. A entrevista acima data de Abril de 1986. Corazón Aquino manteve-se no cargo nos seis anos seguintes, até Junho de 1992, apesar de sete tentativas de golpe de Estado para a derrubar. Nada mau para alguém que nada tinha dentro da cabeça! Faleceu em 2009. É um daqueles casos que mais facilmente me ocorre quando se invoca a profundidade dos estadistas de outrora quando em comparação com os políticos superficiais da actualidade... Nem sempre, como se vê.

O CASO «BREAKER» MORANT E A SOBERANIA DE UMA AUSTRÁLIA RECÉM NASCIDA

Quando se lê uma notícia como a acima, a pergunta que me parecer impor-se a seguir à reacção escandalizada, é a de saber em que fase do processo da construção europeia se criaram as condições para que um luxemburguês se possa arrogar o direito de decidir o que é o "caminho certo" que Portugal deve trilhar? Nem vale a pena lembrar que, quando a situação era a inversa, nem passou pela cabeça do antecessor de Juncker pronunciar-se sobre o "caminho certo" das controversíssimas políticas fiscais do Luxemburgo. Se calhar devia, mas ele é mesmo assim. Manda quem pode, mas o obedece quem deve é, à escala europeia, muito mais retorcido do que a linearidade como o nosso ditado é assumido em Portugal. Contemos uma história que, não tendo directamente a ver com o assunto, mostra como os países, mesmo países muito recentes e integrados em superestruturas mais robustas do que a União Europeia, se podem mostrar ciosos da sua soberania.
Viajemos até ao período dos finais do Século XIX e à Segunda Guerra Anglo-Bóer (1899-1902). No conflito e para impor a sua vontade às veleidades independentistas dos africânderes intervieram não apenas a metrópole britânica mas também algumas das colónias e domínios que formavam o Império Britânico. O caso individual mais famoso de uma participação (quiçá irónica, quando se sabe o que veio a acontecer posteriormente...) como discípulo do Império britânico, terá sido Gandhi (assinalado na fotografia acima) que, fiel ao seu pacifismo, fez parte de uma unidade de apoio médico-sanitário. Mas o contributo militar mais significativo terá sido o dos australianos (29.000). A Guerra Anglo-Bóer caracterizava-se por ser uma guerra tecnicamente equilibrada (ao contrário dos outros conflitos coloniais de então) porque o armamento das duas partes se equivalia, mas era simultaneamente o primeiro de um dos muitos conflitos assimétricos que o Século XX iria conhecer, porque o potencial das duas repúblicas bóeres era infimamente inferior ao do Império britânico.
Não podendo defrontar em pé de igualdade os exércitos britânicos, o conflito transferiu-se ao fim do primeiro ano, para a capacidade dos britânicos em conseguir controlar efectivamente os territórios de onde ainda não conseguira desalojar as pequenas unidades adversárias (designadas por comandos, como a que aparece retratada acima), que faziam da mobilidade e da sua familiaridade com o terreno os seus melhores activos para colocar em cheque as forças de ocupação. Foi nessa tarefa de contra-guerrilha que as unidades australianas mais se distinguiam e não pareciam ter rival entre as forças britânicas, com as condições naturais do veld sul-africano a assemelharem-se imenso às existentes no outback da sua Austrália natal. Simultaneamente, o contingente australiano notabilizava-se também pela sua indisciplina. Recém desembarcados na África austral, em trânsito por Moçambique, numa concessão que valeu muitas críticas ao governo português da época, os australianos distinguiram-se, entre outros episódios menos guerreiros, pelas más memórias que deixaram da sua passagem pela rua Araújo, uma célebre artéria de Lourenço Marques.
Entre eles, o tenente Harry «Breaker» Morant (1864-1902), que adquirira essa alcunha por ser um domador de cavalos (entre outras actividades), um oficial que não se teria distinguido se, com outros, não tivesse sido julgado e executado por ter morto nove prisioneiros (brancos) em retaliação pelas baixas suportadas pela sua unidade em emboscadas montadas pelo inimigo. O episódio não devia ter história, do ponto de vista da justiça militar. O mesmo já não se passou do ponto de vista político. A Austrália era então um país recente e cioso da sua soberania (nascera a 1 de Janeiro de 1901). As sentenças foram assinadas pelo general Kitchener que, além de britânico, transmitira instruções informais às tropas no terreno para que se adoptasse uma atitude hostil para com os adversários que se rendessem e se seguisse uma política de terra queimada para com os civis - que se viria a saldar por dezenas de milhares de mortos em campos de concentração. Além disso, as execuções tiveram lugar logo 18 horas após a leitura da sentença. Quando foram conhecidas na Austrália, foram consideradas como um colossal exercício de hipocrisia praticado pelos metropolitanos.
Tanto foi o desagrado, que na Austrália se procedeu a um esforço colectivo para transformar a figura controversa de «Breaker» Morant numa espécie de herói popular, inclusive com veleidades de poeta. Há um filme de 1980 narrando a sua história. Mas o impacto mais imediato e que interessará mais realçar, foi que os australianos, por muito leais membros que fossem do Império britânico, rapidamente retiraram aos tribunais militares britânicos a competência para julgar os seus soldados, mesmo em situação de guerra. Um exemplo enorme dessa diferenciação judicial aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial em que, a par dos cerca de 350 soldados britânicos executados por deserção ao longo do conflito, a Austrália não executou nem um só dos seus. As jurisdições, mais do que se imporem, aceitam-se. E, para voltar ao assunto inicial, e ao contrário dos Paulos Rangéis e dos Franciscos Assis que se nos apresentam em eleições europeias como se se tratassem de alternativas políticas, não estou disposto a aceitar que um luxemburguês, um alemão, um holandês ou um outro de uma outra nacionalidade nos venha definir o que é o "caminho certo".

08 julho 2016

A EUROPA, O EUROPEU E A ARBITRAGEM

Vamos procurar ser objectivos: não é impossível que a selecção portuguesa vença a final do Europeu. Mas vai ser dificílimo. O que nós, adeptos, temos que nos consciencializar é que o jogo vai decorrer num campo inclinado, que o lado para onde Portugal atacar é a subir, que a inclinação se irá acentuar quanto mais tempo o resultado permanecer inconclusivo. Convém também assumir desde o princípio que o empate, que Fernando Santos nos explicou que afinal é uma vitória, nesse jogo, converter-se-á numa derrota: por causa do penalti. O penalti - abaixo exemplificado com um exemplo bem recente (França-Alemanha) e outro de há dez anos (França-Portugal) no Mundial de 2006* - é aquela jogada que permite à França marcar o seu golo mas que só foi sancionada porque decorre na grande área do adversário da França. A sensação dominante no espectador não-francês é que, se fosse na grande área contrária, nada teria acontecido. Claro que esta é uma opinião minha, não científica, sem possibilidade de contraditório, mas é produzida com a mesma segurança que a opinião do governador do Minnesota quando, a propósito da morte de mais um civil num automóvel às mãos de um polícia exaltado, se pergunta se teria acontecido a mesma coisa se os passageiros e o condutor fossem brancos?, para depois concluir assertivamente que não. Na prática, a selecção francesa irá entrar em campo no próximo Domingo com uma probabilidade 0 de cometer faltas na sua grande área. Suspeito que o nosso pessoal mais queixinhas escusará de reclamar por aquelas tradicionais penalidades que ficam por assinalar a Portugal, porque dali não se vai sacar nada. Em contraste, as probabilidades de a selecção portuguesa cometer uma falta na sua grande área serão variáveis, conforme as circunstâncias, e aproximar-se-ão tanto mais do 1 quanto mais tempo o jogo permanecer empatado. Idealmente, os jogadores só deviam ter braços para os lançamentos de linha lateral e quando dentro da sua própria grande área deviam ser mesmo desasados como os matraquilhos. Mas o ideal seria que se dispensassem os penaltis. Seria sinal que a França se superiorizara à equipa portuguesa sem precisar de recorrer a expedientes; ou então precisamente o contrário: que Portugal se superiorizara à equipa francesa de tal forma que o próprio árbitro se apercebesse que a ajudinha prometida seria supérflua. Não é preciso ficarmos com queixas deste árbitro: daqui por uns dias, suspeito que iremos ficar com razões de queixas, mais sérias, de uma outra equipa de arbitragem, chefiada (na sombra) pelo senhor Schäuble...


* Convém lembrar que na outra meia-final desse Mundial de 2006, disputado entre a Alemanha e a Itália, a Alemanha anfitriã foi também brindada com um penalti. Azar o dos alemães que não o converteram e foi a Itália a apurada para a final e que veio inclusive a sagrar-se campeã.

«AMERICA STRIKES BACK» - AGAIN

Nos Estados Unidos, em dois episódios independentes, dois negros foram assassinados por polícias em dois dias consecutivos, naquilo que não passará, suspeita-se, de episódios infelizmente quotidianos. O que diferencia estes dois episódios de todos aqueles outros que escapam à atenção mediática? É que foram filmados e as imagens popularizaram-se nas redes sociais através de um processo que (ainda) é demasiado espontâneo. Ao terceiro dia, em vez da ressurreição de Cristo, as redacções americanas e do resto do Mundo aparecem inundadas de uma notícia adicional, como se tudo o que aconteceu não passasse de uma guerra simétrica entre a sociedade e as autoridade policiais, onde os polícias conseguem passar abruptamente de algozes a vítimas. Nada na leitura da terceira notícia permite identificar quem são os (vários) franco-atiradores responsáveis pelos cinco assassinatos de polícias e os seis outros feridos, a sua raça, as suas motivações ou intenções que os levaram a conseguir engendrar assim um plano coordenado de um dia para o outro. Adiantará tentar explicar ainda o que me parece ser senso-comum: que o fenómeno de ter cidadãos degenerados a matar polícias não é o simétrico, não neutraliza, nem desculpa o de ter polícias degenerados a matar correntemente cidadãos? Creio que não adianta. Na América, os costumes já degeneraram tanto que o aparelho mediático deu em servir as audiências com os enredos que ele acredita que elas gostam mais. Tanto pior para a Verdade. Tanto pior para a Razoabilidade. Já era assim há 15 anos (acima) e só piorou. Depois do que parece ser uma acção tem que haver uma reacção e o mais rápida possível.

07 julho 2016

QUASE SESSENTA ANOS DEPOIS, TERÁ TONY BLAIR FINALMENTE O MESMO DESTINO DE ANTHONY EDEN?

Treze anos depois dos acontecimentos, sete anos depois de ter sido anunciado, o tão aguardado Inquérito ao Iraque, com os seus dois milhões e meio de palavras, foi finalmente tornado público. A quase totalidade das opiniões publicadas inclinam-se para extrair do texto uma inequívoca condenação à conduta de Tony Blair. Antes de Blair e do Iraque, o último primeiro-ministro que tinha lançado o Reino Unido numa invasão que se viera a revelar um fiasco político semelhante fora Anthony Eden (1897-1977), que invadira o Egipto por ocasião da Crise do Suez no Outono de 1956 e se demitira em Janeiro seguinte. A sua culpa fora a de que agira demasiado autonomamente em relação aos interesses dos Estados Unidos. E por isso passou os 20 anos que se seguiram votado a um quase completo ostracismo. A culpa de Tony Blair é precisamente a oposta: a de que agiu incondicional e acriticamente em consonância com os interesses dos Estados Unidos. Deve ter sido por isso que, ao contrário de Eden, não teve que se demitir poucos meses depois (ainda permaneceu no cargo por mais 4 anos) e aparenta desenvolver uma intensa actividade social de ex-estadista.

O «CÂNTICO NEGRO» DE JOSÉ RÉGIO TEM QUE SER TRANSPOSTO PARA AS NORMAS COMUNITÁRIAS

Neste remate ao seu famoso Cântico Negro de 1925, o poeta José Régio não sabia por onde ia, não sabia para onde ia, só sabia que não ia por aí! Mais de 90 anos depois, assiste-se ao brexit e aos comentários que se lhe sucedem, e apercebo-me quanto José Régio é um poeta profundamente antieuropeu, quanto tudo aquilo que ele escreveu naquele seu famoso poema não passariam de liberdades poéticas, quicá inconsequentes, quiçá mesmo perigosas para a Europa actual. Na vida real, um Boris Johnson, um Nigel Farage não podiam ter usurpado a liberdade de, sabendo por onde iam, não saber para onde iam. Fiquei esmagado pela constatação dominante entre quem tem a pretensão de pensar pelos outros, que não pode haver projectos políticos que se cinjam à insegurança simples de apenas se saber que não se vai por aí. Assim como aconteceu com os 52% de britânicos velhos ignorantes e pobres que não se podiam ter deixado embalar por aquele lirismo despropositado de só querer saber que não se vai por aí - e que agora estão arrependidos. O Cântico Negro tem que ser transposto para as normas comunitárias: tem de passar a ser conhecido por Cântico Azul (Europa) e revisto, passando a terminar assim:
(...)
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que vou para onde de Bruxelas me mandarem ir!
(e que a repetição de referendos não seja problema...)