12 de Janeiro de 1984. Era com a compostura indulgente que a notícia acima documenta, que era noticiada a reeleição do presidente argelino, Chadli Benjedid. Importa acrescentar que, consultando a documentação disponível a respeito deste acto eleitoral, os números da vitória de Benjedid se revelam ainda mais «esmagadores» do que os 95,36% anunciados à época: uns quase unânimes - 99,42%! Contudo, seja qual for a versão do disparate, aquilo que é retrospectivamente uma vergonha é apreciar como jornais e jornalistas podiam noticiar estas palhaçadas sem adicionar, ao menos, um qualquer comentário crítico manifestando a opinião - óbvia! - quanto à inverosimilhança da seriedade de tais actos eleitorais.
12 janeiro 2024
A ENTREVISTA DO PUTO MÁRIO SOARES
(Republicação)
A edição de 12 de Janeiro de 1949 do Diário de Lisboa regista-se pela curiosidade de incluir nela uma desenvolvida entrevista a Mário Soares, que contava então apenas 24 anos, acabadinhos de fazer (7 de Dezembro). Com uma chamada de primeira página, a entrevista desenvolvia-se na página impar imediatamente seguinte (página 3), ocupando-a na sua quase totalidade, e antecipando-se à entrevista do deputado Jorge Botelho Moniz* que aparecia desenvolvida numa das páginas centrais. Esta aparência de debate político, num jornal devidamente visado pela Censura (note-se a nota no rodapé da primeira página, ironicamente afixada logo abaixo da primeira parte da entrevista de Soares), só se compreende pelo facto de estar então a decorrer uma campanha eleitoral para a presidência da República, em que o titular, o marechal Óscar Carmona (1869-1951), se confrontava com o general Norton de Matos (1867-1955), candidato que congregava toda a oposição. Não chegou a haver acto eleitoral, por desistência do candidato oposicionista, considerada a falta de equidade no tratamento dado às duas candidaturas**. E, no entanto, neste caso em particular desta entrevista de há 70 anos, considerando tanto o carácter respeitador das hierarquias da idade da sociedade daquela época, como a extrema juventude do entrevistado, há que nos perguntarmos que mecanismos poderão ter catapultado o tão jovem Mário Soares para um tal destaque e uma tal visibilidade...
* Irmão do mais conhecido (e frequentemente confundível com ele) Júlio Botelho Moniz.
** A esse respeito, vale a pena ler a notícia abaixo, publicada nesta mesma edição do jornal, onde consta a resposta da Emissora Nacional a uma solicitação da candidatura oposicionista. Segundo ela, acolher os comunicados da candidatura da oposição seria uma atitude anti-estatal e anti-constitucional. Estava-se a anos-luz do conceito de tempo de antena...
** A esse respeito, vale a pena ler a notícia abaixo, publicada nesta mesma edição do jornal, onde consta a resposta da Emissora Nacional a uma solicitação da candidatura oposicionista. Segundo ela, acolher os comunicados da candidatura da oposição seria uma atitude anti-estatal e anti-constitucional. Estava-se a anos-luz do conceito de tempo de antena...
11 janeiro 2024
A EXECUÇÃO DOS DIGNITÁRIOS FASCISTAS QUE HAVIAM DERRUBADO MUSSOLINI
(Republicação)
11 de Janeiro de 1944. Os jornais anunciam o fuzilamento de cinco dignitários fascistas que haviam votado pela deposição de Mussolini numa célebre reunião do Grande Conselho Fascista que tivera lugar a 24 de Julho de 1943. Nesses seis meses, a Itália concluíra um armistício com os Aliados que a ocupavam em parte (a Sul), fora ocupada pelos alemães na parte restante e acabara declarando guerra à antiga aliada Alemanha. Entretanto, Mussolini, que fora preso em Julho pelas novas autoridades italianas, fora libertado em Setembro pelos alemães e fundara um governo alternativo no Norte do país. Nesse frenesim houve quem tivesse sido apanhado do lado errado da frente de combate, o que acontecera àqueles cinco dignitários, que terão abusado da sorte em tempos incertos. Ciano (genro de Mussolini), De Bono, Pareschi, Gottardi e Marinelli foram julgados e condenados à morte num julgamento que durou dois dias. As execuções tiveram lugar 48 horas depois, no polígono de tiro do forte de San Zeno em Verona. É mais do que significativo que quem as anuncia é a agência noticiosa alemã DNB.
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10 janeiro 2024
PROVAVELMENTE O SORRISO MAIS FALSO DA POLÍTICA PORTUGUESA
Ainda muito recentemente o vimos reaparecido nos ecrãs por ocasião do congresso do PS do passado fim de semana (imagem mais acima), mas a evocação que hoje aqui se faz de António Vitorino tem precisamente quarenta anos, quando, desertando da UEDS onde então militava, Vitorino aceitara as funções de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares no governo do Bloco Central (PS/PSD) dirigido por Mário Soares. Fora mais um salto da efervescente carreira política do ambiciosíssimo jovem advogado (que estava a dois dias de completar os 27 anos). Anteriormente, a militância política de António Vitorino passara por várias versões de alas mais à esquerda do PS, mas sempre do lado de cá do comunismo ortodoxo: desde a FSP (Frente Socialista Popular), nos tempos animados do PREC, ao MSU (uma coisa de intelectuais que possuía uma inexplicável ressonância mediática, como aqui já evoquei neste blogue), até à UEDS (União da Esquerda para a Democracia Socialista). Agora tratar-se-ia da respeitabilidade governamental para a jovem estrela política que ali começava a sua ascensão. O preço a pagar por tal ascensão seria a (péssima) reputação que granjeara entre os vários grupos de companheiros políticos que deixara sucessivamente para trás. A notícia tinha o destaque de aparecer na primeira página. E aí começava - também - uma imagem pública de falta de confiança e de pouca simpatia pelo novo governante socialista, que não é nada ajudada, convenha-se, pela falta de verosimilhança do seu característico sorriso (abaixo), especialmente quando é acompanhado de um esfregar contínuo de mãos que nunca pressagiou nada de bom...
09 janeiro 2024
ELE HÁ OS MOTORES ELÉCTRICOS, OS HÍBRIDOS,...
...este é o motor herbívoro, a próxima evolução de automóvel movido a energias renováveis... As marcas também vão cobrar um disparate de dinheiro por eles por serem verdes e nas áreas de serviço das auto-estradas vai ser obrigatório existir uma área de pastagem adjacente...
COMEÇA "BEM"...
Começou bem, com o rigor histórico que a notícia acima documenta, a reencenação desta nova Aliança Democrática de 2024. A original, na foto mais acima, fora constituída há quarenta e quatro anos e meio. E a minoria que hoje tem idade para se lembrar ainda daquele período não tem quaisquer dúvidas quanto à identidade dos protagonistas. O que não é o caso do supracitado Hugo Soares do PSD (nascido em 1983 e muito fraco em conhecimentos sobre história política portuguesa) que tenta minimizar a adulteração dos factos, qualificando-a de «imprecisão». Originalmente fizeram-na por revisionismo político, por causa do percurso posterior de Freitas do Amaral, mas agora, depois da sua morte, a sua manutenção (da adulteração dos factos) só se deverá à ignorância. Para quem os conhece, aos factos no original, e ao contrário daquilo que se escreve acima na notícia, Hugo Soares acaba por não «explicar» nada a ninguém, que não tem categoria para isso (vejam-no aqui, audaciosamente ignorante aos 0:48s), o que este episódio confere é uma áurea de incompetência ao núcleo próximo que rodeia Luís Montenegro. O próprio ambiciona muito para além das suas capacidades, já que os que o antecederam no PSD nunca o escolheram, sequer, para exercer qualquer cargo executivo e os que o cercam, como é o caso deste ignorante Hugo Soares, não têm qualquer preparação para o assessorar.
A «CRISE DO SNS» DE HÁ 100 ANOS
Com outros contornos. menos sofisticados tanto nos cuidados assistenciais como na cobertura informativa, já há cem anos a assistência hospitalar estava em crise, como se percebe pela notícia acima, que dá conta de um previsível - depois não concretizado... - encerramento do hospital de Santa Marta em Lisboa, por falta de pessoal técnico. É verdade que ainda não havia a noção jornalística da importância da demora das filas de espera nas urgências dos hospitais, mas a ideia da procura do alarmismo noticioso sobre saúde no pino do Inverno, quando há uma substancial percentagem de pessoas constipadas e engripadas, essa ideia de escrever sobre temas de saison parece-me já a mesma.
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08 janeiro 2024
O HOMEM QUE PASSOU MAIS TEMPO NO ESPAÇO
(Republicação)
8 de Janeiro de 1994. Lançamento da missão espacial russa Soyuz TM-18. Entre a tripulação (fotografia acima) encontra-se o médico Valeri Polyakov de 51 anos (à esquerda) que irá passar os próximos catorze meses e meio (437 dias) na estação espacial MIR, estabelecendo com isso o record do maior período contínuo passado no espaço (um record que ainda hoje subsiste). O vídeo abaixo mostra o seu retorno à Terra a 22 de Março de 1995, com a tripulação da missão Soyuz TM-20. Se a proeza tivesse sido realizada pelos norte-americanos, teria sido notícia de encher os cabeçalhos à volta do Mundo; pelo contrário, no caso, ainda se nota um certo provincianismo socialista soviético nas cerimónias preparadas para o acolhimento dos cosmonautas.
Pela sua duração, este terá sido o processo experimental mais próximo de replicar e estudar as condições de imponderabilidade por que terão de passar quaisquer tripulantes de uma futura missão a Marte (cuja duração previsível rondará os vinte e um meses). De há trinta anos para cá produziram-se incontáveis estudos teóricos quanto a missões espaciais tripuladas para a exploração daquele planeta, mas a verdade é que nada foi desenvolvido naqueles aspectos experimentais mais concretos (e mais caros...) da missão, nomeadamente este aspecto crucial de compreender e lidar com as reacções do organismo humano à presença prolongada no espaço. Passarão várias décadas antes de que a história de ir lá buscar o Matt Damon possa ser algo mais do que ficção...
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07 janeiro 2024
HÁ CEM ANOS TAMBÉM TÍNHAMOS UM (OUTRO) PRESIDENTE EXÓTICO, EMBORA DE UM ESTILO DIFERENTE DO MARCELO
Há cem anos, também corriam rumores sobre os gostos e as atitudes excêntricas do presidente da República. Nesta notícia de 7 de Janeiro de 1924, alvitrava-se a hipótese de que Manuel Teixeira Gomes tencionaria «requisitar aposentos na Torre de Belém, a fim de os tornar local preferido de repouso». Tudo muito sóbrio e muito simples, «um leito e um binóculo» para ver passar os navios no Tejo, deduzir-se-á. O Marcelo, como se sabe, é mais natação.
MAIS UMA REMODELAÇÃO DO GOVERNO DE VICHY
(Republicação)
7 de Janeiro de 1944. Anuncia-se que Pierre Laval (1883-1945), o chefe do governo colaboracionista de Vichy, procedera a mais uma remodelação governamental na sequência de uma crise ministerial. Sinal dos tempos, mas também da credibilidade das instituições, a notícia era publicada num jornal português mas tendo por fonte Londres, e os serviços de escuta dos britânicos, e não propriamente as emissoras radiofónicas francesas que haviam emitido a notícia em primeira mão. A capacidade de manobra política e de recrutamento de quadros por parte de Pierre Laval circunscrevia-se cada vez mais, à medida que a sorte das armas pendia para o lado dos Aliados. Muito daqueles que haviam sido os defensores do regime em tempos que haviam sido mais prometedores, haviam-se passado para o outro lado e só restava agora a Laval os expoentes do colaboracionismo com a Alemanha. Nas fotografias abaixo aparecem os que são mencionados na notícia. Da esquerda para a direita, Philippe Henriot (1889-1944), na fotografia conjunta central aparece Paul Marion (1899-1954), o próprio Pierre Laval e Pierre Cathala (1888-1947) e, na da ponta, Marcel Déat (1894-1955) que, apesar de naquela altura apenas proclamar na Rádio Paris a necessidade de "um governo de força" para antecipar o desembarque aliado, terá a sua oportunidade de entrar para o governo como ministro do Trabalho e da Solidariedade Social dali por dois meses, em 16 de Março de 1944.
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06 janeiro 2024
SÃO DONALDO, O MÁRTIR DA AMÉRICA DO SÉCULO XXI
O desenho é um original do caricaturista Monte Wolverton. Quanto àquilo que ele sugere é que o sucesso político alcançar-se-á quando se apresenta um dos maiores desqualificados da História deste século como tendo sido uma vítima injustiçada de muitas acusações - por sinal, todas elas argumentáveis.
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COMO EVOLUÍRAM OS «MELHORES ANOS DO TURISMO», COMPARANDO 2023 COM 2014
A comparação não é entre os visitantes entrados e as receitas que geraram, antes no formato como é e foi anunciado cada um daqueles anos, ambos os «melhores» de sempre ou da história. Nos dias que correm basta ser o secretário de Estado da pasta a anunciar o sucesso através de notícia da Lusa que é ilustrada por um navio de cruzeiros atracado no porto de Lisboa. O contraste é grande quando se recuam nove anos: o sucesso do ano turístico era então um assunto suficientemente importante para ser anunciado pelo próprio vice-primeiro-ministro e era a sua fotografia que enfeitava a notícia da Lusa (sempre a Lusa...). Lendo as declarações de Paulo Portas - ...é muito difícil crescer fortemente sobre um recorde absoluto... - é quase de perguntar como é que a actividade turística em Portugal se continuou a desenvolver sem a sua presença tutelar no governo... A dois dígitos como os seus dedos mostram, no instantâneo cuidadosamente seleccionado.
05 janeiro 2024
ONDE ESTÁ JOSÉ SÓCRATES?...
A primeira página da edição de hoje do Diário de Notícias dá destaque a uma resenha da história dos congressos do PS, através de um conjunto de meia dúzia de fotografias do passado onde se reconhecem desde Mário Soares a Salgado Zenha, Jaime Gama e Vítor Constâncio, Jorge Sampaio e António Guterres, António Costa e Pedro Nuno Santos... Não encontraram nenhuma fotografia de José Sócrates?... Fica a impressão que, lá pelo jornal, quiçá pelas vicissitudes que atravessa, sem dinheiro para salários, também não há dinheiro para (certas) fotografias...
«PAPAMADIT». SOBRE FILHOS DE PRESIDENTES DA REPÚBLICA...
...há que recordar que Nuno Rebelo de Sousa (à direita) e as suas agora conhecidas actividades de intermediário/lobista teve um antecessor de 25 anos na pessoa de Jean-Christophe Mitterrand (à esquerda), o filho mais velho de François Mittterrand, que foi presidente de França entre 1981 e 1995. Reconheça-se que o caso que envolveu o francês, e que, começado em 1994, se arrastou até 2009, era bastante mais caricato e mais sórdido. Mais caricato porque Mitterrand era uma personalidade muito mais medíocre do que Rebelo de Sousa, a ponto de vir a ser alcunhado displicentemente pela imprensa por papamadit - literalmente: o papa disse-me. E mais sórdido porque, em vez de mediações nos negócios da saúde, aquilo que o veio a notabilizar foi a sua intermediação no comércio de armamento - para Angola. Mas os detalhes não fazem a diferença daquilo em que consistirá a essência da actividade de ambos: recorrer à condição (subentendida) de serem filhos do pai para promoverem o seu estatuto. No caso dos Mitterrands, esse estatuto ainda estava consubstanciado no cargo de conselheiro para os assuntos africanos para que o Mitterrand pai nomeara o Mitterrand filho entre 1986 e 1992. Mas, no caso dos Rebelo de Sousa, o pai Marcelo estará num outro patamar ético e não havia nada de formal que justificasse conceder deferência ao Rebelo de Sousa filho, o que torna uma palermice inexplicável a actuação do secretário de Estado Lacerda Sales na época dos factos, sem se certificar do que é que aquilo valeria em Belém. Ou então, ter-se-á certificado mesmo... De qualquer modo, na fase actual da versão dos acontecimentos que prevalece nas convicções da opinião pública, foi uma palermice inexplicável a juntar a outra palermice inexplicável: as suas amnésias hesitantes de 2023.
04 janeiro 2024
PAULO «ZIGUEZAGUE» RANGEL
Os políticos como Paulo Rangel constitui uma das estrelas inexplicáveis do circuito mediático muito específico das entrevistas. Provavelmente por serem muito palavrosos, os especialistas daquele sector da entrevista devem pressupor que quem assim fala, gongoricamente, tem opiniões próprias e que essas opiniões sejam fundamentadas, relevantes e consistentes. Nada de mais enganador. Recorrendo logo ao exemplo desta entrevista acima, hoje aparecida no Público, Rangel, quiçá porque se aproximam eleições e porque o visado da mais recente investigação escandalosa do MP é Luís Montenegro, deu-lhe para começar a estranhar «coincidências» e a especular se não há «mãos invisíveis» contra o líder do seu partido. É uma novidade! Ainda em Julho do ano passado, o mesmo Paulo Rangel, noutra entrevista, essa ao Observador, desalinhava da opinião que houvesse uma «perseguição ad hominen do MP» ao antecessor de Montenegro, Rui Rio (abaixo). Em menos de seis meses, Paulo Rangel muda de opinião em 180º, tendo apenas o cuidado de evitar contradizer-se nas palavras: Rangel estranha esta coincidência, não se lhe pergunte porque no Verão passado ele não estranhou a coincidência do MP ter publicitado a investigação a Rui Rio e ao PSD por uma prática que se admite ser comum a todos os partidos com representação parlamentar. Uma investigação apenas ao PSD e àquele que foi presidente do partido de 2018 a 2022.
Mas este será apenas um caso daquilo que eu considero que desqualifica as opiniões de Paulo Rangel por omissão e circunstancialismo. Para (o que parece ser) fazer um frete a Montenegro, Rangel admite agora aquilo que já há se afiguraria óbvio: a politização - por promoção mediática - de alguns inquéritos dos MP visando figuras políticas, em alturas politicamente convenientes. Contudo, um outro aspecto que desqualifica Rangel serão mesmo as suas opiniões. E como ele anda há muito tempo nisto de dar entrevista, tem muitas e são variadas. Que são (quase) sempre circunstanciais. Ou seja dependem das funções (poder ou oposição) que PSD e PS desempenhem na altura em que eles a pronuncia. Num apanhado muito sucinto que fiz, com apenas três exemplos de opiniões dele quanto - mesmo a propósito! - à actuação do MP, podemos recuperar um apelo seu de 2010 para que o presidente da altura (Cavaco Silva) interviesse por causa «da degradação da imagem da justiça», uma acusação de 2022 ao primeiro-ministro de então (António Costa) por colocar em causa a «autonomia do MP», rematando com uma opinião fresquíssima de anteontem (noutra entrevista!), admitindo «um reforço do escrutínio parlamentar» ao MP, i.e., por parte da Assembleia da República. Ou seja, ele houve opiniões para todos os gostos: presidente PSD (a favor), governo PS (contra), assembleia (talvez antes pelo contrário...). Isto tudo é apenas para comprovar que as opiniões de Rangel são uma palhaçada e como é estranho dedicar todo este tempo a prestar atenção a palhaços.
A PRIMEIRA VIAGEM DE UM PAPA NO SÉCULO XX
4 de Janeiro de 1964. O então papa Paulo VI realiza a primeira visita de um papa ao estrangeiro. Desde há muito que os papas se ficavam por Roma. Quanto saíam de lá era mau sinal: por exemplo, quando Napoleão obrigara Pio VII a ir a Paris para estar presente na sua coroação em 1804. Contudo, esta saída de Paulo VI, porque fora livremente empreendida, revestia-se de todo um outro significado, a começar pelo destino: a cidade de Jerusalém e a Palestina (designação que era substituída nos noticiários por Terra Santa). Mesmo durante os tempos medievais do apogeu do poder do papado, nunca um papa lá estivera. Recorde-se que, à época (1964), Jerusalém era uma cidade dividida entre israelitas e jordanos e estes últimos administravam a Cisjordânia, incluindo a cidade de Belém. E a visita papal processou-se a partir da Jordânia (onde aterrara o avião que o transportara, como se lê acima), com o rei Hussein (um muçulmano) como anfitrião. Nessa altura o Vaticano não mantinha relações com Israel, algo que só virá a acontecer daí por 30 anos. A visita, embora plena de cobertura mediática e repleta de acontecimentos anunciados como históricos, foi breve: dia 6, Paulo VI regressará a Roma.
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03 janeiro 2024
O INÍCIO DA COMERCIALIZAÇÃO DA METADONA
3 de Janeiro de 1949. Esta discreta notícia acima dá conta do início da comercialização no Reino Unido de «um novo analgésico seis vezes mas eficaz do que a morfina» sob a designação comercial de «Heptalgine». A Glaxo era uma farmacêutica britânica. Contudo, o segundo parágrafo do texto dá-nos a perceber que a nova «fórmula» era o resultado de desenvolvimentos de pesquisas prévias que haviam sido já realizadas pela indústria farmacêutica alemã durante a guerra. «Amidone» é afinal a designação britânica para «methadone», a metadona que posteriormente se veio a popularizar como droga de tratamento dos toxicodependentes em heroína e outros opiáceos. Tratava-se de uma grande descoberta, mas os autores eram outros e esta é mais uma daquelas pequenas notícias cuja importância só virá a ser percebida com o tempo.
02 janeiro 2024
HÁ PRECISAMENTE UM ANO...
... o The Wall Street Journal antecipava uma recessão para 2023. Era a opinião de «mais de dois terços dos economistas das 23 maiores instituições financeiras» quanto às perspectivas para a economia norte-americana. A economia americana está bem e recomenda-se. Convém começar o ano a recordar que estes gajos são sempre uns grandes aldrabões, como eu aqui recordava há quase seis anos para os casos concretos - e tão díspares - de João César das Neves e de Francisco Louçã. Ano após ano, nacionais ou internacionais, seja qual for o quadrante político, os economistas que profetizam catástrofes parecem não ter emenda, e tudo à conta de, algumas vezes, terem acertado. A imagem que se costuma associar a esses acertos é que até um relógio parado tem a hora certa duas vezes por dia...
AFINAL, A IDEIA DO «FACT-CHECK» E DO «POLÍGRAFO» JÁ HAVIA SIDO INVENTADA HÁ CEM ANOS...
2 de Janeiro de 1924. Dispenso-me de repetir o que o autor da notícia abaixo do Diário de Lisboa torna perfeitamente claro. O que vale a pena destacar é que, pelo processo, se percebe que a ideia moderna do «fact-check» e do «polígrafo» já havia sido inventada há cem anos. Existia e com os mesmos pecadilhos da actualidade: abaixo não aparecem identificados quais seriam os «alguns jornais» onde aparecera a notícia de que o ministro das Finanças «fizera nada mais nada menos que 300 nomeações». Por cortesia profissional, deduz-se, já que do que ali abaixo se lê, conclui-se que afinal não havia escândalo... Por sinal e por vir a propósito da data, ainda hoje estou à espera que o «fact-check» ou o «polígrafo» me tivessem erradicado a dúvida de qual fora o primeiro bebé de 2023... Mas já descobri que a agenda destes ditos buscadores da Verdade é muito selectiva e não é a nossa, a dos leitores...
01 janeiro 2024
A «GUERRA» DE CRESTUMA-LEVER
1 de Janeiro de 1984. O país acompanha interessado o conflito fronteiriço entre duas freguesias do concelho de Vila Nova de Gaia. Crestuma e Lever são duas pequenas freguesias, com populações rondando à época os 3.000 habitantes cada uma e somando (as duas) uma área que não superava os 12 km². Mas, talvez precisamente por causa dessa pequenez, a questão da demarcação da fronteira entre ambas assumiu proporções inusitadas. Na noite de Natal haviam sido os de Lever que haviam erigido um verdadeiro obelisco (veja-se acima) no local onde, segundo eles, se situaria a delimitação entre as duas freguesias desavindas. No primeiro dia do Ano, foram os de Crestuma que tentaram dinamitar o obelisco da discórdia. Apesar da militância do artigo acima, o resto do país acompanhava o evoluir dos acontecimentos, com dificuldade em imbuir-se da exaltação dos beligerantes. A «guerra» foi um episódio intenso, mas passageiro. As duas freguesias, conjuntamente com mais outras duas, vieram a fundir-se numa nova entidade administrativa, na reorganização do Relvas em 2013.
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