26 abril 2016

A GUERRA PXICOLÓGICA

Quem sabe qual terá sido o contributo da formação na especialidade de Acção Psicológica (para as guerras em Àfrica) que terá enformado algumas das mais bem sucedidas carreiras da nossa sociedade, depois do 25 de Abril. Foi uma especialidade que, por exemplo, reuniu personagens (e carreiras) tão distintas e tão (politicamente) distantes quanto Francisco Seixas da Costa e Jaime Nogueira Pinto. As novas gerações é que já não foram à tropa...

25 abril 2016

O PRÓXIMO PRESIDENTE AUSTRÍACO

A importância do cargo de presidente da Áustria tem várias semelhanças ao português. Também é eleito por sufrágio universal embora os mandatos sejam de seis anos e não cinco, como em Portugal. Mas, por outro lado, também por lá um presidente também só pode só ser reeleito para mais um mandato consecutivo. Uma análise comparativa do âmbito das funções presidenciais num país e noutro levar-nos-ia demasiado longe para os propósitos deste poste. A grande diferença será que a história presidencial democrática da Áustria é 30 anos mais antiga que a nossa, pois recomeçou em 1945, depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E logo com algumas tradições surpreendentes: os presidentes que foram sendo sucessivamente eleitos nunca tinham nascido na Áustria propriamente dita e, por outro lado, com tanto azar que morriam todos em funções. Aconteceu isso com Karl Renner, presidente de 1945 a 1950 e que nascera na República Checa, aconteceu com o sucessor Theodor Körner, presidente de 1951 a 1957 e que nascera na Hungria, aconteceu ainda com Adolf Schärf, presidente de 1957 a 1965 e que também nascera na República Checa, e aconteceu finalmente com Franz Jonas, que foi presidente de 1965 a 1974 que, embora sendo vienense, pertencia a uma família originária da Morávia. Foi só com Rudolf Kirschläger, presidente de 1974 a 1986 que se assiste ao fenómeno de um presidente de raízes austríacas e que conseguiu completar o duplo mandato por doze anos até ao fim! O seu sucessor, Kurt Waldheim, eleito em 1986, terá sido o presidente austríaco de maior notoriedade internacional por uma boa e por uma má razão: por ter sido secretário-geral da ONU entre 1972 e 1981 e também por se ter descoberto que mentira sobre a sua participação como oficial da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. O escândalo tê-lo-á forçado a não se apresentar à reeleição em 1992. Nesse ano foi eleito o vienense Thomas Klestil, que teria sido o segundo presidente austríaco a conseguir cumprir os dois mandatos encadeados (1992-2004), não tivesse morrido de ataque cardíaco a dois dias de terminar o mandato! O sucessor é o actual presidente, Heinz Fischer, que, depois de reeleito em 2010 e, se tudo correr bem que a profissão parece ser de alto risco, se apresta para terminar o seu segundo mandato no próximo dia 8 de Julho. Já se realizou o primeiro turno das eleições para o substituir. E o candidato mais votado nessas eleições foi o senhor da fotografia acima, Norbert Hofer, apoiado pelo FPÖ, o partido da extrema-direita austríaca. Recebeu 35% dos votos e apresenta-se bastante bem colocado para ganhar as eleições. Pelo menos, mais bem colocado na primeira volta que um outro austríaco famoso que, nas únicas eleições presidências que disputou em 1932, só obteve 30% dos votos. Mas o mais interessante será seguir que género de cobertura a comunicação social europeia irá dar a estas eleições. A causa para a subida eleitoral destas formações xenófobas será a mesma, mas estou preparadíssimo para ouvir explicações imaginativas por que os partidos da direita nacionalista são perigosos na Hungria ou na Polónia, mas na Áustria não...

25 de ABRIL de 1976 - AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS

Perdidas entre as diversas efemérides que se comemoram na mesma data, há precisamente 40 anos tiveram lugar as primeiras eleições para a Assembleia da República, as segundas eleições gerais a ter lugar em liberdade em Portugal. Tendo já como referência as que haviam tido lugar precisamente um ano antes para a eleição da Assembleia Constituinte, os resultados não alteraram substancialmente o quadro político da vontade popular que havia ficado desenhado - e que havia sido desdenhado pelas vanguardas militares do PREC. O partido mais votado continuou a ser o Partido Socialista (PS) com 35% dos votos, seguido do mesmo Partido Popular Democrático (PPD) com 24%. Todavia, os dois partidos dos extremos do espectro partidário mais do que duplicaram a sua votação de um acto para outro: a UDP passou de 45 para 92 mil votos, começando a agregar o dispersíssimo voto dos grupúsculos de extrema esquerda e, mais significativo, o CDS passou de 435 mil para 876 mil votos, ao fazer uma campanha em que se apresentava como a Alternativa 76 (cartazes acima), dissociando-se do discurso hegemónico predominante do socialismo. Não se sabia então, mas nunca mais o CDS conseguiria repetir nos quarenta anos que se seguiriam os resultados eleitorais alcançados nesse dia, a evidenciarem um país rural, interior e conservador (assinalado abaixo a azul) que constituiria o contraste directo com o então muito mais promovido Alentejo comunista (a vermelho). Nas urnas, ao ultrapassar a votação do PCP, os azuis mostraram que valiam eleitoralmente mais do que os vermelhos.

24 abril 2016

PELO CENTENÁRIO DA REVOLTA DA PÁSCOA EM DUBLIN, NA IRLANDA

Em 1916 a Páscoa calhou a 23 de Abril. Estava-se em plena Grande Guerra. A relação da Irlanda com o resto do Reino Unido continuava a ser um assunto delicadíssimo. Depois de décadas de confrontação política e de um processo moroso e complicadíssimo (1911-14), viera a ser concedida finalmente autonomia à Irlanda (conhecida por Home Rule) mas apenas para a ver suspensa por causa da eclosão da Guerra em Setembro de 1914. A frustração acabou por se revelar um estopim para que o nacionalismo irlandês se expressasse de formas cada vez mais radicais. A Revolta armada veio a ter lugar ao meio-dia de 24 de Abril de 1916, a Segunda-Feira que se seguiu à Páscoa. Participaram nela cerca de 2.000 homens e o principal objectivo dos revoltosos era controlarem militarmente Dublin, a capital irlandesa. Contavam com a fraqueza do dispositivo militar e policial dos britânicos, sugado por vinte meses de desgaste nas várias frentes de combate da Grande Guerra.
Conseguiram o seu objectivo, pelo menos numa grande maioria da cidade. O Quartel-General dos Revoltosos passou a ser o edifício central dos Correios de Dublin. A esmagadora maioria da população dublinesa manteve-se indiferente. De uma certa forma, tratava-se de uma revolução no mesmo género daquela que havia ocorrido em Lisboa a 5 de Outubro de 1910 - fora o telégrafo a anunciar ao país a mudança de regime. Só que na Irlanda havia uma grande diferença: os derrotados britânicos possuíam não apenas tropas fieis no resto da ilha, sobretudo no Ulster, mas também possuíam infindáveis reservas à distância de 100 km, do outro lado do Mar da Irlanda. Por isso, ou se contava com a desistência dos britânicos perante o facto consumado ou, sem ela e perante um confronto simétrico com o exército britânico, a Revolta dos civis armados irlandeses tornar-se-ia numa estupidez sangrenta, o que veio realmente a acontecer.
O resto da sua história é previsível, que a bravura pessoal dos conjurados é irrelevante nestas circunstâncias - o que conta é o poder de fogo. Cinco dias depois, a 29 de Abril, os revoltosos estavam confinados ao edifício central dos Correios, submetido a um intenso bombardeamento de artilharia. As forças lealistas montavam a 16.000 homens. Os líderes da Revolta renderam-se sem condições. Uma apreciável maioria das baixas foram civis e a maioria delas foram causadas pela artilharia dos britânicos, que foi empregue destrutivamente na cidade para desalojar os rebeldes. Isso, conjugado com as sanções severíssimas aplicadas aos rebeldes - 3.500 detenções, 190 julgamentos em tribunal marcial, 90 condenações à morte, 15 efectivamente executadas - criaram a alienação completa da esmagadora maioria da opinião pública irlandesa. No último momento e nesse aspecto, a Revolta acabou por se vir a revelar uma vitória irlandesa.

COMO É QUE É MESMO A NOTÍCIA?

Há notícias que se percebem, o que não se percebe foi o que passou pela cabeça dos seus autores para lhes dar os títulos que deram. O título deveria ser sempre uma síntese do conteúdo do corpo do artigo embora no jornalismo essa regra tenda cada vez mais a ser subvertida para que aquele desperte a atenção e o interesse do leitor. Agora o que passou pela cabeça dos autores do artigo acima para chamarem a nossa atenção escrevendo que Portugal é o mais expansionista do euro? É para logo a seguir o desmentirem no subtítulo, quando esclarecem que este ano (2016) Portugal é afinal batido pela Áustria, Estónia e Alemanha? Mas então, se este ano Portugal já foi batido por esses três países e o período em análise é o biénio 2015-2016, a verdadeira notícia não deveria ser que Portugal foi o mais expansionista do euro (e por grande distância), mas em 2015? E em 2015, o executivo responsável pelo impulso orçamental português não terá sido o do PSD/CDS? E aí, não é lídimo especular se a razão para isso terão sido a realização das eleições em Outubro? Então, qual é que é mesmo a notícia? O do Portugal do biénio, o do Portugal de 2016 ou o de Portugal de 2015? E qual é mesmo a intenção ao dar-lhe aquele título?

OS CRAVOS NÃO TÊM DONO

Quanto mais o tempo passa, mais o que aconteceu se esvanece e mitifica e mais importante se torna recordar o que é essencial, que o 25 de Abril se fez por todos e para todos os portugueses, mesmo para a liberdade daqueles que preferem não o celebrar, em suma, que os cravos não têm dono. Abaixo, recorda-se uma notícia publicada pelo Diário Popular em 19 de Maio de 1975 a pedido de José Afonso, mostrando como os ídolos (também) tiveram pés de barro e por que terá sido preciso, mesmo indispensável, um 25 de Novembro de 1975. Tanto houve (e continua a haver) os que não queriam andar de cravo ao peito como houve (e não os continuará a haver?) os que queriam selecionar quem poderia cantar o «Grândola, Vila Morena».
«Tendo lido nos jornais diários a notícia de que, no decurso de um comício - piquenique, promovido no passado dia 11, pelo P.P.D., teria sido cantada em coro a canção «Grândola, Vila Morena», venho por este modo reafirmar que, muito embora considere a canção desvinculada de qualquer ideia de autoria, a fiz em tempos (há cerca de 12 anos) fora de imaginar qualquer abusiva apropriação cantante por parte de grupos ligados ao capital deste ou de qualquer outro país.
Considero pois abuso ou despudor, dadas as características populares com que no início da sua história como canção, foi «utilizada» em ambientes e situações de luta, que os mesmos indivíduos que designam para os representar à Assembleia Nacional Constituinte defensores da censura fascista e continuadores da ordem colonial, se sirvam dela para lançar poeira aos olhos dos incautos.
Tomo ainda a liberdade de lembrar o significado dos factos que recentemente se verificaram em Setúbal, dos quais fui parcialmente testemunha, onde comprovadamente se mostrou inequívoco o papel repressivo que o P.P.D. adoptou contra as massas populares, de que resultaram ferimentos em 20 pessoas (9 baleadas) e a morte do jovem João Manuel».
Lisboa, 14 de Maio de 1975,
Respeitosamente, José Afonso

23 abril 2016

ENTÃO NÃO ERA PORREIRO, PÁ, PORREIRO?!

«...veja onde é que nós chegámos. Onde é que a Europa chegou. Todos os acordos, todos os tratados que assinámos a partir daí, e o tratado orçamental e a união bancária levou a isto, a que tenhamos colocado nas mãos do banco central europeu, uma entidade não eleita, não apenas a regulação, não apenas a política monetária mas até isto: a política externa de um país. Porque o que é que está a dizer o banco central europeu quando diz a um banco como o BPI, olhe os senhores não podem ter uma exposição a partir de um determinado... valor em Angola. Está a dizer que um país não pode promover uma política externa, uma política económica com um determinado país porque a exposição de um banco a uma determinada economia é prejudicial.»

Na última entrevista que deu à Antena 1, José Sócrates faz o comentário que acima se transcreve (pode ouvi-lo aqui, a partir do minuto 13:00). Lamenta a forma como perdemos totalmente a autonomia de decisão. Subscrevo o seu lamento. Só que não me lembro em que circunstâncias José Sócrates terá feito tal inflexão de opinião sobre os benefícios e os perigos da construção europeia, desde o momento em Outubro de 2007 que recordamos, em que o vemos exuberante a felicitar-nos e a felicitar-se pelo Tratado de Lisboa mais o famoso Porreiro, pá, porreiro! trocado com Durão Barroso, assim como o cumprimento (não) dado a Luís Amado, seguido e substituído pelas imensas mesuras a todo o who's who europeu de então - o beijinho à Merkel não podia faltar... Querem ver que ele agora nos quer convencer que o progressivo estrangulamento da nossa autonomia de decisão pelos alemães por interpostas entidades comunitárias só começou depois de ele ter abandonado o poder em 2011? Podia ter sido contrariado, mas estas imagens mostram-nos que foi alegremente, com uma análise de curto prazo e exclusivamente centrada na sua pessoa, que Sócrates também contribuiu para o atoleiro em que estamos metidos. E, deixe-me que vos digaaaaa, com toda a sinceridaaade, o resto é uma grande treta.

22 abril 2016

AGORA A TROCA DA FOTO DE JEROEN DIJSSELBLOEM, MINISTRO DAS FINANÇAS HOLANDÊS

Se até os holandeses que estavam incumbidos disso não sabem identificar o ministro das Finanças português, em contrapartida há muitos portugueses que, não tendo obrigação alguma disso, conseguem identificar bem demais o ministro das Finanças holandês. Tanto que me imaginei a retribuir a cortesia agora praticada e ilustrar a ficha do governante holandês - com fotografias criadas "para facilitar a identificação dos ministros antes da reunião do Eurogrupo" - apenas pela foto de um boneco. Reconhece-se logo, basta colocá-lo juntinho ao seu homólogo alemão.
Ou então, com uma montagem feita por outros que têm muito mais competências do que eu para o Photoshop:

PRESIDÊNCIA HOLANDESA DA UNIÃO EUROPEIA TROCA FOTO DE CENTENO PELA DE JOSÉ GOMES FERREIRA

Se, como dizia o fado, Coimbra tem mais encanto na hora da despedida, estas gaffes também têm muito mais piada porque a Europa está pela hora da morte na ignorância demonstrada por cada país em relação aos seus parceiros. Mas também tem piada porque se instalou esta promiscuidade confusa entre quem informa, quem comenta, quem decide e quem usa os dois primeiros para pressionar os últimos. E, valha-lhe a imodéstia (abaixo), porque assim vale a pena repegar o episódio e continuar a zombar de José Gomes Ferreira lembrando que quase de certeza ele não se ficará por aqui e não perderá as esperanças de um dia destes ser confundido numa outra publicação com António Costa...

LÁ VEM O JOÃO BRANDÃO...

Alguém ma lembrou ontem e eu aqui republico a cena, que estas personagens são tão típicas de uma certa forma de discutir em português que não merecem ser esquecidas, são de uma qualidade tal que merecem a reposição.

Orador - ...eu na primeira hora disse ao senhor Brandão: Senhor Brandão, se algum problema houver com o advogado, o meu amigo está credenciado, está mandatado, para recorrer a qualquer advogado para o defender. É verdade ou mentira, Brandão?
Brandão (fora da imagem): - É mentira.
Orador - É verdade! Tu és aldrabão!

21 abril 2016

OS NUS E OS MORTOS

O facebook acabou de me informar que haviam apagado um dos meus postes porque continha um nu. Um daqueles absurdos: o nu tem por modelo Rudolf Nureyev e foi fotografado há 55 anos por (um pornógrafo como) Richard Avedon - mas continua a ser um nu e isso incomodará a ponto de o censurar. Ou isso do nu não incomoda nada, mas será então o tamanho do badalo de Rudolf Nureyev que incomodará... Uma dessas, pouco interessa. Não se pode exibir no facebook. Perguntaram-me se ficara muito chateado. Não. Mas não me peçam para elaborar sobre o que possa pensar de quem produziu tão sábia decisão. O episódio de censura - não tem outro nome - foi ocasião para me lembrar de uma passagem de Apocalypse Now e de uma citação do Coronel Kurtz:

"We train young men to drop fire on people but their commanders won't allow them to write FUCK on their aeroplanes because... it's obscene."

Nestes episódios surge irremediavelmente a pergunta, tão pertinente quanto impertinente, o que será afinal a obscenidade: o objecto da sanção ou a sanção propriamente dita?

AS CONDECORAÇÕES DE MARCELO E AS MENSAGENS - A PROPÓSITO DE CONDECORAÇÕES - DE MARCELO

Nada melhor do que confrontar as notícias emanadas de Belém com os factos para nos assegurarmos das contradições, de quais são as intenções de Marcelo e a quem se destinam os seus recados - a Passos Coelho, talvez também ao resto do elenco do governo cessante. Porque, se o propósito fosse mesmo o de tornar mais selectivas as condecorações daqui para o futuro, então Marcelo nunca deveria ter condecorado o seu antecessor Cavaco Silva com o Grande Colar da Ordem da Liberdade. A não ser que se entenda por "feito excepcional" o de ter terminado este seu segundo mandato com uma popularidade como nenhum presidente antes dele.

A ASTROFÍSICA DO QUE SE PUBLICA NAS REDES SOCIAIS

De acordo com o estabelecido pela Teoria da Relatividade de Einstein, o aumento da densidade da matéria encurva progressivamente o espaço-tempo que lhe está adjacente. Mas se no Universo, aquilo que se concebe de mais denso é um buraco negro, deformação de onde nem a luz consegue sair, no universo paralelo das redes sociais, pode haver deformações muito mais densas que essas, textos com 500 e muito mais palavras, excessos de densidade para quem já se habitou à síntese intelectual do twitting.

MATT DAMON COMO JASON BOURNE


Sendo uma alienação e sabendo-se que o é, é uma daquelas em que eu me deixo arrastar com muito gosto. Para comparação com outro exemplo clássico, é como aquela fase inicial em que Sean Connery foi James Bond. Depois a personagem franchisou-se. Esta ainda não.

BILHETE POSTAL PRÉ IMPRESSO: O «SKYPE» DE HÁ CEM ANOS

Se há cinquenta anos a forma consagrada para os soldados destacados se corresponderem para casa eram os aerogramas, cinquenta anos antes disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o instrumento mais comummente posto à disposição dos soldados eram estes bilhetes postais com as novidades pré impressas que a alfabetização era mais gabada que efectiva. Este bilhete-postal, distribuído às tropas do Império Austro-Húngaro nesses anos, contém a curiosidade adicional de estar escrito em várias línguas, dado o carácter multinacional daquele império. Nove idiomas, para ser exacto, e a ordem como elas estão dispostas no bilhete corresponderá, não por acaso, à hierarquia da sua importância no xadrez político e não ao seu peso demográfico: alemão, húngaro, checo, polaco, ucraniano, italiano, esloveno, croata e romeno. Mesmo sem se ser um poliglota compreende-se que o conteúdo da mensagem em qualquer dos idiomas é monotonamente apaziguador: estou bem e de boa saúde. Com uma pitada de humor poder-se-ia acrescentar: E se me acontecer qualquer coisa vão receber outro postal pré-impresso, mas com uns dizeres diferentes...

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO... MAS NÃO AO VIVO NEM DE MUITO PERTO

É bom que de quando em vez se refresque esta sensação do quanto o Mundo está dominado pela imagem. Numa dessas não notícias que a superficialidade se encarrega de propagar, corre Mundo que a revista norte-americana People elegeu este ano Jennifer Aniston como a mulher mais bonita do Mundo. Ora das curiosidades deste mundo que eu fixei, é que Jennifer Aniston é uma presença recorrente numa outra lista, menos simpática, a dos actores e actrizes de que os colegas de profissão se queixam do mau hálito. Surpreendi-me a concluir num trocadilho que se tratará de um caso em que até se pode dizer que Jennifer Aniston é uma estampa, mas haverá toda a conveniência que ela permaneça estampada.
Jennifer Aniston terá sucedido a Sandra Bullock e não deixa de ser engraçado comparar como estas listas das mulheres mais bonitas do Mundo costumam ser compostas quase exclusivamente por norte-americanas enquanto para contraste os seus compatriotas em geral continuam misteriosamente ausentes das listas dos Panamá Papers... Até Bill Gates está surpreendido.

20 abril 2016

O DESERTOR SOBREDOTADO

Se a defecção para o Ocidente de qualquer expoente da cultura soviética se tornava normalmente um acontecimento maior no quadro da guerra-fria, a do bailarino Rudolf Nureyev (1938-1993), que teve lugar em 16 de Junho de 1961 em Paris foi-o ainda mais. Para além dos pormenores rocambolescos de quem se decide a desistir de embarcar de volta a Moscovo no próprio aeroporto, o desertor assim tornado ainda mais famoso, não passou muito tempo incorporando eventuais culpas por aquele gesto, pois no mês seguinte adquiria ainda mais notoriedade mundial, se possível, ao chocar tanto o Leste donde fugira, quando o Ocidente que o acolhera, com a publicação desta fotografia, tornada famosa, onde aparece nu, da autoria do fotógrafo Richard Avedon. Descobria-se com ela, e especialmente para as almas menos sensíveis às questões culturais, mas mesmo assim sempre interessadas nas rivalidades Leste-Oeste, que o Ocidente ganhara alguém que era dotado, senão mesmo sobredotado, e não apenas para a dança... Em contrapartida, para a enorme legião das suas admiradoras, terá sido um desapontamento confirmarem-se simultaneamente os rumores que Nureyev era homossexual. Virá aliás a morrer de complicações geradas pela SIDA ainda contava 54 anos.

VITORIA. ABAIXO O FACISMO (sic). 48 ANOS DE TERROR

...não esqueço o levantamento popular que consolidou a revolução.

Lido há dias por aí, nas redes sociais, a propósito de mais uma controvérsia envolvendo militares e no seguimento à evocação da sua contribuição para o 25 de Abril. Pelos vistos, os 42 anos transcorridos levaram à escrita (para alguns) de um novo enredo da Revolução. Nesse outro país, terá ocorrido um levantamento popular que consolidou a revolução. Os militares foram um estopim e um acessório. No fundo, teriam sido dispensáveis. Pena (digo eu) que não tivesse sido ao contrário: começava por se fazer o levantamento popular que o governo de Marcello Caetano, só com a vergonha, teria caído logo ali, e o regime com ele. Se preciso fosse consolidar a revolução popular, aí é que se iriam incomodar os soldados lá em Santarém, em Estremoz, para virem para Lisboa. Já nem teria sido preciso que os soldados estivessem sempre, sempre, ao lado do povo. Estariam atrás do povo...

Recorramos então a uma fotografia de rua daquele dia 25 de Abril de 1974 para o mostrar, a esse tal levantamento consolidante. Como acontecerá certamente com este senhor que acima empunha orgulhoso um jornal onde escreveu VITORIA e ABAIXO O FACISMO. Decididamente ele já terá identificado vencedores e vencidos da jornada mas, porque apenas terá apanhado de ouvido a designação do regime derrubado, ainda não o sabe escrever lá muito bem... Daí por poucos dias, com a luta mais organizada, os cartazes empunhados melhoraram em todos os sentidos: gramaticalmente, ideologicamente e os próprios materiais de que eram feitos. O fascismo (agora bem escrito) era explicado às massas populares: haviam sido 48 ANOS DE TERROR. Para a lenda, andávamos todos aterrorizados...com o facismo.

19 abril 2016

SE CALHAR, O TIRIRICA PODE ESTAR ERRADO E FICA PIOR DO QUE ESTÁ, MAS A DEMOCRACIA É ISSO MESMO

A grande conclusão que se poderá extrair das reacções que tenho lido nas redes sociais à votação da câmara de deputados brasileira é que um sancionamento, como o que ali se decidiu contra Dilma Rousseff, só se torna genuinamente democrático quando concordamos com ele. Quando se discorda do resultado da votação, trata-se de um golpe, desprovido de qualquer legitimidade. O que torna o episódio mais engraçado é que assisti a esta mesma ideia há uns cinco meses atrás, quando o programa de governo do XX Governo Constitucional foi rejeitado na Assembleia da República em Portugal. Recorde-se a velocidade como começou a circular a despeitada expressão geringonça e as reviravoltas irónicas que ela sofreu de então para cá. A grande diferença é que os protagonistas das reacções ultrajadas desses dias eram completamente distintos dos que agora se manifestam. Mas a atitude é a mesma, futebolística, as desculpas que se arranjam quando se perde um jogo e se procura culpar a arbitragem, quando o resultado afinal foi limpo por muito que nos desagrade.

A encabeçar as desculpas dos dias que correm, a falta de dignidade dos trabalhos da Câmara de Deputados brasileira, que é tradicional. Pegar no assunto como se ele servisse de hipotética justificação para desvalorizar o que ali foi decidido é um expediente que combina má-fé com o que parece ser uma boa dose de ignorância e falta de verticalidade democrática. Em primeiro lugar (má-fé), porque o que foi decidido, foi-o por uma maioria qualificada e ampla (367 votos contra 146, mais de 70% dos deputados). Em segundo lugar (ignorância), porque os casos dos deputados mais castiços, tão evocados para desqualificar a composição da câmara são antigos, quando não antiquíssimos: o deputado Jair Bolsonaro, famoso pelo seu reaccionarismo desculpabilizador do regime militar de 1964, ocupa o seu lugar pelo Rio de Janeiro há já 25 anos(!); também o deputado Tiririca de Sâo Paulo, que se notabilizou pela indigência do seu slogan que o elegeu em 2010 (pior do que está, não fica), não foi um epifenómeno, já que foi entretanto reeleito em 2014 (com mais de um milhão de votos). Vir evocá-los agora é um completo despropósito. Em terceiro lugar (falta de verticalidade democrática), há que lembrar que as eleições que elegeram estas pretensas bizarrias - normalmente com centenas de milhares de votos! - foram disputadas com muito mais liberdade, transparência e, por isso, legitimidade, do que parlamentares brilhantes ou menos, eleitos em muitas eleições do passado - caso de Sá Carneiro da Ala Liberal da Assembleia Nacional portuguesa eleita em 1969 ou um qualquer deputado da Volkskammer (Câmara do Povo) da República (dita) Democrática Alemã entre 1949 e 1989.

Detecta-se algo de estranhamente ingénuo no teor de muitas das reacções desagradadas ao resultado da votação da Câmara de Deputados brasileira. Parecem-me assentar na presunção maniqueísta que, no Brasil, é a esquerda e só ela que deseja o melhoramento das condições de vida do povo enquanto que a direita não. Quando o consegue - como aconteceu durante as presidências de Lula - o povo tem que lhe ficar agradecido e continuar a votar à esquerda mesmo que os ciclos da economia se mostrem adversos como agora acontece. Ora em Democracia o povo não possui essa gratidão, não quer ter memória, nem tem esses pruridos morais: se assim não fosse, por exemplo, Churchill deveria ter ganho as eleições britânicas em 1945 logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E perdeu-as... para a esquerda trabalhista.

A CARICATURA QUE PRECEDEU A NOTORIEDADE DO CARICATURADO


Quando Rowan Atkinson participou neste sketch onde parodia num discurso* o estilo pedante dos jovens conservadores britânicos ambiciosos, o regresso dos tories ao poder no Reino Unido com Margaret Thatcher como primeira-ministra era extremamente recente. O slogan que se lê no púlpito - Realism and Responsability - foi aliás o verdadeiro slogan da Conferência anual do partido conservador que se realizou em Outubro de 1979 em Blackpool (veja-se foto abaixo), uns escassos cinco meses depois das eleições que haviam provocado aquele regresso ao poder do partido conservador. As reacções e os aplausos do público parecem-me também ser montagens das reacções genuínas dos militantes presentes nessa Conferência. Entre eles reconhece-se o antigo primeiro-ministro (e Némesis de Thatcher) Edward Heath e (outro futuro rival dela) Michael Heseltine.
Mas o génio das grandes caricaturas (e esta será uma daquelas caricaturas mais desapercebidas e menos valorizadas de Atkinson) é a sua intemporalidade. Ouça-se o discurso da personagem de Atkinson, na sua contenção fleumática, na sua preocupação formal para que aquilo que diz pareça o mais razoável possível (embora os seus preconceitos de classe estejam flagrantemente mal disfarçados para benefício da comicidade da cena) e não posso evitar comparar o estilo (e o resto...) ao que se virá a reconhecer ao longo de anos de prestações televisivas a António Lobo Xavier, um António Lobo Xavier que, por aqueles anos de 1979, ainda se passearia incógnito pelas aulas da faculdade. Mas onde um presciente e genial Rowan Atkinson, sem sequer o(s) conhecer, já lhe(s) topara a pinta toda... como a outros, de resto. Habilidade a de Lobo Xavier que o estilo por cá não seja assim tão conhecido... e gozado.
* Our right honourable leader… and Denis. My, lords, ladies, fellow party workers, I am a golfer! [aplausos] But I am also a Conservative and the Conservatives are back in power! What a wonderful word! But with a new initiative and most of all, a new style. And we are mostly concerned with two main issues. Firstly, immigration. Now, people really do get this party wrong on this issue every time, don't they? We don't think immigrants are animals, for god's sake! I know a lot of immigrants personally and they're perfectly nice people. They're black, of course, which is a shame. But honestly, some of them can do some jobs almost as well as white people... and we aknowledge this. Now, a lot of immigrants are Indians and Pakistanis for instance, and... I like curry, I do! But now that we've got the recipe, is there really any need for them to stay? Conservatives understand these problems, you see. Like we understand young criminals, another very emotive issue. This party feels that we've been just a little too soft on these... bastards. Mr. Whitelaw has spoken of the short sharp shock treatment, and his introduction of the 24,000V electric chair to Home Office detention centres begins next week... on a purely experimental basis, or course. If it doesn't work? Then of course we will be more than prepared to revert to old liberal wishy-washy socialist nigger-loving red left-wing homosexual commie ways of the recent past. But please, let's have a chance! It may be a tough road, we know, but don't forget, it is easier for a rich man to pass through the eye of a needle than it is for a camel to[pausa] ...than it is, for a camel to.