15 dezembro 2009

KRASNAYA ZVEZDA (Estrela Vermelha)

O António Teixeira não nos quer deixar brilhar, é o que é. Atendendo a que estamos na época em que até às árvores é concedido que gerem estrelas e outras fantasias brilhantes…
Trecho de um Comentário ao Poste Anterior

Para me penitenciar, há que deixar a oportunidade de brilhar a um dos mais simpáticos comentadores deste blogue. E, já que o brilho é importante e no texto se remete para estrelas e outras fantasias brilhantes, então que o assunto seja redigido sob a égide religiosa da Estrela Vermelha, com a história de alguém que primeiro a defendeu para depois a abjurar, sofrendo o destino dos apóstatas e traidores… Que é que nos poderá dizer neste caso complexo, alguém que mantendo a religião, deixou de ir à missa?...
Existindo a (falsa) ideia que os grandes chefes militares se identificam facilmente pelo seu evidente porte marcial, as fotografias desses chefes são, muito frequentemente, um enorme desapontamento. O senhor da fotografia acima chama-se Andrei Andreyevich Vlasov e bem poderia passar por um teólogo da Igreja Ortodoxa Russa. A verdade é que esteve quase a sê-lo, não fossem as duas Revoluções de 1917. Nascido em 1900, o mais novo de 13 irmãos, os acontecimentos de Petrogrado apanharam-no a frequentar o seminário de Níjni Novgorod e não acabou os estudos. Na Primavera de 1919, a vida do jovem Vlasov recebeu a inflexão definitiva quando foi incorporado no Exército Vermelho.
Combinando uma formação académica superior à da grande maioria dos outros recrutas com um bom desempenho prático no terreno, aos 20 anos Vlasov já desempenhava as funções equivalentes às de capitão(*) e era um veterano da Guerra Civil, tendo estado presente nas frentes do Don, da Crimeia e da Ucrânia. No final da Guerra (1923), e com a desmobilização do Exército Vermelho, Andrei Vlasov, como muitos outros oficiais promissores da sua geração, preferiu continuar a sua carreira militar, a única actividade que conhecera. Em 1930 tornou-se membro do Partido Comunista. Nem muito cedo, nem muito tarde: na ocasião certa se quisesse que a carreira continuasse a progredir.
No entanto, Vlasov devia ser considerado suficientemente sólido politicamente para ter escapado às Grandes Purgas (1937-38) e até para ser destacado para missões no exterior: em 1938-39 esteve na China como membro do staff soviético ali destacado em auxílio ao Exército Nacional Revolucionário do Kuomintang. Quando regressou da China em 1939, Vlasov era considerado entre os purgadíssimos quadros superiores do Exército Vermelho um dos melhores especialistas em instrução, que conseguia transformar as unidades mais medíocres em unidades de excepcional valor combativo. Pelo que fizera com a 99ª Divisão de Infantaria, Vlasov recebeu em 1940 a Ordem de Lenine.
Mas foi a partir de Junho de 1941, nas circunstâncias adversas da retirada soviética perante a invasão alemã que a competência de Vlasov se começou a destacar ainda mais. Por duas vezes, em Lvov e em Kiev, as unidades de Vlasov conseguiram furar o cerco que os alemães haviam montado. Seis meses depois, vemo-lo reaparecer à frente de uma das unidades (20º Exército) encarregadas da crucial defesa de Moscovo, de onde sai ainda mais prestigiado, promovido e condecorado. Mais, para efeitos da propaganda soviética no exterior, Vlasov, filho de camponeses pobres, era um activo a não desperdiçar e em 1942, já ele era excepcionalmente autorizado a dar entrevistas à imprensa americana…
Suponho que serão as consequências do que aconteceu depois que impedem que haja análises objectivas sobre as responsabilidades que levaram a que o próximo comando de Andrei Vlasov (2º Exército de Choque, como se percebe pela designação, uma unidade de elite) tenha vindo a ficar cercado na sua ofensiva da Primavera de 1942 para reabrir as ligações com a Leninegrado cercada. Dessa vez no Volkov, as tropas de Vlasov não conseguiram furar o cerco e o próprio general acabou capturado, escondido numa quinta, em 11 de Julho de 1942. O prisioneiro nº 16 901, Tenente-General Andrei Andreyevich Vlasov ia tornar-se num incómodo político tanto para soviéticos como para alemães…
Em qualquer guerra, os oficiais generais que foram capturados pelo inimigo são sempre um embaraço. Esse embaraço poderá aumentar no caso deles se decidirem a produzir declarações públicas criticando o seu poder político. Foi o que aconteceu aos alemães quando o Marechal Paulus, capturado em Estalinegrado, se juntou ao Comité Nacional para uma Alemanha Livre (NKFD), criticando a repressão desencadeada por Hitler depois do atentado de 20 de Julho de 1944. Mas, se as declarações do General Vlasov, desse mesmo teor mas em relação a Estaline eram de molde a embaraçar o regime que o levara ao estrelato, as suas intenções eram de molde a incomodar o dos seus captores.
Em síntese, Vlasov pretendia criar um movimento de libertação nacional, depois baptizado de Comité para a Libertação dos Povos da Rússia (KONR), apoiado num exército (Exército de Libertação da Rússia - ROA) que seria recrutado entre os milhões de prisioneiros soviéticos que a Alemanha fizera no início da Guerra. Além de arriscada e de uma moralidade mais do que duvidosa, a jogada política de Andrei Vlasov era de uma ingenuidade enorme. Hitler e o topo da hierarquia alemã nunca pensaram nele como um possível parceiro político de um eventual satélite russo, apenas pretenderam usá-lo para fomentar o recrutamento de prisioneiros por causa do seu prestígio.
Apesar de terem usado muitas centenas de milhares de soldados e auxiliares de origem soviética nas suas formações, foi só em Janeiro de 1945 – a 3 meses do fim da Guerra, portanto – que os alemães autorizaram que fossem formadas 2 divisões do tal exército proposto por Vlasov para a libertação da Rússia. Nessa altura, já as frentes de combate do Leste haviam saído da Rússia e o destino da Segunda Guerra Mundial não era difícil de adivinhar… Aquilo que aconteceria aos voluntários do exército do General Vlasov também não… Até aos últimos dias dos combates, nos princípios de Maio de 1945, eles procuraram desesperadamente render-se apenas aos exércitos ocidentais que vinham de Oeste…
Mas em Maio de 1945 a Guerra-Fria ainda não havia começado e havia até um regime de boa colaboração entre os exércitos vencedores. Estaline exigira-o em Yalta e os seus dois aliados não viam razão para o negar: todos os cidadãos soviéticos aprisionados a lutar pelos alemães deveriam ser entregues à União Soviética para aí serem julgados. Assim terá acontecido com Vlasov. Inicialmente concebera-se para ele um julgamento dos espectaculares, com confissões, à boa maneira daqueles dos anos 30. Mas não foi assim. Nas transcrições pode ainda ler-se que Vlasov confessou que a explicação para o seu comportamento fora a cobardia… Quanto à sentença, é o terceiro a contar da esquerda na fotografia abaixo…
(*) Para se conformar à ideologia comunista, o Exército Vermelho não usava patentes. Viria a estabelecê-las em meados dos anos 30.

14 dezembro 2009

ATENTADOS...

Em 1812, pela primeira (e até agora, única) vez, o primeiro-ministro britânico, Spencer Perceval, foi assassinado em pleno parlamento (abaixo). O assassino foi um antigo empregado de escritório a quem o Governo britânico recusara uma indemnização por ter sido injustamente encarcerado na Rússia… Este caso poderá ter sido o primeiro de uma extensa lista de atentados e assassinatos contra dirigentes políticos que tiveram lugar durante os Séculos XIX e XX e para os quais, por falta de motivação política óbvia, se optou por questionar a sanidade mental do autor.
Essa simplicidade de atribuir à insanidade tudo o que não fosse político ainda se mantêm – como no caso corrente de Sílvio Berlusconi – mas, conquanto verdadeira nalguns casos, veio a tornar-se excessiva. Veja-se, por exemplo, que de entre os quatro presidentes norte-americanos que foram assassinados, só num caso o autor teria uma motivação política clara (Abraham Lincoln), noutro essa motivação seria abstracta (anarquista, William McKinley), e nos outros dois casos tratar-se-ia de casos de insanidade dos autores (James Garfield e John F. Kennedy - abaixo).
Os anos dos assassinatos de Lincoln (1865) e Kennedy (1963) poderão servir de referências para marcar o início e o fim do Século de Ouro deste tipo de atentados. De memória, e para além dos presidentes norte-americanos, mencionando apenas atentados que tivessem sido bem sucedidos e contra chefes de Estado, houve o do tsar da Rússia (1881), da imperatriz da Áustria (1898), dos reis de Portugal (1908), da Grécia (1913) e da Jugoslávia (1934) e o do presidente da Polónia (1922). Tornou-se imperativo a existência de serviços que assegurassem a segurança pessoal dos visados...
O que nos trás até a um tema da actualidade – o da agressão a Sílvio Berlusconi – atribuído a um desequilibrado mental (mais um…), que terá usado uma replica metálica da catedral de Milão. Ora, olhando para o o objecto e para o estado lastimável da cara de Berlusconi (abaixo) percebe-se que o agressor: a) ou tomou balanço e teve muita pontaria ou b) teve oportunidade de arrear várias vezes no agredido… Antes de estabelecer as implicações políticas em relação ao atentado, creio que se impõe uma pergunta técnica: por onde é que andavam os membros da segurança pessoal de Sílvio Berlusconi?...

13 dezembro 2009

A ALVORADA DOS DESPERTADORES


Para os mais apressados que se aprestem a indignar-se porque o vídeo de cima está sem som, ainda vou a tempo de alertá-los que é mesmo assim, a música apenas começa aos 20 segundos… Para mim, a música Time do álbum Dark Side of the Moon dos Pink Floyd (1973), para ser apreciada devidamente, tem que ser antecedida do devido período silencioso para que haja um contraste com o som dos despertadores.

Há 36 anos atrás, quando andava no Colégio Militar era mesmo um longo silêncio que os antecedia… Lembrando-me de tudo o resto, só me esqueci do nome do Oficial que, quando estava de Oficial de Dia, em paralelo com o toque de alvorada das 07H00, punha a tocar Time no gira-discos enquanto ligava o sistema de som para os altifalantes das camaratas… Era giro, modernaço, mas também muito irritante…

Mesmo passados todos estes anos convém recordar que, mesmo num estabelecimento de ensino militar, criticado (ainda hoje) pela sua severidade, a longa noite fascista também podia ter destes pequenos assomos de crepuscularidade… e constatar a genialidade daquele álbum dos Pink Floyd de que, nem na altura, nem actualmente, deixei de gostar, apesar das experiências traumáticas a que mo associaram…

12 dezembro 2009

O PRÉMIO NOBEL DA PAZ DE 2009

Parece-me que se pretende manter por aí uma grande polémica associada ao Prémio Nobel da Paz atribuído este ano a Barack Obama. Se bem me recordo, o único grande dirigente mundial que conseguiu resolver de imediato a situação de grande tensão que se vivia então à escala mundial mal acabara de chegar ao poder terá sido o Papa Cirilo I em As Sandálias do Pescador. Mas As Sandálias do Pescador é uma obra de ficção… e a narrativa, para que a história tenha um final feliz, até nos poupa os detalhes suplementares de como o processo de paz terá sido implementado… Será que Obama, no mundo a sério, o poderia ter superado?
No mundo real, raramente a Paz se implementa só por decidir distribuir a riqueza acumulada da Igreja Católica para auxiliar os necessitados como anunciou então o Papa Cirilo I. No mundo real, o cinismo pode chegar a que, por vezes, a assinatura de um Tratado de Paz seja apenas uma fase transitória até à obtenção da Vitória final. Para os inúmeros críticos da atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 a Obama (e eu concordo que não foi uma escolha feliz…), recordo outros galardoados, os de 1973, Henry Kissinger (Estados Unidos) e Le Duc Tho (Vietname do Norte), pela assinatura do Tratado que punha fim à Guerra do Vietname…
Para além da controvérsia, hoje esquecida, dois anos depois, em Abril de 1975, em Saigão, então capital do Vietname do Sul (acima), o Vietname do Norte mostrava o entendimento que havia dado ao famoso tratado de paz que fora o pretexto para a atribuição do prémio(*). Enfim, sabe-se que as asneiras do passado não podem desculpar as do presente mas, ao menos, deviam servir para moderar o teor das indignações com que comentam as segundas. Creio que em muitos comentários que fui lendo a respeito da distinção agora atribuída a Obama houve superficialidade a mais, que a Paz e a Guerra e a Paz na Terra não são precisamente a mesma coisa…
(*) Dois membros do Comité demitiram-se, além de Le Duc Tho ter recusado o galardão.

11 dezembro 2009

A FOTOGRAFIA (QUE NÃO É) DA BLITZ

A fotografia acima podia ter sido uma das mais poderosas imagens da Segunda Guerra Mundial não houvesse um pequeno detalhe (que só revelarei no fim…). A fotografia foi feita em Inglaterra e, a acreditar nos apontamentos que a acompanham, a criança foi a única sobrevivente de uma família que vivia numa casa que havia sido destruída num ataque aéreo que tivera lugar muito pouco tempo antes dela ter sido tirada.
O entulho que o rodeia é o que resta da sua casa. A continuar a acreditar na história, de entre os salvados alguém recuperou um boneco empalhado (horroroso, por sinal) que seria dela e que, quando entregue à criança, acaba por lhe conseguir mudar a disposição, conforme se observa pela sequência. A última, a do final feliz, é, do conjunto das três, a fotografia mais conhecida e a favorita da autora, a norte-americana Toni Frissell.
Toni Frissell (1907-88) era uma fotógrafa que se especializara em moda. Em 1941, com a entrada dos Estados Unidos na guerra, ofereceu os seus serviços como voluntária e algumas das suas melhores fotografias datam desse período. Todavia, Toni Frissell parece alguém que mais do que sente o que fotografa e isso será para nós mais evidente numa fotografia sua de 1946 tirada em Portugal e intitulada Fado (abaixo).
Será bonita, mas falta-lhe rigor e alma... Não deixa, por isso, de ser um certo paradoxo que tenha sido a sua câmara a captar, na fotografia inicial, aqueles olhos assustados olhando para cima como que numa interrogação muda das razões para o cenário que os rodeava. Tirada em plena Blitz (1940-41), ainda por cima da autoria de uma americana (abaixo), a fotografia teria arrasado do outro lado do Atlântico como peça de propaganda pró britânica...
Simplesmente a fotografia foi tirada já em 1945… A casa fora destruída num ataque aéreo, sim, mas a bomba vinha instalada na ogiva de um foguetão V-2… Nessa época, para os esforços de propaganda aliada, a maldade dos alemães já era um dado adquirido. Aliás, viria a receber em breve um reforço adicional com as fotografias dos campos de concentração… A fotografia ficou para as evocações da Segunda Guerra Mundial (abaixo, aos 0:32).

10 dezembro 2009

QUATRO CANÇÕES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

É muito possível que, ao longo do blogue, eu já me tenha referido em ocasiões distintas a qualquer uma das quatro canções que inseri neste poste. Creio que se notará facilmente que cada uma delas é de uma origem diferente…

…mas há uns 70 anos atrás (1939-45), todas elas tinham um propósito comum: o de fazer com que os milhões de soldados mobilizados se pudessem abstrair por uns momentos da guerra e tornaram-se num sucesso por o conseguirem.

Isso fazia-se invocando um simples estado de espírito (Numa boa) ou recordando os que tinham ficado na retaguarda (Voltaremos a encontrarmo-nos), uma namorada hipotética (Katyusha) ou mesmos duas (Lili Marlene)!

Mas, mais do que as diferenças dos regimes políticos pelos quais aqueles milhões de soldados se bateram, o que se distingue mais facilmente nestas quatro canções são as diferenças culturais das sociedades de onde provinham.

Uma questão para nos deixar a reflectir... De cima para baixo temos: Lili Marlene (Alemanha), We´ll Meet Again (Reino Unido), Katyusha (União Soviética) e In the Mood (Estados Unidos).

09 dezembro 2009

ANASTÁSIA, O MISTÉRIO QUE SÓ EXISTIU PARA QUEM ESTAVA DECIDIDO QUE ELE EXISTISSE...

Anastásia Nikolaevna Romanova (1901-1918) foi a quarta e penúltima filha do casal formado pelo tsar Nicolau II (1868-1918) e pela princesa Alice de Hesse (1872-1918, rebaptizada Alexandra com o casamento). Pelo lado materno, Anastásia era bisneta da rainha Vitória e assim aparentada com mais de metade das casas reais da Europa. Teria sido o seu destino mais provável o de casar-se com um príncipe de uma dessas casas não fosse a revolução de Fevereiro de 1917 que depôs o seu pai do trono…

Em consequência dessa revolução e da que se seguiu (a de Outubro), Nicolau II deixou de ser um actor para se tornar num peão da luta política na Rússia que degenerou numa guerra civil. Mantidos em cativeiro pelos bolcheviques, Nicolau II e a sua família – incluindo Anastásia (abaixo) – vieram a ser fuzilados em Julho de 1918. E por aqui se teria ficado a infeliz e breve história de Anastácia, não fossem algumas imaginações febris, a necessidade de contar histórias para vender jornais, alguma falta de escrúpulos…
Em Outubro de 1921, num asilo para alienados em Dalldorf, Berlim, uma das cidades da Europa onde se concentrava uma vasta comunidade de emigrados russos, uma das internadas, Maria Peuther, engomadeira de profissão, ao folhear o Berliner Illustrierte Zeitung, cuja capa apresentava uma fotografia com as quatro filhas do tsar e o título Estará viva uma das filhas do tsar? A grã-duquesa Anastásia, escapando ao massacre, estará em Paris?(*), descobre uma enorme semelhança entre a sua vizinha e Anastásia...
E assim nasceu o caso Anastásia que, como se percebe pela notícia do jornal, já existia antes da Anastásia aparecer. O caso fez correr imensa tinta e arrastou-se por décadas, sempre animado pela perspectiva de que aquela Anastásia pudesse ser a sobrevivente do pelotão de execução, apesar da sucessão de provas de que se trataria de uma impostora, que chegou ao ponto de se descobrir a verdadeira identidade da pretensa Anastásia: uma polaca de nacionalidade alemã de nome Franzeska Schanzkowska.
Ultrapassando toda a controvérsia que se prolongou por décadas, creio que vale a pena referir que ainda em 1994 se fez um teste ao DNA da Anastásia berlinense (que falecera em 1984) provando, de uma forma que em termos científicos seria definitiva, por comparação com o DNA de familiares próximos da verdadeira Anastásia, que não havia quaisquer possibilidades dela pertencer à família Romanov. E que em Março de 2009 foi publicado o último relatório confirmando pelo DNA as identidades das campas do tsar e sua família...

E todavia, muito antes de todas essas demonstrações, se olharmos para as duas montagens fotográficas abaixo, que haviam sido feitas logo em 1927, e onde se compara o perfil de Anastásia com o daquela que se queria fazer passar por ela, é evidente que nunca se poderia tratar da mesma pessoa… Mas não há nada a fazer quando a convicção deixa de ser racional e passa a assumir um carácter parecido com o religioso. Será por isso que, depois de tudo, ainda hoje haverá quem considere que o assunto permanece um mistério por resolver
Esta obtusidade, mascarada de preserverança, será sina de algumas coisas vindas da Rússia?...

(*) Paris era, naquela época, a cidade europeia onde se concentrava a maior comunidade de emigrados russos.

08 dezembro 2009

NETWORK

Se há filmes para os quais se tornou moda usar a classificação de sobreavaliados (trata-se de uma tradução literal da expressão inglesa overrated(*)), há outros que este crítico considera underrated (subavaliados): um exemplo é Wag the Dog (Manobras na Casa Branca), de que já aqui falei há uns tempos atrás; outro exemplo é Network (Escândalo na Televisão), que veio até a conquistar 4 Óscares em 1977.
As razões para eles serem assim tão subavaliados será porque ambos questionam (e criticam) com seriedade e substância a televisão em geral e a informação televisiva em particular. Ora como é a própria televisão o meio de difusão dos filmes depois de eles saírem do seu circuito comercial primário (Network data de 1976 e Wag the Dog de 1997) é compreensível que a predilecção das televisões se concentrem em Rocky ou Titanic(**).
Network conta a história de Howard Beale, um apresentador televisivo com problemas pessoais sérios que, quando lhe comunicam que o vão despedir por causa das baixas audiências – um conceito que, na época de estreia não fazia, mas agora faz sentido em Portugal – aproveita um directo para anunciar isso publicamente mas que, antes disso acontecer, se irá suicidar ao vivo em pleno programa. Os espectadores parecem adorar a ideia…
… e as audiências sobem a ponto da direcção lhe conceder um novo programa onde Beale recebe permissão para dizer as maiores bojardas que lhe passarem pela cabeça, incluindo uma que ele convida a audiência a repetir em casa: – Estou chateado como o caraças e não estou disposto a aturar mais isto!(***) E a audiência repete… No fim, Beale não se suicida mas é assassinado (em directo!) quando começa a denunciar coisas mesmo importantes…
Hoje, ao ler uma notícia sobre os gravíssimos problemas financeiros e sociais por que está a passar a Grécia, lembrei-me de alguém que, pelo seu tremendismo, facilmente poderíamos associar ao estilo Howard Beale (acima), e ao terrível dilema que se poria a Medina Carreira, caso ele fosse grego… Perante aquilo que ele já disse sobre Portugal, o que lhe restaria fazer por coerência e proporção seria suicidar-se em directo na sua próxima aparição na TV...
(*) Como aqui, aqui ou aqui.
(**) Para escolher outros dois filmes que sejam também de 1976 e de 1997.
(***) I'm as mad as Hell, and I'm not going to take this anymore!

07 dezembro 2009

GRANADA E LÍBANO EM OUTUBRO DE 1983

O equivalente norte-americano à Guerra Anglo-Zanzibar de 1896 do poste anterior terá sido a Invasão de Granada em Outubro de 1983. O governo granadino incorreu num trilho ideológico que desagradava a Washington e, sobretudo, os Estados Unidos necessitavam de uma operação militar no estrangeiro que os reconfortasse depois do fiasco com que terminara a Guerra do Vietname (Abril de 1975), depois do fiasco da operação de resgate dos reféns norte-americanos aprisionados em Teerão (Abril de 1980) e do recentíssimo (48 horas) fiasco do ataque terrorista aos aquartelamentos do destacamento de Marines em Beirute, no Líbano (23 de Outubro de 1983), que acabara de lhes custar 241 mortos.
Neste caso da Invasão de Granada, os riscos quanto ao desfecho da Operação (que foi baptizada de Fúria Urgente) eram, por assim dizer, inexistentes: os invasores possuíam uma superioridade de 5 para 1 em efectivos e talvez de 25 para 1, senão mesmo mais, em potencial de combate. Mas, diferente do que aconteceu em Zanzibar, mais do que a celeridade com que a operação terá decorrido, o que veio a tornar-se histórico nela foi o cuidado com que os militares controlaram, com sucesso e pela primeira vez, o acesso à informação. Sendo uma ilha e tendo estabelecido um bloqueio naval em seu redor, só através deles é que, dessa vez, todos aqueles grandes órgãos de informação tiveram condições de informar a opinião pública.
De Granada não haverá nenhuma daquelas típicas fotografias instantâneas que marcaram a Guerra do Vietname, nem depoimentos individuais muito desalinhados com os relatórios oficiais da operação. Mesmo actualmente, aquilo que se pode ler sobre a invasão é parcialmente inverosímil: que os combates terão durado vários dias (!) e que se saldaram pela morte de 19 militares norte-americanos versus 45 granadinos e 25 cubanos (era indispensável mostrar a presença de forças cubanas…), além de um número indeterminado de civis (24+). Mas o mais importante foi que o que (não) esteve a acontecer em Granada esteve a servir para abafar mediaticamente as operações para desenterrar os 241 mortos de Beirute (abaixo).
Ficou a lição aprendida. Presentemente, para qualquer operação militar que os norte-americanos realizem no exterior, o importante não será tanto o que se passou ou estará a passar no terreno, porque o fundamental é a gestão de como a sua opinião pública doméstica é alimentada. É assim que a intervenção dos Estados Unidos na Somália (Dezembro de 1992 a Maio de 1993) pode ser apresentada como um sucesso! E é essa gestão que se terá tornado a preocupação principal das próprias forças armadas norte-americanas quando elas se envolvem em situações delicadas no exterior – Iraque, Afeganistão, Balcãs, Iraque… – sabendo-se que, como regra, a opinião pública só aguenta com um Teatro de Operações de cada vez…
Agora calhou a vez do Afeganistão, que foi debatido como se se tratasse quase de uma novidade... embora dure já há oito anos!

06 dezembro 2009

A GUERRA ANGLO-ZANZIBAR

A Guerra Anglo-Zanzibar começou com o expirar do ultimato britânico, às 9H00 locais de 27 de Agosto de 1896 e terminou… 40 minutos depois com a rendição das forças zanzibaritas do Sultão Khalid ibn Barghash, após o bombardeamento das suas posições pela armada britânica fundeada ao largo da cidade de Zanzibar. A ocasião é considerada uma espécie de zénite do poder imperial britânico, especialmente no que diz respeito àquilo que hoje se designa por capacidade de projectar poder. O reinado do Sultão Khalid, que não era o candidato favorito dos britânicos, durou precisamente… dois dias. E até pelo ritmo informativo actual, teria sido difícil arranjar boas imagens da guerra para aparecerem nos telejornais...

05 dezembro 2009

AUTOMÓVEIS E OUTROS ARTIGOS EM PRIMEIRA OU SEGUNDA MÃO

Há uma certa controvérsia sobre quem terá sido o autor da pergunta Would you buy a used car from this man? (Será que compraria um carro em segunda mão a este homem?) que veio a marcar definitivamente não só a história da carreira política de Richard Nixon como também a vida política de todas as democracias ocidentais, ao torná-la num dos símbolos daqueles políticos de conduta duvidosa e sorriso fácil mas artificial. O cartaz acima datará de 1967, o que prova que a famosa questão já teria sido inventada por ocasião da campanha eleitoral presidencial cujas eleições Richard Nixon venceu em Novembro de 1968. Naquele ano, a maioria dos americanos não terá querido saber de automóveis... Durante anos, a insidiosa pergunta terá ficado esquecida, incluindo a campanha para a reeleição de Nixon em 1972, a tal em que se veio a desencadear o incidente de Watergate.
Foi só com o aparecimento do Caso Watergate que a pergunta tornou a reaparecer – daí as confusões entre quem a criou e quem a recuperou. Para o que à História interessa, só então é que se tornou importante o estado do carro em segunda mão e o carácter do vendedor que o vendeu… E se vale a pena recordar estes acontecimentos, é porque na invocação da questão que se faz correntemente, a ideia é muito mais abusada do que compreendida. Como quando José António Saraiva escreve no Sol que está convencido que muitos daqueles que votaram PS não comprariam a Sócrates um carro em segunda mão. Como se vê pela história original parece haver ali uma confusão deliberada entre votar e comprar. Votar é ter de escolher um candidato entre vários e comprar, há artigos que nem em primeira mão eu compro, como o jornal dirigido pelo próprio José António Saraiva…

04 dezembro 2009

QUE AMÉRICA ZANGADA?

É muito interessante a chamada da primeira página do Público de hoje para o artigo de fundo de José Manuel Fernandes sobre Sarah Palin e a América profunda (acima). É ainda mais interessante o artigo propriamente dito, escrito naquele estilo totalmente engajado do antigo director do jornal, desta vez batendo-se denodadamente em prol da América conservadora, como se a zanga com Obama a que ele se refere se tratasse de uma espécie de reviravolta simétrica ao desprezo que a outra América, a liberal, votou a George W. Bush durante os anos da sua presidência. Mas aquilo que considero o clímax do interesse é a personagem que José Manuel Fernandes considera personificar essa América zangada: Sarah Palin…
No trecho da entrevista (acima) dada o ano passado por John Cleese em que lhe perguntaram o que ele pensa de Sarah Palin, a gargalhada parece-me sair-lhe espontânea, complementada pela explicação de que aquilo que mais o fascina é a forma como há tantas pessoas que a vêm na televisão e não se conseguem aperceber como Sarah Palin nem consegue compreender o significado – impecavelmente pronunciado – daquilo que está a dizer: é como se fosse um papagaio bonito, conclui Cleese. Eu tendo a concordar com Cleese, e Fernandes, obcecado como de costume, nem se terá apercebido da diferença entre a América conservadora e a América estúpida, o equivalente aqui para Portugal do auditório-tipo fiel à TVI, aquele que julga que o Inspector Max é a versão portuguesa do Comissário Rex

AINDA SOBRE OS NOVE REIS

A fotografia dos nove Reis que se reuniram para o funeral de Eduardo VII em Maio de 1910 pode ter muito mais assuntos para se abordarem. Falando-se da própria fotografia, que neste poste se pode apreciar numa outra versão, que está mais retocada, melhor enquadrada e, muito provavelmente, mais de acordo com a original. Recordando a disposição em que os monarcas aparecem, de pé e da esquerda para a direita: Haakon VII da Noruega, Fernando I da Bulgária, Manuel II de Portugal, Guilherme II da Alemanha e da Prússia, Jorge I da Grécia e Alberto I da Bélgica. Sentados, Afonso XIII de Espanha, Jorge V do Reino Unido e da Índia (o anfitrião) e Frederico VIII da Dinamarca.

Tendo ascendido ao trono por causa do assassinato do pai e do irmão mais velho em Fevereiro de 1908, Manuel II de Portugal é, aos 21 anos, nitidamente o mais novo dos nove monarcas ali presentes. Mas é surpreendente compará-lo com o aspecto pesado de Afonso XIII de Espanha que é apenas três anos mais velho. Rei somente há dois anos, já ali aparecem Reis que ascenderam ao trono posteriormente a Manuel II, mesmo excluindo o caso óbvio de Jorge V. Acontecera com Fernando da Bulgária e com Alberto da Bélgica. Escondido no futuro está o facto de, daqueles nove, ser Manuel II o primeiro a perder o trono (dali por quatro meses e meio) e o que virá a morrer mais novo (43 anos).

Tão importantes quanto os nove Reis que figuram na fotografia, convém recordar os dez Reis e a Rainha europeus que estiveram ausentes da cerimónia, embora se fizessem representar por um familiar próximo: o decano (com 80 anos) Francisco José I, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, Nicolau II, Czar das Rússia e Rei da Polónia, Mehmed V, o Sultão Otomano, Vítor Manuel III de Itália, Gustavo V da Suécia, Carlos I da Roménia, Pedro I da Sérvia, Otão I da Baviera, Frederico Augusto III da Saxónia, Guilherme II de Württemberg e a única Rainha, Guilhermina dos Países Baixos. Naquela etiqueta escrupulosa, os representantes da França e dos Estados Unidos (Theodore Roosevelt) foram deixados para o fim...

TV NOSTALGIA – 45

Para esta TV - Nostalgia, poucos serão os que não conhecerão Kommissar Rex. Trata-se de uma série policial de origem austríaca em que a estrela principal é um pastor alemão chamado Rex.. É um daqueles casos raros de séries televisivas que são originárias de países de média dimensão e que conseguem ganhar projecção mundial a série já foi transmitida em quase 50 países.

Só que convém apreciar quais os factores que estão por detrás do seu sucesso, nomeadamente o intenso treino a que Rex teve de ser submetido para que ele seja o verdadeiro protagonista da série – veja-se o exemplo disso no vídeo abaixo. É isso que explica que, durante os dez anos de duração da série, Rex já tivesse tido três parceiros humanos, mas sem perder popularidade.
Aparentemente inspirada nela, apareceu uma daquelas coisas à portuguesa, produzida pela TVI e que dava pelo nome de Inspector Max. Também aparece um pastor alemão e também mete polícia... O resto, como se perceberá pelo trecho de um episódio (vídeo abaixo), é bastante diferente. O cão limita-se a aparecer como figurante ao lado do protagonista. Às vezes ladra...
Para o enredo e o desenrolar da acção, parece indiferente que Fernando Luís contracenasse com um cão, um gato, um porquinho-da-índia ou até mesmo com um cágado… E ainda bem que a RTP, para concorrer, não resolveu fazer uma série rival também com outro pastor alemão: após o Comissário Rex e o Inspector Max, quase que aposto que se chamaria o Agente Fox

03 dezembro 2009

NOVE REIS

Ainda no seguimento destes recrudescimentos dos ideais monárquicos que reaparecem todos os anos por ocasião do 1º de Dezembro, ocorreu-me publicar aqui uma das mais iconográficas fotografias sobre o assunto, que veio a receber o título de Nove Reis. São nove os reis que, em 20 de Maio de 1910, se reuniram para posar numa fotografia de família num dos salões do Palácio de Buckingham, antes das cerimónias do funeral de Eduardo VII, Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e Imperador da Índia. De pé e da esquerda para a direita vemos Haakon VII da Noruega, Fernando I da Bulgária, Manuel II de Portugal, Guilherme II da Alemanha e da Prússia, Jorge I da Grécia e Alberto I da Bélgica. Sentados e pela mesma disposição: Afonso XIII de Espanha, Jorge V do Reino Unido e da Índia (que era o anfitrião e herdeiro do falecido Eduardo) e Frederico VIII da Dinamarca.
Quanto à expressão fotografia de família, ela não é figurativa, é praticamente literal. Por exemplo, e apenas para citar os parentescos mais chegados, o senhor sentado do lado direito da fotografia inicial, Frederico VIII da Dinamarca, é pai de Haakon VII da Noruega, irmão de Jorge I da Grécia e tio do anfitrião, Jorge V. Este, por sua vez, é primo direito do outro Imperador da fotografia, Guilherme II da Alemanha. A culpa de muitos destes parentescos pertence à Rainha Vitória (acima ao centro, numa fotografia com o ramo alemão da sua família em 1894, em Hesse, na Alemanha), a mãe do falecido Eduardo VII e avó de Jorge V, que casara a sua numerosa prole (quatro filhos e cinco filhas) entre as casas reinantes europeias. Símbolo do apogeu que o Reino Unido atingiu sob o seu reinado, o seu funeral em 1901 contara com a presença de onze Reis e não apenas nove, como o do seu filho Eduardo.
E, por ter falado das mudanças estratégicas que a Europa então atravessava, este funeral de Eduardo VII de Maio de 1910 foi também a ocasião escolhida por Barbara W. Tuchman para começar a narrativa do seu best-seller de 1962, Os Canhões de Agosto, que descreve o ambiente em que as várias potências europeias se vieram progressivamente a envolver até ao eclodir da Primeira Guerra Mundial em Agosto de 1914. Ainda hoje considerada uma obra marcante – parece ter influenciado o pensamento estratégico da administração Kennedy durante a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, quando se esteve à beira de uma outra Guerra Mundial – não deixa de ser interessante a forma como a autora, como boa americana, não conseguiu estabelecer nessa descrição o contraste entre a importância – para a cenografia diplomática – e a irrelevância – para os interesses estratégicos dos seus Reinos – de todas aquelas cabeças coroadas

02 dezembro 2009

A SEGUNDOS DO DESASTRE

O título deste poste pode parecer um plágio duma série do National Geographic Channel, embora o uso que dele faço no caso tenha um contexto muito específico. Nos desastres da aviação comercial, apesar da ampla cobertura mediática que costumam receber à posteriori, é muito rara, devido às circunstâncias, a existência de imagens do acidente ou dos momentos próximos.
As primeiras são de um Boeing-727 da Pacific Southwest Airlines que, cerca das 9H00 da manhã do dia 25 de Setembro de 1978, acabara de chocar sobre os céus da cidade californiana de San Diego com uma aeronave ligeira, quando se estava a preparar para aterrar no aeroporto daquela cidade, e estava a 20 segundos de se despenhar sobre uma zona residencial da cidade.
As segundas de um DC-10 da American Airlines que ao princípio da tarde (15H00) de 25 de Maio de 1979 acabara de descolar do aeroporto de Chicago. A segunda fotografia é uma ampliação da original, para destacar a assimetria do aparelho que acabara de perder um dos seus três reactores, o situado sob a asa esquerda. Desequilibrada, o voo da aeronave iria durar apenas 31 segundos.
As terceiras de um Concorde da Air France que, também ao princípio da tarde (14H45) de 25 de Julho de 2000 acabara de descolar do aeroporto de Roissy em Paris. Uma peça caída na pista causara o rebentamento de um pneu durante a descolagem que provocara, por sua vez, o incêndio do combustível que é visível nas fotografias. O voo da aeronave iria durar apenas um minuto e 28 segundos.
Sinal da evolução das tecnologias, este último acidente até chegou a ser filmado (vídeo acima). Mas não se tratará de coincidência que, a existência de fotografias se deva ao facto de todos eles tivessem acontecido sobre zonas densamente habitadas. Aliás, em qualquer um dos acidentes descritos, para além das mortes da tripulação e dos passageiros, também veio a haver vítimas mortais no solo.

01 dezembro 2009

A MEDALHA LENINE

Este vídeo que aqui afixo com alguns dos momentos do famoso frente-a-frente Álvaro Cunhal – Mário Soares que teve lugar a 6 de Novembro de 1975 recorda pormenores muito interessantes, a começar logo pelo fiasco inicial, que aparece perfeitamente enquadrado no espírito do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) daquela época, em que há uma entrada em falso com a música do genérico a calar-se subitamente e a recomeçar depois. O mediador, de cigarro na mão (!), larga então umas apressadas palavras de circunstância, comportando-se quase com um árbitro de um combate de boxe antes do mesmo.

Arrisco-me a dizer que, dado o clima existente, que não terá havido ninguém que se tivesse convencido a mudar de lado da barricada por causa do que foi dito nos 220 minutos que durou aquele debate. E os 34 anos que entretanto se passaram fizeram sintetizar na memória colectiva algumas das frases mais famosas perdidas do contexto. Como o famoso Olhe que não! Olhe que não! de Álvaro Cunhal (aos 4:30 do vídeo), que se costuma esquecer que é uma réplica à grave acusação que Mário Soares lhe estava a lançar, a de que o PCP estava a querer transformar Portugal numa ditadura…

Mas é o trecho seguinte e final do vídeo – o da medalha Lenine – que eu quero aqui destacar (aos 4:45). Já me referi aqui neste blogue, num outro poste, à importante condecoração soviética que era conhecida por Ordem de Lenine. E, neste debate, Soares nem seria o verdadeiro Soares se, num dos seus remoques irónicos a Cunhal – … que se eu fizesse essa aliança que o shoudôtor (propôs) dar-me-ia uma medalha Lenine e nós teríamos uma ditadura em Portugal… – não desse mostra da sua tradicional trapalhice e falta de rigor (bem à portuguesa…), adulterando o nome da condecoração…

Aliás, nem Cunhal seria o verdadeiro Cunhal se, na sua tentativa de ser igualmente espirituoso na sua réplica a Soares ­– Essa política pode não lhe dar a Medalha Lenine mas pode dar-lhe uma Medalha Sá Carneiro ou uma medalha vinda desses lados… ­- não desse mostra da sua proverbial falta de sentido de humor... Além de, significativamente, uma ignorância óbvia sobre qualquer condecoração importante de um país capitalista. Uma das ironias desta história da medalha Lenine, é que Mário Soares veio a receber em 1987 uma condecoração soviética quando da sua visita, como Presidente, à União Soviética.

Apesar das pesquisas, não consegui identificar a condecoração que foi então recebida por Soares, mas é improvável que tivesse sido a tal Ordem de Lenine, que raramente era usada para essas ocasiões protocolares das visitas de Chefe de Estado estrangeiros. Mas uma ironia ainda maior dessa mesma história é que foi Álvaro Cunhal – que, refira-se, por altura do debate, já fora condecorado com a Ordem soviética da Revolução de Outubro… ­– que afinal foi condecorado com a reputada Ordem de Lenine em 1989… Ironia suprema: quem assinou o decreto que a concedia era Mikhail Serguéievich Gorbachev…

30 novembro 2009

E DEPOIS DO GELO POLAR DERRETER TODO?

O autor Chris Wayan procurou responder à pergunta supra, desenhando a superfície do planeta Terra se os contornos dos continentes reflectissem a subida do nível das águas do mar até ao degelo total causado pelo efeito de estufa, que será o equivalente aos cerca de 110 metros de água que os especialistas estimam hoje estar aprisionados nos gelos das calotes polares.
Assim, a parcela do planeta que não está coberta pelas águas diminuiu para ¼ do total. Mesmo assim, são 120 milhões de km² de terras emersas, menos 30 milhões do que na actualidade. Mas a grande incógnita será o regime climático vigente, pois ele é que será decisivo para definir quais serão as áreas temperadas e mais férteis do planeta: a Sibéria é uma hipótese séria…
… e outras hipóteses serão o Alaska e o Norte do Canadá. A Groenlândia conseguirá justificar finalmente o nome de baptismo, enquanto a Europa, agora um verdadeiro continente separado da Ásia, se verá transformada numa espécie de vasto arquipélago onde, entre muitas outras ilhas, finalmente fará sentido a designação da Jangada de Pedra de José Saramago.
Além de uma África que será de todos os continentes o menos alterado em relação à sua configuração actual, no outro Hemisfério, além de uma América do Sul e de uma Austrália que nos aparecem deformadas por enormes mares interiores onde antigamente havia grandes rios, aparece um novo continente habitável, a Antárctida.
Veja-se aqui outros mapas dessa hipotética Terra.

29 novembro 2009

«THE LARCH» ou NÃO HÁ CONÍFERAS INDÍGENAS DAS FILIPINAS

Asseguro que se trata apenas de uma coincidência o encadeamento de dois postes com títulos em inglês. O deste justifica-se pela evocação de um episódio da série Monty Phyton´s Flying Circus que tinha o título insólito – tipicamente no estilo Phyton – de Como Reconhecer Diferentes Tipos de Árvore de uma Grande Distância. E a primeira cena do episódio, como se pode observar no vídeo abaixo, é uma lição pedagógica – usando a pedagogia da época… – com a fotografia de uma árvore, acompanhada de uma voz imperativa (de John Cleese) identificando: – The Larch! Em português, fui descobrir, a árvore é uma conífera pouco conhecida entre nós, chama-se lariço, mas isso é o que menos importa.

O efeito cómico cria-se pela repetição. À medida que o episódio corre, como separador entre os sucessivos sketches, aparece uma nova lição que é sempre acompanhada da mesma fotografia da mesma árvore com as mesmas (não) explicações de John Cleese: – The Larch! Embora suponha que, ao contrário do lariço, elas não sejam empregues de forma deliberadamente humorística, as palavras eruditas com que Mário Crespo costuma enriquecer o discurso nas suas aparições televisivas têm um funcionamento muito semelhante. Há que primeiro a usar – como a palavra desassombro – para depois a repetir, de forma consolidada, em todas as formas imaginárias: desassombrado, desassombradamente, etc.
Li num blogue que Mário Crespo evoluíra entretanto para um novo vocábulo erudito do qual agora abusa com a mestria costumeira: judicatura. Ainda não dei por ele, talvez por não ouvir Mário Crespo com frequência. Mesmo assim devo ouvi-lo demais: ontem passei por um programa com ele, chamado Plano Inclinado, onde se criticava o nosso sistema de ensino, com a sua indignada concordância; mas dois dias antes, havia-o ouvido, no usufruto daquela excelente formação académica que se perdeu, a evocar Fernão de Magalhães e a situar a sua morte na Indonésia… Eu bem sei que os indonésios nunca foram gente de confiança, invadiram Timor-Leste e assim, mas os livros de História costumam culpar os filipinos pelo feito…

28 novembro 2009

SEVEN SWANS A SWIMMING

Há dias em que falta mesmo a inspiração, e em que tudo sai trocado, como acontece ao meu estimadíssimo Fozzie Bear (ver a minha imagem à direita...) numa versão dos Marretas da canção natalícia The Twelve Days of Christmas, música que já não vem a despropósito nos dias que correm. O que ele devia dizer quando chega a vez dele era seven swans a swimming mas, ou se esquece ou se engasga ou perde o tempo de entrada. Assim parece estar a acontecer também com os meus projectos de postes para hoje…– fica o vídeo com o fiasco de Fozzie mais a respectiva letra em substituição…

THE TWELVE DAYS OF CHRISTMAS

On the first day of Christmas,
my true love gave to me
A partridge in a pear tree.

On the second day of Christmas,
my true love gave to me
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the third day of Christmas,
my true love gave to me
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the fourth day of Christmas,
my true love gave to me
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the fifth day of Christmas,
my true love gave to me
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the sixth day of Christmas,
my true love gave to me
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the seventh day of Christmas,
my true love gave to me
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the eighth day of Christmas,
my true love gave to me
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the ninth day of Christmas,
my true love gave to me
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the tenth day of Christmas,
my true love gave to me
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the eleventh day of Christmas,
my true love gave to me
Eleven pipers piping,
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the twelfth day of Christmas,
my true love gave to me
Twelve drummers drumming,
Eleven pipers piping,
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree!