10 novembro 2007

CHAVEZ: UMA INSOLÊNCIA À MCENROE…

John McEnroe foi um tenista que, no seu apogeu, no princípio dos anos 80, terá sido um dos melhores, senão mesmo o melhor jogador de ténis do mundo. E tornou-se desmesuradamente popular em relação aos seus rivais mais directos, mas não por ser assim tão melhor que eles, antes porque se mostrava em campo de um comportamento imprevisível que não demorou a tornar-se insuportável…
Tanta era a sua reputação que as impertinências de McEnroe se tornaram notícias autónomas dentro da cobertura tradicional dos Torneios de Ténis onde participava: discussões com o árbitro, atirar com a raquete, etc. É algo parecido ao que parece ter acontecido a Hugo Chávez, o Presidente venezuelano, na Cimeira Ibero-Americana a decorrer no Chile, quando vários países apanharam com as suas insolências…
Apanharam a Espanha e o Brasil, a Argentina e o Uruguai também levaram. Segundo dizem as notícias, Portugal safou-se… Em abstracto, devo dizer que a causa originalmente proclamada por Hugo Chávez sempre me pareceu simpática: a de tentar equilibrar a distribuição da riqueza num país como a Venezuela, onde a dimensão (enorme) das assimetrias económicas pode ser sintetizada em imagens simples como esta fotografia aérea de uma área da sua capital Caracas (abaixo).
Mas a bondade dos objectivos proclamados não pode perdoar tudo. O próprio John McEnroe descobriu que as suas atitudes modificaram a sua audiência nos campos, daqueles que iam lá para o apoiar, para aqueles que iam para o ver dar barracada… Com o tempo, também McEnroe parece ter aprendido e hoje, 25 anos passados, tenista veterano e grisalho (abaixo), mostra-se muito mais calmo em campo... Não sei é se a política latino-americana dará esse mesmo tempo a Chávez…
A tradição do continente é que quem comete destes erros de isolamento e arrisca assim hostilidades tão fortes, também corre um risco sério de não chegar a veterano…

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 6

Há uma certa dose de injustiça histórica na forma como Marcello Caetano costuma ser condenando por não ter aproveitado o clima de abertura à sua disposição para proceder à transição do regime. Parafraseando o discurso de Salazar de 1961, Marcello teria que ter reformado depressa e em força, sem hesitações nem enganos nas medidas que viesse a assumir, com prazos apertados para recuperar o tempo perdido. Teria sido excepcional se tudo isso tivesse funcionado em conjunção... Se Richard Nixon era o novo Presidente dos Estados Unidos, oriundo do Partido Republicano*, Marcello Caetano era apenas o sucessor de Oliveira Salazar, obrigado a propagandear slogans como Evolução na Continuidade para apaziguar os seguidores que herdara do antecessor…
Contudo, interpretando o ambiente político dominante mais liberal, os Comandantes-Chefes dos três Teatros de Operações africanos tornaram-se mais ousados e imaginativos nas suas manobras a partir do final da década de 60. Era também o dilema da Administração Nixon quanto ao problema vietnamita: como proceder à retirada das suas forças sem dar mostras de fraqueza negocial perante os antagonistas do Vietname do Norte? Houve uma resposta táctica – o aumento da pressão militar dirigida ao próprio Vietname do Norte (com bombardeamentos aéreos) – e uma outra resposta indirecta ao nível da grande estratégica – procurando criar uma cunha entre o bloco de potências (União Soviética e China) que apoiava o Vietname do Norte.
É nesse sentido que aparece a visita (na altura, considerada histórica) de Richard Nixon à China em Fevereiro de 1972. Uma das consequências óbvias desta aproximação dos Estados Unidos à China, além das mais importantes no quadro da grande disputa da Guerra-Fria, foi o enfraquecimento da posição negocial do Vietname do Norte, numa altura em que era desejo dos Estados Unidos livrar-se de vez desse problema. Mas a imaginação e a ousadia também se mostrou nos Teatros africanos. Em Moçambique elas exprimiram-se numa grande Operação à americana (baptizada Nó Górdio) cujo objectivo, anunciado pelo Comandante-Chefe Kaúlza de Arriaga, seria o de desalojar o dispositivo militar dos guerrilheiros da FRELIMO instalado em território moçambicano.
Como já foi aqui mencionado num poste anterior**, a Operação veio a revelar-se um grande fracasso, a médio prazo... Contudo, a situação geográfica moçambicana tinha o benefício de estar rodeado por dois países amigos: a África do Sul e a então Rodésia. A vantagem principal no Teatro angolano, utilizada para a neutralização da guerrilha no Leste do país, a partir do início da década de 70, foi a coexistência de 3 movimentos guerrilheiros, usados na manobra montada pelo Comandante-Chefe local (Costa Gomes) para se neutralizarem mutuamente. Mas, vale a pena mencionar que, desde o princípio dos conflitos, o Teatro angolano foi sempre aquele que, comparativamente, dispôs sempre de mais recursos, como se pode ver no gráfico abaixo, com a evolução dos efectivos em cada Teatro (clicar em cima, para ampliar).
Fica para o fim a figura mais imaginativa e ousada entre os Comandantes-Chefes, o da Guiné: António de Spínola. Acumulando os dois cargos supremos da província (militar e civil), frente a um inimigo coeso (ao contrário do que acontecia em Angola) e sem vizinhos confiáveis (como em Moçambique), algumas das suas iniciativas, batendo as dos seus homólogos indiscutivelmente, em imaginação e ousadia, são hoje de perguntar se não transbordavam das suas competências políticas. Foram os casos das suas tentativas de negociações directas com Leopold Senghor, Presidente do Senegal, ou da Operação Mar Verde (Novembro de 1970), destinada a derrubar Sékou Touré, Presidente da Guiné-Conakry. Spínola parecia disposto a agir autónomo de Lisboa.

* O seu antecessor, Lyndon Johnson, pertencia ao Partido Democrático.
** TRÊS LIVROS, TRÊS FRENTES E TRÊS ABORDAGENS DISTINTAS DA GUERRA COLONIAL

(Continua)

09 novembro 2007

RECORTAR PELO PICOTADO?

Tem estado a decorrer uma interessante troca de opiniões numa caixa de comentários longínqua, entre este vosso criado e um seu homólogo autor de blogue, flamengo, que se assina (paradoxalmente) pelo pseudónimo de alfacinha. O pomo da conversa foi um poste que eu publiquei, intitulado Olhar Para o Chão, a respeito do paradoxo de, ao mesmo tempo que se embandeira em arco com a unidade europeia e novos tratados frescos, parece que se evita deliberadamente olhar para o caso da Bélgica, um país cada vez mais em vias de desagregação, o chão da própria Comissão Europeia, que está sedeada em Bruxelas…
É prova de coragem e cortesia que o alfacinha se proponha debater este assunto sobre o seu país num idioma que não o seu, proeza que não lhe posso retribuir, porque não sei flamengo. Por isso tomei a iniciativa de publicar este poste sobre o mesmo assunto, dando mais visibilidade ao assunto e ao debate. As explicações (leiam-se os comentários) que até agora o alfacinha tem tido a amabilidade de produzir parecem apontar sempre para a responsabilidade exclusiva da comunidade francófona pela crise que o seu país atravessa. Ora, parece-me ser muito mais provável que, naquelas circunstâncias, sejam precisos dois para dançar o tango, como se costuma dizer.
A explicação que hoje recebi (e agradeço), é a das causas históricas para que Bruxelas se tenha tornado ao longo do Século XIX uma cidade predominantemente francófona, como acontece actualmente, tornando-se uma espécie de ilha de estatuto bilingue, encravada no meio da Flandres (acima). Mas há uma diferença importante entre o que se passa na Bélgica e o exemplo que deu para o criado inglês que, em Portugal, me informa na sua língua nativa que, com muita pena, não sabe falar português: eu posso solicitar a presença da ASAE* para que feche o estabelecimento porque o inglês não é uma língua nacional portuguesa e é obrigatório que os clientes possam ser atendidos nesse idioma.
Ora o que eu retirei das suas explicações (o alfacinha corrigir-me-á se estiver enganado) é que a Bélgica tem uma língua nacional (flamengo) que 40% da sua população (na Valónia) não pretende aprender a falar, e tem outra língua nacional (francês) que os outros 60% da população (na Flandres) fazem questão de não falar como retaliação… Onde é que os bilingues (e haverá milhões de belgas que o são) encaixam neste desenho não sei… E nem sei porque é os belgas, com a sua proverbial organização, ainda não se lembraram de distribuir por aeroportos e similares manuais explicativos das sensibilidades linguísticas nacionais para informação dos estrangeiros… (se calhar já há...)
O que apreciaria que o alfacinha me pudesse explicar, coisa que nenhum belga me conseguiu fazer, era o enquadramento dos fenómenos sociológicos e económicos que fizeram com que, em 1830 (clicar no mapa acima), a alta burguesia de Antuérpia (e de outras cidades como Gent ou de Brugge) preferisse alinhar com os revoltosos e separarem-se do Reino dos Países Baixos, com quem compartilhavam cultura e idioma? E, no caso das províncias do sul, até mesmo a religião? E se essa solução de 1830 de juntar flamengos e valões católicos debaixo de uma mesma bandeira foi um erro crasso, porque se passaram 177 anos e ninguém se decide a reconhecê-lo?
Depois de 1989, o mapa da Europa readquiriu dinamismo. Houve países que se cindiram suavemente (Checoslováquia) e outros de forma sangrenta (Jugoslávia). Se a diferença de idiomas foi invocada frequentemente (checo e eslovaco), houve episódios no caso da Jugoslávia em que o condomínio de um mesmo idioma falado (o servo-croata) não impediu a cisão sangrenta. Mas suponho que se engana quem pensar que a tradicional civilidade da Europa ocidental conduzirá a Bélgica a um outro divórcio de veludo como no caso da Checoslováquia. A existência de Bruxelas leva-me a crer que a secessão das partes não será tão simples como recortar pelo picotado...

* Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 5

Fazendo em 1968 o balanço dos 7 anos do meio do percurso (1961-1975), se o comportamento dos Estados Unidos e de Portugal até aí se assemelharam na construção de dispositivos militares cada vez maiores, eles vão divergir a partir daí, por causa da mudança significativa da política de envolvimento dos norte-americanos no Vietname, desenvolvida pela nova administração republicana do Presidente Richard Nixon. São as virtudes das eleições num regime democrático… Em contrapartida, o clima de expectativa associado à posse de Marcello Caetano como Presidente do Conselho é mais gerado pelas interpretações do percurso anterior do titular do que propriamente pelos discursos por ocasião da sua posse…
Costuma dizer-se que Marcello Caetano se deparava com um problema de regime e com um problema colonial – entrelaçados. Vale a pena mencionar que o regime espanhol, que era mais conservador e tão autoritário quanto o português, conseguia-os tratar em planos diferentes: em Agosto de 1968 a Espanha concedeu a independência à Guiné Equatorial e em Janeiro de 1969, a província de Ifni, no Sul de Marrocos foi integrada nesse país. É evidente que a importância das suas colónias para Portugal não se podia comparar ao caso espanhol, mas também é verdade que a flexibilidade espanhola demonstrou ao seu vizinho marroquino os territórios que eram negociáveis (Sahara) e os que não eram (Ceuta e Melilha). Em 1975, a Indonésia não sabia o que Portugal faria em Timor
Esta imagem do Portugal do Minho a Timor viria a tornar-se um embaraço na capacidade de manobra futura de Marcello Caetano. Mas, no começo, a tolerância era um capital à disposição do recém-chegado. Do outro lado do Atlântico, o recém-chegado Nixon tinha que tirar da cartola uma solução secreta para o problema vietnamita que anunciara na campanha presidencial, mas que hoje se sabe que nunca existira… O coelho foi baptizado pomposamente como a Doutrina Nixon e, apesar de redigida em termos genéricos, quanto ao estilo de envolvimento que seria de esperar dos Estados Unidos no apoio aos seus aliados, o caso de aplicação imediata era o do Vietname, onde uma outra nova expressão começou a surgir: vietnamização.
A ideia da administração Nixon, elementar, consistiria na substituição das tropas combatentes norte-americanas por outras de recrutamento local, sul-vietnamitas. O processo permitiria a diminuição progressiva do contingente militar dos Estados Unidos destacado no Vietname. Em África, fora a necessidade a obrigar ao recurso de tropas locais: demograficamente, o Portugal metropolitano só conseguia colocar nos três teatros operacionais um máximo de 80 a 85.000 efectivos e as necessidades adicionais, provocadas pelo alargamento das frentes de combate, só podiam ser supridas com tropas de recrutamento local. Em 1973, mais de 40% dos quase 150.000 efectivos das Forças Armadas portuguesas em África eram tropas recrutadas localmente.
Mas a função dessas tropas era principalmente a de colmatar as insuficiências de meios humanos da metrópole. No gráfico acima (clicar em cima para aumentar), comparam-se os efectivos norte-americanos destacados no Vietname (a vermelho) e os efectivos portugueses (mas apenas os metropolitanos) destacados para os três teatros africanos ao longo de 12 anos, de 1961 a 1973. Se, no caso norte-americano, a partir de 1968 se vêem claramente os resultados da vietnamização e a saída do contingente americano, no caso português, o volume dos efectivos metropolitanos mobilizados mantém-se na mesma (os 80 a 85.000) até 1973*. Eram os anos onde, já pouco mais se conseguiria melhorar a situação militar, e onde se tornava imperativo jogar no tabuleiro político. Teria sido a deixa de Marcello Caetano…

* Estes dados, tais como os anteriormente mencionados, foram tratados depois de recolhidos daqui, com os meus agradecimentos.

(continua)

08 novembro 2007

PARA DESGOSTO DA AMNISTIA

Diz a lenda que a recompensa pedida por quem inventou o jogo de xadrez era a de receber um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois grãos pelo segundo, quatro pelo terceiro, oito pelo quarto, dezasseis pelo quinto e assim sucessivamente, numa série que se pode exprimir na fórmula dois levantado a (n-1). O Marajá a que foi feito o pedido indignou-se porque, pelos preliminares, não se apercebeu da verdadeira dimensão do pedido, que julgou miserável…
É que o tabuleiro de xadrez tem 64 casas e o pedido do inventor corresponderia a um total em grãos de 18.446.744.073.709.600.000 (com alguns arredondamentos como gorjeta…). E esta história costuma ser contada para demonstrar o ritmo de crescimento alucinante das séries geométricas. E foi para uma série geométrica, do estilo faça e passe a mais cinco (ainda por cima com um ritmo de crescimento de multiplicar por cinco...) que eu fui arrastado (e avisado...) pelo João Moutinho.

As regras funcionam assim:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

O livro chama-se Generais Romanos
Título original: In The Name of Rome
Autor: Adrian Goldsworthy
Tradução: Carlos Fabião


Pela derradeira vez na sua história, os angustiados romanos promoveram abertamente um sacrifício humano, queimando vivos um casal de gauleses e outro de gregos, no Fórum Boário, tal como tinha feito depois de Canas.

E é agora, depois da denúncia de um episódio da luta contra Cimbros e Teutões que teria desgostado sobremaneira a Amnistia Internacional, que passo ao momento electrizante da minha nomeação rápida dos próximos cinco candidatos: o Carteiro, a Donagata, o Pedro Freitas, o Torquato e a Sofia. Boa Sorte!

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 4

Em contrapartida, do lado português procurava-se dar a aparência que nem sequer havia componente política a resolver para solucionar o que se designava como o problema ultramarino. Embora caminhando por caminhos diferentes, ficava a sensação em meados da década de 60 que as soluções para a Guerra do Vietname e para as três Guerras de África repousavam exclusivamente no sucesso das armas. Regressando ao objectivo expresso deste conjunto de textos: poderiam as primeiras fases de qualquer daquelas guerras ter corrido de forma diferente? A resposta será provavelmente sim, no caso dos norte-americanos, se o jogo político não tivesse transferido a solução política para os ombros dos militares. A resposta será muito provavelmente não, no caso português.
Assim como seria difícil encontrar no topo das hierarquias portuguesas alguém que tivesse perfil para influenciar e alterar significativamente o fluxo de acontecimentos do início da década de 60, também a própria estrutura do poder estava demasiado formatada à pessoa do Presidente do Conselho para que houvesse possibilidades de se produzirem modificações significativas de carácter reformista. Terá sido essa a leitura de Adriano Moreira, que se afastou da pasta do Ultramar logo em 1963. Em contraste, no caso americano, trata-se da acumulação de erros técnicos e de leitura da situação política no terreno que influenciam o evoluir da situação. Simplificadamente, houvesse mais competência da CIA e talvez tudo pudesse ter evoluído de forma diferente.
Trata-se da acusação premonitória que Graham Greene lança no seu livro de 1955 O Americano Tranquilo, cuja acção se desenrola precisamente no Vietname, sobre as insuficiências da CIA e dos norte-americanos em compreender os povos que tutelavam. Os portugueses orgulhavam-se em mostrar que compreendiam os seus, embora os resultados globais demonstrados na actividade de cativar as elites nativas africanas durante esses primeiros anos de guerra desmentisse as razões para esse orgulho… É difícil compreender qual o racional – se racional houver – por detrás da atitude do Presidente de Conselho à medida que os anos se escoavam e nada de substancialmente novo acontecia na frente política da guerra.
Teria havido uma aposta na utilização da usura, como se o tempo estivesse a funcionar em favor de Portugal? Nessa interpretação, seria a expectativa que o agravamento das tensões da Guerra-Fria fizesse com que os Estados Unidos alterassem as suas posições quanto ao problema colonial que justificava a atitude. Mas o período de tempo que vai de 1961 a 1968, com o alargamento dos conflitos à Guiné (1963) e depois a Moçambique (1964), já teria demonstrado a um Salazar na posse de todas as suas faculdades, que teria de haver alguma inflexão para dar abertura a um plano B, caso esse plano A falhasse… Mas não deixa de ser engraçado registar como ainda hoje há nostálgicos que acreditam na hipotética eficácia da usura e acham que o colonialismo português talvez tenha morrido na praia*…
O ano de 1968 tornou-se um ano pivot nos dois casos. Pelo que aconteceu nos Estados Unidos e pelo que podia ter acontecido – mas não veio a acontecer – em Portugal. Nos Estados Unidos há eleições presidenciais e o problema do envolvimento no Vietname torna-se num dos assuntos principais da campanha; em Portugal, as circunstâncias obrigam à substituição de Oliveira Salazar e o regime tem um daqueles testes supremos das ditaduras: forçado a mudar, existem as possibilidades de se cerrar mais ou a de se reformar por dentro para se adaptar aos novos tempos. A escolha do novo Presidente do Conselho, Marcello Caetano, parece apontar na segunda direcção. Nos EUA, com um novo Presidente (Richard Nixon) parece também ser tempo de novas oportunidades.

* Essa hipótese implicava resistir à pressão internacional com sucesso por mais 15 anos até à queda do Muro de Berlim. Seria mais tempo do que a situação colonial portuguesa resistira até aí às pressões! E fica por explicar onde se iriam buscar os meios materiais, os recursos humanos e a vontade politica para isso… Mas os raciocínios deste fanatismo ideológico (anómalo neste caso, vindo de quem costuma sustentar melhor a sua argumentação, por muito que se discorde dela...) parecem não se deter nesses detalhes pitorescos

(continua)

07 novembro 2007

PARA POUPAR EMBARAÇOS, A MADEIRA DEVERIA SER UM PAÍS À PARTE

O Plenário da Assembleia Legislativa da Madeira foi ontem suspenso, com o consequente encerramento antecipado da sessão, depois de alguns deputados terem evitado que Baltazar Aguiar, do PND, e Jaime Ramos, líder parlamentar do PSD, se envolvessem em agressão física.
Os apartes de Ramos, (…) desagradaram a Baltazar Aguiar que, inconformado com a passividade do presidente do parlamento, (…) se dirigiu à bancada laranja e desafiou o seu líder a repetir os vitupérios. Alguns deputados interpuseram-se (…)
Já não é a primeira vez que Ramos se envolve em intervenções deste género (…) apresentou queixa ao tribunal, mas o processo está parado porque a Assembleia não levantou a imunidade parlamentar.
Esta é uma síntese de uma notícia de hoje do Público (p.10), a fazer lembrar aqueles filmes que volta, não volta, aparecem na televisão onde deputados de parlamentos de países considerados democracias menores (Ucrânia, Rússia, Turquia, Formosa, Coreia, etc.) se envolvem em grandes cenas de pancadaria, promovendo o descrédito de toda a actividade parlamentar do país onde teve lugar a bordoada. No caso do parlamento madeirense até já está identificado um verdadeiro Mike Tyson dos sarilhos, na pessoa de Jaime Ramos, o denominador comum de tudo o de invulgar que lá se passa… Pior que isso, só mesmo o ambiente de riqueza informativa que se vive na Madeira, como se constata pela reportagem que cobre os trabalhos da sua Assembleia Legislativa na edição de hoje do Jornal da Madeira: nenhuma menção ao incidente. Será que o correspondente do Público (Tolentino da Nóbrega) tem uma imaginação prodigiosa?

Mais a sério, os madeirenses tem todo o direito a escolherem o regime que quiserem, eu estou no meu de reclamar que tais práticas me embaraçam num país que também é o meu! O Alberto João Jardim não quer voltar a acenar com o fantasma da secessão? Era um prazer...

A NOTA DO PEJÓ

Há modalidades desportivas que, mesmo que as considere desportivas, não as considero aptas a serem modalidades de competição. Isso, porque como acontece, por exemplo, com a ginástica, os saltos para a água ou a patinagem artística, os resultados dependem exclusivamente da classificação que é atribuída por um júri. E um júri é humano e falível. Muito falível. Nunca se consegue abstrair de quem está a dar a nota.

A explicação que essas classificações dependem sempre de critérios rigorosos caducou no dia em que, no Colégio Militar, o Quim cravou o Pejó (um crack em ginástica!) para lhe fazer o exercício de paralelas: o Pejó lá foi, apresentou-se com o número do Quim, esmerou-se, fez pinos, rectos, até agudos, e no fim foi recompensado com um 13… O mesmo Pejó, na sua vez, com o mesmo exercício, recebeu 18…

Ontem, houve uma espécie de debate entre José Sócrates e Pedro Santana Lopes no Parlamento. A que eu assisti pela televisão. Hoje há uma espécie de opinião dominante na comunicação social sobre o que ontem se passou que não tem nada a ver com a minha. E já reparei, aqui na blogosfera, que há mais, entre os que considero mais soltos, que também não afinam pela nota do júri

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 3

De facto, como Adriano Moreira teve oportunidade de realçar no depoimento que prestou na série televisiva A Guerra, por altura da tentativa do golpe de Botelho Moniz, não se conheciam ideias nem qualquer programa inovador sobre o problema colonial ao General – nem ao General Delgado, já que vem a propósito… Pior que a perspectiva esquemática de Washington, a de Lisboa era definida por um septuagenário (Salazar) há muito desabituado de ser posto em causa, numa sociedade que nem é propensa a insolências: o respeitinho é muito bonito, como ficou patente no depoimento do General Kaúlza de Arriaga à mesma série, pela forma como uma caneta e algumas assinaturas desmontaram um movimento encabeçado pelas mais altas chefias militares…
Independentemente dessas tentativas de pronunciamento, a verdade é que, naquelas circunstâncias, todas as razões apontavam para que as respostas prioritárias fossem de carácter militar. Os britânicos haviam precisamente isso quando se haviam defrontado com insurreições de carácter nacionalista e anti-colonial semelhantes, na Malásia em 1948 e no Quénia em 1952. Se o discurso do Para Angola Depressa e em Força de Salazar em Abril de 1961 recolheu um apoio esmagador da sociedade portuguesa, provavelmente também o teria recolhido se Portugal fosse naquela época uma democracia. Do outro lado do Mundo, por essa altura, os primeiros investimentos em recursos materiais e humanos no Vietname também foram bem acolhidos nos EUA.
Em 1961, pura expressão semântica, a República do Vietname do Sul era em tudo, menos na designação, um verdadeiro protectorado norte-americano. Para todos os efeitos, os problemas que se deparavam aos Estados Unidos eram idênticos aos de um país administrador de uma colónia. E, na perspectiva norte-americana, a sociedade sul-vietnamita (que, de facto, possuía características próprias que a poderiam vir a tornar num país distinto do Vietname do Norte) precisava de ser militarmente protegida enquanto era económica e politicamente incentivada a autonomizar-se. É evidente que a disparidade de meios entre os Estados Unidos e Portugal torna incomparável o que poderia ser realizado num lado e noutro… Mas analisando intenções…
Enquanto se pode acusar os Estados Unidos de malbaratarem os seus vastos recursos em projectos políticos pouco consequentes, (patrocinaram três golpes de Estado consecutivos no Vietname do Sul, em 1963, 1964 e 1965…), é preciso ser-se muito meticuloso para descobrir quais foram as mudanças que Portugal promoveu no aparelho governativo das suas colónias, mesmo com os seus parcos recursos, durante a primeira meia dúzia de anos que se sucederam às insurreições… E contudo, esse período inicial também é, do ponto de vista militar, também a fase onde os dois exércitos convencionais (americano e português, e na medida das possibilidades relativas de cada um, evidentemente…) se adaptam com sucesso ao combate à guerrilha subversiva.
Retrospectivamente, pode-se perceber que, entre os norte-americanos, ao princípio havia um objectivo político claro a alcançar: um regime auto-sustentável no Vietname do Sul. Expresso de uma forma muito simples, a situação no Vietname era um problema da CIA, que devia receber o auxílio dos militares*. E, racionalmente, devia ter sido assim que devia ter permanecido. Porque a culpa do fracasso das elites sul-vietnamitas para criarem um regime funcional só muito remotamente poderia ser causada pelo clima de insegurança das guerrilhas do vietcong**. A solução para essa ineficácia não se iria encontrar num contingente de 100.000 soldados americanos, nem no aumento progressivo desse número para mais de 500.000…

(continua)

* Significativamente, em 1961 o Presidente Kennedy mandou duas missões independentes ao Vietname estudar localmente o problema: a militar era encabeçada pelo General Maxwell Taylor e a política pelo Professor Walter Rostow.
** Designação coloquial para o movimento guerrilheiro sul-vietnamita.

06 novembro 2007

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 2

A dificuldade de encontrar um equivalente a Robert McNamara entre a parte portuguesa é consequência das idiossincrasias das estruturas do poder do Estado Novo português. Ninguém poderia ter desempenhado um papel equivalente ao de McNamara na condução política de um assunto sensível com excepção do próprio Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar… Consegue-se encontrar entre os que estavam próximos do poder, quem se pudesse assemelhar ao Secretário da Defesa norte-americano em determinação, ambição e brilhantismo (Adriano Moreira é o nome mais óbvio), mas depois havia a evidência prática que o círculo de poder próximo do Presidente do Conselho não permitiria estrelas que ofuscassem o brilho da estrela maior.
Convém esclarecer, por rigor, que Robert McNamara – que foi Secretário da Defesa tanto do Presidente Kennedy como do Presidente Johnson (de 1961 a 68) – também foi um fenómeno bizarro na política americana, alguém que conduzia a política de defesa como uma latitude que antecessores e sucessores nunca conseguiram – até à chegada de Donald Rumsfeld ao mesmo posto em 2001… Mas o paradoxo da situação portuguesa é que a mesquinhez que acompanhava a proximidade do poder e que impedia que houvesse uma condução de uma política ultramarina com alguma autonomia (como Adriano Moreira se veio depressa a aperceber, abandonando a pasta do Ultramar logo em 1963), acabava por ter que coexistir com uma grande liberalidade concedida a quem desempenhava funções de direcção no terreno.
Em 1970, ano da morte de Salazar e quando a centrifugação que as guerras costumam fazer aos apontamentos por outros critérios que não o mérito, já procedera ao afastamento dos dirigentes coloniais e militares menos capazes, a metodologia político-militar que era adoptada para a condução da contra-subversão em Angola (com Costa Gomes) era diferente da seguida na Guiné (com Spínola) e esta, por sua vez, também era diferente da praticada em Moçambique (com Kaúlza de Arriaga). Havia uma heterogeneidade de métodos que seria impensável no Vietname contemporâneo, apesar da presença (frequentemente esquecida) de outros contingentes militares estrangeiros não norte-americanos – 45.000 sul-coreanos e 6.700 australianos e neozelandeses.
Mas, regressando ao estudo das hipóteses do que poderia ter corrido de forma diferente, no caso da Guerra do Vietname, as opiniões mais ponderadas reconhecem que, dado o espírito dominante na América dos anos 60, se afigura muito provável que quaisquer equipas que houvessem sido reunidas pelas administrações democratas teriam tomado decisões não significativamente distintas daquelas que foram tomadas. A perspectiva do conflito vista de Washington era distante e concentrada em abstracções da lógica da Guerra-Fria (A Teoria do Dominó*), embora impermeável às subtilezas estratégicas da história do Vietname (que vê na China o seu inimigo tradicional…) e impermeável às subtilezas tácticas de travar uma guerra de contra-subversão.
De igual modo, o campo de recrutamento de onde se poderiam recrutar as elites dirigentes portuguesas nos inícios da década de 60 não era muito alargado. Recorde-se que, à excepção do PCP, que escolhera o lado que lhe competia nas fronteiras da Guerra-Fria, e era por isso completamente alinhado com as posições anti-colonialistas soviéticas, a questão colonial não era assunto que merecesse a pena ser realçado pela Oposição Democrática como forma de se distinguir do Estado Novo. Num exercício especulativo arriscado, admitindo a possibilidade de que Humberto Delgado tivesse assumido a presidência em 1958 dando lugar a algum tipo de acomodação com o regime, é demasiado ousado assegurar que o que se viria a passar em Angola em 1961 aconteceria de maneira substancialmente diferente…

* Teoria que, sucintamente, estabelecia que o facto de um país passar a ser governado por um regime comunista, provocaria efeito semelhante nos seus vizinhos, tal qual o efeito da queda das pedras de um dominó – daí o nome.

(continua)

05 novembro 2007

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 1

Complementando uma espécie de polémica que foi desencadeada pela série televisiva A Guerra, a respeito da designação da Guerra que se travou na África portuguesa de 1961 a 1975 (do Ultramar? Colonial? De Libertação?), gostaria de adicionar – para a confusão! – que não houve uma, mas três guerras de libertação que tiveram lugar quase simultaneamente e contra o mesmo inimigo – Portugal. Para além das alianças políticas entre movimentos nacionalistas (definidas pelos alinhamentos da Guerra-Fria), não tenho notícia de alguma expressão de colaboração táctica entre combatentes de um movimento na guerra de outro. Procurando ser um esforço honesto de expressão da visão africana, suponho que há, paradoxalmente, muito de eurocêntrico no uso da expressão Guerra de Libertação (no singular) para a designação do conjunto.
Numa conversa que teve no Outono de 1963, ainda o envolvimento militar dos norte-americanos no Vietname estava no seu início, Ho Chi Minh, o então líder norte-vietnamita, dizia a um diplomata polaco* acreditado em Hanói que nenhum deles conhecia bem os americanos, mas do que conhecia deles, no que havia lido e ouvido a seu respeito tudo apontava para que fossem mais práticos e perspicazes que os outros países capitalistas. Não vão continuar a gastar os seus recursos para sempre no Vietname. Haverá um dia em que algum vai pegar em papel e lápis e começar a fazer contas. E assim que as fizerem e que começarem a analisar as nossas ideias a sério, vão chegar à conclusão que é possível e que vale a pena viver em paz connosco.
Esta análise de Ho Chi Minh estava certa na parte da antecipação que os norte-americanos conduziriam a sua presença no Vietname de uma forma muito distinta à que fora conduzida pela potência capitalista que os precedera (a França); mas estava redondamente enganado nas suas expectativas que os recém chegados fossem mais perspicazes e que fizessem uma leitura mais realista de quais eram as dinâmicas profundas do poder dentro da sociedade vietnamita. Ou, analisado de uma outra maneira, Ho até poderia ter razão, mas não durante o período temporal em que ele estava a situar esta sua conversa: a vitória dos seus só veio a ser alcançada em 1975, seis anos depois de Ho ter morrido (1969).
Não é difícil imaginar um dirigente nacionalista de uma das colónias portuguesas (por exemplo, Amílcar Cabral) a produzir, no início da década de 60, uma análise (misturada com uma grande dose de desejo) parecida com a acima expressa por Ho Chi Minh. O paralelo continuaria até no facto de Cabral não ter assistido ao fim da Guerra - nesse caso por ter sido assassinado… Em contrapartida, tenho enormes dificuldades em identificar alguém da parte portuguesa que possa comparar às considerações que Robert McNamara (o Secretário da Defesa norte-americano de 1961 a 1968) produziu em 1999: Houve oportunidades que se perderam, tanto para evitar que a guerra começasse, como para a terminar antes que tivesse atingido a dimensão que atingiu.
Enfim, a questão que quero levantar numa série de postes, socorrendo-me também dos debates que, a esse mesmo respeito, se têm levantado frequentemente a respeito da sua contemporânea Guerra do Vietname, é se teria sido possível que as Guerras de África tivessem decorrido de forma diferente? E à óbvia resposta afirmativa, pretende-se ir mais fundo, concretizando-a: que aspectos principais é que poderiam ter corrido de forma diferente? Quais foram os protagonistas de cada lado que foram essenciais e marcaram o rumo para que o processo de descolonização português tivesse acontecido como aconteceu? Enfim, falta deixar a reserva que isto é um blogue e que o estilo de abordagem de assuntos tão densos quanto estes se ressentirá disso…

* Maneli Mieczyslaw.

(continua)

04 novembro 2007

POR OCASIÃO DO SEGUNDO ANIVERSÁRIO

Nestes dois anos de blogosfera penso que posso concluir que nela se está a formar uma sociedade tecnologicamente inovadora. Por exemplo, onde se permitem acusações de se ser pessoalmente reles quando acusador e acusado nunca se encontraram pessoalmente e também se permite que Professores Doutores de Coimbra sejam confrontados directamente com a exibição da sua ignorância ao abordarem assuntos específicos sobre os quais resolveram emitir a sua opinião, mas sem sequer se documentarem…
Para assinalar o segundo aniversário do blogue resolvi alterar o insulto de estimação lá de cima, no cabeçalho. A história por detrás do novo insulto afixado conta-se de forma sucinta. Começa num poste disparatado, demonstrativo da ignorância sobre geografia por parte do seu autor, Vital Moreira (como alguém demonstrou aliás, de forma sucinta e gráfica…), e acaba na inevitável impossibilidade intelectual do autor admitir o seu erro (clamoroso)...
A expressão dessa impossibilidade degenerou no sucedâneo mais parecido com argumentação: o insulto, não muito substanciado, como se vê pela frase escolhida. Que, confesso, nem tem tanta piada como o que lá estava*, mas como é de um autor que vai à televisão… e que nas outras circunstâncias deverá crer que é merecedor da reverência de lá ter ido, a piada vale mais pela petulância do autor da frase do que pela veemência das suas palavras.
Ou seja, confesso que há algo de profundamente superficial nas razões da minha escolha: como as fotografias de uma socialite da revista Caras, considero que o autor do insulto não tem razões de mérito para ter sido escolhido a não ser o facto de ser badalado… É verdade. Mas posso dizer em minha defesa que, tratando-se aqui da celebração de um aniversário, não há reportagens melhores sobre aniversários que as da Caras?

*De um Autor a quem disseram: Enxergue-se e leia umas coisinhas.

03 novembro 2007

A BANDA DE UHF E O MÍTICO SEGUNDO CANAL – 2

Parece ficar sempre qualquer coisa por dizer quando o assunto é dos nostálgicos, como o das minhas desventuras para apanhar o segundo canal: entre o que mais contribuía para dar aquela aura distinta ao segundo canal era a mira técnica da imagem (acima), diferente da do primeiro (abaixo). Ambas a preto e branco, evidentemente, que a mira técnica com cor (mais abaixo) ainda demoraria um decénio a aparecer…
Mas a cura para a nostalgia televisiva indulgente obtém-se consultando a programação da época. Assim, na programação do período da hora de almoço (12H45-14H30) que atrás mencionei, destacavam-se as séries de desenhos animados de sucesso muito moderado como as do Tintin ou dos Beatles, o Alvin Show ou Linus, o leão*; e havia as séries realistas como Os meus sobrinhos (?), Um pai para Eddie e Viver no Campo...
* Outra coisa que vale a evocação nesta série é um pássaro que, no fim do genérico final, nos mostra o seu sorriso forçado (são só dentes à mostra, nem um músculo facial se mexe), sorriso esse que muitas vezes me vim a lembrar pela vida fora, comparando-os com exemplares ao vivo…

02 novembro 2007

OS REIS DO ENTRETENIMENTO

A hierarquia do poder de cada classe profissional nas organizações mais complexas descobre-se facilmente quando há uma greve: as classes importantes são aquelas que têm os sindicatos cujos filiados têm a capacidade de parar a organização completamente, mesmo fazendo greve isoladamente. É o caso dos maquinistas nos caminhos-de-ferro ou dos pilotos nas companhias aéreas.
Descobri, surpreendido, que também é o caso dos guionistas na indústria do entretenimento televisivo. Sem eles, não há Tonight Show, nem Daily Show, nem Oprah Winfrey, nem os outros shows todos que fazem a América quotidianamente feliz... Jay Leno (acima), Jon Stewart (centro) e Oprah Winfrey serão os reis do pequeno ecrã norte-americano, mas efectivamente, são monarcas com menos poder que a Rainha de Inglaterra…

ANDANDO POR AÍ, MR. CHANCE?

Bem Vindo Mr. Chance foi o título escolhido em Portugal para o filme datado de 1980 de Hal Ashby Being There, uma das últimas aparições em filme de Peter Sellers, um filme difícil de classificar quanto ao género. Conta a história de um jardineiro de meia idade, um simples (Sellers), que passara a vida protegido da sociedade e que dela só conhecia o que via na televisão, e que, por morte do seu rico patrão e protector, é largado no mundo com um aspecto distinto por lhe ter herdado as suas roupas…
As circunstâncias levam a que Chance conheça um empresário influente de Washington que, por força da sua aparência e bonomia, interpreta o seu discurso retardado como um sinal de sabedoria profunda, influenciando o seu círculo próximo (incluindo o próprio presidente dos Estados Unidos) quanto aos predicados e virtudes de Chance. É um filme típico de época, cheio das mensagens de significado críptico que então se usavam, a maior das quais é a cena final onde se vê Chance caminhando sobre as águas…

Não sei se terei captado todas as mensagens incluidas no filme, a começar pela do título original… Mas a mais óbvia conclusão que extraí daquele filme é que a avaliação dos méritos de alguém pode ser induzida pela sociedade que nos cerca; e essa indução pode ser tão forte que nos leve a considerar como muito valioso algo que, afinal, é de uma banalidade extrema… Sempre me pareceu uma atitude salutar alhear-me do barulho de fundo quando me surgem dúvidas fundadas sobre os méritos propagados de alguém.
Creio que os casos reais não serão de uma evidência caricatural como acontecia com aquele caso de Chance, the gardener* que fora promovido a Chauncey Gardner, o analista filósofo… Mas suspeito que uma grande parte da responsabilidade da notoriedade de pessoas que dizem e escrevem coisas interessantíssimas como Pedro Arroja (por exemplo) não seja apenas dos próprios, mas também de quem os trata com a mesma deferência demonstrada pelos membros do círculo de admiradores das palavras balbuciadas por Chance… Como Chance, Arroja é mais uma silhueta do que uma figura, o interior parece ser criado por outros...

* Chance, o jardineiro

01 novembro 2007

UMA CERTA VISÃO SOBRE O ASSUNTO


A fotografia acima data provavelmente de Fevereiro de 1937, quando da conquista de Málaga, a Vermelha, pelas tropas nacionalistas espanholas. Nela se vê o bispo da cidade com os comandantes das unidades que a haviam tomado em pose, numa saudação fascista. Foi depois desta conquista que se distinguiu nos conselhos de guerra da cidade, como feroz advogado de acusação aos republicanos que foram capturados e que vieram a ser detidos, o futuro presidente de conselho Carlos Arias Navarro, de que falei num poste recente.

Mas o que a fotografia acima tem de mais notável é a curiosidade de, provavelmente para causar mais impacto estético, ter sido invertida, aparecendo os dignitários a fazer a saudação com o braço esquerdo, o que é absurdo, para quem conhece a origem da saudação. Este tratamento que foi dado à fotografia torna-se exemplificativo e simbólico do que costuma acontecer frequentemente com a História quando são as concepções do narrador que se impõem à realidade do que aconteceu… São muito mais frequentes as distorções ideológicas, neste caso a distorção terá sido provocada por razões estéticas e o resultado fica à vista de todos… os que a querem ver.

Assim truncada, a fotografia entrou na Internet e terá sido assim mesmo importada para o blogue Arrastão que a usou para ilustrar um poste referente à relação íntima da Igreja Católica com os nacionalistas durante a Guerra Civil. O poste, polémico, causou reacções enérgicas e múltiplas que se traduziram em 51 comentários, muitos deles exaltados e criticando-se reciprocamente, com argumentos onde parece não haver lugar a dúvidas ou cautelas. Contudo, só o 48º, mais de um dia depois da inserção, chama a atenção para a incongruência da pose dos dignitários nacionalistas.

Saudações, Joca, e parabéns pelo espírito de observação!…

AS ACHAS PARA A RECONCILIAÇÃO

Entre várias narrativas dos antecedentes que conduziram ao conflito, mesmo em Histórias da Guerra Civil de Espanha que se mostram globalmente mais simpáticas para com o lado republicano (Hugh Thomas ou Antony Beevor), há uma opinião coincidente em atribuir uma boa parte das culpas ao regime republicano por ter escolhido defrontar-se desnecessariamente com a Igreja Católica espanhola, quando esta poderia não vir a constituir uma ameaça séria para o novo regime. Não justifica a conduta posterior da instituição, mas é uma opinião que aqui deixo porque raramente se vê expressa.
A Espanha em 1930 tinha 20.000 frades, 60.000 freiras e 31.000 padres mas 2 em 3 espanhóis não eram católicos praticantes*. A Igreja como grande proprietária de latifúndios desaparecera com as expropriações das terras eclesiásticas que tiveram lugar em 1837… Nem a Igreja espanhola se apresentava como o bloco ideológico coeso que mais tarde se veio a revelar, e onde as suas divergências podiam até ser lidas nas páginas dos dois diários católicos de Madrid (o ABC, mais conservador e El Debate, mais liberal).

Mas, em Julho de 1936, ao começar a Guerra Civil, a Igreja espanhola sentia-se de tal forma cercada que se transferiu quase em bloco (a excepção mais notória foi o clero basco e algum catalão) para o lado dos nacionalistas. E aí permaneceu. São conhecidas as concepções do Arcebispo de Toledo sobre a guerra que se travava em Espanha: uma luta entre a Espanha e a anti-Espanha, a religião e o ateísmo, a civilização cristã e a barbárie. A Igreja espanhola foi uma das vencedoras de 1 de Abril de 1939. Levar a religião de Cristo para as frentes de combate sempre foi muito desconfortável, porque incoerente, como se comprova pela famosa frase (mal) atribuída a Fernão Mendes Pinto: e com muitos padres-nossos e avés-marias fomos a eles e matámos mais de cem… Ou pelo oficial francês que, no México, descobriu o inimigo misturado no meio da multidão e mesmo assim, deu ordem de fogo às sua tropas porque, mesmo naquelas circunstâncias, sempre haveria Deus que protegeria os seus…

Ora, revendo momentos em que ela ali esteve, e a propósito da recente beatificação dos 498 religiosos espanhóis executados por ocasião da Guerra Civil, eu até posso compreender a intenção do Vaticano, na linha de uma inflexão que o papa Bento XVI queira causar na forma como a Igreja está a ser conduzida, abandonando ecumenismos e discursos para o exterior, e concentrando-se na mensagem aos verdadeiros fieis, qual verdadeiro laager**. Está no seu direito e é capaz de ter razão, que o modelo experimentado desde o Vaticano II*** parece não ter tido grandes resultados…
Agora, quando Bento XVI procurou associar ao acto da beatificação desses 498 religiosos, intenções de misericórdia, reconciliação e convivência pacífica entre espanhóis, parece-me que se excedeu… Há dirigentes temporais, como o britânico Gordon Brown, que são rapidamente desmascarados quando se põem a pregar moral, procurando votar ao ostracismo o ditador Robert Mugabe do Zimbabué mas servindo de anfitrião atento ao rei Abdullah dessa terra da liberdade chamada Arábia Saudita…

Mas esses soberanos temporais sempre podem dizer, em abono dessas faltas de honestidade, que a política tem razões que a moral desconhece… Agora, aqueles que são quase exclusivamente soberanos espirituais têm de se lembrar que, mesmo não sendo seguidos, podem continuar a ser respeitados fora do seu rebanho pelo seu discurso e pela sua conduta, e que esse respeito não sai nada reforçado com demonstrações de incoerência que podem passar por cinismo…

* Dados de Hugh Thomas.
** Círculo de carros de bois, com que os colonos europeus enfrentavam as ameaças. A palavra é de origem africânder.
*** Concílio Vaticano II.