08 outubro 2006

TV NOSTALGIA – 16











Há apresentações que, se calhar, ficam a valer muito mais do que os programas que apresentam. Aquela imagem inicial do mapa da Ponderosa que se vai incendiar a partir de Virgínia City, enquanto arrancavam os primeiros acordes da música do genérico, valia, só pelo sabor da antecipação, quase meio Bonanza…

Era uma época (meados de 60) em que eu mal percebia o que se passava nos episódios de Bonanza (nunca percebi muito bem o que tinha acontecido ao Adam, o irmão mais velho, que desapareceu subitamente do genérico) embora, como qualquer puto, apreciasse todo aquele armamento, que era inseparável de qualquer western. A família de Bonanza, composta pelo pai Ben, pelos três meio-irmãos e pelo cozinheiro chinês era disfuncional, mas não se falava disso.

Com Lancer (1968), série aqui transmitida logo no início da década de 70, eu já percebia a história e já percebia de armamento (o colt 45 e a espingarda winchester) e dos respectivos adereços o suficiente para poder especificar que, para o Natal, queria o coldre descaído – à pistoleiro – e que o colt devia ser preto, a imitar os dos filmes, não aquelas mariquices prateadas que se vendiam para aí… A família Lancer também era disfuncional, com um pai e dois meio-irmãos, mas já o era assumidamente.

A revolução dos géneros chegou aos westerns em meados da década de 70 com Uma Pequena Casa na Pradaria (Little House on the Prairie - 1974), onde a família Ingalls tinha tudo para ser estável: pai, mãe e três adoráveis filhas. Depois das mulheres começaram a usar calças, depois dos putos começarem a brincar com bonecas (Action Man), o que só faltava mesmo era fazerem westerns para as miúdas, sem pistolas…

07 outubro 2006

COMO UMA COLONOSCOPIA…

Será para mim um grande desapontamento se o Pedro Correia que escreveu este artigo no Diário de Notícias de hoje for o mesmo a que me habituei a ler os postes no Corta-Fitas. Eu até percebo que quem trabalhe num jornal que sempre foi, tradicionalmente, o porta-voz dos pontos de vista governamentais tenha de fazer um frete uma vez por outra.

Agora não haja dúvida que há que fazê-lo com um certo estilo e dignidade, que sempre foi a imagem de marca do Diário de Notícias, circunscrevam-se apenas os exemplos ao actual director, António José Teixeira. Ora o artigo em referência parece ser demasiado subserviente para com José Sócrates e o seu governo para que mantenha aquele estilo e dignidade.

Em suma, simula-se um acesso privilegiado – alguém ainda pretenderá que esse acesso não é perfeitamente controlado? - aos colaboradores mais próximos do primeiro-ministro para veicular a mensagem que José Sócrates não “irá perder o autocarro” da luta contra a corrupção e que terá apreciado particularmente o último discurso presidencial sobre o tema.

E as "buzzwords" lá estão – acho que na imprensa política se lhes dá o título de “soundbites” – ao considerar que o presidente abriu espaço político ao governo com as suas declarações. Se isto fosse uma jogada de futebol, e eu o relator do jogo em que ela se estava a desenrolar, classificá-la-ia como muito denunciada, muito falha de imaginação!…

Agora a propósito da abertura de espaços, e de um eventual conselho ao Pedro Correia e ao seu texto, seja ele quem for, deixem-me citar um amigo meu que considera que, nestas circunstâncias em que é preciso fazer destes fretes, o que é fundamental é que preservemos a nossa dignidade e a nossa reputação. É como fazer uma colonoscopia, diz ele: se há que a fazer, que remédio!... Agora não fique para aí a constar que a gente gosta…

RECOMENDAÇÃO


Este blogue não recomenda muito frequentemente mas procura ser selectivo naquilo que recomenda: O economicismo como insulto no Diário de Notícias.

06 outubro 2006

O OUTRO AÉCIO


O Aécio de quem este blogue não reclama nenhuma herança, mas que é a causa de imensas visitas a este blogue, chama-se Aécio Neves da Cunha, é brasileiro, mineiro, natural de Belo Horizonte e tem 46 anos. Economista de formação e político de profissão é originário de famílias que sempre se dedicaram a essa actividade, nomeadamente o avô materno, de quem Aécio guardou o apelido por que é conhecido, Tancredo Neves, que chegou a ser eleito Presidente da República (1985), não tomando depois posse por problemas de saúde.

Já tendo sucedido a seu avô como Governador do Estado de Minas Gerais, para onde foi eleito em 2002 com 58% dos votos, e tendo obtido altos índices de popularidade no desempenho do cargo, concretizados na sua reeleição recente (Outubro de 2006) com uns esmagadores 73% da votação (o limiar do resultado de uma eleição esmagadora passar a tornar-se suspeita por tanta unanimidade…), o seu estilo faz-me lembrar um pouco os extremos cuidados comunicacionais usados pelo estilo de Tony Blair (e de outra esquerda europeia – como Zapatero ou Sócrates), só que adaptados naturalmente para uma sociedade latino-americana.

Numa sociedade propensa aos mitos do sebastianismo – não tivessem os brasileiros ganho a independência de quem ganharam… – já são muitos os que talharam a carreira futura de Aécio Neves como o próximo sucessor de Lula na presidência. Ora como eu acabei ganhando simpatia também por este Aécio, responsável por tanta animação no meu blogue, a última coisa que desejaria é que ele entrasse naquele perigoso palácio (Planalto - responsável pela ruína de muitas reputações…) ainda por cima sobrecarregado pelas expectativas como só os brasileiros conseguem depositar nas capacidades de um só homem.

Desejo-lhe muita sorte para si na sua carreira política que bem pode chegar à presidência, Aécio! Vai precisar de alguma sorte para lá chegar. Mas, se lá chegar, pelas expectativas que me apercebo que está gerando, vai precisar de toda a sorte do Mundo quando lá chegar...

QUEM ATIRA A PRIMEIRA PEDRA…

Nos (felizmente) casos raros em que ocorrem colisões aéreas entre dois aparelhos, parece ter-se criado um critério, completamente empírico e que resulta apenas da observação da natureza humana e não de qualquer formulação de carácter científico, mas a verdade é que, quando se procura identificar qual será o responsável pelo sucedido, ele acaba por ser, normalmente, o que se precipita a acusar outro antes que seja razoável que se possam extrair quaisquer conclusões.

Aconteceu um acidente parecido há quatro anos sobre a Suíça, quando um TU-154 russo colidiu em pleno ar com um Boeing 757 de carga, por culpa das faltas de pessoal e das falhas pessoais do controlo de terra, como se veio a descobrir depois. Contudo, logo de imediato, surgiram notícias sobre as deficiências técnicas do aparelho russo, atribuindo-lhes a causa próxima da colisão. Esta história acabou ainda pior porque o controlador pessoalmente responsável acabou assassinado pelo marido e pai de três vítimas do acidente.

Agora, no seguimento da colisão entre dois aparelhos sobre a selva amazónica no Brasil onde, felizmente, um dos aparelhos conseguiu aterrar, já apareceram comentários oriundos da parte do aparelho sobrevivente, tentando transferir as responsabilidades para o deficiente controlo aéreo brasileiro, já prontamente desmentidas por ele que aponta os (bons) resultados da segurança aérea registados no seu espaço aéreo.

Se a tradição se mantiver, apresentando assim conclusões precipitadas sustentadas em argumentos sobranceiros sobre o subdesenvolvimento alheio, não me surpreenderia mesmo nada que se viesse a concluir que tivesse sido precisamente esse aparelho o responsável pela catástrofe…

05 outubro 2006

UM PROBLEMA FILOSÓFICO

Se calhar, será culpa minha – e também de um muito medíocre professor de filosofia que tive no Colégio Militar – a dificuldade com que as minhas apreciações aos princípios doutrinais teóricos apresentados por José Pacheco Pereira (que até é licenciado em filosofia) correspondam depois às apreciações que faço aos exemplos a que recorre para expor a sua teoria. Vejamos este seu texto, desdobrado em duas partes, doutrinal e exemplificativa, que publicou no seu blogue:

O grau de proselitismo político na nossa comunicação social está tão embrenhado, é tão denso e tão habitual, a começar pela questão "americano-bushista-israelo-palestiniana-iraquiana", que já é difícil imaginar como seriam as "notícias" sem ele. Seriam certamente mais notícias.
Exemplos: silêncios sobre o que se passa e é necessário fazer no Darfur, resultado de não se querer integrar o noticiário sudanês no contexto dos conflitos de origem islâmica; indiferença perante atentados como o de Mombai, também descontextualizado; conflitos húngaros entre o primeiro-ministro e a "extrema-direita", forma de diminuir a reacção contra um governante socialista; omissão do conteúdo do documento dos serviços secretos americanos publicado para mostrar como eram de má fé as fugas parcelares realizadas, etc., etc. Fecho rápido de assuntos, de tudo o que contraria as teses dominantes, ao mesmo tempo que se estica até ao limite tudo o que as reforça. É intencional? Muitas vezes nem sequer isso é. É como quem respira. Sempre o mesmo ar.

É que, se por um lado e na minha modesta opinião, lhe assiste razão na forma como descreve o enviesamento que as notícias internacionais muitas vezes contêm, com o que eu não estarei de acordo é em atribuí-lo, nem exclusiva, nem predominantemente, a causas internas, porque, comparando com as mesmas notícias quando publicadas em órgãos noticiosos estrangeiros, têm uma orientação muito semelhante, dando a entender que, muitas vezes, é já o noticiário das fontes que já assim vem preparado e que é mesmo assim – por inércia – que é transposto para os noticiários nacionais.

Só que, nos exemplos que depois aponta, José Pacheco Pereira não se pode esquecer que não é um cidadão qualquer, daqueles que quando pretende ser escutado pela comunicação social escreve uma carta ao director do jornal ou ao provedor do ouvinte esperando o seu bom acolhimento. E os exemplos que invoca podem cair-lhe em cima…

Exemplo? A propósito do desinteresse manifestado pelos atentados de Bombaim que menciona e, que me recorde, em todo o programa Prós e Contras da RTP, a propósito do terrorismo, onde José Pacheco Pereira participou com Mário Soares, ninguém os mencionou. Mas este ninguém inclui o próprio Pacheco Pereira! Mesmo que isso não tenha acontecido – não assisti a todo o programa... – a referência a eles terá sido negligenciável quando comparada com a dos outros atentados de Nova Iorque, de Madrid e de Londres…

Ora se, como conclui no seu próprio texto, a distorção já paira no ar, eu não quereria cometer a indelicadeza, mas teria de acusar todos os intervenientes no programa – incluindo o próprio José Pacheco Pereira – de, seguindo precisamente a sua ideia, já estarem todos irremediavelmente contagiados… Ou a lucidez só lhe regressa em casa, quando se senta para escrever no teclado?

OS PÁSSAROS

Estes pássaros, que não têm nada a ver com os de Hitchcock, foram vistos a voltear até finais de Junho em cima de Freitas do Amaral, depois, contentes, passaram o pino do Verão por cima de António Costa, que parece ter conseguido enxotá-los, e na reentrada de Setembro foram vistos voando alternadamente hesitantes por cima das cabeças de Manuel Pinho, de Maria de Lurdes Rodrigues e de Correia de Campos, até se concentrarem neste último. Até passarões dos mais pesados parecem ter-se juntado mais recentemente ao bando...

O 1º TORNEIO INTERNACIONAL DO ALGARVE

No tempo em que éramos saloios e a culpa era do professor Salazar porque nos queria orgulhosamente sós, é que se organizavam torneios internacionais com a participação da nossa malta do costume mais dois espanhóis pindéricos que se tinham ido arranjar a Huelva e a quem, ainda por cima, se tinham de pagar as viagens e a estadia. Saía mesmo caro estampar o nome de internacional no acontecimento...

Agora, estamos muito mais evoluídos e o professor Salazar já morreu, mas o que é lá de fora continua a ter uma outra categoria, veja-se a ressonância produzida por um artigo manifestamente superficial e descaradamente parcial entretanto aparecido no Financial Times, onde se critica a conduta e as decisões da nossa Autoridade da Concorrência (AdC), a propósito da OPA lançada pela Sonae sobre a PT.

Como já havia acontecido a propósito da OPA do BCP sobre o BPI, onde subitamente aparecera um artigo no Wall Street Journal criticando as remunerações excessivas dos administradores do BCP (a propósito como andará essa OPA?), os nossos especialistas em comunicação já se devem ter apercebido desta nossa faceta labrega e preferem mandar os seus recados via jornal estrangeiro, para lhes conferir mais seriedade…

04 outubro 2006

TV NOSTALGIA – 15




Os sois mega sucessos televisivos de 1977 parecem servir como um perfeito exemplo do que acontece a uma sociedade que se andou a levar demasiado a sério durante demasiado tempo. E aqui o tempo demasiado compreende um par de anos (ou pouco mais) muito intensos. E a solução passou pela procura de caras novas e entretenimentos ligeiros e diferentes, que isto de ter consciência política e não ser alienado também acaba por cansar…

São os denominadores comuns da telenovela Gabriela e do concurso A Visita da Cornélia: novos protagonistas (vindos do Brasil ou do meio do público) e temas que não fossem de exploração política partidária. Ambos se tornaram em ícones de popularidade e referências de todos os futuros programas de televisão que muito dificilmente se poderão vir a superar, não por deficiência dos novos programas, mas porque aquela receptividade existente na sociedade nunca mais se repetirá.

METADE DO PROBLEMA

Num artigo de opinião que é publicado hoje no Público (p.8), o médico José Manuel Silva pronuncia-se acerca da questão, recentemente levantada pelo governo, das competências dos membros da sua classe emitirem atestados - o artigo referido chama-se até O atestado. Descrevendo sucintamente a sua opinião, que é retirada do resumo inicial do artigo:

Eticamente é incompreensível e inaceitável que um médico possa observar e medicar um doente mas não possa atestar validamente essa mesma doença! Se o argumento aduzido pelo governo é equiparar as regras dos funcionários públicos às vigentes para o regime geral, por que não faz exactamente o inverso?

Identificando-se o autor no final do artigo como presidente da secção regional do centro da Ordem dos Médicos é compreensível que pareça que o teor do mesmo procure dar alguma consistência à linha de argumentação apresentada pelo Bastonário recentemente, a propósito de notícias do elevado absentismo com recurso a atestados sem justificação clínica.

Se bem recordo, nas declarações que Pedro Nunes produziu na altura, procurou inocentar as suspeitas de má conduta de alguns dos seus colegas ,sobre quem pesaria a suspeição de emitirem falsos atestados, desdobrando-se em considerações sobre a dificuldade em se aferir a seriedade das queixas que os pacientes apresentariam…

Todo aquele processo, que me pareceu evidente, de inocentar os seus colegas clínicos de quaisquer responsabilidades por má prática, afigura-se agora complementado por este artigo, onde o autor aponta diversos inconvenientes técnicos e administrativos à actividade da passagem de atestados, acabando até em sugestões para simplificar o sistema.

O que, sendo muito importante, me parece ser apenas uma metade do problema. Porque se o sistema já está pesado e o Governo está a procurar uma solução seguindo no caminho errado (usando mais atestados), como parece ser a opinião daquele responsável da Ordem, algumas das razões para isso também se podem ir buscar á liberalidade com que os seus colegas atestam, por sua honra…

É que, se o fizessem apenas nas condições devidas e não se pusessem com liberdades interpretativas da funcionalidade do atestado ou se ousassem seguir a via mais difícil de se negarem a fazer o jeitinho ao doente (afinal de contas, de quem é a honra invocada?), mais facilmente se evidenciariam os absurdos burocráticos de todo o processo dos atestados.

Ou isso ou, então, o sancionamento superior para quem usasse e abusasse da prática de passagem de atestados, que está a cargo da Ordem dos Médicos. Mas sobre isso, como também já acontecia nas declarações anteriores do Bastonário, é que este artigo é completamente omisso. E, como se costuma dizer, de um silêncio ensurdecedor….

TV NOSTALGIA – 14



O meu primeiro ídolo televisivo era aquele boneco à esquerda, chamava-se Dói-Dói, pretendia ser um cão, tinha uns diálogos bem conseguidos mas uma expressividade muito limitada (nos momentos de angústia punha as patas de cada lado da cabeça, escondidas pelas orelhas compridas), para não falar do detalhe da expressividade fisionómica, onde rivalizava com a cara do sarcófago do Tutankhamon…

O Dói-Dói aparecia num programa Passatempo das Cinco, que passava ao Sábado, à hora referida, cuja música – de tipo circense - do genérico ainda recordo e tinha uma apresentadora, um momento de ginástica (?) para os putos e onde já aparecia um puto a apresentar umas partes chamado… Júlio Isidro. Como ícone e como recordista omnipresente na RTP, qual Sousa Veloso, qual quê!...

Deve ter sido dali que fiquei com o hábito de eleger bonecos como ídolos televisivos (basta reparar na figura que ilustra os comentários do Herdeiro…) Os Marretas (Muppet Show) parecem-me ter sido uma espécie de ovo de Colombo, ao criar-se um programa cómico e de variedades com bonecos, mas dedicado ao público adulto. Como tal, as personagens tinham que ter uma inesperada densidade psicológica (para bonecos…).

É curioso como a grande maioria dos espectadores da série acabou por desenvolver maiores simpatias por esta ou aquela personagem (Cocas, Miss Piggy, Fozzie, Gonzo, etc…), num género de escolha que normalmente era múltipla (gosto deste e deste e mais deste) e que podia dizer muito mais sobre a personalidade do espectador que os escolhia do que propriamente sobre a dos bonecos, necessariamente simples...

03 outubro 2006

RETOMAR BAFATÁ AO PAIGC - 1

Nota: Esta peça de ficção foi elaborada há já mais de um ano, muito embora creia que a antecipação da evolução da situação militar no Iraque a tenha conseguido manter actual.

Esta é uma história que só muito improvavelmente poderia ou poderá vir a passar-se. Para a desencadear, nos seus preâmbulos, nem sequer é necessário ter muita imaginação: pense-se num pequeno país africano (a Guiné-Bissau, para que nos seja mais familiar), que seja governado por um Presidente autoritário e onde todo o aparelho de estado colapsou, mostrando-se incapaz de assumir as suas responsabilidades para com a população.
Continuemos a imaginar que a doutrina das Relações Internacionais já se havia começado a tornar mais tolerante a que certos países da comunidade internacional, perante determinadas circunstâncias e com a devida caução da ONU, pudessem ser passíveis de intervenções do exterior invocando razões humanitárias ou perante a constatação evidente do desaparecimento das funções administrativas do estado.
Se o país em questão fosse a Guiné-Bissau, é natural que, como forma de contrariar a abafante influência francesa na África Ocidental, Portugal se tivesse sentido na obrigação de ser ele a patrocinar e liderar a task-force que interviria na Guiné-Bissau suportada por uma resolução da ONU. Também será conveniente para os nossos pressupostos iniciais que os traumas do passado colonial já houvessem sido quase ultrapassados e que o envolvimento da antiga potência colonizadora até fosse considerado como um aspecto vantajoso nas tarefas de reconstrução da administração do país intervencionado.
Importa também referir que as resoluções da ONU desta outra incarnação autorizam a deposição das autoridades existentes e a criação de uma autoridade multinacional de transição que ficasse encarregue do restabelecimento das estruturas administrativas, à semelhança da que vigorou, por exemplo, em Timor-Leste.
Os exemplos actuais do que está acontecer na Somália, na Libéria ou na Costa do Marfim demonstram que este esforço imaginativo foi maior na criação de uma nova doutrina de direito internacional do que na descrição das condições em que encontram alguns países africanos. Já agora, para o retrato do hipotético Presidente despótico a figura de Robert Mugabe, do Zimbabwé, poderá servir de referência.
Num esforço ainda mais empenhado de imaginação, vamos admitir que Portugal dispõe naquela altura de umas forças armadas profissionalizadas onde, nos últimos anos, se havia procedido a um programa bem sucedido de reequipamento, à medida das unidades de 1ª linha do exército norte-americano. É preciso não esquecer que quaisquer outros compromissos militares no exterior onde Portugal estivesse envolvido já tinham sido ultrapassados (Kosovo, Bósnia, Timor, Afeganistão) e que, estando completamente desobrigado de qualquer outro compromisso, pôde destacar um corpo expedicionário para a Guiné-Bissau rondando os 9.000 homens.
Desnecessário será dizer que o presidente guineense se oporia frontalmente à missão da ONU, só que a capacidade militar das suas forças armadas[1] para se opor ao desembarque do corpo expedicionário seria praticamente nula. No cais do Pijiguiti as equipas de reportagem da SIC e da TVI apareceram vestidas com os seus melhores camuflados, comprados nas lojas do Coronel Tapioca, para uma operação militar cujas maiores dificuldades couberam à engenharia e consistiram em repor em funcionamento os guindastes de descarga do material.
Outros colegas de profissão que optaram pela reportagem no aeroporto de Bissalanca também não tiveram muito mais sorte, transmitindo imagens de helicópteros pesados de transporte de pessoal largando soldados encarregados de criar um perímetro de segurança. Comentando desde Lisboa, e à falta de acontecimentos relevantes, Nuno Rogeiro falaria dos méritos da nova arma individual recém-adquirida pelo Exército português bem como da autonomia e da capacidade dos novos helicópteros da Força Aérea.
Nem a ocupação dos quartéis por parte das tropas portuguesas se tornou motivo de reportagem, a não ser pelo aspecto caricato. Os elementos mais activos que restaram dentro dos quartéis eram as aves das capoeiras, como que restos de um exército onde as praças já não recebiam há três anos e os graduados há dois. Armamento haveria com certeza, disperso e escondido pela cidade, o material que lá restava era aquele estava inoperacional.
A UNAMGB (United Nations Assistance Mission – Guinea Bissau) conjugava duas vertentes: por um lado o corpo expedicionário português estaria encarregado de assegurar as condições de segurança para que um outro corpo de funcionários civis da ONU (sendo a maioria deles de países pertencentes à CPLP, por causa do domínio da língua portuguesa) procedesse à formação de quadros visando a reinstalação de uma administração operacional na República da Guiné-Bissau. No âmbito desta última vertente contava-se também as negociações com os partidos políticos guineenses.
A descrição da situação política da Guiné-Bissau era, como também é o caso da sua distribuição étnica, complexa. O partido do presidente, o histórico PAIGC, baseava a sua implantação junto da população mandinga e manjaco (a adição das duas etnias representaria um pouco mais do que 25% da população total da Guiné-Bissau); os balantas (que seriam cerca de 30% da população) davam a sua aliança ao PRS; entre os dois blocos, como os fieis da balança nas raras ocasiões em que, no passado, a posse do poder se decidira pela via eleitoral, estavam os fulas (uns 20% da população), que eram considerados como antigos apoiantes da potência colonial e que ainda eram episodicamente estigmatizados por isso. O restante desdobrava-se por outras etnias com menor representatividade (os papéis, por exemplo, estimava-se que seriam uns 7% da população[2]), por uma pequeníssima elite urbana de grande visibilidade junto das potências externas mas de escassa influência efectiva junto das populações rurais e por uma crescente população urbana cada vez mais desenraizada das suas filiações étnicas de origem.
Competia ao corpo expedicionário português, assumindo o carácter benigno de que se revestiria a intervenção na Guiné-Bissau, montar um dispositivo, com base nos seis batalhões que o constituíam, que assegurasse as condições de segurança à estrutura civil da UNAMGB e à nova estrutura administrativa emergente.
Havia quem, entre os portugueses, se mostrasse apreensivo quanto à exiguidade dos efectivos do corpo expedicionário, recordando o período colonial, quando o dispositivo português chegara a atingir os 18 batalhões[3] em quadrícula (o triplo do que aconteceria agora) e onde os efectivos chegaram aos 42.000[4], contando com as próprias tropas de recrutamento local. Para os portugueses, a Guiné havia sido um Teatro de Operações traumático, com vários episódios menos felizes, onde o poder de fogo das unidades da guerrilha podia superar o das unidades equivalentes do seu próprio exército.
Só que os tempos e as condições haviam mudado substancialmente em relação àquele período. Desta vez quase tudo era diferente. As diferenças podiam agrupar-se entre aquelas que eram de carácter geral e as de carácter estritamente militar. De entre as mencionadas em primeiro:
a) A missão era explícita e estaria limitada no tempo. Embora o calendário fosse flexível, não se correria o perigo de ficar atascado numa situação para cuja solução não se tinha um fim à vista, como ocorrera previamente.
b) Podia contar-se com a boa vontade das populações. As informações recolhidas apontavam para um mau estar geral devido ao impasse da situação política. Desta vez, não haveria necessidade de classificar as etnias entre as mais ou menos permeáveis à subversão. Ir-se-ia desalojar um pequeno grupo dirigente que não tinha qualquer apoio popular.

E de entre os aspectos militares convém salientar:
c) As forças militares eram agora compostas totalmente por profissionais. Na eventualidade de se tornar necessário empenhar as forças em acções de baixa ou mesmo de média intensidade, a sua preparação e a sua motivação eram incomensuravelmente superiores às das unidades de conscritos da época colonial.

d) Ainda por cima dispunham de um poder de fogo e de uma mobilidade que teriam sido impensáveis nos idos anos de 60 e 70. Desta vez seria preciso que o inimigo dispusesse de material bem mais sofisticado do que mísseis SA-7 para alterar as condições tácticas. Para mais, a mobilidade e o poder de fogo confeririam às unidades a capacidade de serem simultaneamente unidade de quadrícula e de intervenção, contornando o problema aparente da escassez de efectivos.
Mas estes seriam cenários que se colocariam muito remotamente. Antecipando outras hipóteses de conflito e como factor de dissuasão para alguma ameaça de carácter mais convencional por parte das forças armadas dos estados vizinhos também houve o cuidado de estacionar uma esquadrilha dos finalmente remodelados F-16 em Bissalanca. Ao seu lado na base, o Exército podia finalmente estrear em condições operacionais o seu Grupo de Aviação Ligeira.
[1] Com uns efectivos totais estimados de 7.250 em 2005 (6.800 no Exército, 350 na Marinha, 100 na Força Aérea) (L´État du Monde 2005)

[2] Dados sobre as etnias extraídos de Quid 2004, p. 1143. Outras publicações estimam valores ligeiramente diferentes (Atlas dos Povos de África, Jean Sellier, Campo da Comunicação 2004, p. 102). Mas todos são unânimes a reconhecer a complexidade étnica existente na Guiné-Bissau.

[3] Guerra Colonial, Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Editorial Notícias 2000, p. 153

[4] Idem, p. 15
(Continua)

RETOMAR BAFATÁ AO PAIGC - 2




(em continuação)

Conhecendo-se as condições geográficas da Guiné-Bissau, procurando dar maior relevo às missões da Armada Portuguesa, mas também por questões de comodidade logística, privilegiaram-se as localidades mais costeiras para as sedes dos batalhões do corpo expedicionário. Nomes de aquartelamentos que em alguns oficiais generais ainda lhes fazia recordar memórias vivas do seu tempo de subalternos: Bissau, Mansoa e Tite, na zona central, um outro triângulo mais alargado, próximo das fronteiras, composto por Ingoré, junto à fronteira com o Senegal, Catió, no Sul, próximo da fronteira com a Guiné, e Gabu, no Leste, a única unidade destacada francamente para o interior.
O processo de negociações entre as autoridades da UNAMGB e os variados representantes que se apresentaram como interessados na reconstrução começou a correr mal desde o início. Por um lado, o ostracismo a que foi votado o PAIGC, mesmo os seus elementos mais moderados que seriam os últimos resíduos da máquina estatal, levou a que os membros da organização e o que dela restava se passassem decididamente para a oposição.
Os fulas, que haviam sido os aliados preferenciais dos portugueses na época colonial e que haviam sofrido fortemente por isso depois da independência, preferiram desta vez adoptar uma postura mais cautelosa, não deixando, entretanto, de se prepararem para a fase posterior à da retirada da UNAMGB, formando as suas milícias, cujo treino e equipamento se foi fazendo de uma forma gradualmente mais descarada. Desta vez não seriam apanhados desprevenidos num eventual ajuste de contas.
Restando o PRS, o grupo da maior etnia guineense (balanta), faltava a todo o processo de negociações os participantes que lhe conferissem a representatividade necessária para que o processo previsto de transferência de poder da UNAMGB para uma administração local fosse eficaz.
Os primeiros incidentes desencadearam-se depois de uma enorme multidão se ter juntado procurando ser contratados pela UNAMGB. A informação era falsa, como depois se veio a provar, mas os boatos que correram, em que era sempre o outro grupo que era beneficiado pelas contratações, em detrimento daquele por onde o boato corria, ocasionou manifestações de protesto, que se transformaram rapidamente em conflitos inter-étnicos. Para os dominar tiveram que ser empregues as forças militares.
O PAIGC, aproveitando a situação, decidiu capitalizar a insatisfação gerada pelo impasse da situação política, reacendendo também as animosidades da época colonial contra os portugueses que constituíam as forças que asseguravam a segurança. As forças militares portuguesas começaram a ser atacadas quando em missão de patrulha, de uma forma esporádica, a princípio, depois de uma forma cada vez mais metódica. Os ataques ocasionaram as primeiras baixas e as autorizações para ripostar em quaisquer circunstâncias.
Os repórteres de TV passaram a ter cada vez mais motivos de reportagem até que a banalização dos incidentes os retirou do horário nobre das televisões. Seguiu-se depois a época alta dos repórteres integrados quando acompanharam várias operações que haviam sido montadas para a captura dos guerrilheiros: em Mansabá, em Farim e em Bafatá. O maior sucesso deste conjunto de operações foi a captura do ex-Presidente, que vivia escondido nos arredores de Gabu.
Ainda assim, os serviços de informações militares calculavam que as forças de guerrilha ainda contassem com cerca de 700 guerrilheiros e que estes se tinham vindo a especializar em acções de terrorismo urbano e em abater alvos seleccionados, sejam eles membros da administração civil da UNAMGB, sejam adversários políticos guineenses.
Estes últimos tinham vindo a responder expandindo as suas milícias. Os seus efectivos já se contavam por milhares. Embora não estivessem particularmente bem equipadas, a sua atitude em relação aos portugueses era, na melhor das hipóteses, neutral. Os conflitos entre as milícias tinham tendência para se multiplicar perante a ausência de qualquer força policial. Havia uma certa relutância em expor as tropas a eventuais baixas sofridas em acções de interposição entre contendores. Importado da cena internacional, nem mesmo o factor religioso estava ausente do xadrez político da Guiné-Bissau, onde se mistura uma substancial minoria muçulmana (cerca de 45% da população) com uma outra metade que professa as suas religiões tradicionais[1].
Em Lisboa, os responsáveis financeiros ensaiam soluções para transferir a maior parte dos custos da UNAMGB para a ONU, os militares tentam descortinar a forma de conseguir proceder à rotação das forças destacadas na Guiné-Bissau e os políticos procuram achar a fórmula diplomática mágica que permita a Portugal retirar-se da aventura guineense sem perder a face.
No Quartel-General de Bissau, onde reinam as preocupações para se manterem abertos corredores por onde se possa proceder ao reabastecimento terrestre dos aquartelamentos do interior, está-se a montar mais uma operação para retomar Bafatá ao PAIGC… pela terceira vez.
Antes que toda esta ficção acabe numa derrota clamorosa para os portugueses, permita-me o leitor terminá-la por aqui. Em África, já basta Alcácer Quibir. Também não terá sido justo criar mais vicissitudes ficcionadas para o povo da Guiné-Bissau, que as tem vivido bem reais.
Se algumas das situações que foram descritas até podem transmitir qualquer coisa de familiar ao leitor, haverá outras que lhe poderão parecer absolutamente inverosímeis: forças armadas portuguesas sem quaisquer carências de material? Desde quando?
A verdade é que toda a narrativa anterior não é uma ficção total, trata-se antes uma adaptação. As forças militares portuguesas na Guiné-Bissau reproduzem à escala e com as necessárias adaptações pontuais a actual intervenção norte-americana no Iraque.
É evidente que, à primeira vista, quase tudo separa o Iraque da Guiné-Bissau. Em primeiro lugar e em lugar de destaque os recursos petrolíferos. Depois a História. A Mesopotâmia foi um dos berços da civilização. Bagdade foi capital do Califado árabe. A sociedade iraquiana é profundamente mais sofisticada do que a da Guiné-Bissau. Mas também se tornou imperioso escolher um país bastante mais pequeno para tornar credível a intervenção de um país da dimensão de Portugal.
É também evidente que foi bastante forçado atribuir às forças portuguesas uma riqueza em meios materiais que, perante a situação actual e perante a tradição histórica, até pode ser considerada irónica.
Quanto às cláusulas especiais de um novo Direito Internacional que serviram para cobrir legalmente a intervenção portuguesa, elas tornam-se dispensáveis quando se trata do caso dos Estados Unidos. Por muito que isso desagrade aos seus rivais mais directos, são eles que criam as suas próprias cláusulas.
Mas ver as coisas a decorrerem a uma escala mais pequena, envolvendo o nosso país, dá-lhes um toque como se fosse mais íntimo e uma melhor compreensão de como certos episódios se tornam absurdos.
A descrição do desembarque do corpo expedicionário português em Bissau não corresponde a qualquer acção no Iraque mas à que ocorreu em Mogadíscio, na Somália, enquanto a cena do aeroporto se inspira nas imagens transmitidas durante a chegada das primeiras forças australianas a Dili.
Mas a situação política é decalcada da situação iraquiana com o PAIGC a fazer o papel do Partido Baas dos Sunitas, os fulas e os balantas a aparecerem respectivamente no lugar dos curdos e dos xiitas. O Presidente é, evidentemente, inspirado na figura de Saddam Hussein, com o retoque de Mugabe, que mencionámos antes.
Os efectivos nomeados, bem como as unidades envolvidas, estão em proporção geográfica e demográfica aos que existem actualmente no Iraque. As esquadrilhas de F-16 norte-americanas também lá estão para intimidar a vizinhança síria e iraniana.
Usou-se de alguma liberdade na escolha dos locais de aquartelamento, mas a reconquista de Bafatá não é mais do que uma metáfora das sucessivas reconquistas de Fallujah ou de Tall Afar por parte dos marines norte-americanos.
São essas reconquistas sucessivas de territórios supostamente já pacificados que não deixam de ser um prenúncio de uma situação militar que se pode considerar melindrosa. Se os norte-americanos perderem a guerra, ou se se vierem embora para evitarem estar lá quando for a altura de a perder (o que estrategicamente dará no mesmo), isso acontecerá mais por erros próprios do que pela força da oposição com que tiveram de se defrontar.
Regressando à parte ficcionada, o que a tornou menos credível, foi a descrição da condução política do processo, conjugado com o esforço para criar um ambiente de ausência de qualquer empatia entre as tropas portuguesas e a população local.
No que diz respeito a este último aspecto, os portugueses e os guineenses terão sempre a língua comum e, mesmo na ausência dela, haverá sempre o Benfica e o Sporting a fazer a ponte entre eles. É mesmo muito difícil imaginá-los encarando-se e ignorando-se mutuamente. Não está no feitio nem de uns nem de outros.
Os norte-americanos deixaram a sociedade iraquiana chegar à anarquia total durante a fase das operações; depois disso têm-se queixado da falta de intérpretes de arábico vindos dos Estados Unidos, e, já agora, mesmo as suas estrelas do basebol e basquetebol nada dizem aos iraquianos – ao contrário das estrelas de futebol, mas estas, por sua vez, os americanos não sabem quem são. Não deixaram saudades na Coreia, não deixaram saudades no Vietname, provavelmente não as deixarão no Iraque.
Quanto à condução política do processo desta ficção pode ser visto como um exemplo para estudo de como não se deve proceder em situações similares. Como talvez acontecerá no futuro com o original iraquiano onde se inspirou. Será desejável e útil para os norte-americanos é que os resultados desses estudos não venham a ser tratados da mesma forma que foram os estudos da Guerra do Vietname.
Também em Portugal se deve preservar e estudar os arquivos das campanhas coloniais. Feito o cômputo global, há observadores externos que pensam que nos saímos relativamente bem[2] delas. Para a nossa pequena história de ficção, fica a convicção que, com o know-how que ainda existe entre nós e que não devemos perder, a condução político-militar do processo ter-nos-ia evitado afinal ter que retomar Bafatá ao PAIGC.

[1] Quid 2004, p.1144.

[2] Contra-Insurreição em África, John P. Cann, Atena 1998.

É sempre refrescante ver alguém com capacidade de decisão mostrar arrependimento por uma decisão assumida no passado e corrigi-la. E quando essa atitude acontece na equipa dirigida por José Manuel Fernandes fico mesmo em vias de considerar que algo de quase milagroso se passou. Mas a verdade é que o Público reverteu a sua decisão de barrar os acessos às notícias on-line a quem não fosse assinante do jornal, uma decisão que é de saudar.

A esmagadora maioria das opiniões expressas, ainda que empíricas e mesmo que as da blogosfera fossem naturalmente suspeitas por conflito de interesses, indicavam que o fenómeno das vendas de jornais que fossem perdidas por utilização da versão on-line seriam negligenciáveis: quem comprava o jornal continuou a fazê-lo, quem ia à versão on-line, passou a ir à versão da concorrência ler as gordas.

Entretanto, nos últimos tempos, o Público tornou-se o jornal marreta da blogosfera, a recolher publicidade negativa cada vez que era feita referência a um artigo seu: link não disponível… Ao tornar a conceder o acesso ao pão-com-manteiga noticioso, mas apenas a esse e não aos artigos de opinião, se bem entendi as novas regras de acesso, o gesto ficou a parecer-me mais exuberante do que substancial.

Em tudo isto, há que saudar quem procurou subverter o sistema à sua maneira, como assinante que utilizava esse privilégio para pôr o conteúdo do jornal à disposição quem quisesse, que se deve sentir algo recompensado, numa altura destas. Se bem percebi as novas regras de jogo, foi uma meia-vitória e há que não desistir!

02 outubro 2006

TV NOSTALGIA – 13

Depois do meu poste anterior, escrevendo agora mais objectivamente e a sério – se estas expressões puderem fazer algum sentido quando referentes aquela série... – sobre Soap, é uma feliz coincidência que o cardinal 13 (do azar) da TV Nostalgia lhe tenha ido parar. Porque era uma série onde tudo acontecia e tudo o que acontece numa novela tem de ser mau, para chamar a atenção do espectador, tirando o casamento final mas aí também já não interessa nada, porque a novela está mesmo a acabar.

O que havia de peculiar em Soap – talvez um dos maiores segredos do seu sucesso – é que, no elenco de personagens, ninguém batia bem, o que impedia o tradicional processo usado nas novelas de identificação por simpatia do espectador com uma das personagens. A excepção era Mary Campbell, a única pessoa mentalmente sã de todo o conjunto, que lá estava como uma espécie de válvula de segurança para quem quisesse seguir aquela novela da mesma forma como se seguem as outras.

Mas, na minha modesta opinião, o grande segredo da série estava no domínio da técnica da escrita para televisão. No post anterior tive ocasião de recordar a forma impar como um episódio começava, usando uma qualquer palavra-chave, que era explorada até à exaustão, o que tornava ainda mais absurdas as peripécias já de si completamente absurdas que se haviam passado no episódio anterior, culminando no clímax: Confuso? Vai deixar de o estar depois de seguir mais este episódio de … Soap!

TV NOSTALGIA – Fora de Série


Se, num assomo de neocolonialismo protector, nos puséssemos a tecer considerações sobre a família de estados com quem Timor tem agora de conviver por pertencerem à esfera de influência australiana, há que reconhecer que os timorenses andam agora com companhias muito bizarras.

Imagine-se, como se pode ler numa notícia saída no jornal The Australian, que nas Ilhas Salomão (um dos tais estados vizinhos de Timor) é sobre o Attorney-General – cargo equivalente ao Procurador-Geral da República – que pende um mandato de detenção por acusações de pedofilia…

Mas atenção, o mandato foi emitido por um juiz australiano, porque o Attorney-General das Salomão é de nacionalidade australiana, embora de origem indo-fidjiana (as Fidji são outro dos estados vizinhos de Timor), muito embora o presumível crime tenha sido cometido em Vanuatu (mais um dos estados vizinhos).

Contudo, a execução do mandato, a pedido das autoridades australianas, efectuou-se num aeroporto da Papua Nova Guiné (ainda mais um dos estados vizinhos), numa escala técnica do avião onde viajava este famoso Attorney-General de que entretanto se perdeu o paradeiro.

Não ajuda à transparência do caso constar que o 1º Ministro das Salomão terá contado o seu homólogo da Papua Nova Guiné para que este desse um jeitinho…. E este deve ter dado porque o Ministro dos Negócios Estrangeiros australiano, Alexander Downer, já se pôs a refilar.

Dá vontade de rematar com a conclusão dos resumos iniciais dos episódios anteriores da série Soap: Confuso? Vai deixar de o estar depois de seguir mais este episódio de … Soap! Comparado com isto tudo, um país onde o presidente parece estar politicamente dominado pela patroa e onde parece ter dado golpes de estado contra o regime vigente parece até coisa trivial.
 
PS - Eu cheguei a contar que há um diferendo político sério entre o governo australiano e o das Ilhas Salomão? E que há possibilidades que o visado nesta história seja o chefe do governo das Salomão? Claro que há sempre a possibilidade de considerar que estejam manobras australianas por detrás de todas estas peripécias apenas como meras especulações, vide algumas reacções ao exemplo timorense de há uns meses atrás...

01 outubro 2006

TV NOSTALGIA – 12


De todas estas evocações televisivas esta deve ser uma das que me deu mais gozo pesquisar pois, como poderão imaginar, os meus conhecimentos de polaco não são muito abundantes e só a sorte me ajudou a lá chegar. A série evocada chama-se, no original, Czterej pancerni i pies, num verdadeiro espírito de sobriedade característico do realismo socialista, que foi respeitado na tradução portuguesa para Os Quatro do Blindado e o seu Cão.

É de origem polaca e data de 1966 embora, como é de prever, só tenha passado na RTP depois do 25 de Abril (1975). É uma história de guerra que, como o próprio título indica, envolve a tripulação de um tanque (um T-34 soviético, com o número 102 e alcunhado de Rudy) que combate contra os alemães numa unidade polaca conjuntamente com o Exército Vermelho durante a 2ª Guerra Mundial.

Destinado sobretudo a um público juvenil, a elaboração do argumento é escassa, envolvendo frequentes operações militares onde participa o blindado, os inimigos alemães são todos estupidamente maus e, por razões óbvias, tudo corre sobre rodas (ou sobre lagartas…) nas relações entre russos e polacos. O condutor do blindado é até de origem soviética, da Geórgia.

Mas, como qualquer escritor habituado a escrever sob censura, aqui e ali aparecem pormenores na história que mostram que nem tudo sempre correu bem entre polacos e soviéticos. Logo no início, o jovem protagonista (polaco) encontra-se na Sibéria onde mostra a sua habilidade caçando um tigre siberiano. Ora a razão mais provável para a sua presença ali seriam as deportações ordenadas por Staline em 1939…

TEMPO DE BALANÇO – 1

Todos nós já nos deparámos com situações em que alguém, que ficou petrificado na altura dos acontecimentos, depois constrói (muitas vezes convicta e convincentemente) um mito em que a acção apenas decorreu sem ele apenas por factores do acaso:
- Se vocês não me tivessem segurado – e ninguém segurou… – aí é que eu tinha…

Ora os comentários de Jorge Sampaio a respeito do célebre caso do envelope 9, embora cuidadosos como sempre, parecem indiciar uma atitude de quem teria feito diferente se as circunstâncias fossem outras: … quando fiz a minha intervenção, faltava um mês para o fim do meu mandato. Já se passaram seis meses e, entretanto, há um novo Presidente da República. Eu estou à disposição do senhor PR para lhe dar a minha opinião.

Sinceramente, para quem passou por aquele cargo em dois mandatos e por dez anos onde as coisas verdadeiramente importantes lhe passaram à frente do nariz – valerá a pena reevocá-las? - e os acabou a fazer apelos a quem ninguém prestava atenção nenhuma, é descaramento de Jorge Sampaio, para não falar já da deselegância para com Cavaco Silva, esta sua atitude que soa mesmo a:
- Havia de ser comigo… Porque quando era, foi o que se viu...

TEMPO DE BALANÇO - 2

Numa mini-série de televisão que por cá passou há cerca de uns 25 anos (Washington: Behind Closed Doors), grandemente inspirada na desagregação verificada no tempo da administração Nixon, havia uma cena que me marcou, onde um assessor presidencial chamado Hank Ferris (o actor Nicholas Pryor) era fortemente criticado por estar a desempenhar mal as suas funções, ao que retorquiu:

- Eu estou a fazer o melhor que posso!
- É isso mesmo que me preocupa, Hank. É precisamente isso que me deixa mais preocupado…

Tudo o que li a respeito da entrevista que Souto Moura deu ao semanário Sol – menos a entrevista propriamente dita, porque o referido semanário não me fez mudar de opinião quanto à dispensabilidade dos mesmos… - aponta para uma atitude fortemente indulgente e desculpabilizante na forma como analisa todo o seu desempenho à frente da Procuradoria-geral.

Falho de o poder criticar de uma outra forma, evoco aqui aquela cena porque ela representa na perfeição o espírito do comentário que julgo que Souto Moura deveria receber no seguimento da sua entrevista em que, por assim dizer, nos anuncia que fez o melhor que pôde:

- Não chegou, Dr. Souto Moura. Visivelmente não chegou e é por isso que já se devia ter demitido há muito tempo…

O SISTEMA

Declaração de interesses prévia: não sou do Sporting!

Durante anos, os dirigentes do Sporting, como Pedro Santana Lopes, José Roquette ou Dias da Cunha, insurgiram-se contra aquilo a que deram vários nomes, mas referindo-se sempre à estrutura de permuta de favores cujo centro era (ainda será?) o major Valentim Loureiro, conforme tem vindo a ser exposto – mas pouco comentado – com as fugas de informação associadas ao processo Apito Dourado.

Vale a pena destacar que, independentemente das simpatias de clube, o Sporting é, até agora, o único dos três grandes clubes cujos dirigentes têm saído impolutos das sucessivas denúncias originadas pela transcrição das conversas telefónicas escutadas, o que parece reforçar o valor e dar sinceridade à indignação sucessiva que os dirigentes leoninos manifestavam perante o que consideravam a falsificação dos resultados desportivos.

Convém dar um realce especial a este aspecto dos dirigentes desportivos que parecem estar isentos de nódoas, não só porque ele – estranhamente – não tem sido feito como merecia, nem apenas por o considerar absolutamente justo, mas sobretudo porque se começam a sentir argumentos desculpabilizantes sobre como, à falta de outros – honestos – que os substituam, temos que nos dispor fatalmente a viver com escroques - devidamente inocentados por questões constitucionais... - como dirigentes desportivos.