05 janeiro 2006

FRANCISCO LOUÇÃ

Creio existir uma peça, Os deuses têm sede, passada durante o período do terror da revolução francesa, onde um personagem referindo-se profeticamente a Robespierre diz que ele, sendo virtuoso, ao chegar ao poder tornar-se-á terrível. É uma expressão recorrente que nos surge sempre que observamos Francisco Louçã – há quem prefira a comparação com Savonarola, uma analogia diferente, mas com um retrato psicológico muito semelhante. Louçã nunca deve rir. Este sorriso nesta fotografia tem tudo de photomaton. Nem deve achar piada às piadas. Pode ser que as considere uma perda de rigor, se calhar é mesmo como Cavaco, nem sequer tem cócegas. Só faz rir involuntariamente, quando produz afirmações bem para além das fronteiras da seriedade, como aconteceu recentemente, ao afirmar que a disputa à esquerda da primeira volta das presidenciais se fazia entre ele e Soares. Por isso, o resto do poste será sério. Como já alguém disse, Louçã pode ser o mais novo dos candidatos presidenciais em disputa, mas não é certamente o mais inexperiente. Quando se estreou nas andanças políticas, um dos maiores dilemas de Cavaco era a língua inglesa e Jerónimo ainda devia saber afinar máquinas. É reconhecível que, sem lhe querer retirar mérito, Louçã sempre foi razoavelmente bem quisto entre a comunicação social. Sabia-se que tinha sido um aluno brilhante, que havia ganho um Prémio nacional em 1973. Curioso é que, sendo um prémio anual, a comunicação social nunca se tenha lembra de dar destaque idêntico a outros vencedores*. São pormenores como esses, num pequeno partido de extrema-esquerda radical, que se tornam fundamentais para a sua sobrevivência política; lembre-se a diferença, para a UDP, entre Acácio Barreiros (que tinha piada e uma boa imprensa) e o seu sucessor, Mário Tomé (que não tinha nem uma nem outra). A ascensão do partido trotskista de Louçã deu-se ao longo da década de 80. Era de bom tom entre os partidos verdadeiramente revolucionários concorrer às eleições burguesas com listas onde os candidatos se alinhavam alfabeticamente, numa manifestação de algum desprezo pelo processo. Mas no partido de Louçã essa regra era quebrada excepcionalmente para lhe dar o lugar de cabeça de lista, reatando-se depois a sacrossanta ordem alfabética. Na remota hipótese de alguém ser eleito, seria Louçã. Esteve quase para acontecer em 1991. Louçã foi o primeiro candidato a ficar de fora, à beira da eleição, mas como houve um boicote eleitoral numa freguesia, poderia haver a hipótese de, com uma votação maciça no seu partido nessa freguesia, desalojar um dos candidatos do PSD. E foi ver Louçã, um dos mais revolucionários, a dissuadir a população da freguesia de repetir um gesto verdadeiramente revolucionário – um boicote eleitoral – e a pedinchar, qual mísero político burguês, uns votos para um assento parlamentar. O povo deu a Louçã a verdadeira resposta revolucionáriamarimbou-se para ele – mas, no campo dos princípios que tanto evocava e repetia, o episódio foi particularmente esclarecedor. Só passados oito anos, com uma bem montada agregação da extrema-esquerda à volta de um novo nome (Bloco de Esquerda) e um novo símbolo (um verdadeiro restyling), é que Louçã se tornou finalmente deputado. É agora uma teoria tentadora ver nesta fase da ascensão final de Francisco Louçã uma coreografia de uma grande disputa entre si e Paulo Portas, como duas faces da mesma moeda. São coreografias testadas, que o povo e, por arrasto, a comunicação social adoram: foi Simone de Oliveira e Madalena Iglésias, Joaquim Agostinho e Fernando Mendes, Mário Soares e Álvaro Cunhal, Carlos Lopes e Fernando Mamede… Só Louçã poderia ter calado Portas (porque o calou…) na famosa discussão sobre o direito à vida, porque Portas nunca teria a certeza onde terminaria a acutilância de Louçã numa escalada argumentativa entre os dois. Como Portas também não tem qualquer pejo em esmigalhar com o senso comum a argumentação politicamente-correcta-irrealista de Louçã. Inteligentes, ambiciosos e implacáveis, o script de Louçã na comunicação social tem sofrido pela ausência do seu compére, momentaneamente retirado. Mas se tivesse de fazer apostas para a política portuguesa da próxima década, há que contar com aqueles dois. É que eles são dos que nem precisam dizer que vão andar por aí… 

* Por exemplo, quantos saberão que a Ministra da Ciência do Governo de Santana Lopes (Graça Carvalho) foi a vencedora do mesmo Prémio no ano anterior (1972)?

4 comentários:

  1. Respostas
    1. O Francisco Louçã é um homem íntegro, inteligentissimo, sereno e tem um discurso fluente e extremamente claro e lúcido. É um Professor (e bonito, ainda por cima) Ouço o sempre e aprendo imenso com ele 😍

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  2. Francisco Louçã é um homem íntegro, inteligentissimo, sereno, educado e ainda por cima é bonito!! Ouço - o sempre e aprendo imenso com ele - é um Professor!! 😍

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  3. a) teria sido mais interessante que o(a) autora(a) dos dois comentários se tivesse identificado.

    b) teria sido passível de resposta se o comentário tivesse incidido sobre o que aqui escrevi a respeito de Francisco Louçã em vez de ser uma profissão de admiração, como se ele fosse uma estrela do «rock n'roll».

    c) e finalmente vem a questão da oportunidade em que o comentário foi escrito. Mesmo admitindo que ele era «bonito» em Janeiro de 2006 (quando o comentário foi escrito), decerto concordamos todos que já se «estragou um bocadinho» de há 16 anos(!) para cá...

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