19 outubro 2009

UMA QUESTÃO DE SUPREMACIA...

Nova Iorque 1997 é um filme de John Carpenter, escrito em 1976 e filmado em 1981, quando 1997 era ainda uma data longínqua. Nesse cenário futurista, Nova Iorque transformara-se numa gigantesca prisão onde se criara uma sociedade auto-regulada dentro de muros e onde, acidentalmente, se veio a despenhar o avião do presidente dos Estados Unidos. O resto da história não nos interessa para a continuação deste poste, mas o que quero destacar é a ideia implícita naquele enredo onde, mesmo que o Estado tivesse abdicado dos seus direitos de regular detalhadamente o modo de vida dos seus marginais, remetendo-os para um gueto, estes permaneciam num patamar tecnológico controlado, já que não conseguiam interferir com o que se passava no seu espaço aéreo.
Quando rebeldes ao poder estabelecido se mostram capazes de interferir em áreas que até então lhes haviam sido interditas, como é o caso do espaço aéreo, o acontecimento tem um impacto significativo na percepção da ameaça que eles passam a representar. Aconteceu em 1973, na Guiné portuguesa, quando o PAIGC, recorrendo aos mísseis SA-7, se mostrou capaz de poder abater qualquer aeronave da Força Aérea portuguesa, aconteceu em 1978, na Rodésia, quando a ZAPU, recorrendo à mesma arma, se mostrou ser capaz de interromper o tráfego aéreo civil (acima) sobre o país (o actual Zimbabué), e voltou a acontecer em 2009, quando os traficantes de uma favela do Rio de Janeiro, recorrendo a metralhadoras pesadas, abateram um helicóptero da Polícia Militar que os sobrevoava.
Convém esclarecer que qualquer dos episódios teve e tem muito mais importância mediática do que militar. Em qualquer dos casos passados, os flagelados passam a adoptar tácticas de voo e contra medidas para que as aeronaves se evadissem ao fogo anti-aéreo. A aviação militar rodesiana já não foi apanhada de surpresa como o fora a portuguesa e foi por isso que a ZAPU teve que atacar a aviação civil. Da mesma maneira, a Polícia Militar brasileira terá que reagir à ameaça, adoptando novas tácticas de voo, que até já são conhecidas de há muito. Mas terá os seus custos políticos, se a sua frota aérea tiver de passar a operar em grupo, com unidades especializadas em reconhecimento e em ataque ao solo, conforme acontece na famosa cena da Cavalgada das Valquírias do Apocalypse Now

18 outubro 2009

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES...

Se, como vimos no poste anterior, a juventude dos anos 60 e 70 acreditava em paraísos, mesmo que eles se localizassem na Albânia, a destas duas últimas décadas parece ter perdido não só a capacidade de acreditar em paraísos como a de conceber abstractamente como é que eles poderão ser. Nos tempos da Albânia (acima) a juventude militava em prol de sociedades absurdas, mas os disparates da juventude actual são concretos e consistem em furarem-se até as orelhas se transformarem num expositor de uma joalharia ou duma casa de ferragens (abaixo) ou tatuarem-se até se tornar plausível valer a pena serem emoldurados
Mais do que da juventude, creio que se trata de uma tendência geral da nossa sociedade actual, que deixou de cultivar e valorizar a abstracção. Hoje, o que existe, tem de ser concreto. Num Centro Comercial deparo-me com um barraca de uma organização chamada A Vida é Bela, que anuncia vender experiências, que vão desde uma prova de vinhos até um fim-de-semana a dois numa pousada. A ideia em si é boa, não sei se chegará a vingar como negócio, mas o que me deixou surpreendido foi como a experiência, antes de ser experimentada, tem de ter uma existência física através de um espampanante voucher como o da gravura abaixo…

17 outubro 2009

ALBÂNIA, A VANGUARDA DO SOCIALISMO

Não deixa de ser um enorme paradoxo que só depois do fim do socialismo e com o triunfo do capitalismo global (a tão celebrada e criticada globalização) é que eu tivesse tido oportunidade de assistir a alguns dos momentos mais memoráveis de celebração do verdadeiro socialismo de vanguarda, também designado modelo albanês, de que a UDP (União Democrática Popular) tanto nos falava elogiosamente no tempo do PREC.
Prosaicamente retirado dessa expressão do capitalismo internacional selvagem que dá pelo nome de You Tube, pode ver-se acima a primeira parte de um vídeo de cerca de hora e meia que se percebe ter sido dedicado tanto aos guerreiros da revolução como também ao 5º Congresso do Partido Comunista da Albânia que teve lugar em 1966. Na minha opinião, o melhor vídeo é o último da série, o da sessão de encerramento
Embora não perceba albanês, creio já ter adquirido experiência suficiente a ver documentários deste género para ter uma ideia do conteúdo... E, sinceramente, não só não lhes reconheço mérito quando comparado com o que então era cá produzido (acima, para comparação, o vídeo da inauguração da Ponte Salazar também de 1966), como até penso que, em documentários de propaganda, a vantagem seria portuguesa(*).
Visto a esta distância é impossível não passar um atestado de menoridade mental ou então questionar a honestidade intelectual de todos aqueles entusiastas da UDP que, nos tempos do PREC, terão sido brindados com estas sessões de propaganda e, mesmo assim, continuavam a afirmar-se crentes nas soluções (acima) que eram propostas para as tais sociedades ideais, anti-capitalistas, anti-revisionistas e anti-outras-coisas-mais...
Escolhi terminar com um vídeo das celebrações do 1º de Maio de 1971 em Tirana. Luís Fazenda(**) ia então fazer 14 anos... Em Junho do ano anterior a Albânia resolvera abrir-se ao turismo mas limitado apenas aos cidadãos da Alemanha Democrática. Mas como o programa turístico incluía a participação obrigatória na campanha da colheita de batata, o período de inscrições aberto em Berlim terminou sem que aparecesse algum interessado…
(*) Contudo, como só a verdade é revolucionária, há que constatar que o camarada Enver Hodja tinha muito mais jeito para discursar do que o nosso almirante Américo Tomás...
(**) Luís Fazenda é o dirigente mais destacado da facção herdeira da UDP dentro do Bloco de Esquerda.

16 outubro 2009

VASCO´S CHRONICLES IN WONDERLAND

Na crónica de Vasco Pulido Valente de hoje do Público vem uma explicação a puxar assim ao sociológico, com a história de como se terá constituído o poder autárquico em Portugal depois do 25 de Abril, creio que não muito de acordo com o aconteceu, mas muito mais como Vasco Pulido Valente acha que podia ter acontecido: A história do domínio do PS e do PS (e, a sul do Tejo, também do PC) começa no PREC com o assalto às câmaras municipais dos partidos que estavam no governo. (…) Quem “entrou” nessa altura, nunca mais saiu. (…) O CDS, excluído da partilha original, e os partidos, como o Bloco, que vieram depois ficaram sem influência, nem dinheiro.
Há 5 dias tinha saído no mesmo Público uma breve história das eleições autárquicas desde 1976. Nas eleições autárquicas de 1976 (a tal partilha original), PS e PPD ganharam 115 câmaras cada, o PC ficou com 37 e ao excluído CDS couberam 36… Só por curiosidade, o excluído recebeu 16,61% da votação. Ou foi muita exclusão ou então as causas terão sido outras que não as apontadas por Vasco Pulido Valente. E já que se pede tanto da ERC porque não se pode fazê-la obrigar a que estas crónicas mirabolantes do Vasco possuam uma nota de rodapé? Esta é uma crónica de opinião baseada em argumentos que a possam sustentar – podem ser factos reais ou ficções do autor...

CONTRA-INSURREIÇÃO, Teoria e Prática.

O livro Teoria e Prática da Contra-Insurreição (abaixo) é um excelente livro, e vem acompanhado de uma história que está repleta de pormenores interessantes. Estes começam pelo facto da versão que li ser a tradução francesa de um original em inglês que se intitula Counterinsurgency Warfare, Theory and Practice. Desde 1964, data da edição original que o livro foi adoptado como um dos essenciais sobre aquele tema no Command and General Staff College norte-americano (onde ainda hoje é uma leitura do programa), conforme se pode ler no prefácio, que é assinado pelo conhecido General David H. Petraeus.
Tudo isto seria interessante mas não seria bizarro, não se desse o caso de David Galula (1919-1968), o autor do livro, ser um oficial… francês. Mas Galula também não era um daqueles franceses apreciados pela fracção da França tradicional, predominante entre as elites. De origem judaica, nascido na Tunísia e tendo passado a juventude em Marrocos, intelectualmente brilhante, David Galula terá tido por causa de tudo isso uma carreira militar acidentada (em 1941 chegou a ser expulso do exército por ser judeu), até se decidir a pôr-lhe termo em 1962, tendo então obtido uma colocação na Universidade de Harvard. Salvaguardando as poucas referências sobre o mesmo tema com as quais o possa comparar, este Manual surpreende-nos pela lucidez das análises e pela sua objectividade nos propósitos. Surpreende-me também que David Galula não seja autor conhecido entre nós(*) que também temos a nossa história sobre o assunto. Surpreendeu-me sobretudo pelo ano de edição, antes da escalada da Guerra do Vietname, reforçando-me a ideia que, também na Guerra, o segredo do sucesso não passa por ter grandes ideias mas por conseguir implementar as que se têm com sucesso. O que é uma adaptação do que disse Almada Negreiros:

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.

(*) Consultei uma fonte reputada no assunto.

O BOLO QUE NÃO ENGORDA

Se há uns dias me referi aqui às ostras e às nozes, socorrendo-me de um dos melhores momentos das aventuras de Astérix como exemplo para demonstrar o que considero a obtusidade que impossibilita algumas discussões sérias aqui na blogosfera, hoje será o dia de evocar um outro grande episódio dessas aventuras, o do bolo que não engorda, como evocação do descaramento de mentir à frente de todos e, ainda por cima, sobre um assunto óbvio, para depois pretender passar impune. Neste caso, mais do que na blogosfera, é sobretudo prática que abunda na política.

15 outubro 2009

A RETRACÇÃO E A “EXPANSÃO” DO PACTO DE VARSÓVIA

Ainda a propósito da grande cisão sino-soviética, vale a pena relembrar mais um daqueles pequenos aspectos a ela associados, a evolução que a composição do Pacto de Varsóvia sofreu e esteve quase a sofrer por causa dela. Tratando-se de uma Aliança Militar que fora constituída em Maio de 1955 (acima), com a participação original da Albânia, Alemanha Democrática, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética, era uma estrutura que estava naturalmente vocacionada para o teatro europeu (abaixo).
Com a adesão do Partido Comunista Albanês (abaixo) às teses chinesas no seu IV Congresso de Fevereiro de 1961, a retaliação soviética veio a exprimir-se quase de imediato através do bloqueio da admissão da delegação albanesa à reunião do Pacto de Varsóvia que teve lugar em Agosto de 1961. Para todos os efeitos práticos a Albânia foi expulsa do Pacto, muito embora o reconhecimento do facto só viesse a ter lugar, rodeado de imenso folclore ideológico, em Setembro de 1968. E mais nenhum partido irmão se dispôs a seguir o exemplo albanês...
Mas, apesar dessa demonstração de força, dentro do Pacto de Varsóvia reinava um equilíbrio mais precário do que aquilo que os norte-americanos estavam dispostos a propagandear e os soviéticos dispostos a reconhecer. Passados dois anos, consumada a ruptura sino-soviética às claras, os soviéticos mostravam-se dispostos a acolher a Mongólia como novo membro do Pacto de Varsóvia. Só que, entalada geograficamente entre a China e a União Soviética, a sua admissão mudaria o propósito original (anti-capitalista) do Pacto...
A Mongólia, país continental (ver mapa acima), só poderia ter como país agressor um dos dois com quem fazia fronteira: a União Soviética, com quem pretendia firmar um Pacto de defesa, e a China… E aí assistiu-se, na reunião do Pacto de Varsóvia de Julho de 1963, a polacos e romenos a demarcarem-se frontalmente da intenção soviética, no limiar da dissidência política que as circunstâncias então permitiam. A própria Mongólia resolveu suspender o seu pedido de adesão até as condições se mostrarem mais favoráveis: ou seja, nunca mais…
Vale a pena recordar este episódio, que comprova a determinação polaca e romena em não passar cheques em branco à superpotência do seu bloco e aos seus interesses no Extremo Oriente. Uma prova que, independentemente dos regimes políticos que possam reger os seus membros (comunistas ou capitalistas), as regras que norteiam a coesão destas Alianças militares são afectadas pelos limites dos interesses próprios dos membros. Uma lição que se deve tomar em consideração na avaliação da actual situação da NATO no Afeganistão…

14 outubro 2009

A GRANDE CISÃO SINO-SOVIÉTICA E A FESTA DO BOLINHA

A cisão entre as correntes soviética e chinesa no início dos anos 60 terá sido um dos acontecimentos maiores da história do marxismo-leninismo. Quem a viveu, tende a levá-la ainda hoje muito a sério. Mas também há quem, ao mesmo tempo, pretenda que nada aconteceu. A meio caminho entre essas duas posições extremas, e tentando ter um humor que nenhuma delas conseguirá provavelmente alcançar, vou aqui contar uma visão dessa cisão, embora obtida de uma certa perspectiva aligeirada: a dos Congressos.

Mas antes, convém explicar do que se trata: é que as regras de cortesia estabelecidas naquele tempo para os congressos dos grandes partidos marxistas-leninistas irmãos pareciam ser decalcadas das que ainda hoje se praticam nas festas de aniversário dos pré-adolescentes. O partido anfitrião (no papel de aniversariante) tinha que ser criterioso na questão dos convites, na atenção dada a cada convidado, em assegurar-se que tudo corria a contendo durante a festa (congresso), sob pena de sair mal visto do evento…

Ora aconteceu que, num dos momentos mais incandescentes da cisão sino-soviética, entre o final de 1962 e o inicio de 1963, concentrou-se a realização de cinco congressos de partidos irmãos, para os quais as regras de cortesia obrigavam a convidar tanto o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) como o Partido Comunista Chinês (PCC), que estavam não só em rota de colisão como em fase de contagem de aliados… O primeiro, a ter lugar foi a 5 de Novembro de 1962, o VIII Congresso do Partido Comunista Búlgaro
Foi logo uma vitória clara dos soviéticos. Wu Xiuquan e a sua delegação tiveram que jogar à defesa, abstendo-se de bater palmas quando os soviéticos o faziam, batendo-as nos tópicos controversos em que aqueles se mantinham quietos… A impressão final foi tão má que a delegação chinesa preferiu seguir logo para Bucareste na Roménia para fazer um ponto de situação antes de seguir para Budapeste na Hungria onde iria decorrer o VIII Congresso do Partido Comunista Húngaro a 20 de Novembro. Mas não havia bilhetes

Obtida esta resposta dos camaradas romenos, a delegação chinesa dirigiu-se aos húngaros que lhes arranjaram bilhetes num avião que, vieram eles a descobrir depois, até estava meio vazio… Mas a delegação chinesa não se mostrou particularmente grata pelo gesto, pois o discurso de Wu Xiuquan foi considerado mais agressivo ainda do aquele que fora proferido em Sófia. Até no próprio banquete de despedida houve um incidente e, novamente, a delegação chinesa foi convidada a partir para aguardar em Varsóvia o próximo congresso.

Entretanto, a 2 de Dezembro começara o XII Congresso do Partido Comunista Italiano, onde a delegação chinesa era dirigida por Zhao Yimin. Os dois congressos precedentes pareciam mostrar que havia um padrão de comportamento agressivo nos discursos dos comunistas chineses e a reacção dos soviéticos e, sobretudo, dos anfitriões italianos mostrou ser muito menos permissiva do que nos dois casos anteriores. Inclusive, o discurso de Zhao foi acompanhado de comentários desagrados da parte dos delegados na assistência.
Excepcionalmente e só por esta vez, os italianos vieram a ser batidos em exuberância pelos seus camaradas checoslovacos, pois no XII Congresso do Partido Comunista Checoslovaco cujos trabalhos se haviam iniciado entretanto a 4 de Dezembro e onde a delegação chinesa era chefiada pelo já nosso conhecido Wu Xiuquan, o discurso deste último veio a ser saudado com uma pateada acompanhada de assobios e vaias. Só mesmo os norte-coreanos é que se mostraram solidários com a má educação da assistência…

Quando começou o VI Congresso do Partido Comunista Alemão, em 15 de Janeiro de 1963, e apesar do discurso inicial surpreendentemente conciliatório de Khrushchov, já Wu Xiuquan possuía uma reputação e os metódicos alemães já haviam imaginado um dispositivo para lhe desligar o microfone. Que - claro! - teve que ser utilizado. Mesmo sem ele, Wu continuou a discursar até ao fim no meio das vaias da assistência e retribuiu depois, abandonando a cerimónia de encerramento enquanto se cantava a Internacional...

É verdade que a cisão sino-soviética representou muito mais do que uma sucessão de broncas em congressos, mas também é verdade que, considerando a analogia que acima tracei entre o cuidado que se dedicava às organizações desses congressos e o que os pré-adolescentes dedicam aos seus aniversários, uma boa forma de representar todos estes percalços ideológicos que aqui contei bem poderiam ser sintetizados através do vídeo (abaixo) de um sucesso musical brasileiro dos anos 60: A Festa do Bolinha

13 outubro 2009

A COELHINHA PLAYBOY DE AGOSTO DE 1996 (EDIÇÃO BRASILEIRA)

Sobre a recente polémica envolvendo Maitê Proença e a sua reportagem (que afinal foi feita e transmitida há dois anos...), apenas gostaria de lembrar que a faceta mais marcante da carreira de Maitê nunca será a reportagem, nem a representação, nem a escrita, nem sequer a componente social... Onde eu acredito que ela nos vai deixar uma recordação indelével na nossa memória colectiva é como balzaquiana apetitosa, como se comprova pela magnífica capa da Playboy de há 13 anos atrás, quando ela ainda tinha 38 anos, em que nos deixa a imaginar como seriam as tais 24 páginas espetaculares, todas naturalmente com Maitê ao natural. Nisso, a natureza foi generosa com ela...

Adenda de 27Jun2014:
Esta cena de Porta dos Fundos, com a protagonista nitidamente mais entradota, desvenda um novo horizonte na carreira de Maitê Proença: o humor.

O NOSSO "GARGANTA FUNDA" DO MOMENTO

Ontem, antes de me deitar, ainda tive oportunidade de ver na RTP1, creio que no Prós & Contras, uma animadíssima discussão envolvendo um punhado de directores de órgãos de comunicação social (Público, Diário de Notícias, Expresso) ainda a respeito da publicação do conteúdo daquele famoso fax detalhando a potencial ofensiva mediática promovida pela presidência da república contra aquilo que ela considerava ser uma intromissão na sua actividade por parte do governo por intermédio de um dos seus assessores. Creio que se trata de um assunto sobre o qual, quem estava interessado em extrair dali uma conclusão já o fez, mas, mesmo assim, o assunto parece continuar a ser pretexto para empolgadas trocas de galhardetes, como ontem se comprovou.

Porém, tendo eu também já uma opinião formada sobre o assunto, se já não compreendia parte da fundamentação original de quem mim de discordava, compreendo muito menos agora a sua insistência quando procuram continuar a tentar condenar de uma forma directa ou enviesada tanto a fonte como a decisão tomada pelo Diário de Notícias de publicar o conteúdo do e-mail enviado por Luciano Alvarez. Para o caso, creio que há que ponderar os aspectos negativos da divulgação de uma comunicação privada com os positivos do conhecimento público do seu conteúdo. E este último parece-me que tem um interesse público muito mais relevante do que fotogramas do vídeo de uma sessão de sexo tântrico envolvendo o arquitecto Tomás Taveira e uma prostituta de luxo(*)

As referências condenatórias à fonte que forneceu o e-mail ao Diário de Notícias (e, vim a saber ontem, também ao Expresso), fazem-me lembrar aquelas que então se abateram sobre Garganta Funda, a famosa fonte anónima que orientava as investigações dos dois jornalistas do Washington Post que investigavam o Caso Watergate e que, mais de 30 depois, se veio a saber tratar-se de um antigo vice-director do FBI, Mark Felt. Como sempre se suspeitou, as motivações de Felt nada tiveram de nobres e ele, objectivamente, comportou-se como um traidor para a administração de que então fazia parte, mas depois de se esgotarem as paixões políticas da ocasião, não ouvi muitas vozes que o acusassem quando a sua identidade veio a ser revelada há 4 anos atrás.
Contudo, o que o distanciamento temporal fez foi colocar na devida proporção o que os pecados cometidos por Felt valeriam quando em comparação com as consequências das suas denúncias: o conhecimento público de alguns traços de carácter de Richard Nixon, o presidente dos Estados Unidos, um homem que não olhava a meios para atingir os seus fins, que chegou a apagar pessoalmente passagens de gravações de conversas que havia tido e que o comprometiam por desmentirem depoimentos públicos que fizera sob juramento! Espero sinceramente que, no caso português, não se chegue tão baixo, mas o conteúdo do e-mailjamais desmentido! – tornou-se numa evidência de que se usam métodos sórdidos por parte da presidência na sua disputa política contra o governo.

O resto do que se queira acrescentar a esse respeito são trivialidades e irrelevâncias, como algumas que foram proferidas ontem no Prós & Contras. A reter que, se com isto, José Sócrates não conseguiu melhorar a sua reputação pública, já que a história de concluir licenciaturas a um Domingo tem imenso que se lhe diga..., pelo menos a até então reputação impoluta de Cavaco Silva ter-se-á vindo emparelhar com a sua. Quando se escreve, sobre a indigitação de Sócrates, que o Presidente não confia nele, nem enquanto pessoa, nem enquanto governante está-se, mais uma vez, a ter uma visão unilateral e facciosa da questão. Vendo de fora, ficámos a saber que nenhum deles confia no outro, que não há limites até onde poderão ir por causa disso e que nós não podemos confiar nem num, nem noutro…

(*) Alusão à publicação numa revista do final dos anos 80 dos fotogramas de um vídeo privado de Tomás Taveira que deu muito brado pelo sucesso comercial – a edição da revista esgotou-se ainda na manhã do próprio dia em que saiu – e pela condenação generalizada da prática do ponto de vista deontológico. Muito menos brado mediático teve a notícia, alguns anos depois, da condenação ao pagamento de uma pesada indemnização a Tomás Taveira por parte dos responsáveis pela publicação da revista. Segundo se veio a saber, o vídeo fora roubado, mas, por essa altura, a revista já deixara de se publicar.

12 outubro 2009

REBRANDING – O CASO DO BLOCO DE ESQUERDA

Rebranding é uma expressão em inglês do âmbito do marketing, que pretende traduzir a ideia de um processo através do qual um qualquer produto ou serviço que era produzido e/ou comercializado através de uma marca ou associado a uma determinada empresa passa a sê-lo através de uma nova marca ou através de uma outra organização. Quase sempre, essa transição envolve mudanças significativas na sua designação comercial, no seu logótipo, na imagem, na embalagem ou na publicidade. O objectivo é o de eliminar as conotações negativas que estivessem associadas a qualquer das características do produto ou serviço original…

Com a reputação de o detestar visceralmente, não sei como Francisco Louçã lidará com a subdisciplina do capitalismo que dá pelo nome de marketing… Uma coisa é certa: não se impressionando com as aparências e com os aspectos litúrgicos do seu discurso, o marketing, como se lê na definição acima, tem uma definição precisa da operação que ele, mais os seus correligionários da UDP e da Política XXI montaram há 10 anos para transformar três organizações marginais da extrema esquerda política portuguesa numa nova entidade, que se pretendia substancialmente desligada da carga de radicalismo associada a elas.
O sucesso da operação pode ser medido pela frase, colhida hoje ao acaso na internet, em mais uma tentativa de justificação do fiasco eleitoral que a organização teve nas eleições de ontem: Por outro lado, tratando-se de um partido com apenas duas eleições autárquicas e no início da sua implantação local, não se podem considerar de todo estes resultados como negativos. Há nesta citação uma influência evidente da fraseologia do PCP, o que me faria apostar que o seu autor será oriundo da Política XXI, mas o mais impressionante é a forma como quem escreve interiorizou que nada houvera antes da fusão que originou o Bloco...

Se a Política XXI é um grupo de intelectuais e uma dissidência de dissidentes do PCP, aparecido em 1994, 5 anos antes dessa fusão, tanto o PSR (que foi fundado em 1978), como a UDP (fundada em finais de 1974) vão buscar a sua origem a organizações também de intelectuais que haviam sido criadas antes do 25 de Abril: em 1970, 1971 ou 1973. Há ali, pelo menos, uns 35 anos de história, e, na essência, quando aparece, nada é novo no Bloco de Esquerda, a não ser, como as técnicas de rebranding preconizam, o logótipo, a imagem, a embalagem e a publicidade… E, muito importante em política, as pessoas (aparentemente).
Os dirigentes do Bloco foram hierarquizados (e bem, já que a promoção da acção política já não se faz nos campos e à porta da fábricas…) em função da sua boa imagem televisiva, a começar por Francisco Louçã e Miguel Portas, seguindo-se Ana Drago, Fernando Rosas ou, ainda mais recentemente, Daniel Oliveira. Outros são objecto de uma utilização judiciosa, sobretudo em canais por cabo, casos de João Semedo ou dos recém-derrotados Luís Fazenda e João Teixeira Lopes. E, outros ainda, são como o caso de Mário Tomé (mais abaixo), património histórico da organização, militar do PREC, antigo deputado pela UDP, que não existem fora do Bloco…

Entre os dirigentes do Bloco, Mário Tomé deverá ser um dos poucos que, por exemplo, poderá formular um conceito estratégico de defesa nacional em nome daquele partido. O problema poderá ser que a fórmula do Major Tomé poderá passar por uma insurreição popular armada na Serra da Estrela ou noutro local do país que se assemelhasse à Serra Maestra o que, sendo terrivelmente romântico, não gozará de grande respeitabilidade nem, sobretudo, popularidade nestes dias que correm… Mas esconder os antepassados embaraçosos não tem sido o único percalço no processo de rebranding de parte da extrema esquerda portuguesa.
Houve também os erros de casting televisivo, tipificados no caso de Joana Amaral Dias, comprovando que possuir-se uma carinha laroca pode não ser o fundamental na promoção da organização. Foi impressionante ver como Joana Amaral Dias já conseguiu escavacar em poucas aparições um programa da RTP-N para que o qual foi convidada a aparecer regularmente (Fala com Elas), onde passa o programa sentada numa pose sempre rígida, projectando as suas (generosas) mamas e parecendo envergar um daqueles espartilhos de Século XIX, bem burgueses por sinal, numa mostra corporal de dissidência com a revolução socialista

Se contei isto tudo, foi para enquadrar a minha opinião sobre os resultados eleitorais obtidos ontem pelo Bloco de Esquerda nos grandes concelhos urbanos que tidos como os seus santuários naturais. Por um lado, por tudo o que expliquei acima, porque as candidaturas autárquicas foram protagonizadas por quem não sai bem na televisão... Por outro, porque ao crescer e ultrapassar eleitoralmente o PCP, o Bloco deixou de contar com a simpatia tácita da parte de quem apenas queria que derrotasse os seus rivais à esquerda. Ao ultrapassá-lo e ameaçando a hegemonia do PS, o simpático agora deixou de ser ele para passar a ser o avô Jerónimo

11 outubro 2009

O AVÔ...


Se bem reparei nas imagens desta manhã, com esta já terá sido a terceira vez que Jerónimo de Sousa vai votar acompanhado dos netos, como tinha acontecido antes nas eleições europeias (vídeo acima) e também há 15 dias, nas eleições legislativas. Parece-me ser mais do que uma coincidência embora a prática não pertença às recomendações canónicas do marxismo-leninismo, que sempre preconizaram a protecção da curiosidade pública e mediática dos familiares próximos dos dirigentes comunistas. Mas, suponho que, perante a análise objectiva da actual situação mediática, os netos parecem ser indispensáveis para o reforço da reputação de bonomia do avô…
Por ter falado nisso, como excepções históricas à regra acima enunciada, os casos mais famosos são de cônjuges dos líderes, como é o caso de Raísa Gorbachova (1932-1999), já na fase final da União Soviética e inspirando-se nos modelos ocidentais concorrentes, Elena Ceauşescu (1916-1989), um embaraçoso caso de megalomania junto da presidência romena e Jiang Qing (1914-1991), numa associação mais política que civil, em que era o cônjuge que ia aos limites do radicalismo onde Mao Zedong não podia ir… Entre os casos com descendentes, o mais conhecido foi muito desconfortável para a causa socialista e assim foi utilizado durante a Guerra-Fria: Svetlana Alliluyeva (abaixo, n. 1926), a filha de Estaline, desertou para o Ocidente em 1967, criticando o regime e pedindo asilo nos Estados Unidos…

APESAR DE VOCÊ...

Hoje você é quem manda
Falou, ´tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando p´ro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você
amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.


Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de
desinventar
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago p´ra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa
Apesar de você.

(Coro) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.


Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você.

(Coro) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc. e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá?


Longe vai o tempo em que o Apesar de você… tinha a limpidez de se aplicar aos ditadores e às ditaduras… Aos maus. Nestes novos tempos o você será muito mais subtil e aplicar-se-á aos resultados perversos do voto popular (acima). Mas não nos surpreendamos que, em consequência desse desperdício, as novas gerações, que nunca precisaram do voto para escorraçar os velhos vocês, se tornem indiferentes à utilização e preservação desse direito de voto, quando constatam que o resultado pode resultar em eleger estes novos vocês

09 outubro 2009

O AMI, O COPCON E A REBALDARIA

Esta notícia de jornal saiu há quase precisamente 34 anos (a 8 de Outubro de 1975) e é mais um daqueles pormenores do PREC que estão hoje completamente esquecidos (clicar em cima para aumentar). Como que reconhecendo implicitamente a sua quase total incapacidade de intervenção no campo militar, o Conselho da Revolução, depois de, dias antes, ter formalizado a formação do Agrupamento Militar de Informação (AMI), vem através de um Decreto-Lei (nº 577-A/75) autorizar que se pudesse recorrer à reincorporação urgente de antigos militares que já estivessem na disponibilidade.
Percebe-se agora que, tão importante quanto a então muito publicitada e temida rivalidade entre este AMI recém-constituído e o COPCON, que se continuava a mostrar fiel (muito à sua maneira...) a Otelo Saraiva de Carvalho, o maior problema da situação político-militar residia na indisciplina generalizada que vigorava em quase todas as unidades militares. Dezoito meses depois do acontecimento, a esmagadora maioria dos militares de Abril haviam-se transformado numa tropa fandanga e, necessitando de militares a sério, o Conselho da Revolução dispunha-se a recorrer aos de antes do 25 de Abril…

GABRIELA, CANA E BANANA*

Lamento, mas quem quiser perceber melhor o conteúdo deste poste tem que ter uns conhecimentos, ainda que vagos, do enredo da obra Gabriela, Cravo e Canela, um livro de Jorge Amado de 1958, que foi popularizado entre nós através de uma transposição para uma telenovela realizada pela TV Globo em 1975 e que passou em Portugal com um enorme sucesso em 1977. A acção decorria na cidade baiana de Ilhéus, nos anos vinte do século passado, e a história de fundo é a da transição geracional de poder entre a classe dos latifundiários, dirigida pelo velho Coronel Ramiro Bastos, e a dos grandes comerciantes de cacau, dirigida pelo ambicioso Dr. Mundinho Falcão.
Numa das peripécias da telenovela, no funeral de um dentista (Dr. Osmundo) que fora assassinado por um coronel (Jesuíno) que o descobrira em adultério flagrante com a mulher (Dona Sinhazinha), houve um momento de enorme tensão, com jagunços de arma apontada aos manifestantes, quando o Dr. Mundinho e a opozeção desenrolaram uma faixa com os dizeres cobardemente assassinado. Ora, ao ver um dos filmes que o PND colocou no You Tube (acima), a estragar uma das cerimónias de inauguração de Alberto João Jardim com os seus cartazes e, sobretudo, ao ver a reacção de desagrado deste último, lembrei-me automaticamente da cena e dos coronéis de Ilhéus.
A reacção de Jardim, conjuntamente com trinta anos de fiascos sucessivos no passado, mostram que a forma de fazer oposição praticada pelo PND na Madeira parece ser mais eficaz que todas as outras. Na Madeira, a disputa política ainda não chegou à fase da insurreição armada (como a que o PAIGC alega ter sido obrigado a fazer, depois de Salazar não ter respondido a uma carta de Amílcar Cabral sobre a auto-determinação da Guiné e Cabo Verde...), mas certamente estar-se-á a meio caminho entre a subversão armada e uma democracia normal. Será a subversão… desarmada! E as autoridades (acima e abaixo) tendem a reagir em conformidade, se bem que nem sempre na legalidade...
Entretanto, em Portugal Jardim deve gozar de uma popularidade idêntica à de Bush: se alguém, um destes dias, se lembrar de também lhe atirar um par de sapatos suspeito que a maioria vai ficar com pena... de quem ficou descalço. Mas até Jardim não nos pode irritar para sempre... Escolhi para o fim (abaixo) as cenas do último capítulo da telenovela em que aparece o Dr. Mundinho já promovido a novo senhor de Ilhéus. Se alguma coisa estes percalços podem antecipar é a afirmação do potencial sucessor de Jardim na pessoa do líder local do PND, Baltazar Aguiar, em detrimento das segundas figuras do PSD local como Jaime Ramos ou Guilherme Silva, tão broncos como qualquer coronel do cacau
* A cana-de-açúcar e a banana são dois dos produtos agrícolas mais emblemáticos da Madeira.

08 outubro 2009

... A OCASIÃO PARA FAZER AS MINHAS COLHERES

Diziam os velhos ditados populares que Quem não sabe fazer mais nada, faz colheres ou que Quem sabe faz e quem não sabe ensina. Adaptados a estes nossos tempos de blogosfera quem não tem ou não sabe de nenhum outro assunto sobre o qual escrever então dedica-se a fazer análises políticas. Contudo, tenho de dar alguma razão aos que se dedicam a essa prática quando as referências mediáticas são, apenas para citar os dois últimos exemplos que empreguei neste blogue, Ricardo Costa e Carlos Abreu Amorim. Com exemplos como eles pode facilmente deduzir-se que a argúcia política é como o olho do cu: toda a gente tem (um).

É por ser costume que estes temas sejam tratados com uma grande superficialidade (com honrosas excepções) que tenho algum receio por este poste. Trata-se apenas de um conjunto de curiosidades políticas, tomando em conta os resultados eleitorais das eleições europeias de Junho passado e as recentes legislativas e uma comparação entre elas. Há quatro meses atrás houve 3.569.000 eleitores e nas eleições cujo escrutínio só ontem terminou foram 5.684.000. Ora a minha ideia é a de analisar especificamente qual foi a distribuição de votos dos 2.115.000 eleitores que, tendo-se abstido na primeira eleição, se decidiram a votar na mais recente.

É imprescindível recordar que o PSD venceu as eleições europeias com 31,7% dos votos e o PS nessa noite levou uma tareia com 26,6%; por seu lado, BE (10,7%), PCP (10,6%) e CDS (8,4%) obtiveram todos bons resultados para as suas expectativas. Em número de votos, aquelas percentagens corresponderam a 1.131.700, 946.800 (uma estreia: a primeira vez que, em eleições nacionais, o PS teve menos de 1 milhão de votos…), 382.700, 379.800 e 298.400. Mas, a partir dessa base de votos, que percentagem dos tais 2.115.000 eleitores adicionais é que cada partido conseguiu cativar para alcançar os resultados obtidos em 27 de Setembro?

A primeira conclusão (talvez surpreendente para alguns) é que o PS conseguiu a maioria absoluta (53,5%) entre esses votantes adicionais. Terá sido mérito de José Sócrates mas apenas para cobrir o demérito do mesmo José Sócrates quando escolheu o inenarrável cabeça de lista às eleições europeias. Em valores absolutos o PS mais do que duplicou o número de votos de uma eleição para outra (946.800 para 2.077.700). Quem também duplicou o número de votos foi o CDS e Paulo Portas (298.400 para 593.000). Contado de uma outra perspectiva, isso quer dizer que Portas conseguiu seduzir 13,9% dos tais 2.115.000 eleitores adicionais.

Cativando 8,3% desse eleitorado adicional, o comportamento eleitoral do BE foi objectivamente bom, se não se considerar as expectativas entretanto geradas pelos seus. Com a simpatia de apenas 24,7% desses votantes, o resultado do PSD teria sido mau até mesmo para o PPD dos tempos históricos do PREC, enquanto a percentagem do crescimento do PCP nesses novos eleitores (uns míseros 3,2%) parece confirmar aquela impressão de há muito difundida do PCP dispor de um eleitorado disciplinado que vota sempre, faça chuva ou faça sol. Os cinco valores somados ultrapassam os 100% porque houve uma transferência líquida de 3,6% desse eleitorado dos OBN(*) para os partidos principais.

(*) Abreviatura para Outros, Brancos e Nulos.

07 outubro 2009

A VIA URINÁRIA

Ninguém se pode tornar na primeira figura de um País por simples via urinária mas sim pelo seu mérito (…)
Carlos Abreu Amorim in Ideais Republicanos
Se juntarmos um grupo dos nossos mais reputados académicos de Direito e os colocarmos perante um problema elementar de Direito de Família que envolva calcular quando caberá a cada um de três herdeiros de um falecido a quem coubera ¼ de uma herança original (ou seja uma simples operação de divisão de uma fracção…) é muito possível que tenhamos algumas surpresas… É proverbial a inabilidade da classe para a resolução dos mais elementares problemas de Aritmética. O que Carlos Abreu Amorim, um outro insigne académico do ramo, me fez agora descobrir é que essa ignorância de classe se pode estender a outros ramos do saber científico, nomeadamente o das Ciências Naturais

Sinceramente, só essa ignorância é que poderá dar sentido ao trecho do seu texto que encima este poste. É que, muito honestamente, não concebo outra solução que consiga explicar a associação que ele ali fez entre o acto de urinar e a assunção do cargo de primeira figura do País… a não ser a ignorância. Não terá Carlos Abreu Amorim confundido o aparelho urinário com o aparelho reprodutor? É que, apesar da sua localização muito próxima no corpo humano, ele é obrigado a saber como os dois aparelhos desempenham funções muito distintas no organismo. E para o que lhe interesse provar com aquele seu poste, fique o Carlos a saber que o Rei não gerará muitos herdeiros por mais xixi que faça…

REPÚBLICAS NO EXÍLIO

Nestas ocasiões da celebração da implantação da República, reevocam-se as cenas do costume que culminam com a proclamação da dita em Lisboa e, do lado dos vencidos, com a partida do monarca para o exílio na Ericeira (como na fotografia abaixo). Exílio é uma palavra que nos habituámos a associar a monarcas e também ao respectivo regime. Ora isso nem sempre é verdade e é por isso que aproveitei este pretexto para evocar a história sumária dos dignatários de duas repúblicas que também se viram forçados a partir para o exílio.
O caso mais antigo é o da república espanhola, a facção que detinha a legalidade, mas que acabou derrotada no final da Guerra Civil que se travou na Espanha entre Julho de 1936 e Abril de 1939. Com a aproximação da derrota, em Fevereiro de 1939, o seu presidente, Manuel Azaña (1880-1940), exilou-se em França vindo a resignar ao cargo. Mas o conjunto de políticos que com ele se exilaram, a começar pelo chefe do governo republicano, Juan Negrín (1892-1956), preferiram preservar um esboço de aparelho governamental no exílio francês.

Em Junho de 1940, com a derrota francesa e a ocupação da França pela Alemanha que apoiara a facção nacionalista durante a Guerra Civil e apoiava agora o regime franquista, o governo republicano no exílio teve de se mudar para o México, para regressar no fim da Segunda Guerra Mundial a Paris. No total, a república no exílio teve quatro presidentes (um deles interino) e oito chefes de governo durante os seus 38 anos de duração, até se vir finalmente a auto-dissolver em Julho de 1977, perante o sucesso da Transição para a democracia em Espanha.
A outra república exilada é apenas seis meses mais nova que a espanhola. Nos finais de Setembro de 1939 já a Polónia se havia vergado ao poder da blitzkrieg alemã e o seu presidente, Ignacy Mościcki (1867-1946), tivera que transferir constitucionalmente os seus poderes para o presidente do Senado, Władysław Raczkiewicz (1885-1947), que se encontrava então em França. Em Junho de 1940, como aconteceu com o seu homólogo espanhol, esse governo polaco no exílio também teve que se mudar, mas neste caso para Londres.

Recorde-se que, por essa altura, a Polónia estava ocupada tanto pela Alemanha como pela União Soviética. Só depois de Junho de 1941, com a invasão da segunda pela primeira, é que foi possível estabelecer uma aliança circunstancial entre polacos e soviéticos que rapidamente degenerou. Ao contrário dos republicanos espanhóis no exílio, que se apresentavam como a alternativa legal a um estado fascista, os rivais dos republicanos polacos no exílio era um outro governo republicano no exílio, mas comunista e patrocinado pelos soviéticos.
A repartição da Europa entre soviéticos e anglo-americanos de 1945 tornou impossível a reposição da legalidade da república polaca original, substituída pela da república popular que ali se instalou a partir de 1944. A sua homóloga no exílio, permaneceu em Londres e teve seis presidentes e quinze chefes de governo durante os 45 anos que se seguiram. Foi apenas em Dezembro de 1990, quando Lech Wałęsa (1943- ) foi eleito o primeiro presidente não comunista da Polónia depois de 1945, que os exilados lhe entregaram os símbolos de Estado na sua posse.

06 outubro 2009

O FAMOSO NEGRO DO JAZZ

Há uma sequência de tiras da Mafalda em que o Miguelito, depois de desencantar uma corneta não se sabe bem onde, passa por uma fase em que aterroriza os seus amiguinhos de brincadeira do parque, desatando a interpretar uns solos medonhos, fazendo-se passar por aquilo que ele baptizou de o famoso negro do jazz...
O famoso negro do jazz deixou de ser designação e acabou por se tornar estatuto que veio a colocar verdadeiramente à prova a profundidade da amizade naquele grupo de amigos porque o Miguelito, embora se mantivesse atento e preocupado com os estragos que ia causando, permaneceu impermeável à causa dos estragos…
Sucedem-se as vezes em que, na SIC Notícias, o comportamento de Ricardo Costa me lembra o do Miguelito no seu papel de famoso negro do jazz, quando ali aparece naquilo que creio ser um papel de anfitrião a receber comentadores convidados, mas onde acaba invariavelmente por os interromper e sobrepor as suas opiniões às deles…
Esta observação não é por Ricardo Costa produzir a sua quota-parte de disparates televisivos, que ele até emite muitas outras opiniões que julgo acertadas para os contrabalançar. É o estilo assertivo e muitas vezes descortês como impõe a sua voz - como a corneta do Miguelito... - nas conversas sem cuidar do que interessará a quem esteja a ouvir – no estúdio ou em casa...

05 outubro 2009

MEN IN BLACK

É hoje opinião aceite que a anormalmente longa carreira no cargo de Director do FBI de John Edgar Hoover (1895-1972) se terá devido às informações que ele cautelosamente tivera o cuidado de acumular sobre segredos dos presidentes sob os quais serviu. De facto, Hoover permaneceu por uns impressionantes 37 anos (entre 1935 e 1972) à frente da famosa organização, tendo despachado com seis presidentes (Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Jonhson e Nixon) e só veio a ser substituído naquele cargo depois da sua morte…
Não sobreviveu a documentação sobre as informações que Hoover pudesse ter sobre os seus chefes, mas sobreviveu documentação mostrando que tanto Truman, como Kennedy e Johnson ponderaram a hipótese de afastá-lo do cargo, o que foi algo que nunca se concretizou… E, nem de propósito, para reconfirmar a capacidade do poder político destrutivo à disposição do FBI, em 2005 veio a revelar-se que Garganta Funda, a lendária fonte por detrás da investigação do Caso Watergate, fora um Vice-Director do FBI despeitado - Mark Felt (abaixo).
Mas, se falei destes Men in Black, foi como introdução para falar de outros Homens de Negro, os da política portuguesa, com a mesma cor mas não propriamente com a mesma actividade. E vale a pena referir que uma das grandes surpresas que tive quando li o segundo volume das Memórias Políticas de Freitas do Amaral (1976-82) foi, a par da ausência de qualquer referência a Lucas Pires, o generoso elogio prestado à pessoa do antigo tesoureiro do CDS, Abel Pinheiro, pessoa que pareceu ter-se mantido no activo muito depois daquele período.
Se refiro os estranhos encómios de uma pessoa com a reputação protegida como Freitas do Amaral a Abel Pinheiro, pessoa que, paradoxalmente, se viu associada a episódios não muito claros de financiamentos ao mesmo partido, é apenas para mostrar como estes Homens de Negro podem estar associados aos políticos mais insuspeitos. No caso concreto de Abel Pinheiro, parecem juntar-se outros traços de carácter menos agradáveis, comprováveis com o episódio em que ele tentou conspurcar publicamente José Pacheco Pereira numa entrevista no Expresso.
Felizmente para José Pacheco Pereira, creio que será preciso muito mais que elogios de Freitas do Amaral para limpar as reputações dos Homens de Preto depois de terem sido identificados como tal, e as acusações de Abel Pinheiro acabaram por cair em saco roto. Mas, infelizmente para o mesmo José Pacheco Pereira, também seria preciso que tivesse havido denúncia equivalente entre as suas hostes a um outro Homem de Negro como António Preto (abaixo), em vez de atribuir as culpas do descalabro eleitoral do PSD aos Men in Black, os originais