16 outubro 2007

PORQUÊ E PARA QUÊ?

Durante os momentos mais emocionantes da reconquista de Paris, a 25 de Agosto de 1944, Charles de Gaulle teve oportunidade de discursar no edifício da Câmara Municipal (abaixo) perante os poderes provisórios de uma nova França que ressurgia: o Conselho Nacional de Resistência e o Comité Parisiense de Libertação. Mas, quando foi instado por Georges Bidault, presidente do primeiro daqueles organismos a proclamar naquela ocasião solenemente a República, Charles de Gaulle reagiu, taxativo:

- Proclamar a República? Mas a República nunca deixou de existir. Por que motivo iria eu proclamá-la?...
O que não invalidou que no primeiro escrutínio que houve oportunidade de realizar logo depois do fim da Guerra, em Outubro de 1945, fosse perguntado em referendo ao eleitorado francês (Tempos diferentes, aqueles!…) se a Assembleia a eleger deveria ter poderes constituintes. O Sim venceu por uns esmagadores 96% e a IV República Francesa sucedeu à veneranda III que durava desde 1871. A IV República, de cariz fortemente parlamentar, deliberadamente concebida para contornar a personalidade do general de Gaulle, tem uma história atribulada.

Submetido esse projecto de Constituição a referendo em Maio de 1946 (Eram mesmo tempos diferentes!), ele foi rejeitado por 53% dos votantes. Foi depois eleita uma nova Assembleia Constituinte, em Julho de 1946 e, submetido o seu trabalho mais uma vez a referendo (Não cesso de me surpreender com esta preocupação com a opinião popular que se terá perdido algures…) em Outubro do mesmo ano, este foi aprovado por 54% dos votos. Apesar dos retoques, mesmo nesta versão, o verdadeiro poder permanecia na mão do presidente do conselho de ministros.
Esta IV República acabou por durar apenas uma dúzia de anos, e a crise desencadeada por causa da Guerra da Argélia acabou por ser o pretexto para que de Gaulle regressasse ao poder aclamado (acima) e com latitude para poder submeter a referendo (Chiça! Até parece de propósito…) um novo projecto de Constituição que veio a ser aprovado em Setembro de 1958 por 80% dos votos. A nova Constituição era de cariz presidencialista como o proponente gostava e foi para esse cargo que de Gaulle se fez eleger em Dezembro de 1958. Mais um referendo (…) em 1962, modificou depois o modo de eleição do presidente.

A França ficou assim com uma Constituição formatada à figura do homem forte da época. E a actividade política francesa ficou, a partir daí, dependente em cada época da existência de um homem forte que a dirija – foram os casos do próprio de Gaulle (1958-69), porventura de Pompidou (1969-74), de Mitterrand (1981-95), talvez seja o caso de Sarkozy (2007-…). Mas o edifício político francês farta-se de abanar quando a personalidade do presidente não é forte, como aconteceu com Giscard (1974-81) e sobretudo com Chirac (1995-07), onde chegaram a ouvir-se vozes a pedir uma VI República
Se conto todos estes episódios da história recente de França é para ajudar o leitor a pôr na devida perspectiva qual será o sentido que fará falar em novas constituições e em mudanças de regime. Em que mudanças se estão a pensar? Desde 1976, as sucessivas revisões da Constituição portuguesa, originalmente semi-presidencialista, têm esvaziado as competências do presidente em proveito do executivo. Agora, é o líder do maior partido da oposição que diz que quer uma nova, sem explicar porquê ou para quê… Talvez porque sim, o que será uma explicação tão consistente como vários outros trechos do discurso político recente de Luís Filipe Menezes…

Mudando de brincalhão, mas não de brincadeira, o editorial de hoje no Público de José Manuel Fernandes, intitulado Perdoem o atrevimento: e que tal uma IV República?, diz umas coisas giras e pergunta outras ainda mais giras, que parecem até fazer algum sentido*. O que o exemplo francês mostra (1) é que as mudanças de regime servem principalmente para deslocar a concentração dos poderes de um órgão de soberania para outro e o que o exemplo europeu mostra (2) é que uma parte desses poderes já nem sequer residem por cá, mesmo sem o recurso aos referendos que legitimaram as manobras francesas.
Posto isto, além de as proclamarem, mesmo sem a oportunidade de uma varanda e de um clima sentimental como de Gaulle, porquê e para quê Menezes ou Fernandes querem novas repúblicas e novas constituições? Querem-nos elucidar em que sentido desejam que evolua a distribuição do poder? Quererá alguns deles personalizar e presidencializar o regime? E, se sim, em qual daqueles dois senhores ali de cima estarão a pensar?...

* Por que não esquecer a regionalização administrativa com poderes executivos e assumir que, no pais, existem regiões que podem ter representação política como corpo legislativo? Por que não repensar os poderes presidenciais? Por que não assumir na Constituição que as funções desconcentradas do Estado são funções descentralizadas das autarquias locais?

15 outubro 2007

A ÚNICA DECISÃO RAZOÁVEL... de Mike Hammer

Numa das suas histórias, o escritor de policiais negros Mickey Spillane colocou o seu herói, Mike Hammer, numa situação em que o colocara cercado, dentro de uma casa isolada e rodeado de inimigos dispostos a matá-lo, e fazendo-o reagir de uma forma imprevisivelmente absurda, como nunca mais esqueci: … ao ver-me cercado, tive de reagir da única maneira que me pareceu razoável: incendiei a casa…
Luís Filipe Menezes deve ter um conceito de razoabilidade muito parecido com o de Mike Hammer, quando apresentou neste fim de semana como solução séria para a solução dos problemas nacionais uma nova Constituição... Está certo. Quase todos sabemos como o cerne dos verdadeiros problemas nacionais se fundam nas deficiências da nossa legislação, a começar pelo seu documento principal, já revisto por 6 ou 7 vezes nos últimos 30 anos…
Ao menos, retira-se desta esperiência, mesmo para um cidadão bacteriologicamente puro, daqueles que nunca ouvira falar de Luís Filipe Menezes, uma daquelas preciosidades ideais para fazerem parte de um júri nos julgamentos de tradição jurídica anglo-saxónica que costumam aparecer nos filmes que passam na televisão, fica já a saber com o que pode contar do novo líder do PSD: se for para produzir espavento, ele encontra a solução razoável, incendeia mesmo a casa

14 outubro 2007

A TASS FOI AUTORIZADA A ANUNCIAR


A Tass foi autorizada a anunciar era o título de um livro de espionagem exótico e marcante de um autor chamado Julian Semyonov que comprei, ainda havia União Soviética. Recordo-me do exotismo porque a história se passava em África, mas o que me marcou no livro (e que me havia levado a comprá-lo) não foi a história (medíocre de facto, suponho que nem cheguei a terminar o livro…) mas a circunstância de ser um livro de espionagem do outro lado, onde os do KGB é que eram bons e os da CIA é que eram maus, mas que acabou por se revelar com uma densidade e qualidade idênticas (senão inferior) aos James Bond de Ian Fleming.

Descobri muitos anos depois, pelos imigrantes ucranianos que vieram para Portugal, que sempre houvera uma próspera literatura daquele género do outro lado, mas os livros não conseguiram ter sucesso no Ocidente, nem mesmo entre os convertidos do lado de cá: aquela África que Semyonov descrevia era completamente inverosímil para ocidentais… Mas o que considero mais peculiar em todo o livro seja o seu título A Tass foi autorizada a anunciar, a procurar demonstrar disciplina na organização revolucionária, suponho eu, mas que acabava por dar o aspecto, numa perspectiva ocidental, tanto de falta de iniciativa como de falta de liberdade…

Mais infeliz e passível de dupla interpretação que o título do livro só mesmo o slogan promocional que o jornal comunista português O Diário manteve ao longo dos anos: A verdade a que temos direito… E foi um destacado dirigente comunista português (que suponho tenha colaborado com O Diário) o grande responsável por me ter relembrado daquela ignorada peça da literatura de espionagem clássica da Guerra-Fria: Vítor Dias. Como? Ao descrever no seu blogue a sua visão dos acontecimentos associados à internacionalização da Guerra Civil angolana em 1975, onde a sua versão da história não perde nada em maniqueísmo para as aventuras africanas de Semyonov !…

Sendo a blogosfera um dos locais onde se goza, de facto, das mais amplas liberdades democráticas, a liberdade para produzir disparates, mesmo quando causados por óbvias limitações das fontes ideológicas consultadas, está assegurada. Mas qualquer autor de blogue torna-se mais passível de ser exposto ao ridículo quando escreve essas asneiras com uma superioridade de pedagogo que corrige terceiros (Helena Matos) como acontece com Vítor Dias. Conferindo a terminologia que empregou e a versão dos factos de que socorreu para as rectificações que apresentou num poste chamado Falta de espaço ou as convenientes amnésias?, são evidentes as lacunas e limitações que o recurso exclusivo à habilidade da dialéctica argumentativa podem causar…

Em primeiro lugar gostaria de me referir à sua designação dos contendores, que, pessoalmente, prefiriria que se tivesse mantido sóbria: o MPLA e os cubanos, contra os zairenses, a FNLA, a UNITA e os sul-africanos. Claro que, quando Vítor Dias emprega uma expressão como as colunas militares do regime do apartheid da África de Sul, por uma questão de equidade não deveria escrever depois apenas os militares cubanos, mas sim os militares do regime comunista de Cuba… Esta deve ser a faceta mais Semyonov de Vítor Dias, escritor que descrevia os agentes da CIA como totalmente patibulares, ao contrário de Fleming que ainda arranjava algumas agentes russas giras para o seu James Bond

Um dos momentos melhores do poste (destacado pelo próprio): ao contrário do que muitas vezes afirmam os baralhadores profissionais de cronologias, os militares cubanos desembarcaram em Angola quando as colunas militares do regime do apartheid da África de Sul, coadjuvadas pela UNITA, se encontravam a 10 quilómetros de Luanda. Apesar do remoque preemptivo aos baralhadores profissionais de datas, Vítor Dias não se sai nada mal como baralhador amador de factos: a coluna estava perto de Luanda (mas não a 10 Km…), mas era a dos zairenses e da FNLA, não a que ele refere e, evidentemente, todos os estrangeiros (cubanos incluídos) já lá estavam em Angola há meses…

Não se monta um dispositivo defensivo cerrado, como aquele que os cubanos e o MPLA dispunham sobre o rio Bengo, num par de dias, apenas com muita devoção revolucionária… Esse dispositivo permitiu derrotar as desesperadas tentativas de penetração sobre Luanda da coluna dos zairenses e da FNLA em 10 de Novembro de 1975 (véspera da data marcada para a independência). Admito que Vítor Dias possa ser ignorante (mas não amnésico...) nestas matérias, tenho dificuldade em admitir que ele possa ser tão ingénuo para que não se tivesse documentado antes de escrever uma afirmação desmentindo terceiros de forma assim tão taxativa, mas com estes erros factuais…

Tanto mais que adiante, e contrariando mais uma vez Helena Matos quanto ao impacto estratégico da presença cubana na África austral, Vítor Dias parece documentar-se, baseando-se na opinião de uns especialistas que acham que essa presença teve até a sua influência indirecta no processo que conduziu ao fim do regime do apartheid na África do Sul… Claro que exprimindo uma opinião destas e com este nexo causal indirecto (que abre sempre possibilidades às especulações mais disparatadas...), o que dá vontade é de conhecer a identidade dos especialistas ou, pelo menos, a especialidade onde se especializaram (...), embora fique registada (neste caso) a diligência de Vítor Dias em os citar...

O não especialista que assina este poste analisa a situação doutro modo: depois de 1975 a África do Sul conseguiu instalar nos dois países lusófonos (Angola e Moçambique), através da UNITA e da RENAMO um ambiente de subversão que era precisamente o simétrico do que lá existira durante o período colonial português. E, como qualquer guerrilha subversiva, o propósito dos sul-africanos não era que os seus aliados as ganhassem, muito menos da forma clássica da conquista e do derrube dos governos instituídos - e daí não fazer sentido a evocação por Vítor Dias da contribuição cubana para a vitória na batalha do Cuito Canavale, que apenas teve um mero significado táctico…

Aliás, se a contribuição cubana tivesse sido militarmente muito significativa, então a actividade de contra subversão em Angola (onde havia militares cubanos) teria tido uma evolução muito mais favorável ao longo dos 15 anos que perdurou do que teria acontecido em Moçambique - onde não havia cubanos... Não foi obviamente o caso, porque UNITA e RENAMO mantiveram-se igualmente em campo até aos finais da Guerra-Fria. Parece que o exército cubano não descobriu o Santo Graal sobre a forma como se vence uma guerrilha subversiva… Pelo contrário, supõe-se hoje, com a clarividência que só se adquire com o passar do tempo, que a presença cubana em Angola acabou por fragilizar a posição negocial angolana nos acordos que foram firmados pela África do Sul com os seus vizinhos no princípio dos anos 90, no fim da Guerra-Fria.

Sobre as análises estratégicas em geral e sobre estes assuntos militares em particular, dizia a mitologia comunista (original) que o nascimento do Exército Vermelho devera muito às capacidades do intelectual Lev Trotsky. Suponho que Vítor Dias também esteja classificado pelo seu partido como um intelectual – mas (também) nisto suponho que o legado de Trostsky esteja perdido… e será assim que os intelectuais de partido ficam hoje reduzidos a defender as suas causas produzindo estas caricaturas de (maus) romances de espionagem de outras épocas…

13 outubro 2007

1814 E HOJE

Simbolicamente, o antepenúltimo projecto da unidade europeia, o protagonizado pela França e personalizado em Napoleão Bonaparte, foi derrotado em 18 de Junho de 1815, na Batalha de Waterloo, na Bélgica, não muito distante da Bruxelas que é considerada a sede do último projecto, ainda em curso, o da União Europeia. O relevo que costuma ser dado a esse episódio faz esquecer o que acontecera no ano anterior, quando Napoleão abdicara pela primeira vez (a 11 de Abril de 1814), enquanto a França era invadida em várias frentes, com o Imperador a permanecer ainda invicto no campo de batalha mas a ter de se submeter à lógica fria do peso dos números dos exércitos invasores…

Regressando ainda um pouco mais atrás no tempo, ao Outono de 1813, os dias de 16 a 19 de Outubro assistiram ao feito (raro) de uma derrota campal de um exército comandado por Napoleão Bonaparte. Tratou-se da Batalha das Nações (ou Batalha de Leipzig - abaixo) onde os franceses e alguns aliados seus se defrontaram contra uma coligação de austríacos, prussianos, russos e suecos. A coligação que se formara para derrotar Napoleão também era ideológica e era mais vasta que as nações constituintes: entre os que o derrotaram contavam-se o general Moreau, antigo republicano que se exilara nos Estados Unidos e que morrera na batalha como conselheiro do czar, e o antigo Marechal francês Jean-Baptiste Bernadotte agora tornado príncipe herdeiro do trono sueco.
Em Novembro, por pressão da falta de efectivos (em Leipzig, combatera numa desvantagem de quase 1 para 2), Napoleão voltara a passar para a margem ocidental do Reno com as suas tropas. Por todo o lado acumulavam-se os indícios do desmembramento da ordem instituída, com os soberanos francófilos a serem destronados em catadupa: os irmãos de Napoleão, José e Jerónimo, foram expulsos dos tronos da Espanha e da Vestefália, enquanto o seu cunhado, Joaquim Murat, salvou o seu trono de Nápoles, mas graças às habilidosas negociações que havia encetado preventivamente com a Áustria. Nos finais de Dezembro de 1813, a França foi invadida. O período de três meses que se segue pode ser apresentado para fazer a distinção académica entre o que é a superioridade táctica e o que é a superioridade estratégica.

Napoleão e as armas francesas acumularam vitórias tácticas (Brienne, Champaubert, Montmirail, Château-Thierry, Vauchamps, Montereau…) em território francês, sem conseguirem alcançar a vitória estratégica que pudesse reverter a situação desesperada em que se encontravam: em 30 de Março de 1814, os aliados austríacos, prussianos e russos entravam em Paris, com o czar Alexandre I à frente. Os alemães iriam voltar àquela mesma cidade como conquistadores por mais duas vezes (em 1871 e 1940), mas a entrada em Paris do czar Alexandre I e dos seus russos é um acontecimento único da história da Europa, cujas imagens são tão simbólicas (abaixo) quanto a dos soldados soviéticos no telhado do Reichstag em 1945. A 11 de Abril de 1814, Napoleão Bonaparte assinava a sua abdicação:
Tendo as potências afirmado que o imperador Napoleão é o único obstáculo ao restabelecimento da paz na Europa, o imperador Napoleão, fiel ao seu juramento, declara renunciar, por ele e por seu filho, aos tronos de França e de Itália e acrescenta que não há nenhum sacrifício, incluindo o da sua própria vida, que não esteja disposto a fazer pelo interesse da França. As potências responderam a esta declaração cheia da proverbial panache verbal francesa por parte de Napoleão com um gesto simétrico quanto à aparência e à substância: decidiram deixar-lhe o título imperial, embora o seu império ficasse reduzido a uma ilha italiana de 224 Km²…

A Coligação que o derrubara era uma coligação negativa (eram todos contra Napoleão), de composição heterogénea e mesmo num assunto tão sensível quanto ao que aconteceria com a França depois da sua deposição, austríacos, russos e britânicos pareciam não estar de acordo. No final foi a posição britânica que acabou por prevalecer: o retorno à dinastia dos Bourbons e a chamada Restauração com Luís XVIII no trono. A importância dos britânicos estava subestimada nos campos de batalha mas aparecia reforçada à mesa das negociações porque eram os seus subsídios que pagavam a manutenção de uma boa parte dos exércitos dos seus aliados.
O que há de interessantes em todo este episódio que sirva de reflexão para a actualidade? A Europa napoleónica tornou-se uma Europa em sobressalto com o ritmo das mudanças territoriais das anexações, transferências e rectificações de fronteiras que fazem com que os mapas europeus se modificassem de 1806 para 1807, 1809, 1810, 1812 (acima)… A Europa da União tem estado geralmente em paz com as suas fronteiras* mas tem existido um sobressalto equivalente no ritmo das alterações da ordem jurídica para a regulamentar: inicialmente vigorou por muito tempo o Tratado de Roma (1958), depois vieram os de Maastricht (1993), Amsterdam (1999), Nice (2003), agora é o baptizado de Reformador (2009?)…

E a discussão acesa que se estabeleceu sobre o método de aprovação (popular ou não) deste ultimo tratado reformador parece-me ser instrumental para aqueles que se lhe opõem por acreditarem que o escrutínio lhes será favorável. Mas é honesto reconhecer que a parte contrária também assume essa inferioridade psicológica, o que a leva a argumentos risíveis para sustentar as sua posições: nos Países Baixos onde o projecto anterior foi chumbado em referendo, argumenta-se que esta versão não será tratada da mesma maneira porque é completamente diferente da anterior, enquanto que em Espanha, onde o projecto anterior fora aprovado em referendo, há quem argumente que ele se torna dispensável desta vez, porque as versões são muito semelhantes…

Mas, se o exemplo de 1814 servir de orientação, então esta unidade europeia não será decidida pelos votos e pelo peso das massas populares: Napoleão também contava com centenas de milhares de soldados de outras origens, fornecidos pelos países seus aliados, que acabaram por desertar (quando não se passaram para o inimigo…) nos momentos cruciais. Neste momento, a maior ameaça aos defensores do aprofundamento (e deste tratado) é a que parece existir entre as elites nacionais de muitos países membros da União, onde já existe uma massa crítica que se opõe à evolução que a União tem vindo a seguir. Podem ser poderosas em termos nacionais – como se viu, por exemplo, nas forças constituintes, paralelas às estruturas tradicionais, que se manifestaram pelo Não no referendo que venceram em França em 2005 – mas não se têm visto a agir de forma concertada com as outras elites nacionais de opinião igual.

Creio que será uma questão de tempo, com ou sem Tratado Reformador aprovado, para elas se concertarem e tudo se desmoronar – pelo menos no figurino percorrido desde 1993 até cá. Relembre-se que, em 1814, aquela já era a Sexta Coligação (!) que se formara contra Napoleão e, mesmo assim, o cimento que a unia parecia ser muito frágil, para além do propósito de o derrubar. Mas consegui-o… Não se deve subestimar o poder das forças centrífugas da Europa que esmagaram estrategicamente Napoleão, sem que ele as pudesse vencer tacticamente. Se a História nos pode ensinar alguma coisa é que há certos projectos políticos que têm de respeitar um certo ritmo para que sejam bem sucedidos. Hong-Kong e Macau têm uma fase de transição de 50 anos (prorrogável) até se integrarem integralmente na China e a adesão da França (Gália) à Europa romana deu-se 70 anos depois da da Espanha e 90 anos antes da da Inglaterra…

Ora a China e a Europa romana parecem ter e ter tido uma solidez que esta União não tem…

* Mas até isso pode mudar

12 outubro 2007

OS OITO CASAMENTOS DE ZSA-ZSA GABOR

Zsa-Zsa Gabor é uma actriz de cinema, de origem húngara, que tinha uma aparência de boneca mas que hoje tem uma provecta idade (era daquelas que aldrabava a idade, só vale dizer que, quando ela nasceu, ainda havia Império Austro-Húngaro…) e que alcançou a celebridade, não pela sua carreira medíocre, mas pelos oito (ou nove…) casamentos que protagonizou ao longo da sua vida. Não se conclua daqui que uma vida sentimental muito agitada seja equivalente à mediocridade: Elizabeth Taylor, cujos méritos como actriz são inquestionáveis, coleccionou outros oito casamentos – embora com uma repetição*…
Mas o que tornou os casamentos de Zsa-Zsa únicos e memoráveis, além da possível compulsão genética para os realizar (entre ela e as suas duas irmãs Eva e Magda, coleccionaram-se 20 casamentos!...), era o ridículo do ar virginal e do vestido branco que Zsa-Zsa envergava repetidamente nas cerimónias (enquanto a natureza e a cirurgia plástica permitiram que tal fosse possível…), como se não houvesse memória da sua fúria casamenteira… Talvez a melhor síntese a vá buscar a um desses artigos cor-de-rosa espanhóis, a pretexto das memórias de Zsa-Zsa: hoy ya no quedan cazafortunas; lo que hay son putas… É uma questão da nomenclatura de cada época, acrescentaria eu…
O que, improvavelmente, Zsa-Zsa parece compartilhar com os protagonistas maiores da política portuguesa, é o descaramento de pretender tratar quem os circunda por amnésicos… Começa no exemplo de Cavaco Silva ao produzir um discurso contundente (mas importante) sobre as falhas do sistema educativo, parecendo esquecer-se que ele próprio teve a responsabilidade durante dez anos para executar – pelas pessoas que escolhesse – as suas concepções sobre educação**. Continua no exemplo de José Sócrates a ufanar-se, nas inaugurações das vias rápidas lisboetas, por ser o seu governo a ter que terminar uma obra cuja falta de cumprimento dos prazos o escandaliza, parecendo esquecer-se que a falta começara em 1998, precisamente com o governo do seu partido de que ele próprio fizera parte***…
A analogia tem de acabar, porque Zsa-Zsa sempre foi considerada uma tontinha, e é suposto (e conveniente) que Cavaco e Sócrates sejam levados a sério. Mas creio que têm de manifestar reciprocidade com a memória de quem lhes presta atenção. E, sobretudo, não se deve menosprezar a importância que os dois desempenham como exemplos da prática política portuguesa. Se ambos procedem assim, que moralidade criam na sociedade para que se critiquem figuras como Paulo Portas, que aparecem de regresso (como se viu no programa Prós & Contras da RTP de dia 8), dois anos passados, vestido branco e bouquet na mão, como se nada se tivesse passado e nunca tivessem tido responsabilidades governativas?...

* Com Richard Burton
** Como assinala Maria Filomena Mónica em artigo no Público de dia 11.
*** Recorde-se que as vias deviam ter ficado todas completas para a abertura da Expo 98

11 outubro 2007

OLHAR PARA O CHÃO

Por todo o lado, deparamo-nos com a máquina comunicacional suportada por Bruxelas concentrada em retocar a imagem pública do sucesso que será a ratificação do tal Tratado Reformador que, como escreve Teresa de Sousa, com um pouco de sorte, se chamará de Lisboa. Não sei que sorte será essa a que ela se refere, mas ao lerem-se considerações a esse respeito intituladas Referendos cada vez mais fora do caminho do Tratado suspeito que se pretende que o número de felizardos não seja muito vasto…

A longo prazo, estou desconfiado que a sorte não será também de Teresa de Sousa que, por causa de toda esta embrulhada associada à aprovação do Tratado Reformador, acabou por passar de jornalista respeitada, especializada em questões europeias, a uma espécie de cheerleader entusiasta da causa da aprovação do tal Tratado da Sorte e, supõe-se, de todas as outras causas maiores que emanarem de Bruxelas. Só que me parece que há causas menores que nos merecem mais atenção e lhes merecem menos entusiasmo...
A mesma Bruxelas que serve de Quartel-General ao combate de Teresa de Sousa e dos seus camaradas de armas, é também a capital de (diz que é uma espécie de) um país chamado Bélgica que, depois das últimas eleições legislativas, se mantêm sem governo há mais de 4 meses. Até agora, a mesma máquina informativa da União vinha minorando o incidente, relembrando que, no passado, a Bélgica já estivera outros 120 dias assim. E daí, mesmo agora, supõe-se que o discurso oficial lembre como os recordes foram feitos para serem batidos…

Mas vale a pena olhar mais profundamente para o incidente. A crise corre fluida, parece não se sentir o vazio de poder do governo, nem há manifestações de ânsia em colmatar esse disputado vazio como deveria ser natural que acontecesse. Mas como a Bélgica é um país marcado pela forte clivagem entre a comunidade de língua flamenga (a norte) e a de língua francesa (a sul), uma grande maioria dos poderes administrativos correntes já foi transferida para os governos regionais das três comunidades (as duas e a capital - Bruxelas).
E como, por outro lado, a União Europeia tem vindo a arrebanhar discretamente competências que antes eram atributos dos estados soberanos (como a política financeira ou a monetária, por exemplo), não é de estranhar que o governo central belga esteja esvaziado de competências e a tornar-se, por isso, num elemento colateral da disputa política. Como alguém com ironia terá já afirmado, a Bélgica arrisca-se a desaparecer um belo dia, quando todos desistirem de constituir o tal governo nacional, e o facto saber-se-á por um telex das agências…

Como se vê pelo mapa abaixo, há elementos na separação da Bélgica que a podem tornar muito menos suave do que a de veludo da Checoslováquia. Por um lado, Bruxelas é um enclave maioritariamente francófono inserido na Flandres. Qual o seu destino? Por outro, ao contrário de checos e eslovacos, flamengos e valões compartilham os seus idiomas com os vizinhos do norte (Países Baixos) e do sul (França), deixando a porta aberta a projectos futuros de reunficação, redefinindo desconfortavelmente (para potências terceiras) as fronteiras europeias…
Mas talvez o efeito mais pernicioso do caso belga seja o estatuto exemplar de que o país goza no projecto europeu e que se poderá reflectir num possível efeito dominó junto de outros estados membros. A Bélgica é um elemento fundador da União e um país com 177 anos de existência; e é um caso exemplar daquele axioma, há muito criado por Bruxelas, em como a criação de uma super-estrutura política europeia (e quanto mais elaborada, melhor!...) poderia melhorar o entendimento entre os povos europeus.

Ora os flamengos e os valões têm-se entendido nos últimos 177 anos. Aí parece não ter havido problema. A novidade é que parecem estar fartos de se aturar reciprocamente e agora querem separar-se apesar do entendimento… Acessoriamente, esse parece ser também um problema de catalães e castelhanos ou de escoceses e ingleses, entre outros. A resolução do problema das nacionalidades europeias, como a desagregação da Jugoslávia demonstrou, continua a ser actual e não se resolve com a ingenuidade dos entendimentos como se tudo não passasse de um mega programa Erasmus para jovens…
Se a possibilidade de uma cisão se desse na remota Bulgária, país recém-chegado à União, então compreender-se-ia que as instituições europeias cometessem o erro de não lhes prestar a devida atenção. Mas não, trata-se da Bélgica, da capital Bruxelas, onde fica a sede da Comissão, e em vez de se olhar para o chão que se pisa e analisar as causa das fracturas que, a verificarem-se, irão fazer vacilar o edifício comunitário, anda-se de nariz no ar a olhar para as 12 estrelas e para as cláusulas do tal Tratado que, com um pouco de sorte, se chamará de Lisboa

Suspeito que vai correr mal, mesmo sem referendos, e Lisboa talvez tenha a sorte de não ficar mal vista por ficar com o nome associado ao tal Tratado…

10 outubro 2007

JOÃO, O MANHOSO E JOÃO, O BRONCO

"O presidente do Boavista (João Loureiro) renunciou ontem aos dois meses de mandato que ainda faltava cumprir após uma séria reflexão, de forma a colocar em primeiro lugar os interesses do clube. O dirigente apontou a instabilidade que se vive no Boavista como principal motivo para esta decisão, mas não foi claro sobre a decisão que tomará em relação ao acto eleitoral. Quanto ao futuro de Jaime Pacheco, Loureiro disse que não vai tomar nenhuma decisão de fundo em relação a essa matéria e que deverá ser o treinador a reflectir sobre se sente que tem condições para continuar”.
"O presidente da União de Leiria, João Bartolomeu, manifestou-se ontem revoltado com a fraca prestação de alguns futebolistas do clube, último classificado da Liga portuguesa, ameaçando-os de que vão deixar de receber o ordenado. Aqui ainda recebem, nos outros clubes não. Mas aqui vão deixar de receber. Não vou nomear os nomes. Eles sabem quem são, disse João Bartolomeu em declarações à rádio Antena 1."
Estes são dois trechos de duas notícias de hoje das páginas desportivas do jornal Público e creio que falam por si. O Boavista e a União de Leiria estão no penúltimo e último lugares da classificação e, pelas descrições, parecem clubes em boas mãos… No primeiro caso, o presidente (com pretensões à sofisticação) precipita a crise, demitindo-se, demarcando-se do treinador, à espera da vaga de fundo que o recoloque no lugar – um manhoso. No segundo, o presidente põe-se a exibir gestos de despotismo através da rádio em vez de exercer directa e naturalmente a sua autoridade, que deveria ser incontestável em qualquer clube – um bronco.
Nestes episódios é que dá para desconfiar porque é que treinadores como Manuel José ou Fernando Santos (entre outros treinadores portugueses no estrangeiro) acumulam os títulos no Egipto ou na Grécia que em Portugal depois não conseguem repetir… A começar por Gilberto Madaíl, eu bem desconfio onde estarão os problemas do futebol português, e não têm nada a ver com treinadores, nem com jogadores…

09 outubro 2007

A METÁFORA ESPUMANTE

Hoje, como a espuma que desemboca pelo gargalo de uma garrafa de cerveja, irritei-me de vez com a utilização recorrente da metáfora da espuma, o tratamento repetitivo menosprezando a superficialidade como os assuntos podem ser tratados, que já li ou ouvi por dezenas de vezes. Ajudou à irritação o facto de ler a metáfora espumante nesta enésima vez empregue pela jornalista Helena Matos na sua crónica bissemanal a três colunas da última página do Público, no que seria um dos últimos lugares, pelos temas que ali são adequados e pelo espaço que lhes está disponível, onde se deveria censurar a superficialidade alheia...

Até parece que se instalou um campeonato em que ganha quem se antecipar a jogar espuma para cima dos outros, reforçando preventivamente a profundidade das próprias opiniões. Só que um jornal (como um blogue) apenas se presta a opiniões fundamentadas com espaço contado e para leitor rápido: espumantes... Quem não quiser tratar profissionalmente com espuma é preferível dedicar-se a outras actividades que não o jornalismo… Olhe, que faça investigação científica, como os galardoados com o Prémio Nobel das páginas 2 e 3 daquele mesmo jornal onde Helena Matos gasta ¾ da sua crónica a tratar de um assunto* que depois classifica de espuma

É que, objectivamente, o trabalho da sua colega de jornal naquelas duas páginas iniciais foi o de transformar as complexas investigações dos 3 laureados em espuma

* O assunto é o da disputa entre o laico e o religioso e a parte espumante a recente querela sobre a assistência religiosa nos hospitais. A componente erudita que suponho deva pairar acima dessa espuma é a referência ao calendário republicano francês...

MEMÓRIAS DE GUERRA

Nos finais de 1944, o actor e comediante americano Mel Brooks (abaixo) fazia parte da verdíssima 106ª Divisão de Infantaria norte-americana, uma unidade que acabara de chegar em Novembro à Europa e fora conduzida no mês seguinte para a tranquila (pensava-se…) frente de combate das Ardenas para habituação ao combate. Depois, a 16 de Dezembro, dois exércitos alemães (V Exército Blindado e VI Exército Blindado SS) desencadearam aquela que seria a sua última ofensiva na frente ocidental, precisamente na região das Ardenas.
A descrição de Brooks da sua experiência é sucinta, engraçada mas assustadora: … de repente à nossa volta, Waauhwaauhwaauh! Sirenes! Tanques Tigre! Estamos cercados pelos alemães. É a Ofensiva das Ardenas! Mãos ao ar! Esperem, disse eu, acabámos de sair de Oklahoma! Nós somos os americanos! É suposto estarmos a vencer! Assustados, lá nos escapámos… E então eles começaram a disparar. Aí vem mais uma! Bullshit! Só o Burt Lencaster é que diz bullshit nestas ocasiões… Nós dizíamos Oh, meu Deus! Mãezinha!!!...
As memórias de guerra são díspares. Estas de Mel Brooks*, contadas 33 anos depois dos acontecimentos parecem ser uma maneira de sublimar em humor aquilo que deve ter sido um péssimo momento para o autor. E, apesar de aparentemente ligeiras, ninguém lhes pode retirar o cunho de genuínas… Também nesta faceta, o Ocidente venceu o Leste na Guerra-Fria pela superioridade de deixar contar as próprias fraquezas, mesmo na vitória: um texto como o de Brooks seria impensável se publicado na União Soviética e atribuído a um qualquer veterano seu da Segunda Guerra Mundial.
Não que eles não tivessem sofrido tanto (ou provavelmente até mais) quanto os seus oponentes alemães ou que os veteranos de outras frentes daquela Guerra. O problema é que essas confissões foram sempre filtradas para que nelas não aparecesse nada que fosse doutrinalmente perigoso: por exemplo, ninguém pôde ter ataques de desânimo durante a defesa de Estalinegrado… E com isso, paradoxalmente, dava-se a sensação aos ocidentais que os depoimentos eram feitos por manequins de pau ornamentados de medalhas, facilitando a identificação daquela bizarria com o inimigo da próxima Guerra…
Se fosse preciso que eu sintetizasse os benefícios da existência da blogosfera apenas num blogue, possivelmente na minha selecção final estaria Luís Graça & Camaradas da Guiné, um blogue colectivo precisamente de memórias de guerra da Guiné durante a Guerra Colonial, de que um dos pontos mais fortes é a variedade dos colaboradores, das memórias e dos pontos de vista nele contido, a propiciar uma variedade temática que não seria possível se não fosse a blogosfera. Em toda aquela riqueza documental existe apenas um óbice, e é dele que quero aqui lamentar-me…
É que o pouco que lá tem aparecido relacionado ou oriundo do antigo inimigo (o PAIGC), comparado com as histórias dos veteranos portugueses, é de um tal formalismo acompanhado duma rigidez ideológica extrema e de tal forma pobre em impressões pessoais, que faz lembrar os depoimentos exageradamente heróicos dos veteranos soviéticos com o peito cheio de medalhas que mencionei acima… Esta guerra terminou também há 33 anos mas, se lermos o que naquele blogue está disponível sobre os nacionalistas guineenses, até parece que os tugas lutaram contra deuses mitológicos que não sofreram as agruras do combate…

Nota: As três últimas fotografias deste poste foram retiradas, obviamente, de Luís Graça & Camaradas da Guiné, com os meu agradecimentos.

* Numa entrevista à revista Playboy em Fevereiro de 1978.

08 outubro 2007

AS RAZÕES ESTÉTICAS PORQUE TORCIA PELOS "ALL BLACKS" E AGORA VOU TORCER PELOS PUMAS

Num poste anterior, havia prometido explicar as razões estéticas pelas quais iria torcer neste Campeonato do Mundo de râguebi pela Nova Zelândia – em complemento às razões históricas que me tornavam apoiante do País de Gales, conforme já havia explicado. Já irá atrasada, porque as duas equipas já foram eliminadas do Campeonato, mas a explicação impõe-se. Serve de preâmbulo, e é importante explicar que em râguebi pode-se torcer de uma maneira muito mais desprendida e muito diferente do que acontece com o futebol: chego a surpreender-me a aplaudir uma jogada bonita da equipa adversária que acaba por marcar… apenas porque foi espectacular.

Voltando ao passado, à segunda metade da década de 80 e aos princípios da de 90, a selecção que eu considerava que tinha o jogo mais bonito (e mais espectacular) era a selecção francesa, por causa da imprevisibilidade do jogo à mão das suas linhas atrasadas. Era um gosto apreciar as jogadas à mão quando a bola chegava à linha de três quartos da França (com Philippe Sella) onde se intercalava depois o defesa Serge Blanco (em baixo, à direita, com Sella) a desequilibrar as marcações. Mas não era só a França. Era uma época onde o râguebi podia ser espectacular pela criatividade dos protagonistas (!!!) de que o exemplo maior terá sido, talvez, o australiano David Campese, a estrela do Mundial de 91.
A grande alteração que me apercebi que os neozelandeses haviam trazido para o Mundial seguinte, em 1995, disputado na África do Sul, nada tinha de táctica e era sobretudo morfológica. Depois da criatividade que os franceses haviam trazido para o jogo à mão, era a vez dos neozelandeses tentarem mudar a morfologia dos que o jogavam. Enquanto tradicionalmente as linhas de três quartos serem compostos por jogadores rápidos e equilibrados (Sella, por exemplo, tinha 1,80 mts. de altura e 84 Kg. de peso), aparecia agora nos All Blacks um três-quartos-ponta chamado Jonah Lomu (em baixo), que também era rápido, mas era um pouco menos equilibrado… 1,96 mts. e 120 Kg.

Conseguir placar alguém com o arcaboiço de um avançado mas com a destreza e rapidez de um jogador tradicional das linhas atrasadas revelou-se algo de insuperável para os defensores das equipas adversárias, mesmo quando o campeonato passou para a fase a sério em que a Nova Zelândia defrontou as equipas com pretensões como a Escócia (nos quartos de final) ou a Inglaterra (nas meias finais). É que Jonah Lomu, com aquele corpanzil, nem tinha jeito para fazer fintas de corpo para evitar as placagens de quem o quisesse deter, conforme era tradicional: ele corria directamente na direcção do opositor para o cilindrar com o poder de choque dos seus 120 Kg
Ficou-me na memória a meia-final em que a Nova Zelândia jogou contra a Inglaterra, quando Jonah Lomu marcou 4 ensaios, removeu e cilindrou quem lhe aparecesse à frente e a Inglaterra foi perfeitamente ridicularizada, embora isso não se perceba pelo resultado final (45-29), porque a Nova Zelândia passou a segunda parte do jogo a descansar… O clímax do desconsolo inglês deve ter sido atingido quando, com a Nova Zelândia a vencer já em vantagem por um bom punhado de pontos, a bola sobra para um jogador neozelandês da terceira linha (Zinzan Brooke) que, recebendo-a quase junto à linha lateral, decide tentar dali um pontapé de ressalto a 45 metros dos postes…

A bola entrou e foram mais 3 pontos para a Nova Zelândia. Convém esclarecer que as boas regras mandam marcar em cima os bons pontapeadores que haja na equipa adversária, normalmente o médio de abertura (nº 10), às vezes também o defesa (nº 15) ou o médio de formação (nº 9)… Agora, realmente, só nos All Blacks é que, num dia assim, pode haver jogadores da avançada (o nº 8) que decidem tentar converter pontapés de ressalto àquela distância dos postes… e convertem-nos! Foi um jogo espectacular que terminou com 9 ensaios (6 neozelandeses e 3 ingleses), em contraste com o jogo fechado e táctico (só 1 ensaio) com que a África do Sul bateu a França na outra meia-final. A Final desse Campeonato do Mundo de 1995, além de uma vertente desportiva, teve uma outra vertente política: a África do Sul era finalista e organizadora do evento, saíra do ostracismo a que fora votada pela política do apartheid, Nelson Mandela era o novo presidente do país, a ocasião era excelente para forjar uma nova identidade nacional englobando brancos e negros à volta de um grande feito desportivo, Mandela apareceu a presidir à cerimónia vestido com a camisola da selecção anfitriã com o mesmo número (nº 6) da do capitão da selecção dos Springboks, Francois Pienaar. A conquista do título pela selecção anfitriã seria o happy end à filme de Hollywood para todo esse enredo…

Desportivamente, o jogo não prestou para nada. Como aconteceu com os gregos na final Portugal – Grécia do Euro 2004 em futebol, também os sul-africanos adoptaram um dispositivo defensivo que estragou totalmente a espectacularidade do jogo, concebido para que a supremacia neozelandesa não pudesse sobressair. Jonah Lomu passou o jogo acompanhado de perto por três amigos sul-africanos que se precipitavam para ele ao mesmo tempo que ele recebia a bola… No fim, após prolongamento, a África do Sul ganhou o jogo, decidido a pontapés aos postes (5 a 4, nenhum ensaio...), a cerimónia final foi muito emocionante quando Mandela entregou a Taça a Pienaar (acima), mas ainda hoje penso que o título ficou mal entregue…
É por essa injustiça de há 12 anos, quando a equipa que produzia o jogo com a melhor estética não vingou, que ainda hoje torço pelos All Blacks, como que recuperando aquele título mundial que devia ter sido seu… Outra consequência, esta geral, para o aparecimento de um fenómeno como Lomu foi o reforço da compleição física dos jogadores das linhas atrasadas de três quartos: um (excelente) jogador típico desse sector, como o neozelandês Tana Umaga (acima), mede 1,88 mts. e tem 102 Kg. de peso. Finalmente, nunca ganhei nenhuma especial simpatia pela selecção nacional sul-africana, os Springboks, e ainda ontem me surpreendi a torcer descaradamente por Fiji, contra eles…

Notas Finais: Os Pumas são os jogadores da Selecção argentina, os All Blacks da neozelandesa e os Springboks da sul-africana. E continuo a contar-me entre os menos entendidos no râguebi que mantiveram a opinião que a prestação da selecção portuguesa neste Mundial nunca excedeu o que seria normal esperar dela, quer quanto aos resultados, com 4 derrotas, quer quanto às dimensões que elas assumiram (10-56, 13-108, 5-31 e 10-14). O resto é folclore.

07 outubro 2007

A CALDEIRADA DE PREGADO

Os assessores de José Sócrates arriscam-se a ter concebido um gesto político que pode deixar o primeiro-ministro encalhado e em seco para o futuro (como às vezes acontece com os pregados na maré baixa…), quanto à lógica que estaria por detrás da recomendação para que ele aparecesse em destaque na comunicação social associado ao sucesso da inauguração da fábrica de aquacultura que, alegadamente, irá criar uns míseros 200 postos de trabalho.

Eu era dos que os criticava, mas agora vejo-me obrigado a dar-lhes razão pela lógica simétrica, àqueles que costumavam pedir a comparência do mesmo primeiro-ministro nas cerimónias de encerramento de mais uma fábrica de calçado (ou doutro ramo qualquer) que também iriam destruir, alegadamente, outras centenas de postos de trabalho; além de que José Sócrates acabou de legitimar que nessas ocasiões lá apareça Luís Filipe Menezes, pela oposição...

O assunto arrisca-se a tornar uma caldeirada e as de pregado, que eu saiba, nunca foram grande coisa…

DOS APRECIADORES ANTIGOS DE TEATRO CLÁSSICO AOS APRECIADORES MODERNOS DE COMÉDIA SATÍRICA

É um facto reconhecido como apenas as elites romanas se mostravam receptivas aos géneros teatrais importados da Grécia. Hoje apenas se pode especular quanto dessa receptividade das elites seria genuína, mas a verdade é que as massas populares da população romana preferiam apreciar outros entretenimentos (gladiadores ou corridas de carros) ou então farsas, cujo conteúdo não sobreviveu até aos nossos tempos, embora os títulos tivessem: O Burro, A Porca, O Porco Doente ou O Porco Curado.

Não será grande ousadia deduzir qual seria o estilo de humor dessas farsas populares, na linha das alusões grosseiras do teatro de revista à portuguesa, nem especular, por exemplo, como O Porco Curado seria uma sequela causada pelo sucesso de O Porco Doente, na linha dos filmes Porky´s (I, II e III) ou Academia de Polícia (do 1 ao 6). Em contrapartida, as elites romanas apropriaram-se do estilo literário da sátira e tornaram-na uma coisa tão sua que depois se veio também a tornar, por herança, coisa nossa…

Pode-se especular se, na Antiguidade, também haveria membros entre as elites romanas que se dedicassem ao mesmo jogo pretensioso do faz de conta com que uma boa parte dos membros das elites modernas dissimulam os seus gostos genuínos… É muito provável que isso também acontecesse porque, desde a Antiguidade, poucas coisas imateriais terá havido nas sociedades que se conservaram tão segregadas entre as elites e as massas populares quanto os gostos humorísticos. Saber rir dava e dá estatuto social.

Muito tempo depois de Roma, as sociedades modernas tornaram de novo possível que houvesse comediantes que pudessem alcançar popularidade junto da plebe. Manter a popularidade junto das duas classes é que continua a tratar-se de um feito difícil, porque há quem consiga ser popular junto de uma ou de outra, há até quem o seja ao mesmo tempo numa e noutra mas representando personagens diferentes*, o feito de reunir o consenso das duas, como acontecia com Herman José em Portugal, é muito mais raro.

É fácil constatar a descida a pique da popularidade de Herman. É mais controverso atribuir-lhe as causas, se terá sido o seu envolvimento, ainda que muito periférico, no caso da pedofilia, que lhe retirou a popularidade junto das massas populares, ou se foi a sua insistência num figurino de programa televisivo medíocre, supõe-se que por razões financeiras, que lhe levou a popularidade que gozava junto das elites, a verdade é que, nitidamente, ele saiu da agenda, por muito que se tivesse esforçado no novo programa.

Dá pena ver sketchs satíricos seus de enorme qualidade, como aquele onde representa a figura de um Adolf Hitler que vem à televisão explicar-se com a desfaçatez e o à-vontade de um Valentim Loureiro, a serem remetidos para o armazém da indiferença. Há no sketch não só uma crítica social mordaz, como também a pedagogia de mostrar, pelo absurdo, que, com a conivência do interrogador, todas as explicações podem ser aceites, até mesmo as de um Hitler. Sem essa conivência, é que pode ser mais difícil

Ora um sketch destes é claramente superior a muito do material produzido pelos Gato Fedorento, a nova coqueluche nacional do humor… Mas, como já dizia aquele ditado popular que, por ser popular, não quer dizer que tenha sido inventado por alguém pertencente às massas populares: Mais vale cair em graça do que ser engraçado

* Rowan Atkinson com Mr. Bean e Blackadder.

06 outubro 2007

O JORNALISMO EM MICROONDAS TORNA A ATACAR

Se uma entrevista da revista Visão terá tentado reaquecer João Cravinho e o assunto corrupção, outra entrevista no semanário O Sol (a Catalina Pestana) terá tentado fazer o mesmo à Casa Pia e ao assunto pedofilia. Só que o segundo tema é bastante mais vasto para se vir a cingir apenas a um, ou uma, protagonista. É por isso que vai faltando a paciência para aturar, mais uma vez, os esforços patéticos de figuras secundárias que se lhe associaram no seu esforço de promoção.
Assiste obviamente ao advogado Pedro Namora, que ontem conseguiu – qual milagre da ubiquidade – desdobrar-se, aparecendo quase simultaneamente em três canais de televisão (RTP 2, SIC – Notícias e RTP-N, pelos que me apercebi...), a liberdade de fazer pela vida, promovendo-se conforme as suas conveniências. Assiste-me, reciprocamente, o direito de desconfiar de um discurso onde o altruísmo em prol das crianças abusadas se continua a exprimir da mesma forma fluida, não substanciada, sempre nas mesmas oportunidades televisivas...
Servir de rampa de lançamento a uma notícia requentada de um órgão de comunicação da concorrência, relançando um figurante que não tinha visivelmente nada de novo para dizer, parece ser a prova que a dimensão da estupidez jornalística televisiva é mais vasta do que a criação de um directo com a cobertura da chegada a meio da noite de um treinador de futebol que também não tinha nada para dizer. Só que esse – ao contrário de Namora e do convidado em estúdio – nem queria dizer nada para a televisão…

05 outubro 2007

OS PRETENDENTES

Quando, como actualmente, se anda à procura de elementos comuns da identidade europeia, neste dia 5 de Outubro é curial recordar que, com excepções reduzidas (a Suíça, a Irlanda ou a Finlândia), os países europeus que são repúblicas também têm os seus pretendentes ao trono, porque já foram monarquias no passado. A França, tradicionalmente ainda mais esplendorosa nestas cenas pomposas, destaca-se por ter, não um, mas três pretendentes ao trono(*)! A faceta menos canónica para um europeísmo ortodoxo à Teresa de Sousa é que até a Turquia e o Egipto têm pretendentes ao trono…
Nesse riquíssimo universo de monarcas-a-fingir-de-conta, que servem sobretudo para encher de fotografias as páginas das revistas cor-de-rosa mas para bem pouco mais, embora haja por lá curiosidades interessantes, como um pretendente (ao trono da Albânia) com o improvável nome de Leka (acima…), a força das pretensões de Duarte Pio de Bragança (abaixo) ao trono português situa o nosso país, infelizmente e como acontece com muitos outros indicadores mais importantes, também na cauda da Europa… É que Manuel II, o último monarca efectivo, que foi deposto faz hoje 97 anos, teve a infelicidade (para a causa) de falecer sem ter descendência em 1932.
As pretensões ao trono português passaram para uma linhagem colateral que esteve sedeada por mais de um século na Áustria, e que ia buscar as suas origens à pessoa de um chefe de facção da Guerra Civil (1828-34), considerado monarca por uma das partes e usurpador pela outra (Miguel I). Aliás, a seriedade que Manuel II atribuiria às pretensões do primo (Duarte Nuno, pai do actual pretendente) pode ser percebida no facto de, tendo-lhe transmitido em testamento os seus direitos hereditários, transmitiu pela mesma via, a sua apreciável fortuna a uma Fundação especialmente constituída para o efeito.
Se alguma interpretação há para este gesto é que nem sequer o ex-monarca levou as pretensões dos primos a sério… Actualmente, só mesmo certa imprensa (como a de cima) para lamentar e colmatar essa nossa lacuna: pois se até a Albânia tem pretendente ao trono… Pena é que, aparentemente, nem as raínhas da televisão já acreditem neles...

(*) Das Casas Reais Legitimista (os Bourbons) e Liberal (os Orléans) e da Casa Imperial (os Bonapartes).

O HOMEM QUE PARECE QUE QUERIA FAZER NÃO SEI BEM O QUÊ…

Como um prato originalmente mal confeccionado que se torna a impingir, agora reaquecido por um micro-ondas, suspeito que começa a faltar a pachorra para a alegada cruzada contra a corrupção de João Cravinho, em que ele evitou pelejar quando devia e podia, mas apresentou depois cá uns projectos de legislação!…
Já nem sei se é ele que fala, ou se é a própria comunicação social que insiste em fazer parecer que ele fala, fala, fala, porque as declarações são sempre a mesmas... A verdade é que, sobre esse tal assunto, o homem que parecia que queria fazer não sei bem o quê e como muito bem remata o senhor aqui da fotografia de baixo, apesar de se falar, falar, falar, eu nunca o vi a fazer nada

04 outubro 2007

O VERDADEIRO GÉNIO MILITAR DE ALEXANDRE MAGNO

Já tive oportunidade de escrever neste blogue sobre Alexandre Magno e o destino do Império que conquistou. Hoje gostaria de me debruçar sobre outros aspectos, do que sabemos da sua pessoa e dos seus feitos e da forma como eles viram a ser valorizados na actualidade. Pensa-se que, na época que se sucedeu à sua morte, Alexandre se terá tornado numa lenda da cultura helénica e que esse estatuto poderá ter influenciado o que dele se veio a escrever. Embora se saiba que houve relatos primários – de testemunhas presenciais – sobre os acontecimentos do reinado de Alexandre, nenhum deles sobreviveu até aos nossos dias.
As fontes que chegaram aos nossos dias, apesar de muito antigas como o livro das Campanhas de Alexandre* escrito por Arriano no Século II da nossa era, distam quase 500 anos da data em que tiveram lugar os acontecimentos que descrevem, e por isso parecem estar já bastante impregnadas dessa ideologia lendária da pessoa de Alexandre Magno que se formou depois da sua morte. Praticamente esquecida durante a Idade Média, voltamos a encontrar a lenda de Alexandre ressuscitada na Idade Contemporânea, no romantismo do Século XIX, exemplificado no gesto de Lorde Byron.

O poeta britânico, que partiu em 1823 para combater aliado aos gregos modernos contra o opressor otomano, morrendo (de doença) no processo como um verdadeiro herói de uma história da sua corrente literária, foi dos raros ocidentais que descobriu à sua custa que os heróis épicos gregos das narrativas da Grécia clássica se haviam extinguido há muito, como os dinossáurios, ou nunca haviam sido assim. Os aliados com quem Byron se batia eram guerrilheiros que atacavam os destacamentos otomanos isolados, sem mostrar uma ponta das virtudes que os livros atribuíam aos membros das falanges tebanas e macedónias
No entanto, foram precisamente as elites britânicas do período vitoriano que recuperaram entusiasmadamente a lenda associada à pessoa e aos feitos de Alexandre, o único ocidental que, pela conquista, alcançara o feito de fundir num Império seu a Europa com o Oriente. Também o Reino Unido se preparava para repetir esse feito ao edificar o seu Império das Índias. E embora Rudyard Kipling, considerado o poeta maior do Império britânico começasse um dos seus poemas:

Oh, East is East, and West is West and never the twain shall meet**.

A verdade é que o conteúdo do poema – na linha da restante obra de Kipling – é uma descrição do Oriente vista pelos olhos de um ocidental***.

Mas, aparte este aspecto ideológico de ser considerado o percursor longínquo do imperialismo europeu, ou d´O Fardo do Homem Branco, para usar o título do poema mais popular do mesmo Kipling, é preciso ter em conta a valorização, porventura excessiva, que a historiografia moderna deu a Alexandre pelos seus feitos tanto no campo político como no militar. Pelo que nos é relatado, ao longo da sua vida Alexandre comportou-se quase como um nómada (veja-se aqui, em animação, o percurso das suas campanhas), numa mobilidade contínua contra quem não se lhe submetesse e que resultou no Império representado abaixo.

Em termos militares, seguindo a narrativa de As Campanhas de Alexandre de Arriano, as vitórias mais significativas obtidas pelos greco-macedónios foram contra os persas, nas batalhas de Granico (334 a.C.) na Turquia ocidental, de Isso (333 a.C.) na Turquia oriental próxima da Síria, e de Gaugamela (331 a.C.), no Iraque setentrional, na região hoje dominada pelos curdos. Depois disso, a narrativa não menciona qualquer grande engajamento durante os cinco anos seguintes até ao da batalha do Rio Hidaspes no Paquistão (326 a.C.), contra Porus o soberano do Panjabe, muito embora Alexandre tenha continuado sempre em campanha, subjugando as populações do Irão e do Afeganistão.

Se o génio militar de Alexandre está selado para além de qualquer controvérsia**** por causa daquelas vitórias em batalhas convencionais, alguns acontecimentos da história mais recente têm-me levado à questão se Arriano e a nossa percepção moderna de Alexandre estabelecida por seu intermédio, não nos teremos enganado e subestimado aquilo em que o rei macedónio também era verdadeiramente genial… É que as campanhas fracassadas no Afeganistão por britânicos (Século XIX) e soviéticos (Século XX) e as dificuldades atravessadas actualmente por norte-americanos (no Iraque) e pela NATO (no Afeganistão) parecem mostrar onde está o verdadeiro problema.
E o problema em qualquer dos conflitos citados acima não esteve na oposição frontal com que britânicos, soviéticos ou norte-americanos foram recebidos, mas na forma como tiveram (e têm) de lidar com a guerra subversiva que se estabeleceu depois disso. Como em qualquer guerra contra-subversiva, as forças greco-macedónias, depois de invadirem o Irão e o Afeganistão, não devem ter travado nenhuma grande batalha convencional que se considerasse digna de figurar nas crónicas e que tivesse, por isso, passado para as narrativas de Arriano. Mas, a ser assim, não restam dúvidas que aquele exército ocidental terá triunfado naqueles cinco anos onde os outros exércitos ocidentais mais recentes falharam. E essa vitória sobre a subversão terá sido um feito de Alexandre que, como estratega, emparelha, senão mesmo supera, as suas vitórias nas batalhas convencionais que lhe dão a reputação…

* Anabasis Alexandri, no original.
** Oh, o Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente e os dois jamais se encontrarão.
*** Kipling nasceu em Bombaim, na Índia, de pais britânicos.
**** Por exemplo, o historiador militar britânico
John Keegan, que muito prezo, escolhe-o como um dos líderes militares de referência em The Mask of Command.