Os jornalistas bem podem organizar os seus congressos, lamuriarem-se e iludirem-se. Uma realidade é que, quando descubro um artigo num jornal com um título que vejo deliberadamente bombástico (acima, à esquerda), e depois encontro numa rede social uma refutação sustentada e redigida em tom ponderado ao mesmo artigo (acima, à direita), não tenho quaisquer dúvidas em atribuir uma credibilidade equivalente às duas informações, senão mesmo mais à segunda, por ser reactiva. Nunca me posso esquecer que por detrás da primeira está sempre a intenção de nos chamar a atenção para ela, empolando-a mesmo quando tal não seria necessário. Eu não sei quem é a Margarete L. Rodrigues, mas também não faço a mínima ideia quem sejam a Clara Viana e a Cristiana Faria Moreira. É curioso como os jornalistas têm todo o tempo de antena do mundo e nunca os vi (pelo menos aqueles que dissertam com pretensões mais filosóficas) a discorrer sobre a sobriedade das suas notícias, fazer claras distinções entre o que é dar notícias e o que é promover a publicidade de temas noticiáveis, como parece ser o caso acima, sobre as (in)competências dos alunos do 5º ano.
21 janeiro 2024
O LANÇAMENTO À ÁGUA DO PRIMEIRO SUBMARINO NUCLEAR, O USS NAUTILUS
21 de Janeiro de 1954. Os Estados Unidos lançam à água o seu primeiro submarino nuclear. Mais do que aquela arma furtiva secreta que faz a reputação da arma submarina, trata-se de um momento de propaganda, a atender à cobertura dada ao acontecimento, seja no noticiário filmado que passava nos cinemas do Reino Unido (acima), seja nos jornais portugueses (abaixo). Foi escolhida como madrinha da embarcação a esposa do presidente Eisenhower. Mas não quero deixar passar uma nota crítica à ignorância de quem redigia as notícias da Movietone britânica que, ao comentar o nome escolhido para o submarino, USS Nautilus, se ficou pela referência ao animal marinho, o náutilo, como inspirador, na ignorância total que o novo submarino compartilhava o seu nome com o famoso submarino do Capitão Nemo da obra de ficção Vinte Mil Léguas Submarinas do escritor francês Júlio Verne. Não são só os jornalistas de hoje que são muito ignorantes...
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A RENÚNCIA FINGIDA DE CHIANG KAI CHEK
(Republicação)
21 de Janeiro de 1949. Em mais uma das inúmeras manobras retorcidas que rechearam toda a sua carreira política, o generalíssimo Chiang Kai Chek (1887-1975), que era então o chefe de estado nominal de uma China dilacerada pela guerra civil, anuncia ostensivamente que «entrega o poder» ao seu vice «para deixar o caminho livre às negociações de paz». Os seus exércitos nacionalistas haviam sofrido um encadeado de derrotas severas às mãos das forças comunistas de Mao Zedong (1893-1976) e a intenção de Chiang era passar a "batata quente" para o seu vice-presidente Li Zongren (1890-1969), que era também seu rival político. Como se pode ler num subtítulo da notícia acima, tratava-se «de uma interrupção de funções e não da resignação». Se as negociações de paz que se seguissem fossem frutuosas, tal facto dever-se-ia ao seu gesto magnânimo; se não e os comunistas reiniciassem a ofensiva militar (que foi o que de facto veio a acontecer), a responsabilidade pelo fracasso recairia totalmente em Li Zongren, e Chiang teria derrotado pelo menos o seu principal rival no campo nacionalista, enquanto havia ganho tempo e preparado a retirada dos últimos recursos do seu regime para a Formosa. O pensamento político retorcido de Chiang não ficava nada a dever ao de Mao...
20 janeiro 2024
O EX-DEPUTADO QUE MERECE QUE LHE CUSPAM
No meu mundo ideal, esta pessoa merecia que as pessoas com quem ele se cruzasse a partir de agora lhe cuspissem ou fingissem cuspir para os pés. Não por ter mudado de partido. Por o ter feito como o fez. Ele nunca foi obrigado a dar qualquer satisfação pública quanto às suas intenções. Se nos mentiu a todos com uma semi-verdade foi porque quis. E é isso que lhe confere o estatuto de escroque e o direito à escarreta. E, já agora, e como os jornalistas têm a pretensão de fazerem as perguntas que as pessoas gostariam de fazer, eu gostaria de saber o que é que Rui Rio tem a dizer do comportamento recente deste seu vice-presidente. Gostaria de saber o que Rui Rio tem a dizer, mesmo que não tenha nada a dizer. Caramba: com o mesmo fundo moral, gestos destes - mentiras descaradas! - beatificam retrospectivamente um Miguel Relvas! Ou, de tanto detestado, o Maló ainda acabará comentador de televisão como o Pedro Guerra.
PREVISÕES 2070 À PROFESSOR CHIBANGA - QUANDO CHEGARMOS A 2028 JÁ NINGUÉM SE LEMBRA DE QUEM PROMETEU E O QUE É QUE FOI PROMETIDO
Mais a sério, recorde-se, por exemplo, esta promessa abaixo do mesmo PSD, que foi feita um par de meses antes das eleições de 2011, e que quando foi cumprida sete anos depois, já o PSD deixara de ser governo e já toda a gente se esquecera que quem a prometera fora... Carlos Moedas.
O XVII PORTO-LISBOA EM FUTEBOL
60 anos antes da chegada de Jorge Nuno Pinto da Costa à presidência do Futebol Clube do Porto, já se disputavam anualmente encontros entre as selecções das duas cidades. O historial dos resultados era claramente favorável à capital. Como se lê no apanhado que consta do artigo da esquerda acima, o melhor que a selecção do Porto conseguira fora um empate a 1-1 na época 1920-21. O resto só derrotas, incluindo uns abissais 11-1 na época de 1916-17. Há precisamente cem anos, um Domingo, pelas 15H30 no campo da Palhavã, as duas selecções voltaram a encontrar-se pela 17ª vez. E o resultado foi um histórico - como classificariam os jornalistas de hoje... - empate a 0-0. De notar que, ao jornalista que escreve a notícia, não lhe agradou a arbitragem, a do senhor Rosmaninho, que «não foi feliz». Eu bem sei tratar-se de um anacronismo mas é-me impossível ler aquela passagem sem me lembrar do fenómeno da «fruta para dormir» que tão bem dispõe os árbitros.
A TOMADA DE POSSE DE HARRY S. TRUMAN
(Republicação)
20 de Janeiro de 1949. É o dia da tomada de posse de Harry Truman. Era e não era uma reeleição. Truman fora o vice-presidente escolhido por Franklin D. Roosevelt para as eleições presidenciais de 1944. Mas ocupou o cargo por menos de três meses, tendo ascendido à presidência por morte de Roosevelt a 12 de Abril de 1945. A sua reeleição esteve por um fio. Mas é ele que acima vemos a tomar posse na cerimónia alterada para esta nova data, que é hoje uma efeméride colectiva - tornou-se o dia da tomada de posse de todos os presidentes norte-americanos desde aí, de Truman a Trump. Por falar neste último e de acordo com a locução do vídeo acima, a cerimónia de há 69 anos terá sido presenciada por umas 130.000 pessoas e havia 1.250.000 espectadores a assistir ao enorme desfile que se lhe seguiu e que se estendia por mais de dez quilómetros, durando mais de três horas. Por curiosidade, refira-se no vídeo acima a recolha de imagens que parecem ter sido feitas a partir de um helicóptero (aos 0:30 e aos 0:55), o que era uma novidade naquela época.
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19 janeiro 2024
HÁ MAIS DE QUARENTA ANOS QUE EU NÃO ACREDITO NAS HISTÓRIAS «PURAS» DE AGRESSÕES A JORNALISTAS, CASO NÃO HAJA OUTRAS TESTEMUNHAS IMPARCIAIS A CORROBORAR
Esta história que aqui vou contar já tem mais de 45 anos, ocorreu por ocasião das cerimónias do 175º aniversário do Colégio Militar, cerimónias que foram presididas pelo então presidente da República, general Ramalho Eanes. Antes das cerimónias se iniciarem, e diante da guarda de honra que o aguardava, houve uma cena que ainda hoje recordo. Formou-se inicialmente uma poule de foto-jornalistas postados no sítio mais propício para fazer a melhor fotografia ao presidente, quando ele chegasse. Infelizmente, o sítio era também o mesmo por onde forçosamente o mesmo presidente, o seu ajudante, e o comandante da guarda de honra haveriam de passar quando o primeiro passasse revista aos membros que - como eu - constituíam a guarda de honra. Não podia ser. Um alferes da PE (Polícia do Exército) explicou pacientemente isso aos foto-jornalistas e estes dispersaram. Passado alguns instantes formava-se novo grupo, mais pequeno (dois ou três), no mesmo local, e o mesmo alferes voltou a explicar-lhes, aos fotógrafos insistentes, precisamente a mesma coisa. Enquanto isso, nós, na guarda de honra, apreciávamos este jogo do gato e do rato impávidos, mas nem por isso desatentos e, por isso, divertidos. Chega o presidente, começam os procedimentos, saudações, hino, e não é que há um fotógrafo mais coriáceo que, apesar do que acontecera, volta para o lugar do crime?... Aí, o alferes da PE, que era de compleição avantajada, esgotara a paciência, e, pegando sem cerimónia no fotógrafo pela gola e pelos fundilhos, despejou-o para uma distância de uns dois metros longe do local onde presidente e acompanhantes passariam, onde o fotógrafo aterrou para um lado e a sua máquina para outro. A cena foi violenta mas é minha convicção profunda que a assistência só não irrompeu em aplausos porque: a) era uma tropa disciplinada; b) tínhamos as mãos ocupadas a segurar as armas. O fim da história é um anti-clímax, o fotógrafo afastando-se dorido com a máquina de onde se partira qualquer coisa, rogando pragas e ameaçando represálias, que não dei por que se concretizasse. Mesmo sem as fotos mais especiais daquele parvalhão, a ocasião ficou registada para a posterioridade, como o comprovam as duas fotos mais acima.
Regressemos ao presente e ao recente episódio em que o Expresso se vitímiza porque um dos seus jornalistas foi expulso de um «evento universitário». Da própria notícia que o jornal publica percebe-se que os convites haviam sido feitos extemporaneamente por membro do staff do Chega (quando estes não eram sequer os anfitriões do evento), que o jornalista terá sido previamente instado por três vezes para o abandonar e quanto à expressão «agredido» que é usada pelo jornal, essa parece excessiva quando se lê que ele terá sido «agarrado pelos pés e pelos braços» e posto fora do recinto onde decorria o evento. Removido sem qualquer cortesia sim, mas essa falta de cortesia começara quando ele se recusara a abandonar o local, recusando razões que preferiu não reconhecer como válidas. Recordando aquilo que aconteceu diante de mim há 45 anos, o que faltará a esta história é recolher o depoimento de alguém que a possa descrever de maneira imparcial. Não se dê o caso do jornalista se ter comportado como um parvalhão, como aconteceu com o foto-jornalista do parágrafo mais acima. Porém e em vez disso, quanto mais o tempo passa, mais se percebe que, em vez de o esclarecer, o exercício dos colegas deste jornalista tem sido o de tentar conspurcar o incidente com o maior número de entidades possíveis: Chega, UCP, Iniciativa Liberal... Como sempre, parece ser tempo perdido pedir-lhes, aos jornalistas, objectividade em acontecimentos em que estão em jogo os seus interesses de classe. O que, não nos esclarecendo nada quanto ao que terá acontecido, elucida-nos, ao menos, porque é que quiseram transformar aquilo que aconteceu em notícia.
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AS CONDECORAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL, O CAMARADA QUE «FAZIA CERIMÓNIA» SÓ COM OS ESTRANGEIROS
Álvaro Cunhal (1913-2005), o mais destacado dirigente comunista português do século XX, sempre se mostrou extremamente avesso a receber condecorações. Pelo menos em Portugal. Sempre que foi sondado com tal propósito, a sua resposta foi invariavelmente negativa. Tão conhecida se tornou essa sua aversão que, quando Cunhal faleceu em 2005, nem se equacionou sequer a hipótese de que o então presidente, Jorge Sampaio, o condecorasse a título póstumo, como muitas vezes acontece nestes casos. Este preâmbulo torna-se indispensável para que o leitor perceba melhor o anacronismo irónico em que consiste a notícia acima, publicada a 19 de Janeiro de 1984, em que o Diário de Lisboa dá notícia da alta condecoração que o líder cubano Fidel Castro impusera a Álvaro Cunhal que visitava Cuba. A Ordem «Playa Girón» é a mais elevada da hierarquia das ordens honoríficas cubanas, concedida apenas excepcionalmente. E é assim que se pode perceber como teria sido, provavelmente, um Álvaro Cunhal extremamente contrariado a participar naquela cerimónia, sem que o próprio tivesse para com Fidel a coragem que mostrava para com os seus compatriotas. Coisas do internacionalismo proletário... Aliás, mais de uma década antes, ainda antes do 25 de Abril e do retorno de Cunhal a Portugal, os soviéticos haviam-lhe pregado uma partida semelhante, concedendo-lhe a Ordem da Revolução de Outubro, que fora instituída em 1967 (abaixo, à direita). Ainda depois desta condecoração cubana, recebida com um imaginável sorriso amarelo, Álvaro Cunhal virá ainda a receber a ainda mais prestigiada Ordem de Lenine (abaixo, à esquerda) dos mesmos soviéticos, já em 1989. Conhecidas as diferenças ideológicas da época entre Cunhal e Gorbachev e também a aversão do primeiro por condecorações, o que se dizia em surdina é que aquela iniciativa de Gorbachev fora mesmo para chatear Cunhal de forma cortêz e diplomática... E, mais uma vez, Cunhal não teve a franqueza de dizer que não. Foi pena...
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18 janeiro 2024
...E O TRIBUNAL DE CONTAS SABE EM QUE ANO ESTAMOS?
Há coisa de uns dias foi piada das redes sociais estes votos de Feliz Natal enviados três semanas depois da data por uma CP que sabemos circular permanentemente em atraso. Infelizmente não será a única organização consistentemente atrasada do nosso panorama nacional. Reconheça-se que os atrasos do Tribunal de Contas não perturbam o quotidiano das pessoas como os da CP, mas o ritmo a que por lá se apresenta as suas conclusões apenas as ridiculariza - porque parecem ficar sempre impunes.
Por lá ainda se está a analisar aquilo que se andou a fazer por aí durante a pandemia. E concluído que se terá «desperdiçado» 50 milhões em vacinas e se terá gasto 150 milhões de mais em testes. A pergunta é: o que se faz agora, quando se completam quase quatro anos sobre o início da pandemia? De uma forma imaginativa, também aqui se pode dizer que se anda sempre atrás do comboio... Será que vale a pena mandarmos um telegrama ao Tribunal de Contas a informá-los que a Rússia invadiu a Ucrânia?...
Muito sinceramente: este exercício repetido de bradar que as coisas foram retrospectivamente mal feitas, sem possibilidade de as rectificar e sem que se vejam sanções para quem as fez, é um exercício de masoquismo inútil e estúpido.
A TENTATIVA DE GREVE GERAL DE 18 DE JANEIRO DE 1934
18 de Janeiro de 1934. Tem lugar um amplo movimento de greve geral em reacção à legislação corporativa do Estado Novo que retirava a autonomia aos sindicatos clássicos. Ao bom estilo da época, as paralisações foram acompanhadas de acções de protesto e sabotagem, que eram os focos das notícias dos jornais da época (que eram censurados). Simbólico da importância dos acontecimentos, o Diário de Lisboa, que então continha oito páginas, dedicava quase metade delas (acima) ao noticiário (permitido) do que acontecera. Para o movimento operário, terá sido uma gloriosa derrota, mas uma derrota, ainda assim.
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17 janeiro 2024
A BATALHA DE MONTE CASSINO
(Republicação)
17 de Janeiro de 1944. Começa a Batalha de Monte Cassino. Virá a constituir a batalha de referência da campanha que os Aliados travarão pela conquista de Itália durante a Segunda Guerra Mundial. O Monte, com um pouco mais de 500 metros de altitude e situado a uns 130 km a sudeste de Roma e a uns 80 km a norte de Nápoles, é encimado pela Abadia desse nome (acima, depois de destruída pelos bombardeamentos aliados), o mosteiro de origem daquela ordem, fundada em 529. Por outro lado, Monte Cassino é também um ponto táctico notável, cujo controlo permite o estabelecimento de uma linha defensiva dominando as alturas, criando uma barreira no centro da península italiana. A sua posse é decisiva para que essa barreira se possa conservar e, assim, Monte Cassino pode ser considerado como o ferrolho de tal dispositivo. Em princípios de 1944 os alemães detinham-no, e os Aliados queriam-nos desalojar. Nos quatro meses que se vão seguir a 17 de Janeiro de 1944 haverá quatro batalhas para desalojar os alemães daquela posição. A multinacionalidade das tropas atacantes caracterizará os combates: envolverá britânicos e americanos, mas também neozelandeses, indianos, magrebinos franceses, canadianos e polacos. A posição só virá a cair em meados de Maio após ter causado 55.000 baixas entre as forças aliadas. A condução dos combates ainda hoje é um assunto controverso, como se pode deduzir pelo subtítulo do livro abaixo, fortemente crítico do general (norte-americano) Mark Wayne Clarke. Controvérsias essas que, como é costume, são depuradas na página a ele dedicada na wikipedia.
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16 janeiro 2024
DOIS FOLIÕES DE CARNAVAL RECENTEMENTE ASSOCIADOS A VIANA DO CASTELO
Temo-los visto a ambos recentemente na ribalta e, curiosamente, os dois associados a Viana do Castelo. Aguiar Branco porque vai encabeçar a lista da AD por aquele distrito. André Ventura porque foi naquela cidade que se consagrou pela enésima vez como líder do Chega. Estas duas fotos mostram que, por muito rigorosamente que se fardem, está na sua essência pessoal parecerem estar mascarados, como se não passassem, como actores políticos, de um par de foliões de Carnaval.
ONDE É QUE EU JÁ VI ISTO?...
16 de Janeiro de 1924. «Um redactor» do Diário de Lisboa entrevistava o ministro da Justiça, José Domingues dos Santos, tendo por tema destacado a «extinção das comarcas judiciais». A expressão é ainda crua, estamos muito longe da «reforma do mapa judiciário» do século XXI. Mas o propósito parece ser já o mesmo: adaptar à realidade social e económica vigente uma estrutura que se tornara vetusta por causa da evolução natural do país. Mas convém dividir responsabilidades: (a ideia) «não é só minha. É também do partido» (Democrático). E como em qualquer discurso político deste género, também aqui o ministro pretende convencer que esta supressão/substituição não apenas será benigna («lucram as populações rurais»), como a sua implementação não irá prejudicar praticamente ninguém. Sendo elas sempre difíceis quando se confrontam contra interesses instalados, as reformas, quando se apresentam assim timoratas, pretendendo passar por inócuas, costumam estar condenadas ao fracasso.
15 janeiro 2024
A DENÚNCIA DA DEMAGOGIA, QUANDO NASCE, É COMO O SOL, É PARA TODOS
Saúdo de forma muito efusiva e sincera esta prática recente, a que assisti no congresso do Chega deste fim de semana, de desmontar logo em cima do acontecimento as promessas demagógicas que ali se fizeram ouvir. Acima, do lado esquerdo, e retirado do jornal Eco, a única coisa que me deixa dúvidas naquela análise é a identidade dos especialistas que alertam os leitores para as consequências nefastas da implementação da proposta do Chega para as pensões. Deixa-me dúvidas, porque não sei a quem me dirigir para lhes pedir, aos tais especialistas, que fizessem uma análise semelhante nas suas consequências às propostas de aumentos do salário mínimo apresentadas neste mesmo fim de semana, tanto pelo PCP como pelo Bloco de Esquerda, que se podem ler do lado direito. Já que a conversa se pretende adulta, sobre o que é exequível e o que o não é, convém tratar informativamente todas estas propostas dos partidos marginais da mesma forma, já que se sabe quanto elas podem ser absurdas e quando é dado adquirido, mas nunca mencionado, que só as vemos feitas porque quem as faz sabe que elas nunca serão implementadas. Tratando PCP e Bloco da mesma forma rigorosa como se trata o Chega, menos razão se daria a este último partido para se queixar de discriminação pela comunicação social. Em concreto, e pretendendo dar a todos um tratamento por igual, o que é que os especialistas do Eco nos podem dizer sobre o impacto económico e financeiro destes interessantes aumentos prometidos do salário mínimo e das pensões?... Ou os 900€ do Bloco e os 1.000€ do PCP como salário mínimo são para levar a sério?
O ALIADO
Para atribuir tanta importância ao «aliado diplomático», o jornalista que escreveu a notícia acima não deve fazer a mínima ideia sequer onde ficará Nauru. (Estivesse ele interessado, o Herdeiro de Aécio podia tê-lo ajudado, com esta publicação de 2006) Nauru é o terceiro mais pequeno país do Mundo, tanto em área (21 km²), como em população (cerca de 11.000 habitantes). Como «aliado», teria convido ao autor do artigo esclarecer os leitores que se trata de um aliado muito pequeno. A acrescer a essa irrelevância, Nauru tem um passado bastante volúvel no aspecto diplomático, porque, devido à dimensão, é um país descaradamente propenso a inflectir a sua política externa conforme as doações que recebe de países terceiros. Assim, já em 2002, Nauru havia cortado relações com Taiwan a troco de 130 milhões de dólares recebidos da China à guisa de auxílio humanitário. Contudo, em 2005, agora por uma quantia não revelada, Nauru reverteu a aliança que fizera, regressando ao reconhecimento de Taiwan em detrimento da China. Mas não se pense que o fenómeno da diplomacia oscilante se circunscreve às questões chinesas: em 2009, e contra o pagamento de 50 milhões de dólares da Rússia, Nauru tornou-se notícia por ser o quarto país do Mundo a reconhecer a independência da Abecásia, uma região da Geórgia que se separara dela com o apoio de Moscovo. Mais do que conhecida, a volubilidade de Nauru quanto a estas questões é proverbial. O que, como se compreende, retira quase todo o impacto à notícia acima. E é uma pena que António Saraiva Lima, o autor da notícia acima, licenciado em «Ciência Política e Relações Internacionais», que debateu «sobre a Europa num think tank», estagiou «numa afamada organização internacional» e que é mestre «em Estudos Europeus», pareça não saber praticamente nada de propedêutico sobre o assunto sobre o qual escreve. Este género de notícias avaliam-se pela profundidade como são tratadas, não pelo cardápio de títulos académicos que o autor ostenta.
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PEQUENAS NOTÍCIAS COM HISTÓRIAS QUE, CONTADAS, NINGUÉM ACREDITA E QUE, ESCRITAS,... TAMBÉM NÃO
Há setenta anos, o repórter do Diário de Lisboa encarregado de cobrir o que acontecia no Torel (a forma coloquial como era designada a sede da polícia judiciária de então), trouxe de lá esta história do sr. Rui Alves Nunes, que ali aparecera a queixar-se de que «gatunos lhe haviam furtado do bolso do casaco um cheque por preencher, apenas com a sua assinatura, o qual foi aproveitado para o levantamento de esc. 3.000$00», levantamento esse que fora «efectuado no passado dia 30, na Caixa Geral de Depósitos». A história apresenta-se assaz duvidosa: os gatunos roubaram um e só um cheque? O sr. Rui Alves Nunes era tão descuidado que se passeava assim com cheques pré-assinados em branco nos bolsos do casaco? E não dera anteriormente pelo desaparecimento do cheque do bolso do casaco? Fora preciso terem-se passado mais de duas semanas sobre o levantamento para ele vir apresentar queixa? Como se perceberá, afinal esta "pequena notícia" tinha afinal um imenso potencial... humano. A questão é que ninguém estaria interessado em saber das desditas do sr. Rui Alves Nunes, e do seu expediente clássico para reverter uma transacção que não correra a seu contento.
14 janeiro 2024
QUANDO É QUE ANDRÉ VENTURA CORTA A SUA PRÓPRIA LÍNGUA?...
Ainda há três dias André Ventura encenava uma campanha teasing, com a solenidade das escadarias da Assembleia da República por detrás, prometendo nomes de «actuais e antigos deputados do PSD» «nas listas do Chega» às próximas eleições legislativas. Quem? «Não adianta(va) nomes», guardava-os para a convenção do partido que teria (teve) lugar este fim de semana. Pois bem, quando escrevo essa tal convenção do Chega já terminou e os nomes de «actuais e antigos deputados do PSD» nem vê-los... Recuperando uma daquelas frases de impacto que André Ventura tanto gosta de proferir (abaixo), só que adaptando-a às circunstâncias presentes, «se (ele) fosse pedófilo castrava-se quimicamente», aqui que o vemos como mentiroso compulsivo, o que é que ele pode fazer em coerência consequente? Cortar a língua?...
«GRANDES» DISCURSOS PRESIDENCIAIS
14 de Janeiro de 2004. Numa visita à NASA o presidente George W. Bush faz um discurso de antevisão de como evoluiria o programa espacial norte-americano na próxima década, que culminaria com o regresso dos voos tripulados à Lua até 2015. Inspirado descaradamente, na forma e nos propósitos, no discurso que havia sido proferido em 25 de Maio de 1961 por John F. Kennedy, este outro discurso foi descartado para o caixote do lixo da História, pelos motivos que essa própria História torna evidentes: praticamente nada do que ali se prometeu se veio a concretizar. E contudo, do ponto de vista jornalístico, a pomposa patranha mereceu o destaque de capa e uma página inteira da edição do dia seguinte. Os jornalistas não adivinham o futuro mas deviam ter por missão denunciar promessas não cumpridas como é este o caso (flagrante).
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13 janeiro 2024
O INÍCIO DA PROMOÇÃO DOS ÊXITOS DISCOGRÁFICOS
13 de Janeiro de 1949. Como se vê por este anúncio de jornal, importando o modelo (e os ídolos) norte-americano(s), sintoma da hegemonia cultural que os Estados Unidos estavam a exercer sobre a Europa, começava a aparecer em Portugal a promoção discográfica àquilo que se veio a denominar por música ligeira (em contraponto à música clássica daqui originária). Para que o leitor tenha uma melhor ideia de como eram os sucessos da época, adiciono abaixo o primeiro sucesso de Bing Crosby da lista acima.
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