08 maio 2016

PORQUE É QUE SE DEVE OLHAR PARA A DENTIÇÃO DO BURRO QUANDO ELE É IMPINGIDO POR UM CIGANO

Chega a despertar ternura o teor de um artigo do jornalista Paulo Farinha que o Notícias Magazine hoje publica a respeito do comissário Carlos Moedas. Já li panegíricos, encomendados e assumidos como tal, que se mostravam mais discretos e apropriados, menos envergonhantes. Para todos: para o destinatário; para quem o escreve; para quem o lê, que às vezes é quem mais padece pela estupidez implícita dos textos mais desavergonhados.
Neste momento em que, por coincidência, há um outro vulto da política nacional que muito prestigiou Portugal pela sua carreira europeia - Durão Barroso - que precisa de ser desmentido pelo antigo presidente da República Jorge Sampaio quanto ao que conduziu à Cimeira das Lajes, convém continuar a insistir em recordar as aldrabices passadas de outros espertalhões parecidos que o seguem na peugada, como é este caso de Carlos Moedas, que contará com o tempo para que se esqueça como o próprio prometia que, com o PSD no poder, o rating das agências iria subir. O PSD esteve no poder quatro anos e meio, o rating não subiu, ainda hoje permanece igual. Carlos Moedas é que deixou de andar por cá para responder por isso. Mas também não me parece que haja quem lho queira perguntar. Pelo contrário, como se observa acima, até se dá à desfaçatez de ser ele a comprar artigos em jornais: e no fim do texto, numa pequena nota em letra bem miudinha, o equivalente à dentição podre do burro, fica-se a saber quanto custou, que os jornalistas andaram a viajar à pala do orçamento da Comissão...

07 maio 2016

«ASSIM VAI SER UM POUCO MAIS DIFÍCIL...»

Eu tenho um casal amigo que gosta imenso de jogos de salão, especialmente de jogos de cartas. Tradição herdada da parte da família dele, os dois costumam reunir-se regularmente com os sogros dela para tardes ou noite esquecidas de partidas a pares em jogos absolutamente burgueses como o bridge e a canasta. Onde, como absolutamente burgueses, se dispensa a descortesia de deixar ao acaso das cartas a formação dos pares: Os casais cruzam-se como mandam as regras de etiqueta, mãe e filho, sogro e nora. Ora acontece que a nora não partilha da concentração competitiva colocada em cima da mesa (e aqui o tema emprega-se com propriedade...) pelos restantes. Jogam-se jogos em que o cartear pode ser uma ciência, mas das ocultas, muito para além do engenho e das preocupações da jogadora mais nova. Os resultados do par naturalmente ressentiam-se disso mas o mais interessante de observar era a atitude fleumática, também muito burguesa, do sogro, diante das sucessivas decisões desastradas da nora. Como se o episódio não passasse de um desafio intelectual suplementar, até bem vindo, o sogro limitava-se a sussurrar entre dentes mas de forma audível, onde apenas o tom de voz o traía ligeiramente: «- Assim, vai ser um pouco mais difícil...»
Desconfio que, enquanto Passos Coelho por lá continuar, vai ser um pouco mais difícil para o PSD. O fim-de-semana ainda vai a meio e ele já se esmerou em cartear algumas jogadas menos felizes. No caso de ontem, dos contratos de associação com as escolas privadas, é engraçado como no meio de tanta argumentação cruzada não ouvi ninguém saudar a medida pelo esforço de contenção da despesa pública que ela representa. Talvez porque do lado de quem a implementa esse não seja um argumento que os entusiasme, porque os amarraria para o futuro; talvez porque do lado de quem a critica, e como sempre se suspeitou, a contenção da despesa pública não era virtuosa só por si, havia uma virtuosidade ideológica nos destinatários das contenções. Por muito liberalismo que vogue por aí, parece afinal não existir virtude alguma em conter despesa à custa do sector privado que vive pendurado dos subsídios públicos. Passos Coelho aduz um cunho muito pessoal a todo o assunto ao manifestar a sua preocupação pelas implicações legais da decisão - traz atrás de si quatro anos de governação que lhe conferem uma moral robusta sobre o assunto. Não satisfeito, no dia seguinte (hoje), notabiliza-se por lembrar-nos que nunca participou em inaugurações de obras. O próprio Observador encontrou algumas, enquanto outros jornais, menos compreensivos, publicam um jogo de 20 fotografias de outras tantas inaugurações de que ele se esqueceu. Não quero adiantar nomes de substitutos no partido, mas reconheça-se que, com Passos Coelho, vai ser um pouco mais difícil, e entretanto António Costa agradece.

À CONVERSA COM ANTÓNIO AVELAR DE PINHO, POR ACASO, OU TALVEZ NÃO, UM EX-ALUNO DO COLÉGIO MILITAR

Nos tempos em que isso teria feito diferença, e entre o elenco de vultos que haviam frequentado o Colégio Militar que eram regularmente invocados quando das ocasiões solenes, eu teria preferido saber que o António Avelar de Pinho, que era então o letrista da Banda do Casaco, era ex-aluno (ex-259) e dos rijos (de 1957 a 1965). No campo dos que se distinguiam no campo da música ele ter-me-ia dito muito mais do que (por exemplo) o já então falecido Tomás Alcaide (ex-236 de 1912 a 1920), o canónico evocado nas circunstâncias.

Esta conversa de António Avelar de Pinho (que não conheço pessoalmente) é exclusiva para aqueles que disponham de 36 minutos. Entre ex-alunos, vê-se quanto o homem é da casa. E não apenas de um certa ala da casa. Voga ecleticamente desde as críticas ao discurso ideológico e distorcido do Estado Novo e do SNI de António Ferro até às críticas à pose pedante e preconceituosa de Fernando Lopes Graça. No fim fica-me a pena de não me ter podido imiscuir na conversa, e fazer algumas perguntas que quem lhas coloca desconhecerá o interesse: sendo letrista e músico, qual a influência - se alguma - teve o Carioca? E professores de português? Quais teve? O Menau e/ou o Juju?

CEM ANOS DO LARGO DO RATO

Em oito fotografias, uma viagem pelos últimos cem anos do Largo do Rato, acompanhando a sua progressiva motorização.
Há cem anos, década de 1910-20, tempos da Grande Guerra. Fotografia de Joshua Benoliel.
Década de 1920-30, na outra extremidade (poente), de autor desconhecido.
Década de 1930-40, em remodelações, os primeiros automóveis, fotografia de Eduardo Portugal. 
Década de 1940-50, tempos da Segunda Guerra Mundial, fotografia de Paulo Guedes.
Década de 1950-60, carreiras de autocarros, fotografia de Judah Benoliel.
Década de 1960-70, complexidade de trânsito e sinaleiros, autor desconhecido.
Década de 1970-80, apogeu da população lisboeta (800 mil pessoas), autor desconhecido.
Século XXI, menos ⅓ da população em 30 anos, fotografia de autor desconhecido.

06 maio 2016

ORGULHO!


Há quase 150 repúblicas em todo o Mundo mas, presidentes, só há mesmo o Marcelo e o Obama para se atreverem a dançar com tanto ritmo em frente às camaras de TV.

A GEOMETRIA FLUIDA DAS CORTESIAS POLÍTICAS

Muito longe irão já os tempos em que Passos Coelho e António Costa se empenhavam nas mesuras sociais recíprocas, ao redor e para contraste com um primeiro-ministro arrogante, reputado de as dispensar, exibindo até com um certo orgulho o epíteto (mediaticamente cultivado) de animal feroz. E como as voltas da vida são recorrentemente repletas de ironia, quem era feroz domesticou-se e quem era o campeão do civismo e etiqueta na oposição, deixou-os algures no percurso de aí para cá...

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS IDIOSSINCRASIAS DOS INQUÉRITOS BRITÂNICOS

A recente publicação de um relatório sobre o Desastre de Hillsborough, 27 anos depois dos acontecimentos que levaram à morte de 95 adeptos num estádio de futebol terem acontecido, mostra como os britânicos, quando querem, são de uma capacidade inimaginável para deferir e reavaliar conclusões. Vinte e sete anos transcorridos servem sobretudo para esquecer que o Desastre fora já objecto de um outro relatório, concluído nove meses depois dos acontecimentos, em Janeiro de 1990. Terá sido azar que as conclusões então extraídas, e naquilo que seria o mais importante (o apuramento de responsabilidades), eram diametralmente opostas ao relatório agora publicitado...
Produzir relatórios, apesar da pompa e circunstância de que eles se rodeiam, parece poder ser uma actividade desavergonhada de indecorosa no Reino Unido. Lembre-se o muito mais interessante Inquérito a( intervenção n)o Iraque que o então primeiro-ministro Gordon Brown anunciou em Junho de 2009. Os trabalhos de audição da comissão de inquérito, presidida por Sir John Chilcot, um diplomata de carreira (que acabou por emprestar um nome alternativo ao inquérito), começaram em Novembro de 2009 e terminaram em inícios de Fevereiro de 2011. Esta fotografia acima, em que a testemunha é o ex-primeiro-ministro Tony Blair (de costas), data de 21 de Janeiro de 2011. Por cá, ainda José Sócrates se sentia capaz de desmentir notícias do The Guardian que o faziam a telefonar desesperadamente a Merkel para evitar a vinda do FMI... Os membros da comissão tiveram portanto muuuuito tempo (o mesmo que Pedro Passos Coelho teve para salvar o país...) para redigirem as suas conclusões. Que ainda não estão publicadas, cinco anos depois. É mais fácil assistirmos à morte de um dos membros da comissão - Martin Gilbert, o da ponta direita da fotografia acima, que adoeceu em 2012 e morreu em 2015 - do que saber-se aquilo que concluíram da conduta do governo britânico em 2003 em apoio dos Estados Unidos. Não ajuda à transparência de algo que parece já enquinado que o actual primeiro-ministro David Cameron, que em Outubro passado criticara o arrastar do processo da sua divulgação, surja agora com a responsabilidade de fazer o mesmo, pelo menos até à realização do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Não é apenas a opinião pública portuguesa que se pode mostrar impotente perante situações escandalosas: há muitas outras, e respeitáveis, pelo mundo fora...

05 maio 2016

JOAQUIM CHISSANO, O LÍDER DA RENAMO QUE ESTÁ ESCONDIDO NO MATO HÁ VÁRIOS MESES...

Note-se, na fotografia da esquerda, como Joaquim Chissano graciosamente terá saído do mato (por detrás de si) exclusivamente para conceder uma fugaz entrevista ao jornalista da SIC Notícias, antes de se ir mudar para comparecer no tal jantar de Estado oferecido por Marcelo Rebelo de Sousa. Mais a sério: quero lavrar este público agradecimento ao presidente português. Antigamente os episódios de incompetência dos jornalistas portugueses enfureciam-me e frustravam-me. Agora, graças a ele, divertem-me. Só nesta viagem a Moçambique, e que eu tenha dado por elas, já vamos na terceira...

AS ILHAS SENTINELAS DO NORTE E OS SENTINELESES

Situada em plena Baía de Bengala no Oceano Índico, a ilha Sentinela do Norte faz parte do arquipélago das Ilhas Andamão. O nome foi inspirar-se à sua localização geográfica, em que emparelha com outra ilha baptizada (previsivelmente) de Sentinela do Sul, enquadrando ambas a Passagem Duncan, um estreito de 48 km que separa as ilhas da Grande e da Pequena Andamão. Uma toponímia destas faz perceber a sua origem europeia recente. Com apenas 72 km² e situada numa região sem qualquer interesse económico a primeira referência ocidental (britânica) que se lhe conhece data de 1771. Os britânicos instalaram-se na Grande Andamão em 1789 mas, significativamente, foram-se embora em 1796, tal eram as condições e o clima. E quando regressaram ao arquipélago em 1858, também significativamente, foi para ali instalar uma colónia penal. Mais do que um contacto deliberado o que por vezes acontecia é que um naufrágio forçava o contacto entre os náufragos e as populações indígenas. Assim aconteceu na ilha Sentinela do Norte em 1867 com um navio britânico e cerca de uma centena de sobreviventes. Alguns dias depois, enquanto aguardavam socorro, foram atacados por guerreiros nus armados de lanças com pontas de ferro. Salvaram-se, mas o episódio e as tentativas de contacto – sempre goradas – que se seguiram durante as duas últimas décadas do Século XIX fizeram com que os sentineleses adquirissem uma reputação de ferocidade numa região que já de si nunca fora particularmente acolhedora. Mais do que isso, de uma ferocidade misteriosa. A ilha que, como se referiu, não é particularmente extensa (72 km² – a área de um concelho urbano como o de Almada ou da Trofa), apresenta-se totalmente coberta por uma vegetação densa como se vê pelas fotografias abaixo. Não possui um porto natural nem tão pouco enseadas abrigadas, muito pelo contrário, está rodeada de uma cadeia de recifes que dificulta a navegação costeira e a aproximação.
Assente numa placa tectónica instável, o sismo que provocou o tsunami de 2004, elevou recentemente a ilha em um ou dois metros, fazendo emergir a região dos recifes adjacentes e aumentando a área da ilha, que aparece na fotografia acima da direita em claro, por agora ainda não coberta de vegetação. O ponto mais elevado da ilha tem cerca de 100 metros de altitude. Sobre a população sabe-se muito pouco, a começar por se desconhecer quantos são. Durante o período do raj britânico e por ocasião do censo de 1901 alguém se lembrou de inventar que a tribo tinha 117 membros. Em 1911 continuavam os mesmos 117 e em 1921 perpetuavam-se. Em 1931 um recenseador mais consciencioso (ou menos imaginativo) reduziu esse número para 70. Na verdade nunca se soube nem hoje se sabe. As copas da floresta não os permitem contar nem sequer fazer uma estimativa pelo número de habitações. O que se sabe é aquilo que eles compartilham com as outras tribos indígenas das Andamão das quais se separaram em algum momento do passado. Pela aparência, os sentineleses são negritos. Os negritos terão sido os primeiros habitantes da Ásia chegados há uns 60.000 anos. Hoje o grupo sobrevive de forma identificável pelos seus traços morfológicos principais – nomeadamente a estatura baixa, a cor da pele que lhes dá o nome e a esteatopigia (acumulação de gordura nas nádegas) – apenas em tribos isoladas de alguns países asiáticos, não só na Índia, mas também na Tailândia, na Malásia, na Indonésia ou nas Filipinas. No caso concreto dos negritos que habitam desde há dezenas de milhares de anos as ilhas Andamão, os estudos de DNA indiciam que se terão começada a individualizar dos restantes há um pouco menos de 50.000 anos. Havia uns 5.000 em todo o arquipélago no Século XIX. As tribos de negritos que habitavam as outras ilhas das Andamão sabiam da existência dos sentineleses, mas, nos tempos históricos, estes nunca terão sentido necessidade de romper o seu isolamento. Sabe-se que constroem canoas e praticam a pesca mas costeira. Não se sabe se perderam ou se abdicaram voluntariamente do conhecimento da navegação a mais longas distâncias – a verdade é que foi navegando que eles foram parar à ilha que habitam. Desconhece-se a circunstância em que isso aconteceu. E também é verdade que o território que ocupam está, pela sua própria natureza insular, limitado quanto ao número de pessoas que pode sustentar.
Também não se sabe que acontecimentos terão estado na origem de tão manifesta hostilidade para com os forasteiros, embora se desconfie, que os contactos com o exterior não se circunscreverão aos que estão documentados, e que o passado possa estar recheado de episódios de violência entre os autóctones e tripulações de navios de passagem. O que se deduz, mais do que saber-se, é que os sentineleses como as outras tribos originais de Andamão, viverão da caça, pesca e recolecção como o fazem as tribos das ilhas adjacentes, desde há milhares de anos. O seu isolamento não pode ter sido total: por exemplo, de algum modo eles aprenderam a funcionalidade do ferro que empregam nas suas lanças e de algum modo o obtiveram. Uma dessas vezes é conhecida, quando uma embarcação moderna acabou por naufragar na costa e os sentineleses assaltaram a carcaça encalhada para obter o ferro que não conseguem produzir. Uma das gulodices mais apreciadas por eles são os cocos (numa das fotografias abaixo – com teleobjectiva – aparece uma mulher da tribo a apanhar um que lhes foi oferecido), que paradoxalmente não existem na ilha apesar da exuberância botânica (a plantação de coqueiros está muito para além das capacidades técnicas daquela sociedade, seria fazê-los evoluir da recolecção para a agricultura). A escassa rentabilidade da recolecção por hectare é um factor que limita as estimativas da população de sentineleses; em sentido inverso, sabe-se que um número demasiado baixo de habitantes acentuará os inconvenientes da consanguinidade da população, nomeadamente a esterilidade. As estimativas são várias e vão dos 50 aos 400 habitantes com as mais razoáveis a situarem-se num intervalo entre 100 e 200. Tendo sido muito pouco estudada, mesmo assim sabe-se alguma coisa da cultura dos sentineleses. Um antropólogo indiano chamado Trilokinath Pandit passou anos a tentar contactá-los apesar da hostilidade demonstrada. Houve muitos fracassos. Só se conseguiram resultados há uns 25 anos (1991-93).
Pandit desistiu de levar óculos e relógio para os cautelosos encontros, pois os precavidos sentineleses obrigavam-no a despojar-se de tudo, roupa incluída, já que pelos seus padrões de nudez, roupa e adereços só poderiam ser um pretexto para esconder algo. Apesar de não se conseguir comunicar fluentemente com eles, já que a língua local deixou de ser inteligível com as das outras tribos conhecidas, Pandit conseguiu aperceber-se que a estrutura da sua sociedade é do mais simplificada que há: não há chefe político nem religioso. A sua forma de expressão artística preferida é a pintura corporal: esfregaços ondulados em branco ou ocre. A sua música é rudimentar, as suas canções usam apenas duas notas e acontece o mesmo com a aritmética: há a designação para o número um, para o número dois e para o número muitos. Limitação importante para o seu quotidiano: sabem a importância do fogo mas não o sabem fazer, por isso muita atenção é dada à tarefa de o preservar continuamente. A decisão das autoridades indianas depois daquela série preliminar de estudos foi a de manter a tribo isolada de contactos do exterior. Os contactos de Pandit não alteraram o comportamento hostil dos sentineleses para com outros intrusos. Quando do tsunami de 2004 que, como se viu mais acima, também atingiu a ilha, um helicóptero militar indiano, que viera investigar como a tribo fora afectada pela catástrofe, acabou recebido à pedrada. Dois pescadores indianos que estavam a pescar ilegalmente perto da ilha e que acabaram por ser arrastados para uma das suas praias foram assassinados. Episódios como esses servem para que a espectacularidade e o absurdo se sobreponha ao científico – ainda faltava ver os sentineleses acusados de canibalismo, mas agora já não. Mas o que me ocorre a respeito da situação é uma extrapolação que nada tem directamente a ver com os próprios. O que se observa nesta questão da ilha Sentinela do Norte é uma diferença tecnológica de milhares de anos entre duas civilizações. O hiato é tão grande que as autoridades indianas preferiram deixar os sentineleses entregues a si próprios, num regime jurídico de autonomia política de que nem os próprios se aperceberão. Ora isso seria um cenário parecido ao de uma qualquer civilização extraterrestre que nos contactasse. Como a da Índia, a sua benignidade para connosco seria feita de condescendência. O que é espectacular é como a ficção de Hollywood ainda nos consegue persuadir em filmes descabelados que poderíamos defrontar frontalmente e em pé de igualdade tecnologias que nos superariam por milhares de anos.

04 maio 2016

PORTO RICO NA BANCARROTA E A «RACIONALIDADE ECONÓMICA»

Porto Rico é um Estado Livre Associado aos Estados Unidos. Não faz parte dos Estados Unidos (não é o 51º estado, embora a ideia tenha os seus adeptos) mas também não é uma colónia dos Estados Unidos. É uma daquelas entidades que só existe por depender de uma potência - se não fosse por isso já a sanha das descolonizações teria obrigado a que a ilha se tivesse tornado independente. Mas é por causa de viver nesse limbo jurídico que uma hipotética bancarrota do Estado de Porto Rico seria um caso superiormente interessante. Os Estados Unidos intervirão ou não, e se sim, como, para resgatar financeiramente Porto Rico? Isso seria interessante, claro, se prevalecesse a racionalidade económica sobre a ideologia, tal como Teodora Cardoso nos anda a tentar convencer. Todavia, se assim fosse, as notícias, como as que anunciam o default porto-riquenho de 422 milhões de dólares de anteontem, e que aparece noticiado em quase toda a imprensa relevante norte-americana (NYTimes, Washington Post, Wall Street Journal, Financial Times), teriam tido o correspondente eco na imprensa do lado de cá do Atlântico mormente aqui neste jardinzinho à beira mar plantado. Como se pergunta em qualquer dos artigos linkados, será que o Congresso norte-americano irá fazer alguma coisa para resolver o problema do endividamento de uma economia de 3,6 milhões de habitantes que atingiu os 60 mil milhões de euros? É um tópico a que a racionalidade económica local e europeia deveria prestar cuidada atenção, considerada a analogia da situação porto-riquenha com a da Grécia e também a de Portugal. Mas não. A BBC britânica ou o El País espanhol comentam o assunto mas, googlada a imprensa em português, a económica como o Jornal de Negócios e o Diário Económico, ou a que se preocupa com um certo género (mas apenas com esse certo género) de problemas económicos, casos do Observador ou do jornal i, e comprova-se que nem uma menção por lá aparece relacionada com o tema Porto Rico (abaixo). Experimente-se fazer o mesmo exercício com a palavra Bruxelas: jornal i, Observador, Negócios, Económico e perceber-se-á de imediato, pelo contraste, o que se deve entender por racionalidade económica...

APLAUSO!

Trata-se de Gene Kelly, mas a identidade do actor é o menos importante neste instantâneo televisivo quando comparado com o painel luminoso que se entrevê por cima do artista, preparando-se para ser alumiado quando for necessário robustecer a actuação com uma salva de palmas. Transposto para a situação política portuguesa, o papel do painel é convertido em dois artigos de opinião do Público ou outros três publicados no Observador. Como um estúdio de televisão, na política portuguesa quase tudo se parece passar dentro de um ecossistema fechado, restrito aos profissionais. Como um estúdio de televisão, a menor preocupação dos participantes parece ser a repercussão que o espectáculo está a ter em quem está a seguir a transmissão em suas casas. Isso logo analisarão os especialistas quando saírem os números dos ratings de audiência - ou então as sondagens...

O CALOMBO DE KIM IL-SUNG

Kim Il-sung terá começado a desenvolver um calombo do lado direito da nuca em meados da década de 70. A localização, junto ao cerebelo e à espinal medula, terá impedido a remoção cirúrgica daquilo que os especialistas ocidentais diagnosticaram à distância como sendo uma calcinose. Em finais da década de 80 já o fenómeno crescera para o volume de uma (semi)bola de ténis e aquilo que seria uma inconveniência em qualquer regime aberto tornara-se num segredo de estado num regime democrático como o norte-coreano. Todas as fotos de Kim Il-sung apanhavam-no sempre de um ângulo que escondesse o calombo. Quando tal não fosse possível, as fotos eram retocadas, ao bom jeito socialista de vanguarda. Imagens como as acima, que o exibissem, são hoje raras e seriam perigosas de recolher à data que o foram. Parafraseando o próprio, considerado um dos maiores amigos da Coreia do Norte em Portugal, até tenho dúvidas que o Bernardino Soares tivesse sabido da existência do calombo...

03 maio 2016

SOBRE A RESSURREIÇÃO DO MALANGATANA E TUDO AQUILO QUE SUSCITA A INDIGNAÇÃO DESDENHOSA DAS REDES SOCIAIS

Todos os dias aparecerão uma, duas ou três galgas em notícias relevantes dos órgãos de informação portugueses. Tanta é a regularidade que o maior ou menor destaque que é dado a essas galgas pelas redes sociais dirá mais sobre as competências dos observadores que por aí militam do que sobre a incompetência (reconhecida, apenas não assumida) dos jornalistas. O Expresso, também pelo seu pretensiosismo, é uma vítima apetecível, e quando se atreve a ressuscitar Malangatana do além para que ele se possa encontrar com Marcelo Rebelo de Sousa quando da sua próxima visita a Moçambique (acima), a galga é pretexto para um festival de comentários depreciativos que li por aí. Mas, se a propósito da mesma visita, o Diário de Notícias coloca o mesmo Marcelo a bordo de um avião que a TAP nem sequer possui (o A-380, numa notícia de hoje) já o reconhecimento da galga se circunscreve a um núcleo bem menor e bem menos exuberante de observadores. Se calhar é porque o conhecimento sobre modelos da aviação comercial é um hobby que se revestirá de algum carácter científico e não tanto artístico... Ou porque Marcelo há de aterrar em Maputo seja qual for o avião em que viajar - só que, se for um A-380 não será da TAP e se for da TAP não será um A-380. E com o Malangatana é que não se encontrará de certeza. Mas uma realidade prosaica no fim de toda esta história é que, se o jornalismo se mostrou ignorante em qualquer dos dois erros, desconfio que a tal facção mais exuberante das redes sociais nem terá dado por este segundo...

A PONTE AQUÍFERA DE MAGDEBURGO

Para além das imagens espectaculares que proporciona, um curso de água a cruzar-se desnivelado com outro, esta ponte aquífera que é a mais extensa do Mundo, construída de 1997 a 2003 perto de Magdeburgo, em territórios que haviam pertencido à antiga Alemanha Oriental, mostra uma Alemanha cujo desenvolvimento não impede que continue a investir nas suas infraestruturas.
A geografia económica do país modificou-se depois da reunificação e aquilo que ficara inacabado e depois esquecido depois de 1945 tornou-se agora importante, como esta ligação directa, atravessando o rio Elba por cima e ligando o Mittelandkanal ocidental com o Elbe-Havel-Kanal do Leste que serve Berlim (mapa acima), facilitando as conexões da capital com o maior porto alemão (Hamburgo).

سطحية

As redes sociais são aquele sítio onde se demonstra o quanto é mais importante estar com os seus do que a convicção (e a fundamentação) daquilo que se possa argumentar... Só estando no sítio certo se pode ver reconhecida a apreciação dos seus pares. Argumentar em prol de uma cobertura noticiosa decente a Viktor Orbán, mesmo não concordando com ele, como abaixo escrevi, é gesto que se devia ter deixado para a Helena Matos, assim como se a discriminação incidisse sobre Alexis Tsipras seria coisa obrigatoriamente para a Raquel Varela...

02 maio 2016

PELO QUINTO ANIVERSÁRIO DA EXECUÇÃO EXTRAJUDICIAL DE UM INIMIGO DA AMÉRICA

No dia em que se assinalam os cinco anos da execução extrajudicial de Ossama bin Laden parece-me continuarem pendentes as explicações para que os Estados Unidos tivessem optado pela decisão que tomaram. Estando Ossama bin Laden em território paquistanês, e sendo o Paquistão um país seu aliado, não ganhariam os Estados Unidos em ter tratado o assunto de uma forma mais formal, capturando-o e pedindo a sua extradição? E, se o não fizeram, não terá sido por saberem que o Paquistão, se instado a entregar-lhes Ossama, nunca o faria às claras perante a reacção do mundo árabe? E o Paquistão, mau grado o facto da execução ter decorrido aparentemente à sua revelia, não terá preferido que o assunto tenha sido solucionado da forma irregular como o foi? É que, se não foi assim que aconteceu, caso em que que aquilo que aconteceu não pode por agora ser assumido, parece-me que nestes cinco anos entretanto decorridos, as ondas de choque da execução extrajudicial de Ossama bin Laden teriam de ter sido completamente outras.

O QUE SE ANDA A FAZER À «FORÇA DA LIBERDADE»?...

Alguém deve ser capaz de me explicar os critérios jornalísticos que tornam pertinente dar destaque à presença no nosso país da mulher do ministro das Finanças da Grécia¹ mas que se dispensam de assinalar a presença em Portugal do primeiro-ministro da Hungria²? Desconfio que as conotações políticas de cada um dos visados - ou melhor, no primeiro caso, do marido da visada... - contribuirão para a justificação da dicotomia de critérios que se mostrou transversal a toda a comunicação social portuguesa. Terá que ser o ser-se de extrema esquerda ou de extrema direita porque o anti-europeismo (pelo menos o do status-quo bruxelense) não os distingue. Mas não deixa de ser irónico que isso aconteça num país que tem o lastro histórico que tem quanto à censura daquilo que pode ser noticiado livremente - acima evocam-se imagens da campanha eleitoral de 1969, quando as acções da CDE na oposição passavam permanentemente desapercebidas porque barradas de serem devidamente noticiadas. Clamava-se pela força da liberdade... O que se vê acontecer com Viktor Orbán, permite perguntar o que esta(re)mos a fazer com ela(?)... Ou não me digam que a ideia da censura era boa, o que estava errado eram os protagonistas a quem ela era aplicada?...

² Nota Oficial do Governo Húngaro e o único local onde a nota terá sido aproveitada para produzir notícia, o site Esquerda.net, mas onde a redacção foi orientada para malhar no condecorado, o antigo eurodeputado do PSD, Mário David.

01 maio 2016

«GOD SAVE THE QUEEN»

Há fotografias que parecem ter servido de inspiração para paródias. É o que aconteceria aqui com a fotografia de cima e com o trecho do filme de baixo, não houvesse datas a desmentir o nexo causal. Assim, a arrasadora paródia como (uma sósia de) Elizabeth II é retratada a assistir a um jogo de beisebol no filme The Naked Gun (1988) não teve qualquer efeito dissuasor e parece ter sido recuperada de algum modo para este instantâneo da Noite do Milénio de há 16 anos (passagem do ano de 1999 para 2000), onde a rainha aparece fotografada obrigando-se a dar as mãos a um Tony Blair que era um modelo de político e de trabalhista diferente em seriedade de tudo aquilo a que ela estivera habituada desde que subira ao trono em 1952.

OS SONSOS

A fotografia foi feita a 30 de Abril de 1945 e a embaixada alemã em Estocolmo, acantonada por detrás de uma proteção de toros de madeira e que acabara de ser informada da morte de Adolf Hitler, exibe a sua bandeira a meia haste, em sinal de luto. O que se torna bastante mais difícil é encontrar fotografias desse mesmo dia que nos mostrem qual foi a atitude oficial adoptada pelo governo sueco - como se apresentavam as bandeiras suecas em Estocolmo nesse dia?... As notícias publicadas numa cidade tão distante quanto Lisboa indiciam que a Suécia, como de resto os restantes países que se mantinham neutrais nessa Segunda Guerra Mundial prestes a terminar (Portugal, Espanha, Irlanda e Suíça) cumpriram, ainda assim, a formalidade de fazer luto oficial por um chefe de estado que falecera no exercício do cargo.
Mas a Suécia é uma democracia tão avançada que existem mesmo consensos quanto a assuntos que não devem ser escrutinados: o tema da evolução da conduta do país ao longo da Segunda Guerra Mundial é um deles. Afigura-se-me que a decisão nem é controversa: isso é para os países da Europa meridional, como Portugal. O que se reconhece na Suécia é que há que enaltecer as manifestações de simpatia para com a causa aliada, afinal os vencedores do conflito, e esquecer as que não o foram. Hoje tornaram-se raridades os documentos que mostram que na Suécia também terá havido muitos que mostraram simpatias entusiásticas para com a causa alemã. O senhor sueco que na fotografia abaixo acompanha Adolf Hitler chamava-se Birger Furugård (1887-1961). Pergunto-me, quanto suecos saberão da sua existência?
A falta que lhes faz não terem tido uma figura como o professor Fernando Rosas...

EM JEITO DE PARIS, TEXAS

A imagem da América dos grandes espaços também é feita destes oásis que assinalam as interrupções da jornada, as vantagens da concorrência mas também uma poluição tal de mensagens publicitárias que incita o viajante a manter a carapaça do isolamento e do ensimesmamento que trouxera consigo ao longo da viagem. A fotografia é de Thomas Hoepker e a expressão sonora dessa solidão urbana foi composta por Ry Cooder para o filme Paris, Texas.