12 dezembro 2012

SANTIAGO CARRILLO: O MESMO E UM OUTRO COMUNISMO

Não haverá muitas fotografias de Santiago Carrillo enquanto dirigente comunista durante o período da República Espanhola (1931-1939), mas o que é surpreendente é mesmo a sua notoriedade e a celeridade como ele ascendeu internamente dentro das estruturas, considerando que, nascido em 1915, Santiago Carrillo apenas completara 24 anos quando a República reconheceu que perdera a Guerra Civil de Espanha contra Franco (1 de Abril de 1939).
A partir daí, as histórias dos exílios dos dois partidos comunistas ibéricos adquirem traços em comum. Em 1960, um Álvaro Cunhal (apenas catorze meses mais velho que Carrillo) evade-se espectacularmente da prisão e vem retomar o controlo do partido português a partir do exterior e Santiago Carrillo assume formalmente a direcção do espanhol. Ambos teriam que esperar um pouco mais de uma dúzia de anos (14 e 17, respectivamente) para regressarem às suas pátrias.
Mas, nesta convergência ideológica, de circunstâncias (oposição às duas ditaduras) e de percursos, há que realçar uma nítida divergência de perfis entre os dois dirigentes comunistas. Por exemplo, enquanto Cunhal fez da identidade do seu pseudónimo Manuel Tiago um tabu apenas desvendado em 1994, Carrillo nunca se inibiu de destacar o burlesco do episódio da peruca amaricada que tivera de envergar quando do seu regresso clandestino a Espanha em 1977.
Vale a pena destacar estes aspectos da vida de um comunista de sempre para realçar como a severidade que Álvaro Cunhal parece ter deixado impregnada no estilo dos comunistas portugueses não é indispensável para a sua causa. A evocação que recentemente foi feita a este último no XIX Congresso do PCP pareceu-me ter ultrapassado os domínios da admiração para a devoção e roçou mesmo os domínios do religioso naquilo que parecia ter-se tornado uma assembleia da IURD.

11 dezembro 2012

MOMENTOS KODAK: PARA MAIS TARDE RECORDAR – 3

O tempo passa, o orçamento já foi aprovado no parlamento há uns tempos e eu tardo em afixar esta fotografia simbólica desse momento, este momento kodak para mais tarde recordar. Eu bem sei, e até recordo expressamente, que já aqui escrevi num número anterior desta série kodak que «o prazo de validade da estratégia orçamental do governo de Pedro Passos Coelho havia terminado» em 30 de Abril de 2012. Mas, para 2013, é sempre bonito ver o renascimento daquele entusiasmo bem-disposto. Tanto gostei de ver a fotografia que até descobri nela uma falta protocolar na lapela de Passos Coelho: o pin obrigatório com a bandeirinha que é imagem de marca de todos os ministros deste governo. Mesmo em tempos de contenção, é justo que, perdida a dele, receba uma mais adequeada como prenda de Natal:

OS VÍTORES E AS VITÓRIAS

Numa comédia musical de 1982, intitulada Victor/Victória, Julie Andrews desempenha o papel de uma actriz talentosa mas na miséria até que alguém se lembra de a fazer passar por um actor que faz números de travesti. A sucessão de fingimentos – ela finge ser um ele que em palco finge ser uma ela – é uma ideia imaginativa e que é muito bem explorada, mas a aparência da actriz (acima) enquanto disfarçada de homem é inverosímil se fosse para ser levada a sério.
Já houve quem evocasse o reconhecimento da fisionomia de Julie Andrews como explicação para o relativo fracasso de não a ter conseguido transformar num Vítor credível ao longo do filme. E eu não descarto que esse insucesso possa ter sido deliberado. Mas a opinião original pode ser facilmente contrariada apreciando estas duas fotografias de actrizes travestidas da autoria de Herb Ritts: acima é Hilary Swank e abaixo uma quase irreconhecível Michelle Pfeiffer.
Por esta vez o título do poste estava também travestido: o Vítor não era o Gaspar a vitória não era sobre o regresso aos mercados.

10 dezembro 2012

FOI VOCÊ QUE OUVIU FALAR NO «PABLO»?

Como se pode comparar nas duas fotografias constantes do poste, não há nada mais parecido com as formações nebulosas características de um furacão do que as de outro furacão. Esclareça-se que, na verdade, meteorologicamente pode haver variadíssimas diferenças mas a que quero realçar nada tem a ver com meteorologia e faz-se pelos contornos (reconhecíveis nestas fotografias) das áreas por onde eles passam. No da fotografia de cima reconhece-se a ilha de Cuba, a península da Florida e sobretudo a Costa Leste dos Estados Unidos: trata-se do furacão Sandy que em finais de Outubro passado atingiu aquele último país, enchendo com o facto antes, durante e depois a comunicação social local e mundial, deixando atrás de si um rasto de destruição e pelo menos 253 mortos nos sete países que atravessou.
Na segunda fotografia, suspeito que só os mais treinados em geografia reconhecerão por debaixo das nuvens as costas do norte da Nova Guiné ocidental. A este furacão, surgido em finais de Novembro e ainda activo, deram o nome de Pablo ou Bopha. Apesar de nos pareceram idênticos no formato os especialistas consideraram este muito mais violento do que o Sandy: numa escala crescente (SSHS) de 1 a 5, o que atingiu os Estados Unidos tinha apenas um grau 1 quando ali chegou, enquanto o Pablo chegara ao grau 4 quando atingiu as Filipinas. Não surpreende por isso que até hoje estejam confirmadas 647 mortes e haja ainda 780 desaparecidos… só nas Filipinas. Mas a pergunta importante para que se reflicta quanto à forma como a opinião pública é alimentada põe-se assim: já se tinha dado conta da destruição do Pablo? Ou ele há sofrimentos... e sofrimentos?...

09 dezembro 2012

O GASPARZINHO

Falta-me a disposição para identificar qual será a raça do canídeo, mas assim de rodas baixas é facílimo arranjar-lhe um nome que lhe assente bem: Gasparzinho. Mais ainda se o enquadrarmos com o seu ar inexpressivo e a sua pequenez agachada numa paisagem onde se identifica facilmente por detrás um Volkswagen Carocha (alemão) e o sopé da Torre Eiffel (em Paris). A fotografia é de Hans Mauli mas o título e a interpretação são minhas.

08 dezembro 2012

O RAPTO

Por me ter referido abaixo ao Bananas, aproveito para inserir uma daquelas cenas do filme que nunca me canso de rever: a do rapto do dignitário. Um ultra-zeloso Woody Allen que estava apenas encarregue de injectar pentotal no raptado para o adormecer, supera-se para distribuir a droga por todos, o raptado e os outros dois raptores. Ou seja, foi-se à troika, além de ter ido para além da troika... As cenas que se seguem, com os três homens adormecidos e Woody Allen a tentar dar uma aparência de normalidade à situação, nomeadamente quando os quatro escorregam lentamente ao…
…lado do automóvel como se se tratasse de uma brincadeira, arrancaram-me lágrimas de riso nas vezes e vezes que revi a cena - sem a comicidade e apenas pela imbecilidade da pretensão  faz-me lembrar as declarações contraditórias de Vítor Gaspar a respeito da equiparação às condições do reembolso da dívida às da Grécia. Depois, no filme, os adormecidos acordam e tudo debanda. O que nunca percebi foi o que anda por ali a fazer Zé Diogo Quintela como figurante, mascarado de soldado latino-americano, logo ele que, dos Gato Fedorento, é o menos trigueiro e credível naquele papel.

07 dezembro 2012

UM «EQUÍVOCO» QUE «NÃO VAI CONDUZIR A NADA»…

E por ter falado abaixo em proclamações de inocência indignadas (um equívoco), ouça-se acima o comentário desdenhoso feito por Henrique Medina Carreira há uns anos atrás a respeito de vários casos judiciais mediáticos então em curso que adquire todo um outro significado irónico quando se soube desta recente busca feita aos seus escritórios por causa de um outro caso de fuga e branqueamento de capitais. Se este é mais um caso que não vai conduzir a nada, o que o incomoda? Ou foi só nestas circunstâncias que o envolvem a si que finalmente descobriu que, em termos judiciais, além do problema da ausência de zelo, também pode haver o perigo do excesso dele ou da sua instrumentalização?...

O DEDO DE LAGARDE

Não foi de propósito que se têm vindo a encadear dedos de famosos. Após o de Wolfswinkel e o de Henry Fonda, agora calhou a vez a Christine Lagarde, que nos parece destinado e é oportuno demais para deixar de afixar, para mais quando o seu antecessor no FMI, Dominique Strauss-Kahn, mesmo não querendo pagar os cinco milhões anunciados pelas notícias, apesar disso confessa ter utilizado não o dedo mas o original erecto do que o dedo simboliza para aquilo que o próprio qualificou como uma relação imprópria. Longe vão os tempos iniciais das proclamações de inocência e da rejeição de quaisquer acordos

06 dezembro 2012

A LOGÍSTICA DA GUERRILHA


Depois da logística da guerra abaixo dediquemo-nos à logística da guerrilha, necessariamente mais ligeira que a anterior, e veja-se como Woody Allen resolveu o problema dos reabastecimentos alimentares do seu núcleo de guerrilheiros de um país latino-americano em Bananas (1971): encomendando para levar no snack-bar El Verde... Foram 1.000 tostas mistas, 300 sandes de atum e 200 sandes de presunto com alface e tomate, 490 de queijo em pão de centeio, 110 em pão de mistura e 300 em carcaça, além da trança para o Hernandez. E doses de salada de couve para 900 homens. Para beber, 700 cafés, 500 Coca-Colas e 1.000 7-UPs. Acompanhadas com molho mayonnaise, mas à parte. No fim, o pagamento foi, claro, efectuado revolucionariamente

A LOGÍSTICA DA GUERRA

Se a palavra logística é relativamente recente (datará da Segunda Guerra Mundial) a sua existência será quase tão antiga quanto a guerra. Sem a denominar, um pensador militar reverenciado do Século XIX como o Barão de Jomini tê-la-á incluído n’a arte prática de movimentar os exércitos onde se incluía assegurar a sucessiva chegada de comboios de reabastecimentos e estabelecer e organizar as linhas por onde eles passassem em segurança. Ainda a meio da Segunda Guerra Mundial podemos ler o tópico sob outra designação (assuntos administrativos) nos Diários do Marechal Alanbrooke e nas épicas discussões que ele travou com um Winston Churchill que, sempre fervilhante de ideias sobre objectivos estratégicos onde lançar os seus exércitos, não se mostrava muito sensível a problemas como o da alimentação dos gloriosos tommies para não dizer já nada sobre combustíveis e munições. Reconheça-se, só para exemplo, que no Norte da ilha de Sumatraum desses objectivos causador de uma homérica discussão entre os dois – não haveria em 1943/44 nem mercearias, nem muitas bombas de combustível, nem muitas espingardarias, onde os invasores britânicos se fossem socorrendo para aquelas coisinhas mais básicas… E ainda se travariam mais algumas batalhas navais até que a supremacia naval sobre os japoneses - com consequente segurança dos reabastecimentos - fosse coisa adquirida.
Para a velha guarda representada naquela discussão por Churchill isso eram problemas menores que alguém haveria de resolver. Pela velha ordem os Reabastecimentos eram a Quarta (e última…) Repartição dos estados-maiores, onde desde sempre e oficiosamente se despejaram os oficiais menos aptos. De uma certa maneira esse desdém ainda se mantém no campo editorial: apesar de haver literalmente milhares de livros sobre a Segunda Guerra Mundial, este acima sobre o aparelho logístico que teve de ser instalado depois do desembarque na Normandia em 1944 é uma raridade; ainda mais raro (suspeito que mesmo entre os nossos profissionais…) é o livro que afixei inicialmente, de um analista e historiador militar israelita que faz uma narrativa histórica do assunto desde o Século XVII até à Segunda Guerra Mundial. A presença dos norte-americanos neste último conflito, pela seu formato tecnológico de combater (de que a sua presença na Europa no final da Primeira Guerra Mundial já dera um indício), trouxe uma importância acrescida ao tópico e tornou a abordagem superficial da escola em que Churchill fora educado num anacronismo. Local onde eles chegassem – abaixo as praias de Iwo Jima em Fevereiro de 1945 – os combatentes tinham que ser acompanhado de outros tantos camaradas que se encarregariam do seu reabastecimento.
As grandes epopeias da Segunda Guerra Mundial estão pontilhadas de pequenos episódios que podem mostrar o contraste entre as duas concepções organizativas. Assim, quando de uma retirada seguida de um contra-ataque alemão bem-sucedido na Frente Leste, houve um oficial alemão que teve a surpresa de encontrar entre os prisioneiros soviéticos aquela que fora a sua lavadeira até há umas duas ou três semanas e que entretanto, possivelmente para se penitenciar do colaboracionismo com o invasor alemão, fora incorporada e colocada sem demora a trabalhar numa das unidades de serviços do Exército Vermelho. Para contraste, quando em 1943 os franceses quiseram reorganizar e reequipar o seu exército e tiveram que, para isso, copiar a orgânica dos norte-americanos depararam-se perplexos com a existência de serviços de… lavandarias de campanha, uma tarefa que durante os séculos de história militar francesa sempre competira ao próprio soldado. Esta opulência podia-se sintetizar até numa medida: doze toneladas! Doze toneladas de bagagem era o valor médio que um soldado norte-americano levava atrás de si quando partia para combater no estrangeiro, como se pode ler neste orgulhoso anúncio da época patrocinado pela Sperry Corporation.
O que o anúncio não diz é que, considerado o volume da bagagem, mais de metade dos soldados tinham que ser destacados para tarefas de tratamento dela e nunca chegavam a defrontar-se directamente com o inimigo. Estes últimos – os que efectivamente combatiam – seriam um pouco mais de ⅓ (36%) dos efectivos, mas a tendência foi para que essa percentagem, muito inferior à dos outros exércitos, viesse a decrescer nas guerras seguintes. Em Um Milhão de Dólares cada Viet de Jean Lartéguy, este calculou que, durante o envolvimento norte-americano na Guerra do Vietname, essa percentagem já se situava em 21%. Não fui à procura de números para guerras mais recentes (como o Iraque 1 e 2 e Afeganistão), mas lembrei-me dessa proporção e dessa evolução a propósito desta fotografia abaixo. É um revoltado mexicano mas podia ser de qualquer outro sítio qualquer. E reparei que também os revoltados necessitam à sua maneira de uma logística, em que os membros que a servem já podem superar em número os combatentes. Note-se que sem a presença dos quatro fotógrafos, o arremesso da pedra com a funda pelo combatente de cara encoberta (20% dos efectivos…) poderia ser interpretado como uma mera travessura de um marginal. Só a presença dos fotógrafos dá ao combatente – que não precisa de alimentação (vai a casa), nem de munições (espalhadas pelo chão) – aquele ânimo, a moral, a seriedade política que se espera dos serviços de retaguarda

05 dezembro 2012

UNS PELOS OUTROS

Recentemente dei por um poste num blogue da vizinhança, por sinal excepcionalmente bem documentado fotograficamente, com umas fotografias parecidas mas que não se enquadravam devidamente no tema que era ilustrado. Trata-se de um expediente comum que deve ser quase tão antigo quanto a invenção da fotografia. O exemplo acima é propositadamente visto de fora, usando outra arte, a BD. Trata-se de um jogo prospectivo que se faz com a audiência das fotos, apostando-se na sua incapacidade ou desatenção em identificar o embuste. Há que reconhecer que na esmagadora maioria das vezes vinga. Outras não. Aí vira-se contra o autor, porque é um processo transparente de separar os gestos de honestidade pura dos de honestidade condicionada, aquela que se pratica apenas porque os outros se podem aperceber…

VIRTUOSISMOS


Depois de Jimi Hendrix e ainda a propósito de virtuosos das cordas, eis Narciso Yepes (1927-1997) como solista no adágio do Concerto de Aranjuez (1939), obra que, há que reconhecer, se enquadra muito melhor com a melancolia dos dias que atravessamos em Portugal, Espanha e em toda a Europa enrascada do que, por exemplo, o emblemático Hey Joe do norte-americano.

04 dezembro 2012

JIMI, O MILITAR

Apesar de ter morrido com apenas 27 anos¹, devem existir milhares de fotografias de Jimi Hendrix (1942-1970). São porém raras as que o mostram adolescente ainda antes da celebridade, cumprindo o serviço militar em 1961 mas já agarrado a uma guitarra, um adereço que se tornaria a sua imagem de marca. A opção de Jimi pelo alistamento no serviço militar compreender-se-á melhor se se souber que um juiz o colocou entre ela e o cumprimento de dois anos de prisão por furto de automóveis. Do seu tempo de tropa, o aparelho promocional que envolvia o artista apenas quis aproveitar o facto de Jimi Hendrix ter integrado a 101ª Divisão Aerotransportada, possivelmente a mais prestigiada unidade do exército norte-americano.
A versão que Jimi Hendrix passou à disponibilidade por ter fracturado um tornozelo quando do seu 26º salto é apenas risível porque inventada por alguém que não percebia nada do assunto: trata-se um incidente frequente e menor em qualquer unidade de paraquedistas. Acima vê-se o requerimento feito pelo superior hierárquico de Hendrix para a sua passagem à disponibilidade e entre os exemplos concretos do seu mau comportamento, diz-se que ele fora surpreendido a masturbar-se na caserna enquanto se encontrava de serviço (à faxina?). É só uma síntese do serviço militar de Jimi Hendrix, mas que dará todo um outro enquadramento à sua inesquecível interpretação de Star Spangled Banner, o hino dos Estados Unidos.

¹ Fazendo por isso parte de um macabro Clube dos 27 que é composto por vedetas da música que morreram com essa idade.

OPINIÕES DE PESO

Parece-me significativo que a Lusa tenha repuxado uma notícia com a opinião do ministro das Finanças irlandês sobre a extensão das condições financeiras da Grécia ao seu país para reforçar a de Vítor Gaspar. Como seria de esperar, por cá não se conhece Michael Noonan. Tem 69 anos, é um político naquela tradição anglo-saxónica que já o fez sobraçar as pastas da Justiça, da Indústria e Comércio, da Saúde e agora das Finanças. Tendo já feito de tudo um pouco é conhecido também por ser um bronco: há seis meses gerou um sururu ao comentar numa entrevista televisiva que o conhecimento dos irlandeses sobre a Grécia se limitava a identificá-la como um destino de férias e ao queijo feta. Estaria o ministro a falar pessoalmente?…
Creio porém que o grande problema não é de sofisticação intelectual dos governantes, mas o da confiança dos governados neles. Excluídos à partida as figuras destacadas dos grandes países da União – que ainda há um par de anos contribuíam para o financiamento de um TGV (ou pelo menos não os ouvi então dar os conselhos públicos sobre o que devíamos fazer como agora dão) – resta-nos a solidariedade cúmplice dos enrascados: espanhóis, irlandeses, gregos. E não deixa de ser significativo da confiança política de que este governo dispõe domesticamente quando se socorre deste expediente mediático de evocar a opinião de um burgesso irlandês que nem sabemos quem é para robustecer a decisão de Vítor Gaspar. Esse conhecemos...
Vale a pena esclarecer que não tenho opinião sobre a decisão se deveríamos ou não beneficiar das mesmas condições financeiras concedidas à Grécia. Mas asseguro que não vai ser Vítor Gaspar que ma vai formar…

03 dezembro 2012

UNICÓRNIOS E BICÓRNIOS

Confrange-me constatar que hoje não me dispus a escrever nada de substantivo, mas o vórtice das notícias apanhou-me… agora com a descoberta de um covil de unicórnio na Coreia do Norte. O detalhe da notícia desmente o interesse zoológico do achado, mas a manipulação que é feita pelo título da notícia, a localização do achado e as incertezas suscitadas por alguns sobre o caracter democrático do regime que lá vigora conjugaram-se para me recordar um episódio parlamentar de há uns anos atrás que culminou com a demissão de um ministro por causa do gesto abaixo. Terá sido por terem sido destinados a quem foram ou por terem sido dois, os cornos?...

UMA CENA DE TANGUY E LAVERDURE

Segundo as notícias dos jornais, dois pilotos da Força Aérea portuguesa tiveram direito esta madrugada a uma verdadeira cena como as protagonizadas por Tanguy e Laverdure, pilotos de ficção de uma série de BD já com 50 anos, depois também transposta para a televisão e cinema. O enredo ajusta-se que nem uma luva às histórias protagonizadas pelos dois heróis: aparece um avião misterioso que voa de noite e a muito baixa altitude evadindo-se aos radares e que, apesar de perseguido, subitamente desaparece deles tão misteriosamente quanto havia surgido. Para que o enredo se complete só falta que se descubra que a pista esteja camuflada numa anónima exploração agrícola e o avião escondido no celeiro e coberto de palha!...
Mais a sério, convém acrescentar que agora a motivação das organizações por detrás destas cenas aparenta ser muito mais transparente que as da ficção original: tráfico de droga. E que os dispositivos aéreos de defesa, com F-16 que voam a uma velocidade dupla ou tripla da dos aviões desconhecidos, não os podendo acompanhar, não são os meios mais adequados para a intercepção – a não ser que as instruções sejam para os abater de imediato caso os aviões adoptem atitudes evasivas. Corroborando a inconveniência desta assimetria, eu poderia ainda acrescentar que há uma aventura de Tanguy e Laverdure (apropriadamente baptizada de Pirates du Ciel) em que os autores os põem a voar em antigos Spitfires a hélice.
Mas prefiro evocar um outro episódio sobre essa desproporcionalidade e inadequação entre os meios e os fins a que se destinam, só que agora naval, quando o ministro da Defesa da época (Paulo Portas), esclarecendo a opinião pública quanto às missões e importância dos submarinos que tinham sido acabados de adquirir, nelas incluiu a sua utilidade no combate ao tráfico de droga… Aí tratar-se-ia de um embate entre a capacidade furtiva da rapidez das lanchas que costumam ser empregues nesse tráfico versus a da submersão do submarino que, à semelhança dos F-16 acima mencionados, também estaria limitado à opção única de torpedear e afundar as lanchas no caso de estas ensaiarem uma fuga…
Num e noutro caso creio que o emprego de helicópteros será mais eficaz mas isso é um leigo a escrever...

02 dezembro 2012

DUAS SOPAS

Por vezes, e como acontece acima com Panoramix, a sofisticação gastronómica obriga-nos a ter de preparar duas sopas: uma a verdadeira poção mágica e a outra uma adição de ingredientes vários para que ao menos saia saborosa.

UMA DEMONSTRAÇÃO DAS VIRTUDES RELATIVAS DO TRABALHO ASSISTENCIAL

Hoje completam-se 32 anos que um esquadrão da morte salvadorenho, agindo sob instruções superiores (os mandantes nunca chegaram a ser devidamente identificados), torturou, violou e assassinou quatro freiras norte-americanas (fotografias acima¹) que realizavam trabalho assistencial em El Salvador. O país acabara de entrar numa verdadeira guerra civil (1979-1992), opondo o governo controlado pela oligarquia tradicional aos rebeldes armados de esquerda da FMLN mas tratou-se de um daqueles crimes extremos: pela violência desmesurada (violação e assassinato de freiras…), pelas repercussões (… norte-americanas…), pela inutilidade (…que poderiam ter sido expulsas do país) e pelas consequências adversas para quem o praticou: perante as quatro fotografias acima e sem dúvidas da origem dos autores², uma maioria da opinião pública norte-americana, que antes nem saberia onde se situava El Salvador (abaixo), com a simplicidade de faroeste que a caracteriza, passou a considerar que os governamentais salvadorenhos eram os maus daquele enredo.
Não considero arriscado especular que, ocorresse aquele episódio num país submetido a um regime latino-americano que os Estados Unidos considerassem hostil, o assassinato destas quatro freiras teria sido um pretexto perfeito para uma invasão militar norte-americana que o derrubasse. Mas não foi assim, pelo contrário, o regime aguentou-se ao longo dos treze anos de guerra civil muito por causa do apoio norte-americano. E foi também muito e apenas por causa da pressão norte-americana que os executantes dos assassinatos foram levados a tribunal e condenados a 30 anos de prisão em 1984. Os mandantes permaneceram incólumes. Vem a propósito evocar o aniversário associando-o à mistura entre a política e a actividade assistencial a pretexto das recentes declarações de Isabel Jonet. Disse-se então imensa coisa a favor e contra a própria e a actividade que desenvolve a organização que dirige que, tenho a certeza, bem poderiam ter ficado por dizer, bastava conhecer casos de uma disposição política diversa dos protagonistas, como este caso de El Salvador…  
¹ Da esquerda para a direita: Dorothy Kazel, Ita Ford, Jean Donovan e Maura Clarke.
² Oito meses antes, Óscar Romero, o arcebispo de San Salvador e a mais alta figura da hierarquia católica do país, fora assassinado por um outro esquadrão da morte.

01 dezembro 2012

A CULPA, ÀS VEZES, ARRANJA NOIVO…

Honre-se a atitude de António Guterres pelas declarações proferidas quando da sua passagem por Lisboa, assumindo a sua quota-parte de responsabilidade pelo fracasso da nossa integração no projecto europeu. As suas palavras contrastam com as do seu antecessor e do seu sucessor no cargo de primeiro-ministro que, cada qual à sua maneira e nos seus respectivos cargos actuais, nas suas declarações públicas a respeito da actual crise portuguesa parecem assobiar para o lado como se a responsabilidade por esse fracasso não tivesse sido também deles…

O ELEVADOR APINHADO

Suponho que todos já teremos passado pela situação: um daqueles elevadores colectivos, com capacidade para uma dúzia de utentes ou mais, onde entramos e que se começa a encher com mais e mais pessoas até que elas começam a ficar espremidas naquela caixa fechada sem janelas, caras demasiado próximas para o que é socialmente aceitável, olhares alheios ou para o tecto, cheiros a hálitos, alguns que não primam propriamente pela higiene. Objectos que atravancam. A descrição de um Inferno? Dante ainda estaria nos preliminares… Subitamente, enquanto as portas se começam a fechar a um ritmo exasperadamente lento, vem-nos ao nariz o inconfundível cheiro de um peido dado por alguém que foi apertado em excesso…

Esta descrição ocorreu-me a propósito do episódio desencadeado pela sugestão feita por Pedro Passos Coelho, em plena entrevista televisiva desta semana, que o ensino secundário passasse a ser parcialmente pago. Sintoma evidente que desmente a coesão governamental anunciada por ele nessa mesma entrevista, o ministro da Educação Nuno Crato, através de um comunicado, replicou no mesmo estilo – i.e., anunciando-o publicamente – que essa inflexão política não fora objecto de qualquer discussão prévia a nível governamental. Ora aquilo que Passos Coelho dirige devia ser um governo, composto por pessoas que ele convidou, mas parece uma dúzia de utentes que apanharam um mesmo elevador à mesma hora.

Onde, para continuar com a analogia, parece já se estar num nível de degradação da coordenação tal que, quando a atmosfera se torna malsã, se retalia simetricamente em espécie, largando o nosso. A piorar a insuportabilidade da situação, há Tó-Zé Seguro, que deveria explorar a situação politicamente endossando a opinião implícita na atitude de Nuno Crato contra Pedro Passos Coelho, mas faz algo inverso, ou seja, pica o primeiro-ministro pela insubordinação do seu ministro. Para acabar como comecei, pelos elevadores colectivos apinhados, Tó-Zé Seguro é aquele gajo que chega à última da hora e, mal põe os pés no elevador, este começa a apitar por excesso de peso. Com a excepção dos militantes do PS, Tó-Zé é um excesso de peso