15 novembro 2010

ALGUMAS FACES DE «OS MERCADOS»

Se por um lado, atendendo à descrição que deles faz a comunicação social, os mercados, por se movimentarem dissimulados e atacarem abarbatadores sem aviso prévio, se assemelham aos sandworms de Dune como abaixo descrevi, por outro, gramaticalmente devem ser classificados como um substantivo colectivo, e assim os mercados pertencem à mesma família de palavras como manadas, rebanhos ou cardumes ou ainda, trocando agora a perspectiva zoológica pela ideológica, os mesmos mercados situar-se-ão nos antípodas de expressões como operários e camponeses, trabalhadores, soldados e marinheiros
Contudo, de quando em vez há aqueles que se destacam do anonimato desses conjuntos como foram os casos do pequeno Nemo (acima) em relação a os cardumes ou, mais a sério, de Alexei Stakhanov (1906-1977) em relação a os trabalhadores. E o mesmo se passa com os mercados… Curiosamente, para se conseguir adquirir notoriedade em os mercados, não é importante ganhar dinheiro obscenamente – isso é o esperado e torna-se trivial. A notoriedade conquista-se perdendo obscenas quantias de dinheiro a ponto de precipitar pequenas crises financeiras. Vejamos cronologicamente alguns casos históricos:
Em primeiro lugar, o britânico Nick Leeson. Este rapaz de aspecto jovial da fotografia acima foi um funcionário do Barings Bank, um dos mais antigos bancos ingleses, fundado em 1762, e fora destacado em 1992 para trabalhar em Singapura. Contudo, em Fevereiro de 1995 e a dois dias de celebrar o seu 28º aniversário, Nick desapareceu (deixando uma nota pedindo desculpa…) pouco antes de se descobrir que criara um buraco avaliado em 1.400 milhões de dólares. Com um prejuízo dessa dimensão quem acabou por não celebrar o seu 233º aniversário foi o Barings Bank que abriu falência a 26 de Fevereiro de 1995… A fotografia de Yasuo Hamanaka, com os seus 45 anos, mostra uma pessoa muito mais séria e responsável do que o estouvado Leeson. Porém, veio-se a descobrir em Junho de 1996 que, durante os onze anos anteriores, Hamanaka havia conseguido manipular a cotação mundial do cobre em benefício da Corporação Sumitomo para quem trabalhava só que o fizera à custa de um prejuízo acumulado que escondera até àquele momento de, pelo menos, 1.800 milhões de dólares. Maltratada, ainda assim a Sumitomo sobreviveu e o episódio motivou até o futuro Nobel Paul Krugman a escrever um artigo a esse respeito. Se Leeson parece jovial e Hamanaka compenetrado, a descrição que melhor se aplica à fotografia do francês Jérôme Kerviel é um casual chique, mas simpático. Ele acabara de fazer 31 anos quando, em Janeiro de 2008, o escândalo rebentou na sociedade que o empregava: a centenária Société Générale. Fruto da década entretanto decorrida depois dos dois casos anteriores e quiçá demonstrativo da pujança da evolução de os mercados, o buraco criado por Kerviel foi equivalente ao quádruplo do cavado por Hamanaka: 7.200 milhões de dólares! Neste caso, a Société Générale também aguentou o embateDe uma forma mais sóbria que afinal os mercados são compostos por centenas de milhares de operadores e não só estes, seria preferível que a comunicação social, em vez de os demonizar ou os endeusar (como costuma fazer) ou os trate como algo autónomo possuído de uma vontade própria, desse de os mercados uma imagem mais sóbria, o somatório de indivíduos de uma banalidade comum, que formam a maioria das suas decisões a partir das mesmas ideias e imagens públicas que a todos nós são fornecidas. Como Estela Barbot (acima), conselheira económica do FMI mas opinadora de trivialidades em televisão

14 novembro 2010

«OS MERCADOS» TRANSPOSTOS PARA A FICÇÃO CIENTÍFICA

Não sei quantos ainda se lembrarão de Dune, que era originalmente uma novela de ficção científica da autoria de Frank Herbert e que se veio a tornar ainda mais popular depois da transposição da história para o cinema através de um filme homónimo realizado por David Lynch e protagonizado por Kyle MacLachlan nos anos oitenta (acima). Ora um dos aspectos mais inesquecíveis de Dune são os sandworms (vermes de areia), membros da fauna do planeta onde decorre a acção, que são uma espécie de gigantescas ameaçadoras lampreias omnívoras (abaixo), só que, em vez da água, evoluem por debaixo da areia.

É verdade que há que confessar que nunca antes os pensara como tal mas, quando mais o tempo passa e pela forma como eles são repetidamente evocados, mais me convenço que os tais sandworms bem podem passar por ser personagens metafóricas equivalentes aos mercados… Seja pela forma dissimulada como eles se movimentam debaixo da areia – haverá alguém que se preocupe quotidianamente em saber quais são as cotações do ouro, do cacau ou o Nikkei 225? – seja pela forma inesperada e portentosa como eles atacam – já que a capacidade para escapar à fatalidade das suas investidas é só mesmo para heróis!...

13 novembro 2010

QUANDO OS PIGS ERAM SCHWEINS

Conhecer aprofundadamente a História ajuda-nos muitas vezes a colocar os problemas, tantas vezes explorados empolados e adulterados por conveniências políticas, na perspectiva que, de facto, merecem. Observar um troço de 100 anos da História, ou por vezes um período ainda menor, pode permitir-nos constatar atitudes ridículas de paradoxais. Já aqui me referi a Menachem Begin, membro da organização terrorista judaica Irgun (acima) que, como Primeiro-Ministro de Israel e 30 anos passados depois do fim dessa sua actividade (1931-48), veio-se queixar da actividade terrorista palestiniana… Neste caso, pretendo fazer um pequeno resumo daquele outro tempo em que os problemas financeiros e de disciplina orçamental na Europa ainda não eram causados pelos PIGS mas antes pelos SCHWEINS

Depois do fim da Primeira Guerra Mundial há quase precisamente 92 anos (o armistício data de 11 de Novembro de 1918), um dos principais problemas da Conferência magna que teve lugar em Paris para o estabelecimento da Paz (abaixo), que culminou com a assinatura do Tratado de Versalhes, foi o cálculo das indemnizações que a Alemanha vencida teria que pagar aos países vencedores. Reuniões sucessivas de uma Comissão especialmente nomeada para as calcular, onde se misturaram processos ostensivos de humilhação da comitiva alemã (o seu lado da mesa de negociações não tinha cadeiras e assim eles tinham que permanecer de pé...) a manobras dilatórias por parte dessa mesma comitiva de negociadores alçados para que os pagamentos efectivamente realizados começassem o mais tarde possível.
Um primeiro valor, apurado pelos vencedores em meados de 1920, cifrou-se nos 350 mil milhões de marcos-ouro¹. A esse montante que lhes parecia absurdo, a equipa de economistas alemães respondeu com uns cálculos tão grosseiramente forjados do que fora pago por conta, que conseguiu pôr a sua equipa de negociadores em Paris a fazer figuras tristes diante dos seus interlocutores… O número daqueles eram uns escassos 80 mil milhões, o que levou o irónico Primeiro-Ministro britânico, David Lloyd-George(acima, à esquerda), a comentar que, àquele ritmo e melhorando os cálculos, na próxima fase de negociações já seriam os alemães a exigir que lhes pagassem… Mais a sério, o montante da dívida acabou por ser estabelecido em Maio de 1921 nuns 138 mil milhões de marcos-ouro, sensivelmente o PIB alemão em 1914.

A pagar em prestações de uns 6 mil milhões por ano, contando com os juros que entretanto se acumulariam, o plano de pagamentos antecipava que a última prestação da dívida seria paga em 1983. O problema é que as autoridades financeiras alemãs nunca acreditaram que pudessem cumprir esse calendário e nem sequer se esforçaram seriamente por o fazer. Os governos da Alemanha do início da década de 1920 consideravam ter muito mais que fazer do que preocupar-se com rigores orçamentais. A época era de despesas acrescidas, desde as pensões às viúvas de guerra, às compensações e apoios para aqueles que haviam sido expulsos e expropriados dos territórios perdidos pela Alemanha, às despesas sociais, como subsídios de desemprego e de saúde, aos operários reivindicativos, etc.
Não havendo receitas fiscais para cobrir as despesas o Reichsbank passou a emitir cada vez mais papel-moeda. Em 1914, o dólar norte-americano (US$) equivalia a 4,2 marcos. Em 1920, já depois do fim da Guerra e do consequente desequilíbrio monetário provocado pelo seu financiamento, a relação passara a ser de 65 marcos por 1 US$. Curiosamente, durante os 18 meses seguintes, os mercados (como agora se designam os movimentos especulativos) apostaram na famosa reputação da disciplina e organização germânica e terão injectado quase o equivalente a 20 mil milhões de marcos-ouro na economia alemã, apostando em futuros ganhos cambiais do marco em relação às outras divisas e o ritmo de desvalorização da moeda alemã até se reduziu substancialmente.

Porém, estando fundamentada numa expectativa que cada vez mais tardava em se concretizar, bastaram alguns incidente triviais – num deles, os alemães falharam uma entrega de uma encomenda de cem mil postes telefónicos e os franceses, em retaliação, invadiram parcialmente a Alemanha e ocuparam parte da Renânia – para que os mercados entrassem em pânico e começassem a retirar os capitais anteriormente injectados na economia alemã. Foi o descalabro e o ritmo da inflação tornou-se algo de indescritível. Por essa altura, havia 39 fábricas de papel e 1782 máquinas em 133 tipografias que se dedicavam exclusivamente à produção de papel-moeda. Em princípios de 1922 o US$ valia 190 marcos mas multiplicara-se 40X em Dezembro - para 7600 marcos por US$.
Depois disso, os números deixaram de fazer sentido. Em meados de Agosto de 1923 o US$ valia 600 mil marcos (80X) e em princípios de Novembro desse mesmo ano 600 mil milhões (1000000X)!! A economia alemã deixara de ser monetária, o dinheiro passara a ser uns maços de papel – como se observa pela fotografia mais acima – que se trocavam por qualquer coisa que não se desvalorizasse de um dia para o outro. Ainda hoje é controverso responder porque é que os responsáveis políticos alemães de então conjuntamente com os responsáveis financeiros, nomeadamente o então presidente do Reichsbank Rudolf Havenstein (acima), deixaram que a situação se arrastasse até àquele limite absurdo. A resposta mais plausível é que ninguém quis assumir o preço da austeridade!...

Aos olhos da opinião pública alemã, a questão da redução do deficit orçamental nas suas finanças públicas estava profundamente associada à questão do pagamento das reparações dos seus antigos inimigos e naquele clima político ninguém quisera assumir a responsabilidade da necessidade de uma muito maior austeridade orçamental e de uma reestruturação financeira até que se chegou ao apocalipse financeiro de Novembro de 1923. Ou seja, na sua essência, e apesar da evolução que o sistema financeiro internacional entretanto sofreu nos últimos 90 anos, trata-se de uma situação que se equivale muito à que atravessam hoje os países periféricos da União Europeia alcunhados de PIGS. Como se vê, a Alemanha tem um passado que, havendo moral, não a recomendava para exigências. Mas a moral nada tem a ver com isto...


¹ A divisa em que se calculou a indemnização (marco-ouro) estava indexada a um determinado valor de ouro para que a inflação - como se verá com a continuição do poste - não a viesse a reduzir.

11 novembro 2010

TV NOSTALGIA – 54

Há serões em que sinto saudades de assistir a uma série de televisão que nos obrigue a estar concentrados como acontecia com Tinker, Tailor, Soldier, Spy (1979), a adaptação televisiva do livro homónimo de John Le Carré. Foi a série onde, para mim, a sempre discreta personagem de George Smiley encarnou definitivamente em (e passou a ser) Alec Guiness. Ainda se estava numa época em que se podia considerar que as sucessivas obras de Le Carré eram de qualidade desigual, muito antes dele caminhar para octogenário e tornar-se num autor absolutamente cinco estrelas… Uma excelente surpresa de Natal seria a edição da série em DVD.

A TECNOLOGIA E OS UTILIZADORES

O videofone é uma daquelas invenções que já vemos prometida há mais de 50 anos (a publicidade acima data de 1956) sem que se perceba muito bem porque é que nunca saíram desse estádio de promessa. Uma possível explicação para isso é que, embora os técnicos considerem o invento excelente, os utilizadores não se mostram realmente interessados nele. Neste caso do videofone, não só haverá momentos em que não queremos ser vistos por quem fala connosco à distância, como noutros nem sequer há qualquer interesse em olhar para o nosso interlocutor telefónico, como se constata por este péssimo exemplo publicitário da fotografia abaixo, datada de 1965...

10 novembro 2010

O INSTANTÂNEO DA «CELEBRIDADE»

Ainda a propósito de badalhocos e badalhocas no poste anterior e evocando quem se notabilizou a pintar temas com protagonistas desses, Henri de Toulouse-Lautrec (acima, 1864-1901), o pintor pós-impressionista francês cujo tema dominante da sua obra foi a vida boémia de Montmartre
…vale a pena mencionar, para além de um par de quadros seus, daqueles onde as figurantes aparecem assim mais casualmente desnudadas, como sejam os casos de A Toillete (acima) ou A Inspecção Médica (abaixo), uma interessante fotografia do próprio artista que só recentemente descobri...
Tirada no Verão de 1898 numa praia em Le Crotoy no Norte de França, e embora o autor da fotografia seja o seu amigo Maurice Joyant, a escolha do tema parece ter sido nitidamente do próprio Toulouse-Lautrec. E que eu saiba, numa pose destas ainda não tivemos oportunidade de ver Paris Hilton

09 novembro 2010

OS BADALHOCOS

A Princesa Margaret de Windsor (1930-2002) era a única irmã da actual Rainha britânica Elizabeth II (acima, numa fotografia com ela). Com tal parentesco, e desde que o seu pai (Jorge VI) se tornou Rei (em 1936), a sua vida pessoal sempre foi submetida a um elevado grau de exposição. Na década de 50 Margaret ganhou as simpatias da opinião pública quando a sua paixão pelo Coronel Peter Townsend não se pôde concretizar...
O Coronel Townsend, um piloto da RAF que se distinguira durante a Segunda Guerra Mundial, ainda era uma bela figura (acima) apesar dos 16 anos que levava de avanço em relação a Margaret. Mas esse avanço e, sobretudo, o facto de estar divorciado e com filhos tornavam-no inelegível para a mão da princesa, para grande desgosto de quem seguia a história que, fora esses, tinha todos os ingredientes para ser um verdadeiro conto de fadas.
Depois do desgosto e em alternativa, Margaret veio a casar-se aos 30 anos com Antony Armstrong-Jones (acima). Pode dizer-se que Antony estaria no limiar daquilo que a Casa Real consideraria tolerável: tinha a idade de Margaret, possuía uma ascendência social aceitável, era fotógrafo (artístico) de profissão, a cunhada nobilitou-o como Conde de Snowdon para lhe dar alguma distinção… e o casamento deles correu horrivelmente mal.
Passados meia dúzia de anos as infidelidades recíprocas eram conhecidas e passados uma outra meia dúzia tornaram-se manchetes dos jornais, nomeadamente um muito publicitado namoro de Margaret com Roddy Llewellyn (acima), 17 anos mais novo que ela, e que terá servido de pretexto para o seu divórcio em 1978. O desempenho de Margaret como princesa foi um total erro de casting explicável em parte pela sua conhecida paixão pelo gin (abaixo).
Conclua-se desta curta biografia de uma princesa que, mesmo para quem nasça assim tão respeitável, com um comportamento consistentemente badalhoco se torna facilmente possível perder a simpatia da opinião pública a ponto de se deixar de se dar ao respeito. Imagine-se agora o que é que o mesmo comportamento badalhoco pode fazer à reputação de pessoas a quem esse respeito não é inato, só conferido pelo cargo que ocupam…
Da mesma maneira que não tem qualquer utilidade social haver uma princesa que se comporta precisamente como a nossa vizinha badalhoca do R/C Esquerdo, também se torna difícil conferir dignidade a uma classe de magistrados que se comporta colectivamente da mesma forma que o pessoal da estiva… A classe não se deve esquecer que o poder das togas, ao contrário do das espingardas que se impõe pela força¹, é um poder consentido…

¹ Historicamente, em todas as situações clássicas de crises e de revoluções, era importante contar as adesões dos quartéis e dos seus coronéis, nunca ninguém se importou com as dos tribunais e dos juízes…

08 novembro 2010

HARRY, O PIANISTA

Eleito em Novembro de 1944 como novo vice-presidente do já três vezes reeleito Franklin D. Roosevelt, Harry S. Truman (1884-1972) constituía tanto uma vantagem política por ser uma figura de compromisso entre as várias sensibilidades do Partido Democrata, ao contrário do seu antecessor Henry A. Wallace, como uma desvantagem mediática por ser, apesar de Senador, uma figura relativamente desconhecida.
Oriundo de uma modesta família de agricultores do estado interior do Missouri, o contraste de Truman com o cosmopolitismo e a sofisticação dos Roosevelt a que pertencia o presidente não podia ser maior. A sua única e breve experiência de vida no exterior dos Estados Unidos fora em França em 1918 quando Truman comandara uma bataria de artilharia do Corpo Expedicionário norte-americano durante a Primeira Guerra Mundial.
Uma das mais famosas operações mediáticas que foram levadas a cabo para esquecer essa faceta labrega de Truman e promover a sua imagem teve lugar em 10 de Fevereiro de 1945, umas escassas três semanas depois da sua tomada de posse num glacial dia 20 de Janeiro. Tratou-se de uma sessão de fotografias em que Harry Truman tocava piano e nesse piano se empoleirava a actriz Lauren Bacall, então com 20 anos.
De entre as várias fotografias escolhi para última (acima) aquela que se terá tornado a mais famosa, onde se vê um Harry Truman a olhar embevecido para a actriz que lhe responde com um sorriso enigmatico. A opinião de Lauren Bacall não corrobora o sorriso e mais tarde ela veio a confessar em privado que Truman tocava mal e que ela mal reconhecera a melodia, que lhe parecera a Valsa do Missouri ou algo do género.
Mas estabelecera-se a reputação de pianista melómano daquele que dali por dois meses viria a ser o novo Presidente dos Estados Unidos. E de uma forma tão indelével que, mesmo depois de ter abandonado a Casa Branca, Truman tornou-se um pianista requisitado como se vê nos casos destas fotografias de 1954 (acima) ou de 1961 (abaixo), esta última uma sessão solene na Casa Branca na presença do seu sucessor John F. Kennedy (ao centro).

07 novembro 2010

VIVÓ BENFICA!

Em dia de clássico FC Porto – Benfica, e embora eu não torça por nenhum deles, elegi o Benfica para tema deste poste de fim-de-semana. A diferença entre estes dois vídeos é que um deles foi encenado e o outro não; um dos entrevistados é espontâneo e o outro não. Todavia, tenho dificuldade em escolher qual dos dois é o mais cómico. Como diria um amigo meu muito apegado ao clube, é mais um exemplo da grandeza do Benfica. O Benfica não é grande, é Enorme!!! Em tudo...

06 novembro 2010

GRANDES PREÂMBULOS

Há músicas cujos preâmbulos nos conquistam incondicionalmente. Para este poste escolhi dois exemplos daqueles 30 segundos iniciais em que uma melodia bonita e uma escolha feliz dos instrumentos para a tocar podem cativar irreversivelmente quem ouve a canção pela primeira vez...

Uma das canções chama-se Começar de Novo e é da autoria de Ivan Lins, a outra Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar e foi composta por Pedro Abrunhosa. Ambas fazem parte de bandas sonoras: a de cima da série de TV brasileira Malu Mulher (1979), a de baixo do filme português Adão e Eva (1996).


Há porém uma diferença importante entre as duas depois da fase do preâmbulo: é que Simone sabe cantar e Pedro Abrunhosa não. De facto, neste último caso, quando ouvi a canção pela primeira vez acabei perguntando-me se ela não melhoraria sem a inserção dos sussurros pseudo-íntimos do seu autor…

05 novembro 2010

O SEXO E A CIDADE ou «JE T' AIME, MOI NON PLUS»

A notícia aparece discreta (acima) na primeira página de um jornal – Correio da Manhã – reputado por um jornalismo que será tudo menos discreto: Povo espanca casal a fazer sexo na rua. Desenvolvida no interior, a notícia especifica que a rua do espancamento é a de Santa Catarina no centro do Porto e remete para um vídeo colocado no You Tube.

Visto o vídeo, descobre-se que afinal o povo que espanca limita-se a um casal agressivo que arreia no casal entusiasmado… E ocorre-me a pergunta no que este episódio será diferente do de Serge Gainsbourg e Jane Birkin a cantar o célebre Je t´aime, moi non plus (abaixo) há 40 anos atrás. Será a sociedade, a moral predominante ou a classe social dos amantes?...

04 novembro 2010

FOTOGRAFIAS FATAIS

O momento em que o dirigível Hindenburg se incendeia à chegada à América em Maio de 1937 tornou-se uma das fotografias inesquecíveis do Século XX. Mas não podemos descartar a hipótese que, para essa notoriedade, tenham contribuído interesses políticos e económicos, visto a aeronave ser alemã e ela aparecer na época como uma concorrente séria aos outros meios de transporte de passageiros, nomeadamente a aviação comercial.
Assim, as imagens impressionantes não costumam ser acompanhadas do esclarecimento que sobreviveram a maioria (62 das 97) pessoas que seguiam a bordo do Hindenburg, ao contrário do que acontecera com outros acidentes anteriores com dirigíveis, como foi o caso do norte-americano USS Akron em Abril de 1933 (apenas 3 sobreviventes em 76 pessoas a bordo) ou o britânico R-101 em Outubro de 1930 (8 sobreviventes em 56).
Mas o que parece ser importante nestes conflitos político-comerciais é mesmo a imagem, e hoje tivemos direito a mais uma interessante, a de um reactor rebentado de um Airbus A-380 da Qantas que teve de regressar a Singapura donde partira. Contudo, como eu já aqui referira num outro poste sobre aviação, poucas são os artigos entre milhares que destacam que o problema teve mais a ver com a Rolls Royce do que com a Airbus
ADENDA (com um agradecimento especial ao Impaciente): Nem de propósito, no dia seguinte, precisamente nas mesmas circunstâncias do Airbus A-380 (depois de descolar de Singapura em direcção à Austrália), há um outro avião da mesma companhia (a australiana Qantas) que tem um problema com um dos motores e também é forçado a aterrar. Só que desta vez, tratando-se outra vez do mesmo construtor de motores (a Rolls-Royce), aconteceu com um produto do construtor aeronáutico rival da Airbus – um Boeing 747-400. Ele há cada coincidência… mas desta vez, para a guerra das imagens, ainda está a faltar a fotografia do motor escaqueirado.

QUINTO ANIVERSÁRIO

Este blogue celebra hoje o quinto aniversário e, como fiz em anos anteriores associando os aniversários aos anos cumpridos, lembrei-me que os cinco anos são precisamente a duração de um mandato presidencial, mandato esse que, aliás, o actual Presidente Cavaco Silva se prepara para cumprir proximamente. E depois de cinco anos a ocupar o cargo, parece-me pouco razoável que apareçam mensagens no Twitter publicadas em seu nome a dizerem como ele vê com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates.

Em primeiro lugar porque, se o Presidente não se pode responsabilizar pelo comportamento de toda a classe política, como actor também não pode fingir fazer-se passar por um banal espectador dessas actuações. Em segundo lugar porque, para a falta de prestígio da dita classe de que ele faz parte e que tanto o incómoda, tudo conta, as suas aldrabices também. E se há precisamente dois anos atrás gozei com a precocidade dos três anos de José Sócrates, agora, numa aldrabice inversa, ninguém topa que Cavaco Silva seja uma espécie de avozinho moderno que twitta e tudo…

A HIGIENE E A SOCIALIZAÇÃO

Retirada do álbum de BD Astérix Gladiador, a imagem acima é um exemplo da forma como imaginamos que fossem os banhos romanos, um local onde a higiene também era um pretexto para a socialização entre os frequentadores, normalmente os membros da elite da época. A Idade Média e a adopção tanto dos hábitos higiénicos dos povos da Europa setentrional como dos pudores eclesiásticos quanto à exposição do corpo foram uma evolução para uma Europa muito mais javarda. Um famoso monumento londrino evocativo dessa Europa-que-não-se-lava e que é facilmente visitável é o seu metropolitano em hora de ponta
Por outro lado, actualmente, a componente da socialização dos antigos banhos romanos, entretanto atribuídos a outras origens (como turcas), foi estigmatizada pela associação entre a sua frequência e os engates entre homossexuais… Porém, se escrevi tudo isto é para estabelecer os meus pergaminhos relativamente liberais em relação ao tema, mas que, apesar de tudo, não chegam para conseguir compreender qual era o propósito de quem concebeu a casa de banho abaixo. No caso da utilização simultânea de todas aquelas sanitas, não se produzirá um ambiente demasiado malsão para uma socialização descontraída?...

03 novembro 2010

AS VANGUARDAS DO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM TRÊS CARTAZES DE ÉPOCA

Vladimir Lenine estabeleceu categoricamente que a classe operária precisaria de uma vanguarda que a conduzisse pelas vicissitudes da Revolução e que decidisse por ela quando das grandes decisões. Ora os portugueses são genética e sociologicamente mais propensos a mandar palpites do que a escutá-los, o que resultou que a nossa Revolução, que durou de Março a Novembro de 1975 e que ficou mais conhecida por Processo Revolucionário Em Curso (PREC), se tornasse conhecida por ser riquíssima em vanguardas mas paupérrima em retaguardas. Analisemos então essas vanguardas esclarecidas em cartazes de época:
Havia a vanguarda clássica do marxismo-leninismo pró-soviético. Neste cartaz acima, por entre a multiplicação de siglas (na parte de baixo) que se produzira durante o PREC, o Partido Comunista Português (PCP) podia aparecer em diversas encarnações: a original, a da Bayer como a Aspirina, uma herança de uma comissão eleitoral formada por eles expressamente para eleições ainda durante o Estado Novo (MDP/CDE), os resquícios de uma tentativa comunista de conquistar por dentro o Partido Socialista (FSP) e uma versão da coisa para intelectuais e católicos progressistas (MES). Lembro-me de quem os chamava por PC1, PC2, PC3 e PC4.
Seguiam-se as vanguardas representadas por organizações como as do cartaz acima, no caso do PRP-BR, mas que incluíam, além da de cima, uma miríade de outras siglas, em quantidade superior às quatro do primeiro cartaz, e em que até apetece dizer que haveria casos onde as siglas teriam mais letras que membros da sua vanguarda… Variadas e dispersas (i.e., nada de centralismos democráticos…), havia um denominador comum nessas vanguardas que, sem hesitações, assumiam a frontalidade de um Baptista Bastos (acima): eliminado o fascismo, para quê andar a perder tempo com eleições burguesas? Poder Popular! Outro nome para rebaldaria.
Finalmente havia os membros de uma terceira vanguarda que se ia inspirar ao maoismo e por isso manifestava assim uma reverência bizarra pela figura do seu líder, sem mostrar acolhimento às famosas críticas produzidas pelo XX Congresso do PCUS sobre o culto de personalidade. Como se lê acima, esse timoneiro dessa vanguarda (Arnaldo Matos) não só dirigia como educava o proletariado português… Porém, contas burguesas feitas a tanto vanguardismo, nas eleições legislativas de Abril de 1976, as primeiras em que todas estas formações políticas puderam concorrer, elas obtiveram respectivamente e apenas 15,7%, 2,1% e 1,2% dos votos populares...

02 novembro 2010

O MAGNÍFICO

O Magnífico (Le Magnifique) foi um daqueles filmes interessantes (1973) que, fora dos circuitos de promoção tradicionais, passou praticamente desapercebido. Muito antes de um Austin Powers (1997) que, aliás, mencionei aqui recentemente, assistimos ali a uma paródia dos filmes de acção e espionagem que estiveram tão em voga na década de 1960 e também muito antes de Arnold Schwarzenegger se parodiar a si próprio nos seus papéis cinematográficos de durão em Um Polícia no Jardim-Escola (Kindergarten Cop de 1990), já Jean-Paul Belmondo fizera precisamente o mesmo em O Magnífico.
Belmondo é simultaneamente o herói de um enredo envolvendo-o como um daqueles agentes secretos impolutos decalcados de James Bond e um triste, que cria esse enredo diante de uma máquina de escrever num anónimo apartamento parisiense caduco a precisar de remodelação. O filme começa com a história de espionagem que, como era conveniente, se passava em ambientes exóticos latino-americanos. Progressivamente, a realidade que envolve o autor mistura-se com a ficção, a começar pela mulher-a-dias que, de aspirador em punho, vem participar numa sangrenta batalha campal (abaixo).
Começa a misturar-se cada vez mais a ficção e a realidade e, para o continuar a compreender, o filme torna-se progressivamente mais exigente... Num gag, é a letra r da máquina de escrever que se estraga e os protagonistas deixam de a pronunciar... Noutro, inesquecível¹, há um espião albanês que é capturado, mas o tradutor, além de albanês, só sabe falar romeno, arranja-se outro de romeno mas para servo-croata, ainda um outro de servo-croata mas para russo, ainda mais um de russo mas para o checo, idioma que só um dos interrogadores compreende. Agora imagine-se como é a cena do interrogatório...
Assim que me lembre, de tradutores, só faltavam naquela cena António José Teixeira e Ricardo Costa (abaixo), que estão sempre a aparecer na televisão depois de alguém importante discursar no papel de tradutores especializados de português para português… De uma outra forma, igualmente ridícula mas com muito menos acção, também são um par de magníficos!... ¹ E, só para chatear, indisponível no You Tube.

01 novembro 2010

PAÍSES DIVIDIDOS

Alemanha, Coreia (abaixo, um trecho da fortemente militarizada fronteira entre o Norte e o Sul), Chipre, Irlanda, Vietname ou Yemen são países que conhecemos por estarem ou terem estado divididos. Quando assim, os seus protagonistas políticos dos dois lados costumam considerar a sua reunificação como a mais alta prioridade nacional. Entretanto, alguns dos países mencionados acima conseguiram reunificar-se (Alemanha, Vietname, Yemen), enquanto os outros ainda se mantêm divididos.
O que parece ter mudado de há uns anos para cá, depois dos custos económicos do caso alemão depois de 1991, terá sido a vontade política das partes mais poderosas em promoverem essas reunificações. Já aqui mencionei o assunto de raspão para o exemplo coreano mas regressemos agora a ele mencionando outro caso, o da Irlanda. A ilha encontra-se dividida desde 1922 entre a Irlanda independente (70.000 km²) e a Irlanda do Norte (14.000 km²) que continua a fazer parte do Reino Unido.
À época da separação o Norte era a região industrializada e mais desenvolvida da ilha – os estaleiros de Belfast construíram, entre outros grandes navios, o Titanic. E o pretexto invocado para a divisão da ilha quando da sua autonomia em relação ao Reino Unido foi a questão religiosa, visto que nas regiões do Norte havia uma maioria protestante. Já aqui contei no blogue alguns episódios ligeiros das relações sempre turbulentas entre os dois lados. Entretanto, a geografia económica da ilha mudou…
Nestes 90 anos, o Norte tornou-se francamente menos próspero que o resto da ilha. E a ideia da absorção de uma economia mais frágil por outra mais poderosa lembra-nos o exemplo alemão em que o PIB per capita dos alemães de Leste era apenas 42% do dos seus compatriotas ocidentais. E o esforço fiscal que foi pedido a estes últimos. E o preço político que na Alemanha se pagou por isso. Ora o PIB per capita na Irlanda no Norte também é cerca de 60% do dos seus vizinhos do resto da ilha¹
É um paradoxo que à medida que aumentam as condições objectivas para que a Irlanda se volte a reunificar aumentem as cautelas em concretizar esse passo mítico que cada vez mais se percebe como inevitável. Parece estar a faltar a coragem de se assumirem os custos económicos, sociais e políticos do gesto. O egoísmo nacional era uma famoso chavão que justificava, com razão ou sem ela, a defesa dos interesses do país. Pelos vistos, nos países divididos, os egoísmos modernos já nem nacionais serão…

¹ Os valores poderão alterar-se por causa da recessão que a Irlanda está a atravessar. A alteração não será significativa por causa da interdependência entre as duas economias.