17 abril 2017

HÁ 48 ANOS UMA LIÇÃO DE DEMOCRACIA DE UM GENERAL A MUITOS «DEMOCRATAS»

Seria um excelente tema para evocar a 28 de Abril próximo. Nesse dia de 1969 o presidente Charles de Gaulle demitia-se depois dos resultados do referendo realizado no dia anterior terem sido opostos ao que mostrara serem os seus desejos. Mas o tema merece ser antecipado, tendo em atenção o tipo de algumas reacções que tenho vindo a registar nas redes sociais na sequência do resultado que foi anunciado ao referendo turco. Com mais ou menos polimento, o respeito pela vontade popular (se tiver sido livremente expressa) parece ser, para muitos democratas, uma convicção que só se consubstancia se essa vontade popular estiver em consonância com a opinião desses democratas. O que não aconteceu ontem na Turquia:

«(...) o instituto do referendo, que é sempre um mau recurso das democracias.» «O referendo é um instituto da demagogia, não da democracia.» «A metade informada, melhor educada, assiste, impotente, à desmontagem das conquistas civilizacionais dos últimos setenta anos nas suas democracias.» «(...) usado, aliás, para legitimar ditaduras.» «(...) uma maioria pequena e conjuntural de votos (...)».

Se ao menos estas opiniões que se lêem por aí, muitas delas vetustas de mais de 50 anos (porque já as li brandidas contra de Gaulle), se fundamentassem no campo dos princípios... Mas não. Nem se dá por elas quando o desfecho dos referendos são a contendo. Foi de Gaulle, repetidamente acusado de autoritarismo pelos seus adversários políticos por recorrer (1958, 1961, 1962 por duas vezes e este último em 1969) àquele processo de legitimação popular, que acabou por lhes dar uma lição de Democracia quando derrotado nas suas convicções pela primeira vez. Eu não gostei do desfecho do referendo turco, mas isso não me faz acolher por bons os argumentos acima, que soam a críticas à arbitragem no dia seguinte ao da disputa de um derby. A política, se for para falar dela com seriedade, não pode ser tratada da mesma coisa que o futebol. Ou então, e para recuperar um conceito acima expresso, a metade não informada só fala de futebol enquanto a metade informada e melhor educada fala de política mas como se fosse futebol...

O COMBATE DOS CHEFES (37)

Há algo nesta prancha que me parece a explicação porque é que o discurso de Pedro Passos Coelho não tem condições para vingar nas actuais circunstâncias. Imaginem que houve algum fenómeno entre o inexplicável e o milagroso que processou a recuperação do druida ao seu estado normal; quem é que vai acreditar que precisa de outra recuperação recorrendo ao tratamento de choque com o menir?

O CENTENÁRIO DO PRIMEIRO MOTIM DA FRENTE OCIDENTAL

17 de Abril de 1917. Ao segundo dia da denominada Ofensiva Nivelle, onde se registara um avanço escasso para o volume de baixas sofridas, ocorre o primeiro episódio em que alguns soldados de uma das unidades combatentes se recusam a cumprir as ordens de ataque. O motim tem lugar perto de Aubérive e envolve 17 homens do 108º Regimento de Infantaria da 24ª Divisão. 12 dos envolvidos virão a ser condenados celeremente à morte embora posteriormente amnistiados. Ao contrário do que se costuma descrever, estes motins não implicaram a desagregação disciplinar das unidades: os batalhões deste mesmo 108º Regimento vêm a ser utilizados, quase que como punição, 48 horas depois num novo ataque às trincheiras inimigas e cumprem. Todavia, este género de incidentes, ainda que rapidamente contrariados, tendem a propagar-se, fazendo perigar a autoridade das hierarquias: nos meses que se vão seguir, serão 68 das 112 divisões com que contava o exército francês que vão ser afectadas, serão relatados um total de 250 casos de tropas recusando acatar as ordens recebidas (desconfia-se que muitos outros ficarão por relatar...), envolvendo directamente unidades que perfarão um total de 35.000 combatentes. Complicando o cenário, numa maioria dos casos as recusas dos amotinados incidem apenas sobre as operações ofensivas que se têm vindo a revelar despropositadamente custosas em termos humanos, continuando a cumprir as missões defensivas nas trincheiras. É um daqueles momentos cruciais em que a França republicana abana até às raízes dos seus fundamentos da igualdade e fraternidade.

16 abril 2017

AS DUAS MESMAS ESQUERDAS MAS TRATADAS DE MANEIRA TÃO DIFERENTE PELA MÉDIA

Jean-Luc Mélenchon e Jeremy Corbyn ocupam, de um e outro lado da Mancha, o mesmo espaço ideológico, o da esquerda-esquerda, mas a democrática, não comunista. E no entanto o tratamento que a comunicação social lhes dá, mesmo a que lhes é considerada simpática, não pode ser mais distinto. Ao francês, por exemplo, a subida de um ou dois pontos nas intenções de voto para as próximas presidenciais é motivo para uma celebração no Le Monde brandindo as possibilidades de ele passar até à segunda volta. Em contraste, apesar de o britânico ainda se encontrar distante de vir a ser escrutinado, já o The Guardian estampa em destaque uma sondagem que pretende demonstrar que nem nas próprias hostes trabalhistas se confia no homem... Fosse isto episódico não o assinalaria aqui. Mas não, já deu para perceber quanto o contraste é recorrente. Tanto que até chateia: Mélenchon a ser levado ao colo e Corbyn a enfardar porque não presta... E não é o posicionamento no espectro político que conseguirá explicar este contraste. Mas também não consigo encontrar uma explicação para ele entre a opinião publicada... A política moderna, condicionada por uma boa ou má imprensa, formatada por sua vez por causas não explicadas, parece já só se reger marginalmente pela lógica tradicional da esquerda e da direita.

OS LÍDERES VERDADEIRAMENTE REVOLUCIONÁRIOS REGRESSAM DO EXÍLIO SEMPRE DA MESMA MANEIRA?

16 de Abril de 1917. A data que se costuma mencionar é outra (3 de Abril), mas essa diferença deve-se à discrepância então existente entre o calendário ocidental e o russo. Porém, foi há precisamente cem anos quando Vladimir Lenine regressou a uma São Petersburgo que entretanto se passara a denominar Petrogrado e que já depois disso, há cerca de um mês, se tornara a capital de uma nova Rússia republicana. O regresso do líder bolchevique vindo do exílio da Suíça fora uma movimentação arduamente negociada com a Alemanha imperial então em guerra com a Rússia. Com a Primeira Guerra Mundial ainda em curso e as fronteiras mais tradicionais bloqueadas pelas frentes de combate, o comboio onde viajava Lenine viera de Helsínquia na Finlândia, que então fazia também parte do império russo.

A fotografia da chegada do grande revolucionário à estação da Finlândia é única, é aquela que se exibe mais acima. Não existem outras que possam complementar a nossa opinião sobre a dimensão da multidão reunida para o acolher. Uma outra fotografia sua recolhida três dias ainda em Estocolmo, na Suécia, mostra que a entourage que acompanhou Lenine desde a Suíça era ainda bastante modesta. O que se pode exibir a respeito daquilo que aconteceu há cem anos são reconstituições posteriores em filme (acima) ou em pintura (abaixo), que acabam afectadas pela natureza hagiográfica revolucionária que o momento veio posteriormente a adquirir por causa do triunfo alcançado pela revolução bolchevique (que só veio a ter lugar daí por sete meses).
Rezam essas narrativas reconstituídas (aí já revistas tendo em conta que o momento fora retroactivamente histórico) que, acolhido delirantemente na gare, e seguido por uma numerosa multidão que o esperava e vitoriava, Lenine aproveitara depois um carro blindado que estava estacionado no largo da estação para se alçar para cima dele para dali proferir um discurso às massas populares revolucionárias que tão bem o acolhiam (discurso que, infelizmente, não encontrei preservado). Tratava-se de tempos inauditos, em que as multidões pareciam propensas a mitificar episódios banais. Recordem-se, a propósito, as aparições de Fátima que começarão a registar-se no mês seguinte, em Portugal, até do outro lado do continente europeu...
Uma outra data: 30 de Abril de 1974. Vindo directamente de Paris para Lisboa num voo da Air France, ficaram a faltar precisamente 15 dias para que coincidissem as datas de regresso do exílio dos dois grandes líderes comunistas, Álvaro Cunhal e Vladimir Lenine. É importante constatar que houve 57 anos a separar os dois acontecimentos. O compasso de espera de um mês de Lenine foi, neste caso português, encurtado por Cunhal para uns escassos cinco dias. A duração da sua viagem ainda mais encurtada foi e a tradicional gare do comboio foi agora substituída pela placa do aeroporto e pelo autocarro que trás os passageiros até ao terminal. Desta chegada já há muito mais que uma fotografia singela, o entusiasmo é agora registado em reportagens televisivas, incluindo as declarações do próprio Álvaro Cunhal, visivelmente emocionado mas também nervoso e ainda sem a desenvoltura que lhe conhecemos depois a usar um microfone, marcando sempre as distâncias aos jornalistas.

Porém, apropriadamente e como que por coincidência, mesmo à saída do aeroporto lá estava um (outro) carro blindado para o qual Álvaro Cunhal foi convidado a subir para dali proferir um discurso, quiçá mimetizando aquilo que outrora acontecera com Lenine. Qual pata de coelho para dar sorte ao PCP, a intenção foi boa, a concretização talvez menos, conforme se comprova pelas fotografias da ocasião (abaixo), que aquilo que ficara registado como revolucionariamente disciplinado quando do quadro com Lenine mais acima, parecia agora um caos, com Cunhal acompanhado de uma multidão de militares e alguns civis (entre os quais Mário Soares) todos ensanduichados em cima da Chaimite, numa descrição premonitória do que seria o caos característico da multiplicação de centros de poder no PREC português que ali apenas desabrochava. Como um bom marxista também Cunhal estava a descobrir que isso de se ser leninista depende das condições objectivas... e das condições subjectivas.

A CULTURA COM DINHEIRO E A CULTURA PELINTRA

Quando me chamaram a atenção para a apresentação da página necrológica do Expresso deste fim de semana, lembrei-me da fotografia da direita que vira por aí numa rede social, um pouco perdida no seu sentido irónico. De facto é engraçado o espaço comparativo que é dedicado naquela página a uma académica portuguesa de vulto recém-falecida e a um empresário filantropo norte-americano que morreu já há um mês e meio. Confesso que não conheço nem um, nem outro. O que não me impede de ter uma ideia muito precisa, baseada ainda que somente na leitura das respectivas biografias, da importância relativa a atribuir aos respectivos óbitos, que é precisamente a oposta ao critério que vejo adoptado acima pelo Expresso. E a associação que fiz com a fotografia ao lado não se relaciona apenas com os dizeres que se podem ler no aviso (os livros que estão expostos são apenas para enfeitar), mas também à curiosidade do local onde o aviso foi afixado: o Hotel Hilton, no San Francisco Financial District (que me promete tarifas desde €218 de diária). A designação pode ser só geográfica e os clientes do hotel podem nem perceber nada de finanças, mas a sua designação acrescenta um requinte pérfido à ignorância subentendida pelo aviso: o dinheiro pode ser um excelente sucedâneo para a cultura. E, para o que interessa concluir, parece que o dinheiro até consegue comprar a precedência sobre o mérito cultural, e mesmo não tendo sido isso que aconteceu, é o que parece aqui.

15 abril 2017

O TEMPO EM QUE OS DESASTRES PODIAM SER SÓ CONTADOS...

15 de Abril de 1912: o então novíssimo paquete Titanic, de 52.000 toneladas, afundava às 2H20 da madrugada no Atlântico Norte, ainda durante a sua viagem inaugural. Só sobreviveram 710 das 2.227 pessoas que seguiam a bordo. Já quase tudo foi dito sobre o assunto, recriado há 20 anos num celebrado filme. O que ainda se poderá dizer de inovador sobre aquele desastre será especular (com uma certa dose de humor negro, reconheça-se) sobre como teria sido a sua cobertura mediática se ele acontecesse hoje...

O COMBATE DOS CHEFES (36)

O lapsus linguae do centurião romano a anunciar o combate faz-me lembrar a objectividade política de José Gomes Ferreira na SIC Notícias - ainda hoje estou para ouvi-lo a assumir-se como um dos vencidos das apostas sobre a execução orçamental do ano passado... Quanto à história propriamente dita, Abraracourcix dá aqui mostras de ser um verdadeiro político de visão: manda Astérix ir buscar Obélix (tão deprimido que ele esteja) para o caso, provável, de haver zaragata depois do combate.

14 abril 2017

O COMENTÁRIO TELEVISIVO CADA VEZ MAIS ESPECIALIZADO

A minha evocação recente dos Monty Python combinada com as notícias sobre a tensão crescente na Coreia do Norte - mais a notícia da bomba... - que vieram acompanhadas da tradicional presença de especialistas na televisão, vieram a descambar nisto, na minha recordação de um gag antiquíssimo dos famosos cómicos britânicos que pretendia levar ao limite do ridículo o formato desses programas. Submetido ao mote de procurar saber se Há vida depois da morte? o programa era enriquecido com a presença em estúdio de três pessoas mortas para falar com conhecimento de causa sobre o assunto...

Mas, para que este poste seja mais do que uma laracha brincalhona, permitam-me acrescentar o exemplo de dois comentadores que ontem apareceram encadeadamente na SIC Notícias. Se, para Nuno Rogeiro, o ataque com a bomba «já estava preparado desde finais de 2016» (sob Obama, portanto...), para o general Carlos Martins Branco, os Estados Unidos tentaram, com a sua detonação, «enviar uma mensagem à Rússia», que organiza por estes dias uma cimeira sobre o Afeganistão em Moscovo, cimeira para a qual os Estados Unidos não foram convidados. Sem se contradizerem frontalmente, as duas opiniões não se corroboram nem sequer se completam: o planeamento da operação terá começado em Novembro/Dezembro do ano passado tendo como alvo uma cimeira que só se começou a concretizar em Fevereiro deste ano?... Alguém está enganado.

A PIRA FUNERÁRIA DA HERÓICA CADELA LAIKA

Quando se tornara mundialmente famosa, a bordo do Sputnik 2 a 3 de Novembro de 1957, a cadela Laika representara muito mais do que um orgulhoso exemplar da raça canina russa. Era o socialismo que através dela triunfava, protagonizado apropriadamente por um rafeiro proletário como passageiro do segundo satélite que a pátria do socialismo, a União Soviética, colocava em órbita. Outros países com o mesmo regime associavam-se às celebrações em emissões filatélicas. Uma questão maculava porém a consagração das ciências soviéticas sobre a égide esclarecida e esclarecedora do socialismo científico: o destino de Laika. Nada pudera ser contemplado para recuperar a heroína da façanha, o máximo que se podia prometer aos espíritos mais sensíveis da opinião pública dos países capitalistas rivais era uma morte induzida e indolor em data não especificada. Soube-se, 45 anos depois do voo, que nem esse golpe de misericórdia fora necessário porque a cadela morrera logo ao fim de algumas horas no espaço, sendo as causas prováveis o sobreaquecimento da nave e o stress do animal sujeito às condições de imponderabilidade. Mas a efeméride que hoje se assinala, a 14 de Abril de 1958, é o anti-clímax do que se publicitara 3 de Novembro de 1957. Depois de 162 dias e de 2570 órbitas, a nave Sputnik 2, já desactivada mas ainda transportando o cadáver da Laika e que viera a perder altitude desde o início, desintegrou-se numa gigantesca pira funerária a que a comunicação social soviética, compreensivelmente, já não prestou a mesma atenção.

13 abril 2017

A ESTREIA DE MONTY PYTHON

12 de Abril de 1975. Mesmo evocado com um dia de atraso, vale a pena recordar a estreia na RTP de Monty Python Flying Circus, oportuna mas desastradamente traduzido à época por Os Malucos do Circo. Num país onde se vivia o PREC enquanto se preparava para as primeiras eleições livres da sua História (veja-se acima o período de 50 minutos dedicado à campanha eleitoral), o absurdo dos seus gags até teria tudo para se integrar no espírito revolucionário em voga, desde a cena de abertura, onde um naufrago no limiar das suas forças demora quase minuto e meio a vir dizer It´s... até junto da câmara,...

...até uma outra cena do mesmo episódio inaugural onde se constata que os alunos de uma aula de conversação de italiano eram, eles próprios, italianos.

Houve na época quem abusasse na interpretação desta última cena e a comparasse no surrealismo a uma daquelas sessões de esclarecimento do MFA (a decorrerem simultaneamente com a campanha eleitoral) onde se aconselhava os eleitores a... não exprimirem o seu voto (abaixo), mas isso eram piadas sofisticadas de quem procurava por cá mimetizar o estilo de humor da série em vez de Marx e Engels e são hoje contas de um outro rosário, que a poucos apetecerá evocar...

O COMBATE DOS CHEFES (35)

Toda esta prancha é uma recapitulação das personagens e um compasso de espera para o clímax. Note-se que, apesar das atitudes que foi assumindo, Obélix até é uma pessoa com remorsos. É uma coisa que o distingue, por exemplo, de François Fillon, só para regressar ao assunto do combate dos chefes de 2017.

O MASSACRE DE AMRITSAR

13 de Abril de 1919. Por ocasião de um festival religioso sique e para reprimir a multidão que se aglomerava numa das praças ajardinadas da cidade de Amritsar, as forças militares sob o comando do coronel Reginald Dyer provocaram a morte de várias centenas de peregrinos e passantes. O ambiente na cidade era tenso mas, veio-se a comprovar, nada no comportamento da multidão justificaria a proporção da acção policial/militar adoptada contra ela. O número oficial de mortos foi de 379 para além de mais 1.200 feridos. Há outros números mais elevados. Uma parte deles foram vitimadas pelas balas, enquanto os restantes foram causados indirectamente pelo estampido da multidão a evitar os tiros. Mas, a agravar ainda mais, se possível, a situação, foi o que se seguiu. Não há fotografias do massacre, como um muro de silêncio tivesse caído sobre a cidade e não se reconhecesse a gravidade do que acontecera, mesmo tendo ele acontecido numa cidade santa para os siques, que hoje conta com mais de um milhão de habitantes. Só muito depois se vieram a fazer reconstituições. E o comunicado dirigido à população local no dia seguinte era redigido em urdu (o menor dos insultos, já que a população local até falava punjabi...), e constava mais ou menos disto:

Vocês sabem bem que eu sou um cipaio e um soldado. Querem a guerra ou querem a paz? Se querem a guerra, o governo está preparado para ela, e se querem a paz, então obedeçam às minhas ordens e abram as vossas lojas; senão dispararei. Para mim os campos de batalha da França e de Amristsar são a mesma coisa. Sou um militar e sou directo.(...)

Adivinha-se o teor do resto da proclamação. Mesmo contando com variadíssimas simpatias pessoais, até mesmo para os poderes coloniais britânicos a conduta de Dyer fora longe demais. Uma comissão de inquérito constituída seis meses depois considerou-o culpado embora as sanções não tivessem sido muito evidentes, num processo em que o réu contara com a anuência tácita da hierarquia colonial. Coisa outra foi a perspectiva das elites indianas locais. O massacre veio a ocorrer no preciso momento em que se esclarecia um equívoco: as elites indianas haviam apoiado lealmente a metrópole durante a Primeira Guerra Mundial na presunção de que a Índia do após-Guerra receberia a mesma autonomia que já fora concedida ao Canadá, à Austrália e até aos africânderes da África do Sul. Nada disso, era o figurino da resposta de Londres cinco meses depois do fim do conflito. Os indianos eram escuros e por isso não tinham categoria para se tornarem num Dominion. É do esclarecimento desse equívoco que o livro acima dedica o seu prólogo ao massacre de Amritsar. A longa caminhada para a Independência da Índia começou ali naquele dia.

12 abril 2017

NÃO HÁ «JOBS FOR THE BOYS»

Quem faz estas proclamações esquece-se (ou aposta no nosso esquecimento) que quem trouxe esta expressão para o léxico da política doméstica foi António Guterres há cerca de 20 anos... sob a tutela do qual depois medraram os boys nos jobs que alegadamente não estariam disponíveis. Daí para cá, multiplicaram-se as proclamações e elaboraram-se cada vez mais os esquemas, o último equívoco de que há que nos envergonhar foi a CRESAP do senhor Bilhim. Não sei quem Rui Moreira procurará impressionar com proclamações como esta. Ou isto é, tão somente, um recado interno para o aparelho da máquina eleitoral que o quer reeleger (e então aí deveria ser mais franco e/ou anunciá-lo no jornal de parede da candidatura) ou então, se é para promoção, está a tomar-nos por estúpidos, porque estas coisas não se proclamam (a de Guterres tornou o gesto um vazio político vai para 20 anos), são elementaridades que se praticam. Ganda frete, o do Observador, a publicar inanidades como esta.

O INÍCIO DA GUERRA CIVIL AMERICANA

12 de Abril de 1861. Início da Guerra Civil Americana. O primeiro obus dessa guerra que se iria prolongar por quatro anos (1861-65) foi disparado pelo então capitão George Strother James, um oficial de uma unidade de artilharia da Carolina do Sul, que fora aliás o primeiro estado a declarar a sua secessão da União, conforme se comprova pelo mapa abaixo. Daí por quatro anos os estados sulistas e as suas populações vão ser as principais vítimas do conflito mas há que reconhecer que a iniciativa da ruptura política e a iniciativa do confronto militar lhes pertenceram. Ambas as imagens acima pertencem a O Juramento de Gettysburg, uma história de BD desenhada em 1968 por William Vance).

A SUPERIORIDADE CULTURAL DO SOCIALISMO E AS «MAIS AMPLAS» LIBERDADES DEMOCRÁTICAS

Uma típica página do Diário de Lisboa com a crítica de televisão de Mário Castrim (à direita) numa das edições de Abril de 1977. As simpatias comunistas do autor eram conhecidas e os encómios endereçados ao serão teatral do dia anterior eram mais do que expectáveis, dado que a peça escolhida - baptizada de Escritório na versão portuguesa - era de origem checoslovaca. Ora era sabido que, para Castrim, todos os programas que fossem transmitidos pela RTP e que tivessem origem ou inspiração em qualquer um dos países socialistas (comunistas) era sempre excelentes! E uma peça checoslovaca não iria constituir uma excepção a esse axioma do marxismo-leninismo. Aborrecido mesmo para que o texto fosse ortodoxo era a identidade do dramaturgo: chamava-se Václav Havel... que há de vir a ser muito mais conhecido dali por uns 12 anos, quando vier a ser eleito o presidente da Checoslováquia e depois da nova República Checa. Mas nessa primavera de 1977 ainda ele estava do outro lado, do lado dos perseguidos políticos, destacando-se somente como um dos subscritores principais de um documento de protesto contra as liberdades políticas na Checoslováquia. Conhecido por Carta 77, esse documento fora publicitado (apenas) na comunicação social ocidental em 6 de Janeiro de 1977, três meses antes desta crónica, e congregara as atenções das opiniões públicas para a situação interna na Checoslováquia, oito anos e meio depois da invasão do país pelos soviéticos. Os signatários da Carta 77 foram perseguidos, a meia dúzia de cabecilhas (incluindo Havel) julgados e condenados a penas de prisão. Adivinhe-se o que Castrim, que adorava deambular discorrendo pelos temas associados com as mais amplas liberdades democráticas, escreveu nesta altura a respeito de Havel e da Carta 77? Precisamente: nada. A obtusidade política selectiva é doença para a qual ainda não se descobriu vacina.

O COMBATE DOS CHEFES (34)

Desde a primeira vez que li O Combate dos Chefes sempre gostei das adaptações/trocadilhos associados à montagem da feira anexa ao local do combate, os carrinhos de choque em formato de quadrigas, a garrafa de vinho do Cartaxo aos vencedores da barraquinha de tiro (de catapulta!), à montanha eslava, percursora da montanha russa (também se designa assim em francês), até à auto-promoção da revista Pilote (Pilotix, a revista onde, em França, se publicavam as aventuras de Astérix) e à incontornável criança que se perdeu e que aguarda pelos pais na cabine de som, um anacronismo completo quando pensamos que à época os únicos processos de amplificar o som eram os naturais.

11 abril 2017

APOLLO 13: DIA TRANQUILO


11 de Abril de 1970. No dia seguinte ao do anúncio da separação dos The Beatles, o destaque noticioso mundial arrastava-se relutante para o lançamento da Apollo 13 (acima pode ver-se como foi a transmissão directa da CBS nesse dia). Uma transmissão que se processava mais por um dever patriótico dos norte-americanos do que por causa de um entusiasmo percebido da parte do auditório: tratava-se já da terceira expedição do género em nove meses, depois da consagração histórica que fora a viagem da Apollo 11 à Lua em Julho de 1969.
O sentimento de saturação parecia reproduzir-se por todo o lado. Cá por Portugal o Diário de Lisboa puxava para a primeira página um cabeçalho que era em si um apelo ao bocejo: Apollo 13: Dia Tranquilo A «Tripulação Silenciosa» terá dez horas de repouso. Quem conheça o resto da história, quem tenha visto o filme Apollo 13 (abaixo), sabe que, dois dias depois da descolagem e com a possibilidade da tripulação não regressar à Terra, o resto do voo será tudo menos tranquilo, a história da cobertura da Apollo 13 será um épico do jornalismo...

APONTAMENTOS PARA AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS 2017

Divagando de uma exibição dos cartazes oficiais das onze candidaturas (foto de acima) até um pastiche inspirado e cómico dos cartazes das cinco candidaturas de maior nomeada (abaixo)...
...fica-nos a garantia de que estará longe do leque de possibilidades a eleição de uma outra primeira-dama que propicie fotografias inspiradoras como a supra (Carla Bruni fotografada de um ângulo incomum por Helmut Newton).

O COMBATE DOS CHEFES (33)

Como se percebe pelas atitude precavidas do centurião, nem a força física, nem a inteligência fina serão factores selectivos para propiciar uma ascensão política, apenas o domínio da arte da intriga. Como ele, muitos dos dirigentes de topo da política podem não ser particularmente simpáticos, nem inteligentes, nem manifestar sequer outros predicados favoráveis, podem ser apenas mais manhosos do que é normal.