11 fevereiro 2015

SERÁ PRECISO UM OUTRO TSIPRAS PARA RENOVAR OS PADRÕES DA CIRURGIA PLÁSTICA?

- Oh Uma, porque é fazes essas plásticas?
- É pa´ ficar mai' bonita!
- Atão porque é que não ficas?...
(do anedotário tradicional português)

Se, com Manuela Moura Guedes ainda havia a desculpa dela ter virado aquele estafermo por suspeita de que a operação plástica correra mal, o que impressiona nesta recente transformação de Uma Thurman é que a operação parece ter corrido bem, o cirurgião plástico é que terá um gosto detestável. Será que, como acontece com a economia e finanças na Europa, também na cirurgia plástica será preciso o aparecimento de alguém para ajustar os procedimentos e a estética ao verdadeiro gosto popular?
Adenda:
Se a ressureição de Jesus Cristo ocorreu ao terceiro dia, a recuperação das feições originais de Uma Thurman demorou apenas dois, publicamente testemunhada em canais de TV: afinal, tudo não passara de um aplicado trabalho de maquilhagem, não de cirurgia plástica. Sendo assim, e quanto ao maquilhador, divido-me entre endossar-lhe os cumprimentos pela sua proeza técnica e transmitir-lhe a minha total desaprovação pela sua sensibilidade estética.

10 fevereiro 2015

PROCURA-SE...

Deputada ou eurodeputada do PSD de carácter corajoso e aguerrido que se disponha a disputar com Teresa Leal Coelho a outra semifinal intrapartidária do campeonato da peixeirada acusatória, sustentada em profundas antipatias pessoais desenvolvidas dentro do próprio partido. A Grandiosa Final da modalidade será futuramente disputada entre a vencedora desse embate e a vencedora do embate homólogo que actualmente se trava dentro do PS entre Ana Gomes e Isabel Moreira.

LUTAS DE LAMA

Parece-me haver, no gosto perverso como se está a fazer a cobertura ao grandioso embate verbal via redes sociais que se está a travar entre Ana Gomes e Isabel Moreira, muito que faça lembrar um certo género de lutas na lama. Pelo que consegui perceber até agora, a coisa terá começado por uma acusação de Isabel Moreira a Ana Gomes (via facebook), por esta nutrir um ódio pessoal a Paulo Portas (olha a novidade!) que a levaria a um justicialismo barato e vingativo. Claro que Ana Gomes não se ficou (ela é lá mulher para se ficar!) e, sem propriamente se alargar muito em rebater a acusação recebida, acusou por sua vez a sua acusadora (via tweet) de ter contribuído, enquanto assessora de Luís Amado (quando este ocupou a pasta dos Estrangeiros), para o encobrimento do episódio dos voos dos prisioneiros da CIA. A reacção de Isabel Moreira já se tornou pública (num blogue), acusando a oponente de atirar lama em redor (qual quê! - mulheres de armas deviam ter especificado ousadamente: merda em redor!) Aguardam-se mais desenvolvimentos, a informação exulta e algum público também, que esta faceta megerenta (de megera) e chineleira (de chinela) do debate político (por sinal intrapartidário!) é uma excelente sublimação de uma telenovela para as elites com gostos populares secretos.

09 fevereiro 2015

EM NOME DO PAI, DO FILHO E DO ESPÍRITO...

É um verdadeiro elenco de topo do PSD confessional que é aqui surpreendido nesta fotografia a benzer-se numa inidentificável cerimónia religiosa: Santana Lopes, Mota Amaral, Dias Loureiro, Miguel Relvas, José Luís Arnaut e Matos Correia. Do elenco e pelas atitudes apanhadas pelo instantâneo apetece-me perguntar se, para além de rezar, Dias Loureiro, terá coragem de se confessar, se, pela atenção que dedica a quem o fotografa, Miguel Relvas está mais preocupado nas oportunidades fotográficas do que nas suas relações com o Criador e se José Luís Arnaut, qual Averell Dalton, grande, comilão e estúpido, convencionou transferir a sua espiritualidade do peito para o ventre...

UM GRANDE NAVIO DE GUERRA COM UM NOME AINDA MAIOR

Quem o vê assim pacificamente ancorado numa base naval próxima de Murmansk, não pode imaginar o historial que distingue este porta-aviões russo dos demais navios do mesmo género: não há história de um outro navio de guerra destas dimensões e com estas funções que tenha tido tantos nomes de baptismo. Começou por se chamar Riga, depois deram-lhe o nome de Leonid Brejnev para homenageá-lo porque morrera, posteriormente o de Tbilissi, porque o culto da personalidade tornara a cair em desuso na União Soviética, até assentar no particularmente extenso Almirante de Frota da União Soviética Kuznetsov (Адмира́л фло́та Сове́тского Сою́за Кузнецо́в) – abreviado para Almirante Kuznetsov para os conhecidos e simplesmente Kuznetsov para os mais íntimos. Com uma tripulação de quase 2.000 efectivos, é considerada a unidade mais poderosa da marinha de guerra russa, mas supõe-se que irá permanecer placidamente atracada onde a vemos por muito que a situação militar na Ucrânia se agrave. Previa-se aliás que o navio viesse a ser reequipado e modernizado a partir da segunda metade de 2014, algo que não está a acontecer devido provavelmente às dificuldades que a Rússia atravessa.

08 fevereiro 2015

A VIOLA QUE REGRESSOU UM BAIXO

O Didi tinha uma viola... ou melhor, o pai do Didi tinha uma viola clássica que o Didi resolveu certo dia levar para o Colégio Militar. Ora, mau grado os esforços porfiados dos Cariocas - o original e o padre Miguel - na educação musical e a existência até de vários nomes ilustres de ex-alunos associados à música, a execução nunca foi um forte das virtudes musicais dos membros do batalhão colegial. No formato coral, havia pergaminhos a preservar, com umA Portuguesa cantada a quatro vozes nas cerimónias oficiais mas, como executantes, os exemplos eram escassíssimos. Assim, se algum colega do Didi lhe pedia a viola era para exibir o seu virtuosismo arranhando (numa maioria das vezes de uma forma verdadeiramente patética...) o famoso riff de Smoke on the water dos Deep Purple, uma proeza apreciada mas que se aprende em menos de cinco minutos (abaixo).

Mesmo assim, os émulos de Ritchie Blackmore eram em número ínfimo quando comparados com os que se usavam da viola mas sem tocar uma nota sequer. Aí porém, na mímica, não só os artistas eram muito melhores, como a referência outra: o já então falecido Jimmy Hendrix Só que a exuberância como o instrumento musical era tocado, imitando o estilo inconfundível de Hendrix (abaixo), fez a viola sofrer alguns tratamentos menos próprios, perdendo primeiro uma das cordas, depois outra (curiosamente as duas mais agudas), para grande desconsolo do Didi, antecipando os problemas que iria ter em casa. É nesse momento que registo um daqueles comentários irónicos, tão típicos do humor colegial, consolando o Didi e lembrando-o que nem tudo era mau: a viola estava fodida mas, com as quatro cordas restantes, nem tudo se perdera: se ele viera com uma viola, regressava a casa com um baixo...

07 fevereiro 2015

MUMIFICAÇÕES FÍSICAS E METAFÓRICO-MUSICAIS


Por estes dias anuncia-se a vinda a Portugal de Joan Baez para dois concertos. Para os nostálgicos distraídos com o passar do tempo, chama-se a atenção que a artista completou 74 anos no princípio do ano. Imagino se a Joan Baez daqueles seus tempos áureos gostaria de ter a avó a acompanhá-la no palco?... Por estes dias também, foi notícia o aparecimento na Mongólia de um monge budista mumificado a quem se atribuiu 200 anos, que os crentes acreditam não estar morto mas em estado de meditação profunda na posição de lótus. E descubro-me a descobrir alguma analogia nestas duas notícias, com estes outros crentes, a repisar os mesmos sucessos de outrora, a acreditar que a cantora septuagenária também se terá, de uma maneira metafórica, mumificado agarrada à viola, de há uns quarenta/cinquenta anos para cá...

A QUEDA E REASCENSÃO DE ALFRIED KRUPP

(A) Krupp saúda o Führer
A propósito do axioma moderno que estabelece que os países endividados devem privatizar o que puderem privatizar, da recente decisão do governo grego de suspender a do porto do Pireu, da recente decisão do governo português em prosseguir com a da TAP, lembrei-me de uma das fases mais complicadas da história centenária da siderúrgica Krupp (hoje fundida na ThyssenKrupp). A Krupp contar-se-á, das grandes empresas de referência da Alemanha, entre aquelas que mais cumplicidades urdiram com os poderes do III Reich (1933-45). Cumplicidade que não era somente material, se consideradas as simpatias políticas de Alfried Krupp (1907-67), o herdeiro do colosso industrial, cujas regras de gestão e sucessão foram objecto até de uma lei específica, a Lex Krupp de Novembro de 1943.
Finda a guerra, a Krupp gozou do duvidoso privilégio de um julgamento específico contra a organização por crimes de guerra. Patrocinado pelos norte-americanos ele teve lugar em Nuremberga entre Novembro de 1947 e Julho de 1948. No banco dos réus sentavam-se os membros do conselho da administração e altos quadros do grupo, a começar pelo proprietário, Alfried Krupp, que recebeu a pena mais alta: 12 anos de prisão, para além da obrigatoriedade de alienar os seus bens. Como aconteceu com quase todas as sentenças proferidas naquelas circunstâncias, Alfried Krupp só cumpriu uma parte da pena (3 anos). Quanto à obrigatoriedade para que Krupp alienasse os seus bens, foi firmado um acordo em 1954 segundo o qual ser-lhe-ia concedido um prazo de cinco anos para que ele encontrasse compradores adequados para o seu império, avaliado nuns 6.000 milhões de dólares.
Será desnecessário explicar que, sendo raros, Alfried Krupp também não se terá mostrado muito diligente na busca desses potenciais interessados. No final da história, Alfried Krupp, que na perspectiva americana deixara de ser um nazi para se tornar numa pessoa respeitável – como se constata pela sua aparição na capa abaixo da revista Time de Agosto de 1957 – continuou na posse da herança porque, alegadamente, não havia interessados suficientemente ricos para a conseguir comprar. Na verdade tratava-se de uma ingenuidade só possível de contar nesses tempos, bastando lembrar que os (poucos) activos da Krupp que se situavam na Alemanha Oriental ou nas regiões da Alemanha que haviam sido anexadas pela Polónia em 1945 haviam sido simplesmente nacionalizados sem outra forma de processo...

OS «ESPALHANÇOS» DOS PODEROSOS


Imagens de presidentes a cair sempre interessaram as audiências, recorde-se acima Gerald Ford, presidente norte-americano de 1974 a 1977, que ficou com a reputação de manter uma relação complexa com os degraus das escadas dos aviões. Mas, naqueles regimes onde se perpetuam os dirigentes no poder e as figuras que o detêm alcançam provectas idades exercendo-o, ao entretenimento das massas populares, sempre dispostas a rir com os tombos, soma-se a preocupação dos membros do círculo próximo do poder com as suas sequelas naqueles de quem depende, afinal, o seu ganha-pão.

Ninguém fotografou, muito menos filmou, António Salazar a estampar-se na famosa cadeira de lona aos 79 anos no forte do Estoril em Agosto de 1968, mas há dez anos, em Outubro de 2004, foi notícia (acima) em todo o Mundo um espectacular espalhanço de Fidel Castro, então com 78 anos, episódio de onde ele saiu com um joelho fracturado. Anteontem aconteceu outro, desta vez com um Robert Mugabe que já conta 90 anos, com o bónus adicional do governo zimbabueano se ter esmerado em desmentir que a queda houvesse sequer acontecido – o que apenas confere mais valor aos vídeos que a registam (abaixo).

06 fevereiro 2015

OUTRAS SUBSERVIÊNCIAS ANTIGAS

Porque muito se tem falado da de Pedro Passos Coelho e seu governo para com a Alemanha, aproveito este cartaz para evocar outras subserviências mais antigas, constatáveis neste cartaz de 1976, impresso e afixado a pretexto da comemoração do primeiro aniversário da independência (25 de Junho) de Moçambique por uma Associação de Amizade Portugal-Moçambique que fora fundada em Outubro de 1974. Constate-se como é distinto o rigor como estão apresentadas as duas bandeiras, incluindo o cuidado de incluir os ínfimos detalhes no escudo da moçambicana do lado direito¹, enquanto o escudo e a indispensável esfera armilar estão clamorosamente ausentes na bandeira portuguesa do lado esquerdo. A questão poderá ser mais simbólica do que substantiva mas é, de qualquer forma, relevante porque demonstrativa de uma preocupação em representar os símbolos alheios que era superior à dos próprios símbolos nacionais. Há quem tenha procurado justificar tais gestos excessivos como penitências, no caso concreto do relacionamento colonial entre os dois países. Mas, sejam quais forem as explicações circunstanciais, como vemos aqui no caso deste cartaz e como tenho a certeza que viremos a ver no futuro com os alinhamentos europeus deste governo, são atitudes que as gerações vindouras nunca compreenderão.
¹ A bandeira moçambicana foi posteriormente modificada em 1983.

Os meus agradecimentos ao material disponibilizado pelo blogue Ephemera.

05 fevereiro 2015

A IDENTIFICAÇÃO DOS «CULPADOS POLÍTICOS» E DOS OUTROS CULPADOS, POR QUEM «NINGUÉM» SE INTERESSA

A forma como foi coberta pela informação a cena do doente com hepatite C, ontem, na AR, acusando Paulo Macedo, fez-me lembrar a forma como também fora coberta a perseguição que os depositantes do BPP haviam feito a Teixeira dos Santos quando do colapso daquele banco. Neste último caso nunca terá ocorrido aos que se consideravam lesados confrontar os membros da administração do BPP (nomeadamente o seu presidente João Rendeiro) sobre o destino que eles haviam dado ao seu dinheiro, preferindo concentrar-se onde consideravam haver ainda hipóteses de o ir buscar: ao Estado, ao bolso dos contribuintes. Pior: nem lembrou à informação que acompanhava o caso descobrir esta outra perspectiva da história, que realçaria a hipocrisia das pretensas vítimas. No episódio de ontem, envolvendo o preço excessivo de um fármaco para a Hepatite C, o seu emprego racionado, e as pertinentíssimas reclamações de quem dele necessita, torna-se necessária uma leitura atenta das notícias para identificar o terceiro actor do drama, a farmacêutica que é responsável pela comercialização do tal fármaco, a Gilead. Além do seu nome não aparecer mencionado em destaque no cabeçalho das notícias (é geralmente referida como a farmacêutica), tão pouco se lêem nelas – provavelmente porque não lhe foi perguntado sequer – as explicações daquela multinacional para que, apesar de se ter mostrado tão cinicamente compassiva, tenha fixado um preço tão elevado para o fármaco que haja doentes que morrem por não ter meios para, quando em desespero, o pagarem do seu bolso. Como acontecera com João Rendeiro, também agora os activistas não se dispõem a ir com a comunicação social a tiracolo fazer reportagens para a porta da sede do outro culpado: Edifício Atrium Saldanha na praça homónima, 8º andar A e B. Escolhi um caso passado em que, o maior contraste com o actual, era o ministro envolvido ser do PS em vez do PSD, para demonstrar quanto estas manobras podem ser transversais ao espectro político mas precisam de contar sempre com a incompetência e/ou conivência da comunicação social - mas também os preconceitos e a superficialidade da maioria da opinião pública.

«YO NO SOY UNA TRAPACERA»

A presidente argentina Cristina Kirchner conseguiu o feito de ser objecto de duas notícias de projecção internacional quase simultâneas. Numa delas, há um escândalo em curso, em que um procurador que andava a investigar um assunto incómodo para a presidente foi encontrado morto, dado por suicidado, corrigido depois para assassinado – e o caso agravou-se porque houve um jornal que noticiou que se encontrou documentação indiciando que o procurador que foi ajudado a suicidar-se se disporia a emitir um mandato de detenção contra a presidente. E é em cima de uma notícia com esta gravidade que aparece a outra, que nos querem fazer crer merecedora de tanta ou mais atenção que a anterior: em visita oficial à China, o assessor de Kirchner encarregado de tuitar os pensamentos presidenciais¹ do dia resolveu ser engraçado e fazer um trocadilho com a pronúncia chinesa, trocando os erres pelos eles – o gesto foi trazido para as primeiras páginas dos jornais argentinos criticando a infelicidade do gesto da presidente. Visto a esta distância, a pretensa xenofobia de Kirchner parece não passar de um exemplo canónico daqueles casos artificialmente empolados (e mesmo críticos desde que sirvam) para abafar mediaticamente um outro que verdadeiramente incomoda. Com indícios destes, o caso do assassinato do procurador Alberto Nisman promete cada vez mais vir a tornar-se escabrosamente interessante, numa saudável demonstração, quiçá, que as mulheres também não estão imunes às tentações de escroquerias presidenciais.

¹ Só os ingénuos imaginam que são os presidentes a fazê-lo pessoalmente. No caso português é preciso mesmo que a ingenuidade se mescle de alguma dose de estupidez: Cavaco Silva a tuitar?...

04 fevereiro 2015

«NÃO TIVE QUAISQUER RELAÇÕES SEXUAIS COM AQUELA MULHER: MISS LEWINSKY»


Poderá ter sido o anúncio do julgamento de Dominique Strauss-Kahn ou então a entrevista de José Sócrates à SIC, ou ainda o efeito conjugado desses dois momentos informativos, mas a verdade é que me ocorreu recuperar este hoje famoso comentário de Bill Clinton, em que ele diz expressamente I did not have sexual relations with that woman: Miss Lewinsky. Depois foi o que se sabe... A analogia com Strauss-Kahn advém do tópico propriamente dito, a com Sócrates da propensão de prestar esclarecimentos demais à opinião pública, daqueles que se podem virar depois contra o depoente.

«LOOK BACK IN ANGER»

Por ser também o título de uma reputada peça de teatro britânica (1956), a expressão Look Back in Anger tem, no original, um significado mais amplo do que aquele que resultará da sua simples tradução para a nossa língua: o decorrer da peça é dominado pela sensação de que a vida vai passando pelas personagens, que elas envelhecem sem que as coisas melhorem, que as suas relações tinham possibilidades iniciais que se perderame é tudo isso que gera uma sensação de raiva e ressentimento que paira sobre o palco durante a representação. Com mais de seis meses decorridos após a execução do celebérrimo programa da tróica a que Portugal se submeteu durante três anos (2011-14), suponho que se tornará possível fazer avaliações distanciadas e politicamente desapaixonadas da sua execução: pois bem, na minha opinião foi um fiasco. E explico: os exercícios de selectividade da memória feitos pelas partes interessadas não conseguem iludir que, quando a austeridade foi inicialmente apresentada ao país, ela foi apresentada como uma fase indispensável mas com um objectivo de recuperação a prazo visível: os cenários macroeconómicos originais antecipavam que por esta altura (o ano que terminou), a economia portuguesa estaria a crescer a 2,5% (e não está), a taxa de desemprego se cifraria nos 12% (e é superior), o défice orçamental rondaria os 2,3% (e faz-se uma festa por ele ter chegado aos 3,5%), a proporção da dívida pública, quando comparada com o PIB, estaria a diminuir dos 115,7% do ano anterior (a última vez que se falou no assunto, ia nos 134% e aumentava...). A expressão fiasco não tem aqui o exagero da argumentação política. Se tivesse havido um indicador onde as metas tivessem sido até superadas, acompanhado de um ou outro onde elas tivessem sido atingidas, por contraponto a outros dois ou três indicadores completamente falhados, admitir-se-ia a controvérsia. Mas não: falhou tudo e todos os indicadores foram revistos sucessivamente em baixa, servindo essas revisões para disfarçar mediaticamente os incumprimentos. Até hoje. Donde se torna legítima uma de duas conclusões: ou a equipa dirigida por Pedro Passos Coelho (com realce para Gaspar, Moedas ou Albuquerque) foi incompetente ou, então, o programa imposto pela tróica era completamente inexequível e nós submetemo-nos às suas ordens com a submissão de uma França de Vichy. Embora não seja uma das prioridades da agenda política, creio que os portugueses agradecerão que essa dúvida se esclareça; se ao governo faltou engenho, se lhe faltou coragem. É que a evolução dos ambientes europeus até estar-nos-á a retirar a consolação que se terá estado a percorrer a rota certa, se o que se esteve a fazer não passou de um placebo para as raízes mais fundas dos problemas estruturais da Europa. Eu ainda assisti ao final do desmoronar do mito de que Portugal não era uno do Minho a Timor, e que assim não fazia sentido insistir na preservação de uma estrutura política multirracial e pluricontinental. E estou a assistir ao desmoronar do mito que nos países da Europa do Sul se pode viver com o mesmo nível de bem-estar que nos países da Europa do Norte. Se a lógica se mantiver, assim não faz sentido persistir na elaboração de uma superestrutura política da qual não há perspectiva de se virem a recolher mais benefícios materiais. Como aconteceu com o projecto (e a guerra) colonial, o projecto europeu arrisca a criar uma nova geração to look back in anger...

A fotografia inicial é de Josef Koudelka. David Bowie aproveitou-se da expressão que dá título ao poste para baptizar uma das suas canções em 1979, corroborando-a (acima); os Oasis fizeram o mesmo em 1996, mas desmentindo-a (abaixo) e com muito mais sucesso comercial do que no caso anterior. Oxalá.

03 fevereiro 2015

MCDONALDS UCRANIANO

E, por se ter mencionado um pouco abaixo as bodas de prata da inauguração do primeiro McDonalds soviético, permita-se, à laia de complemento, esta fotografia ligeiramente posterior de um outro estabelecimento gémeo, só que na Ucrânia. Nela, quem a observa numa perspectiva ideológica simplificada, tenderá a associar a cabine e o empregado ao capitalismo triunfante e a carroça com os clientes ao socialismo científico. Mas isso explicar-se-á pelo entusiasmo do momento, que os vinte anos depois decorridos terão demonstrado observações adicionais relevante de cariz material e também ideológico: que os clientes terão entretanto mudado certamente de meio de transporte, que com ele não se ia a lado nenhum, e que o empregado terá entretanto mudado de emprego, quiçá emigrado, porque a trabalhar para um McDonalds também não se vai a lado nenhum.

«LA FRANCE VENGE SES MORTS»

A 7 de Outubro de 2001, 26 dias depois do 11 de Setembro, os Estados Unidos montavam uma operação mediático-militar, enchendo as televisões (fotografia acima, vídeo abaixo), sobretudo para consumo da sua opinião pública. Ainda antes de se saber o que se devia fazer e contra quem o fazer, fazia-se qualquer coisa. Hoje, quando se completam os mesmos 26 dias sobre os atentados em Paris contra a redacção da Charlie-Hebdo e os desenvolvimentos subsequentes, permita-se o cabeçalho acima para, além da diferença de escala dos dois acontecimentos, realçar de forma irónica a diferença das duas reacções – porque não será por falta de meios que a França não empregará a sua Legião Estrangeira em operações espectaculares e sangrentas contra alvos dos radicais islâmicos.

02 fevereiro 2015

LITERATURA INFANTIL MODERNA

Eu reconheço o quanto me sinto completamente ultrapassado quanto à conveniência dos temas a tratar pela literatura para crianças. Admito que, quando eu era criança, elas eram enfadonhamente inócuas. Recuperando o exemplo do livro da esquerda acima, cocó, xixi e pum eram temas que as crianças de uma certa idade pronunciavam em surdina para galhofa das outras crianças dessa mesma idade. Agora, constato que há uns pedo-psicólogos que pensarão de outro modo e que considerarão que elas devem ser apresentadas de uma forma científica e desmistificada às fezes, à urina e aos flatos. Quem sabe se assim, com esta familiaridade descomprometida e precoce, quando essa geração se tornar adulta, se tornará socialmente aceitável arriar um sonoro traque em público sem constrangimentos?... Mas, em contraste, a minha disposição para compreender não consegue abranger a pedo-psicologia subjacente ao livro russo cuja capa aparece também acima mas do lado direito, com a capa do gato e o raposo, o senhor bondoso, as duas vacas e as kalashnikov. Para a eventualidade de que por aqui passe algum leitor fluente em russo, aqui deixo umas páginas do interior desse livro – recheado de muito e variado equipamento de combate - para que, em querendo, nos possa dar mais algumas achegas sobre qual possa ser a moral desta história para crianças.

01 fevereiro 2015

NOTÍCIAS DEMASIADO GRANDES SOBRE PEQUENOS GESTOS


O encadeamento de encontros de responsáveis europeus criou uma subespecialização no jornalismo, o dos quase incidentes de etiqueta que geram grandes notícias. Aqui há três anos, numa dessas cimeiras, houve um quase-cumprimento-em-falso entre Sarkozy e Cameron que serviu para algumas especulações quanto ao antagonismo entre ambos (vídeo acima). Sendo dois políticos profissionais, a mesma dupla estava aos cumprimentos e sorrisos escassos dois meses passados, quando de um encontro bilateral em Paris (abaixo), desmentindo tudo o que se especulara.

É por causa desses precedentes que convêm ser prudente quanto à interpretação que pode ser dada ao cumprimento relutante do ministro holandês Jeroen Dijsselbloem ao seu homólogo grego Yanis Varoufakis no final da conferência de imprensa recente (foto inicial). Para além de não nos podermos esquecer quanto a informação destes vídeos da euronews não é isenta (abaixo), há que reconhecer a evidência que, naquilo que opõe a Grécia à União Europeia, Dijsselbloem e Schulz, ao visitarem Atenas, não passaram de moços de recados de poderes superiores.

Só os factos futuros (e não estes indícios) justificarão se a fotografia inicial se tornará simbólica da evolução da União Europeia.

AMEN


Incluído naquela que será, muito provavelmente, a obra mais famosa de Händel, O Messias, e muito menos famoso que o célebre coral Aleluia, o Amen é outro coral também bastante conhecido da mesma composição, tendo a particularidade de ser o remate de toda a obra (que tem uma duração total de cerca de duas horas e vinte cinco minutos), sendo com frequência interpretado isoladamente pelos grupos corais pela individualização propiciada aos naipes vocais.

31 janeiro 2015

AS BODAS DE PRATA DO PRIMEIRO MC DONALDS SOVIÉTICO

Há quase precisamente 25 anos, a 30 de Janeiro de 1990 e após uma dúzia de anos de elaboradas negociações entre a multinacional e as autoridades soviéticas, a Mc Donalds inaugurou o seu primeiro restaurante na União Soviética, em Moscovo. A fotografia acima evidencia a estranha semelhança estética das bandeiras das duas instituições, compostas por campos vermelhos de onde se realçam, a amarelo, símbolos universalmente reconhecidos, o M estilizado por um lado, a foice, o martelo e a estrela, por outro. E, pela perspectiva como a foto foi tirada, a primeira, em representação do capitalismo, parece prevalecer sobre a que sempre passara por representar o comunismo. Embora a loja fosse detida em 51% por capitais soviéticos, o dia da inauguração tornou-se um sucesso histórico nos anais da McDonalds, e isso aconteceu muito por culpa desse mesmo povo que fora uma referência incontornável do discurso comunista nos 70 anos precedentes. De uma previsão inicial de uma afluência de mil a três mil clientes para o dia da inauguração, a loja veio a registar o décuplo das estimativas mais optimistas (30.000), em filas compactas que davam a volta a praças e quarteirões adjacentes conforme se pode ver no vídeo abaixo. Nos dias seguintes a cena e as bichas repetiram-se. Em termos das aspirações dos trabalhadores, mesmo antes da desintegração da União Soviética, para quem o quisesse ler, o episódio tornara-se na exibição da vitória do capitalismo.

A história do comunismo ortodoxo em Portugal passou ao lado de tudo isto que aqui se observa e que se designava pragmaticamente por socialismo real, submetido a todas as suas deficiências funcionais e carências materiais. Só essas deficiências e carências explicarão esta adesão popular aos padrões de consumo ocidentais logo que se tornaram disponíveis, porque aquilo de que os soviéticos dispunham era mesmo muito mau. Por outro lado, no caso português, e porque todas estas conquistas das classes trabalhadoras nos passaram ao lado, tenho as minhas dúvidas, quando assisto às intervenções dos jovens parlamentares comunistas e os ouço com as suas propostas recicladas do que foi implementado sob aqueles regimes (as tais outras políticas...), se eles saberão o que foi a realidade concreta do que defendem e se - só para exemplo - alguma vez se dispuseram a observar com distanciamento como funcionavam os supermercados soviéticos em Moscovo (abaixo). É que ao ver-se a degradação das imagens abaixo apercebemo-nos porque, nessa fase, o soviético comum abraçou aquilo que o capitalismo lhe apresentava com tanto entusiasmo.