Dos despojos do momento em que todos quisemos ser Charlie só terá perdurado a expressão Je Suis + qualquer coisa, empregue agora com sentidos avulsos e irónicos, à custa da saturação que a expressão acabou por despertar. Ontem, por exemplo, descobri que muitos dos que frequentam estas redes sociais, somos Correio da Manhã, por muito que se pretenda desdenhar do jornalismo de título grosso e alarmista. A contagem das visitas e o interesse dos leitores não enganava: um título onde se destacava o vocábulo merda mostrou ultrapassar o interesse em minutos de outros títulos mais inócuos, apesar de estes últimos terem sido postados com muitas horas de antecedência. Em paralelo com o estilo do Correio da Manhã, confirma-se que não há nada como adicionar uma caralhada a um título para despertar a atenção e concitar o interesse geral dos leitores.
20 fevereiro 2015
UM «OBRIGADINHO» MUITO GRANDE TAMBÉM DA NOSSA PARTE
Na cobertura do conflito germano-grego, a atenção por cá tem-se concentrado em Tsipras e Varoufakis, na ausência de gravatas e na presença de cachecóis, parece agradar às duas partes mostrarem-se como uma facção romântica em contraste com uma outra mais razoável – há que pagar o que se deve.
Mas, para que se tenha uma ideia mais justa de como pode ser o verdadeiro espírito do outro lado (que também é o do nosso governo), permitam-me afixar esta capa de notícia publicada hoje pelo Bild. Nela lê-se: Finalmente diz-se um NÃO à Falência Grega. A Alemanha diz-lhe Obrigado, Wolfgang Schäuble!
19 fevereiro 2015
A BOA MERDA QUE ACABOU DE SER FEITA
Tivesse sido aquela confissão final feita em Off em vez de em On, a verdade é que há que concordar com a autora, que aquele empastelamento dos números resultou numa boa merda. Atenua as consequências da merda o facto de às 9H13 da manhã ainda não se estar bem acordado e que, quem estiver bem acordado, também não está com pachorra para ver televisão, talvez menos ainda ao que terá acontecido ao PSI20. Contudo, o facto deste vídeo já ter uns bons anos (2004) e de nunca termos visto aquela apresentadora na RTP - que fonte amiga e bem informada me elucidou chamar-se Carla Trafaria - projectada para mais altos voos televisivos, pode levantar a suspeita do quanto na nossa sociedade não se é condescendente para honestos actos de contrição. Porque, em justiça, perde-se a conta ao número de boas merdas a que assistimos, em prime-time e com vedetas muito mais qualificadas do showbiz.
O DR. DOXEY DESTE EXECUTIVO
Neste governo há ministros que mantêm uma imagem de competência mesmo estando agora consecutivamente debaixo de fogo (Paulo Macedo). Há outros que já tiveram tempo para se mostrarem suficientemente incompetentes, mas que continuam a escapar entre os pingos da chuva das críticas mais mordazes... e pertinentes (Poiares Maduro). Há aqueles sobre os quais nunca se suscitaram dúvidas sobre o seu desempenho, porque se sabia de antemão o quanto eram medíocres (Aguiar-Branco). Há ainda aqueles que dão mostras da mais elementar falta de bom senso quando colocados sob pressão (Teixeira da Cruz).
Porém, no fundo da escala, há os ministros que criaram uma imagem de seriedade tal que ela nos forja a confiança de que a eles nem nos atreveríamos a comprar um carro usado (era o caso de Miguel Relvas, será o caso de Pires de Lima). Ao ouvir-se o ministro da Economia ontem no parlamento (mais acima), fica-nos a convicção de que ele não saberá fazer a distinção entre ser-se do governo e ser-se da oposição à oposição. O que é que ele quer? É que um ministro não pode argumentar no mesmo estilo em que o fazia o blogue câmara corporativa quando Sócrates estava no poder.
Lendo o Observador de ontem (e conhecem-se as inclinações ideológicas do jornal, bem mais próximas do ministro do que do PS), em duas notícias publicadas apenas com uma hora de diferença, Pires de Lima recusa a ideia do PS de criar um fundo de capitalização para empresas endividadas para, aparentemente de seguida, renovar o apelo para que o PS reveja a posição sobre o IRC. Não tendo a espectacularidade televisiva de uma outra celebrada intervenção sua naquela mesma Casa (acima – ocasião em que se especulou sobre o conteúdo demasiadamente líquido do que almoçara),...
...a conjugação das duas respostas dadas ao maior partido da oposição na (mesma) sessão de ontem configura uma coerência dificilmente explicável: estaria ele, de facto, interessado em alcançar algum entendimento com o PS, ou tudo não passou de mise-en-scène? É que, as incoerências de Pires de Lima já se tornaram anedóticas: só mesmo ele para gabar, numa feira internacional de calçado, a excelência do calçado português, para depois ter de confessar que, naquele momento, até calçava sapatos de outra proveniência...
Pelo conteúdo do que anuncia, mas também pela exuberância como se exprime, Pires de Lima faz-me lembrar o Dr. Doxey (acima, à esquerda), uma coriácea personagem de uma das aventuras de Lucky Luke, um químico charlatão que fabricava e vendia elixires, aos quais atribuía as propriedades mais milagrosas. E que, quando necessário, adoptava uma técnicas de vendas muito... pró-activas. O trajecto político de Pires de Lima também tem sido muito pró-activo, especialmente quando se compara a sua actividade antes e depois de entrar para o governo em Julho de 2013.
Hoje já estará esquecida a sua moção de estratégia para o 25º Congresso do CDS que se iria realizar em Julho de 2013, e foi cancelado por causa da crise da demissão irreversível de Paulo Portas. É interessante recordar as notícias preparatórias que se faziam publicar antes, em Junho de 2013, quando ainda não se antecipavam as ondas de choque provocadas pela demissão de Vítor Gaspar e se prometia o fim progressivo do corte nos salários e nas pensões para dali a dois anos - ou seja, para 2015, o ano em curso. Quatro meses depois disso, entrado para o governo, Pires de Lima descobria estar a acontecer um milagre económico!...
Na sessão de ontem o tal de milagre económico desaparecera, a tal reposição de salários e pensões dentro de dois anos já estará completamente esquecida e bastou uma apresentação mais conseguida de uma deputada do Bloco de Esquerda com sucessivos gráficos de aspecto depressor para que - como dizer? - o elixir do Dr. Pires de Lima passasse a possuir outras virtualidades curativas. a culpa da taxa de crescimento do PIB ter sido de 0,9% e não os 2% que se ouvem reclamados na tal moção ainda é do PS...
18 fevereiro 2015
DUPLA NOSTALGIA
À nostalgia dos mais de dez anos que já se passaram desde que esta canção (Velha Infância) dos Tribalistas se tornou popular, somam-se os muitos mais anos, todos os que nos levam à tal infância, infelizmente cada vez mais velha, a que a letra se refere.
SAGAS DE PAÍSES ONDE NÃO SE SABIA HAVER «MIJANCEIRAS»
Gunnar Somoliansky é um fotógrafo sueco que em 1983 captou este grupo de folgazões a aliviar-se numas paredes discretas de uma Copenhaga, cidade que nos costuma ser descrita como muito mais cívica do que qualquer das nossas equivalentes meridionais da Europa. Talvez por serem habitadas por outra gente... Depois de ter passado 45 anos (1945-90) dividida entre o Leste e o Ocidente por uma Cortina de Ferro, a Europa, agora designada por União da dita, apresenta-se ainda dividida, só que agora separada por uma outra divisória adicional, aquela linha vertical que nos documentos financeiros separa os saldos a débito dos saldos a crédito, os do Norte dos do Sul da Europa. E as pretensões de moralidade dos primeiros em relação aos segundos está a tornar-se tão ostensivas, que apetece ironizar com a ajuda da fotografia supra: - Então por aí, e apesar de proibido, também se mija nas paredes? Ou entretanto o hábito perdeu-se por causa das preocupações ambientais?
17 fevereiro 2015
EM DIA DE ESTREIA TELEVISIVA DA PORTA DOS FUNDOS
Para hoje, anuncia-se a estreia da Porta dos Fundos em televisão no canal Fox Portugal. Não sei se será para valer, mas fiquei de sobreaviso ao ouvir numa das promoções a essa estreia (que passou no próprio canal Fox) onde os palavrões dos actores haviam sido editados, a que se sobrepunham aqueles conhecidos sons agudos. Ora, um dos segredos do sucesso daquela equipa é o facto deles falarem sem limitações formais. Espero bem que, para o popularizar, não pasteurizem aquele género de humor.
A DESPEDIDA DOS INDEFECTÍVEIS
Apesar de profusamente coberto, ainda há fotografias do funeral de Salazar (Julho de 1970) que nos podem surpreender: junto aos Jerónimos, diluídos entre a assistência, um pequeno grupo de indefectíveis saúda de braço esticado o féretro do antigo ditador de partida para Santa Comba Dão. Surpreende porque, ao contrário do que viria a acontecer no funeral de Franco dali por cinco anos, Salazar deixara há muito (desde que ficara mentalmente incapacitado quase dois anos antes) de ser uma figura importante nos jogos das facções que disputavam a sua sucessão. Os carreiristas pouco ganhariam em assim se manifestar, quem o fazia fá-lo-ia por uma genuína deferência pessoal para com o ditador. Não era imagem que interessasse publicitar ao poder (marcelista) da altura, não é imagem que se tornasse interessante publicitar depois, a de que Salazar era um ditador que podia suscitar simpatias populares. Até Jaime Nogueira Pinto o ter feito ganhar um concurso de televisão.
16 fevereiro 2015
Ó MAR SALGADO, QUANTO DO TEU SAL
Considero esta fotografia tão rica que, em vez de a estragar com um título menor de minha autoria, preferi-a esconder por debaixo da primeira estrofe do conhecido poema de Fernando Pessoa.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Na fotografia, ao contrário do poema, não se chega a sulcar o mar, ficamo-nos pelas suas margens, mas não é por isso que deixa de ser uma daquelas fotografias que se sente visceralmente nossa, portuguesa, tirada na Nazaré por um norte-americano – Bill Perlmutter – que mostra pelos resultados ter-nos captado até à essência. Com a foto também nós sentimos a frescura da areia da praia nos pés descalços e compartilhamos com os espectadores a curiosidade de descobrir o que provoca aquela concentração de gaivotas sobre a arrebentação, como mirones intemporais de uma paisagem bucólico-marítima.
(OUTRA) MISSÃO CUMPRIDA
Esta tarjeta com os dizeres Missão Cumprida faz lembrar (embora possua uma dimensão muito mais modesta) uma outra muito posterior com dizeres semelhantes (Mission Accomplished) e destinada a tornar-se mundial e controversamente famosa. O Esteves que saudava a peluda (disponibilidade) no cais de Alcântara em Julho de 1969 (data do regresso de Angola da C.Cav. 1705) foi um de entre centenas de milhares que assim mostrava aceitar implicitamente o discurso do regime, que lhes competia aceitar a sua quota-parte dos sacrifícios para a preservação do status quo do ultramar. A clarividência política a respeito da questão colonial era algo apenas ao alcance de uma minoria, embora a memória colectiva tenha vindo a alterar tudo isso depois do 25 de Abril.
15 fevereiro 2015
REPORTAGENS TELEVISIVAS SOBRE A GRÉCIA
É uma pena que, ao contrário do que acontece em França, não estejam acessíveis na net pequenos trechos de telejornais de época onde se anunciam alguns acontecimentos mais significativos a que se pretenda dar destaque. Com pena minha, o conteúdo deste poste torna-se assim reduzido para quem não entenda francês e não consiga acompanhar a locução destes dois vídeos. No de cima, anuncia-se a entrada da Grécia na CEE, que teve lugar a 1 de Janeiro de 1981. Já então se fazia sentir a preocupação do impacto da adesão na agricultura grega e no esforço de adaptação a fazer. O vídeo de baixo é 20 anos posterior, e assinala a entrada da Grécia na zona Euro (Janeiro de 2001). Era o 12º país a aderir e o optimismo das palavras iniciais do locutor contrasta com a atitude moderada e distanciada dos gregos que figuram na reportagem, com excepção de um conselheiro económico chamado Vassilis Rapanos que já então prometia privatizações e reformas para que a economia grega crescesse a 5% ao ano. Devia ser o Vítor Constâncio lá do sítio...
Passados 14 anos após este segundo vídeo, em Janeiro de 2015, foi a vez de um repórter português (José Rodrigues dos Santos) ter lá ido fazer a sua reportagem e esse é que descobriu que os gregos, a começar pelos agricultores que queriam subsídios do vídeo de 1981, os comerciantes que não estavam a saltar de contentamento com a adopção do Euro no de 2001 e sobretudo o senhor Rapanos são uns malandros, todos, que não pagam impostos...
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OS QUE «PODIAM-TER-SIDO»
Francisco Sá Carneiro (1934-1980) e José Pedro Pinto Leite
(1932-1970), acima fotografados na Assembleia Nacional em 1969 ou 70 e
conhecidos na época por serem as duas figuras mais proeminentes de um grupo de
deputados reformadores do regime, que veio a ser designado por Ala Liberal. Ambos
morreram em acidentes de aviação, embora o 25 de Abril de 1974 se intrometa nos
dez anos que separam os respectivos falecimentos. O primeiro foi mais do que
uma promessa política, mas hoje perduram como as principais figuras de uma
certa nostalgia do que poderia-ter-sido – de uma história alternativa da
direita portuguesa no último terço do século XX, onde Cavaco acaba por se
impor. Uma nota final: é simbólico de como essas evocações tendem a ser benignas
é que nunca se considera os eventuais embates entre os dois pela liderança do
PPD/PSD ou de organização daquela mesma área política...
14 fevereiro 2015
...SÓ QUANDO ACABA A BATERIA
Perto de nós, numa outra mesa do restaurante, um casal sentava-se frente a frente sem se olhar, cada um ensimesmado no seu gadget pessoal. Impressionava. E eu lembrei-me deste sketch - bem recente, por sinal - do Porta dos Fundos...
DISTO JÁ NÃO HÁ MAIS – 8
Durante anos o painel em madeira e os octógonos em relevo do fundo foram sinal identificativo da sala VIP do aeroporto da Portela, nesses anos (décadas de 50,60,70) em que a deslocação das altas entidades ao estrangeiro era objecto de notícia pela raridade. Tudo o que consta da fotografia acima é de um outro tempo, a começar pelo entrevistado, Ernesto Melo Antunes (1933-1999), então major e ministro dos negócios estrangeiros, falecido vai para mais de 15 anos; o entrevistador, que me parece ser Joaquim Furtado, exibe uma exuberância pilosa adequada aos tempos do PREC; o microfone que empunha é sóbrio, nada dos exuberantes cornettos decorados com o logotipo da estação de TV que agora se usam; mesmo o gesto de ir fumando o cigarrinho enquanto se responde às questões dos jornalistas se afigura, pela informalidade, de uma outra era. E a sala VIP e o seu histórico painel de madeira desapareceram no entretanto. Pouco importa: como Passos Coelho e os seus passaram a viajar em económica...
NO PRINCÍPIO ERA O VERBO...
Quem o viu então e quem o viu depois! Jean Marie Le Pen exibe neste vídeo um charme que agora só nos parece datado (a pala no olho era então um atributo de homem de acção bem sucedido, ao estilo Moshe Dayan), apresentando em Fevereiro de 1973 aquilo que qualifica como os sete pontos principais do programa de uma Frente Nacional acabada de fundar quatro meses antes e que se preparava para disputar as suas primeiras eleições legislativas em Março seguinte:
- Constituição de uma Assembleia Nacional eleita por escrutínio proporcional.
- Denúncia dos Acordos de Évian (assinados em 1962, concedendo a independência à Argélia) e indemnização dos repatriados (pieds-noirs), em antecipação a qualquer programa de auxílio a países estrangeiros.
- Regulamentação muito estrita da imigração.
- Supressão do serviço militar obrigatório, substituído por um serviço militar voluntário de seis meses e um exército profissionalizado.
- Defesa do comércio e do artesanato.
- Adopção de uma política de apoio à família, incluindo alocações especiais e benefícios fiscais.
- Despolitização da função pública, especialmente do ensino e revogação da lei Edgar Faure (do nome do ministro da Educação em Novembro de 1968, incorporando algumas das reivindicações dos contestatários de Maio de 68).
- Denúncia dos Acordos de Évian (assinados em 1962, concedendo a independência à Argélia) e indemnização dos repatriados (pieds-noirs), em antecipação a qualquer programa de auxílio a países estrangeiros.
- Regulamentação muito estrita da imigração.
- Supressão do serviço militar obrigatório, substituído por um serviço militar voluntário de seis meses e um exército profissionalizado.
- Defesa do comércio e do artesanato.
- Adopção de uma política de apoio à família, incluindo alocações especiais e benefícios fiscais.
- Despolitização da função pública, especialmente do ensino e revogação da lei Edgar Faure (do nome do ministro da Educação em Novembro de 1968, incorporando algumas das reivindicações dos contestatários de Maio de 68).
Os segmentos do eleitorado que a Frente Nacional pretendia cativar pareciam evidentes mas os resultados foram um desapontamento. A organização obteve 108 mil votos, correspondentes a 1,3% da votação nacional e a 2,3% dos 105 círculos eleitorais onde se conseguira apresentar (de um total de 488). Só mesmo o próprio Le Pen - que ainda não era o líder indiscutível da organização como se tornaria depois - conseguiu um resultado superior a 5% no seu círculo parisiense e, obviamente, nenhum dos candidatos conseguiu um resultado que lhe permitisse passar à segunda volta.
13 fevereiro 2015
OS LIVROS QUE OS VULTOS INTELECTUAIS LÊEM
Percebe-se e até se aceita porque é que entre as elites locais se troça da desenvoltura como Marcelo Rebelo de Sousa apresenta livros no seu programa de Domingo, manejando-os (e costumam ser tantos!...) com uma perícia tal que, aos mais imaginativos, o malabarismo poderá fazer lembrar o sketch do cozinheiro sueco dos Marretas, mais a sua famosa receita das almondegas (abaixo), e imaginar Marcelo armado em discóbolo, a atirá-los, aos livros, em voo planado pelo estúdio da TVI fora, após lhes ler título e autor...
Mas o pecado de Marcelo - que já se deixou de fingir ter lido os livros que nomeia - é ser superficial e histriónico em excesso. Sobre livros e leituras convencionou-se que há que mostrar um exibicionismo ponderado, mascarado de uma certa contenção. Também é ridículo, mas, ao menos, é-o discretamente. Socorrendo-me de dois exemplos aparecidos nos últimos dias, num dos casos, que encontrei no Público, Miguel Esteves Cardoso admite casualmente ser normal ler um livro de 300 páginas numa tarde – Nothing is true and Everything is Possible: Adventures in Modern Russia de Peter Pomerantsev. Eu não consigo ou, pelo menos, não tenho coragem para chamar àquilo leitura... Noutro caso, no Observador, é Vítor Gaspar que nos informa estar a ler simultaneamente três livros.
E que três livros!: Irrational Exuberance de Robert Shiller, Hall of Mirrors de Barry Eichengreen e When the Facts Change de Tony Judt. A situação faz-me lembrar um daqueles grandes mestres de xadrez a disputar simultâneas. Na verdade, o texto de Vítor Gaspar refere-se exclusivamente ao primeiro dos livros nomeados mas reconheça-se que há um efeito sinergético intelectual muito positivo provocado pela menção dos dois adicionais. Eu nunca me lembraria disso: faria cada recensão há medida que os fosse lendo. Vítor Gaspar, pelos vistos, consegue-os ler aos três ao mesmo tempo. Traço comum a todos os quatro livros: foram editados recentissimamente (num dos casos, uma reedição) e estão escritos em inglês. Quanto a esta última parte, isso (lê-los naquele idioma) será o único aspecto em que consigo acompanhar aqueles nossos dois vultos intelectuais...
E que três livros!: Irrational Exuberance de Robert Shiller, Hall of Mirrors de Barry Eichengreen e When the Facts Change de Tony Judt. A situação faz-me lembrar um daqueles grandes mestres de xadrez a disputar simultâneas. Na verdade, o texto de Vítor Gaspar refere-se exclusivamente ao primeiro dos livros nomeados mas reconheça-se que há um efeito sinergético intelectual muito positivo provocado pela menção dos dois adicionais. Eu nunca me lembraria disso: faria cada recensão há medida que os fosse lendo. Vítor Gaspar, pelos vistos, consegue-os ler aos três ao mesmo tempo. Traço comum a todos os quatro livros: foram editados recentissimamente (num dos casos, uma reedição) e estão escritos em inglês. Quanto a esta última parte, isso (lê-los naquele idioma) será o único aspecto em que consigo acompanhar aqueles nossos dois vultos intelectuais...
12 fevereiro 2015
A GUERRA DOS «TWEETS»
Mais do que o da Ucrânia, um outro campo de batalha da guerra ideológica que dilacera a Europa é o dos tweets, terreno difícil onde me sinto desconfortável porque não vocacionado para parecer ser inteligente numa frase compactada a algumas palavras (abreviadas ainda por cima). Mesmo assim, consegui lá encontrar quem conseguisse dizer-nos capítulos sobre a falta de objectividade como uma das facções da opinião publicada (...em tweets) em Portugal (não) consegue avaliar as manobras dos gregos. Como se lê num comentário de Peter Spiegel, jornalista do Financial Times (a quem já neste blogue traduzi parcialmente um artigo sobre as manobras que derrubaram Papandreou em 2011) e a quem se reconhece a prorrogativa de assistir distanciadamente às nossas querelas, os portugueses também já se haviam manifestado fortemente contra as propostas de flexibilização orçamental apresentadas por Renzi (o 1º ministro italiano). Debilita-os de uma forma terrível em termos internos. Até de Bruxelas (local de trabalho de Spiegel) se percebe que esperar contenção de discurso a Cavaco Silva ou mudanças de comportamento de Passos Coelho são anacronismos, e isso só piora entre a comitiva dos cortesãos que apanharam o autocarro em 2011. Porque, mesmo nada tendo a dizer na disputa que se trava, todos eles (Cavaco, Passos, a tribo...) estão a jogar muito mais - sobretudo em credibilidade e em cargos de destaque - do que aquilo que se dispõem a admitir.
O DESERTOR E O OUTRO
Gostaria de deixar previamente claro quanto os dois protagonistas desta constatação são os menos dignos de censura pela conclusão que dela se extrai. Na fotografia da esquerda acima temos um Manuel Alegre muito jovem, à direita um Jaime Nogueira Pinto também por essas idades. O primeiro desde há imensos anos que tem sido uma vítima repetida da extrema-direita nostálgica que o acusa de ter desertado no Ultramar, algo que já foi repetidamente desmentido. Ironicamente, foi o segundo, expoente intelectual das áreas ideológicas dos acusadores mais veementes do primeiro, quem já assumidamente confessou ter desertado quando cumpria serviço no Ultramar, curiosamente na mesma região (Norte de Angola) onde o outro fora acusado de o ter feito e por razões (perseguição política) que o primeiro também invocou para partir para o exílio. Mas ninguém está a ver aqueles que se encarniçam contra Manuel Alegre, fazerem-no contra Jaime Nogueira Pinto, pois não?...
Em jeito de remate, ouça-se O Desertor, escrito por Boris Vian, composto e cantado por Serge Reggiani, que dedico sobretudo à esmagadora maioria dos que não desertaram mas em atenção aos que o fizeram, com uma nota adicional chistosa dedicada àqueles que desertaram posteriormente à guerra... mas de pensar e de avaliar proporcionadamente a questão depois de tantos anos passados. A cegueira política não torna apenas as pessoas injustas, estupidifica-as.
11 fevereiro 2015
O MOMENTO DA VERDADE – AS TAIS DE REFORMAS E O CRESCIMENTO ECONÓMICO DA EUROPA
Foi muito interessante registar algumas reacções ao artigo que Vítor Bento escreveu recentemente (Eurocrise: uma outra perspectiva) sobre aquilo que foi por si baptizado de eurocrise, o impasse em que caíram as políticas prosseguidas dentro da zona Euro. Como um especialista em relações internacionais antecipando de perto o falhanço da busca de armas de destruição maciça no Iraque em 2004, Vítor Bento terá tornado muito mais peremptórias as críticas já por si manifestadas à política europeia que vêm sendo prosseguida sob a égide alemã. E o impacto do que escreveu parece ter sido multiplicado por: a) o artigo ter sido publicado no Observador, um jornal onde se concentra um batalhão de cronistas defensores da causa desta solução liberal para os problemas europeus; b) os membros desse batalhão considerarem que Vítor Bento é considerado confusamente como um deles – um defensor da dita causa. Será por isso que o artigo de Rui Ramos em resposta ao seu artigo (O Euro, a Grécia, as dúvidas de Vítor Bento e as minhas) naquele mesmo Observador começará cheio de salamaleques num trocadilho entre as dúvidas do economista em relação ao euro e as dúvidas do historiador em relação às dúvidas do economista. Depois, os comentários de Rui Ramos evitam rebater especificamente algo que Vítor Bento tenha concretamente escrito. O artigo deste último tem gráficos e quadros e aí, nesses campos das ciências mais exactas, desconfio que Rui Ramos (perpetuando aliás uma tradição enraizada na classe dos historiadores) não se sentirá confortável, não sabendo, por exemplo, nem como, nem para quê, se deriva/integra uma função. A refutação faz-se assim na base de muita conversa/escrita e alguns números, pela concessão de que nem tudo terá corrido pelo melhor (talvez o programa pudesse ter sido melhor), mas as responsabilidades do fracasso, essas são inequívocas (a falta de competitividade da economia grega – a sua recusa de melhorar a sua competitividade – as reformas ficaram mais ou menos no papel dos memorandos – o crescimento económico necessário para absorver o desemprego não apareceu).
Confesso que, por muito respeito que dedique aos textos de Rui Ramos, já me chateia a merda da conversa das reformas. É um argumento recorrente, mas fluído: cada cabeça, cada sentença quanto às que são para considerar indispensáveis. Isso faz com que tanto se possa argumentar que foram um sucesso (acima) como que as de fundo não foram feitas ou, ainda, tendo-o sido, nunca o foram à dimensão que possibilitasse o tal de crescimento económico que, recorde-se, era a promessa e a justificação para que houvesse uma fase transitória de austeridade severa – por exemplo: será que alguém se lembra que em 2011 as previsões de crescimento da economia portuguesa para o ano findo (2014) eram de 2,5%? É que, sem o tal de crescimento económico, todo o exercício argumentativo imposto à Europa – e aos países meridionais em especial – nestes últimos anos colapsou, assim como – para regressar à analogia empregue acima – a ausência de armas de destruição maciça no Iraque mostrou a falsidade daquilo que os norte-americanos haviam invocado para o invadir. Mas deixem-me terminar rebatendo a fábula das reformas com um contraditório delicioso de tão absurdo: abaixo podem ver num gráfico um histórico das taxas de crescimento do PIB da economia indiana. Ano em que esse crescimento seja inferior a 5% pode ser considerado um ano de crise. Pois bem, a Índia possui uma das legislações mais rígidas quanto ao despedimento dos funcionários públicos. São mais de 6 milhões e considerados os mais ineficientes da Ásia! De quando em vez aparecem umas notícias na secção de curiosidades dos jornais onde um funcionário é despedido por faltar ao trabalho há 24 anos... As reformas ainda estão por fazer e não se liberalizaram os despedimentos na função pública na Índia. Tão pouco se liberalizaram as condições para a instalação das multinacionais, protegendo-se, em vez disso e ostensivamente, as corporações locais. Querer-me-ão fazer crer que as taxas de crescimento da economia indiana seriam duplas/triplas (15%/25%) destas abaixo só por causa do impacto de tais reformas ainda por fazer? Acreditem os cronistas do Observador... e olhem que é preciso muita fé.
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