16 maio 2007

EIN VOLK, EIN REICH, EIN FÜHRER!*

Há imensas razões inocentes para se usar esta representação do mapa da Europa agrupando os três países de língua alemã existentes no seu centro. Contudo, seria hipócrita negar o desconforto do significado político que ela pode produzir. As memórias também têm o seu tempo histórico para se esfumarem e talvez no final deste Século, já sejam poucos os que associem o mapa de cima a um senhor de franja e bigodinho curto. Afinal, o tempo tudo cura, nomeadamente as recordações traumáticas das ambições dos outros para dominar o continente, senão não seria coisa dos eruditos de hoje a explicação sobre a origem da expressão portuguesa ir para o maneta…

* Um povo, um estado, um chefe! O slogan mais conhecido do nazismo.

CONCEITOS DE ESTRATÉGIA, NUMA APRESENTAÇÃO “À TESOURINHO DEPRIMENTE”

Nas análises estratégicas globais é costume avaliarem-se as condições em que podem ser exercidas as técnicas de intervenção no sistema por parte dos vários agentes em relação aos seus pares. Normalmente reconhece-se que os actores principais têm a capacidade e possibilidade de poder exercer esses poderes em situações muito mais vastas do que os restantes. E a esses grandes actores, quando estamos a tratar de países, designamos por potências.
Mesmo entre as diversas potências há hierarquias de importância, estabelecidas em função dos meios de que dispõem para exercer a sua influência concretamente. É um critério quantitativo e é a abundância desses meios que tornam, na actualidade, os Estados Unidos numa potência muito mais “potente” dos que as outras, como a China, a Rússia, o Reino Unido ou a França, para mencionar apenas as cinco que gozam desse estatuto formal na ONU. Eles (USA) têm capacidades que os outros não têm.

Muito mais subjectiva e imbricada no próprio sistema de influência e intervenção é a componente que se pode designar por credibilidade. Está dependente do perfil dos protagonistas e é um assunto muito actual devido às personalidades dos detentores actuais do poder nos Estados Unidos (Bush, Cheney, etc…). Mas, por uma vez, exemplifique-se este conceito da credibilidade utilizando um exemplo que não seja daqueles soturnos do costume quando se trata dos assuntos de estratégia.
Como nos Tesourinhos Deprimentes dos Gato Fedorento: o local é o do programa Herman 98, o convidado de Herman José é Manuel Serrão, a quem Herman está a fazer uma entrevista. Uma, duas, três vezes, Herman insiste em mandar a bisca que Manuel Serrão tinha uma nova paixão, ao que o entrevistado começou por não dar troco para, à terceira insistência, retorquir, com um sorriso melífluo que, se a ideia da entrevista fosse falar da vida pessoal, então falar-se-ia da dele e da do Herman…

Dá para adivinhar como Herman José mudou logo rapidamente de assunto… Não haveria muitas pessoas que, naquelas circunstâncias, tivessem o à vontade em frente às câmaras e o descaramento para exporem aquilo que afinal poderia ser uma revelação apenas para parte da audiência, mas havia a convicção que Manuel Serrão seria uma das pessoas capazes de o fazer… Ora é essa convicção que eu designo por credibilidade, que neste caso funcionou como um mecanismo de dissuasão eficaz por parte de Manuel Serrão.
Não se tratou de uma avaliação da capacidade de dissuasão (aqui representada pelo conhecimento da vida pessoal de Herman José), assunto sobre o qual muitos outros convidados naquela situação também possuiriam dados, mas pela credibilidade atribuída por Herman José ao descaramento de Manuel Serrão em o divulgar. E foi isso que o inibiu. Possuir essa credibilidade enquanto dirigente é algo que é obrigatório que os presidentes norte-americanos possuam para que a ordem mundial vigente funcione. James Carter perdeu-a em 1979-80 e agora George W. Bush também… O que é perigoso.

É que, por exemplo, por muito que ele (Bush) prometa bombardear o Irão se continuar o processo de enriquecimento de urânio (e ainda pode fazê-lo), a comunidade internacional reage sempre como se não acreditasse que o fosse fazer…

15 maio 2007

TV NOSTALGIA – 29

Voltando atrás no tempo, e seguindo certas séries televisivas de um determinado género de uma forma encadeada no tempo, apercebemo-nos de como elas corresponderam a modas, tal qual ao longo desse período variaram a largura e os padrões das gravatas ou os formatos dos sapatos de senhora.
Se, no começo da década de 1970, uma boa parte das séries policiais se alinhavam pelo padrão de Columbo, ou seja o do detective solitário inteligente, mas um pouco exótico (era o caso de Kojak (1973) por exemplo, careca e de chupa-chupa ao canto da boca), esse modelo da subtileza acabou por esgotar-se.
Também com a ajuda da chegada à TV do modelo do filme Dirty Harry (com Clint Eastwood), que era uma espécie de transposição da máxima do general Custer – o único índio bom é um índio morto… – para o mundo do crime, as séries policiais tornaram-se muito mais próximas da criminalidade das ruas, caso exemplificado numa série como Baretta (1975). Mas essa moda das séries policiais violentas acabou por também chegar à Europa, muito embora os europeus se mostrassem menos individualistas e enquadrassem a acção dos dois protagonistas numa equipa, com uma organização especial (chamada CI5) e um chefe (ao centro - Gordon Jackson, para sempre o mordomo da família Bellamy...), como acontecia na série britânica The Professionals (1977).
Numa fase seguinte, a violência perdeu quase toda a importância para se vir a concentrar na tensão entre a equipa quando esta passou a ser constituída por um casal, quase sempre à beira de chegar a vias de facto mas sem verdadeiramente lá chegar como acontecia na série britânica Dempsey e Makepeace* (1985) ou na norte-americana Moonlighting (1985)…
* Dempsey e Makepeace nunca chegaram a vias de facto, mas os actores Michael Brandon e Glynis Barber que os interpretavam casaram em 1989...

Nota: Em Portugal as séries terão passado um a dois anos depois das datas mencionadas.

14 maio 2007

O IMPERADOR SMITH

A colaboração de Goscinny com Morris nas histórias de Lucky Luke permitiu ao primeiro elaborar argumentos que envolvessem o tema da conquista do poder e da adaptação da sociedade a novos regimes, que as condicionantes da história matricial de Astérix não lhe permitia: por um lado, os gauleses não eram um verdadeiro desafio ao regime romano e, por outro, no fim do episódio o Império Romano tinha de permanecer de pé para que os gauleses da aldeia o viessem abanar novamente no próximo álbum.
Com as cidadezinhas do faroeste as possibilidades eram diferentes. Em histórias como Lucky Luke Contra Joss Jamon, Corrida para Oklahoma ou neste O Imperador Smith, a imaginação demonstrada pelos argumentos de Goscinny faz jus ao comentário que sustenta que a sua colaboração com Morris (o criador original e desenhador do herói da BD) transformou as histórias de Lucky Luke de histórias do Oeste americano em histórias que, por acaso, se passavam no Oeste americano. E esta reza assim:

Uma cidade chamada Grass Town possuía uma atracção local constituída por um rancheiro rico, chamado Smith, que tinha virado chalupa e dera em emular Napoleão, só que se pensava Imperador dos Estados Unidos. Viajava com toda a pompa, acompanhado de uma Guarda de Honra devidamente fardada, que não passava dos antigos vaqueiros do seu rancho mascarados. E a população de Grass Town dera em alimentar o ego de Smith enviando-lhe proclamações em nome de monarcas europeus e em acolher as suas proclamações, para divertimento da comunidade.
O problema é que a Guarda de Honra napoleónica de Smith se podia transformar num bando de malfeitores a que a cidade não se podia opor se este decidisse exercer realmente o poder que julgava possuir. Por respeito a uma genuína história de faroeste o diferendo que desencadeou a crise pôs-se à volta do banco que acabou por ser depois assaltado a tiros de canhão da artilharia imperial de Smith… E o segundo grande momento cómico da história é a fase em que se assiste à implantação de um regime imperial em Grass Town…

O xerife torna-se ministro da polícia e o director do jornal local ministro da informação. Este último recebe de Smith o título de barão, o que leva o primeiro, por inveja, a pleitear junto de sua majestade, e a receber, em recompensa, o de conde. Melhor, só a animadora do saloon local, que recebeu o de duquesa de Apache Pueblo… Só o juiz local e, evidentemente, Lucky Luke permanecem lúcidos no desenrolar da farsa a que o nosso herói acaba por pôr cobro, numa altura em que o ex-cozinheiro de Smith, promovido a ajudante de campo e tão chalupa quanto ele, se preparava para lhe suceder no trono…
A caricatura é excessiva, o regime demasiado ridículo, mas a história contém a moral do que raramente costuma acontecer quando as equipas dirigentes alcançam o poder: não são os contestatários lúcidos que vingam, pelo contrário acabam por se ver rapidamente afastados; em contrapartida, o conformismo e os conformistas em relação à fonte de poder central são os que sempre acabam por singrar cada vez mais, até que as opiniões do grupo acabam por se tornar numa mera caixa de ressonância do líder. Entre nós, já vi muitos xerifes promovidos a condes e ministros de polícia, bem sucedidos e invejados…

A anunciada promoção de António Costa para candidato à Câmara de Lisboa, mesmo sem confirmação sua, mesmo sem saber quem o possa substituir no governo (mas suspeitando…), parece-me mais um passo nesse sentido de pôr os que rodeiam o chefe a pensar como o chefe…E não me agrada.

13 maio 2007

A MINISTRA DA FAZENDA E DA COLUNA SOCIAL

Embora se possa especular quais terão sido as causas, para este poste não interessa desenvolver que razões terão feito com que os titulares (civis) da pasta da Fazenda dos governos brasileiros do regime militar tenham adquirido um prestígio bem acima do dos seus colegas de governo. As figuras de Delfim Netto (1967-74) e Mário Henrique Simonsen (1974-79) são incontornáveis, em termos económicos mas também políticos, para quem pretenda fazer uma análise um pouco mais aprofundada de todo aquele período da História do Brasil.
Mais do que isso, mesmo durante a década de 80, o titular do cargo de ministro da Fazenda continuou a ser tido em imenso prestígio, muito embora os problemas que se lhes deparavam fossem muito mais complicados do que os dos seus antecessores: a mesma propensão de sempre da economia brasileira para a hiper-inflação, mas sem as taxas de crescimento económico do passado que a tornavam socialmente aceitável… De destacar a gestão discreta mas, apesar de tudo, eficaz de Ernane Galvêas (1980-85). Depois, foi o descalabro: a inflação anual brasileira em Fevereiro de 1990 cifrava-se em 2.700%...

É num quadro de grande expectativa, gerado pela eleição de Collor de Mello, que este toma posse (Março de 1990) e escolhe a primeira mulher no Brasil para ocupar a pasta da Fazenda: Zélia Cardoso de Mello. Contudo, ao contrário das iniciativas semelhantes no passado, o plano implementado pelo novo governo para controlar a inflação acabou ficando conhecido pelo nome do presidente: Plano Collor. O Plano acabou por se vir a revelar um fracasso (contida inicialmente, no final do ano a inflação voltará para os 1.200%...) mas é da ministra que este poste pretende falar.
É evidente que deu logo para perceber que, no mundo machão da política brasileira, a recepção a uma mulher num tão alto cargo não ia ser coisa fácil. Não foi, mas, por isso mesmo, à distância deste lado do Atlântico houve que dar desconto às bocas dos dois extremos que foram aparecendo acerca da personagem: desde a superficialidade inicial da existência de uma ministra brasileira (Que giro! E depois?...) até se chegar aos relatos do seu envolvimento com o seu colega da pasta da Justiça, Bernardo Cabral, vinte anos mais velho que ela (Ai é? E foram os primeiros ministros adúlteros no Brasil?...).

Independentemente disso, Zélia parecia ser uma negação a cativar simpatias. Tinha tanto de franca como de tonta: ao viajar para Portugal num avião da TAP – Air Portugal, não se esqueceu de dizer publicamente ao cá chegar, num assomo de frescura que lhe granjeou imensa popularidade, que tinha grandes dificuldades em entender o sotaque português e que, por exemplo, só conseguia compreender o que comandante do avião onde viajou dizia quando o repetia em inglês… Não há registos de jornalistas que se lhe tivessem dirigido em inglês depois disso, mas estava mesmo a pedi-las…

Lembrei-me de Zélia e renovei a minha opinião de tonta catapultada para um cargo bem acima das suas possibilidades ao ver um vídeo do You Tube, onde a jornalista Lilian Witte Fibe recorda, num programa com Jô Soares, uma antiga entrevista a Zélia, então ministra ou em vias de o ser, e em que esta dá mostras de não perceber rigorosamente nada do que está a falar enquanto tenta entalar a jornalista afirmando convictamente que já respondeu à pergunta. Enfim, a esta distância dá para perceber como Zélia não passava de mais uma figurante daquele mundo peculiar que Fernando Collor de Mello levou para Brasília…

Adenda – Uma mente mais maldosa fez-me notar como Zélia faz lembrar, fisicamente, Carolina Salgado…

NOTÍCIAS QUE CAUSAM IMPACTO

Já foram várias as vezes que vi recuperada uma daquelas notícias de impacto que começa sempre por variações ao título: Arábia Saudita importa areia. Depois segue-se a explicação: a areia saudita presta-se a certas utilizações (para a construção civil, o que já levou a Arábia Saudita a suspender as suas exportações de areia para o vizinho Bahrein…) mas não para outras, como a limpeza interna de oleodutos, onde se utiliza a injecção de um tipo de areia que tem de ser importada da Austrália ou da Holanda…

A notícia que a China virá a sentir carências de mão-de-obra daqui a dois anos é um outro exemplo de notícia que chama a atenção do leitor. Segue-se a explicação: o ritmo a que a mão-de-obra das regiões do interior da China tem sido liberto das actividades agrícolas tem sido muito mais lento do que as necessidades criadas pelo crescimento industrial nas suas zonas litorais, as maiores responsáveis pelo crescimento da economia chinesa a taxas próximas dos 10% anuais (9,8% é a previsão The Economist para 2007).

Um pouco distinto deste universo, mas também capaz de causar impacto, eu concebo que o desaparecimento de uma criança no Algarve seja uma notícia que possa despertar o interesse das audiências. Não compreendo é que explicações ulteriores serão capazes de a deixar em cartaz por uma semana a fio. Ainda ontem (Sábado) a SIC lhe reservava os dez minutos de abertura do Telejornal, com a repórter (Maria João Ruela) a concluir que durante aquele dia nada de especial acontecera…. e a deixar no ar, por responder, a pergunta seguinte, lógica: houve algum dia – com excepção do do desaparecimento - em que aconteceu efectivamente alguma coisa?

Ou será que artigos como este são explicação para o que aconteceu?

12 maio 2007

Não será por falta de oportunidade de ler bons artigos que poderemos desconhecer a complexidade do problema turco. Depois do de Jorge Almeida Fernandes no fim-de-semana passado no Público, neste é a vez de José Pacheco Pereira também se dedicar ao mesmo assunto, no mesmo jornal e com igual categoria.

Entretanto, continuo a aguardar (e com muita curiosidade) a conclusão do seu texto NUNCA É TARDE PARA APRENDER: UMA GUERRA DE SURPRESAS, publicado no seu blogue, onde parece pretender estabelecer um paralelo entre o recente relatório da comissão Winograd e o da comissão Agranat e as duas guerras que estiveram na origem da formação dessas duas comissões: a invasão do Líbano no Verão passado e a guerra do Yom Kippur de Outubro de 1973.

O PAÍS A QUE CHAMAM FYROM

Por anos a fio, e até hoje em alguns casos (a União Europeia é um deles), a obstinação grega obrigou que uma das antigas unidades da federação jugoslava fosse designada pelo acrónimo bizarro de FYROM, que corresponde, em inglês, a Former Yugoslav Republic Of Macedonia (Antiga República Jugoslava Da Macedónia). A objecção grega está associada ao que os gregos consideram a sua posse histórica do nome de Macedónia, desde a Antiguidade e do reino de Filipe e Alexandre. Aliás, imediatamente ao Sul da república que se separou da federação jugoslava, existem três distritos gregos usando esse nome: a Macedónia Central, a Macedónia Ocidental e a Macedónia Oriental e Trácia.

O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
Politicamente, Macedónia é uma designação cheia de potencial para se transformar numa tremenda trapalhada. Pode ser uma região histórica, sem significado actual, ou pode ser uma região geográfica, passível de ser organizada politicamente das maneiras mais diversas, pode também ser apenas um subgrupo cultural de entre os eslavos dos Balcãs, mas poderá ser uma verdadeira nação separada, será praticamente tudo o que dela quisermos fazer. Ao mesmo tempo, podem-se percorrer os países vizinhos (Sérvia, Bulgária e Grécia) e encontrar ali alguma unanimidade de opiniões em como não existem razões suficientemente válidas para que exista uma identidade macedónia própria que justifique a existência de um país independente.

A argumentação que sustenta a existência de um idioma macedónio autónomo é peça importante para a afirmação da existência de uma nacionalidade macedónia. Todos os idiomas eslavos dos Balcãs se assemelham e as várias formas faladas que se empregam na Macedónia tanto se distinguem entre si como das variantes empregues nas regiões adjacentes dos vizinhos da Sérvia e da Bulgária. Mas as referências usadas no macedónio literário aproximam-no daquelas que caracterizam o búlgaro, embora privilegiem os padrões do búlgaro empregue nas regiões ocidentais da Bulgária, enquanto o próprio búlgaro literário o faz com os padrões da Bulgária oriental, onde se situa Sófia, a capital.

A maioria dos macedónios são cristãos ortodoxos, organizados numa Igreja Ortodoxa Macedónia autónoma que foi recriada (ou criada, conforme as versões…) em 1958. Pôde-se notar o apoio discreto do governo federal jugoslavo na sua fundação e a Igreja Macedónia ainda hoje é proscrita na comunidade das Igrejas Ortodoxas. Existe uma minoria muçulmana, embora haja uma enorme certa complexidade em classificá-la: há os que são de cultura albanesa, outros são classificados como bósnios ou mesmo turcos e há ainda a categoria dos muçulmanos de cultura macedónia. Num exemplo flagrante como os resultados dos censos podem ser trabalhados, o último grupo cresceu de 1.600 pessoas no recenseamento de 1953 para 39.500 no de 1981…
Pelo que ficou escrito nos dois últimos parágrafos deste poste, é fácil perceber a importância da acção do governo jugoslavo do pós-guerra, chefiado por Tito, um croata, na promoção da constituição de uma nacionalidade macedónia distinta que enfraquecesse a Sérvia (a comunidade mais numerosa da Jugoslávia) e assim facilitasse o estabelecimento dos indispensáveis equilíbrios internos entre sérvios e croatas dentro da federação jugoslava. Foi uma manobra superiormente bem feita, porque, para além dessa componente de equilíbrio interno, a criação de uma nação macedónia neutralizou as aspirações da Bulgária que os queria considerar búlgaros além de que a escolha do nome se tornou uma potencial ameaça para a Grécia numa eventual disputa de um acesso para o mar…

Mas toda a beleza maquiavélica da criação da Macedónia assentava no pressuposto que ela continuaria a ser uma das unidades constitutivas de uma federação… Agora que se tornou independente, isolada do mar e rodeada de vizinhos hostis (Albânia, Sérvia, Bulgária e Grécia), a Macedónia é um verdadeiro problema político em potencial para a União Europeia, mais um par de botas balcânico, tipificado naquela proibição formal do país usar o seu próprio nome e na manutenção, ainda hoje, de um Quartel-General da NATO em Skopje, capital da Macedónia, não venha a acontecer qualquer coisa de inesperado…

DE GLOBALIZAÇÃO CALÇADA

Parece-me já ter passado o ponto alto dos pensadores arautos da irreversibilidade da globalização e de como ela era real. Dominante no discurso, como o da irreversibilidade das nacionalizações, constante da Constituição da República Portuguesa de 1976, que nos conduzia inexoráveis em direcção ao socialismo, a irreversibilidade da globalização já não é um slogan inovador que granjeie louros a quem o mencione.

Confesso que sempre me apeteceu mandar os que proferiam tal slogan a deixar-se de se armarem em visionários, e que olhassem para os próprios pés e, fazendo-se úteis, dessem uma pista por onde se poderia começar a harmonização dos números do calçado, cuja trapalhada pode ser apreciada numa enorme tabela de conversão entre medidas de calçado nos sistemas europeu, britânico, australiano, mexicano, norte-americano e canadiano, japonês, coreano e russo…

A necessidade de uma qualquer tabela complexa como aquela – e há muitas outras sobre muito outros assuntos… – são as provas do quão longe estamos da harmonização mundial e, consequentemente, quanto do discurso da globalização era apenas um slogan político em defesa do liberalismo económico e não uma verdadeira realidade… Veremos quanto tempo estará para durar.

11 maio 2007

a.G.A.*

No princípio, muito antes de Gabriel Alves, a locução em televisão dos jogos de futebol era algo diferente, o que até a transformava numa actividade lúdica, tal qual o próprio jogo em si havia sido originalmente concebido - para recrear. E os bordões de linguagem talvez fossem encarados de uma outra forma, e todos acolhessem com alguma bonomia a pertinácia com que Alves dos Santos descrevia sempre as idas dos extremos à linha de fundo para centrar a bola para a pequena área ou a sua famosíssima descrição em que o jogador chutava com o pé que estava mais à mão para aqueles remates instintivos à entrada da área.
Numa fase intermédia, já para a década de setenta, a coisa sofisticou-se e houve quem desse em procurar dar de si imagens distintivas, como foi o caso do famoso laço de Nuno Brás que, conjuntamente com o seu carregadíssimo sotaque tripeiro e o facciosismo desmesurado pelo FC Porto, o transformaram num ícone televisivo que as más línguas insinuam ter estado na base da figura do José Estebes de Hermann José. Como se depreende pelo uso do laço, Nuno Brás era um criativo nato, embora fosse frequentemente desastrado no processo de criação.

Vale a pena lembrar que, naquela altura, as equipas só podiam jogar com um número muito restrito de estrangeiros – 1 ou 2. E uma das formas consagradas na locução de os identificar nas equipas em que jogavam era referir-se (por exemplo) a Zico, o grande jogador brasileiro ao serviço da Udinese. No Mundial de 82, Nuno Brás, ali destacado para comentar jogos entre selecções, decide (à sua maneira) ser criativo e, completamente obtuso ao que eram as características pessoais de um jogador (a nacionalidade) e os seus compromissos profissionais (o clube), sai-se com a inovadora expressão Kenny Dalglish, o jogador do Liverpool ao serviço da Escócia… E, suponho, nem valia a pena explicar-lhe a diferença…

Mas isso eram lapsos que só pareciam acontecer aos repórteres desportivos de antanho. Mas o que hoje ouvi de manhã na rádio a um jornalista de informação, de muito provável licenciatura – e não da Independente… – e considerado mesmo como uma vedeta em ascensão nesse mundo, João Adelino Faria, é de uma (i)lógica em tudo semelhante à do bom do Nuno Brás. Assim, ainda a respeito das investigações da criança desaparecida no Algarve, o jornalista referiu-se ao aparecimento de divergências na condução das investigações entre (sic) a polícia portuguesa e as autoridades britânicas…
Mesmo sem o laçarote, o que parece escapar a João Adelino Faria é que, dado o local onde ocorreu o crime e havendo autoridades, são as portuguesas e, muito pelo contrário, é a polícia britânica que faz aqui figura de convidada e pelos vistos das que se comportam mal… Deverá ser um lapso, mas parecem-me ser daqueles lapsos que só acontecem a quem – como Nuno Brás – lhe falta o lastro para perceber certas evidências que deviam ser essenciais. Mas o que me parece mais deprimente em tudo isto nem sequer é da responsabilidade do jornalista: afinal, a falta de exigência subjacente à sua promoção ao estatuto de estrela em ascensão no jornalismo de informação português nem é culpa dele…É da nossa atitude colectiva em tomar por excelente o que de medíocre não passa...

* antes de Gabriel Alves…

10 maio 2007

TV NOSTALGIA – 28

Não será propriamente nostalgia o que sinto pela série Wonder Woman (1976), mas vale a pena mencioná-la pela impossibilidade que revelava para se obter a quadratura do círculo. Para quem desconhece esta figura, pode-se explicá-la como uma espécie de Super Homem, mas no feminino. O problema era que, ou bem que a Wonder Woman era uma mulher elegante e bonita ou então tinha um físico adaptado às proezas atléticas que o guião mandava a Super Heroína fazer, como dar saltos de 10 metros de altura, levantar e segurar automóveis em peso ou dar um enxerto de porrada nos vilões.
Pelas fotografias percebe-se logo como prevaleceu a primeira hipótese e ainda me lembro dos belíssimos olhos azuis de Lynda Carter (a actriz que interpretava Wonder Woman) mas as cenas de acção eram tão confrangedoramente mal conseguidas que até incomodavam o telespectador… Era como pôr a Barbie a fazer de Action Man…

À ESQUERDA: CIMA OU BAIXO

Há vários modos de poder estar à esquerda. Como inúmeros serão os tópicos que podem chamar a atenção de quem bloga. Mas é a forma do tratamento de um certo tema em certos postes (como o das reacções violentas à vitória eleitoral de Sarkozy), com a assunção de opiniões muito... próprias ou a veemência da condenação da violência por elas gerada, mesmo ao arrepio das doutrinas da área ideológica ou das conveniências tácticas argumentativas, que me esclarece para além de quem está mais ou menos à esquerda, quem estará mais por cima ou mais por baixo na minha consideração…

09 maio 2007

VIVA O QUÉBEC LIVRE!!!

Uma das melhores provas da sabedoria e agilidade política do imperialismo britânico vê-se na forma como conseguiu criar regimes de funcionamento excepcionais que acomodassem satisfatoriamente a existência dentro das fronteiras coloniais de minorias europeias, brancas e não anglo-saxónicas. Foi o caso dos africânderes da África do Sul e dos franceses do Canadá. Embora semeado de incidentes, a história da presença daqueles dois grupos no seio do império britânico é globalmente pacífica.

Por outro lado, o tempo é um poderoso elemento que contribui para o esquecimento de como as grandes figuras do passado que hoje reverenciamos também tiveram os seus momentos maus e, não fosse a tecnologia moderna que os preserva, alguns haveria que hoje teríamos por inacreditáveis. Charles de Gaulle é um desses monstros da história do Século XX que, quando se aprontava para dizer umas palavras de improviso à multidão era uma verdadeira caixinha de surpresas.

Em 1967, o líder francófono do governo estadual do Québec no Canadá, de seu nome improvável Daniel Johnson*, na sua luta contra o governo federal canadiano de Ottawa pela cessão de maior autonomia, fora a Paris pedir o apoio do grande Charles à causa da francofonia. E de Gaulle mostrou-se disponível para ajudar: a pretexto da grande exposição Expo 67, que iria ter lugar em Montreal, a capital do Québec e a maior cidade canadiana, o presidente francês faria uma visita oficial, que seria mais centrada no Québec do que em Ottawa, a pequena capital federal…

Valha a verdade que o governo federal canadiano, conhecendo de Gaulle, já estava à espera de sarilhos. Era e é perfeitamente possível lidar com os problemas da autonomia e das especificidades da comunidade francófona do Québec (onde ela é francamente maioritária - cerca de ¾) no quadro do Canadá federal. Uma outra coisa são as consequências do separatismo: um Québec independente dividiria o Canadá em duas metades descontínuas, com quatro pequenas províncias Atlânticas e as restantes obrigatoriamente orientadas para o Pacífico, como se depreende do mapa abaixo.
A 24 de Julho de 1967, à chegada a Montreal e mesmo já atrasado em relação ao programa, de Gaulle resolveu dizer umas palavrinhas a uma multidão de 10 a 15 mil pessoas que o aguardava. Eis o conteúdo aproximado do que disse, numa tradução minha, bastante livre (pode-se escutá-lo no vídeo do discurso):

Uma imensa emoção enche-me o coração ao ver diante de mim a cidade de Montreal… francesa!! Em nome do velho país, em nome da França, saúdo-vos! Saúdo-vos do fundo do meu coração!
Vou-vos confiar um segredo que não irão divulgar... Aqui, esta tarde e ao longo da viagem que fiz até aqui chegar, encontrei uma atmosfera parecida com a da Libertação**!! Além disso, ao longo da minha viagem, constatei o imenso esforço de progresso e desenvolvimento e, por consequência, de libertação, que vocês estão aqui a realizar e é em Montreal que é preciso que eu diga isso, porque se há no mundo uma cidade exemplar pelos seus feitos de modernidade é a vossa! Digo é a vossa e permito-me acrescentar: é a nossa!

Se vocês soubessem a confiança que a França, atenta depois de imensos sacrifícios, tem agora em vós, se soubessem a afeição que ela recomeça a sentir pelos franceses do Canadá e se soubessem a que ponto ela se sente obrigada a colaborar na vossa marcha para o progresso… É por isso que ela assinou com o governo do Québec, o do meu amigo Johnson, acordos para que os franceses de um e outro lado do Atlântico trabalhem em conjunto para um mesmo objectivo comum francês. E, para além disso, todos os esforços que a França, todos os dias um pouco mais, aqui irá desenvolver, ela própria sabe que lhos serão devolvidos, porque vós estais a constituir aqui elites, fábricas, empresas, laboratórios que provocarão a admiração de todos e que, um dia, tenho a certeza, permitir-vos-ão ajudar a França.

Eis o que vim dizer-vos esta tarde acrescentando que levo desta ocasião espantosa de Montreal uma recordação inesquecível! A França inteira sabe, vê, escuta o que aqui se passa e posso-vos dizer que beneficiará com isso!

Viva Montreal! Viva o Québec!... Viva o Québec… livre!!!
Viva o Canadá francês! E viva a França!!!***

A França e o Canadá eram aliados antigos, os dois países faziam parte da NATO, mas para o governo federal canadiano a visita presidencial de Charles de Gaulle terminou ali… Foi o episódio que mais se aproximou, compreendendo as civilidades e cortesias excessivas características da diplomacia, com a expulsão pura e simples pelo país anfitrião de um chefe de estado estrangeiro na situação de visitante oficial…

*O pai de Johnson era de origem irlandesa e a mãe de origem canadiana francófona. Era bilingue, mas a sua formação académica fizera-se em francês.
** Estava, obviamente, a referir-se à libertação de França em 1944.
*** Versão definitiva, revista por quem sabe, com os meus profundos agradecimentos.

08 maio 2007

A GUERRA-FRIA NA PERSPECTIVA DAS INSÍGNIAS DAS FORÇAS AÉREAS

No período da Guerra-Fria eram inúmeros os pormenores em que era notório como uma Cortina de Ferro descera sobre o continente, para usar as imortais palavras do discurso de Churchill. Em antecipação a uma confrontação e permitindo uma identificação mais rápida a que bloco militar pertenceriam as aeronaves militares, entre os países da NATO predominavam as insígnias em forma circular (acima, no sentido da leitura, a britânica, a italiana, a grega, a belga, a turca e a francesa), enquanto no Pacto de Varsóvia se preferia a forma em estrela (em baixo, as insígnias soviética, norte-coreana, romena, búlgara, jugoslava e húngara).
A Cortina caiu. A estrela jugoslava desapareceu com o país. E as Forças Aéreas da Roménia, Bulgária e Hungria mudaram de insígnias...

07 maio 2007

COISAS DA VIDA – TOMO 6

Uma das histórias do álbum Tranches de Vie – Tome 5, do desenhador Gerard Lauzier, (traduzido para português em 1987 como Coisas da Vida), é uma denúncia arrasadora feita num estilo de humor feroz da superficialidade do mundo do marketing e da publicidade – um indício que aquele é, possivelmente, um mundo que Lauzier deve conhecer bastante bem…
A história central consiste num industrial de província que se atreve a consultar uma agência parisiense para uma campanha publicitária para o seu produto: pantufas! Com toda a encenação de especialistas (no mau sentido…) que cheiram um pato, na agência alargam-lhe os horizontes para algo em grande: não pantufas, mas passem-se a chamá-las pantifas, e tornar-se-ão um fenómeno civilizacional!
A galeria de personagens (caricaturais) envolvidas na campanha está muito bem imaginada e, no fim, a campanha vinga, mau grado todas as vicissitudes e a venda das ditas pantifas dispara e elas tornam-se um fenómeno da moda por razões que os participantes honestamente desconhecem, embora reclamem, cada um para si, o exclusivo do sucesso comercial… Esta é a história, é de ficção, e já tem 20 anos…
Ontem, leio no jornal, uma notícia sobre o sucesso de umas socas coloridas designadas por crocs (na gravura acima). São um must e Matt Damon, Jack Nicholson, Al Pacino, Paris Hilton, Bem Afflek e Kate Winslet renderam-se a elas. As socas coloridas também fazem furor nos pés dos protagonistas da série Anatomia de Grey (citação da notícia). Tinha Lauzier na conta de um excelente autor de BD, mas afinal, tardiamente, descubro-lhe uma propensão para a ficção científica de antecipação…

MIKHAIL TUKHACHEVSKY, O MARECHAL SOVIÉTICO QUE PODIA TER SIDO

A União Soviética foi um país repleto de marechais, uma patente militar que só muito excepcionalmente é conferida noutros países. Num gesto supremo da mistura ridícula entre o político e o militar, alguns dos Marechais da União Soviética, chamaram-se Josef Estaline, Lavrenty Beria ou Leonid Brejnev… Mas, como um império continental, mobilizador de exércitos de milhões em situação de guerra, a União Soviética terá sido, conjuntamente com a Alemanha, uma das duas potências do Século XX onde a atribuição da patente ultrapassará o simbolismo de salão.

Os perfis e carreiras dos Marechais soviéticos, mesmo aqueles que mais se distinguiram durante a Segunda Guerra Mundial, são relativamente pouco conhecidos do grande público no Ocidente, para além dos nomes dos mais conhecidos: Zhukov, Koniev e Rokossvski. Mas, entre o círculo de iniciados conhecedores, o nome de Mikhail Tukhachevsky parece pairar como um mito de um militar brilhante que poderia ter tornado a Segunda Guerra Mundial muito diferente, não tivesse sido ele executado em 1937 durante as grandes purgas estalinistas.

Como todos os que podiam ter sido (que fazem um clube com sócios tão diversos como Sá Carneiro, Tancredo Neves ou James Dean), a avaliação da personalidade e importância histórica de Mikhail Tukhachevsky depende muito mais do perfil de quem a faz do que dos méritos que a sua carreira factualmente contém. A de Tukhachevsky começa em 1893, quando nasceu, o quarto de nove filhos, numa família de uma remota ascendência aristocrática e polaca (a atender no nome), mas cuja realidade económica era bem mais prosaica, atravessando dificuldades.

O que não quer dizer que a família Tukhachevsky fosse também intelectualmente pobre, antes pelo contrário. Se o gosto pela música servir de indicativo de riqueza, então saiba-se que o pai e um irmão mais novo tocavam piano, Mikhail e outro irmão, violino, e o seu irmão mais velho, violoncelo. Mas terão sido as dificuldades económicas a levá-lo, como tivera sempre um distinto percurso escolar, a seguir a carreira militar aos 18 anos. E três anos depois, graças à aplicação, estudo e também ao seu domínio de línguas (alemão, francês e inglês), tornava-se um jovem oficial brilhante, muito promissor.

A Primeira Guerra Mundial começou no ano da sua formação (1914) e Tukhachevsky foi feito prisioneiro pelos alemães em Fevereiro do ano seguinte. Passou os dois anos e meio seguintes num campo de prisioneiros de guerra em Ingolstadt, na Baviera, em companhia de muitos outros prisioneiros mas onde havia um outro destinado a tornar-se ainda mais famoso do que o russo: Charles de Gaulle. Uma daquelas coincidências da história que provavelmente nem é muito significativa mas que se presta a saborosas especulações.

Libertado e regressado à Rússia em Outubro de 1917, acabou por se apresentar a Trotsky em Moscovo nos começos de 1918, quando este andava à procura de quadros para o Exército Vermelho. Relativamente preservado do desgaste da própria guerra que acabara de terminar no Leste pela capitulação soviética, em Abril de 1918 o jovem (25 anos) Mikhail Tukhachevsky aderiu ao Partido Comunista, iniciando um processo de ascensão – por mérito próprio – dentro da hierarquia militar soviética que apenas os períodos revolucionários propiciam a gente tão jovem.

A maioria das operações da Guerra Civil russa (1917-22) foram um ensarilhado de improvisações, propícias ao relevo daquele tipo de chefes militares que se desenrascam. Tukhachevsky, que provavelmente apenas terá recebido formação clássica de comando até ao nível de companhia, revelou-se um criativo muito bem sucedido no comando de unidades de muito maior dimensão. Mas se o percurso de Tukhachevsky regista várias campanhas vitoriosas a seu crédito, também há que mencionar a estrondosa derrota na campanha da Polónia de 1920.
Existe uma corrente de opiniões, muito forte e presciente, que vê nessa campanha o prelúdio das divergências entre Estaline e Tukhachevsky, que culminarão na sua execução 17 anos depois. É rebuscado. Tukhachevsky era originalmente, um homem de Trotsky, mas considerado também como um duro (a quem se atribuiu o comando da repressão da sublevação dos marinheiros de Kronstadt, por exemplo) e reconhecido com uma qualidade técnica tal que se podia posicionar de forma neutral em relação às disputas internas que se sucederam à morte de Lenine.

Tornado adjunto de Mikhail Frunze (um político tornado militar) em 1924, Tukhachevsky tornou-se, depois da morte inesperada deste, seu substituto como Chefe do Estado-Maior General do Exército Vermelho (1925-28). Aí, encarregue da reestruturação da organização parece ter sido atingido o seu ponto de excelência enquanto criador de doutrina operacional. Apesar de tratado desfavoravelmente em relação ao círculo dos militares próximos de Estaline (Voroshilov, Budenny, duas mediocridades), Tukhachevsky desenvolveu um outro lóbi…

Devido à sua desenvoltura com línguas estrangeiras, Tukhachevsky tornou-se o candidato natural a representar o Exército Vermelho nos vários encontros com os homólogos europeus onde a sua personalidade causava um tremendo impacto entre os preconceituosos generais ocidentais que estavam à espera de encontrar antigos sargentos de cavalaria reciclados. Para mais, Tukhachevsky parecia ter ideias novas, distintas e interessantes quanto ao emprego táctico combinado de unidades de blindados ou de forças pára-quedistas, mais tarde designadas por Operações em Profundidade.

À medida que Tukhachevsky se tornava um sucesso no Ocidente (que visitou por várias vezes), o seu carisma no exterior crescia. Há apreciações elogiosas a seu respeito de grandes generais alemães (Erich Von Manstein), britânicos (Sir John Dill) ou franceses (Maurice Gamelin). Mas a inveja no interior da União Soviética também crescia. Mikhail Tukhachevsky foi (mais) uma das vítimas das purgas estalinistas que afectaram severamente o alto comando militar soviético. A severidade do abalo é de atribuir tanto aos que foram afastados como à selecção dos que os substituíram.

O desnorte provocado no Exército Vermelho por estas depurações pode ser sintetizado (e simplificado) no facto (pouco conhecido) de, em 22 de Junho de 1941, quando a Alemanha invadiu a União Soviética, esta última possuía o triplo dos blindados da primeira, mas não tinha adoptado nenhuma doutrina de emprego táctico dos mesmos que contrariasse a progressão das unidades blindadas alemãs (a famosa blitzkrieg), cujas tácticas já eram perfeitamente conhecidas dos soviéticos das campanhas da Polónia (Setembro de 1939) e da França (Maio e Junho de 1940).

Contudo, será exagerado arriscar – como é frequente ler – como a presença de Tukhachevsky teria alterado substancialmente o desenrolar do início da invasão. Por um lado porque o Alto Comando soviético possuía ainda generais muito competentes, embora menos populares no Ocidente (Boris Shaposhnikov, por exemplo), de que Estaline teve que se socorrer… Mas sobretudo porque a responsabilidade do que aconteceu foi sobretudo uma responsabilidade política de Estaline. Foi ele que nomeou os amigos, foi ele que não quis ouvir os avisos que o alertavam para uma invasão alemã.

Uma guerra, como dizia Clausewitz e nunca nos devemos esquecer, é um fenómeno político. A única forma que concebo em que Mikhail Tukhachevsky poderia ter alterado substancialmente os acontecimentos de 1941 a 1945, e mesmo antes disso, teria sido se Estaline tivesse tido razão nas suas suspeitas e o Exército Vermelho, com Tukhachevsky à cabeça, o tivesse derrubado e executado preemptivamente…

Nota: A segunda fotografia refere-se aos primeiros cinco Marechais da União Soviética (em 1935). Três deles foram executados durante as purgas. Os outros dois, protegidos de Estaline e de uma incompetência comprovada, foram afastados rapidamente de quaisquer aspectos da condução da guerra em 1941-42. Sentados, da esquerda para a direita: Mikhail Tukhachevsky (1893-1937, executado), Kliment Voroshilov (1881-1969), Alexander Yegorov (1883-1939, executado). De pé, na mesma ordem: Semyon Budenny (1883-1973) e Vasily Blyukher (1889-1938, executado).

06 maio 2007

OS BONS E AQUELES QUE CONSTA QUE SÃO BONS

O mundo também é feito das injustiças cometidas àqueles de quem as virtudes não são badaladas, o que quer dizer que, para uma maioria mais desatenta, essas virtudes nem existem. Já aqui o fiz e, por modesto que seja o badalo deste blogue, prezo-me de continuar a assinalar positivamente as análises de política internacional que Jorge Almeida Fernandes costuma assinar semanalmente no Público. Algumas são boas, outras excelentes, sobretudo são consistentemente bem feitas e informativas. A de hoje é sobre a Turquia.

Depois, a imaginação deixa-me a magicar sobre os critérios praticados pelas rádios e televisões quando seleccionam os especialistas que convidam a respeito de um determinado tópico. Admito que, neste caso, Jorge Almeida Fernandes possa ser tímido ou que saia mal em televisão, não me lembro de o ter visto ou ouvido, só o conheço do que escreve, mas a pergunta sobre os critérios permanece válida. É que ele há assuntos e convidados permanentes, especialmente em televisão, em que até apetece ironizar: será por causa do bom gosto das gravatas?...

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO, MAS EM LOURO

Não sei a quantos leitores o nome da cantora norte-americana Dusty Springfield pode dizer alguma coisa. E desconfio que a fotografia dela (acima) não servirá de grande ajuda na identificação de alguém que teve o seu pico de popularidade por volta de 1968. Mas o que gostaria de chamar a atenção era para a exuberância da armação do penteado dela que, já patente na fotografia de cima, ainda se torna mais evidente neste vídeo da cantora. Será excesso de imaginação minha ou toda aquela armação (à moda de 1968...) dá ao conjunto um formato a lembrar o crânio do Alien, o Oitavo Passageiro, mas em louro?


05 maio 2007

DO FACCIOSISMO IDEOLÓGICO (ACTUALIZADO)

A vida política é lixada, como muito bem assinala José Pacheco Pereira a propósito dos comentários criticando a conduta de Luís Marques Mendes a respeito do assunto da Câmara Municipal de Lisboa apenas porque sim. É o facciosismo inerente à disputa política que nem precisa de lógica nem de argumentação consequente para a produção das críticas: no caso de Marques Mendes, nada havendo a apontar à sua decisão, critica-se o seu atraso… E é sobre este facciosismo do dá e leva corriqueiro do quotidiano político que parecem pairar as (normalmente boas) análises daquele nosso analista político, também historiador.


Mas suponho que haja um outro tipo de facciosismo, de que o distanciado comentador parece ser vítima e que se costuma detectar doutra forma, pela omissão no tratamento de assuntos que colidem claramente com aquilo que foi opinado no passado. É que face à liberdade de cada um escrever sobre o que quer, existe a liberdade de cada outro poder interpretar a forma como o cada um exerce essa liberdade… E como se dá a circunstância de José Pacheco Pereira ter uma profusão tal de colaborações escritas (Público, Sábado, o próprio Abrupto) e faladas (Quadraturadocírculo, na SIC Notícias), a sua intervenção pública pode ser avaliada como uma verdadeira agenda, com as suas próprias inserções, distorções e omissões, da mesma forma como ele gosta, aliás, de apreciar na comunicação social.
E convido o leitor a uma visita aos postes do Verão passado do Abrupto e/ou a um esforço de memória recordando a profusão de artigos e comentários em revistas e jornais do autor daquele blogue sobre a guerra que se travava no sul do Líbano entre o Tsahal e o Hezbollah. E como as suas posições se manifestavam inequivocamente a favor de Israel, embora pelo trajecto tortuoso de criticar a benignidade com que a propaganda do Hezbollah passava na nossa comunicação social, o que, sendo verdade, era uma meia verdade de uma disputa que não tem nem nunca teve inocentes, como José Pacheco Pereira muito bem sabe. Ingénua foi a sua crença na propaganda israelita que o Tsahal não fazia mais estragos porque se estava a conter e não em dificuldades em desalojar o Hezbollah.

Se as suas opiniões eram tão inequívocas e assertivas em prol de Israel na altura e o assunto lhe parecia despertar assim tanto interesse imaginem a minha curiosidade sobre qual seria a sua reacção quando descubro que, por coincidência, José Pacheco Pereira parecia estar de visita em Israel precisamente na altura em que se tornou público o teor de um relatório de uma Comissão constituída para o efeito, que é fortemente condenatório sobre a forma como foram dirigidas política e militarmente a ofensiva contra o Hezbollah no Líbano. O que nem tem nada de novo, se recordarmos o que especialistas portugueses já tinham afirmado na altura, como foi o caso do General Loureiro dos Santos.

Mas, pelos vistos, nem mesmo a proximidade geográfica dos acontecimentos serviu agora de catalisador para uma reflexão sobre o que escrevera. Já no Verão, me apercebera que Pacheco Pereira franqueia por vezes francamente a fronteira entre aquilo sobre que opina e sobre aquilo de que percebe - de que a confusão que lhe ouvi entre uma companhia e um regimento de engenharia foi apenas um indício revelador… Tudo aquilo que escreveu se assemelha agora, substantivamente, a uma defesa à outrance* da posição política do Estado de Israel. Só que agora parece ter ficado comprovado que não era preciso gostar do Hezbollah para achar que a condução israelita daquela guerra estava a ser um disparate…

José Pacheco Pereira pode discordar das conclusões do relatório mas aí conviria que nos explicasse porquê. Contudo, na minha interpretação, este silêncio parece-me apontar para uma outra direcção... Mas ainda vai a tempo e ficará bem a José Pacheco Pereira reconhecer que todo o assunto mereceria uma reapreciação… Era ideologicamente muito menos faccioso... Era de historiador!

* Expressão francesa que se pode traduzir por a todo o transe e que classificava o tipo de atitude a assumir nas ofensivas pela doutrina militar francesa de 1871 a 1914. Também se emprega a expressão associada à defesa, mas em sentido irónico, quando esta vai para além de tudo o que é razoável…

ADENDA: Posteriormente à publicação deste poste, José Pacheco Pereira inseriu no Abrupto um poste que ainda não concluiu, onde creio que pretende estabelecer um paralelo entre a utilização política do recente Relatório Winograd e a de um outro Relatório (Agranat) publicado na sequência da Guerra do Yom Kippur de 1973. Para já, parece-me que a analogia da utilização política dos dois relatórios não se pode estender às condições estratégicas em que as duas guerras foram travadas e, consequentemente, ao conteúdo das críticas dos dois relatórios, como se poderia deduzir de uma leitura descuidada do que José Pacheco Pereira até agora escreveu. Mas fico à espera da suas conclusões e saúdo o facto de afinal me ter enganado, e de ele não ter andado distraído por Israel...

04 maio 2007

A CAÇADA

Quando foi editado, em 1983, A Caçada (Partie de Chasse, no original), além de um fenomenal livro de Banda Desenhada, era um portentoso documento de denúncia de como funcionavam as relações de poder dentro dos países do que se designava na altura por bloco socialista. Hoje, que o campo socialista se tornou uma memória, ficou apenas a qualidade artística do álbum e alguns ensinamentos preciosos contra as práticas dos regimes autocráticos, independentemente da beleza dos valores evocados.

A história passa-se naquela actualidade de 1983. Leonid Brezhnev morrera em 1982, fora substituído pelo jovem Yuri Andropov que, doente, viria a morrer em 1984, para ser substituído por outro jovem, também não muito saudável, Konstantin Tchernenko, que morreria por sua vez em 1985… Percebia-se também como a União Soviética e o seu bloco, para além desses azares de saúde na gerontocracia que a governava, parecia estar num impasse sério quanto às suas promessas: o socialismo não superara o capitalismo, fora derrotado por ele.
Uma outra coisa é confessar como não existia nenhuma expectativa que todo o sistema se desmoronasse uma meia dúzia de anos depois… As ditaduras têm períodos de duração imprevisível. Por exemplo, a portuguesa poderia ter desaparecido em eleições democráticas em 1945 e só caiu trinta anos depois disso e a norte-coreana parece aguentar-se como se estivesse à espera da prometida viagem de investigação sobre a sua natureza por parte de Bernardino Soares – a piada é batida mas há disparates que se dizem que não merecem contemplação*…

A personagem central de A Caçada é Vassili Tchevtchenko, um apparatchik russo dos serviços secretos, veterano bolchevique e membro do Politburo soviético, que organizou uma gigantesca caçada de Inverno em terras polacas. Entre os convidados conta-se um alemão oriental, um búlgaro, um checoslovaco, um húngaro, um polaco, um romeno, um ucraniano, todos membros destacados dos respectivos partidos nacionais, e Serguei Chavanidze, da Geórgia, a nova estrela em ascensão do Politburo soviético.
Fora de todo esse elenco pesado e criando uma identificação natural do leitor, dada a sua origem ocidental, encontra-se um jovem intérprete francês, militante comunista, que ali aparece nomeado para os acompanhar como tradutor por alguma daquelas razões misteriosas do socialismo científico… É através deste jovem francês, com quem os convidados conversam à vontade, que os leitores compreendem os laços do passado que os unem a Tchevtchenko, sobretudo nas alturas das crises dos respectivos países...

As excepções a essa rede de cumplicidades no elenco são o alemão oriental, Günther Schütz, especialista económico no seu país e Chavanidze, que parece ser uma espécie de delfim designado de Tchevtchenko. Sobre o primeiro retenho um dos diálogos mais ácidos e cruéis sobre aquele tipo de socialismo, sobre a economia teórica em geral e sobre como o propósito de qualquer político ambicioso não é o de resolver realmente os problemas das pessoas, mas sim o de parecer que eles foram resolvidos (prancha 37):
- Günther Schütz é uma das cabeças pensantes do COMECON**… Antes dele, não se sabia porque é que o nosso mercado comum funcionava tão mal… Agora já se sabe…
- E achas que funciona melhor?
- Não, mas o conhecimento não tem preço para regimes científicos como o nosso…

É muito tentador especular como a figura do georgiano Serguei Chavanidze da história pode ter sido inspirado pela mistura entre duas estrelas reais então em ascensão no PCUS: Mikhail Gorbachev e Eduard Shevardnadze. Mas é uma hipótese que terá tanto de saborosa quanto de improvável... O Chavanidze da ficção é morto por acidente ao terceiro dia, quando depois do javali e do alce, o programa era a caçada ao urso… E o atirador involuntário, obviamente, foi o infeliz intérprete francês ali presente porque era neutro…

A Caçada, de Enki Bilal e Pierre Christin. Recomendo a leitura para quem gosta do género. Mesmo esgotada a componente de denúncia do que era aquele socialismo, ainda resta o cinismo do poder que é intemporal e continua um manual útil de como funciona a política na realidade.

*Quem os profere ou é estúpido ou está a tratar quem o ouve por tal…
** Acrónimo de Conselho Para a Assistência Económica Mútua, organização económica fundada em 1949 a que aderiram todos os países europeus do bloco socialista.