08 março 2023

DUAS SEMANAS E MEIA DEPOIS, UMA REACÇÃO AO RETARDADOR

Um artigo da revista FLASH! desta tarde dá-nos conta da indignação do cançonetista Marco Paulo sobre uma referência acusatória que o comentador José Pacheco Pereira lhe fizera numa das suas crónicas semanais. Acima podemos ler o cabeçalho da notícia (aqui desenvolvida), a que acrescentei por baixo a passagem em causa, que se inseriu num artigo mais desenvolvido sobre os casos de pedofilia na igreja. A questão mais curiosa em tudo isto é que este último artigo já foi publicado há duas semanas e meia... Os mundos mediáticos em que evoluem Marco Paulo (Alô Marco Paulo) e José Pacheco Pereira (O Princípio da Incerteza) não se cruzam, não se tocam, nem se incomodam reciprocamente, e cria-se a suspeita de que terá sido preciso alguém ir expressamente junto de Marco Paulo para lhe provocar uma «reacção» que depois se tornasse nesta notícia.

O GOLPE DE ESTADO NA SÍRIA

8 de Março de 1963. Golpe de Estado na Síria. Não era surpresa porque naquele tempo uma apreciável percentagem  dos países muçulmanos do Próximo Oriente eram tutelados por regimes militares (laicos), casos do Egipto, Síria, Iraque ou Paquistão. E a mudança dos protagonistas políticos fazia-se através destes pronunciamentos militares, com maior ou menor derramamento de sangue. No caso concreto da Síria, um dos quatro países na primeira linha do combate contra Israel, houvera um golpe de Estado em Setembro de 1961 (18 meses antes), voltará a haver outro em Fevereiro de 1966 (35 meses depois). Mudanças onde, ao contrário da actualidade, a questão religiosa desempenhava uma função muito secundária.

O REFERENDO MALTÊS SOBRE A ADESÃO À UNIÃO EUROPEIA ATÉ FOI A SÉRIO

Republicação de 2018
Já não é a primeira vez em que, mais recentemente, tenho evocado aqui referendos realizados em Malta*. O da evocação de hoje teve lugar há precisamente 20 anos, a  8 de Março de 2003, e nele se decidia a vontade dos malteses em aderir ou não à União Europeia. Como se pode ler no mapa acima, a participação dos malteses foi elevada (91%) e a conclusão foi disputada, embora clara (53,6% a favor da adesão). Eu bem sei que Malta é um país pequeno das franjas da Europa a que não se presta grande atenção, mas, se evoco o referendo maltês, é para destacar como ele contrastou com os realizados naquele mesmo ano nos outros países que vieram a ser admitidos na União Europeia em 2004, onde se registaram grandes unanimidades, mas baixas participações, como se, nesses países, a adesão fosse apenas o fado que fora traçado pelas elites nacionais. Eram tempos diferentes, em que as opções pareciam poder ser apresentadas aos respectivos eleitorados como se de uma coreografia se tratasse e os desfechos estivessem garantidos de antemão. Tanto assim que, quase precisamente dois anos depois do referendo maltês, a 12 de Março de 2005, o primeiro-ministro português José Sócrates anunciava na sua tomada de posse, a realização do seu referendo para seguir a moda (abaixo). Azar o de Sócrates que, quando quis seguir a moda, a moda já estava a sair de moda...

* Espero que no caso maltês se continue a empregar o género neutro (em Malta) e, a bem de evitar a cacofonia, não se proceda a uma migração súbita para o género feminino (na Malta) como aconteceu recente e extemporaneamente com Chipre, nesse caso do neutro (em Chipre) para o género masculino (no Chipre).

07 março 2023

O SILÊNCIO RIBOMBANTE DE MARCELO A RESPEITO DA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DOS BISPOS

Quando se cristalizou a ideia que Marcelo é o homem do bombo mediático, pronto a pronunciar-se sobre tudo e mais um par de botas, venha a propósito ou não, o preço político que ele paga por essa conduta é o de tornar ribombantes os silêncios a respeito daqueles temas que, pela sua gravidade, se impõe que um presidente da República se pronuncie, como será o caso desta crise que acometeu a igreja católica portuguesa. Se, mesmo num presidente da República bisonho como Cavaco Silva, reagir seis dias depois dos acontecimentos já seria inaceitável, num tagarela como Marcelo Rebelo de Sousa é a admissão óbvia do quanto o tema o incomoda, o indício do quanto a sua posição poderá ser dissonante das opiniões desagradadas que se têm vindo maioritariamente a ouvir na comunicação social. Pela omissão de Marcelo até hoje (quando já se passaram quatro dias da conferência de imprensa dos bispos) e ainda não tendo dito nada, fica-nos a sensação... que já disse, não dizendo.

EPISÓDIO DE ESQUIZOFRENIA NO «PÚBLICO» DE HOJE

O Público tem uma capa onde o destaque vai para a apresentação feita ontem pelos ministros Medina e Galamba do relatório da TAP. O título que foi escolhido pelo responsável pela edição enquadra-se completamente nos objectivos governamentais: que o assunto seja esquecido. «Governo "vira a página" punindo cúpula da TAP». Lá dentro, na página 8, no editorial, quem o assina põe-lhe um título desmentindo completamente o da primeira página: «TAP não vai "virar a página"». Há quem possa tentar fazer passar isto por pluralismo de opinião, mas, assim, desta maneira tão escarrapachada, ele é mais desdobramento de personalidade, uma esquizofrenia que o leitor terá até dificuldade em compreender.

A GRÉCIA, ANTES DA MALTA DO JORNAL «OBSERVADOR» IMPLICAR COM ELA...

7 de Março de 1933. Na Grécia conseguiu-se a proeza de se realizar eleições legislativas no dia 5 de Março, desencadear-se um golpe de Estado no dia seguinte (6 de Março), encabeçado por um general Nikolaos Plastiras (1ª foto) com aqueles que não haviam ficado satisfeitos com o resultado eleitoral, e finalmente dar-se um contra-golpe militar clarificador a 7 de Março, encabeçado desta vez por um outro general, Alexandros Othonaios (2ª foto), promovido por aqueles que se dispunham a acatar o veredicto das urnas. Vigoraria na Grécia aquilo que, em Ciência Política, se poderá denominar por sistema misto: contam-se os votos, contam-se as espingardas, e só depois da validação desta última contagem é que se fica a saber se a contagem dos votos conta...

06 março 2023

PROVOCAÇÕES PARA QUE EU SEJA ACOMETIDO DE «UM MOMENTO 50 LIVROS»

A expressão «Momento 50 Livros» remete-nos para um episódio já com mais de dez anos, do Verão de 2012, quando o Expresso, num daqueles ataques de pedantismo institucional, se propôs elaborar mais uma das ene listas de livros «que toda a gente deve ler» (acima). Nessa altura, e neste mesmo blogue, acabei perguntando-me se, no futuro, viria a adquirir «um pretensiosismo idêntico ao da intenção de quem elabor(ou) estas listas, (ao qual) ripostarei simetricamente com uma lista de livros que, por sua vez, os sugestores (da altura) deve(ria)m ler». Acabou por ocorrer este fim de semana, o «momento 50 livros» provocado pela simplicidade medíocre como está a ser coberto o congresso que irá proceder à recondução excepcional de Xi Jinping à frente dos destinos da China. Os exemplos destes países onde o poder é monolítico e opaco (a Rússia é igual) são a demonstração de que o jornalismo pouco consegue fazer sem cumplicidades dos actores políticos. Sem essas cumplicidades uma cobertura eficaz destes eventos políticos torna-se mais exigente. E sem um conhecimento fundamentado sobre a história mais recente da China, as notícias a que podemos aceder pouco mais são do que retransmissões estilizadas da propaganda oficial, por falta de capacidade de separar o trigo do joio informativo. Abaixo, apresento 4 livros, por sinal todos do mesmo autor, que «todos os» jornalistas e opinadores sobre a China «devem ler» antes de se porem a falar sobre o assunto.
Dos 4 livros, o segundo será o melhor de todos, nomeadamente por tudo aquilo que revela, que era quase desconhecido até à data da sua publicação. Recebeu o prémio Samuel Jonhson de 2011. Contudo o terceiro livro será mais impressionante pela descrição de um devaneio colectivo num país que contava então com mais de 700 milhões de pessoas. E o livro menos bem conseguido será o quarto (tanto cronologicamente, como por ordem de saída), cobrindo o período depois da morte de Mao. Apesar disso, contém um dos ensinamentos práticos mais importantes: a de que as estatísticas na China não são minimamente fiáveis. Em 1983, o organismo chinês encarregue das estatísticas empregava 16.000 pessoas enquanto o seu congénere soviético da época empregava 220.000 (p.41). O padrão não se terá alterado de há 40 anos para cá e, para além disso, todos sabemos como os estatísticos dos países autoritários têm tendência a reportar dados que agradem às autoridades. Portanto, quaisquer números que sejam brandidos nestas ocasiões solenes pelos responsáveis chineses, são sempre para ser acolhidos com toda a circunspecção.

BORSCH À BORLA PELA MORTE DE STALINE

Há 70 anos, Staline acabara de morrer e nem todos se mostravam tristes, como este restaurante judeu de Nova Iorque, que fazia questão de oferecer borsch de graça aos seus clientes para celebrar o óbito. Borsch é uma tradicional sopa de beterraba, que é muito comum nas gastronomias do Leste da Europa. Há 70 anos era um pouco indistinto, quase um preciosismo, indicar a sua origem: ucraniana. Hoje, como consequência das mais recentes iniciativas daquele sucessor longínquo de Staline que dá pelo nome de Vladimir Putin, tornou-se importantíssimo precisar essa questão: todos tomámos consciência da diferença entre russos e ucranianos.

05 março 2023

A MORTE DE STALINE

Republicação
5 de Março de 1953. Morte de Staline. Como se podia ler no l'Humanité, o jornal do Partido Comunista Francês, tratava-se de uma ocasião de «LUTO PARA TODOS OS POVOS que exprimem, através do seu recolhimento, o seu imenso amor pel'O GRANDE STALINE». Passados 65 anos, e para lá do imenso amor que os povos lhe dedicavam já tudo terá sido dito sobre Staline e a sua morte. Tudo? Se calhar, não. Ainda o mês passado se estreou entre nós uma sátira política intitulada precisamente A Morte de Staline. É um filme britânico e por isso não tem aquela promoção de Hollywood que tudo abafa na concorrência (especialmente nesta época dos Óscares), mas em seu abono deve dizer-se que não pretende ser historicamente rigoroso (ao bom jeito da história soviética, em que uns anos as coisas tinham acontecido de uma maneira e depois mudava, fotografias e tudo), e que a sua exibição já foi devidamente proibida na Rússia. Sim, que os defensores da sociedade sem classes não conseguiram acabar com as classes na Rússia mas deixaram ali um legado para a História de uma tremenda falta de humor. Enfim, um filme para o qual faria imenso sentido enviar um punhado de convites ali para a Soeiro Pereira Gomes.

AS ELEIÇÕES QUE CONFIRMARAM HITLER NO PODER

Republicação
5 de Março de 1933. Há 90 anos realizavam-se na Alemanha as oitavas eleições (em treze anos) para a eleição de um novo parlamento (Reichstag). Mas desta vez fora diferente. O Partido Nacional Socialista (NSDAP) instalara-se no poder há pouco mais de um mês e esse facto já se fizera notar na forma como decorrera a campanha eleitoral. Adicionando tensão ao momento político, o próprio edifício berlinense onde decorriam os trabalhos parlamentares incendiara-se a uns meros seis dias do acto eleitoral (abaixo). Encontrara-se rapidamente o incendiário: um comunista holandês. Estas eleições, as últimas disputadas com um mínimo de liberdade na Alemanha antes dos nazis se apoderarem totalmente do poder, costumam ser apresentadas como um exemplo da volubilidade do eleitorado que, voluntaria, colectiva e obtusamente, sacrificou os seus direitos democráticos num momento crucial. É um comentário tão errado quanto costuma ser repetido. Na verdade e como se vê no gráfico acima, o NSDAP, apesar de ter alcançado 43,9% dos votos e de ter ganho as eleições, não conseguiu alcançar a maioria absoluta da representação no Reichstag (288 deputados em 647 - faltaram-lhe 36). (Faz lembrar o PàF em Outubro de 2015...). Só que Adolf Hitler (ao contrário de Pedro Passos Coelho) não se isolara politicamente e tinha interlocutores, e assim margem de manobra negocial, para alargar a sua base parlamentar de apoio para concretizar aquilo que pretendia fazer: foi com os 52 votos favoráveis do DNVP (acima, a amarelo) e, sobretudo, com os 73 do Centro Católico (Zentrum, a azul esverdeado), para além dos dos outros partidos mais pequenos que a Gesetz zur Behebung der Not von Volk und Reich foi aprovada e promulgada em duas semanas, a 20 de Março de 1933. Aquela que ficou conhecida por Lei de Concessão de Plenos Poderes, concedia a Adolf Hitler precisamente isso: plenos poderes. Claro que hoje é muito incomodativo recordar que foi um partido católico, então tido por moderado, que acabou por entregar legalmente o poder absoluto ao NSDAP e a Adolf Hitler. É possível (mesmo razoável) argumentar que, não fora assim, Adolf Hitler apossar-se-ia do poder ilegalmente mas isso não passará de especulação histórica e será por isso que o melhor que se faz nos dias que correm é esquecer o acontecimento, que raramente vejo referido (ao contrário das eleições e do incêndio). A CDU democrata-cristã continua a ser um dos grandes partidos alemães.

04 março 2023

O ESCRUTÍNIO DE UMA AUDIÊNCIA DESCOMPROMETIDA

Na cimeira dos G20 na Índia, vemos acima o ministro dos Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, a ser saudado com uma gargalhada desdenhosa da assistência quando tenta passar a ideia que terá sido a Ucrânia a começar a guerra em curso! Estes episódios, por muito que exponham o protagonista ao ridículo, não têm depois consequências de maior e são rapidamente esquecidas (para contrariar, recordem-se, por exemplo, o acolhimento dado às fanfarronadas de Donald Trump na assembleia geral da ONU em 2018, ou às mentiras do mesmo Lavrov em Munique, a respeito da invasão russa da Crimeia, proferidas em 2015). Estes acontecimentos, mostram-nos porém, pela raridade com que acontecem, como são «acolchoados» os ambientes em que evoluem estas altas figuras da política internacional, evitando-se que eles apareçam diante de audiências descomprometidas, audiências que depois podem reagir genuinamente aos disparates que proferem, como aqui aconteceu. É que, quando estas gargalhadas irrompem, não é porque se discorda de quem está a falar - é porque ele está a dizer uma aldrabice tão grande que as pessoas só se podem rir do disparate...

A (PRIMEIRA) TOMADA DE POSSE DE FRANKLIN D. ROOSEVELT

4 de Março de 1933. Tem lugar a cerimónia da tomada de posse do novo presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. As eleições que lhe haviam conferido a vitória - por sinal, esmagadora - haviam tido lugar a 8 de Novembro do ano anterior. E desde aí, durante quase quatro meses, os Estados Unidos haviam permanecido numa situação politicamente equívoca enquanto variados problemas se acumulavam. Se o presidente em exercício - Herbert H. Hoover - perdera toda a legitimidade ao ter sido clamorosamente derrotado nas urnas, o presidente eleito não dispunha de quaisquer mecanismos legais para intervir. Como se pode ler abaixo na edição de um jornal do próprio dia da tomada de posse, havia uma crise em quase todo o sistema bancário dos Estados Unidos, fora decretada uma moratória bancária em vários estados da União e a Bolsa de Nova Iorque fora obrigada a encerrar. Constatadas estas consequências nefastas de um tão extenso período de espera entre a realização das eleições e a tomada de posse do presidente eleito, esta foi a última vez em que a cerimónia teve lugar em 4 de Março do ano seguinte ao das eleições. A Constituição foi alterada e ela passou a realizar-se quase mês e meio antes, a 20 de Janeiro.

03 março 2023

UMA REAL MENTIRA REAL

3 de Março de 1973. Uma notícia do interior do jornal informa os leitores que a princesa Ana (de Inglaterra) desmentia que houvesse «qualquer romance de amor entre ela e o tenente do exército Mark Phillips». O desmentido fora proferido pela própria e as declarações haviam feito as primeiras páginas dos tablóides londrinos, de onde a informação saltara para a página 14 do Diário de Lisboa. Dali por pouco mais de oito meses, a 14 de Novembro, mesmo sem «qualquer romance de amor», os dois casavam-se com a pompa que a capa da revista francesa Paris Match abaixo sugere. Regressarei futuramente ao evento, já que se tratou do meu primeiro casamento do Século (quando eu acreditava na expressão...), mas não me lembro de, em ocasião alguma depois disto, algum órgão de comunicação social, cor-de-rosa, tablóide ou normal, ter cobrado esta mentira descarada à princesa.

FOI VOCÊ QUE NUNCA OUVIU FALAR DA «INICIATIVA MINDER»?

Originalmente publicado a 3 de Março de 2018, continua tão oportuno! Os tempos é que mudaram um bocado depois da pandemia, porque se nota que os colaboradores deixaram de ser tão colaborantes
3 de Março de 2013. Tinha lugar mais um dos referendos que se realizam com ignorada regularidade na Suíça. Este, porém, parecia muito mais engraçado do que a demasia. A iniciativa (denominada por extenso por «iniciativa popular contra as remunerações abusivas», mas se sintetizara para «iniciativa Minder» em atenção ao proponente que mais se expusera), nascera de uma reacção ultrajada da opinião pública suíça às cláusulas contratuais de uma data de executivos de topo de várias empresas suíças de destaque que, apesar das suas perdas colossais (UBS) ou até mesmo dos seus colapsos (Swissair), os protegiam financeiramente das consequências dos seus evidentes maus desempenhos. A vontade de alterar essa impunidade escandalosa, revestiu-se inicialmente de um abaixo assinado promovendo um referendo a uma alteração à Constituição suíça. O abaixo assinado foi subscrito por 118.583 pessoas, ultrapassando as 100.000 legalmente necessárias para que a proposta fosse submetida a referendo. O que aconteceu precisamente há cinco anos. A proposta para que as remunerações dos membros dos conselhos de administração das empresas suíças cotadas passasse a ser muito mais escrutinada ganhou com 67,9% dos votos. Geograficamente também saiu vencedora em todos os cantões (mapa acima). Pormenor curioso e indicativo de que nem sempre o dinheiro investido em campanhas é determinante para o desfecho das eleições: os apoiantes da proposta terão gasto 200 mil francos enquanto os seus oponentes terão despendido oito milhões de francos, ou seja quarenta vezes mais! E isto aconteceu na Suíça, país paradigma do capitalismo, sede da Nestlé e de tantas outras multinacionais. A proposta, que afinal apenas pretende reforçar o papel dos accionistas na negociação dos salários dos executivos de topo, foi incorporada na Constituição mas os executivos de topo das empresas, que continuam na prática a dominar os dois lados da mesa de negociações (é por isso que ganham o que querem...), já arranjaram formas de contornar a lei. Mas o que me parece maravilhoso foi a forma como depois não houve significativas ondas de choque da iniciativa, a comunicação social mal falou disso, tudo parece ter sido abafado, apesar de ter acontecido na Suíça. Tivesse sido uma proposta de Hugo Chávez lá na Venezuela e aí talvez tivéssemos ouvido falar dela... O que é engraçado é como este assunto tende a reaparecer em agenda, por muito que se perceba que, quem manda, o queira varrer para debaixo do tapete... Ainda a edição de hoje do Jornal de Notícias tem uma chamada de primeira página para o facto de que António Mexia ganha 52 vezes mais do que o empregado médio da EDP. Alguém está convencido que ele valha assim tanto mais que os outros... os colaboradores, como agora se diz?

02 março 2023

GREVES NA COMUNICAÇÃO SOCIAL E A COMUNICAÇÃO SOCIAL E AS GREVES

O destaque (positivo) vai para o facto de, ao contrário do que é habitual nestes casos, há um órgão de comunicação social onde vai ocorrer uma greve que dá notícia disso: a agência Lusa. (Ao contrário do que acontece com a TVI) E depois estou com curiosidade de ver qual será a visibilidade mediática que estas greves poderão vir a ter. É que, por exemplo, a greve dos oficiais de justiça começou cheia de força em Janeiro passado, mas, para perceber as consequências e como o impasse se instalou nos tribunais no final de Fevereiro, há que ir ler as notícias a A Voz de Trás-os-Montes...

AS «TERNURAS POLÍTICAS» DO JORNAL PÚBLICO: O BLOCO DE ESQUERDA É UM PELUCHE FOFINHO (3)

E ao terceiro dia Mariana Mortágua não ressuscita e sobe aos céus, como Jesus Cristo na Bíblia. Ela não padece, nem foi sepultada, antes pelo contrário nesta Páscoa prematura com retoques de ridículo de Carnaval. No Público dão-lhe uma entrevista para ela dar, não fossem os leitores terem-se esquecido desde ontem da sua candidatura à liderança do Bloco e da opinião simpática das amigas da redacção do jornal. Porque se torna uma saturação reportar a saturação, vou deixar de publicar entradas quotidianas a respeito do tema "qualidades, predicados e opiniões sábias" de Mariana Mortágua. Mais do que a despropositada parcialidade do Público, quem vem ao Herdeiro de Aécio com regularidade, já se terá apercebido do carácter massacrante de como essa parcialidade pró-Bloco e pró Mariana Mortágua é exibida. É infantil. É uma vergonha. E eu detesto quando os jornais insultam os leitores... Se amanhã não falarem outra vez da Mortágua a gente até estranha.

A ESTUPIDEZ É INTEMPORAL

A propósito da consagração do boato da ida de Joana Marques a tribunal, permitam-me esta prova, com 90 anos (2 de Março de 1933) de como os falsos boatos e a estupidez natural para que se propaguem podem ser intemporais. No caso, ficava-se a saber em Lisboa que corria no Rio de Janeiro (então capital do Brasil) a informação que António de Oliveira Salazar, o então presidente do Conselho português, era brasileiro de nascimento - de Minas Gerais, para ser mais preciso...

01 março 2023

"IMPRESSIONANTE": "A VIDA DAS PESSOAS NÃO ESTÁ MELHOR MAS O PAÍS ESTÁ MUITO MELHOR"

O que foi realmente "Impressionante" no anúncio auto-congratulatório de ontem de Fernando Medina (a respeito da redução da dívida pública) foi a propriedade de como ele poderia ter recuperado a famosa frase de Luís Montenegro de Fevereiro de 2014: "A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor". Agora o país estará melhor (há números), na altura em que Montenegro empregou a frase é que nem por isso (não havia...), mas as pessoas continuam a não dar por isso e assim estas proclamações soam a nada. Aliás, a questão estrutural por detrás desta coincidência de que um poderia ter roubado o slogan (infeliz) do outro, é a de dar a perceber que a Montenegro e aos seus, por detrás das bravatas de oposição de circunstância, lhe falta credibilidade em ser qualquer coisa distinta do que lá está.

AS «TERNURAS POLÍTICAS» DO JORNAL PÚBLICO: O BLOCO DE ESQUERDA É UM PELUCHE FOFINHO (2)

A este ritmo, e porque a cerimónia de transmissão de poderes no Bloco só está marcada para finais de Maio, exemplos desconchavados como este ou o de anteontem ou o de há quinze dias arriscam aparecer no Público como o pão-nosso-de-cada-dia. Perdoemos-lhes as ofensas deles, que uma delas é da opinadora de hoje agredir-nos a inteligência, com aquela pretensão de que ser «amiga da Mariana Mortágua» não lhe tolda a objectividade... Então não se está mesmo a ver?! Para um tratamento disparatado, mas equilibrado, porque é que o Público não convidou um leque de alguns opinadores que tivessem feito no ano passado por Luís Montenegro, enquanto se aguardava pelo congresso do PSD, o mesmo que estas agora escrevem sobre Mariana Mortágua? Não me digam que não havia patetas para isso também!

A DEMOLIÇÃO DO BAIRRO DO VELHO PORTO ("VIEUX PORT") DE MARSELHA

Em Marselha, o bairro do Velho Porto era, como as imagens acima documentam, um daqueles típicos bairros de cidade mediterrânica, de ruelas estreitas e de grande densidade populacional. Cosmopolita, era tida como um submundo que marginalizava os seus habitantes em relação ao resto da cidade.
Por decisão dos ocupantes alemães, entre 22 e 24 de Janeiro de 1943, toda a população do bairro foi desalojada - cerca de 30.000 pessoas. No processo foram também deportadas 1.600 pessoas, das quais metade eram judeus. Veja-se o contraste entre um documentário de época e outro actual...
Depois da expulsão de todos os habitantes, a partir de 1 de Março de 1943 (há precisamente 80 anos), começou então o processo de demolição de todo o bairro - cerca de 1.500 edifícios. A reconstrução só veio a ter lugar depois do fim da Guerra e só se veio a completar em 1960.