18 março 2020

AS PRIMEIRAS E ÚLTIMAS ELEIÇÕES LIVRES NA REPÚBLICA - DITA - DEMOCRÁTICA ALEMÃ

18 de Março de 1990. Realizam-se aquelas que serão as primeiras e últimas eleições verdadeiramente livres no território que formava a República - dita - Democrática Alemã. Foi uma vitória conservadora conforme noticiava o Diário de Lisboa do dia seguinte, embora houvesse um spin grosseiro na forma como era avaliada a prestação eleitoral do partido que sucedera aos comunistas do SED (que haviam sido o poder durante 40 anos). Em qualquer país e em quaisquer eleições, qualquer partido que está no poder e se apresenta a votos e depois recebe 16,3%, sofre uma tremenda derrota. Mas o Diário de Lisboa, fiel à reputação filo-comunista que criara depois do 25 de Abril, ainda tentava consolar os seus leitores de que aqueles haviam sido «bons resultados». Fábulas. 

17 março 2020

AS BOMBAS DAS NOTÍCIAS DE 17 DE MARÇO

17 de Março de 1940 e 17 de Março de 1945. Estas duas primeiras páginas do Diário de Lisboa, separadas por cinco anos precisos, podem dar-nos uma ideia da escalada dos meios aéreos empregues ao longo da Segunda Guerra Mundial. A operação é, essencialmente, a mesma: um ataque a uma importante base naval inimiga, levada a cabo pela aviação alemã contra os britânicos de Scapa Flow em 1940, e pela aviação americana contra os japoneses de Kobe em 1945. A grande diferença é que os catorze aviões da Luftwaffe de 1940 se haviam multiplicado por mais de vinte vezes (300) com os da USAAF, cinco anos depois. Isto para não falar da capacidade das aeronaves: os Ju-88 alemães de 1940 tinham capacidade para transportar até 1.900 kg de bombas; os B-29 americanos de 1945, 9.000 kg. O potencial de destruição deste último raid era cem vezes superior. (14 x 1.900 = 26,6 tons; 300 x 9.000 = 2.700 tons)

OS «BENEMÉRITOS»

Se há coisa que surge completamente a despropósito nestas ocasiões extremas, são estas operações de promoção e relações públicas, em que as empresas privadas de saúde se aproveitam da ocasião para, tomando a atitude que só se poderia esperar delas, fazer alarde de um gesto que elas teriam grande dificuldade em explicar-se, se o fizessem contrário. Neste exemplo acima, vale a pena adiantar que as letras pequeninas da notícia esclarecem o que está omisso nos títulos: claro que é o Estado que vai suportar os custos da disponibilidade dos hospitais privados.

Com pandemia, mas mesmo muito antes dela e invertendo o sentido do título da notícia acima também podemos escrever: os hospitais públicos têm de estar sempre disponíveis para receber os doentes que são transferidos dos hospitais privados. As razões para essas transferências não costumam ser muito abonatórias para os operadores privados de serviços de saúde, que, com uma frequência antipática, não se dispõem a suportar financeiramente a continuação dos tratamentos desses pacientes que têm de ser transferidos.

Às vezes ponho-me a imaginar o efeito promocional que não teria uma notícia de cabeçalho gordo num jornal a respeito de um paciente oncológico (em tratamento) que teve de ser transferido do hospital X (privado) para o hospital Y (público) porque a seguradora Z não se compromete a suportar o tratamento por não estar contemplado na apólice. Claro que estes acontecimentos não costumam ser noticiados porque há quem trabalhe no hospital X e na seguradora Z para evitar precisamente que isso aconteça. Seja. Mas agora, e atendendo à gravidade da hora e à falta de paciência para com hipocrisias, que esses profissionais estejam quietinhos.

UMA FOTOGRAFIA DE «JOVENS COLABORADORES» DA PENNSYLVANIA COAL COMPANY EM 1911

Na época em que a fotografia foi tirada não eram conhecidos por jovens colaboradores, mas sim por breaker boys, operários entre os oito e os doze anos que faziam a triagem e separavam as impurezas do carvão extraído, à saída da mina. O recurso a colaboradores tão jovens só foi abolido na década de 1920 e sobretudo devido à imposição de leis muito estritas proibindo o trabalho infantil. A Pennsylvania Coal Company cessou a sua actividade na primeira metade da década de 1970. A expressão colaborador, contudo, só veio a merecer repercussão no século XXI, substituindo empregado, funcionário ou trabalhador, enfatizando subtilmente o empenho de quem trabalha e subentendendo, a partir desse brio, um voluntarismo e uma consonância que diluísse a conflitualidade das duas partes na empresa: trabalhadores e patrões. É verdade que as duas partes querem ver a empresa a funcionar mas, a partir daí, e a começar pelas relações de poder que se formam para que a empresa esteja aberta, o co-interesse das partes é uma pura conversa de chacha. No seu tempo, mesmo putos como estes da foto acima estiveram envolvidos em várias greves das minas de carvão.

16 março 2020

QUAISQUER CENTO E TRINTA ANOS DE ATRASO...

16 de Março de 1995. O legislativo do estado americano do Mississippi (bandeira acima) ratifica a 13ª emenda à Constituição dos Estados Unidos. A emenda contempla a proibição oficial de toda a forma de escravatura em todo o território americano. A referida emenda fora aprovada pelas duas câmaras do Congresso federal em 1865 e entrara em vigor depois de 27 estados a terem aprovado em Dezembro desse mesmo ano, sete meses depois do fim da Guerra Civil. Porém, a aprovação dessa emenda não foi aprovada no legislativo do Mississippi quando ali foi apresentada em 5 de Dezembro de 1865. Porque deixara de ser importante (a emenda já adquirira o quórum de estados para se tornar em lei federal), a abolição formal da escravatura no Mississippi ficou para ratificar para uma data posterior. Uma espera que demorou cento e trinta anos. Para este arrastar de pés a respeito de um assunto que levou o país a travar uma guerra civil, não deverá ser indiferente o facto de o Mississippi ser, de entre todos os 50 estados da União, aquele onde é mais alta a proporção de habitantes com ascendência africana (37,3%). Um estado em que o convívio entre raças sempre foi difícil. No estado do Mississippi, tomando como referência as prioridades dos seus legisladores, só se renunciou expressamente à escravatura há 25 anos, ou ainda menos até, se tomarmos em conta alguns formalismos que ficaram por cumprir, e que arrastaram esta história até ao dia 7 de Fevereiro de 2013. Há sete anos, em pleno século XXI. 

OUTRAS VÍTIMAS DO CORONAVÍRUS

Muito se tem apontado as indústrias do turismo e da restauração como grandes vítimas da situação de emergência criada pelo coronavírus, mas os danos provocados à indústria da bola e actividades correlacionadas não lhes ficarão muito atrás. O facto das competições estarem suspensas e de não haver bolas a rolar sobre os relvados é um teste adicional à imaginação dos 3-diários-3 especializados que por cá se publicam. As edições de hoje de qualquer um deles (acima) equiparam-se, na secura de notícias, ao tradicional deserto dos meses de defeso. Na edição on-line de A Bola, por exemplo, pode adivinhar-se os leitores ávidos de saber qual foi o desfecho do jogo internacional Burkina Faso - Togo de ontem ou então com os seus corações a palpitarem descompassadamente na antevisão dos resultados da 3ª divisão alemã que se disputa esta tarde.

ZÉLIA E A APRESENTAÇÃO DO PLANO COLLOR

16 de Março de 1990. No dia anterior Fernando Collor de Mello tomara posse como presidente do Brasil, o primeiro presidente eleito por voto popular em 29 anos. E que trazia consigo um plano (que naturalmente ganhou o nome de Plano Collor), um plano económico e financeiro visando sobretudo o controlo da hiperinflação que se tornara a norma da economia brasileira: no ano anterior ao da posse de Collor (1989) a inflação no Brasil fora, em média, de 29% por mês(!). Mas a grande novidade do plano, era a identidade da pessoa encarregue de o implementar, uma economista de 36 anos chamada Zélia Cardoso de Mello, uma mudança de estilo radical para um Brasil onde muitos ainda sonhariam com o ministro da Fazenda providencial que iria disciplinar finalmente umas finanças estruturalmente indisciplináveis. Coisa que nem Delfim Netto, nem nenhum sucessor seu sob a ditadura militar, o conseguira. Esgotada o estilo durão, a ideia parecia ser a de que o género da ministra poderia deflectir uma boa parte das críticas, já que o que a nova ministra vinha apresentar aos brasileiros não era de molde a granjear grandes simpatias.
O Plano Collor, porque previa o congelamento dos depósitos bancários a partir de um determinado montante, recebeu automaticamente uma outra designação: a de confisco. A desmonetarização brusca da economia provocava imensos incómodos a uma população que não se mostrava nada disposta a passar por eles. A recepção mediática às medidas anunciadas por Zélia há trinta anos não foram nada suaves. E a sua condição feminina de nada terá servido afinal para dissuadir a dureza da forma como lhe pediam esclarecimentos. Aí, a habilidade da nova ministra à frente das câmaras veio a revelar-se um desastre total. Quando alguém tem algo de desagradável para transmitir e não consegue ser naturalmente simpática (era o caso...), pelo menos tem que se mostrar competente - os espectadores podem detestá-la, mas respeitam-na. Não foi isso que aconteceu. Zélia não conseguiu fazer passar em televisão a mínima mostra de empatia pelos incómodos que o seu plano causava. Pior, parecia pairar por cima dos detalhes dos aborrecimentos que o congelamento dos depósitos do plano causava. Foi um fiasco e não apenas do ponto de vista da comunicação.
Ao Plano Collor veio a suceder-se o Plano Collor II em finais de Janeiro de 1991, dando um sinal de que nem ao menos os objectivos económicos e financeiros do plano inicial estavam a ser alcançados. E mais três meses depois, em Maio de 1991, o segundo plano era substituído, conjuntamente com a ministra da Fazenda, que passara pela pasta meteoricamente por quatorze meses. Mas Zélia Cardoso de Mello deixou, da sua passagem pela política, um rasto de antipatia que o tempo demora a apagar. Este último vídeo, em que fazem troça de si, é de programa transmitido em 2005, ou seja 15 anos depois das explicações muito mal recebidas a respeito do plano de que hoje se assinala o 30º aniversário.

15 março 2020

O PRÍNCIPE, «UM PRIMO DO KAISER»

A edição de 15 de Março de 1930 do Diário de Lisboa dava um moderado destaque à chegada a Lisboa, vindo de um navio da América, o Vulcânia, do «príncipe Frederico Leopoldo da Prússia», «um primo do Kaiser», acompanhado do «barão Fritz Cerini», um criado e um «chauffeur». Haviam-se alojado no Avenida Palace. Era um bonito apontamento do nacional parolismo, que acolhia como importantes quem não tinha importância alguma. Não apenas o próprio Kaiser Guilherme II havia sido deposto em 1918, como este seu primo era um primo bem afastado, pertencente a um dos ramos júniores da casa real prussiana, que só ia entroncar no ramo principal na pessoa do rei Frederico Guilherme III da Prússia, que morrera em 1840, noventa anos antes da data da notícia*... Mais do que isso, sendo o mais novo de quatro filhos e aos 34 anos, o príncipe tornara-se num comerciante de arte de uma reputação muito controversa: ainda nos tempos da monarquia houvera um processo para o interditar, por andar a vender clandestinamente antiguidades pertencentes à família, e o regime do III Reich também não o apreciará particularmente: em 1940 condená-lo-á a uma pesada multa e chegará a prendê-lo no campo de concentração de Dachau em 1944. Também não contribui para a sua reputação, se considerarmos a moral daquela época, que o barão Cerrini (e não Cerini como o jornal escreve) parecesse ser algo mais do que apenas secretário de Frederico Leopoldo... - ele foi também multado em 1940 e acompanhou-o em Dachau. Aparentemente, à imprensa nacional faltava-lhe a experiência para saber distinguir, nestes casos, o trigo do joio, e embasbacava-se por bem pouco.

* A Frederico Guilherme III sucedera o filho, Frederico Guilherme IV, depois o irmão Guilherme I, depois o filho Frederico III, depois o filho Guilherme II.

Por curiosidade, chamo a atenção que a notícia ao lado da do príncipe alerta para os perigos de se contrair psitacose entre aqueles que convivessem com muita frequência com papagaios e catatuas. (Cautela com os papagaios e principalmente com as catatuas!) Felizmente hoje pode assistir-se aos programas de Marques Mendes ao Domingo ou ao telejornal de Sousa Tavares na Segunda-Feira ou ainda aos contínuos e concorrentes painéis televisivos para a discussão da(s)  bola arbitragens, e não corremos quaisquer riscos de saúde.  

14 março 2020

A SEGUNDA FASE DO PLEBISCITO PARA A DEFINIÇÃO DA FRONTEIRA DA ALEMANHA COM A DINAMARCA

14 de Março de 1920. Cumprindo o que ficara acordado pelas cláusulas do Tratado de Versalhes, tem lugar a segunda fase do plebiscito em que se definirá, por voto popular, o traçado da única fronteira norte da Alemanha, aquela que ela faz com a Dinamarca, numa região denominada Schleswig. O acto eleitoral é digno de nota porque ele decorre quando, simultaneamente, em Berlim, está em curso uma tentativa de golpe de Estado, como ontem demos nota neste blogue. Mas a protecção de unidades militares francesas, que haviam sido destacadas para a região, permitiu que a votação decorresse sem incidentes de maior. Como se perceberá pela leitura do mapa acima, nas regiões setentrionais do Schleswig venceu a opção dinamarquesa (em azul), mau grado as concentrações urbanas pró-alemãs (a vermelho). Aquela que no mapa acima aparece denominada por Zona I passou a ser dinamarquesa; a Zona II permanecerá alemã e reunir-se-á a região adjacente do Holstein para formar o actual estado federal do Schleswig-Holstein. O traçado da fronteira é o da actualidade.

POR QUE VALORES RELATIVOS SÃO TOMADOS HOJE EM DIA O CAPITAL E O TRABALHO?

Recentemente enviei um pequeno donativo para a wikipedia. Fiquei surpreendido quando o envio foi saudado com a mensagem acima e, naquela linguagem estilizada, empolada e despersonalizada de mensagem automática, o óbolo é agradecido e aparece mesmo elevado à condição de última Coca-Cola do deserto. Fiquei surpreendido porque antes deste gesto eu já contribuíra para as páginas da mega-publicação com dezenas de intervenções em que criara, adicionara, corrigira e anotara páginas e páginas de tópicos que lá constam. Sem quaisquer agradecimentos, muito menos as mesuras automatizadas da redacção acima. Ou seja, enquanto contribuí para a wikipedia com trabalho, como colaborador, ninguém me prestou grande atenção. Mas quando o fiz com capital, como doador, são os exageros que se podem apreciar acima. Parece-me muito simbólico dos valores relativos por que são avaliados o capital e o trabalho nos dias que correm.

13 março 2020

OS DONOS DO «EXOESQUELETO» DE PAULO PORTAS

Este recente lampejo fugaz de Paulo Portas, recorrendo pela enésima vez a um dos seus característicos soundbites, para além de ter passado, mais uma vez, desapercebido, serve apenas para dar destaque a algo que se tornou evidente, embora nem tenha sido importante andar a exprimi-lo: que, quando despojado do exoesqueleto promocional, aquele que envergou durante as últimas décadas (mas que perdeu quando saiu do governo), aquilo que Paulo Portas tem para dizer não tem qualquer ressonância. A comprová-lo, o oblívio mediático a que tem sido votada a sua aparição semanal na TVI. Até 2015 havia a imagem de que Paulo Portas era importante, de uma importância autónoma, que só a si se devia. Engano. Importantes são os gajos que manipularam o exoesqueleto de Portas, que, por sinal, nem se sabe bem quem são.

O «PUTSCH» DE KAPP

13 de Março de 1920. Este senhor chama-se Wolfgang Kapp (1858-1922) e emprestou o seu nome a um improbabilíssimo Golpe de Estado ocorrido há precisamente cem anos em Berlim. Uma unidade paramilitar de extrema direita que fora até então empregue pelo governo recusou-se a acatar a ordem do ministro da Defesa de então para se dissolver. Mas, mais do que a insubordinação, os comandos da unidade, com cerca de 6.000 homens, resolveram mesmo depor o governo em Berlim. Ousadia que foi facilmente concretizada porque os comandantes das unidades regulares da guarnição de Berlim se recusaram a defender o governo legítimo, que teve de abandonar a capital, refugiando-se primeiro em Dresden e posteriormente em Estugarda. Mas os protagonistas do novo poder depressa se tiveram de confrontar com as suas dificuldades, pois o governo social-democrata em fuga convocara uma greve geral que foi acatada no dia seguinte por uma significativa maioria da população berlinense e das outras grandes cidades alemãs. A capital ficou sem comunicações, água, gás e electricidade e o novo governo viu-se sem condições de conseguir normalizar a situação. Houvera uma prova de força militar por parte da direita política, que fora respondida com uma prova de força laboral da esquerda política. O impasse durou quatro dias até ao governo revolucionário encabeçado por Wolfgang Kapp colapsar e o governo legítimo reatar as suas funções, depois de algumas concessões. Uma delas a substituição do ministro da Defesa. Costumo evocar aqui episódios deste género para vincar que era assim a Alemanha de há cem anos. O episódio é contado num dos capítulos do livro abaixo.

12 março 2020

UMA MAGNA QUESTÃO POLÍTICA: QUANTO SE GASTA E EM QUE RÚBRICAS SE GASTARAM OS RECURSOS PARA DEFRONTAR AS AMEAÇAS DO FUTURO?

Durante os últimos vinte a vinte cinco anos a atitude dos Estados Unidos e dos países europeus, nomeadamente os da Europa ocidental, tem vindo a divergir quanto à importância atribuída à questão da Defesa. Costuma simplificar-se o assunto a uma questão de quanto se gasta: os Estados Unidos gastam muito mais, e consideram que os seus parceiros da NATO gastam de menos. Trump (acima) tornou-se apenas a exibição em grosseiro dessa atitude. Na verdade, o problema é muito mais complexo e é muito mais do que o que resulta da questão das prioridades dos orçamentos de cada um dos países membros da NATO. Os países europeus preferem gastar mesmo o pouco que gastam em programas de equipamento que alimentem as suas próprias indústrias europeias de armamento. E com a NATO transformada numa organização que esticou geografica e desmesuradamente com os seus progressivos alargamentos, há membros que só se empenham em função das suas próprias prioridades regionais. O presidente Erdogan da Turquia (abaixo) notabilizou-se por fazer precisamente isso com a Síria e por sair das reuniões da organização irritado por ter estado a falar sozinho. Como Aliança, a NATO já teve dias muito melhores, e a culpa não se deverá a Donald Trump.
O que o actual ocupante da Casa Branca trouxe à cena mundial foi um apport de relações públicas que tem vindo a contribuir para que essas relações se azedem. Ou, melhor, para que as respectivas opiniões públicas se aperceberem mais facilmente do azedume. Como aquele que acabou de ser expresso ontem no discurso proferido por Donald Trump. Um título como «Trump suspende viagens da Europa para os EUA durante 30 dias» afigura-se-me uma boa síntese do seu discurso. E, como já nos acostumámos desta administração, trata-se de uma decisão política. Por um lado porque nada de equivalente foi decidido para os aliados americanos do Pacífico, como serão os casos da Coreia do Sul, do Japão e da Austrália, também eles a braços com o surto. E por outro lado, porque o critério para afectar as viagens dos países aliados europeus parece ter sido cuidadosamente escolhido para que o Reino Unido fosse excluído*, ele que, por sinal, é um dos países mais abrangidos pelo surto. Isto não é unilateralismo, isto é mera sacanice política. Donald Trump está à brocha e está (mais uma vez) à procura de arranjar bodes expiatórios no exterior.
A ironia é que Donald Trump é apenas o último de uma cadeia de culpados que erigiu uma sociedade que dedicou muito mais atenção à Defesa do que à Solidariedade e Saúde Pública. Até aqui há alguns meses, os Estados Unidos apareciam a falar de cátedra aos seus parceiros, porque estes não dedicavam os recursos que eles achavam suficientes à primeira daquelas prioridades. Agora, que parece que todos iremos penar com a  pandemia do covid-19, os Estados Unidos terão perdido essas superioridades morais de que se costumavam arrogar. O secretário (ministro) da Saúde norte-americano, Alex Azar, confessou outro dia à CNN que as autoridades não fazem ideia de quantas pessoas já serão sido testadas ao vírus, porque os testes realizados pelas instituições privadas lhes escapam. As instituições privadas, aliás, parecem ser um dos busílis do Problema, nomeadamente as Seguradoras, que se mostram cada vez mais evasivas a encaixar os prejuízos do que aí vem, o que está a obrigar o vice-presidente Mike Pence - encarregue da crise - a proclamações solenes garantindo a cobertura dos testes ao covid-19, garantias que não se vêem em mais nenhum outro país desenvolvido. E há quem pergunte: o que acontecerá com os 27 milhões de americanos que não possuem qualquer cobertura de saúde?... Numa aparição hoje naquele mesmo canal de televisão (CNN), o mesmo Mike Pence fez uma triste figura de si próprio ao mostrar não saber dar resposta satisfatória ao número escassíssimo de testes apresentados pelas estatísticas oficiais (abaixo). Ou seja: Azar não sabia e Pence continua a não fazer a mínima ideia.
Tudo isto está a acontecer numa América onde a questão da eficácia dos cuidados de Saúde Pública sempre foi um dos seus principais calcanhares de Aquiles. Tanto é assim, que um dos actuais candidatos presidenciais - Bernie Sanders - transformou o assunto num dos tópicos da sua campanha. Deficiência essa que me parece que tornará a situação da pandemia presente muito mais assustadora para os americanos: trata-se de uma crise que é dirigida por incompetentes em que, ainda por cima, os meios parecem deficientes. E o facto de Donald Trump ser quem é, traz um gosto especial ao convite para que, agora, os americanos accionem todo o seu estado da arte do dispositivo de defesa, os seus onze porta-aviões a energia nuclear, com os novíssimos caças F-35 (a 100 milhões a unidade) para combater o vírus! A última ironia desta cadeia de ironias é constatar que os países se preparam para o que estão à espera, mas depois confrontam-se com o que não estão à espera. Se os Estados Unidos tivessem redireccionado algum do dinheiro que alocaram à Defesa para a Saúde Pública, provavelmente agora estariam muito mais apetrechados para enfrentar a pandemia.

* A revogação da excepção, apenas dois dias depois, veio a confirmar o seu carácter político, que não se pôde sustentar perante a seriedade sanitária das medidas a adoptar. Donald Trump brinca com estas coisas até alguém ter de o convencer que o assunto é demasiado sério para brincadeiras. 

A MARCHA DO SAL DE GANDHI

12 de Março de 1930. Gandhi inicia a sua acção de protesto que veio a ficar conhecida como a Marcha do Sal. E no dia seguinte, o assunto era notícia no Diário de Lisboa. Aquela edição do jornal português dificilmente dedicaria vinte linhas a notícias respeitantes a acontecimentos nas suas próprias colónias e no, entanto, lá estava esta, a acontecer na colónia do lado. A verdade é que todas estas acções de protesto só se tornam importantes caso se tornem publicitadas. Gandhi costuma ser muito cumprimentado por muitas outras qualidades, mas raramente se vê mencionada a sua capacidade ímpar para se promover e para promover aquilo que fazia.
A causa do nacionalismo indiano tinha uma notoriedade antes de ele se tornar o seu protagonista, e passou a ter uma outra, quando Gandhi passou a encabeçar o movimento. E as imagens que vemos abaixo, vale a pena recordar terem sido colhidas numa época em que o jornalismo filmado estava na infância, não foram recolhidas por indianos. Só na aparência das imagens, é que a sociedade que era retratada era atrasadíssima, a cobertura noticiosa da contestação ao poder britânico era do que mais avançado havia nesta época.

11 março 2020

O BANQUEIRO

Não se pode dizer que a notícia da morte de José Oliveira e Costa tenha sido acompanhada de evidentes manifestações de pesar. Como o deixaram expresso alguns jornais, foi um banqueiro que foi condenado a 15 anos de prisão e que acabou por não cumprir nem um só dia de prisão da pena a que fora condenado. Quanto à reputação de que gozam os banqueiros em Portugal, o falecido ombreia com Dias Loureiro e com os Espíritos Santos (aquelas escutas!) na responsabilidade pelo seu arrasamento. Hoje qualquer banqueiro é suspeito até prova em contrário. Quanto à eficácia da justiça em Portugal, o exemplo de Oliveira e Costa demonstrou que não é preciso ser-se presidente de clube de futebol para se gozar de uma imunidade prática às suas sanções. Mas a constatação de que os banqueiros podem ser pessoas muito chãs e banais, escroques mas estúpidos, é algo que de há muito era sabido, como se comprova por esta passagem da série política Yes, Minister, já com quase quarenta anos (1981), e que aqui aproveito para publicar em alusão ao antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, ontem falecido. O episódio é um dos iniciais, intitula-se «Qualidade de Vida», uma expressão então muito na moda (nós tivemos por cá um ministério assim designado) e o enredo assenta no facto de que um banco da city londrina quer ampliar o seu arranha-céus com mais seis andares, numa altura em que é politicamente conveniente mostrar preocupação com o desfiguramento da paisagem. Sir Desmond Glazebrook preside a esse banco. E Sir Humphrey Appleby dispensa apresentação.

Sir Humphrey Appleby: - Não leu o Financial Times desta manhã?
Sir Desmond Glazebrook: - Nunca o leio.
HÁ – Bom, sendo um banqueiro, você não devia ler o Financial Times?
BG – Não percebo o que está lá escrito. Vem cheio de teorias económicas.
HÁ – Então porque é que o compra?
BG – Oh, já sabe, é como se fizesse parte do uniforme. Demorei para aí uns trinta anos a tentar perceber as teorias económicas de Keynes e quando achei que conseguira, as pessoas começaram a engraçar com estas novas teorias monetaristas, como aquele livro do «Eu quero ser Livre» do Milton Schulman... (nota: na verdade Liberdade para Escolher)
HA – Milton Friedman...
BG – Porque é que eles têm de se chamar todos Milton? Eu cá tinha-me ficado pelo Milton Keynes.
HÁ - ...Maynard Keynes.
BG – Tenho a certeza que há um Milton Keynes qualquer...
HÁ – Pois. Há... mas... Deixe lá. Sente-se, se faz favor. Portanto não chegou a ler o discurso do ministro à Associação de Arquitectos ontem à noite em que ele atacava os arranha-céus e que foi muito bem recebido.
BG – Mas o nosso não é um arranha-céus!
HÁ – Quantos andares tem?
BG – Trinta e oito. Ou melhor... quarenta e quatro com os seis adicionais que queremos construir.
HÁ – É que ele disse que o máximo que devia ser permitido era... oito.
BG – Mas você não pode dar a volta a assunto? Uma coisa progressiva: oito, doze, dezoito,... por aí acima. Afinal, é a sua função, não é, tratar dessas coisas?
HÁ – É. Mas as coisas agora estão difíceis por causa destes manifestos ambientalistas.
(...)
A cena prossegue. Para aqueles que forem mais duros de ouvido e que se sintam mais à vontade com o inglês escrito, a cena aparece descrita abaixo, na versão em livro da série.
Numa fase posterior, esta mesma personagem de Sir Desmond Glazebrook, o banqueiro ignorante e estúpido, há-de reaparecer, e acabar sendo nomeada para presidir ao Banco de Inglaterra, precisamente por não perceber nada de finanças. Constate-se que este último aspecto da vida política tornou-se muito mais exigente nestes últimos quarenta anos: Mário Centeno, que anda a namorar o cargo equivalente cá em Portugal, sabe decerto quem foi Milton Friedman...

COMO AQUELAS TRADICIONAIS ANEDOTAS DE OCASIÃO...

...que sempre apareciam para distender com humor os momentos mais tensos. O covid-19 é como o esparguete: foi originalmente inventado pelos chineses, mas são os italianos que se encarregam de o popularizar pela Europa.

A DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA DO PARLAMENTO LITUANO E OUTRAS COISAS QUE PODEM ACONTECER A UM DOMINGO


11 de Março de 1990 foi um Domingo. Isso não impediu que na Lituânia, o parlamento recém eleito proclamasse a independência da União Soviética e que no Chile tomasse posse Patrício Aylwin, o primeiro presidente popularmente eleito, depois de uma ditadura militar que durou dezasseis anos e meio.

10 março 2020

OPERAÇÃO «MEETINGHOUSE»

10 de Março de 1945. A Operação Meetinghouse que acima aparece noticiada pelo Diário de Lisboa foi um ataque aéreo nocturno protagonizado por 325 bombardeiros B-29 norte-americanos sobre Tóquio, onde lançaram mais de 1.500 toneladas de bombas incendiárias. Excepcionalmente, o exagero propagandístico do título (o maior ataque aéreo...) virá a revelar-se profeticamente acertado. Não virá a acontecer nenhum outro bombardeamento tão mortífero naquela guerra, mesmo levando em conta os bombardeamentos atómicos em Hiroxima e Nagasáqui cinco meses depois deste. Estima-se que os incêndios desencadeados pelo ataque terão provocado entre 90 e 100 mil mortos, destruído mais de um quarto de milhão de habitações e deixado um milhão de pessoas sem casa. As imagens aéreas da cidade antes e depois de 10 de Março são tão ou até mesmo mais impressionantes que as de Hiroxima, muito embora se reconheça que estão despojadas do carácter simbólico do emprego de uma nova arma.

09 março 2020

A GRANDE MENTIRA: «ESTÃO A FALAR DE NÓS NO PRAVDA»

O quadro data de 1951, o seu autor é um semi desconhecido Alexei Vasilev, e deram-lhe o título que aparece acima: «Estão a falar de nós no Pravda». É óbvio que não se está diante de uma obra prima. O pintor é competente e o conjunto do quadro até resulta, mas o tema é o que se sabe, obrigatório na sociedade que consagrara o Realismo Socialista - veja-se o vídeo abaixo, não apenas com esta mas com outras obras compatíveis. Essas limitações temáticas não implicam que o quadro não tenha que ser lido. Há cinco trabalhadores rurais que se sentam para almoçar numa pausa da colheita. Um deles, a rapariga de lenço vermelho da esquerda, senta-se em oposição aos outros e é ela que lhes lê um jornal que está pousado no seu colo. Reconhece-se, pelo cabeçalho, que o jornal é o Pravda (o órgão oficial do comité central do Partido Comunista da União Soviética). Mas o cento é a área mais informativa do quadro, de que voltaremos a falar mais adiante. Por detrás, estendem-se trigais a perder de vista, alguns já colhidos e enfardados. Para isso (a mecanização da agricultura é um tema recorrente do Realismo Socialista) terá sido indispensável a existência da ceifeira debulhadora que se vê à distância, do lado direito. Mas o progresso socialista também está representado por comodidades como a motorizada verde do lado esquerdo. A expressão de quem ouve é satisfeita, embora a refeição tenha sido frugal: uma tigela que contivera qualquer coisa e um cântaro cujo conteúdo só se pode adivinhar. Mas a melancia cortada, dá-nos a informação da estação do ano, o Verão, e de que a cena decorre numa das repúblicas mais meridionais da União Soviética. É o padrão tradicional do tapete onde se sentam que identifica definitivamente o local onde a cena tem lugar, a Moldávia.

E é a história particular dessa República soviética que torna mais relevante o facto de que o Pravda de Moscovo fale deles, conforme o título do quadro. A região pertencera ao Império russo até 1918 mas, de 1918 até 1940, a Moldávia fizera parte da Roménia. Uma maioria da população local falava (e fala) romeno. A junção da Moldávia à Roménia fora uma das consagrações práticas do princípio das nacionalidades, um dos quatorze pontos de Wilson. Mas, com a assinatura do Pacto entre Hitler e Estaline em Agosto de 1939, a União Soviética recebera o consentimento da Alemanha para a reconquistar (1940). Mas, um ano depois, a Roménia aliara-se à Alemanha e, com a invasão da Rússia em 1941, reconquistara uma vez mais a Moldávia, apenas para a voltar a perder no fim da Segunda Guerra Mundial (1945). Assim, em 1951, a data da conclusão do quadro, a Moldávia era uma terra soviética há relativamente pouco tempo: pouco mais de meia dúzia de anos. Nesse período, a população moldava fora sujeita a deportações e à imposição das normas soviéticas, nomeadamente a colectivização da agricultura. O ênfase na felicidade dos trabalhadores rurais não é acidental. Assim como não o é o gesto da leitura do jornal. Outra das consequências práticas da anexação soviética é que o idioma romeno que se falava na região passou a ser oficialmente escrito no alfabeto cirílico e não no alfabeto latino, como acontecera até aí e como acontecia na Roménia. Qualquer uma destas duas questões é contornada no quadro: por um lado, a rapariga do lenço vermelho está a ler um jornal russo, escrito em russo e no alfabeto cirílico; por outro, o auditório aparenta idade de, se escolarizado (improvável...), só saberia ler romeno e no alfabeto latino.
Em conclusão, o quadro revela-se uma das mais elementares demonstrações do imperialismo russo, que naqueles anos se congratulava por, com Estaline e na sequência da Segunda Guerra Mundial, ter quase recuperado as fronteiras do império czarista (ficou a faltar a Polónia e a Finlândia...). Em 1951, o ano em que Portugal revogou o seu Acto Colonial, se nos deparássemos com um quadro (ou então uma fotografia) de cinco angolanos, em que um deles - o evoluído - aparecesse a ler um jornal lisboeta que falava deles, a cena seria (e é) para ser classificada como aquilo que é: propaganda colonialista. E, contudo, há comunistas que, precisamente perante os mesmos dados, nunca hão-de perceber o que o comunismo foi...

ONDE É QUE EU JÁ LI ISTO?...

Os tempos tornaram-se anacrónicos para quem tenha memória. Pelo menos para quem a preserve por uma meia dúzia de anos. Conhece-se a agenda política do Observador e a sua animosidade para com o actual presidente da República. E percebe-se a capacidade do jornal para arranjar uns peões de brega que, sob a capa da opinião, profetizem a Marcelo um futuro repleto de escolhos. Quando, pelos disparates que já escreveu, o colunista está reduzido à seriedade de um Batatoon (como foi o caso de João Marques de Almeida), no Observador recomeça-se precisamente o mesmo ciclo de antecipar dificuldades à candidatura de Marcelo, só que agora recorrendo a outro protopalhaço.