Antes da SIC Notícias pespegar aquela tarja vermelha indicativa de assunto importante e urgente, a ponto de receber o qualificativo de última hora, teria convido que os jornalistas da estação explicassem o que é precisamente o glifosato e a importância do que estará em negociação entre os países membros que possa justificar tal destaque. Isso, quando comparado com tantos outros assuntos que se sabe que também são objecto rotineiro de negociação no seio da União Europeia. O desenvolvimento sugerido é para não se ficar com a impressão que se trata de um certo histerismo jornalístico despropositado, pior ainda se ele tiver sido induzido por algum lóbi...
...como, sei lá, por exemplo o Greenpeace que, por acaso, é o patrocinador da carrinha estacionada junto do Berlaymont em Bruxelas que, novamente por acaso, é a fotografia escolhida pelos jornalistas da SIC Notícias para ilustrar a notícia...
9 de Novembro de 1940. Há 77 anos ocorria a estreia mundial do Concerto de Aranjuez, uma das peças musicais clássicas mais conhecidas e simbólicas da Espanha do século XX. Apesar da localização da cidade que dá o nome à composição (nos arredores de Madrid), essa estreia veio a ter lugar no Palácio da Música Catalã em Barcelona. Foi seu primeiro solista Regino Sáinz de la Maza. A história do dia que passa costuma ser feita da invocação de alguns factos inequívocos mas também o pode ser de insinuações mais subtis.
Este curioso mapa é feito pelo mosaico dos contornos dos países africanos a serem preenchidos com um trecho da face do respectivo chefe de estado. Dá uma surpreendente imagem de uma África a vários tons.
Em dia de centenário vale a pena evocar, através desta fotografia simbólica, a participação dos nossos comunistas nos primeiros actos eleitorais depois do 25 de Abril. A fotografia mostra Álvaro Cunhal o secretário-geral do PCP a receber o boletim de voto para as primeiras eleições presidenciais que tiveram lugar em 27 de Junho de 1976 (reconhece-se facilmente que o boletim tem apenas quatro concorrentes). Para essas eleições, Cunhal e o PCP haviam feito uma opção que se virá a revelar completamente errada. Depois de terem recolhido 789.000 votos (e 40 deputados) nas primeiras legislativas eleições de Abril, progredindo cerca de 2% (+10 deputados) em relação ao resultado que o partido tivera nas constituintes do ano anterior, o colectivo que o dirigia decidiu-se a apostar numa candidatura demonstrativa da consolidação da sua força eleitoral e apresentou uma candidatura isolada de um militante seu, Octávio Pato, submetida ao lema "Assim se vê a força do PC!". Apanharam uma tareia monumental: o candidato comunista ficou no último lugar, foi o que recebeu menos votos dos quatro (365.000), menos 423.000 para ser mais preciso, quando feita a comparação com os votos que o PCP recebera nas eleições legislativas apenas dois meses antes. Pela análise da transferência desses votos concluía-se que mais de metade dos votantes do PCP havia preferido outras candidaturas, a começar pela de Otelo Saraiva de Carvalho que alcançara um surpreendente 2º lugar. Nessa noite de 27 de Junho caiu um mito em que os próprios dirigentes comunistas mostraram ter acreditado: a de que o eleitorado comunista era muito disciplinado. Talvez fosse verdade nos países comunistas do Leste da Europa, mas nos da Europa Ocidental, onde as eleições eram verdadeiramente livres, até os eleitores comunistas exerciam as prerrogativas dessa liberdade.
Hoje 7 de Novembro de 2017, cumpre-se o centenário da Revolução Russa de 1917. Não vou referir-me a ela porque acontecerá com dezenas de outras evocações. O que valerá a pena, em complemento a elas, é lembrar um outro 7 de Novembro, esse de 1989, que como que encerrará o ciclo criado pela Revolução. Foi neste dia de há 28 anos que os poderes da antiga República Democrática Alemã ensaiaram uma última tentativa para se tentarem reformar e sobreviver ao colapso eminente. Egon Krenz, que se tornara no novo líder da RDA no mês anterior, demitiu o governo e anunciou a reforma da composição dos órgãos de cúpula do partido comunista este-alemão, como o politburo e o comité central. Hoje, sabe-se que tudo aquilo era muito pouco e muito tarde: o comunismo não se reforma. À falta de melhor, esta reportagem televisiva francesa daqueles dias mostra-nos os acontecimentos. Não deixa de ser uma ironia (fortíssima!) ver o camarada leste-alemão a queixar-se em 1989 do "terror das ruas", esquecendo-se provavelmente que fora através desse mesmo "terror das ruas", ainda mais violento se possível, que a ideologia que ele abraçara chegara ao poder em 1917...
«Os acontecimentos desenrolam-se cada vez mais depressa na Alemanha de Leste. Esta manhã o Politburo do Partido Comunista demitiu-se a pedido de Egon Krenz que ontem já havia demitido o Governo. Mas trata-se de concessões mínimas a uma população que duvida destes novos dirigentes. Como prova: desde ontem, mais 11.000 alemães orientais refugiaram-se na República Federal. Reportagem do nosso enviado especial a Berlim Leste, Philippe Rochot:
A Voz Única do Socialismo. É por detrás deste emblema que o Comité Central do Partido Comunista alemão oriental se irá metamorfosear, depois das demissões do Politburo sob a palavra de ordem: a renovação é a única hipótese para que o SED possa conservar a escassa confiança que lhe resta junto da população. Essa população aguardava esta manhã com impaciência a abertura dos quiosques. Só a velha guarda parece inquieta com as demissões:
- Espero que o comité central vá encontrar soluções em todos os domínios e que nós saiamos de tudo isto.
- Você é do partido?
- Desde há 60 anos que sou camarada, membro do partido.
- E o que é que pensa destas manifestações?
- Eu por mim considero que é o terror das ruas.
Malgrado a grande subversão, a renovação já começou, por exemplo, na televisão alemã-oriental que não teve dúvidas em transmitir as manifestações em volta do edifício da sede do Comité Central pedindo eleições livres, depois dos jornalistas se terem desculpado perante o público por o haverem enganado durante 40 anos. É o elemento novo na vida do país. Aqui, ainda, o novo porta-voz do Governo apela em directo aos cidadãos para que não cedam à tentação do êxodo para a Alemanha Federal e a permanecerem. «Precisamos de vós», diz ele, «precisamos da vossa força». Tudo isso ao mesmo tempo que, enquanto uma das figuras da oposição, Bärbel Bohley, intervinha para dizer que se mostrava céptica quanto ao futuro, a televisão anunciava as demissões do governo e, esta manhã, do politburo do partido comunista este-alemão. Com esta cascata de demissões no momento em que se inicia a reunião do comité central do partido comunista é toda «a rua» que fica com a impressão de ter alcançado uma vitória já que era «a rua» que pedia ontem nas ruas de Leipzig e de Berlim Leste a demissão dos dirigentes e que queriam homens novos.»
A moda tanto se pode exprimir por um chapéu que não protege do Sol como por umas calças que não protegem do frio. E alguma da argumentação mais veemente que vejo a ser brandida nas redes sociais também é inconsequentemente assim: é um conjunto de palavras sem significado...
Há precisamente 300 anos, o músico Johann Sebastian Bach (1685-1750) era preso. O que terá feito aquele compositor aos 32 anos, casado e pai de filhos, para lhe ter acontecido isso? Vale a pena contar a história que ali o conduziu. Em finais de 1716, o director musical da corte ducal de Weimar, (onde Bach trabalhava) morreu e foi sucedido no cargo pelo filho, que Bach considerava um incompetente e que o ultrapassara injustamente. Ao longo do ano seguinte o compositor procurou uma nova colocação e, no Verão, encontrou-a, como director musical na corte vizinha do príncipe Leopoldo de Anhalt-Köthen. O duque Guilherme Ernesto de Saxe-Weimar, despeitado pelos pedidos de demissão de Bach a que se recusava a dar provimento, acabou por o prender a 6 de Novembro de 1717, num gesto de prepotência gratuita que só terminou quando libertou o compositor, quase um mês depois (2 de Dezembro), por intercessão de Leopoldo (que também era cunhado de Guilherme Ernesto). Comparando com este despotismo, as prisões dos membros do governo da Catalunha só podem ser justificadíssimas...
Marcelo é um grande leitor! Apreciemo-lo nesta foto acima a folhear uma edição gigante do Onde Está o Wally? com a destreza única de uma grande cabeça, de um grande intelectual. Porém, os tempos evoluem, assim como as modas editoriais e, se a moda de outrora foi andar página fora à procura do Wally, o boneco de óculos e barrete exótico, a moda dos tempos que correm parece ser andar à procura de fotografias de outros tempos, tiradas essas na companhia de um outro Wally, no caso abaixo também com uns chapéus promocionais bem garridos e exóticos.
5 de Novembro de 1977. Há quarenta anos toda a França que gosta de BD é surpreendida pela notícia da morte inesperada de René Goscinny com apenas 51 anos. Oriundo de uma família de judeus do Leste da Europa e apesar de nascido em Paris, só algumas circunstâncias acontecidas no momento certo o tornarão definitivamente francês, tendo vivido a primeira parte da sua vida na Argentina e nos Estados Unidos. Um daqueles criativos com apontamentosverdadeiramentegeniais, a personagem de Astérix torna-o imensamente popular (uma primeira edição de uma aventura do herói gaulês chega a atingir os 1.400.000 exemplares nos anos 70) mas, por despeito, por se tratar de BD, mas também pelas suas origens, Goscinny é apreciado com indisfarçável desdém pelos círculos bem pensantes da intelectualidadefrancesa. Os detalhes da sua morte parecem sair de uma das histórias rocambolescas que ele tanto gostava de inventar: ao realizar uma prova de esforço em bicicleta para a avaliação regular da sua condição cardíaca, o argumentista francês foi acometido de um verdadeiro ataque cardíaco que lhe foi fatal.
Da esquerda para a direita Soraya Sáenz de Santamaria, vice-presidente do governo espanhol e agora enviada como "duquesa de Mântua" para a administração directa da Catalunha por parte de Madrid, Ana Pastor, presidente do congresso de deputados espanhol, António Costa, primeiro-ministro português, Carles Puigdemont, até há poucos dias presidente da generalitat da Catalunha, ao lado de Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol. A fotografia tem apenas dois meses e meio e foi recolhida por ocasião da missa em memória das vítimas dos atentados de Barcelona, realizada na catedral da Sagrada Família a 20 de Agosto. E atendendo à tradicional distribuição protocolar dos lugares, aqueles, dos oito membros da generalitat actualmente presos, que estiveram presentes naquela cerimónia, não devem estar muito distantes destes cinco fotografados.
Ainda a propósito do que era a propaganda de há 75 anos, aprecie-se, com um olhar entendido, esta caricatura de David Low publicada na edição do Evening Standard de 4 de Novembro de 1942, a assinalar o desfecho (finalmente) vitorioso da batalha de El Alamein. Repare-se como o sovado Rommel nem sequer se parece fisionomicamente com Rommel e precisa do nome no cinto para que os leitores britânicos o identifiquem; mas, sobretudo, destaque-se que quem o sova é um 8º Exército de aparência «working class» (conforme se pode identificar pelo capacete), uma vitória que é dada por colectiva numa altura em que ainda não se começou a trabalhar propagandisticamente a imagem de Montgomery para neutralizar a imagem do seu adversário alemão.
O ciclo da moda dos blogues ter-se-á assemelhado, em intelectual, ao ciclo da moda social e comercial dos croissants e das croissanterias que o precedeu por uns bons 20 anos. Depois de irromperem e pulularem por todo o lado, a actividade veio a cingir-se gradualmente a uns pouco estabelecimentos que são frequentados pelos clientes que verdadeiramente apreciam o produto assim como os recheiostípicos da casa (aqui são hiperligações desenvolvendo alguns dos temas aflorados). Doze anos depois, são esses clientes dedicados que mantêm esta e outras casas abertas.
Capa da edição da revista Look de 3 de Novembro de 1942. O destaque que já aqui se vê a ser dado às tropas pára-quedistas, revela a intenção do exército em transformá-las, para efeitos de propaganda, nas suas unidades de elite durante a Segunda Guerra Mundial, e a intenção precede mesmo a sua estreia em combate. Verdade que essa estreia estaria reservada para daí a muito poucos dias (8 de Novembro), uma operação aerotransportada que foi protagonizada pelo 509º Regimento, associada ao desembarque aliado no Norte de África e que foi baptizado por Operação Villain, como já aqui contei no Herdeiro de Aécio (foi um fiasco). Mas não foi esse fiasco que terá detido a máquina de propaganda do exército americano como se percebe por esta foto abaixo, encenada quase um ano e meio depois, precisamente antes do Dia D, como também conto neste outro sítio.
Neste último Dia das Bruxas o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau resolveu mascarar-se de Super-Homem disfarçado de Clark Kent. Não só foi uma excelente ideia e um sucesso mediático, como poderá servir de inspiração para o disfarce do nosso Super-Homem nacional por ocasião das celebrações do corso do próximo carnaval de Torres Vedras.
Quando este anúncio chegou a Portugal a fórmula publicitária foi alterada para Fulano cabelo empastado, Fulano com «dry look». Ainda haverá muitos que se lembrarão do olhar apatetado, pretensamente metamorfoseado, da segunda aparição. Agora aprecie-se um outro contraste, inspirado nessas imagens, aquele de como Nuno Rogeiro, ainda com o cabelo empastado, descreveu há um mês Stephen Paddock (abaixo à esquerda), aquele que foi «o autor da carnificina de Las Vegas» (que causou 58 mortos e 489 feridos) e como ontem, agora já com o «dry look», fez o mesmo com Sayfullo Saipov, «a besta oculta», o «homicida em massa de Nova Iorque» (8 mortos e 11 feridos). Termina a descrição do perfil do segundo com um desdenhoso «blá, blá, blá» destinado aos sem remissão. Paddock, pelo contrário, para além de misterioso, era apenas «um demónio vivo»... para além dos do Daesh. O grave mesmo não serão os actos e as suas consequências, é mesmo a filiação e as reivindicações...
A Revolução Russa (1891-1924) de Orlando Figes continua a ser um livro interessantíssimo mais de 20 anos depois de ter sido editado pela primeira vez. A minha cópia é uma tradução espanhola comprada há mais de 15 anos (acima). Foi a que consegui, alguns anos antes do aparecimento da Amazon. A sua qualidade já fizera com que me referisse no blogue ao livro. Investigando a propósito de uma próxima edição portuguesa bastante tardia, fiquei a saber que o livro anteriormente já fora traduzido em mais de 30 idiomas incluindo o português... mas no Brasil. E, sinceramente, quando vejo todo este fru-frupromocional (abaixo) à volta de um livro que foi originalmente publicado em 1996, sinto um embaraço intenso, seja pela demonstração de atraso científico, pela nossa falta colectiva de exigência editorial, mas sobretudo por toda esta auto-satisfação manifestada por uma parte menor do nosso panorama intelectual. Para comparação, imagine-se quantas bandas rock de vulto, promovendo tournées pela Europa, se permitiriam estar 20 anos sem vir tocar a Portugal?...
É raríssimo encontrarmos nas ilustrações o Sistema Solar representado na sua verdadeira escala. Por um lado, como se observa acima, há a disparidade das dimensões do Sol quando comparado com os planetas circundantes; mas o pior mesmo é preservar a escala quando se consideram as distâncias das órbitas. Para quem tiver uma genuína curiosidade em ver como é um sistema solar à escala, aprecie o exercício abaixo, realizado por uns curiosos norte-americanos, em que a referência da nossa Terra foi reduzida à dimensão de um berlinde. Mesmo a essa escala, foi preciso ir montar o modelo para um sítio onde houvesse quase 12 quilómetros de espaço livre! O Sol é representado por um balão luminescente e inflável com um metro e meio de diâmetro. Mercúrio está a 68 metros, Vénus a 120 metros, a Terra a 176 metros e Marte a 269 metros, seguindo-se os gigantes gasosos Júpiter (0,92 km), Saturno (1,7 km), Úrano (3,4 km) e Neptuno (5,6 km). A escala foi calculada de tal forma que, ao amanhecer e quando observados do ponto de vista da órbita do berlinde, o balão inflável tivesse o mesmo diâmetro aparente do próprio astro que se levantava no horizonte.
Este é o universo que os nossos cientistas conhecem com segurança e que, até há uma dúzia de anos, tinham como referência. A descoberta dos exoplanetas (ou seja, planetas que orbitam outras estrelas - hoje há cerca de 3.700 referenciados) veio subverter muito do que se dava por normal na estrutura dos sistemas planetários à volta das estrelas. Prolongando estes trabalhos de configurar o Sistema Solar a uma escala e inserindo para comparação aquilo que se vai descobrindo, talvez os leigos possam perceber melhor o exotismo das descobertas. Um exemplo bem recente é o de uma estrela situada a 600 anos-luz da Terra, identificada pela designação NGTS-1. Regressando ao quadro do cimo do texto, é notória a disparidade das dimensões entre a estrela e os planetas circundantes. No caso do planeta que foi detectado na órbita de NGTS-1 aquela disparidade quase desaparece. Não apenas a estrela é pouco mais de metade do Sol como se estima que o planeta (NGTS-1b) seja ⅓ maior do que Júpiter (veja-se o quadro abaixo). Mais do que isso, e preservando a escala e as distâncias usadas no exercício acima para o Sistema Solar, o balão inflável teria agora apenas 86 cm de diâmetro mas a bola representando NGTS-1b estaria apenas a uma distância de 5 metros!
«O Governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu,...» Nota-se como a redacção é cuidada e como o governo britânico não se compromete substantivamente a grande coisa: limita-se a encarar favoravelmente algo que designa prudentemente por lar nacional. Ainda por cima, e apesar da resolução ter sido aprovada num conselho de ministros, note-se que foi Arthur James Balfour, o secretário do Foreign Office (assinalado abaixo à direita), e não o primeiro-ministro David Lloyd George (à esquerda), o encarregado de a transmitir por carta a Lionel Walther Rothschild. No momento, esta terá sido mais uma de milhentas resoluções produzidas pelas circunstâncias da Grande Guerra, a que só o tempo e a utilização que lhe foi dada pelos destinatários veio a dar importância.
Se a fuga de Carles Puigdemont para Bruxelas já foi objecto de paródia divertida com o desenho acima, comparando-o com Tintin, a perseguição que o Reino de España lhe move teve a resposta correspondente com esta montagem abaixo com os irmãos Dupondt acabadinhos de chegar à Bélgica em avião particular, à sua procura. O recurso à BD apenas se faz eco de uma certa ligeirezacaricata que o assunto me parece ter assumido depois do fim de semana passado. De sério e até mesmo preocupante só os apelos repetidos à prisão dos protagonistas, que, pela veemência de algumas vozes, parecem ressonâncias em versão pasteurizada dos ¡¡al paredón!! da guerra civil de há oitenta anos.
Diário de Lisboa, edição de Sábado, há precisamente 70 anos: 1 de Novembro de 1947. A notícia em realce no canto inferior esquerdo, ao contrário das outras que compartilham a primeira página, não tem desenvolvimento no interior e nela se lê o seguinte:
«O acordo financeiro luso-britânico Londres, 1 - Deve partir para Lisboa neste fim de semana o subsecretário do Tesouro britânico, Elli Shyphenrees, que vai discutir com o Governo português a situação da balança comercial entre a Inglaterra e Portugal e regularizar a forma de pagamento do respectivo saldo que é grandemente a favor de Portugal.
Nos círculos financeiros britânicos diz-se que a viagem deste alto funcionário tem por objectivo obter a redução da perda das suas reservas-ouro que devem ser pagas a Portugal neste metal nos termos do acordo assinado entre ambos os países, quando o saldo ultrapassar a soma congelada de cinco milhões de libras.»
Raramente tenho visto referido como a força no plano internacional da ditadura portuguesa nos anos que imediatamente se seguem ao fim da Segunda Guerra, assentava na dimensão da dívida que os britânicos tinham assumido para com Portugal durante os anos do conflito. O objectivo da viagem do obscuro senhor Shyphenrees seria precisamente o oposto dos obscuros senhores da troica 65 anos depois. Chegava como pedinte. Isso sim, é uma diferença colossal. Ele haverá as artes da diplomacia mas os saldo dos prosaicos livros da contabilidade interferem decisivamente com as habilidades que os diplomatas conseguem exibir. Se, para os norte-americanos, tudo isso era indiferente e permitiam-se até retratar Salazar como o decano dos ditadores num arremedo de purgar a Europa de todos as ditaduras de direita (abaixo, pode ver-se a capa de uma conhecida edição da revista Time de 22 de Julho de 1946), a imprensa da livre Inglaterra tinha de levar em consideração que acontecia que o decano era também o cobrador de uma conta calada que o seu país não estava em condições de poder honrar nas condições que haviam sido contratadas.