13 novembro 2009

...DAIALOG BAI DEI

E já que estamos numa de falar de deputados (ver poste anterior), parece que se perdeu mais uma oportunidade de, como se costuma dizer, aproximar os eleitos dos eleitores, neste caso concreto aproximar este eleitor que assina estes postes da eleita Ana Isabel Drago Lobato, deputada reeleita pelo Bloco de Esquerda há mês e meio, de quem estou à espera de uma resposta há duas semanas. Importa dizer que não estava à espera que as preocupações manifestadas por Ana Drago quanto às prepotências e despotismos em estabelecimentos de ensino secundário em geral fossem genuínas. Para ela, só terão interesse se aconteceram no Colégio Militar ou em outro estabelecimento do mesmo género. Importa dizer também que, pela ausência de resposta, não estava à espera que fosse tão fácil concluir isso… Neste caso, não será preciso passar um fim-de-semana romântico no Dubai à nossa conta para se ficar com o passaporte político carimbado

DUBAI BAI NAITE...

Eu não sei qual será o objectivo que estará por detrás da grande cobertura que o Público deu à decisão de Jaime Gama de alterar o regime das viagens dos deputados. É bem possível que ali esteja uma tentativa de criar um embrião de uma próxima candidatura presidencial do peixe de águas profundas, que nestas coisas do binómio política/informação nunca se pode partir do pressuposto que as notícias aparecem por acaso. Contudo, deve saudar-se a decisão de a publicar, sobretudo acompanhada da explicação da viagem que terá provocado o escândalo – abafado – que terá levado Jaime Gama a agir.
Ao contrário do grosso da actividade parlamentar, os eleitores compreendem aquelas histórias e quase todos se interessam por elas e será a sua divulgação e conhecimento público que as pode tornar instrumento de dissuasão para que os titulares de cargos públicos não repitam aquelas práticas abusivas. E todavia, e seguindo um outro hábito bem português, a identificação dos deputados que estiveram a fazer turismo no Dubai à custa do erário público, acaba por ser feita de uma forma superficial, permitindo, como é infelizmente costume, que as acusações possam ser diluídas por todos os deputados...
É por isso sempre útil e até pedagógico destacar e mostrar as caras das vedetas destes episódios burlescos, no caso, e a fazer fé na narrativa do Público, os deputados Duarte Pacheco (à esquerda) e Miguel Relvas (à direita) do PSD (acima) e Leonor Coutinho (à esquerda) e Miguel Ginestal (à direita) do PS (em baixo). Com a excepção de Relvas, todos eles dão pouco na televisão, e por isso fiz uma ligação em cima do nome de cada um deles para uma das suas intervenções parlamentares, para os conhecermos bem: todos eles nos devem a cortesia de um romântico fim-de-semana para dois em terras exóticas do Dubai…
Quanto ao hipotético prestígio que Portugal obteria por ter os seus deputados a viajar em voos de primeira classe, privilégio agora suprimido por Gama, nunca mais me esqueço de uma viagem de Paris para Lisboa, onde metade do avião fora reservado para a classe executiva por causa de uma numerosa delegação moçambicana que acabara de negociar com o FMI… Durante a viagem, conhecida a precária situação financeira de Moçambique, só me lembrava da cena de A Canção de Lisboa em que o marçano do talho batia à mesa do despejado (mas digno...) Vasco Santana (abaixo, aos 5:15s), que acabava destratado: – Eh, pelintra!…
Nota: Porque estes assuntos são sérios, convêm ser tratados com rigor, para que não haja confusões inadmissíveis como a que acontece neste blogue, em que suponho que Miguel Portas terá sido confundido com Miguel Relvas...

12 novembro 2009

ALIANÇA POPULAR, A FEPU/APU/CDU DA ISLÂNDIA

Para contar a história desta Aliança Popular será necessário prestar algumas explicações adicionais sobre a Islândia (acima, a bandeira do país), sobre a sua história, sobre a situação da Europa Ocidental durante a Guerra-Fria e sobre a história das coligações políticas em Portugal desde 1975. Esta última será a parte mais simples de explicar: desde 1976 que o Partido Comunista Português (PCP) não se apresenta sozinho a eleições. Nesses 33 anos, a coligação que tem sido formada por aquela organização com mais uns amigos que gravitam à sua volta, já se chamou FEPU, APU e CDU (abaixo), conforme os amigos. E já se apresentou a 19 eleições legislativas e autárquicas.
Com isso, os comunistas portugueses já conseguiram bater o recorde dos seus camaradas islandeses, onde a Aliança Popular durou 32 anos (1956-1998). Registe-se como, nestas comparações internacionais, raramente nos lembramos da Islândia. Em primeiro lugar, por ser um país pequeno, com uma dimensão geográfica parecida com a de Portugal (103.000 km²) embora com uma população semelhante à da Madeira ou dos Açores (320.000 habitantes); e em segundo lugar, por ser um país localizado verdadeiramente na periferia da Europa, conforme se pode observar no mapa abaixo. Uma localização que tem tanto de periférica quanto de estrategicamente importante.
Surpreendentemente, uma das potências que tem um particular interesse na Islândia é a Rússia. A ilha tem a localização ideal para bloquear as ligações marítimas entre os seus portos do Oceano Árctico (como Murmansk) e o Oceano Atlântico. Foi para evitar que uma potência continental (nesse caso, a Alemanha, então aliada da União Soviética na sequência da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop) desfrutasse dessa vantagem, que os britânicos ocuparam a Islândia em Maio de 1940. A Islândia, permanecendo neutral, mas entretanto tornada independente (Junho de 1944), continuou sob ocupação aliada (britânica e norte-americana) até ao fim da Segunda Guerra Mundial - abaixo, tropas canadianas da guarnição.
As organizações de esquerda da Islândia foram-se inspirar nas suas designações às suas congéneres alemãs. Foi assim que, à esquerda do Partido Social-Democrata, num processo de fusões alimentado por dissidências oriundas desse partido, apareceu um partido islandês filiado no Comintern(*) designado por Socialista. Partido esse que, pelas razões apontadas no parágrafo acima, foi muito apoiado pelos soviéticos imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, para que a Islândia adoptasse uma política externa neutral. Já então (eleições de 1946), os socialistas islandeses (comunistas), obtiveram um resultado eleitoral apreciável, com 19,5% dos votos, à frente dos social-democratas com 17,5%.
Mas o Parlamento (acima) era dominado pelos partidos da direita (Independência e Progressivo, que haviam recebido 62,6% dos votos no conjunto) e foi sob o governo deles que a Islândia acabou por aderir à NATO em 1949, apesar dos socialistas terem tentado transportar a oposição à decisão para protestos nas ruas (abaixo), uma ocasião que, pela sua raridade, se tornou histórica. Apesar da Islândia ser um daqueles típicos países nórdicos, tornados famosos pelos seus altos padrões de vida e pelos seus governos sociais-democratas, contava no seu espectro político com um partido comunista que era mais forte do que o social-democrata e, proporcionalmente, um dos mais fortes da Europa Ocidental.
Em 1956, possivelmente tentando alargar a sua base de apoio, a formação coligou-se com mais uma dissidência dos sociais-democratas, formando a já mencionada Aliança Popular que, de coligação, veio a transformar-se definitivamente num partido em 1968. Com este último, atingiu-se o climax dos resultados eleitorais: 22,9% nas eleições de 1978. Não se assumindo claramente como comunistas, o posicionamento da Aliança quanto à política externa era explícito e em favor das opções russo-soviéticas e não se distinguia, por exemplo, daquele que era então o posicionamento do PCP quanto a essas questões fundamentais: era contra a permanência da Islândia na NATO, contra a adesão do país à União Europeia, etc.
Chegou a fazer parte do governo islandês. Por cinco vezes: 1956-58, 1971-74, 1978-79, 1980-83 e 1988-91. A Aliança Popular (símbolo acima) ainda sobreviveu bem ao impacto da queda do Muro, mantendo uns digníssimos 14,4% e 14,3% nas eleições de 1991 e 1995(**). Em 1998, os seus dirigentes optaram por concorrer numa mais ampla frente de esquerda, incluindo outras formações, designada Aliança Social-Democrata que depois se veio a tornar numa nova formação política em 2000. Em Portugal, também neste aspecto da dinâmica partidária parecemos ser mais conservadores que os islandeses. O PCP, aparece coligado consigo mesmo há 33 anos mas a fórmula, que se assume garantida, está para durar…
(*) Organização comunista internacional, também conhecida por III Internacional, fundada em 1919 em Moscovo, e que supervisionava e coordenava a actividade dos partidos comunistas nacionais. Foi dissolvida em plena Segunda Guerra Mundial (1943).
(**) Quem dera à CDU, que obteve 8,8% e 8,6% nas eleições desses mesmos anos…

11 novembro 2009

2012 – O ANO EM QUE MEDINA CARREIRA E ANTÓNIO BARRETO DEIXARÃO DE FAZER PREVISÕES CATASTROFISTAS?

Pelos vistos, desta vez o próximo apocalipse está previsto para 2012. Mais precisamente para 21 de Dezembro de 2012 e até lá, e especialmente durante o próprio dia, sou eu que prevejo que muito se irá escrever e falar sobre a dita Previsão que parece estar inscrita nos calendários dos Maias. Depois, como também é costume, ninguém mais se lembrará dela... Mas entretanto, há quem não esteja à espera, e aproveite para facturar durante estes hipotéticos três últimos anos que a vida ainda tem para nos oferecer, lançando um filme-catástrofe que se intitula precisamente 2012. Promete ser mais um prodígio de efeitos especiais! Quanto ao rigor científico dado ao assunto, não sei se para quem me lê chegará, mas para mim chega perfeitamente a constatação que a estela que serve de decoração ao cartaz de apresentação do filme (acima) e que seria suposto representar um calendário maia… afinal é asteca. E gabo a paciência de uma revista científica como a Science & Vie por ter dedicado seis páginas a desmontar mais este mito. Como este, foram-no também as famosas Profecias de Nostradamus, que estão hoje muito desleixadas, mas que serviram para que variadíssimos especialistas previssem sucessivos apocalipses para o final do Século XX, numa actividade editorial intensa (abaixo).


A verdade é que o espectáculo do anúncio da catástrofe sempre se vendeu bem, até mesmo (ou sobretudo...) na informação séria. O problema neste último caso é que os seus agentes, como acontecerá com o resto dos mortais, raramente têm a presciência de se aperceberem quando vão a caminhar para uma catástrofe a sério: se não fosse essa ignorância, não existiriam aquelas imagens dos aplausos entusiásticos a Neville Chamberlain que dizia trazer ali naquele papel a paz para o seu tempo, quando afinal se estava a menos de um ano do início da Segunda Guerra Mundial… Azar o deles, por não terem apostado no amigo da onça, naquela ocasião histórica protagonizado por Winston Churchill.

Em contrapartida, actualmente em Portugal, parece não haver hipóteses de haver desses azares, pois estamos bem servidos de amigos da onça, com as inumeráveis páginas de opinião redigidas por António Barreto e as consecutivas entrevistas dadas à televisão por Medina Carreira (acima) anunciando e reanunciando o apocalipse a que Portugal estará fatalmente destinado. Parecem ter-se tornado tanto num sucesso de audiências como num fiasco de influências. Não só os seus discursos catastrofistas se banalizaram como a atitude dos seus autores os desautoriza, ao manterem-se, perante tais apocalipses, deliberadamente à margem de um processo político que tanto criticam...
Admitindo que em 21 de Dezembro de 2012 seja o dia em que acabam os portugueses e acaba Portugal, será que António Barreto e Medina Carreira deixam de se preocupar já connosco, ou continuam, mesmo assim, a prever os seus apocalipses até lá?...

10 novembro 2009

TAMBÉM FOI HÁ VINTE ANOS…

Mais abaixo, parodiando a densa cobertura informativa que se montou à volta do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, inscrevi em dois postes, dois exemplos de dois assuntos completamente díspares de que também este ano se poderá celebrar o vigésimo aniversário. Este protocolo jornalístico, que estabelece que o tratamento dos temas nasce e morre ao ritmo das efemérides que se possam celebrar a seu respeito, faz-me lembrar o ritual associado à troca de prendas natalícias...
Exemplificado numa pergunta elementar: a quantas pessoas estaríamos genuinamente dispostas a dar uma prenda, numa ocasião qualquer? Não seria somente a essas pessoas, a quem as daríamos independentemente da época, que deveríamos dar prendas no Natal? Também aqui, não haverá questões demasiado importantes, como a questão do Muro, para que o seu tratamento se restrinja a efemérides, dos 20 anos da sua queda ao cinquentenário da sua construção, próxima ocasião em que ouviremos falar dele?…
Quanto ao Muro, então até Agosto de 2011, quando se completarem 60 anos de construção!...

TAMBÉM FOI HÁ VINTE ANOS... – 1

MÁRIO NOGUEIRA DEU AULAS PELA ÚLTIMA VEZ
Colocado então na Escola da Pedrulha em Coimbra, onde posteriormente se veio a efectivar, embora nunca lá tenha voltado para desempenhar qualquer cargo profissional, Mário Nogueira registou então a sua última experiência pessoal no desempenho da sua profissão original, com alunos. Durante os vinte anos seguintes, ir-se-á defrontar com doze ministros(as) da educação. E ele ainda há quem diga que o poder político não se renova…

TAMBÉM FOI HÁ VINTE ANOS... – 2

A FEBRE DA LAMBADA

A surpresa do sucesso instantâneo deste Chorando Se Foi ainda foi mais ampliada pelo facto do grupo que o interpretava ser então completamente desconhecido e não pertencer ao núcleo consagrado da MPB (música popular brasileira). Provavelmente por isso, os seus canais de promoção e distribuição eram distintos e o disco foi uma revelação em mercados onde tradicionalmente a MPB não vinga, como é o caso dos de língua inglesa.

09 novembro 2009

TV NOSTALGIA – 44

Hoje, acabo por não resistir a me associar a uma homenagem ao Muro e resolvi evocar uma série televisiva oriunda da Alemanha Democrática (1971), que se chamava Salut Germain, e que passou na nossa televisão em 1974/75. O que me parecia bizarro na série é que, apesar da acção decorrer na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial (1943/44) e os bons (como de costume) serem os resistentes, não só apareciam uns alemães também bons (militantes no KPD(*), pois claro…), como os diálogos se travavam em alemão.

Ora a tradição, já adquirida de todos os outros filmes do mesmo género, era que os alemães, além de serem os maus, falavam muito pouco na sua língua materna e mesmo aí só gritavam coisas como Raus!(**), para tirar os judeus dos vagões na estação de comboios de Auschwitz ou então Schnell!(**) para os despachar ainda mais depressa para as câmaras de gás. Ora naquela série ouvia-se o Canto dos Partisans cantado em alemão e isso era um completo anacronismo que, honestamente, não convencia...
Foi só anos depois que me vim a aperceber como o regime comunista da Alemanha Democrática precisara de reconstruir um passado para a sua Alemanha para os anos que durara o III Reich (1933-1945). Esse passado era feito daquilo que acontecera apenas a uma ínfima minoria dos alemães, como acontecia em Salut Germain, onde o protagonista era um militante comunista mobilizado para a Wehrmacht ou em Ich War Neunzehn (Tinha Dezanove Anos), um exilado de 19 anos que regressa em 1945 incorporado no Exército Vermelho.

Ao contrário do que costuma acontecer com outras séries de TV, mesmo as oriundas do Leste, que costumam ser facilmente acessíveis nos sites da internet propositadamente dedicados ao assunto (veja-se para comparação a polaca Os 4 do Blindado e o seu Cão (1966)) Salut Germain parece ter-se quase evaporado. A imagem que enfeita este poste(***), por exemplo, foi um verdadeiro achado… É uma pena que quase não existam informações sobre esta série… Era como uma certa Alemanha gostava de se olhar a si mesma...
(*) Kommunistische Partei Deutschlands, o Partido Comunista Alemão, que foi ilegalizado pelos nazis em 1933.
(**) Fora! Depressa!
(***) Em 20 de Setembro de 2010 fiz uma nova pesquisa de imagens, visivelmente mais bem sucedida...

AS RECEITAS CULINÁRIAS DE ASTÉRIX E AS CRÍTICAS GASTRONÓMICAS DE OBÉLIX

Ao ter remetido no poste abaixo para uma receita para osso buco, lembrei-me de uma das mais famosas receitas da Antiguidade. Foi uma criação de Astérix durante uma aventura dele e de Obélix que decorre em Roma (Os Louros de César) e trata-se de um prato que, curiosamente, e ao contrário dos exemplos do Bacalhau à Gomes de Sá ou do Lombo Chateaubriand, acabou por não ser atribuido o nome do seu criador.
Devido à profusão de ingredientes (veja-se acima a receita), acaba por tornar-se um prato dispendioso, embora seja de uma simplicidade infantil de confeccionar: despeja-se tudo para dentro de uma panela com água a ferver, mesmo a galinha, que vai com as penas e tudo! Depois mexe-se e está pronto a servir. Consta tratar-se de um prato pujante, para apreciadores genuínos e tem a reputação de curar instantaneamente qualquer ressaca.
Se podemos considerar Astérix como um longínquo antepassado da tradição da cozinha francesa, podemos considerar Obélix um longínquo antepassado da tradição da crítica gastronómica desse mesmo país que estabelece como axioma – veja-se para exemplo a classificação ridícula das estrelas do Guia Michelin – que todos os pratos que forem concebidos fora do seu país – neste caso, em Roma – serão de qualidade inferior…

08 novembro 2009

OSSO BUCO

A receita pode ser lida aqui. Se apreciado em família já é um prato de arromba, então em companhia de amigos deixa de haver adjectivos para o qualificar. Que me desculpem o carácter telegráfico deste poste mas demora tempo a preparar e tenho de o ir fazer…

06 novembro 2009

A FUGA DE CONRAD SCHUMANN

Dentro de alguns dias o tópico Muro de Berlim vai ficar a escaldar: a 9 de Novembro comemoram-se 20 anos da sua queda. Antes disso, quero aqui falar de uma famosa fotografia (e também de um filme) a ele associados, que datam ainda da fase da edificação do Muro, em 15 de Agosto de 1961. A história do evento (como hoje se designaria…) rezará assim: Conrad Schumann decidira fugir e de alguma forma, ele, um jovem membro de 19 anos da polícia da Alemanha Democrática, conseguira avisar os seus homólogos de Berlim Oeste, que o esperavam com um carro para o levar de imediato do local da fuga, após esta.

Mais do que isso, era intenção mais do que provável dos alemães ocidentais filmar a deserção para a utilizar depois como material de propaganda. Possivelmente com essa mesma intenção, alguém da polícia do lado ocidental também dera uma dica ao fotógrafo Peter Leibing sobre a eventualidade dessa fuga. E ele lá estava… para fazer a fotografia que o havia de tornar famoso. Na hora da verdade, o filme (acima) acabou por não sair grande coisa: a câmara estava pronta e o filme dura uns 15 segundos, mas o operador estava tão mal colocado que o fugitivo acaba por quase o atropelar durante a corrida para a carrinha que o havia de levar.
Ficou a fotografia com o instantâneo do salto por cima do rolo de arame farpado. Há um outro sinal que a fuga fora preparada de antemão: enquanto salta, Schumann prepara-se para abandonar a arma (trata-se de uma PPSh-41), num gesto que não parece instintivo mas que cria naquele preciso momento uma diversão que diminui as probabilidades que os seus colegas reajam. Como peça de propaganda a fotografia original (acima) ficou muito melhor do que o filme embora contivesse um pormenor que a desvalorizava imenso: era a presença do operador de câmara do lado esquerdo que lhe dava um aspecto de cena encenada…
Nas versões mais divulgadas da fotografia (como a de cima) o operador de câmara não passa de uma silhueta enquanto, para a manter esteticamente equilibrada, se tenta salvar o que for possível da placa do lado direito, que é primordial para o significado imediato da fotografia, pois é ela, ao assinalar a fronteira entre os sectores francês e soviético, que nos transporta de imediato até Berlim dividida. Fica para o final esclarecer que a história deste fugitivo não tem um final feliz: instalado na Baviera, Conrad Schumann assistiu à queda do Muro que ele vira, literalmente, começar a ser construído, para depois se vir a suicidar em 1998.

Como curiosidade veja-se acima um aproveitamento comercial do evento.

A MAESTRIA DOS OCTOGENÁRIOS - 2

Para encerrar o tema Em Nome da Pátria suponho que valerá a pena dar o devido relevo ao gesto do Professor Adriano Moreira que se dispôs não só a apresentar o livro como também a prefaciá-lo. Como as práticas da prudência recomendam que essas atitudes só se tomem depois de ler a obra e será impensável que aquele insigne Professor não o tenha feito, mesmo que ele não endosse aquelas opiniões, o seu contributo pelo menos caucionará o valor científico do que lá vem escrito… Se assim tiver sido, é mau. O que eu temo é que, aos 87 anos, o drama dos octogenários chechés não se limite a José Saramago

05 novembro 2009

QUE MUNDO MARAVILHOSO

Ainda a propósito do poste anterior e do autor que quis transportar a história final do Ultramar português e das três guerras contra-subversivas que lá se travaram para o campo dos afectos (literalmente, na p.479 do seu livro…), lembrei-me que não conheço associação melhor entre uma dessas falsas sensações de doçura e um conflito daquela natureza como aquela que aparece no vídeo acima, um trecho que foi retirado do filme Good Morning, Vietnam de 1987, ao som da inesquecível música What a Wonderful World cantada por Louis Armstrong.

EM NOME DA PÁTRIA - ÚTIL CONJUNTO DE TRETAS

Um dia, ao ler uma crítica de um livro na Amazon, descobri que existia uma descrição irónica sobre o método para tornar um livro mais extenso: Escrevendo antecipadamente sobre aquilo que se vai escrever, escrevendo depois sobre o que se quer escrever e escrevendo para terminar sobre o conteúdo do que se escreveu(1). Tal descrição aplica-se rigorosamente a Em Nome da Pátria, da autoria de João José Brandão Ferreira e às 551 páginas que o seu livro contém, resultantes, numa parte substancial, de repassagens consecutivas pelos mesmos temas, repisando as mesmas ideias, que o autor, sobre o vasto tema sobre o qual se propõe escrever – Portugal, o Ultramar e a Guerra Justa – não me parece que tinha assim tanto para dizer que justificasse tal espessura.

Para mais, se o livro me parece artificialmente inflacionado na quantidade da informação que o autor teria para nos transmitir, também me parece enganosamente ilustrado, com a capa (acima) e com 27 fotografias interiores mostrando vários momentos das Guerras de África (com fuzileiros, pára-quedistas, tropas combatentes em acção, sempre gente anónima), em completo desacordo com a abordagem que é feita à questão proposta, que rara e escassamente é técnica(2), optando-se pelos grandes protagonistas e pela ideologia. Contudo, realce-se que nenhum dos grandes figurantes foi escolhido para qualquer das 27 fotografias, nem mesmo o Professor Salazar, que é o indiscutível herói do livro. É uma omissão que, de tão forçada, acaba por tornar-se hipocritamente desajustada
E, por mencionar as fotografias, vale a pena mostrar aquela que foi escolhida para figurar em último lugar (acima), que desempenha praticamente o papel de contracapa e que contém a seguinte legenda: Fotografia emblemática dos portugueses na guerra. Considero que essa legenda final é também emblemática do conteúdo das 551 páginas anteriores. Uma certa forma de narrar o processo histórico, distorcendo uns factos, omitindo outros e falsificando ainda outros para que eles se conjuguem e formem um passado e uma evolução histórica que se possa ajustar às concepções ideológicas do autor. Coerentemente, nem mesmo as repassagens pelos mesmos temas mencionadas acima evitam que os mesmos disparates se voltem a repetir sobre o mesmo assunto(3).

Porém, é um livro utilíssimo. Porque são raros, são também raras as ocasiões em que os verdadeiros fascistas têm oportunidade de publicar as suas visões da história. Para que as apreciemos despojadas de demagogia. É o caso deste livro que serve para mostrar a falta de densidade intelectual de João José Brandão Ferreira. E a minha conclusão final é que não vale a pena levá-lo a sério. Porque, entre outras, pega numa fotografia de propaganda e pretende-nos fazer crer que ela é emblemática dos portugueses na guerra. Comparando-o com o cartaz abaixo, que é quase igual e data da ocupação alemã da França, será ele também emblemático dos alemães na guerra? Nos dois casos, a resposta à questão não pertencerá mais às crianças do que aos soldados?…
(1) Tell them what you're going to tell them, tell them, tell them what you've told them.
(2) Para exemplo da superficialidade técnica, mencione-se a página 423 onde há uma referência encadeada a helicópteros Bell 212 (fornecidos) e UH-1 (recusados) em que o autor (por acaso, antigo oficial da Força Aérea…) mostra desconhecer que está a referir-se à versão civil e militar da mesma aeronave.
(3) O presidente Jânio Quadros é qualificado repetidamente por Brandão Ferreira de cripto-comunista (pp. 74 e 363). Ora, só um ignorante chapado da história política brasileira recente é que escreveria isso.

04 novembro 2009

AOS QUATRO ANOS JÁ SE TENTA LER COMO UM ALMIRANTE

Se o ano passado dediquei o poste de aniversário deste blogue à precocidade do Engenheiro José Sócrates, que aos três anos já assistia a debates televisivos entre candidatos à presidência dos Estados Unidos, o meu poste de aniversário este ano é dedicado à caducidade do Almirante Américo Thomaz, que aos 72 anos (incompletos) ainda não sabia ler um discurso de forma a torná-lo compreensível para o auditório.
- Atingido o momento culminante… desta… grandiosa inauguração…dou graças a Deus… e declaro aberto ao tráfego… e posta ao serviço da nação… a ponte Salazar. A cena data da cerimónia de inauguração, a 6 de Agosto de 1966, uma data muito próxima do dia do meu próprio quarto aniversário (daí esta ligação), mas que eu festejei longe, em Bissau, onde me estava a aplicar para começar a ler ao menos no mesmo estilo do Almirante…

03 novembro 2009

UMA VIAGEM IMAGINÁRIA AO PROGRAMA LUNAR SOVIÉTICO

Ainda no seguimento do poste anterior, dos programas lunares e dos gigantescos foguetões lançadores que são necessários para os implementar, achei que valia a pena evocar o programa que os soviéticos desenvolveram durante a década de 60 para baterem os norte-americanos na Corrida à Lua. A começar pela fotografia acima, de dois modelos à escala dos foguetões Saturno V norte-americano e N1 soviético.
Sendo, como se vê, muito semelhantes em dimensões, e também em capacidades e propósitos, há contudo algo de fundamental a diferenciá-los: os resultados dos testes com o lançador soviético nunca o fizeram alcançar o grau de fiabilidade aceitável que o tornassem operacional, ao contrário do que aconteceu com o Saturno V. Os soviéticos perderam a Corrida à Lua por causa da primeira etapa: a partida da Terra...
Nos outros aspectos, desde a questão da viagem tripulada até à Lua até à aterragem na sua superfície, as pesquisas soviéticas progrediram a um bom ritmo, muito embora só depois de 1989 é que se viessem a conhecer os detalhes desses trabalhos, nomeadamente o aspecto dos protótipos construídos. Para que isso acontecesse reuniu-se o tradicional secretismo soviético com o secretismo embaraçado do derrotado.
As habilidades fotográficas podem fazer-nos apreciar hoje as naves soviéticas ao lado das norte-americanas como se elas de facto também tivessem estado no espaço. Mais acima pode ver-se a Soyuz 7K-LOK, o equivalente da Apollo CSM e, embaixo, a LK ao lado do LEM norte-americano. De notar que, enquanto os voos da NASA se destinavam a três tripulantes (2 na Lua) o soviético destinar-se-ia apenas a dois (1 na Lua).
Também se torna engraçado apreciar como é que os autores de BD naquela época imaginavam que seria o hardware soviético destinado à exploração lunar. Podemos ver duas cenas da aventura de Dan Cooper Apollo Chama Soyuz de 1969, em que, se as naves norte-americanas eram as conhecidas, as soviéticas resultavam da imaginação e dedução (relativamente apuradas, vê-se agora) do desenhador da série, Albert Weinberg.

02 novembro 2009

O PROJECTO CONSTELLATION

Discretamente, no meio de outras notícias de mais impacto, foi anunciado há uns dias o primeiro teste de lançamento do foguetão Ares I (acima). Enquadrado no Projecto Constellation, trata-se de um dos novos lançadores da classe Ares programados pela NASA para a próxima geração, em que entre os objectivos também se conta o retorno à Lua. Novo projecto esse que, para os mais atentos ou para aqueles que ainda se lembrem dos gigantescos foguetões do Projecto Apollo dos anos 60, parece um regresso ao passado, abandonando o conceito STS dos vaivéns espaciais dos últimos 30 anos.
Conforme se pode observar pela gravura acima onde se emparelham (da esquerda para a direita) as silhuetas do Saturno V (o antigo foguetão do programa lunar Apollo), o lançador do vaivém espacial e as configurações previstas para o Ares I (agora testado) e o Ares V (destinado às futuras missões lunares), o conceito de nave que reentra em voo na atmosfera em voo e que é reutilizável para as missões seguintes parece ter sido abandonado em benefício da configuração antiga das cápsulas que regressavam à Terra da forma tradicional (abaixo) – como continua a acontecer com as dos russos e chineses.
A notícia era curta, podia e devia ser sóbria, mas basta conjugar uma preocupação excessiva com um título apelativo com ignorância demasiada sobre o assunto sobre o qual se está a escrever para que a jornalista conseguisse arranjar um título disparatado para ela, como aconteceu no Público, ao descrever em título o Ares I como um mega-foguetão por causa dos seus 94 metros de altura. Veja-se outra vez a gravura mais acima e, constate-se a figura de trinca-espinhas que o Ares I (o segundo foguetão da direita) quando comparado com o antigo Saturno V (à esquerda) e o futuro Ares V (à direita).
A explicação para tal até era simples de encontrar: como as necessidades de potência para colocar uma nave em órbita terrestre (o objectivo do Ares I) são muito inferiores às de colocá-la em órbita lunar e como se pretende, por questões de economia, que os foguetões para os dois tipos de missões utilizem rampas de lançamento comuns, o seu design tem de sofrer adaptações. O antigo Saturno IB usava o espaço concebido para o Saturno V embora parecesse empoleirado de um banquinho (acima). O Ares I, para que caiba no mesmo espaço do Ares V, acabou por ficar com o formato de um lápis (abaixo).

01 novembro 2009

A MORTE EM DIRECTO DE RICARDO PALETTI

As imagens do vídeo acima são rigorosamente as imagens que foram transmitidas na tarde de Junho de 1982 em que a RTP fazia uma ligação à Eurovisão para transmitir o Grande Prémio do Canadá de Fórmula 1. Os comentários são completamente diferentes. Naquele dia houve (mais) um problema nas ligações telefónicas e, como não se podiam ouvir os comentários de Adriano Cerqueira, o tradicional comentador da Fórmula 1 que estava no local, perante a gravidade do que se estava a ver, improvisou-se, com a adição ad-hoc dos comentários do jornalista desportivo de serviço: Manuel Freire. Manuel Freire – que veio a ser parodiado na Informação 3 do Tal Canal através da figura de Manuel Cavaco a fazer de Manuel Freio – era um jornalista desportivo muito visto nos ecrãs por aquela altura e que se caracterizava pela sua atitude assertiva de quem levava as coisas muito a sério. O problema é que não percebia raspas de Formula 1… E foi assim que o auditório da RTP – composto naquele momento por uma esmagadora maioria de adeptos (conhecedores) da modalidade – foi brindado com um bom quarto de hora repleto de trivialidades e de disparates ditos com a voz mais séria e assertiva deste mundo
Pior do que o facto de Manuel Freire nem sequer conseguir identificar pelas imagens quem era o piloto sinistrado, o que era difícil devido ao facto de se tratar de um novato, percebia-se pela sua conversa que ele nem sequer conheceria mais de meia dúzia de nomes de pilotos (entre eles, alguns já retirados…) e identificar os ainda activos pelas imagens em directo estava muito para além das suas capacidades. Entre os disparates proferidos, recordo de memória esta ideia: …ser piloto de Formula 1 é muito perigoso e é por isso que se está a tornar cada vez mais difícil recrutar novos pilotos para a modalidade… Passado aquele embaraçoso quarto de hora (não sei se o foi para quem comentava, mas foi-o certamente para quem escutava os comentários…), Adriano Cerqueira lá apareceu em off a compor a situação, mas se agora recordo este episódio é para me maravilhar como o aparecimento na televisão de um jornalista visivelmente ignorante sobre o assunto de que falava me conseguiu marcar deste modo. Hoje, passados 27 anos, o Mundo (e eu) já teremos dado tantas voltas que creio que serão os aparecimentos na televisão de jornalistas solidamente informados os mais passíveis de me marcar

FORMAS DE EXPRESSÃO EM CAMPO

Este é um sinal táctico para que os dois defesas centrais do Sporting de Braga ajam emparelhados. Foi coincidência que Jorge Jesus tivesse feito um sinal táctico semelhante aos 4-1 no jogo da semana passada (abaixo), e é também uma coincidência que o jogo entre o Sporting de Braga e o Benfica tenha acabado ontem com o resultado em 2-0 a favor do Braga...

31 outubro 2009

PEDRO PASSOS COELHO EM FOTOGRAFIA

É apenas uma sugestão mas, para aqueles que se perguntam, tanto a sério como ironicamente, quais as razões para tal hostilidade entre os notáveis do PSD para com Pedro Passos Coelho, então usem a fotografia acima de Pedro Passos Coelho cada vez que pensarem nele. Com esse expediente, creio não só que, a situação política actual do PSD se torna mais compreensível como se dispensarão as críticas ao pensamento ziguezaguiante de Pedro Passos Coelho (o original), que ele tem outras virtudes, mas essa não. Há quem pensa por ele...