11 junho 2007

GUINÉ – BISSAU: NARCO – ESTADO?

Há ditados que o tempo transforma em anacrónicos. Muito antes dos aviários de criação industrial modernos havia um ditado popular português que estabelecia que quando o pobre come galinha, há um deles que está doente. Isso, por causa das reconhecidas virtudes terapêuticas das canjas e do preço elevado que então atingia a carne das aves, criadas em galinheiros domésticos e abatidas em dias de celebração – ou então quando alguma doença qualquer as dizimava...
E é esse ditado que pretendo aproveitar para o adaptar para os nossos tempos modernos. Quando uma revista de um certo mundo rico, liberal, como é o caso da The Economist, faz um artigo a respeito de um pequeno país pobre, do terceiro mundo, como a Guiné-Bissau é porque algo de estranho se está a passar: ou lá se descobriram jazidas de alguma matéria-prima em tal quantidade que mudarão o seu futuro, ou então é porque há bronca da grossa…

Infelizmente, para aqueles que tanto parecem gostar do país e da gente, há bronca da grossa… Acumulam-se os indícios que a Guiné-Bissau está em vias de se transformar no primeiro narco-estado africano, um entreposto onde se deposita a cocaína latino- americana depois da travessia do Atlântico, para escolha a partir dali das melhores vias de distribuição que possam atingir os mercados europeus. Duas apreensões de carregamentos de 600 Kg do produto nos últimos meses parecem confirmar esse cenário.

Citando os valores do próprio artigo, o impacto desta faceta da globalização na Guiné-Bissau pode ser melhor compreendida quando se calcula que o valor nas ruas na Europa da cocaína das duas apreensões efectuadas (60 milhões de US$) equivaleria a cerca de 20% do Produto Nacional Bruto guineense estimado para 2006 (300 milhões de US$). Má sina a deste país que ganhou o respeito dos portugueses que lá combateram pela forma como ganhou a independência, mas tarda em ganhá-lo depois disso…

LOLA BIP T292

O princípio da década de 70 era o tempo da ingenuidade em que as técnicas clássicas associadas às campanhas promocionais que surgem nos livros de Marketing ainda surtiam efeito, pela novidade. Eram os tempos em que a editora Publicações Europa-América promovia campanhas teaser* na televisão onde também usava refrões sugestivos como o quem não lê, chapéu!!!..., que entrou rapidamente no anedotário nacional por associação com os exuberantes adornos usados por Dona Gertrudes Thomaz**, a esposa do Almirante que presidia à nação.
Mas o exemplo de mais sucesso daquela época terá sido a enorme carga de notoriedade*** obtida por um, até então, obscuro e minúsculo banco, o Banco Intercontinental Português (BIP), dirigido por Jorge de Brito, e que foi conseguida através do patrocínio de uma escuderia automóvel e da aquisição de um carro da categoria de Sport 2 Litros competitivo para a época, um Lola T-292 (abaixo), que, com um leque de condutores competentes, conseguiu alcançar várias posições de destaque nos Campeonatos Nacionais e Europeus da modalidade.
A ironia de toda a história é que ao BIP faltava-lhe em solidez e solvabilidade o que lhe sobrava em notoriedade. Em evidentes dificuldades antes dele, depois do 25 de Abril foi discretamente absorvido por uma instituição bancária maior, antes do fervor que nacionalizou toda a banca portuguesa em Março de 1975… As Publicações Europa-América continuam de boa saúde, mas já não anunciam na televisão: os gostos e os telespectadores mudaram muito desde essa altura…

* Designação técnica para uma mensagem publicitária em que, numa primeira fase, não se faz qualquer menção ao produto a promover, mas se procura chamar a atenção do leitor/ouvinte/espectador pelo insólito. Depois de o deixar intrigado só posteriormente que se vem a revelar qual o produto.
** Foi época em que era chique escrever os apelidos de forma arcaica.
*** Notoriedade pretende aqui ser a tradução da expressão inglesa publicity, que não corresponde ao significado de publicidade em português (a expressão inglesa correspondente a esta última é advertising). A notoriedade acontece quando a campanha adquire uma difusão muito superior à que fora contratada e paga: era o caso da divulgação das notícias das corridas em que os carros do Team BIP ficavam bem classificados.

10 junho 2007

GUERRAS ESQUECIDAS (3): A GUERRA DO BIAFRA (1967-70)

Sir Abubakar Tafawa Balewa. Serão poucos os que hoje se recordam de quem era, mas lembro-me de ler um artigo extremamente elogioso a seu respeito publicado na Reader´s Digest*. Ao contrário do imprevisível Kwame Nkrumah**, Sir Abubakar aparecia como um líder de um futuro país africano em que, tanto a potência colonial britânica, como a própria superpotência norte-americana, depositavam confiadas esperanças para o futuro. Tanto parecia ser assim, que a imprensa o designava usando o título britânico Sir (genuíno: resultante de uma condecoração britânica que recebera) acrescentado ao seu nome… O país era a Nigéria, o mais populoso país africano, situado no Golfo da Guiné e o ano 1960.
A Guerra do Biafra (1967-70) foi uma – e é também designada por – Guerra Civil Nigeriana e é por isso conveniente dar uma explicação, ainda que simplificada, da complexidade do enorme país que Sir Abubakar iria dirigir. Como se pode observar no mapa acima a rede dos dois rios principais da Nigéria (o Níger, que lhe dá o nome, e o Benué, o seu afluente, que vem de Leste) desenha uma figura que faz lembrar um gigantesco Y. A organização da Nigéria colonial estruturava-se em três grandes regiões separadas pelas pernas desse hipotético Y: na de Sudoeste predominavam os Yoruba, na de Sudeste os Ibo e na do Norte os Hausa.

Mas a história das três regiões era completamente distinta: enquanto as duas primeiras já tinham tido contacto com os europeus (a começar pelos portugueses) desde o século XV, tendo-se desenvolvido um intenso comércio com eles desde aí (sobretudo de escravos…), o protectorado que estabelecera a supremacia britânica no Norte da Nigéria datava de 1901… O Norte era maioritariamente muçulmano mas no Sul predominavam os cristãos. Mas o historial dos estados dos Yoruba (como o do Benin***), que habitavam junto àquela que os portugueses designavam por Costa dos Escravos, era muito mais evoluído e distinto dos Ibo, que dominavam as zonas da Costa da Pimenta.

E há que ter em conta que esta descrição apenas pretende dar organização a uma realidade muito mais complexa: na verdade, a Nigéria tem mais de 250 grupos étnicos distintos e sensivelmente o dobro desse número em idiomas e dialectos e a indicação das suas regiões de origem não pode fazer esquecer como as etnias se acabam por misturar nas regiões mais férteis e nas grandes cidades, como acontece em quase todos os países africanos. A maior complexidade nigeriana advém apenas do facto de ser o mais populoso país do continente. E para a gerir, os britânicos tinham criado para o novo país uma Constituição cuidadosamente cheia de equilíbrios políticos regionais, para ajudar Sir Abubakar.

Sir Abubakar era um nortista. Por imperativos demográficos (a região continha cerca de metade da população nigeriana), o primeiro-ministro nigeriano teria de o ser. Mas o funcionamento das instituições obrigaria a que o partido predominante entre os Hausa se coligasse com outra organização de outra região. Assim se fez: durante os primeiros cinco anos o país foi governado por uma coligação entre o NPC (Congresso Popular da Nigéria) dos Hausa e o NCNC (Convenção Nacional dos Cidadãos Nigerianos) dos Ibo. A oposição era composta pelo AG (Grupo de Acção) dos Yoruba. Depois, toda essa estrutura não resistiu a uma mudança de alianças no governo federal e tudo explodiu...

O exército imiscuiu-se na política e a situação começou a degradar-se por causa de um golpe de estado dado por um grupo de oficiais, onde predominavam oficiais de origem Ibo, que derrubou o governo federal, assassinando o primeiro-ministro, Sir Abubakar, em Janeiro de 1966. Houve um contra golpe, seis meses depois, onde predominavam os oficiais nortistas, que foi acompanhado de manifestações populares e de perseguições contra os Ibo residentes fora da sua região. O exército acabou por se fracturar etnicamente, considerando os Ibo que podiam declarar a secessão da sua região da Nigéria, contando com a riqueza das jazidas petrolíferas que entretanto haviam sido descobertas no delta do rio Níger.
Foi o que veio a acontecer em Maio de 1967, com a proclamação da independência da República do Biafra. O governo federal nigeriano opôs-se e começou a Guerra do Biafra (1967-70). Em sentido estrito não se trata de uma guerra esquecida; pelo contrário, terá sido uma das guerras mais vistas, com as suas emblemáticas fotografias de crianças de ventre inchado pela fome. Mas isso não era a guerra propriamente dita, antes uma consequência do bloqueio que os federais haviam instalado à volta do Biafra. E a sua divulgação mundial, a suscitar simpatia e comiseração pela causa biafrense, era uma excelente manobra mediática até então inédita.

Só que já serão poucos os que conhecem o que podia vir a estar em causa com o sucesso da secessão do Biafra e quem apoiava, de forma aberta ou encapotada, cada um dos lados então em conflito. É que os apoios cortavam transversalmente o bloco Ocidental, escavacando a lógica da Guerra-Fria e isso era coisa difícil de explicar. Os apoios ao governo federal nigeriano eram assumidos, enquanto o apoio à secessão do Biafra era muito mais discreta. E quase tudo se podia explicar através da questão do petróleo: começando pelos britânicos e pelas suas companhias petrolíferas que, reforçados pelas norte-americanas e pelos norte-americanos, apoiavam o governo federal da Nigéria.
Mas os fornecimentos de material militar de origem ocidental eram cuidadosamente ponderados por aquelas duas potências para que servissem para a supressão da insurreição do Biafra sem que pudessem colateralmente pôr em causa o equilíbrio militar de toda aquela região para insatisfação do governo federal da Nigéria. Foi essa brecha que a União Soviética se apressou a suprir, fornecendo os nigerianos com material sofisticado para os padrões da época como o Mig-17 e o Il-28 fotografados acima. A esmagadora maioria dos países africanos também apoiavam politicamente os federais, dado que o precedente da secessão do Biafra poria em causa a coesão de todos eles.

Do outro lado estavam, descaradamente, aqueles países que questionavam o status quo africano da época da pós descolonização, como eram os casos da África do Sul e de Portugal (apoio logístico a partir de São Tomé) e, de forma encapotada, os interesses das petrolíferas francesas e, de forma mais genérica, um bloco que se pode identificar como o eixo franco-alemão que prosseguia em África uma estratégia frequentemente distinta da das duas potências anglo-saxónicas. Essa distinção é visível no apoio material que aqueles dois países davam ao equipamento do exército português em África: a G-3, os helicópteros Allouette III, os Fiat G-91, as Berliets e os Unimogs…

O peso dos números e dos apoios, no entanto, estava do lado federal e o auxílio que chegava ao lado biafrense tinha de ser dissimulado, como os mercenários que instruíam e enquadravam as forças rebeldes ou os voos clandestinos que as reabasteciam em artigos vitais. Pelo contrário, os novos aparelhos fornecidos pelos soviéticos à Força Aérea Nigeriana eram pilotados por egípcios destacados por Nasser para esse efeito. Mesmo assim, entre os federais não havia capacidade de pôr fim directamente à rebelião e houve que esperar que os efeitos do bloqueio se fizessem sentir. Por outro lado, sendo certa a vitória federal no desfecho da Guerra, o seu prolongamento perdia todo o sentido.
A Guerra do Biafra terminou em Janeiro de 1970. Parecia haver, de facto, uma vontade genuína entre os Ibo em criar uma nação separada, uma causa mais aproveitada do que fomentada por quem os apoiou na criação da República do Biafra. Como acontece com os Confederados da Guerra Civil Americana (1861-65), o estatuto de parte mais fraca no conflito granjeou ao Biafra a simpatia natural de certa parte da opinião pública que gosta de torcer por ela. Essa predisposição foi muito bem aproveitada nas manobras montadas na comunicação social expondo na comunicação social mundial as consequências do bloqueio provocado pelos federais. A causa do Biafra ainda tem defensores românticos – fora da Nigéria…

Só que o problema das consequências do hipotético êxito da secessão do Biafra seria a abertura de uma verdadeira Caixa de Pandora à escala continental: além da implosão imediata da Nigéria, o efeito multiplicado de múltiplas secessões que poderiam acontecer em quase todos os países africanos é arrepiante de imaginar… A Nigéria é hoje uma federação de 36 estados, suficientemente pequenos para que a secessão de um deles não seja levada a sério. A presença dos militares na vida política nigeriana faz parecê-la uma espécie de Turquia africana: em caricatura, ou eles estão no poder, ou acabaram de estar, ou preparam-se para dar um golpe de estado para o recuperar...

* Selecções do Reader´s Digest: revista generalista norte-americana, publicada em vários idiomas, e que se alinha normalmente com as posições republicanas.
** Kwame Nkrumah (1909-72): primeiro dirigente político do primeiro estado africano a tornar-se independente do domínio britânico (Ghana em 1957), com um passado de luta política contra a tutela colonial.
*** O Benin histórico data do século XV, fica na Nigéria actual e não tem nada a ver com o país que tem hoje com a mesma designação, que fica na região que era conhecida pelo nome de Daomé (colónia francesa).

09 junho 2007

OLIVER CROMWELL

Oliver Cromwell (1599-1658) foi um político e general britânico do século XVII, que é considerado o principal responsável pela abolição da monarquia britânica (1649) e pela instauração de um regime de inspiração republicana, conhecido pelo nome de Commonwealth (1649-1660), à frente do qual Cromwell assumiu o cargo dirigente com o nome de Lorde Protector. Para mais, a sua ascensão ao poder foi o culminar vitorioso da Guerra Civil Inglesa (1642-1651 - há quem as desdobre em três) que, apesar do nome, envolveu tanto a Inglaterra e Gales como a Escócia e a Irlanda e que teve o seu momento mais significativo na captura e execução do rei legítimo Carlos Stuart em 1649.
Já se passou tempo suficiente (350 anos…) para que o tempo fizesse integrar a figura de Cromwell naquela corrente feita de lugares comuns convencionais que as histórias nacionais, em geral, e a história do Reino Unido, em particular, sempre possuem. Mas não. Cromwell permanece a figura controversa que sempre foi, como se tudo aquilo que esteve em disputa na Guerra Civil que venceu fosse um assunto geneticamente indissociável da maneira inglesa de ser e que tivesse ficado para sempre por resolver. E há quem descreva choques pessoais entre personalidades britânicas do século XX equiparando-os às facções em disputa nessa Guerra Civil: os cavaleiros e os cabeças redondas*.

Assim, a imaginação de equiparar as disputas da condução estratégica da Segunda Guerra Mundial pelos britânicos a um confronto entre alguém com a mentalidade de um cavaleiro (representado por Winston Churchill) e outro com a de um cabeça redonda (representado pelo Marechal Alan Brooke**, ou então, para quem não conheça este último, pelo seu protegido e muito mais conhecido, Bernard Montgomery) faz todo o sentido, mesmo que as divergências acontecessem 300 anos depois do fim da Guerra Civil… E talvez hoje ainda possam continuar a fazer algum sentido na maneira como se concebe as opçoes à sucessão de Tony Blair entre Gordon Brown e David Cameron…
Oliver Cromwell apareceu entre as fileiras dos que diziam defenderem a liberdade (o poder do parlamento) contra o poder discricionário régio de Carlos Stuart. Na realidade, sob o regime que veio a impor, concentrava no cargo que ocupava muitos mais poderes do que aqueles que o rei dispunha e que o haviam levado a juntar-se aos que enfrentavam. E quanto aos poderes do parlamento, em nome do qual havia sido desencadeada a insurreição que levara à Guerra Civil, haviam sido manipulados à custa de uma descarada intimidação militar sobre os parlamentares. Pior, mandara decapitar Carlos I. Mas o que mais incomoda em Cromwell é que suponho que ele representa o que mais se aproxima de um projecto britânico de poder pessoal.

Ora a língua inglesa faz uma distinção entre os cargos de chairman e de president, que em português se traduzem da mesma maneira: presidente. Só que o primeiro é um primeiro entre iguais que dirige uma reunião, como o primeiro-ministro britânico, o segundo, como acontece nos Estados Unidos, é aquele que encarna o poder. E o Reino Unido é um país de chairmans, enquanto Oliver Cromwell parece ter sido um exemplo perfeito de um president, naquele género que é muito apreciado em França, por exemplo, recordem-se as figuras históricas de Luís XIV, Napoleão, de Gaulle ou Mitterrand… Mas que não se encaixa de todo na história e nos valores que a sociedade britânica pretende defender…
Nota às imagens: É irresistível a ironia da gravura inicial deste poste onde Oliver Cromwell aparece retratado como se se tratasse de um monarca da época, como provavelmente seria a única forma que o autor da gravura conceberia que os poderosos fossem retratados. Além da estátua de Cromwell em Westminster, o carro blindado data da Segunda Guerra Mundial e a respectiva classe foi baptizada com o nome de Cromwell.

* Roundhead no idioma original.
** Sir Alan Brooke, Chefe do Estado-Maior Imperial (CIGS), durante a Segunda Guerra Mundial (1941-46).

08 junho 2007

GUERRAS ESQUECIDAS (2): A GUERRA CIVIL IEMENITA (1962-70)

Possivelmente, uma das razões principais para que esta seja uma guerra esquecida foi porque se travou num país esquecido… O Iémen localiza-se no canto inferior esquerdo (sudoeste) da Península Arábica. E, contrariamente ao que acontece com os outros países peninsulares, existem ali desde há milénios grandes regiões adequadas à agricultura e a maioria da população iemenita cedo se tornou sedentária. E a região era conhecida pela sua prosperidade (conhecida por Arábia Félix pelos romanos), com os seus portos localizados idealmente como escala do comércio marítimo entre a Índia e o Egipto. Sabe-se que os romanos estudaram a hipótese de tornar o Iémen num protectorado, mas desistiram

Pela sua localização, o Iémen foi das regiões que mais cedo – ainda em vida de Maomé – caíram sobre controlo muçulmano e que mais depressa se islamizaram. Uma das características do Iémen de então (e que voltou a existir na actualidade) são taxas elevadas de crescimento demográfico, o que levou muitos iemenitas a emigrar: uma significativa proporção da colonização árabe nas regiões meridionais da Península Ibérica nos séculos VIII e IX, por exemplo, é atribuível a clãs de origem iemenita. Mas não tardou a que os particularismos iemenitas ressurgissem, com o aparecimento de uma dinastia local (zaídita) que, quase naturalmente, abraçou o xiismo…

Como os suíços na Itália medieval, os escoceses das terras altas da Escócia no Reino Unido ou os cossacos na Rússia, os iemenitas com um excesso tradicional de população jovem, tornaram a carreira das armas ao serviço dos estados muçulmanos numa tradição cultural sua. E quando essas fontes de recrutamento desapareciam momentaneamente o efeito fazia-se sentir imediatamente no aumento das lutas internas entre os clãs locais. No século XIX, o Iémen acabou repartido entre duas esferas de influência: ao norte, 40% do território mas 80% da população caíram sobre a tutela otomana e ao sul, os britânicos, pretendendo sobretudo ficar com o porto de Aden, crucial para a ligação com a Índia, ficaram com o restante.

No fim da Primeira Guerra Mundial, a repartição do Império Otomano deu origem ao aparecimento de vários estados árabes, alguns deles inéditos, como o Reino da Arábia Saudita (1932), que ficou com o controlo dos lugares santos do Islão: Meca e Medina. Mas também o soberano iemenita (Yahya Muhammad) proclamara o Reino do Iémen (do Norte) em 1926. Hoje não parece, mas era uma solução estrategicamente equilibrada. Não fosse o aparecimento das jazidas de petróleo saudita (descobertas na década de 1930, mas só exploradas depois da Segunda Guerra Mundial) e o Iémen (hoje com 21 milhões de habitantes) seria naturalmente o grande rival regional da Arábia Saudita (27 milhões).

A particularidade da Guerra Civil Iemenita é que se torna muito complicado de a descrever em função das facções intervenientes, bem no estilo do confronto entre clãs locais, quase na modalidade de quase todos contra quase todos… A única questão clara a seu respeito é que se tratou de uma guerra subversiva (e contra-subversiva...) como então parecia estar na moda (Vietname, colónias portuguesas). De resto, a guerra foi travada em dois estados simultaneamente (Iémen do Norte e do Sul), no primeiro caso entre 1962 e 1970 e no segundo entre 1963 e 1967, embora os dois estados não se confrontassem directamente. E quem promovia a subversão num deles estava aliado a quem fazia a contra-subversão no outro…

Mais concretamente, a confusão começara quando o Egipto, liderado por Gamal Abdel Nasser, havia fomentado um golpe de estado no Iémen do Norte em Setembro de 1962, extinguindo a Monarquia e proclamando a República, muito à semelhança do que acontecera em 1953 no próprio Egipto. Só que alguns clãs norte-iemenitas pronunciaram-se a favor do rei (que escapara ao golpe de estado) e este grupo recebeu desde logo o apoio material dos sauditas que não haviam apreciado particularmente a jogada egípcia. Mas o regime republicano recém instaurado não estava à altura de resistir a uma contra-ofensiva monárquica com apoio saudita: o Egipto teve de enviar tropas suas.

O contingente egípcio (que se crê ter chegado a atingir os 50.000 efectivos em 1967*) consolidou de facto o regime republicano, mas não conseguiu eliminar a ameaça das guerrilhas dos clãs monárquicos. Contudo, os egípcios passaram a estar geograficamente muito mais próximos para poderem apoiar materialmente os nacionalistas do Iémen do Sul que procuravam eliminar a presença britânica, num conflito colonial dos tradicionais. O que fizeram. A primeira acção dos nacionalistas sul-iemenitas da FLN (Frente de Libertação Nacional) foi em Dezembro de 1963 e foi particularmente espectacular, como seriam muitas outras nessa guerra desse lado da fronteira.

O Alto-Comissário, a figura mais importante da administração civil do território, foi vítima de um atentado à granada, onde morreu uma pessoa e mais cinquenta ficaram feridas… De facto, procurando num globo, é difícil encontrar um local onde, quer geograficamente, quer sociologicamente (como no faroeste americano, é da tradição local que qualquer homem adulto possua uma arma individual...), as condições sejam mais propícias à guerrilha… Para a continuação da nossa história, interessa saber que, o apoio egípcio às acções da FLN no Iémen do Sul, fez com que os britânicos apoiassem reciprocamente os rebeldes monárquicos do Iémen do Norte.

Ao longo deste conflito, a posição das duas superpotências foi algo distanciada, embora desde o princípio fosse perceptível o interesse da URSS em ganhar eventualmente uma posição estratégica num porto amigável que controlava a entrada do Mar Vermelho (Aden). Mas, para o fazer, os interesses soviéticos não coincidiriam completamente com os dos seus aliados egípcios, já engajados no Iémen do Norte em apoio das forças republicanas… Parcialmente por causa disso, mas também aproveitando a propensão dos clãs para se combaterem entre si, a oposição armada à presença britânica no Iémen do Sul cindiu-se em 1966 entre a FLN e a FLOSY (Frente de Libertação do Iémen do Sul Ocupado)
.
Como aconteceu em Angola (com o MPLA, a FNLA e a UNITA), uma guerra civil interpôs-se no meio de uma guerra subversiva. O Reino Unido viu-se forçado a antecipar as datas do calendário de retirada que estabelecera, perdendo o controlo da situação. Em Junho de 1967 houve um motim entre as forças militares e policiais de recrutamento local e o dispositivo de segurança britânico ficou reduzido às forças europeias. A capital, Aden, caiu nas mãos da FLN que expulsara a FLOSY. Pior do que aconteceu com Portugal em Angola em Novembro de 1975, só mesmo a reputação de que a cerimónia do arrear final da bandeira britânica, a 30 de Novembro de 1967, teve lugar já na segurança de um navio…

Vale a pena recordar, porque é um facto que não é normalmente levado em conta que, em Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, o Egipto tinha uma fracção dos seus recursos militares engajados na Guerra Civil do Iémen do Norte. A derrota egípcia de 1967 foi um dos factores a pesar na predisposição do Egipto para a negociação. Outro foi a vitória da FLN e das correntes mais pró-marxistas dentro dela na Guerra Civil do Iémen do Sul, em detrimento das correntes mais pan-árabes laicas, próximas do que se convencionou chamar nasserismo. O Egipto distanciou-se da URSS. Do outro lado, desde que haviam programado a sua saída da região, os britânicos haviam cessado o seu apoio aos monárquicos.

Depois de uma última ofensiva em 1968, em que os monárquicos chegaram a cercar a capital do Iémen do Norte, Sanaa, a Arábia Saudita acabou por reconhecer o regime republicano iemenita enquanto os egípcios retiravam completamente o seu contingente em 1970, pondo fim ao conflito. Tanto a norte como no sul, as forças convencionais egípcias e britânicas nas suas operações de contra-subversão e mesmo estando em lados opostos levaram ambas uma tareia das antigas**… Curiosamente, para uma região tão carregada de hostilidade, as relações entre os dois estados iemenitas sempre foram comparativamente pacíficas*** até à sua reunificação em 1990.

* Sensivelmente a mesma dimensão do dispositivo militar que Portugal tinha em Angola por essa mesma altura.
** É um episódio muito discretamente mencionado na historiografia militar britânica. Compreende-se porquê.
*** Mais cordiais do que as das duas Alemanhas, por exemplo, para não mencionar o exemplo das duas Coreias ou dos dois Vietnames…

07 junho 2007

QUEM É O QUE APARECE AO CENTRO?

Penso que blogosfera também pode servir para lançar apelos. Neste caso, deixem-me explicar que sempre consigo desenrascar-me no reconhecimento de quem-é-quem na tradicional fotografia de conjunto das cimeiras do G-8, como a que se está a realizar actualmente em Heiligendamm, na Alemanha. O truque consiste em eliminar todos os que conheço e depois, dos dois que sobram, há um que é asiático e que é o primeiro-ministro japonês e outro que não, que deve ser o primeiro-ministro do Canadá.

Ora, o truque saiu-me furado na fotografia de conjunto acima onde, a juntar aos responsáveis, aparecem por perto deles as respectivas madames. E sobram-me dois caucasianos desconhecidos: um do lado superior esquerdo, com a sua madame, que eu deduzo ser o genuíno primeiro-ministro canadiano, e outro, no lugar mais central da fotografia, ao lado de Ângela Merkel, o que me faria deduzir tratar-se de Herr Merkel, não se desse a circunstância de eu saber que não há nenhum Herr Merkel…

Alguém me sabe dizer quem ele é? É que também me custa aceitar - por muito que estas fotografias se pretendam informais - que deram o lugar mais nobre da fotografia ao namorado da Ângela Merkel…

O PINCEL DE BARBA E O PROCESSO CRIATIVO DAS IDEIAS

Um dos aspectos que é levado muita a sério no estudo das organizações é o da gestão das ideias novas. Há uma corrente democrática que acredita que a ocorrência de boas ideias se distribuem uniformemente pelos membros da organização e que isso deve ser aproveitado através da complementaridade dos diferentes pontos de vista em reuniões criativas, descontraídas, onde a hierarquia desaparece, designadas por brain storm. Diz-me a experiência que o brain storm é facílimo de sabotar quando o chefe se esquece de deixar a autoridade à porta e conduz a reunião para a elaboração das suas próprias ideias, que saem dali com uma chancela democrática*.

A corrente autocrática, ao menos, não corre o risco dessas hipocrisias. O chefe encomenda as ideias e elas são trabalhadas num círculo restrito ou resolve ficar com o exclusivo da origem das mesmas, o que pode ser grave, muito grave. A gravidade é que elas normalmente aparecem em esboço, nebulosas, sem análise das implicações que resultariam da sua implementação, o que as faz parecer resultados de sinapses matinais dentro da cabeça do chefe, enquanto ele se barbeava ou tomava o duche. O que costuma dar origem ao comentário mordaz e clandestino: Alguém tem de ensinar o chefe a assobiar ou a cantar para que ele esteja entretido na casa de banho de manhã…

Se já vi este método em variadíssimas organizações, o que eu nunca presenciara era um governo a conduzir a sua acção governativa pela produção e divulgação pública de ideias que, não tendo qualquer suporte em propostas ou projectos de legislação, parecem ter saído da ponta de um pincel de barba matinal de um qualquer ministro ou secretário de estado. Este último caso do secretário de estado da administração local, Eduardo Cabrita, mais a sua proposta de suspensão automática dos mandatos autárquicos e mais todos os problemas colaterais que levanta (consistência, constitucionalidade…) só lhe devem ter feito sentido às 7H15 da manhã, antes de ter tomado o pequeno-almoço…

* O método é muito mais antigo e não se confina apenas às áreas de gestão. De um exemplo ao acaso retirado do PREC, podem evocar-se algumas das decisões do major Tomé na Polícia Militar, que não eram dele, mas da assembleia da unidade, composta revolucionariamente por todos os praças, sargentos e oficiais da mesma…

06 junho 2007

GUERRAS ESQUECIDAS (1): A GUERRA SINO-INDIANA DE 1962

No dia em que a China e a Índia pretenderem envolver-se num conflito a sério não vão precisar de muito tempo para arranjar um pretexto para o desencadear. Tanto assim é que, de um e outro lado, cada potência tem na sua carteira o pretexto para causar sarilhos do lado do oponente: os guerrilheiros naxalitas de inspiração revolucionária maoista que operam nalguns estados do nordeste da Índia serão nessa eventualidade a quinta coluna dos chineses e, embora de aparência mais pacífica, as directivas que o Dalai Lama (que reside no norte da Índia) possa fazer à população tibetana, da qual permanece o chefe espiritual, poderão plausivelmente causar o caos nas retaguardas chinesas.

Por outro lado, toda a extensa fronteira que separa a China e a Índia é composta maioritariamente pelo território inóspito das zonas mais elevadas da cordilheira dos Himalaias e foi traçado nos inícios do século XX, confrontando, à mesa das negociações, os interesses do Reino Unido, no zénite do seu poder (de facto, a superpotência mundial) e os da China, no nadir do seu. Quer todo este preâmbulo deixar claro que as potencialidades de conflito entre os dois gigantes asiáticos eram e são infinitas e que a pergunta a fazer não será o que é que desencadeou a guerra mas antes o que terá acontecido em 1962 para que os dois países se decidissem a defrontar-se militarmente.

A República Popular da China, até devido à forma como fora criada depois de uma vitória numa guerra civil nunca tivera quaisquer problemas quanto ao recurso ao uso da violência. Provara-o logo dois anos depois do seu nascimento intervindo na Guerra da Coreia. O mesmo não se passava com a Índia, que tinha uma imagem de pacifismo a preservar, herdado do estilo ímpar do Mahatma Ghandi, a figura reverencial que presidira ao nascimento da nação. Mas era uma preocupação que se manifestava mais na aparência do que na substância: à data da independência (1947) o novo estado indiano mantivera e até reforçara o dispositivo do Exército Indiano que herdara dos britânicos.

O problema do outro lado dos Himalaias era precisamente o simétrico do da Índia: a aparência da política externa chinesa era marcada por uma retórica tremendamente agressiva, da responsabilidade de Mao Zedong (que assustava e que contribuía muito para transformar a China no estado pária raivoso onde a diplomacia norte-americana a queria colocar), enquanto as manobras suaves, mas mais construtivas, estavam a cargo do primeiro-ministro Zhou Enlai. A participação chinesa na conferência de Bandung de 1955, quando Zhou declarou que a lealdade política dos membros da diáspora chinesa devia privilegiar os países onde habitavam, é disso um exemplo flagrante.
Mas nem toda a flexibilidade de Zhou Enlai poderia resolver o problema do traçado fronteiriço sino-indiano. Os britânicos, na perspectiva da defesa da posição meridional indiana, haviam-no desenhado assegurando-se de todos os pontos convenientes, assim como alguém se assegura que as suas calças não caem usando cinto e suspensórios ao mesmo tempo… O nacionalismo indiano triunfante transformara, depois da independência, regiões com fronteiras de contornos muito imprecisos (veja-se o mapa de cima) em territórios descaradamente reclamados pela Índia como se comprova pelo mapa de baixo. Querendo tudo, a Índia caía na armadilha da situação de ter que ser ela a ceder qualquer coisa perante a China.
Estruturalmente, a China sempre teve um problema com as suas duas províncias do extremo ocidental (assinaladas a cinzento, no mapa abaixo): o Xinjiang, povoada por uígures de confissão muçulmana e o Xizang ou Tibete, onde os tibetanos são de confissão budista e obedientes a uma hierarquia encabeçada pelo Dalai Lama. Três anos antes destes acontecimentos (1959) este havia fugido do Tibete e refugiara-se na Índia. A China estava ainda na expectativa do que o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru poderia fazer da sua presença. Por outro lado, o ano seguinte, de 1960, é o da consumação da ruptura sino-soviética. A China vivia então sob uma certa impressão de cerco.
Do outro lado, a sensação era completamente diferente, a Índia aumentara a sua auto-segurança. Em primeiro lugar, através da assinatura de um Acordo com o Paquistão sobre o uso das águas do Rio Indo e seus afluentes (1960). Era um acordo que transcendia muito os benefícios funcionais, porque significava também uma distensão nas relações entre os dois herdeiros da Índia Britânica, desavindos por causa do conflito de Caxemira. O segundo motivo, com reflexos tanto no campo militar como diplomático, resultara da facilidade e da impunidade com que a Índia anexara as possessões portuguesas, depois do impasse das negociações, em Dezembro de 1961.

Valha a verdade que parece ter sido desde sempre a intenção chinesa a de levar os indianos à mesa das negociações através de demonstrações militares. Gradualmente o dispositivo chinês nas duas regiões contestadas (como se nota nos mapas anteriores elas estão afastadas por cerca de 1.500 Km) foi aumentando até que a superioridade chinesa em homens e material se tornou incontestável. A resposta indiana foi a de um jogo táctico de colocação de pequenas guarnições em locais privilegiados, como uma espécie de jogo de xadrez jogado com soldados reais e a 5.000 metros de altitude… Em teorias estratégicas, Sun Tzu e A Arte da Guerra defrontavam Kautiliya e O Arthashastra…

Só que esta imagem é muito mais sugestiva do que verdadeira: o exército indiano moderno é um verdadeiro descendente do modelo britânico e, como tal, tem uma abordagem tipicamente ocidental para lidar com os problemas estratégicos e tácticos com que se defronta. E os segundos que se colocavam ao exército indiano perante o ELP (Exército de Libertação Popular) chinês não tinham nada do convencionalismo da invasão indiana a Goa, Damão e Diu. Os britânicos não haviam deixado grande tradição nem doutrinas de combate para unidades de montanha (as ameaças à Índia britânica eram outras…) e, ultrapassando um pouco o detalhe dos diversos recontros, os indianos levaram uma tareia das grandes…

Note-se que, se os combates duraram de 10 de Outubro a 20 de Novembro de 1962, tão tarde quanto a data de 3 de Outubro, Zhou Enlai ainda fez uma visita a Nova Deli, ao seu homólogo Nehru, na esperança de obter ainda uma solução negociada quando a facção dura do lado chinês (Lin Biao, o ministro da defesa) já se preparava para a ofensiva eminente. O que a China pretendia, de facto, e como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar, era sobretudo o contrôle de uma parcela de território disputado (Aksai Chin - abaixo) onde passava a estrada de primordial importância estratégica para a China que, acompanhando a fronteira, fazia a ligação directa entre o Tibete e o Xinjiang…
O detalhe das operações tácticas está pejado de atitudes da parte do ELP que se tornariam incompreensíveis pela gramática ocidental da guerra: retiradas unilaterais para posições 20 Km à retaguarda de posições que anteriormente haviam sido conquistadas depois de combates árduos ou cerimónias formais com honras militares de enterro dos inimigos mortos realizadas em zonas próximas da frente de combate por forma a que elas fossem vistas pelos indianos… Nos 40 dias de combates, nas duas frentes de combate, terão morrido cerca de 5.000 soldados (2/3 deles indianos) e os chineses terão feito, para além disso, cerca de 4.000 prisioneiros.

A China conseguiu o que queria e a Índia e o exército indiano tiveram que recolher as penas com que se pavoneavam por terem derrotado Portugal e o exército português na Índia, cujo plano táctico se resumira à produção de umas centenas de mártires para apresentação à mesa das negociações… Desde aí, para além de um cuidado muito maior na doutrina de emprego das unidades de montanha (que já lhe foi útil contra o Paquistão, em Kargil em 1999) o Exército Indiano preocupou-se em adquirir uma capacidade de reacção rápida usando o transporte aéreo que já demonstrou toda a sua utilidade em 1987, ao responder à movimentação discreta de um contingente chinês nas regiões ainda disputadas com a deposição quase imediata no terreno de uma brigada aerotransportada para o bloquear, surpreendendo totalmente os chineses.

05 junho 2007

EM DEFESA DO PROGRAMA DO MARCELO

Tenho a impressão que chegará o dia em que, como no conto de Andersen e a respeito da capacidade de influência que o programa de televisão de Marcelo Rebelo de Sousa traz ao próprio, se descobrirá que o rei vai nu… Entretanto, entre os que se consideram elites, que estão sobre representados na blogosfera e onde me incluo, Marcelo é um artista – um verdadeiro artista – de televisão em que até dá imenso gosto dar pancada.
Não vale a pena é excedermo-nos no entusiasmo, como que parecendo pedir o fim do seu programa, cuja valia no domínio do entretenimento considera-se ser indiscutível. Afinal, de acordo com uma citação da inolvidável série de humor política britânica Yes, Prime Minister, o programa de Marcelo tem a dificuldade de pertencer à categoria dos segundos programas mais chatos em televisão – aqueles em que só se diz mal do governo…
É que, mau grado essa dificuldade, o programa de Marcelo parece estar muito pontos acima daqueles que, segundo a mesma citação do Yes, Prime Minister, pertencem à categoria dos programas de televisão mais chatos de todos – os que só dizem bem do governo… É que, ninguém, mas mesmo ninguém, parece ter pachorra para assistir, muito menos comentar e criticar o programa de António Vitorino… Se calhar, quem dera a Vitorino e a Judite Sousa que lhes batessem…

O LUSITÂNIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Conta-nos a História da Primeira Guerra Mundial que um dos factos marcantes que levaram à participação posterior dos Estados Unidos ao lado da Entente Cordiale (entendimento cordial - designação da Aliança firmada em 1904 entre a França e o Reino Unido) contra as Potências Centrais, foi o episódio do afundamento por um submarino alemão, a 7 de Maio de 1915, do paquete Lusitânia ao largo das costas irlandesas. Foi um episódio que o historiador Niall Ferguson escolheu para marcar o fim do que chama a era da primeira globalização.
O Lusitânia era um daqueles paquetes tradicionais do início do século passado (era um dos rivais do famoso Titanic) e transportava na altura quase 2.000 passageiros, dos quais 10% (197) eram de nacionalidade norte-americana. No desastre (o navio afundou-se muito rapidamente, em 18 minutos) morreram 1.198 pessoas, entre as quais 128 norte-americanos e a gestão da notícia na América pelos britânicos provocou um ultraje tal na opinião pública que o próprio Presidente Wilson se viu em dificuldades para a aplacar. Só em 1917, os Estados Unidos intervieram na Guerra, como potência associada.

A 3 de Setembro de 1939, o próprio dia em que terminou o ultimato que levou à declaração de guerra do Reino Unido à Alemanha, o paquete Athenia, que saíra nesse mesmo dia de Liverpool com destino ao Canadá com 1.100 passageiros a bordo (dos quais mais de 300 eram norte-americanos) foi torpedeado precisamente ao largo da Irlanda, como acontecera com o Lusitânia. Vários navios precipitaram-se para auxiliar os náufragos mas, mesmo assim, morreram 112 pessoas, incluindo 28 americanos.
O episódio foi embaraçoso para os dois lados: o comandante do submarino alemão estava rigorosamente proibido de afundar navios de passageiros sem pré-aviso e fê-lo porque confundira o Athenia com um navio de guerra; a grande maioria das vítimas não resultou directamente do afundamento do Athenia (que demorou 12 horas a afundar-se…) mas da descoordenação dos esforços de salvamento, nomeadamente de uma balsa salva-vidas cheia que foi estraçalhada pelo hélice de um dos navios salvadores.

Mas o que interessa destacar é que, houvesse interesse dos norte-americanos em envolverem-se desde o princípio no conflito europeu, os Estados Unidos dispuseram desde o primeiro dia de um novo caso Lusitânia e de um pretexto para se envolverem na Segunda Guerra Mundial. Esta instrumento histórico, que não foi utilizado e muito pouco conhecido, é um daqueles exemplos mais flagrantes de que a política externa das potências sempre se orientou pelo realismo.

04 junho 2007

PORTUGAL E O FUTURO


Uma pequena nota de reflexão em adição ao poste anterior. É significativo e simbólico do isolamento e atraso ideológico do Portugal da fase terminal do Estado Novo que, mais de 15 anos depois do episódio descrito abaixo, um livro denominado Portugal e o Futuro, escrito por um outro general (Spínola), tentasse preconizar outra impossível quadratura do círculo para o problema colonial, e essa tentativa tivesse sido levada muito a sério…

QUEM NÃO QUIS COMPREENDER O DISCURSO EM QUE DE GAULLE DIZIA QUE OS COMPREENDIA

Um dos discursos mais famosos da longa carreira política do general de Gaulle foi pronunciado a 4 de Junho de 1958 (há precisamente 49 anos!), em Argel, perante uma enorme multidão que o fora aclamar, quando o impasse levantado pela Guerra da Argélia pusera em causa o próprio regime da metrópole francesa (a IVª República) e o seu próprio presidente (René Coty) havia apelado para que o mais ilustre dos franceses assumisse a chefia do governo.

De Gaulle reaparecia assim encarnando novamente o homem providencial e o principal problema que se lhe deparava era o delicadíssimo assunto da Guerra da Argélia. Só que, ao contrário do que acontecera aos microfones da BBC em Junho de 1940, desta vez ele tinha mesmo a atenção de todos os franceses no que diz respeito ao conteúdo dos discursos que proferia… E o que estava em jogo era definir um futuro viável para a Argélia.

Constitucionalmente, as regiões mais ricas e povoadas da Argélia faziam parte da França. No passado, essas regiões haviam sido destino de uma razoável corrente de imigração de europeus meridionais cujos descendentes vieram a adquirir a cidadania francesa. Havia-os de origem francesa genuína mas a maioria era sobretudo de origem espanhola, italiana, maltesa ou judaica, e essa comunidade de colonos com os anos adquiriu coesão social e vieram a ser designados como os pieds-noirs.

Eram eles que dominavam a vida económica e política da Argélia francesa e, como funcionavam em bloco, atingiam uma dimensão crítica (um pouco menos de um milhão) para lhes permitir fazer um lóbi fortíssimo em Paris. Porque, para eles, jogava-se a sobrevivência do seu estatuto: os pieds-noirs eram apenas cerca de 10% de população argelina e num regime verdadeiramente democrático, o peso eleitoral dos argelinos de confissão muçulmana prevaleceria.

Mas vale a pena notar como, e a história posterior da Argélia demonstrou-o, o grande bloco dos argelinos muçulmanos excluídos também estava eivado de potenciais fracturas internas (a rivalidade entre árabes e berberes, por exemplo), que a democracia eleitoral poderia expor, o que também não conviria nada à FLN (Frente de Libertação Nacional), que era a organização nacionalista que neles se apoiava para promover a luta armada contra o domínio francês.

Fora para a invenção que fosse uma quadratura do círculo que se apelara ao mais ilustre dos franceses. O ambiente de expectativa resultante da nomeação de de Gaulle está muito bem retratado no romance Os Pretorianos de Jean Lartéguy: todos esperavam (os militares também) com muito lirismo, a solução, que teria de ser uma solução nova, inédita, como se na política as regras já não tivessem sido inventadas, de há muito…

Foi extensa esta explicação, mas era importante para descrever os espíritos e enquadrar o ambiente que rodeava o discurso que de Gaulle proferiu em 4 de Junho de 1958 e que começava com uma famosa expressão Je vous ai compris (compreendi-vos), que foi acolhida em delírio pela multidão de colonos pieds-noirs que predominavam na assistência. Mais tarde, essa mesma expressão serviu-lhes de acusação a de Gaulle pela traição que diziam ter ele cometido na Argélia.

Já aqui falei anteriormente de um outro discurso de de Gaulle sobre o Québec, e ficou dali subentendido que considero que o general era pessoa que não se ensaiava nada de dizer o que lhe interessava, mesmo quando isso pudesse ser inconveniente. E quando se lê e ouve (no YouTube) o que ele disse naquele dia, percebe-se como a síntese do discurso que proferiu não pode ser a expressão inicial. Ele compreendeu-os, mas também os avisou que eles têm de fazer as pazes:
Compreendi-vos!

Sei o que se passou aqui. Vejo o que quiseram fazer. Vejo que a estrada que abriram na Argélia é a da renovação e da fraternidade.
E digo renovação em todos os sentidos. E, muito justamente, quiseram que ela começasse pelo princípio, ou seja, pelas nossas instituições e é por isso que aqui estou.
E falo de fraternidade porque vocês oferecem este espectáculo magnífico de homens que, de uma ponta à outra, quaisquer que sejam as vossas comunidades, comungam do mesmo ardor e dão as mãos.
Pois bem, registo tudo isso em nome da França e declaro, que a partir de hoje, a França considera que, em toda a Argélia, há apenas uma categoria de habitantes: há só franceses por inteiro; franceses por inteiro, com os mesmos direitos e os mesmos deveres.

Isso significa que é necessário abrir caminhos que, até agora, estavam fechados para muitos.
Isso significa que é necessário dar condições de vida aos que as não tinham.
Isso significa que é necessário reconhecer dignidade àqueles a quem era contestada.
Isso quer dizer que é necessário assegurar uma pátria aos que podiam duvidar de ter uma.
O exército, o exército francês, coerente, ardente, disciplinado, sob as ordens das suas chefias, o exército posto à prova em tantas circunstâncias, e que, mesmo assim, conseguiu aqui uma obra magnífica de compreensão e pacificação, o exército francês foi nesta terra o fermento, o testemunho, e é o garante do movimento que aqui se desenvolveu.
Soube canalizar a torrente para lhe captar a energia. Presto-lhe a minha homenagem. Exprimo-lhe a minha confiança. Conto com ele hoje, e para o futuro.

Franceses por inteiro, fazendo parte de um único e mesmo colégio (eleitoral). Vamos mostrá-lo, já daqui a três meses, na ocasião solene em que todos os franceses, incluindo os 10 milhões de franceses da Argélia, terão de decidir o seu próprio destino.
Para estes 10 milhões de franceses os seus votos contarão tanto como os votos de todos os outros.
Terão que designar, eleger, repito-o, num colégio (eleitoral) único, os vossos representantes para os poderes públicos, como o farão todos os outros franceses.
Com esses representantes eleitos, veremos como fazer o resto…

Ah! Que possam participar em massa, nessa imensa demonstração, todos: das vossas cidades, dos vossos douars*, das vossas planícies, dos vossos djebels*! Que possam participar mesmo aqueles que, por desespero, acreditaram levar a cabo neste solo um combate que reconheço, eu, ser corajoso… porque não é a coragem que falta na terra da Argélia; mas que, mesmo sendo um combate corajoso, não deixa, por isso, de ser cruel e fratricida.

Sim, eu, de Gaulle, a esses, abro as portas da reconciliação.
Nunca tanto como aqui e nunca tanto como nesta tarde, compreendi quanto é bela, quanto é grande, quanto é generosa, a França!

Viva a República!

Viva a França!


Tirando uma ocasião (em Mostaganem – e hoje pensa-se ter sido um daqueles lapsos mais entusiasmados à de Gaulle…), em todos os discursos que proferiu nessa visita, nunca de Gaulle empregou a expressão Argélia Francesa, que seria a fórmula política de mostrar que compreendera os pieds-noirs da forma que eles queriam ser compreendidos. Manifestamente, de Gaulle dissera o que queria dizer, não aquilo que queriam que ele dissesse. O resto da história da Argélia colonial é conhecida:

Em 5 de Julho de 1962, depois de um referendo**, a Argélia tornou-se independente e o milhão de pieds-noirs abandonou o país. É verdade que as condições eram distintas, mas não existia ninguém na FLN daquela época que tivesse o perfil de um Nelson Mandela***, nem, sobretudo e entre a comunidade pied-noir, houvera alguém que tivesse tido a ponderação de reconhecer as evidências da situação política global, como aconteceu com o hoje injustamente esquecido F.W. de Klerk****…
*Douar: acampamento de nómadas, constituído por tendas. Por extensão, aldeia, na África do Norte. Djebel: montanha ou maciço montanhoso. Note-se o contraste no discurso com as cidades e as planícies, os locais de assentamento dos pieds-noirs.
** Seis milhões de votos favoráveis à independência entre seis milhões e meio possíveis. Os pieds-noirs (meio milhão de votantes) preferiram abster-se de participar no referendo, em vez de votarem negativamente.
*** Dirigente do ANC sul-africano e Presidente da África do Sul (1994-99)
**** Último presidente sul-africano sob o regime do Apartheid (1989-94)


Duas notas finais sobre o discurso propriamente dito: o primeiro para agradecer à Conceição e ao Pedro, à conta dos quais ando a fazer uma figura imerecida de tradutor dos discursos de de Gaulle. Os méritos a quem os merece. A segunda para chamar a atenção como a reportagem da época, reproduzida no You Tube não contém (apropriadamente…) o conteúdo total da alocução.

03 junho 2007

AS GUERRAS ESQUECIDAS DURANTE A GUERRA-FRIA

É sabido que durante o período da Guerra-Fria também houve várias guerras quentes em que os dois blocos se enfrentaram. Havendo necessidade de as exemplificar, dever-se-iam escolher as mais conhecidas: a Guerra dos Seis Dias, de Junho de 1967, entre Israel e os países árabes, como exemplo de uma guerra convencional, e a intervenção norte-americana no Vietname (1965-73), como exemplo de uma guerra subversiva.
Mas houve muitos outros exemplos. Contudo, se houver que estabelecer um padrão, a notoriedade actual dos conflitos que tiveram então lugar estão associadas directamente à participação ou não nele de um grande país ocidental conjugada com a circunstância de o conflito se enquadrar ou não com a grande disputa que então se travada entre o Ocidente e o Leste.
Por exemplo, a Guerra do Vietname (1965-73) é muito mais conhecida do que a quase simétrica Guerra do Afeganistão (1979-89) envolvendo os soviéticos. Por outro lado, a Guerra das Malvinas/Falkland de 1982, quando britânicos e argentinos (ambos aliados dos Estados Unidos) disputaram aquele arquipélago no Atlântico Sul tornou-se hoje num embaraçoso episódio, quando evocado politicamente.
As Guerras que tendemos a conhecer muito pouco no Ocidente são assim as que foram travadas entre dois países não ocidentais que não estivessem integrados em blocos antagónicos: foram os casos das guerras travadas entre a China e a Índia em Outubro de 1962, entre a China e o Vietname (Fevereiro e Março de 1979), ou as que se arrastaram como a travada entre Irão e Iraque (1980-88) ou a Guerra Civil no Yemen (1962-70).
Por serem desconhecidas, as fotografias destas guerras esquecidas merecem legendas: a primeira fotografia é de soldados indianos adaptando-se as condições de combate em altitude em 1962, a segunda de soldados chineses preparando-se para entrar numa cidade vietnamita em 1979, a terceira é de soldados iranianos em pose vitoriosa para a fotografia (1982) e, finalmente, milícias iemenitas de facção incerta em data incerta.

Esquecidas pela comunicação social, não deixam de ser menos importantes por isso. Vale a pena falar de cada uma delas mais em detalhe em próximos postes.

02 junho 2007

BEATRIX SCHUBA, A PATINADORA PANZER

O caso de Beatrix Schuba, uma campeã austríaca de patinagem no gelo que atingiu o seu apogeu nos princípios dos 70 (campeã europeia e mundial em 1971 e 72 e olímpica em 1972), foi um dos melhores exemplos de como certas disciplinas desportivas tiveram que sofrer alterações significativas nas suas regras para se adaptarem ao mundo audiovisual através do qual ganharam a popularidade de que essas modalidades hoje gozam.
As regras daquela época obrigavam os patinadores a duas provas distintas, uma primeira chamada de figuras obrigatórias seguida da prova livre, onde eles podiam exibir toda a sua destreza e graciosidade, dançando ao som de música. Este último evento era o que tinha interesse estético e televisivo e quase ninguém estava interessado em ver um punhado de juízes de fita métrica em punho a medir o rigor das circunferências no gelo…

Mas era precisamente nessa primeira metade da prova que Beatrix Schuba se excedia de tal forma (há quem afirme que ela foi a melhor de sempre) que chegava à segunda metade da prova com um avanço que se tornava impossível de anular pelas adversárias. Só que, em função do que a audiência assistia, e embora Beatrix não fosse uma má patinadora, embora não muito graciosa, tornava-se incompreensível a sua vitória final (veja-se esta comparação).

As cerimónias de consagração dos vencedores tornavam-se outro momento mediático e penoso, porque as medalhadas de prata ou bronze a superavam nitidamente nos seus programas de exibição. A patinadora panzer será uma alcunha excessiva e decerto injusta, contudo a contribuição do resultado das figuras obrigatórias para a nota final diminuiu logo no ano seguinte (1973) de 50 para 40% para depois continuar a diminuir progressivamente até desaparecer totalmente em 1991...

01 junho 2007

CERTOS TIPOS DE MULTIPARTIDARISMO

A Guerra-Fria, como qualquer guerra, tinha algumas coisas típicas de uma guerra. As descrições que, de um lado e doutro, circulavam sobre as sociedades dos outros eram de uma simplicidade de propaganda pura. Por exemplo: do lado de cá havia eleições livres mas no de lá havia um partido único, o que transformava as eleições numa farsa, à boa maneira do que acontecia nos tempos de Salazar entre nós. Era substancialmente verdade, mas era também uma simplificação forçada da mesma.
Foi com surpresa que descobri que afinal havia países do bloco Leste onde até havia vários partidos políticos legais e com representação parlamentar. Era o caso da Republica Democrática Alemã onde, a par do Partido Socialista Unificado (SED – emblema acima), havia mais quatro partidos: um cristão-democrático (CDU), um liberal (LDPD), um camponês (DBD) e um nacional-democrático (NDPD) e todos concorriam às eleições e tinham representação parlamentar.

Só que o partido com maior representação na Câmara do Povo era, evidentemente, o SED que resultara da fusão dos partidos comunista (KPD) e social-democrata (SPD) na zona de ocupação russa da Alemanha do pós-guerra. E o processo eleitoral era gerido de tal forma que esse predomínio nunca podia ser ameaçado. A cenografia era idêntica na vizinha Polónia, mudando apenas as siglas: o partido do poder era o Partido Operário de Unidade Polaco (PZPR) e os satélites o democrático (SD) e o popular unido (ZSL).
Claro que na União Soviética, onde nunca houvera uma tradição sólida de eleições burguesas no período de entre as guerras, se dispensava toda esta complicada encenação e o Partido Comunista assumia, de acordo com a doutrina, o seu papel de força dirigente da sociedade em monopólio. Mas o modelo alemão e polaco representavam um progresso em sofisticação em relação a modelos caducos como o do Estado Novo, onde não havia outros partidos, nem deputados de outras correntes no parlamento.

Com o partido maioritário controlando o Estado e a imprensa, é fácil de adivinhar que os deputados dos outros partidos se tornaram rapidamente indistinguíveis dos do partido governamental, porque todos aqueles que fizeram ondas foram rápida mas discretamente afastados. Em retrospectiva, talvez Marcello Caetano tivesse melhorado muito a imagem internacional do regime se, em 1969, tivesse organizado as eleições para que a CDE e a CEUD tivessem eleito uns poucos deputados.

Provavelmente, ter-se-iam juntado nas denúncias aos deputados da Ala Liberal da ANP (o novo nome do partido do regime: Acção Nacional Popular) e profeririam discursos com frases que poderiam fazer as manchetes do jornal República (se a censura as deixasse passar, o que é duvidoso…). O mais provável é que tudo acabasse para os deputados eleitos pelas comissões eleitorais como acabou com os deputados renovadores eleitos pelo partido do regime: só os mais conformados renovariam a intenção de se recandidatarem em 1973. Mas entretanto Marcello receberia os apoios externos de quem estaria a demonstrar empenho em democratizar o regime… Talvez os pudesse ter usado contra a ala conservadora que lhe fazia frente...
Um dos aspectos mais engraçados à volta de toda esta história dos multipartidarismos forjados foi o do papel do MDP/CDE que, depois de ter servido como instrumento para um multipartidarismo forjado nas eleições de 1969, não foi desactivado em 1974 e veio a concorrer às eleições de 1975 como uma versão soft do Partido Comunista Português, num embrião de um outro falso multipartidarismo. Tivesse a história de Portugal corrido de maneira diferente e quase que apostaria que, ao lado da evidente maioria comunista (unificada...), a Assembleia Legislativa da República Popular (ou Democrática, ou Socialista...) de Portugal contaria com um grande grupo parlamentar do MDP/CDE…

31 maio 2007

SIGLAS QUE SOAM BEM, MAS QUE PODEM NÃO QUERER DIZER NADA

É muito famoso e muito filmado o episódio do ataque japonês a Pearl Harbour em 7 de Dezembro de 1941. O que é menos sabido é que esse ataque foi apenas uma das facetas de um plano geral coordenado e que houve um conjunto de outros ataques simultâneos ou quase, desencadeado pelas forças armadas japonesas contra as várias possessões que os países ocidentais em guerra contra o Eixo tinham no Extremo Oriente.

No dia seguinte àquele em que as forças aeronavais nipónicas afundaram os couraçados norte-americanos, as tropas japonesas atacaram a colónia britânica de Hong-Kong, na China, e desembarcaram na Malásia britânica. Dois dias depois, era a vez dos desembarques nas ilhas de Lução, a mais setentrional das Filipinas, e de Guam, no meio do Oceano Pacífico, que estavam ambas sob tutela norte-americana.

Uma semana depois calhava a vez à ilha de Bornéu, e a ameaça da expansão japonesa estendeu-se rapidamente às Índias Orientais Holandesas e à Austrália. Para a defrontar, os vários países ameaçados criaram um comando conjunto (veja-se a imagem acima com a sua área de influência), com uma designação muito imaginativa mas, como os acontecimentos posteriores vieram claramente demonstrar, de uma eficácia muito reduzida.

O Comando designava-se ABDA (American – British – Dutch – Australian), era comandado por um general britânico (Wavell) e o comando de cada ramo estava salomonicamente dividido por cada nacionalidade: Exército (Poorten, holandês), Marinha (Hart, norte-americano) e Força Aérea (Peirse, britânico). E tinha um defeito notável: não funcionava – MacArthur, por exemplo, que estava nas Filipinas, não se encaixava originalmente naquela estrutura…

O ABDA foi assim um daqueles soundbites inócuos, criado para efeitos de propaganda de guerra que existiu antes do termo ter sido criado (o comando durou pouco mais de mês e meio, antes de se desagregar perante as sucessivas derrotas frente aos japoneses…). Mas lembro-me dele quando ouço daqueles acrónimos que associam países muito diferentes, com um remoto denominador comum, mas ordenados por forma a soar bem ao ouvido: BRIC.
BRIC (tem a mesma sonoridade que a palavra tijolo em inglês: brick) é um acrónimo que resulta da junção encadeada das iniciais de Brasil – Rússia – Índia – China. Empregá-lo dá um certo ar de entendimento mais aprofundado dos problemas de política internacional, como decerto não terá escapado aos assessores de José Sócrates. São todas economias emergentes, mas desbastada essa trivialidade, emergem de forma diferente e com objectivos estratégicos distintos.

A começar pela Rússia, que não emerge propriamente, antes reemerge, embora agora numa versão mais reduzida da União Soviética. É um país que está a viver momentos de prosperidade, é um grande país exportador como os seus colegas de acrónimo China e Brasil, mas há que ter presente que esse resultado (como acontecia com a antiga União Soviética, de resto) é obtido à custa da venda das suas matérias-primas, não da eficácia da sua produção industrial, que não parece ter melhorado significativamente.

Quem também não tem um sector industrial com o dinamismo suficiente para conseguir equilibrar a sua balança comercial com o exterior é a Índia. Mas também não tem matérias-primas que supram a diferença. Contudo, esse défice quase desaparece totalmente quando se contabilizam os serviços em que a Índia se tem vindo a especializar. Só que os grandes clientes da Índia não estão nos seus colegas do BRIC, mas sim nas economias dos países desenvolvidos…

Finalmente, a China e o Brasil são os países cujas estruturas económicas mais se assemelham. Ambos são grandes exportadores de produção industrial, mas o Brasil adiciona a isso potencialidades de exportador de matérias-primas agrícolas e minerais. De dimensões continentais, sofrem ambos de problemas semelhantes e graves de assimetrias quanto aos ritmos de desenvolvimento interno das suas regiões. Mas as semelhanças também os podem transformar em rivais na busca de clientes externos para o que produzem…

Em suma, e como se percebe, é uma aposta que não demonstra grande presciência a de antecipar o crescimento económico e o aumento de importância destes 4 países, embora eles o estejam a fazer cada um à sua maneira distinta e, se calhar, nalguns casos em concorrência directa entre si. Convém é não esquecer também as realidades das potências económicas já existentes que querem traduzir em verdadeira influência estratégica esse seu poder. Fala-se imenso das exportações da China, mas esquece-se que o país mais exportador do Mundo* é a Alemanha…

* Aquele que regista o maior superavite em valor na sua balança comercial (dados de Março de 2007)

30 maio 2007

OS ANJINHOS

– Eins, zwei, drei, vier… Então não se percebe logo que começar um genérico com esta introdução é uma referência evidente à música com que a Alemanha concorreu ao Festival da Canção de mil novecentos e sessenta e tal e que serviu de inspiração para a de abertura do nosso programa de televisão?...

Não, não se percebe e é pena que seja com argumentos destes e outros parecidos que Ricardo Araújo Pereira, mesmo que recorra à sua ironia inteligente e desarmante, pretenda desmontar as acusações de plágio que o DN lhes lançou na semana passada, num artigo que o jornal deu um destaque que na altura considerei exagerado.

Só que acontece que o efeito colateral de tanta transparência no processo de apropriação da música que se descobre afinal ser inglesa, datar do século XVI e ser do domínio público, tal qual a descreve o Ricardo, transforma o seu colega Zé Diogo Quintela, entrevistado por altura da publicação da primeira notícia, num mentecapto que aparentemente não soube esclarecer quase nenhum daqueles pormenores...

Reafirmando um poste anterior, sempre dei pouco crédito a plágios que são mais importantes pela figura do plagiador do que pela gravidade do plágio mas, tal qual Pinheiro de Azevedo não gostava de ser sequestrado (é uma coisa que me chateia, pá!...), não gosto de ser tomado por parvo e de ouvir explicações que tornam o assunto óbvio mas que já podiam ter sido prestadas logo desde o princípio… Ou será que ainda não haviam sido descobertas, ao princípio?...