...e eu a pensar que o "emplastro" era apenas um pobre diabo. A «fama» (fica por perceber qual é a polémica...) não impede que Fernando, como se lê na reportagem, «apesar de visitar os irmãos quando precisa tomar banho e lavar a roupa, há anos prefere dormir no aeroporto»... Este exercício de querer conferir o glamour de um Flash! a um sem abrigo só porque ele "aparece na televisão" revela-se chocante.
16 abril 2018
15 abril 2018
DEPOIS DA GUERRA À MESMA TEMPERATURA, AGORA EXISTE UMA CERTA «ANSIEDADE FRIA»
Expressão significativa a empregue pelo TAGESSPIEGEL nesta última Sexta-Feira, 13 de Abril: «(Die) Kalte Angst». Em termos coloquiais, Angst é uma palavra germânica que se traduz por medo (intangível) ou ansiedade (vale a pena ler a explicação da wikipedia). Mas a palavra pode ser interpretada com sentidos mais amplos e complexos como os que foram usados pelos filósofos existencialistas daquela mesma origem. O facto de ser fria («Kalte») alude à designação do conflito clássico - a Guerra Fria («Der Kalte Krieg») - que opôs os Estados Unidos à União Soviética desde o fim da Segunda Guerra Mundial até à queda do Muro de Berlim. Algo velado, não assumido. E é uma definição excelente dos sentimentos que a situação política internacional nos desperta. Não se estando em guerra, também não se trata de paz, e as personalidades de quem dirige as duas facções em causa não é de molde a tranquilizar-nos, antes pelo contrário. E nem imagino o que possam sofrer com esta «Angst» pessoas que, desde muito novas, leram obras ainda mais complexas do existencialismo, como foi o caso de Pedro Passos Coelho e o «seu» A Fenomenologia do Ser...
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OS NOSSOS ASES E OS DELES - A 34ª VITÓRIA DE FONCK
A edição de 15 de Abril de 1918 do Petit Journal dedicava um artigo à guerra aérea, nomeadamente aos aviadores franceses que nela se haviam distinguido em combate, pelo número de aviões inimigos que tinham abatido - os denominados ases. Até meados de 1916, as operações aéreas haviam sido um aspecto muito colateral do conflito, praticamente confinadas ao apoio às operações terrestres, a que se atribuía muito pouca importância. Só a partir dessa época, os combates aéreos ganharam dinâmica e apareceram os primeiros aviadores que se notabilizaram por derrubar aeronaves inimigas. Já aqui evoquei um desses ases pioneiros, o alemão Oswald Boelcke, por ocasião do centenário da sua morte em 28 de Outubro de 1916. No ano e meio que se seguiu, até Abril de 1918, os combates nos ares só aumentaram exponencialmente, não apenas pelo número de meios materiais e humanos envolvidos, como também pela sofisticação crescente dos primeiros e pela popularidade propagandeada dos mais bem sucedidos entre os segundos, como se pode apreciar abaixo.
Convém explicar que esta notícia é publicada num momento em que crescia a reputação de Manfred von Richtoffen, o «Barão Vermelho», o ás dos ases da Luftstreitkräfte que, à data em que a notícia é publicada, contaria já com 78 vitórias. A existência de um «Barão Vermelho» é a razão principal para contrariar a reputação daquele, enfatizando por sua vez o palmarés dos melhores ases franceses. Há um detalhe relevante, mas que era ignorado de todos no dia em que a notícia apareceu: Manfred von Richtoffen virá a ser abatido em combate e morrerá dali por uma semana, a 21 de Abril de 1918... Mas, se se compreende a omissão dos feitos do inimigo, já é mais difícil de explicar a ignorância dos feitos dos aliados. A lista do Petit Journal não inclui um único ás britânico e claro que os havia. Mas este exemplo é significativo de como funcionou a cooperação franco-britânica até quase ao último semestre da Primeira Guerra Mundial. Só no dia anterior ao da publicação deste artigo (14 de Abril de 1918) é que Ferdinand Foch fora promovido a Comandante-Chefe de todas as forças militares aliadas na Frente Ocidental. Até aí e na prática, a mentalidade predominante fora a de co-beligerantes mais do que aliados e muita da ineficácia na coordenação militar entre os aliados se devera a isso. Alguém imagina os desembarques da Normandia com os americanos a desembarcaram por um lado e os britânicos por outro?... Quanto à lista da meia-dúzia de ases franceses (e só franceses!) do Petit Journal elas incluem René Fonck, que acabará a guerra com 75 vitórias, Charles Nungesser (43), Georges Madon (41), Alfred Heurtaux (21), Gabriel Guérin (23) e Albert Deullin (20).
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14 abril 2018
SEM O CARLOS FINO, A COISA PERDE METADE DA PIADA
Uma primeira reflexão histórica sobre o bombardeamento sobre a Síria é que, depois de Bagdade e agora com Damasco, das capitais califais clássicas do apogeu medieval da civilização islâmica só fica a faltar mesmo o Cairo (Na presunção que bombardear Córdoba seria uma injustiça para com os espanhóis...). A segunda reflexão é que os bombardeamentos, sem Carlos Fino a comentá-los da varanda do hotel local e, sobretudo, sem José Rodrigues dos Santos, histérico, a mandar-lhe palpites dos estúdios cá de Lisboa, sem qualquer deles a ouvir-se, dizia eu, a coisa perde metade da piada. A gente habitua-se a um certo figurino da guerra...
13 abril 2018
SECADORES DE MÃOS - OS «AMIGOS DO AMBIENTE» QUE NOS DEIXAM COM AS MÃOS «NA MERDA»
Se há teses pseudo-científicas absurdas que prosperam na internet, outras há que não há acumulação de estudos científicos que consigam alterar a percepção pública dos seus malefícios. É o caso dos secadores de mãos nos WCs públicos. Os estudos que aparecem publicados são unânimes em concluir que os jactos de ar acabam por facilitar a disseminação dos germes, em vez de os reduzir. Em termos prosaicos, pode-se ir a uma casa de banho pública apenas para urinar, lavar e secar as mãos higienicamente depois disso, e, apenas por efeito de contaminação, sair de lá com as mãos sujas como se tivéssemos feito o serviço completo e atrás da moita. É o que já se concluía, só para exemplo, num Abstract de 2014 do jornal do The Healthcare Infection Society, é o que se continua a concluir noutro Abstract já de 2018, publicado no jornal da American Society of Microbiology. Mas o que é que poderá tanta ciência fazer contra alternativas que, apesar de 200 vezes mais higiénicas (veja-se acima), são inimigas do ambiente, como é o caso das tradicionais folhas de papel? Nos dias que correm todos queremos ser, prioritariamente, amigos do ambiente. A ciência e a higiene não têm nada que se imiscuir nisso. Esqueci-me de esclarecer que os secadores de mãos têm custos de exploração substancialmente mais baratos...
O ANÚNCIO DA DESCOBERTA DAS VALAS COMUNS DE KATYN
13 de Abril de 1943. A radio alemã anuncia que a Wehrmacht havia encontrado e exumado cerca de 4.500 cadáveres que estavam enterrados em valas comuns na floresta de Katyn, situada a 20 km a ocidente da cidade russa de Smolensk. Os cadáveres haviam sido identificados como pertencentes a oficiais polacos que haviam sido presumivelmente capturados pelos soviéticos em Setembro de 1939 e executados pelo NKVD entre essa data e a invasão alemã de Junho de 1941. Uma parte dos factos, mas não a sua verdadeira dimensão (no final, virão a ser contabilizados 22.000 cadáveres), já eram conhecidos dos alemães desde que ali haviam chegado no Verão de 1941. Mas foram as vicissitudes da guerra e as necessidades da propaganda alemã que haviam levado Joseph Goebbels a recuperar o tema e popularizá-lo, tendo em vista dois objectivos: na frente interna alemã e pela lógica da própria propaganda nazi, ao atribuir a autoria dos massacres ao judaísmo-bolchevizante, procurava estimular a resistência alemã (era uma incongruência menor que, uma minoria dos executados, como de resto a população polaca em geral, fosse ela própria judia...); na frente externa, pretendia cavar uma cunha entre a coligação que combatia a Alemanha, espicaçando as autoridades polacas no exílio contra os soviéticos, mas sobretudo perturbando as simpatias das opiniões públicas anglo-saxónicas contra os aliados soviéticos. A reacção das autoridades britânicas e norte americanas teve tanto de pragmático quanto de amoral: pela duração da guerra e mesmo muito depois disso, e mesmo sabendo a verdade, fingiram acreditar nas explicações soviéticas, que atribuíam a autoria das execuções aos alemães, que até as haviam revelado. De tudo o que Goebbels engendrara há 75 anos, a partir de 1945, só restava uma inquebrantável má vontade dos polacos em geral para com os russos e um terrível mal-estar das autoridades comunistas polacas e russas num esforço contínuo em abafar o acontecimento.
O que nos leva a uma segunda parte deste assunto, à vontade da comunidade polaca que permaneceu no exílio britânico depois da Segunda Guerra Mundial, em erigir um monumento na Grã Bretanha que fosse dedicado a este Massacre de Katyn, na impossibilidade de o fazer apropriadamente em solo pátrio. A causa pareceria cada vez mais límpida, à luz do que se ia progressivamente sabendo sobre a verdadeira autoria do massacre, mas os entraves que os sucessivos governos britânicos foram sucessivamente colocando à iniciativa, por causa das pressões soviéticas, levaram a que o obelisco abaixo, que se situa no cemitério de Gunnersbury no centro de Londres, tivesse sido inaugurado somente em Setembro de 1976, ou seja, 37 anos depois do início da Segunda Guerra Mundial e, mesmo assim, sem a sanção da presença a título oficial de qualquer autoridade britânica. Vem isto muito a propósito do recente episódio do contencioso diplomático entre o Reino Unido e a Rússia e da cadeia de solidariedades que se formou à volta do governo britânico. Alguns comentários que se ouviram por aí eram críticos da decisão do governo português, mas muito superficialmente fundamentados na argumentação em prol de uma atitude diferente da assumida. Não se teria perdido nada se, para olhando para além da traulitada política, quem invocou argumentos como falta de solidariedade, soubesse como é que os britânicos facilmente a descartam, quando isso lhes convém.
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12 abril 2018
AINDA MAIS PREVENTIVOS QUE A PREVENÇÃO RODOVIÁRIA PORTUGUESA
A busca de encontrar artigos que prendam a atenção do navegador distraído levam as publicações mais arrojadas, como é o caso desta Men's Health, a publicar os textos mais imbecis desde que contenham as palavras mágicas que despertam atenção - mencionar sexo costuma ser imbatível. Daí esta associação improvável entre a condução e as práticas sexuais, que está suportada por um estudo efectuado por uma universidade do Dakota do Sul e que conclui surpreendentemente que a prática pode revelar-se perigosa(!). Dispensando os pormenores posicionais e mais corriqueiros de saber como cabem os dois mais o volante, qual dos parceiros é que chega aos pedais e qual deles tem de se concentrar em ver a estrada*, o que o estudo conclui irredutivelmente é que o perigo advém no fim, do facto de que «quando se alcança o clímax, perde-se o controlo cognitivo durante 5 a 7 segundos». A verdade é que, a respeito deste assunto, nunca dei por qualquer campanha informativa da Prevenção Rodoviária Portuguesa e admito que urge colmatar essa lacuna. Com slogans em outdoors à beira da estrada, adaptando alguns em vigor, como aquele O Copo ou a Vida da imagem acima, transformado a preceito num A Cópula ou a Vida, ou então recuperando o já antiquado Se Conduzir Não Beba para o também frontal Se Conduzir Não ...., ou ainda, e aqui já com uma sofisticação adequada ao século XXI, a mensagem Quando em Viagem, Vá, mas não se Venha...
* Esqueçamos o esquecimento com o hipotético problema das mudanças: o estudo é americano e eles lá não usam disso.
O ESCRUTÍNIO PÚBLICO DE UM CEO DE SUCESSO
Não há nada melhor do que a justaposição de dois géneros distintos de notícias para perceber o que interessará saber a respeito de um determinado objecto da atenção pública e aquilo que, de concreto, se pode fazer a esse respeito quando a comunicação social não está disposta a descobrir.
Neste caso concreto da EDP e de António Mexia o exercício consistiu em recuperar os cabeçalhos de uma ofensiva de entrevistas que o CEO da EDP está a dar à comunicação social por ocasião da sua recondução para mais um mandato. E comparem-se as trivialidades que se recolhem de tal exercício com aquilo que continua por explicar (abaixo) na conduta daquele que, conjuntamente com Zeinal Bava, foram considerados «os melhores CEO da Europa por analistas de todo o mundo». É que, para assunto de absoluto interesse jornalístico a respeito de António Mexia, a sua constituição como arguido de um processo por corrupção completará um ano em princípios de Junho próximo. Se já é estranho que a nenhum acionista da EDP lhe tenha ocorrido perguntar algo a respeito do assunto em assembleia de accionistas do mês passado, conforme noticia o Jornal de Negócios abaixo, e que outros jornais noticiem que os investigadores se queixam de bloqueios dentro do próprio aparelho judicial, mais estranho será que o mesmo jornal não tenha insistido em qualquer pergunta a esse respeito quando da entrevista a Mexia (acima). É preciso explicar? Talvez não, já que, em certas circunstâncias, ser-se arguido pode não constituir desonra alguma.
11 abril 2018
NÃO FOSSE COMO ELE DIZ, E HÁ MUITO TEMPO QUE CAMILO LOURENÇO TINHA DE TER MUDADO DE VIDA...
O artigo tem quase um mês, mas tanto é a atenção que lhe presto que só hoje dei por ele e pela ironia do título.
VOLTA RELVAS, ESTÁS PERDOADO QUE O QUE HÁ MAIS PARA AÍ SÃO «ESTUDANTES» COMO TU!
As atenções mediáticas em Espanha têm dedicado grande interesse àquilo que por cá designaríamos por um Doutoramento à Relvas, doutoramento esse que está (esteve, que o curso ter-se-á concluído em...2012) a ser protagonizado pela presidente da Comunidade Madrilena que se chama Cristina Cifuentes. Neste caso, mais sofisticado do que aconteceu com Miguel Relvas e, antes dele, acontecera com José Sócrates, o grau académico já é de mestre, mas, por coincidência, também aconteceu numa universidade privada madrilena (como o eram a Lusófona e a Independente por cá - vá-se lá descobrir porquê?!). Conforme o que tem vindo a público, a versão mais benigna que se pode ler dos acontecimentos é que, por ocasião da sua defesa pública, (abaixo) o certificado de habilitações da presidente fora reconstruído (abaixo) - um eufemismo para falsificado - uma conclusão que depois provocou a primeira demissão relacionada com o escândalo e, não, não foi a de Cristina Cifuentes... Mas a história não se fica por aqui. Como é que pode piorar? Quando se descobre que um dos potenciais sucessores de Cristina Cifuentes no cargo, outro membro do PP Pablo Casado, também obtivera outro canudo em circunstâncias igualmente duvidosas... e na mesmíssima universidade. Neste outro caso, as ressonâncias à Relvas ainda são mais flagrantes, já que Casado não foi às aulas, não fez exames, nem sequer apresentou e defendeu qualquer tese de mestrado. Cristina Cifuentes, porém, supera-os aos outros todos, ao espanhol e aos dois portugueses, com a sua falsificação do certificado de habilitações - o que já deu origem a piadas ferozes como a que notícia o compromisso dela em cursar proximamente um mestrado em falsificações... Andávamos nós todos felizes cá pela paróquia com a história turbulenta do mestrado do Feliciano (Barreiras Duarte) ainda há dois meses, quando por esse mundo fora haverá tantas histórias bonitas de fraudes académicas para aprender... Não façamos como o Relvas: Estudemos! (pelo menos o que se passa no estrangeiro...
10 abril 2018
OS PARTICULARES EFEITOS CÓMICOS QUE SÓ AS SÉRIES FOTOGRÁFICAS CONSEGUEM PRODUZIR
A cena que abaixo se reproduz numa série fotográfica (encontrada do facebook) até poderia ter sido filmada, mas aí, creio que se perderia grande parte do efeito cómico...
MARCELO A DEIXAR SAUDADES...
Não há promoção a Marques Mendes que consiga colmatar a enorme lacuna deixada pelos ensinamentos dominicais do professor Marcelo. Só ele para nos ensinar como é que se passa bem a ferro. Quando nos lembramos de como era o comentador original (Marcelo), percebe-se quanto este que lhe quer suceder (Marques Mendes) é um mono bisonho.
O CICLO DO SABONETE DE LUXO E A PRESERVAÇÃO DO «SOFTPOWER»
Se, há mais de cinquenta anos, o sabonete de luxo recomendado pelas estrelas americanas era de origem americana, o dos dias de hoje até pode ser de origem portuguesa (Ach. Brito). Os americanos podem ter perdido quase toda a prevalência comercial de que gozaram nos anos a seguir à guerra, mas note-se que ainda retêm para si a capacidade de influenciar e formar os padrões da moda, de Esher Williams para Oprah Winfrey. O pressidente Donaltrum, ao invocar a necessidade de recuperar o primeiro daqueles aspectos, o do equilíbrio comercial, arrisca-se a que os Estados Unidos venham a ser fortemente afectados quanto ao segundo, o da influência. Ainda não foi desta que se descobriu a quadratura do círculo...
09 abril 2018
O PRINCÍPIO DA SOBERANIA POPULAR ou O POVO SÓ DEVE SER SOBERANO QUANDO VOTA COMO «NÓS GOSTAMOS»?
Como eu aqui antecipei, se há poucos a pronunciarem-se sobre os terríveis danos causados ao organismo humano pelo estrôncio-90, quase todos se julgam com direito de mandar palpites sobre a política húngara, nem que seja para manifestar a sua antipatia por Viktor Orbán e pelos caminhos que a Hungria tem singrado. Associo-me àqueles, poucos, que cingem as suas opiniões a um desagrado resignado pelos resultados das eleições de ontem - onde se registou uma terceira vitória (vitória no sentido verdadeiro...) do Fidesz que recolheu mais de 48% dos votos. Ou seja, se nós não gostamos do Fidesz e de Orbán, há uma maioria de húngaros que gosta, já que, depois de os elegerem em 2010, os têm reconduzido depois disso em 2014 e agora em 2018. A não ser que se coloque a dúvida se essas eleições que se têm desenrolado na Hungria não tenham sido razoavelmente livres. É verdade que a Hungria teve a sua conta de farçoladas à laia de eleições, aqueles anos felizes em que János Kádár e os seus comunistas eram reconduzidos com 99% dos votos. Contudo, tenho a confiança que, houvesse ali qualquer vaga suspeita sobre a recuperação dessa mesma prática de viciação, e a União Europeia - onde não se gosta, visivelmente, de Orbán - interviria, sancionando e ostracizando o país. O que não tem acontecido. Não o fazendo, só me resta aceitar que a popularidade de Viktor Orbán é legitima, assim como a é a de Isaltino Morais, o presidente aqui do concelho de Oeiras, apesar da estadia deste último na famosa pousada da Carregueira. Vale a pena recordar que - por ordem alfabética e histórica - o comunismo, o fascismo e o nazismo nunca se conseguiram posteriormente legitimar através de eleições livres. Também, se calhar nem o tentaram com um mínimo de seriedade: havia eventos em que os regimes eram aprovados por 99% dos eleitores, resultados tão unânimes quanto inverosímeis e ridículos. O que está a acontecer nos países da Europa de Leste, a Hungria, mas também na Áustria, na Polónia ou ainda na República Checa, por muito que haja quem queira forçar a analogia com os fascismos de entre guerras (curiosamente, há muito menos alusões aos comunismos do pós guerra), são populismos que exibem uma legitimidade popular completamente diferente, em que os seus mandatos renovados regularmente (de quatro em quatro anos na Hungria), conformes as regras da Democracia parlamentar. O que se tem observado para aí, na análise das eleições húngaras é rancor por mau perder, mas isso é atitude que, para conferir seriedade à política, seria melhor guardar para o futebol e para as avaliações das arbitragens do dia seguinte. Vale a pena recordar o que Lincoln disse no discurso de Gettysburg: que a Democracia era o governo do povo, pelo povo e para o povo. E se o povo - neste caso o húngaro - prefere Órban, deve-se tentar perceber porquê, não criticar indiscriminada e não muito inteligentemente eleitores e/ou eleitos, só porque o resultado nos desagrada.
POR OCASIÃO DO CENTENÁRIO DA BATALHA DE LA LYS
Oportunamente editado para coincidir com o centenário da batalha de La Lys, o melhor do livro é a discrição das relações entre portugueses e britânicos, embora a evocação e a importância atribuída às influências da Guerra Peninsular nas relações conflituosas entre os dois comandos se apresente como uma associação engraçada, mas que se percebe despropositada. Cem anos é muito tempo. Se em 2018 a importância do que aconteceu em 1918 é diminuta, é óbvio que também em 1918 a importância do que acontecera em 1814 o seria. Mas é um bom livro, a merecer a leitura, a que acresce o benefício de coincidir com a esta recente controvérsia de não nos associarmos à hostilidade para com os russos por causa dos britânicos: este foi um excelente exemplo de como, para lá dos lirismos da mais antiga aliança, as nossas relações com os britânicos funcionaram, numa ocasião de conflito mundial em que nos precisámos reciprocamente. E se se descobre neste livro que os britânicos não levavam - fundamentadamente - em grande conta o profissionalismo dos nossos oficiais, é reconfortante perceber que, lhes tomou tempo, mas que os britânicos chegaram tardiamente à compreensão que o profissionalismo dos oficiais deles também deixava imenso a desejar...
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08 abril 2018
INIMIGOS DE ESTIMAÇÃO
8 de Abril de 1978. A guerra interna no PSD estava ao rubro e um jornal claramente conotado com os comunistas - o Diário de Lisboa - vinha imiscuir-se na contenda elegendo como seu adversário Sá Carneiro e a sua facção. Nem é preciso ler as minudências das legendas para se perceber que as duas páginas que lhe eram "dedicadas" há 40 anos estão pejadas de ironia. Hoje parece nítido como, com aquela manobra, lhe terão feito - a Sá Carneiro - um enorme favor, Ganhou o partido ainda naquele ano, ganhou as eleições no ano seguinte (para desconsolo do Diário de Lisboa). A intenção da imprensa adversa em elegê-lo como inimigo de estimação (abaixo) ajudou Sá Carneiro a legitimar-se à direita como um baluarte da direita. É aquilo que se costuma descrever como sair-lhes o tiro pela culatra. E isso deixa-me a pensar como não me surpreenderia nada que, de tão igualmente obcecada a tratá-lo como inimigo de estimação, a uma certa direita lhes possa agora vir a acontecer algo de muito parecido com Rui Rio...
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O GRANDE MUNDO DO TWITTER E O PEQUENO MUNDO DOS QUE LHE ATRIBUEM A IMPORTÂNCIA QUE ELE NÃO TEM
Sempre que a conversa versa sobre a importância do twitter na política, lembro-me deste estudo que o Público deu a conhecer há três anos, avaliando a influência dos políticos naquele meio. Não se trata apenas de constatar o elenco de personagens e a hierarquia. Vale a pena recordar a ocasião: estava-se praticamente a seis meses das eleições legislativas que irão formar a assembleia actualmente em funções. Era isso que podia dar um significado especial à presença de Rui Tavares do partido Livre a encabeçar a lista de influências. Porém, quando chegados a 4 de Outubro de 2015, o candidato a deputado Rui Tavares não conseguiu ser eleito para o parlamento, apesar de toda esta proclamada influência no twitter. O pessoal do twitter não vota, o pessoal do twitter não tem qualquer influência eleitoral. Em contrapartida, quem o conseguiu e por uma nova formação, foi André Silva do partido Pessoas-Animais-Natureza que, apesar de não constar nas influências da lista abaixo, e no que verdadeiramente interessa em Democracia, os votos, conseguiu receber 22.583, o que se compara muito favoravelmente com os 14.660 alcançados pelo «político mais influente no Twitter». Nada me anima contra Rui Tavares, mas é óbvio, por episódios como este, que ele há dois países políticos e o verdadeiro não é aquele que está sempre a ser transmitido na comunicação social.
07 abril 2018
OS NOVOS PRUSSIANOS DA POLÍTICA PORTUGUESA
Atribui-se ao francês Mirabeau (1749-1791) a frase supra, referindo-se ao comportamento distinto da Prússia de Frederico II no concerto europeu do século XVIII. Dei por mim a pensar numa analogia com a política portuguesa do século XXI. Enquanto a tradicional preconizava que eram os partidos políticos que protagonizavam os interesses e a ideologia que os fazia interferir na linha editorial dos órgãos de comunicação, o Observador, como a Prússia de outrora (e com José Manuel Fernandes no papel de Frederico II!), veio revolucionar esse conceito ultrapassado: agora é o próprio órgão de informação que pretende melhor interpretar os interesses em disputa, quer assumir uma vontade própria, manifestar uma ideologia, e é ele que, pelo contrário, se dispõe a interferir na actividade interna dos partidos políticos. Se na Prússia era o exército que tomara conta do Estado, aqui é o jornal que quer tomar conta do Partido - descaradamente e nos tempos mais recentes, para o Observador parece haver um PSD bom e um PSD mau e quem decide qual é o qual, são os ideólogos da publicação on-line, e não propriamente o voto dos militantes do partido.
Será isso que torna pertinente mascarar José Manuel Fernandes de general prussiano com o tradicional pickelhaube e que também fará com que se possam ler nas redes sociais verdadeiros desabafos de alma como este que passo a citar do facebook: «A única oposição ao Governo dos discípulos de Sócrates é o Observador! O resto é paisagem !». O pretexto foi esta Ordem de Serviço (ou Proclamação às Tropas) de Fernandes a respeito da redução do défice, mas é claro que proclamações um pouco futebolísticas do género que se pode ler acima ,podem ser complementadas com outras que as levem às últimas consequências: «O Observador ao poder! José Manuel Fernandes a 1º ministro! Helena Matos com a Administração Interna e Helena Garrido com as Finanças! Há é uma certa dificuldade para arranjar pastas adequadas para João Carlos Espada e João Marques de Almeida...
O QUE É NOTÍCIA E O QUE É IMPORTANTE
7 de Abril de 1968. A página 7 do Diário de Lisboa de há cinquenta anos poderá servir de exemplo académico daquilo que distingue os temas com importância jornalística dos outros temas, os que têm verdadeira importância: quase toda a página é dedicada - nos termos tradicional e sobranceiramente críticos - à cobertura do festival da eurovisão que tivera lugar na noite anterior, em Londres. O que sobrava da página, e exceptuando a publicidade (propositadamente omitida na reprodução acima), era preenchido com o optimismo de U Than (U Thant era então o secretário-geral da ONU) a respeito de negociações para o Vietname e um milionário que sucedia a Pearson, numa renhida eleição interna para a liderança do Partido Liberal que tivera lugar, também na noite anterior, em Otava, no Canadá. O "milionário" chamava-se Pierre Elliot Trudeau (1919-2000), tornava-se por inerência o próximo 1º ministro do Canadá, cargo que irá ocupar - com uma breve interrupção de um ano - pelos próximos dezasseis anos, até 1984. É, plausivelmente, o mais importante político canadiano do século XX mas "adivinhar faz falta" e, sobretudo, o que é que um político canadiano, ainda que prometedor, poderia disputar no interesse dos leitores, quando em concorrência com o «la, la, la...» da Massiel? (quem?)
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06 abril 2018
O PROSSEGUIMENTO DA «DEMOCRATIZAÇÃO» CHECOSLOVACA
6 de Abril de 1968. Num jornal português de há 50 anos, uma notícia local oriunda de Praga dava conta das resoluções da Comissão Central do Partido Comunista da Checoslováquia. As decisões eram pouco usuais para o que era costume naquelas organizações e naquelas ocasiões. Descobria-se a decisão de cancelar a expulsão do Partido de alguns escritores: Ivan Klima, Antonín Liehm e Ludvík Vaculík. Além deles, mais dois colegas, que haviam recebido sentenças mais benignas («repreensões e medidas disciplinares»), foram também amnistiados: Pavel Kohout e aquele que actualmente será o mais popular deles todos, Milan Kundera, ali tratado por Milan Kuderna. Mas não fazia mal, era pela causa da Primavera de Praga Em Curso, e afinal, se repararmos bem, três dos cinco escritores têm os nomes mal escritos...
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