13 julho 2008

UM MANDATO TERMINADO COM TODA A POMPA

Se se costuma dizer do faraó egípcio Tutankhamon (acima) que os factos mais importantes do seu reinado (1333-1324 a.C.) foram a sua morte e o seu enterro, aquilo que distinguirá o mandato presidencial do francês Félix Faure (1895-1899) de todos os outros Presidentes da III República Francesa terá sido a forma como ele terminou… O presidente morreu subitamente, supostamente feliz, quando estava em companhia da sua fogosa amante, Margarite Steinheil, que era quase 30 anos mais nova do que o parceiro…
A ocasião era boa demais para que não se construísse um interessante enredo em volta do acontecimento, pondo-se a correr a versão que Faure tivera o ataque precisamente enquanto Margarite (abaixo) estava engajada numa prática que, quase 100 anos mais tarde, um outro presidente, mas norte-americano, tentaria convencer-nos que não se poderia classificar de relação sexual – o fellatio. Daí, até ao trocadilho entre pompa e bomba de sucção, que em francês se designam da mesma maneira – pompe – foi apenas um passo.
Félix Faure, que fora cognominado de o Presidente-Sol pelos seus adversários politicos, em alusão a Luís XIV e à importância que se atribuía a si mesmo, foi assim brindado com alguns graciosos trocadilhos depois da sua morte, desde o obituário que atribuiu a sua morte a um sacrifício excessivo a Vénus, à alcunha de Pompa Fúnebre com que Madame Steinheil ficou conhecida, à frase de despedida que o seu maior inimigo político Georges Clemenceau lhe dedicou: Queria ser um César, mas não passou de um Pompeu…

12 julho 2008

BOKASSA, O ORIGINAL

Com o episódio da Corrida para África (1880-1914), praticamente todo o continente veio a ser ocupado por uma das potências coloniais. Mesmo as regiões mais remotas do interior de África, que nem tinham matérias-primas nem representavam mercados que justificassem o imperialismo, vieram a ser ocupadas e a fazer parte de algum dos impérios coloniais. Foi o caso do remotíssimo Ubangui-Chari, uma possessão francesa bem no centro geográfico de África (abaixo, assinalado em verde) com uma rarefeita população estimada (em 1900) em 700 000 habitantes, distribuídos por 617 000 km².
Trata-se uma localização improvável para um futuro império e, como se pode observar pelo mapa acima, e totalmente ao contrário do que acontece com os domínios insulares do Bokassa da Madeira (conforme a expressão usada por Jaime Gama em 1992), que estavam cercados pelo mar a toda a sua volta, as possessões do Bokassa legítimo não têm qualquer saída directa para o mar. A região nem sequer possuía uma verdadeira designação, tendo os franceses recorrido ao expediente de a designar por Ubangui e Chari os nomes gentílicos dos dois rios principais que a atravessavam*.
Quando a França decidiu conceder a independência às suas colónias africanas (1958), a do Ubangui-Chari contava-se entre as que se encontravam mais atrasadas em todos os aspectos do desenvolvimento. Apesar disso, como pais independente (Agosto de 1960), ganhou um novo nome: República Centro Africana. Mas a direcção política do novo país pertencia toda a uma elite africana muito reduzida: o seu primeiro dirigente Barthelémy Boganda (1904-59) havia morrido num acidente de aviação e fora substituído por um sobrinho seu, David Dacko (1930-2003), que se tornara presidente.
Por sua vez, um dos primos do presidente – Jean-Bedel Bokassa (1921-1996), o original – tinha feito carreira no exército francês e veio a tornar-se, com a patente de major, o Chefe do Estado-Maior das novas Forças Armadas Centro Africanas. O título era bastante mais pomposo do que a realidade: as Forças Armadas contavam com um efectivo irrisório, estimado em 500 homens e o presidente Dacko, que não se deixava iludir com essas questões das amizades de família, não tardou a criar um conjunto de forças paramilitares chefiados por oficiais da sua confiança com o triplo daqueles efectivos.
Para se perceber melhor como era a realidade centro africana logo depois da independência, vale a pena contar alguns pormenores do regime que virá a ser derrubado pelo vilipendiado Bokassa. Logo em 1961, David Dacko tornou todos os outros partidos políticos ilegais; em 1963, estendeu a duração do seu mandato presidencial de 5 para 7 anos; em 1964, apresentou-se sozinho às eleições e foi reeleito com 99% dos votos; em 1965, no lançamento de um empréstimo nacional obrigatório, dos 500 milhões de Francos CFA inicialmente previstos, apenas 182 acabaram por entrar nos cofres do estado…
Como uma coincidência do que acontecera com Fidel Castro em Cuba, o pronunciamento militar de Bokassa para depor o regime também ocorreu numa passagem de ano (de 1965 para 1966). E o regime que dali saiu, onde Bokassa acumulava a presidência com as pastas da Defesa e do Interior, não se distinguia particularmente de outros países africanos também corruptos e governados por déspotas que se iam progressivamente embriagando com o poder. Bokassa, passou de coronel a general, depois tornou-se presidente vitalício mas foi quando se proclamou imperador que as atenções mundiais lhe caíram em cima.
Em Dezembro de 1977 ficou a saber-se que a antiga República Centro Africana se tornara oficialmente no Império Centro Africano e que o anterior presidente passara a assumir o título de Imperador com o nome de Bokassa I, decalcando o que acontecera 173 anos antes com o primeiro cônsul francês, Napoleão Bonaparte (1804). Objectivamente, contando com os tais 617 000 km², com 1 750 000 habitantes, e com uma das mais pobre economias africanas, o poder do novo Império era risível, mas que não fiquem dúvidas (acima e abaixo) que nele se podiam tirar fotografias originalíssimas para ilustrar a Time ou a Paris-Match…
O Império não chegou a durar 3 anos. Foi derrubado por uma acção militar francesa em Setembro de 1979. A tarefa mais difícil da operação parece ter consistido na montagem do cenário que a fizesse passar por um golpe de estado promovido pelas forças locais. Nesse particular aspecto foi um fiasco, mas também, se ninguém acreditou, também nenhuma potência se terá importado (Estados Unidos, União Soviética, China, etc.) com essa intromissão descarada de um país na vida interna de outro, coisa que, salvo poucas excepções, parece ser considerado inaceitável à luz do Direito Internacional…
Vem a propósito terminar assim pelo mundo das hipocrisias, e não quero deixar de dar a minha opinião que o uso da analogia das figuras de Bokassa com a de Alberto João Jardim que foi feita por Jaime Gama em plena Assembleia da República 1992 é, em si, de um certo imperialismo bokassiano, no sentido em que tem mais impacto por causa das aparências dos vermelhos e dos dourados do que - como se percebe pelo que escrevi - pela substância da semelhança dos perfis dos mencionados… O que não impede que houvesse uns belos figurões históricos com quem Jaime Gama poderia comparar Alberto João Jardim...

* Os portugueses fizeram precisamente o mesmo no interior de Angola, na Província de Cuando-Cubango, por exemplo.

11 julho 2008

CARLOS QUEIRÓS

Vários factores concorrem para que eu goste de Carlos Queirós: em primeiro lugar porque é meu conterrâneo, depois porque parece ser bom naquilo que faz ao mesmo tempo que é extremamente sóbrio na forma como o assume e, finalmente, porque tem a invejável capacidade de, sendo um alvo incontornável dos jornalistas da informação dita desportiva, lhes responder com uma atitude de paciente indiferença. É vê-lo a falar, imperturbável diante da chusma dos imbecis do microfone, debitando um monólogo sobre o tema quente daquela altura sem que dali nada saia que se possa aproveitar para manchete de jornal…
Claro que o preço que ele tem de pagar por esta última qualidade é o de ser detestado quase unanimemente pelos membros da dita confraria desportiva portuguesa, que, em contraste, mostram um respeito reverencial por outros homólogos de Queirós que se mostram mais expansivos como serão os casos de José Mourinho ou de Luís Filipe Scolari. Como quaisquer imbecis ignorantes, a confraria está convencida que a qualidade do trabalho de treinador, como a de um maestro que dirige uma orquestra, se apreciará pela exuberância com que se manipula a batuta no dia em que se realiza o concerto…
Ainda na Terça-Feira desta semana, o editorial do Público, assinado por José Manuel Fernandes, chamava a atenção para duas espectaculares manifestações desportivas que tinham tido lugar no Domingo anterior (a Final do Torneio de Ténis de Wimbledon e o Grande Prémio de Fórmula 1 disputado em Silverstone, Inglaterra), e comparava-as com o conteúdo das primeiras páginas dos 3 jornais desportivos (A Bola, Record e O Jogo) de Segunda-Feira que evidentemente reservaram ainda todas as manchetes para o tema da peixeirada do Conselho de Justiça que acontecera na Sexta-Feira anterior…
Quanto à selecção de manchetes, um director de jornal será uma das últimas pessoas a possuir moralidade para criticar a prática alheia. O Público não é excepção e, pelas suas pretensões, o seu director devia ainda ser mais criticado. Contudo, a falta de moralidade do crítico não nos deve fazer esquecer o teor da crítica, mais do que justa, a expor quais são os verdadeiros temas menores a que se dedicam um certo tipo de sub-jornalismo, protagonizado por profissionais que geralmente não são muito melhores e que se reclama monotemático (o tema devia ser o desporto…) mas de uma forma que é obviamente fraudulenta.
Naquilo em que o tal jornalismo desportivo português é inultrapassável, no detalhe dos acontecimentos acessórios, parece confirmar-se que o grande problema associado ao facto de Carlos Queirós vir a assumir o cargo de seleccionador nacional parece ser o do seu principesco ordenado… Mesquinhos, incompetentes e desonestos, a confraria dos amigos de Queirós esqueceram-se de comparar os alegados € 1,5 Milhões anuais que irá receber, não só com o que Scolari já ganhava (sensivelmente o mesmo), mas também com o valor da proposta de renovação que Madail terá feito a este último*…

* Segundo estes dados, os três treinadores mais bem pagos actualmente (em milhões de € por ano) são José Mourinho (8,75 - Inter), Luís Filipe Scolari (6,9 – Chelsea ) e Arséne Wenger (5,6 – Arsenal).

AS VÍSCERAS DO PEIXE DE ÁGUAS PROFUNDAS

O aparecimento do You Tube tornou muito mais fácil o acesso àqueles vídeos que fizeram a sua história, onde amachucaram violentamente a reputação dos seus protagonistas, como terão sido os casos do bolo-rei de Cavaco Silva ou das contas por fazer de António Guterres. Mas, pelos vistos, há quem se dedique a fazer montagens e que fez uma que ali surgiu recentemente em que Jaime Gama surge a fazer duas intervenções, separadas por 16 anos, que, mais do que amachucar, parece arrasar totalmente com a reputação do actual presidente da Assembleia da República.
O que é dito em cada uma das intervenções contradiz frontalmente o que é dito na outra. Ou o respeito pela prática democrática é um valor absoluto em si mesmo (1992) ou a avaliação do desempenho político se faz pelos resultados independentemente da prática (2008). Costuma dizer-se de Jaime Gama (que chegou a passar por delfim de Mário Soares…) que, por causa do seu calculismo e das suas cautelas extremas, terá passado ao lado de uma carreira maior na política portuguesa… Os amigos de Jaime Gama que fizeram a montagem e que a colocaram no You Tube parecem ter conseguido a proeza de levar as pessoas que a vêem a suspirar: Felizmente!…

10 julho 2008

WAR GAMES

Wargames é um filme de 1983 que conta a história de um adolescente (David - Matthew Broderick) de uma família americana de classe média típica que adora jogar jogos de computador, é um hacker (é uma das primeiras referências populares à actividade) e que, por causa disso, entra no supercomputador que gere o sistema de defesa dos mísseis intercontinentais (ICBM) armados com ogivas nucleares dos Estados Unidos. E quase se consegue adivinhar o enredo da confusão que se gera a partir daí…
Sendo engraçado, o filme não é grande coisa. Está datado (do período da Guerra-Fria), as personagens são de um maniqueísmo cru (os bons e os maus) e possui retoques que o tornam norte-americano em excesso, como será o caso do enaltecimento do valor da especialização profissional. O herói passa por ser de uma mediocridade em todos os outros campos do saber mas beira a genialidade quanto o assunto tem a ver com computadores e é isso que o vai safando: altera as notas da caderneta electrónica…
O que pretendo destacar neste poste é uma das cenas cómicas (falhadas) desse filme, quando, numa aula de ciências naturais, o professor (previamente definido como um antipático) pergunta Quem foi a primeira pessoa a sugerir a ideia da reprodução assexuada? e o herói David se vê forçado a assumir o papel do engraçadinho da turma, respondendo ao professor com a sugestão: A sua mulher?... Tem piada, mas trata-se do tipo de humor irónico fino que dificilmente teria saído da mente de um adolescente obcecado…
A política portuguesa já teve muitos momentos semelhantes, em que o script põe o jovem protagonista político a proferir declarações que não pertencem às pessoas com a sua maturidade e da sua geração. Nunca deveria ser esquecido o episódio ridículo de Manuel Monteiro, então com cerca de 30 anos e o dirigente mais novo de qualquer dos quatro grandes partidos portugueses, a empregar numa entrevista televisiva a expressão no meu tempo (é que era bom...), com uma eloquência parecida com a de um ex-quadro da ANP*…
Mas se Monteiro, apesar dos esforços em o promover em certos média, hoje não passa de uma memória, as caras jovens que o PCP costuma enviar à televisão (a mais vista tem sido a de Bernardino Soares, acima) são uma garantia de que o anacronismo de pôr uma geração a falar por outra permanece vivo. Outras organizações esclerosadas, como é o caso da Igreja Católica, costumavam apelar a encenações de demonstração do seu auto-rejuvenescimento em cerimónias do estilo Os jovens com o Papa…
No PCP, como se pode ver pelo exemplo da fotografia acima do jovem Jorge Cordeiro (que juraríamos ter participado no XX Congresso do PCUS de 1956), será mais na linha Os jovens com(o) o Papa… Simplesmente, se a ideia geral parece ser a de transmitir uma imagem de juventude e o PCP continua a ser um partido dinâmico e progressivo, creio que as últimas proezas da ciência permitirão que, em vez aparecerem os jovens sendo como o Papa, possa continuar a aparecer o Papa, sendo como os jovens…
Que tal submeter Jerónimo de Sousa a um daqueles eXtreme makeovers de rejuvenescimento?

* Acção Nacional Popular: partido único do período de Marcelo Caetano (1968-74).

09 julho 2008

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO…

O título do poste é também o de um interessante filme canadiano francófono de 1986, mas trata-se apenas de coincidência, porque aqui estou a empregar a frase num registo irónico. Em 1945, nos Estados Unidos produzia-se mais de metade de toda a produção industrial de todo o Mundo. Não só se produzia tudo o que servia para equipar as Forças Armadas norte-americanas (com 12 milhões de efectivos) como também uma boa parte do que equipava as Forças Armadas da União Soviética (com outros 12 milhões), as do Império Britânico (mais 9 milhões) e as dos outros países aliados (ao abrigo do programa Lend-Lease).
Mais do que a produção, uma parte importante do que aquelas fábricas produziam (veja-se abaixo...) era empregue na destruição da capacidade produtiva de alguns dos países concorrentes, como eram os casos da Alemanha ou do Japão… Não é difícil perceber porque é que no final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos chegaram a produzir cerca de 55% dos valores de toda a produção embora tivessem apenas 5% da população mundial. Nem creio ser difícil que se percebesse como aquela situação era pontualmente anómala e como era expectável que essa vantagem se viesse a reduzir no futuro.
No entanto, ao contrário do que o senso comum anteciparia que acontecesse quando se vivesse um ambiente de paz e as economias dos países destruídos voltassem ao normal, ao longo dos anos cinquenta, tornou-se extremamente comum ouvir como os Estados Unidos estavam a perder as suas vantagens em relação às outras potências, nomeadamente o rival directo soviético. Era, nomeadamente, um dos argumentos basilares do McCartismo (abaixo), doutrina que depois atribuía a causa dessa perda de competitividade à tristemente célebre infiltração do aparelho do Estado por elementos comunistas sabotadores.
Ou seja, se os norte-americanos não eram razoáveis então nas expectativas da dimensão da sua superioridade sobre os demais concorrentes, parecem continuar a não o ser mais de 50 anos passados, pelo menos a crer num artigo que foi hoje publicado no Washington Post, onde se alerta para a diminuição do avanço que os Estados Unidos têm gozado nas actividades aeroespaciais (abaixo). Lendo-o parece haver o perigo de que essa superioridade pode estar a ser ameaçada pelas outras potências, mesmo secundárias, como são os casos da Índia, do Canadá, da Coreia do Sul, Israel ou do Brasil.
Pelo menos, qualquer delas consta de um mapa de síntese anexo ao artigo, onde se reúnem aos Estados Unidos, Rússia, Europa, China e Japão para nos dar uma panorâmica do disputadíssimo mercado da actividade aeroespacial. Dali se conclui que os Estados Unidos representam só e apenas 63% dos astronautas activos, 63% do valor de todos os orçamentos, 74% das receitas geradas pela actividade, 51% dos satélites construídos e uns angustiantes 37% de todos os satélites colocados em órbita nos últimos 10 anos... Eu até posso compreender as razões (lóbi) do artigo, mas a simpatia é pouca quando é um milionário a queixar-se da crise…

08 julho 2008

A OUTRA PRESENÇA PORTUGUESA NO ORIENTE

Reza uma história, que não afianço ser verdadeira, que, durante o Século XIX, quando antropólogos e filólogos britânicos percorriam a Índia à procura de novas culturas e dialectos desconhecidos, um deles julgou ter encontrado uma e um numa aldeia perto da foz de um rio, não muito distante de Bombaim. Tratava-se da aldeia de Korlai e afinal os filólogos vieram a descobrir que a nova língua era apenas mais um dialecto do português, hoje designado por Kristi (de cristão).
As razões para a existência inesperada daquela aldeia portuguesa apenas se podem deduzir, e terão tido a ver com os sobreviventes de alguma tripulação portuguesa cujo navio perto daquela foz terá naufragado no Século XVI ou XVII e por ali se terá estabelecido, sem terem voltado a submeterem-se à autoridade régia. Afinal, aqueles ambiciosos que, ao cheiro da pimenta e da canela despovoavam o Reino, como dizia Sá de Miranda, às vezes acabavam por contentar-se com bem pouco…
A História da presença portuguesa no Oriente que costumamos contar a nós mesmos costuma ser formal, pomposa, oficial e superficial. É preciso um autor indiano como Sanjay Subrahmanyan escrever um livro como Improvising Empire – Portuguese Trade and Settlement in the Bay of Bengal 1500-1700*, para compreender toda uma outra faceta da presença dos portugueses no Oriente, fossem eles os comerciantes das várias cidades da costa do Coromandel** ou os oficiais mercenários ao serviço dos reis da Birmânia…
Aquelas duas classes operavam de forma quase sempre autónoma à tutela das autoridades da Coroa que, naturalmente, não as incluíram nos relatórios que enviavam para Lisboa, e dai não terem passado para a narrativa dos historiadores. É por isso que ainda hoje nos podemos surpreender com episódios como a frequência das pessoas que possuem traços fisionómicos caucasianos marcados (acima) entre a comunidade maioritariamente católica dos Bayingyi que habitam o vale do Rio Mu na Birmânia. Ou com outros resultados.
Mesmo assim, não tivessem sido as variadas passagens mentirosas da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e o nosso conhecimento sobre os acontecimentos e os protagonistas daquele período naquela época teria ficado reduzido às sagas pomposas, como as de um Afonso de Albuquerque magoado por saber da decisão do Rei Manuel de o destituir… Se Fernão Mente? Minto! o que se poderá dizer de tantos outros que por lá passaram e que omitiram ou apenas contaram o que lhes convinha?

* Traduzido e publicado em português pelas Edições 70 com o título Comércio e Conflito – A Presença Portuguesa no Golfo de Bengala 1500-1700 (1990). Note-se como o título da tradução é subtilmente diferente do original, deixando cair o conceito do improviso, tão nosso, tão lusitano...
** Costa oriental da Índia.

07 julho 2008

NÚMEROS REDONDOS

Acima, temos a capa do disco com a música que ajudou a propagar o mito que a idade média dos combatentes do Vietname havia sido de 19 anos. Abaixo, está a capa do jornal com a música que ajudou a propagar o mito que a nota média de Matemática A deste ano tinha sido de 14 valores. Afinal a idade média dos combatentes do Vietname rondou os 22,8 anos e a nota média de Matemática A de 2008 foi de 12,5 valores.
Como aqui se comenta, por causa das causas há sempre quem prefira que os números sejam redondos, maneiros, fáceis de fixar, mesmo que sejam mentirosos…

ENTRE A SATISFAÇÃO E A PERPLEXIDADE

Vale a pena contar a história: acabaram de sair os resultados dos exames e os do meu filho mais novo, que está no 11º Ano foram excelentes, porque teve um 19 a Economia e um 15 a Geografia. Ao contrário das aparências, a nota de arromba foi o 15 a Geografia que foi mais do que excelente, é uma nota abusiva, porque ele fez o exame sem ter frequentado uma única aula da disciplina (apresentou-se como aluno externo) e ele, Deus e o resto da família cá em casa sabemos como foi a sua preparação para o exame…

Há momentos em que mais do que a qualidade dos sentimentos é a intensidade com que os vivemos que prevalece. Mais do que a satisfação domina-me a perplexidade sobre o grau de exigência existente no sistema de ensino que permite que um pouco de Cultura Geral, capacidade de expressão escrita e umas leituras façam com que se obtenha um resultado destes num exame do 11º Ano. Fica-nos o encargo de o convencer que ele não é genial e que as verdadeiras exigências da vida não se comparam com nada disto...

06 julho 2008

CORTE REAL, RECUS PARA OS AMIGOS

Esta coisa dos apelidos com hífen, que me parece recentemente recuperada para a ribalta, notavelmente através da jovem promessa ou da arma secreta do PSD que dá pelo nome de José Pedro Aguiar-Branco, fez-me voltar ao passado, a outras modas diferentes para apelidos, quando o que era chique era grafá-lo pelas regras ortográficas de antanho, o que fizera, por exemplo, com que o Estádio do Restelo fosse baptizado como Estádio Almirante Américo Thomaz.
O paradoxo é que essa moda requintada coexistia com rígidas regras militares que mandavam identificar documentalmente, no caso do Colégio Militar onde andava, o aluno pelo número e pelo apelido (UM). E o sargento da secretaria que batia todos aqueles documentos à máquina (era a tecnologia da época…) mostrava-se insensível às subtilezas dos herdeiros de apelidos duplos e rebuscados. Era o caso de um camarada meu que aparecia identificado no Quadro de Honra na forma 999 – Real*, quando o seu apelido era Corte Real (sem hífen, creio...).
A parte engraçada disto, não fossemos todos nós na altura jovens e despretensiosos, é que o Corte Real tinha uma alcunha de cariz muito pouco aristocrático, Recus, inspirada, segundo recordo, no nome de um porquinho que aparecera em circunstâncias que já esqueci. E era por Recus que ele era tratado. Ora, cada vez que vejo aqueles hífens, não deixo de conjecturar se o Branco (o sargento da secretaria era mesmo implacável a trinchar apelidos sonantes…) também não poderia ter tido assim uma alcunha gira…
* Por discrição (óbvia) não utilizei o número dele (não era 999).

Nota: Ainda a propósito de Aguiar-Branco mais os companheiros que se dispuseram a clarificar o conteúdo da intervenção televisiva da presidente do PSD na passada Terça-Feira, vale a pena dar realce ao artigo sobre a unidade europeia de José Pacheco Pereira no Público de Sábado.

05 julho 2008

A CULPA É DELA E MAI´ NADA!!!...

As contradições flagrantes são mais raras do que parecem. Frequentemente, quando se invoca, para nosso exercício argumentativo, que há quem defenda uma posição e também quem defenda a posição contrária, costumamo-nos esquecer ou omitir que quem defende uma delas não são precisamente as mesmas pessoas que defendem a posição oposta...

São raros, portanto, os momentos em que se consegue criticar precisamente a mesma pessoa por defender razões antagónicas, como acontece com o(s) autor(es) do artigo do Público em que Maria de Lurdes Rodrigues consegue ser criticada simultaneamente pela permissividade nos exames de Matemática (nunca houve notas tão altas) e pelo rigor excessivo nos exames de Português (nunca houve notas tão baixas)...
No anúncio – o original – da Pasta Medicinal Couto é que se dizia: Palavras para quê?...

AS CRIATURAS DO DR. FRANKENSTEIN

Designar a criatura abaixo por Frankenstein é um daqueles erros que, de se tornarem tão frequentes, acabaram por passar a normais e actualmente de quase nada serve corrigi-los. É que o Frankenstein original, o do livro de 1818 da autoria de Mary Shelley, nunca foi a criatura mas sim a pessoa que a havia criado, essa sim o Dr. Frankenstein. Por coincidência, esta apropriação indevida do nome do criador acaba por se inserir completamente no espírito do enredo do livro, pois nele, a criatura acaba por destruir a vida do Dr. Frankenstein.
É outra coincidência e um paradoxo também que, tendo sempre mostrado muito mais receio das decisões que viessem a ser tomadas nos órgãos da justiça civil, afinal os alegados detentores dos mecanismos de poder dentro do sórdido negócio do futebol acabam por se estar a ver condenados e sancionados publicamente por causa das decisões dos órgãos da justiça desportiva (leia-se futebolística) que supostamente deviam estar controlados por si, através da selecção da sua composição. Como se as criaturas do Dr. Frankenstein se virassem contra o criador…
Diga-se em complemento que, se se confirmarem as alegações do presidente do Paços de Ferreira Fernando Sequeira que o presidente do Conselho de Justiça, Gonçalves Pereira é vereador da Câmara de Gondomar além de membro do Conselho Geral do Boavista, a ausência de um pedido de escusa seu para julgar um caso que envolvia esse clube é incompreensivelmente obsceno. O expediente de que se serviu para tentar encerrar a reunião à revelia da maioria dos membros do órgão a que preside é apenas uma expressão ridícula dessa obscenidade…

04 julho 2008

A TELENOVELA DAS ASSINATURAS

De acordo com o IMDB, Glória Menezes terá participado em quase meia centena de telenovelas desde há uns 45 anos atrás. Naquela escola de novela brasileira, de que escolhi Glória por ser uma das suas actrizes mais veteranas, a tarefa de composição das personagens não é muito exigente, antes assentando no reconhecimento prévio do espectador, habituado a reconhecer o actor ou actriz das novelas anteriores.
Para síntese e exemplo, podemos dizer que há novelas (muitas) em que aparece Glória Menezes a fazer de boa e há novelas (poucas) em que Glória Menezes aparece a fazer de má. E em todas elas, a expectativa é que Glória Menezes faça de Glória Menezes. Nós por cá temos uma relação semelhante na sua previsibilidade com o que se espera do comportamento dos representantes do movimento sindical à mesa das negociações.

Há o que lá está para assinar os Acordos de Concertação Social...

E o que lá vai para mostrar que nunca se assina coisa nenhuma...

A ASCENSÃO E QUEDA DO GENERAL BOULANGER

O episódio exótico da passagem do General Georges Boulanger (1837-91) pela ribalta da História da Terceira República francesa (1884-89) serve, senão para mais outros objectivos, para demonstrar como os franceses são intrinsecamente latinos no fervor e volubilidade das causas que abraçam. Para esta história, a notoriedade do General Boulanger começa em 1884 na Tunísia, para onde o General fora mandado comandar as forças militares francesas de ocupação. Continua numa violenta questão com o Residente Paul Cambon, que era a suprema autoridade civil francesa em Tunes, diferendo que rapidamente se estendeu a Paris. Formal e legalmente, o Residente Cambon tinha toda a razão, mas o General Boulanger representava o exército...

E o exército da Terceira República francesa era encarado pela sociedade de uma forma muito especial. Era do Exército que se esperava que, quando chegasse a ocasião, fosse o instrumento da desforra que recuperaria as duas províncias da Alsácia e da Lorena, que haviam sido perdidas em 1871 para a Alemanha. Sem ser inteligente nem consequente, o General Boulanger fora suficientemente esperto para ter tido até aí um percurso que o tornara popular, não só junto dos seus homens, como também junto da sociedade. Melhor que isso, Boulanger apresentava-se muito bem relacionado, desde a esquerda radical de Georges Clemenceau à direita monárquica dos Orleães e dos Bonapartes.

Foi com o patrocínio de Clemenceau que Boulanger se tornou Ministro da Defesa em 1886. Algumas semanas depois, ordenava às tropas enviadas contra os mineiros em greve que partilhassem o seu pão com os grevistas. Trabalhando para a popularidade, a classe política francesa depressa percebeu que tinha ali um Ministro da Defesa pouco canónico. Transformou as cerimónias do 14 de Julho* de 1886 numa grande encenação, passando revista às tropas em uniforme de gala e montado no seu (famoso) cavalo negro. Boulanger aproveitou a ocasião para discursar, anunciando novos equipamentos, uniformes e privilégios para os militares para melhor cumprir a sua grande missão. Percebia-se qual seria...
E terá sido paradoxalmente o chanceler alemão, Otto von Bismarck, o outro dos responsáveis pela ascensão de Boulanger ao nomeá-lo num discurso ao Reichstag em Janeiro de 1887. A França era um país imprevisível, dizia. Ali, uma minoria barulhenta podia conquistar a opinião pública de uma forma imprevista. A Alemanha devia estar preparada para repelir um ataque dos franceses. Não saberia dizer quando viria, mas quase podia assegurar que viria. E perguntava: Não se havia Napoleão III lançado numa guerra contra a Alemanha para, acima de tudo, reforçar o seu poder dentro da própria França? Por que motivo não tentaria o General Boulanger fazer o mesmo, se chegasse ao poder?

Otto von Bismarck era a pessoa mais odiada da França desses dias (acima) e uma crítica sua a respeito de alguém feita em Berlim era percebida em Paris como o mais rasgado dos elogios. O boulangismo como movimento sociológico terá nascido do exemplo do discurso do chanceler: se Bismarck se incomoda com Boulanger então é porque ele é bom para a França. Descrever o boulangismo em termos ideológicos é muito mais complicado; como acontece com o peronismo da Argentina, nem o próprio pai-fundador teria sido capaz de o definir. Mas a verdade é que a sociedade francesa se encantou com o homem compondo-lhe canções, dedicando-lhe artigos de jornal, publicando biografias suas.

O próprio Boulanger, incensado pela apreciação de Bismarck, ter-se-á levado tão a sério que, passados poucos meses (Abril de 1887), a propósito dum incidente menor**, estava disposto a que se entregasse um ultimato à Alemanha e se decretasse a mobilização geral. Não tendo a França quaisquer aliados firmes, a proposta era política e estrategicamente um verdadeiro delírio irresponsável e a carreira canónica do general terminou ali, assim como o apoio de Clemenceau. A partir daí, apesar de não ter perdido a sua popularidade, ela fez-se nas bordas do regime: foi-lhe dado um comando militar remoto, regressou como deputado eleito por uma ampla maioria (1888), mas tendo sido demitido do exército.
Muito minoritário na Câmara de Deputados, o boulangismo era um agregado de conservadores de todas as espécies que sabiam só poder aspirar a chegar ao poder através de um golpe de estado. Era para isso que eles precisavam de um general popular; porém, chegado o momento decisivo, compelido a passar à acção em Janeiro de 1889, esse general amedrontou-se, apesar do coro de vozes que o incitava a tomar a chefia do exército, abolir aquele corrupto regime parlamentar e levar a França para novos voos. Ameaçado de prisão pela polícia do regime que queria derrubar, o General Boulanger acabou por fugir para Londres e depois para Bruxelas em Abril de 1889. Tudo acabara numa farsa… o homem forte era um fraco.

Para dar a esta história o remate de sensibilidade que ela necessita só falta contar que Boulanger pôs fim aos seus dias suicidando-se sobre a campa da sua amante num cemitério de Bruxelas em 1891. O general gostava de dar espectáculo mas encarnara politicamente algo que era muito maior que ele próprio e que era demasiadas coisas ao mesmo tempo - algumas delas contraditórias entre si. Como Santana Lopes, ele tivera a infelicidade de ter tido oportunidade de mostrar até que ponto podia ser irresponsável, propondo-se declarar guerra isoladamente à Alemanha. E como Durão Barroso, ele também teve a sua Hora H para decidir, tendo também decidido fugir para Bruxelas...

Salvaguardadas as circunstâncias e as distâncias temporais, o PSD actual faz-me lembrar em heterogeneidade a confederação de bonapartistas, legitimistas, orleanistas, clericais, anti-semitas, reaccionários e conservadores que se reagrupou por detrás de Georges Boulanger. Depois, tudo aquilo acabou por se desmoronar porque Boulanger não era o homem que pretendiam que fosse. Como Marques Mendes não foi, Luís Filipe Menezes também não e, como tudo parece indicar, Manuela Ferreira Leite também não virá a ser essa mulher. Nenhum líder que se preze, se presta a que o pensador do partido venha esclarecer na Quinta-Feira aquilo que havia sido dito na Terça no canal do lado…
* Dia Nacional de França, assinalando a Tomada da Bastilha em 1789.
** O Incidente Schnäbele: um funcionário francês de origem alsaciana com esse nome, que chefiava uma rede de agentes dentro da Alsácia-Lorena, que agora eram territórios alemães, foi atraído a esse lado da fronteira e aí capturado. Procurando excitar a indignação, Boulanger e os seus puseram a correr a versão que Schnäbele fora capturado em território francês. Os próprios alemães, para extinguir as causas do incidente, libertaram Schnäbele uns dias depois.

03 julho 2008

AS CÓPIAS SOVIÉTICAS

Quem olhar para as fotografias acima e abaixo com certeza pensará estar a olhar para duas fotografias do mesmo avião, da época da Segunda Guerra Mundial. Mas não é bem verdade: o de cima é um Boeing B-29 norte-americano e o de baixo é um Tupolev Tu-4 soviético. O B-29 tornou-se famoso por ter sido o bombardeiro que transportou as primeiras bombas atómicas que foram usadas sobre Hiroxima e Nagasáqui. Foi também pretexto para me fazer ter lido um dos elogios mais estúpidos que ultimamente tenho lido numa página da Internet dedicada ao aparelho: … tornando-se (o B-29) o primeiro e o único avião a acabar efectivamente uma guerra mundial*.
Estúpido porque não existe uma competição cerrada quanto a processos de terminar guerras mundiais (só houve duas…); depois porque o que acaba a guerra foi a bomba que o avião largou; finalmente, porque as guerras só se acabavam efectivamente. Se for virtualmente elas têm tendência para recomeçar… Mas, se o B-29 é tão bem conhecido que se presta a estes exageros disparatados, o TU-4 é menos popular e será sobretudo conhecido por ser uma cópia soviética pirata do aparelho norte-americano, que foi reconstituída a partir de três exemplares norte-americanos que tiveram de aterrar na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial.
A verdade é que a investigação da indústria aeronáutica soviética tivera que se dedicar a outros ramos da aviação militar durante a Guerra (sobretudo a de caça e de ataque ao solo) e estava muito atrasada quanto aos bombardeiros, especialmente porque o B-29 era um avião com uma autonomia ímpar para a época (5 200 km). A cópia descarada era o expediente à mão para a constituição de um componente indispensável (o vector) da capacidade nuclear estratégica das Forças Armadas soviéticas. O outro componente - a bomba - também muito deveu, como se perceberá pelo par de fotografias abaixo, à cópia pirata das investigações norte-americanas.
Só que aqui os soviéticos não puderam esperar que os modelos viessem aterrar no seu território e tinham montado uma rede de espionagem que acompanhara, na medida do possível, as realizações do Projecto Manhattan. Além dessa ajuda, convém realçar que houve muito trabalho dedutivo da equipa soviética até conseguirem chegar à realização do seu primeiro ensaio nuclear em Agosto de 1949. Mas comparando o exemplar soviético (abaixo) com um dos norte-americanos (acima), aquele que usava Plutónio-239, fora baptizado Fat-Man e lançado sobre Nagasáqui em 1945, é impossível, mesmo para um leigo, não perceber a fonte de inspiração…
* becoming the first and only aircraft to effectively end a world war.