26 janeiro 2016

DEPOIS DAS FESTAS - A CONTA

Agora que se encerrou a campanha eleitoral e que se levanta o problema para certas candidaturas sobre quem pagará as despesas de campanha, começo por achar deliciosa a ironia de quem se consideraria disponível para ajudar Paulo de Morais, não fosse o receio de que o próprio Paulo de Morais o considerasse corrupto, por estar a corromper um político dando-lhe dinheiro...
No mesmo espírito, torna-se adequado ir buscar este desenho com 110 anos de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro intitulado Depois das Festas - A Conta. O pretexto para a sua publicação em A Paródia foi a visita a Portugal de Eduardo VII, o monarca britânico, e o espavento associado, que se percebe pelas rúbricas da factura, onde se contam detalhes da espontaneidade como:
- Quatro vivas isolados na Rua do Ouro
- Um dito à esquina do Rossio
- Um desmaio na Calçada da Pampulha
- Uma salva de palmas da Liga Naval
- Pago ao sr. Taveira por 6 ensaios de um pombo destinado a pousar no coche da rainha de Inglaterra
E, ainda nesse mesmo espírito, o que eu não tenho a certeza é se, mutatis mutandis, Marcelo Rebelo de Sousa terá tido necessidade de pagar por - Uma perseguição ao automóvel onde viajava o presidente eleito feita por várias motorizadas com cameraman...

LAWRENCE E O SOM DAS AREIAS DO DESERTO


Estou convencido que o leitor concordará comigo que a inesquecível música de Lawrence da Arábia combinará perfeitamente com a paisagem desértica inicial, mesmo depois de o informar que o deserto em causa fica em Marte e que os trilhos deixados na areia são do rover Curiosity...  

25 janeiro 2016

OS VINHOS DA CONSOADA

Continua a intrigar-me esta capacidade para as pessoas se exporem excessivamente no facebook. Elas podem dizer-nos imenso e, por vezes, mais do que aquilo que os visados quereriam. Estas duas fotos são dos vinhos da consoada de dois utilizadores que as publicaram no Natal e que eu aguardei pacientemente que se escoasse um mês para que a própria mecânica do facebook tornasse mais cansativa a tarefa da identificação dos autores. Sendo o tópico o mesmo repare-se o contraste, a começar logo pelo local da fotografia, a bancada da cozinha e com as garrafas aparentemente ainda por abrir no caso acima, já na sala, abertas, com o devido cachecol, toalha e uma vela a enfeitar no caso abaixo. Em qualquer dos casos intriga-me a multiplicação das escolhas (três tintos e, no caso abaixo, ainda mais um verde?), tendo em conta que se está a escolher o vinho para uma ou, quiçá, duas refeições. E depois há as escolhas. O budget do escanção que tirou a fotografia abaixo foi decerto um múltiplo do da fotografia acima. Este último, o da foto superior, ao exibir-se no facebook, pretenderá ser reconhecido pela sua sapiência, exibindo aquilo que consideraria a melhor relação entre preço e qualidade. Confere com a informalidade de nos mostrar a sua cozinha. Em contraste, o autor da foto inferior parece ter jogado por aquilo que ele considerará mais seguro e apostado no que haveria de mais impressivo em termos de rótulos. O que também confere com o engalanamento como os exibiu. Não sei se qualquer deles terá ficado com a consciência do que, agindo como o fizeram, puderam dar a serem lidos nas suas pretensões, como acabei de o fazer...

O VELHOTE VALE MEIO PITBULL ZICO

Tendo recolhido quase 39.000 votos, os resultados da candidatura de Henrique Neto foram um desapontamento. Acreditava eu sinceramente que o velhote, apesar da sua atitude consistentemente antipática, recolheria as simpatias de mais portugueses, tomando em consideração essa que é minha referência quantitativa da intervenção cívica em Portugal, a petição pública contra o abate do pitbull Zico com as suas 80 mil assinaturas. Descubro agora que Henrique Neto vale metade de um pitbull e, para explicar a diferença, nem se poderá colocar a questão da atitude e/ou da fotogenia, porque, mau grado a retocada foto abaixo, os pitbulls nem sequer são uma raça canina bonita ou simpática. Em contrapartida e, ainda assim, Henrique Neto recolheu marginalmente mais alguns votos do que as assinaturas apostas numa outra petição pública, a que pedia que se preparasse a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente (35.000).

Uma das boas consequências da minha decisão de há umas eleições atrás, a de passar a votar linearmente sem me deixar condicionar por aquilo que acreditava serem os cenários eleitorais, é que a nova atitude transformou-me as digestões das derrotas daqueles em quem votei em exercícios muito mais sãos, dispensando as tabletes anti-ácidas. Mas não prescindo de um último ferrete, que uma das minhas motivações para o voto neste velhote foi a de marcar a distinção para com os outros velhotes. E o ferrete consiste em, partindo dos 39.000 votos de Henrique Neto, perguntar qual será a audiência real das estrelas do pessimismo, dos programas televisivos de Medina Carreira ou dos comentários episódicos de António Barreto? Note-se que não pergunto quantos são os que têm a televisão lá sintonizada; pergunto por aqueles que compreendem o teor do que está a ser dito para além daquela impressão geral que se está a falar mal de tudo.

24 janeiro 2016

AS «VERDURAS» DAS FISCALIDADES VERDES DOS MINISTROS VERDES

A história de taxar os sacos de plástico a doer, que obrigou os portugueses a alterar os seus hábitos de consumo, obrigando-os a passar a ir fazer compras aos supermercados acompanhados de uma catrefada de sacos, está em vias de perfazer um ano. O Observador de 20 de Janeiro de 2015, por exemplo, não escondia as suas conhecidas inclinações pró-governamentais, falando de uma guerra dos sacos de plástico que estava a ser travada pelo ministério do Ambiente contra os comerciantes. A tal guerra inserir-se-ia no quadro de uma ofensiva mais vasta denominada Fiscalidade Verde, que estava a ser patrocinada pelo mesmo ministério e de que a imagem mediática era o ministro, Jorge Moreira da Silva, acima retratado. Um latecomer ministerial, admitido quando da remodelação irrevogável de Julho de 2013 e tendo ficado com a parte do superministério de que Assunção Cristas não conseguia dar conta, Jorge Moreira da Silva representa o paradigma (palavra de que agora se abusa) do jotinha (neste caso JSD) quando chegado à maturidade: a especialização numa causa (a do ambiente, vulgo verdura) que é politicamente incorrecto criticar; uma grande sensibilidade às photo-ops (vejamo-lo abaixo a abastecer uma viatura de um combustível qualquer que sabemos cheio de predicados ambientais) e um cuidado irrepreensível com o tratamento da sua imagem (as notícias a seu respeito atribuem-lhe invariavelmente uma competência que depois não se consubstancia: Jorge Moreira da Silva é competente... porque é competente).
Mas regressemos aos sacos de plástico e sobretudo à Fiscalidade Verde que, provavelmente por ser verde, parecia revestir-se de uma benignidade que as outras fiscalidades não possuem aos olhos de um qualquer contribuinte e que, para além disso, era publicitada e aparecia como a menina dos olhos do ministro quando da sua introdução (a da taxa), em 15 de Fevereiro de 2015. Em concreto, o que a competência apresentava era uma win win situation: a nova taxa sobre os sacos de plástico iria não apenas disciplinar os portugueses arredios à sensibilidade ambiental como constituiria uma fonte de receitas fiscais à custa dos que se deixassem desleixar. Seguidor atento da operação e confidente do ministério, aquele mesmo Observador que não hesitara em tomar partido quando da guerra dos sacos de plástico, dava conta do sucesso alcançado, ao noticiar em 8 de Abril de 2015 que, mês e meio depois da sua introdução, o Estado já encaixara 1,6 milhões de euros com (a taxa sobre) os sacos de plástico, prevendo-se que a arrecadação até ao final do ano atingiria os 40 milhões de euros. Ora, mesmo que Jorge Moreira da Silva tenha abandonado o ministério nem há dois meses (a 26 de Novembro, para ser preciso), parece-me mais do que razoável que recaiam sobretudo sobre si as responsabilidades políticas da execução desse programa das taxas sobre sacos de plástico, de que o mesmo ministério do Ambiente recentemente prestou contas: o Estado terá encaixado afinal apenas 1,5 milhões de euros dos 40 originalmente orçamentados para 2015, uma taxa de execução de 3,75% e, antecipando-me ao que o leitor possa estar a pensar, não, já não foi no Observador que se pôde ler esta última notícia...
Ironizando com a palavra verde, que parece ser palavra chave em toda esta confrangedora situação, a haver verdura ela terá sido a do ministro competente e também a da equipa de economistas por si escolhida para estimar qual seria o volume de receitas fiscais geradas pelas medidas de Fiscalidade Verde que pretendiam implementar. A confirmar-se esta ridícula taxa de execução (3,75%!), então é indício seguro de que eles não faziam a mínima ideia de qual seria o comportamento dos consumidores, do que é que era a realidade onde intervieram... Esta última música, evidentemente por ser verde, é-lhes dedicada, ao Jorge Moreira da Silva e a quem ele encarregou de trabalhar no orçamento de receitas das taxas com sacos de plástico...

TV NOSTALGIA - 85

Com a proliferação das aparelhagens individuais que também fotografam, o que eu estranho é que não haja uma cobertura mediática mais intensiva a episódios como o supra. Será, creio, mais por falta de publicitação do que por falta de cobertura, que as imagens de profissionais de saúde a dormir (literalmente) na forma a altas horas da madrugada devem abundar por aí. E isso acontecerá talvez porque a publicitação destas cenas desfará o mito, criado também pela média (mas que aproveita sobretudo à reputação dos que lá servem), que nas urgências de um hospital vive-se sempre a um ritmo de frenesim ao jeito da saudosa série televisiva ER (abaixo). Muitas vez acontece mesmo, sobretudo quando as urgências se tornam notícia de primeira página de jornal. Mas outras vezes são de uma pacatez de dar vontade de não chatear o médico (acima, à direita), coitado... E os doentes que por ele aguardam, já agora, porque não esperam mais uma horita ou duas?

23 janeiro 2016

TV NOSTALGIA - 84

Hoje é dia de reflexão, não se pode falar das eleições presidenciais. Esta série de televisão, dos inícios da década de oitenta, tinha por protagonista o Plastic Man. Ainda antes da palavra plástico ter uma conotação poluente e negativa. Plastic Man era um super-herói com a capacidade de fazer o seu corpo adoptar as mais variadas formas. E ao contrário de outros super-heróis as suas aventuras não eram para ser levadas totalmente a sério. Não me lembro se houve algum episódio onde ele tivesse penteado alguma cabeleireira, mas lembro-me que tinha uma namorada loura (chamada Penny) que aparecia sempre muito bem penteada.

PORTUGAL MERECE MELHOR DO QUE ISTO

Se recentemente me referi à mediocridade das opiniões de Paulo Baldaia e aos critérios insondáveis que levam à promoção de tais nulidades ao estatuto de destaque entre os fazedores de opinião, não quis ser exaustivo no elenco de tais figuras medíocres, identificando quem eu consideraria digno de emparceirar com o ex-director da TSF. A lista seria cruel além de potencialmente injusta como o são todas as listas, malignas ou benignas. Mas o título deste artigo de opinião acima de José Manuel Fernandes, publicado pelo Observador de ontem, ter-me-á feito algo, precisamente mudado a opinião que eu fizera, sozinho, sem a ajuda dos Baldaias. Mas talvez ultraje descreva melhor a minha reacção à passagem que incluí acima e que começa por ...retórica barroca e que se alonga em considerações sobre o candidato Sampaio da Nóvoa. Formara eu a minha opinião que Paulo Baldaia é um merdas mas que se consegue esquivar a julgamento mais severo porque, como outros, é um merdas de esquerda. E José Manuel Fernandes, por ser um merdas de direita que ainda por cima veio da - e traiu - a esquerda apanharia pelos dois e dos dois lados, por ser um trânsfuga. Afinal enganei-me. Afinal toda a traulitada que ele apanha será merecida: José Manuel Fernandes é pretensioso, é petulante, é um merdas, é de direita e além disso é rasca. Não é só por causa do que ele escreve acima sobre os títulos académicos de Sampaio da Nóvoa (que será factualmente falso), é aquilo que ele acima insinua sobre os três ex-presidentes da República, qualquer um deles predisposto a deixar-se seduzir por um qualquer doutoramento honoris causa¹ dado pelo ex-reitor. Escrevo isto com o distanciamento de quem, nestas eleições, não vai votar em Sampaio da Nóvoa. Mas o outro isto a que Fernandes não se refere, pegando no título sobre aquilo que Portugal merec(er)ia melhor, é pior porque é endémico e perpetua-se. Ele refere-se aos candidatos presidenciais mas a campanha eleitoral já acabou. Amanhã contudo, à hora do encerramento das urnas, aí estarão de volta os omnipresentes fazedores de opinião como ele e o Baldaia & Friends (a propósito: em que canal aparecerá José Manuel Fernandes?), concebendo-se quase todos (e discursando) como sendo a nata da opinião portuguesa. E porque, quase todos engajados, de engajamentos conhecidos e de discurso previsível, já sabemos o que quase todos vão dizer, ora aí sim, e porque nem sequer se sujeitam a qualquer tipo de escrutínio, Portugal merec(er)ia (muito) melhor que isto...

¹ José Manuel Fernandes estaria decerto muito distraído para não ter notado, por exemplo, que em 2006 Eanes fez o seu doutoramento na universidade de Navarra. Admitamos que, tendo trabalhado para receber um doutoramento canónico, é, no mínimo, estranho deixar-se lisonjear da forma sugerida por ter recebido um honoris causa...

22 janeiro 2016

AS CALÇAS QUE MARCELO PUSERA A SECAR E A MANDATÁRIA QUE, APRESENTADA COMO TAL, AFINAL NÃO O É

Na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa de Vítor Matos pode ler-se uma história engraçadíssima a seu respeito, numa ocasião em que algo acontecera às suas calças que, molhadas, precisaram de ser postas a secar, enquanto se aproximava a hora de uma audiência com o embaixador do Irão que o visitava na sede do PSD enquanto presidente do partido (estou a sintetizar de memória). Temos então a cena de um Marcelo em cuecas no seu gabinete enquanto se buscavam soluções alternativas para o evento que não poderia decorrer com o presidente naqueles propósitos. A começar pela proposta mais imediata (e, com celeridade, recusada) de que o secretário (José Luís Arnaut) cedesse patrioticamente as suas calças ao chefe. Perante a recusa obstinada de Arnaut, a situação acabou sendo ultrapassada com Marcelo a receber o embaixador acantonado por detrás da sua secretária que lhe escondia as pernas nuas e com um embaixador iraniano previamente brifado que, devido a umas obscuras regras protocolares (recém inventadas), o presidente do PSD em circunstância alguma se levantava da sua secretária quando de audiências como a que iria ter lugar...
Se esta deliciosa história me retornou recentemente à memória foi por causa do episódio da mandatária da sua campanha, uma mandatária nova (29 anos), desconhecida e expatriada chamada Maria Pereira, aqui acima apresentada por Marcelo quando da inauguração da sede da campanha, que teve o seu momento de (in)visibilidade quando não apareceu num debate que uma televisão organizou com os vários mandatários nacionais. O episódio fez-me lembrar as calças de Marcelo porque vim a descobrir que a mandatária... afinal não é a mandatária. O mandatário é outro (Fernando Manuel Cardoso da Fonseca Santos) conforme se comprova pelo mapa da Comissão Nacional de Eleições (CNE). Não é grave, mas é Marcelo em todo o seu esplendor - É proibido! Mas pode-se fazer! O que eu tenho pena é como o bloco da comunicação social terá deixado escapar o pormenor (ao contrário das redes sociais), numa indicação da sua incompetência para acompanhar as futuras tropelias do próximo inquilino do Palácio de Belém, que serão decerto capazes de gerar cenas cómicas em lugares respeitáveis verdadeiramente dignas dos filmes do irmãos Marx.

EVIDÊNCIAS QUE O DISTANCIAMENTO TEMPORAL NOS PREDISPÕE A ACEITAR MELHOR

Sete meses antes das eleições legislativas, Pedro Passos Coelho deu uma entrevista ao Expresso, de onde o jornal aproveitou para cabeçalho a sua promessa de que se iria bater por uma maioria absoluta. Mais do que isso, de entre as ideias mais fortes então formuladas e destacadas para acompanhar o cabeçalho, estavam a de que não ter um governo estável podia ser um perigo e a de que não fechava porta alguma, nem sequer a um bloco central. Lembro-me que no momento a história da maioria absoluta foi levada pelos seus apoiantes e adversários políticos à conta de uma bravata. Mas, por esta vez, adoptemos o princípio salutar que o primeiro-ministro queria dizer aquilo que disse e que o Expresso destacou, e comparemo-lo com o que veio a acontecer posteriormente em Outubro, e que tanta celeuma levantou. Que se ia bater por uma maioria absoluta - e não a alcançou. Que não ter um governo estável podia ser um perigo - e isso viu-se logo na posse do seu, quando foi rejeitado. E que não fechava a porta sequer à formação de um bloco central - o que é difícil de aceitar quando participou nas negociações sempre com o CDS de arreata, atitude que em si esvaziava de propósito a centralidade do bloco a constituir. Quando os ânimos se acalmaram e já se terão interiorizado as frustrações de perder o poder, mas quando permanece a lucidez de reconhecer que a solução governamental encontrada é também extremamente frágil, aceite-se compungidamente que bem se pode aplicar a Pedro Passos Coelho neste caso o velho ditado popular: pela boca morre o peixe...

21 janeiro 2016

JÁ NÃO HÁ DEBATES COMO DANTES...

Já nem era preciso reunir dez (nove, que Maria de Belém fez luto...) candidatos à presidência da República para que a constatação fosse óbvia: já não se «debate sobre situação política actual» (ou qualquer outro tópico...) com a veemência como se fazia nos tempos do PREC. No caso do evento anunciado acima, o local escolhido para a peleja foi a Escola Nuno Gonçalves e, apesar de bem vinda, era irrelevante a presença da comunicação social, especialmente a televisão, rara naqueles dias. Era a arte da argumentação pelo prazer da prática. A escolástica revolucionária. A sociedade evoluiu, as audiências voltaram ao seu hobby de sempre, o futebol, e os protagonistas também adoptaram novo comportamento: Ferro Rodrigues pelo MES, António Vitorino pela FSP, Isabel do Carmo pelo PRP-BR, para dar três exemplos de três figuras destacadas de cada uma das organizações convocadas que bem poderiam ter estado no tal debate, aburguesaram-se todos. Nos dias que correm não me surpreenderia vê-los alinhadamente unânimes no apoio a Sampaio da Nóvoa num daqueles almoços - e desde quando é que os verdadeiros revolucionários têm tempo para almoçar?... - de campanha.

O HOMEM CERTO

A notícia da nomeação do eurodeputado socialista Carlos Zorrinho para a comissão de inquérito sobre as emissões poluentes dos construtores automóveis é uma excelente notícia. É o homem adequado. Recorde-se que Carlos Zorrinho será um dos poucos vultos políticos portugueses agora destacados em Bruxelas com uma reputação firmada sobre os mais variados assuntos relativos ao sector automóvel, tendo-se notabilizado há cerca de três anos, no período mais agudo da crise, por nos ter explicado no facebook as economias representadas pela utilização pelo seu grupo parlamentar de um Audi 5 quando em comparação com um BMW 5, explicação tão bem dada («...deixei de puder usar em serviço um BMW 5 para usar um Audi 5 porque era significativamente mais barato») que a comunicação social lhe deu a devida cobertura... Agora a sério: há algo de injusto quando houve o episódio dos brioches da Maria Antonieta que se tornou famoso e depois há estes gajos que demonstram uma sensibilidade social equivalente e que lá se vão esgueirando pelo pingos da chuva...

DEBOCHE IMPERATIVO

Recolhido num parque. Sinal de trânsito com indícios de pouca ortodoxia. Trata-se do verbo pinar e de um convite (algo insistente) a fazê-lo. Pela forma, tanto se pode tratar da terceira pessoa do plural do presente do conjuntivo quanto - tempo que preferimos... - da segunda pessoa do plural do imperativo. Neste último caso, um assertivo convite ao deboche generalizado... A responsabilidade será de algum maroto do INEM com uma daquelas fantasias crapulosas em parques de estacionamento.

20 janeiro 2016

«LES BEAUX ESPRITS SE RENCONTRENT»

Sarah Palin, a antiga governadora republicana do Alaska e candidata à vice-presidência nas eleições de 2008, surge aqui nesta foto a apoiar publicamente o candidato Donald Trump, num comício que ontem teve lugar no Iowa. A cena é do mais americano que pode haver. Os fotografados representam a quintessência desse americanismo que, por exemplo, uiva para manifestar o seu júbilo, atitudes que o resto do Mundo nunca entenderá. E contudo só nos surge uma expressão bem francesa para legendar a cena: Les beaux esprits se rencontrent... Paradoxos.

UM TRIBUTO AO VELHOTE... PRECISAMENTE POR NÃO FAZER COMO O STATLER E O WALDORF

Numas eleições presidenciais que considero - infelizmente - estarem decididas de antemão, essa circunstância liberta-me a consciência para decidir o voto de acordo com outros critérios que não a selecção da identidade do próximo inquilino do Palácio de Belém.
Há uma meia dúzia de anos, talvez um pouco mais, que um núcleo de figuras de idades veneráveis, promovíveis ao estatuto de senadores, se tem destacado, com a conivência de alguma comunicação social, por preverem a decadência e o fim do mundo.
Mas não será pela gravidade apocalíptica do que dizem que os vemos disponíveis para, como os dois velhos dos Marretas, saírem da frisa do camarote de onde mandam as suas bocas para regressarem ao palco, tentando implementá-las. A excepção é Henrique Neto.
O meu voto será um voto de respeito pela atitude consequente de Neto. E o somatório de votos considerá-los-ei o fosso que separa quem se empenhou (como ele) daqueles que fizeram do tremendismo um novo estilo do pensamento político-económico...

19 janeiro 2016

A DIALÉCTICA DAS EXPECTATIVAS GORADAS DA ECONOMIA SOVIÉTICA, A PROPÓSITO DAS EXPECTATIVAS GORADAS DO PROJECTO EUROPEU.

No quinquénio de 1966 a 1970 a economia soviética cresceu ao ritmo médio de 4,1% ao ano. No que se lhe seguiu (1971-1975), esse ritmo decresceu para os 3,2% anuais. E no segundo quinquénio dessa década (1975-1980), a economia soviética, referência económica do campo socialista, acabou por vir a progredir a uma média de crescimento situada à volta de uns medíocres 1,0% anuais. Esta crise da desaceleração do crescimento económico (em 1973, a economia mundial crescera a 6,2%) não era percebida como tal pelo cidadão comum mas era evidente para os economistas soviéticos: o período ficou a ser conhecido pela estagnação brejneviana. Apesar das proclamações dos jornais de cá, a desaceleração do ritmo de crescimento da economia soviética muito antes de ela atingir níveis em que se pudessem equiparar aos níveis registados pela potência rival norte-americana tornava-se um problema preocupante, mais ideológico até do que económico, tanto mais que se entrava pelos anos em que os maiores dirigentes soviéticos do passado (a começar por Nikita Khrushchev) haviam prometido ostensivamente que essa paridade iria ser alcançada e mesmo ultrapassada. Há 40 anos a imprensa portuguesa dominada pelo PCP embarcava acriticamente (mais uma vez...) na promoção dos artigos de propaganda soviética a respeito do milagroso ressurgimento da sua economia para recuperar esse atraso. A edição de 24 de Janeiro de 1976 do Diário de Lisboa antecipava um período de crescimento intensivo da economia soviética, concretizado em crescimentos de 5,4% do rendimento nacional, 43% da produção industrial, 7% da produção agrícola. Infelizmente, como já acontecera no passado e acrescendo à clarividência de quem já conhece a continuação da história(...), todos aqueles números não passaram de piedosas intenções para serem discursadas durante as reuniões do Soviete Supremo.
Mudando substancialmente de assunto e indo consultar a página 54 do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) que foi elaborado em Agosto de 2011 para incorporar as previsões dos impactos que viriam a ter na economia e nas contas públicas portuguesas as medidas preconizadas pela troica, dá para perceber como, avaliando os quatro anos e meio passados e os resultados dos défices alcançados e previstos para este ano (a vermelho e laranja no quadro acima), os desvios se assemelharão no rigor ao acompanhamento de um plano quinquenal soviético típico da era Brejnev. Acresce à semelhança que, tal como outrora fizera Khrushchev em relação aos Estados Unidos, também Mário Soares, Cavaco Silva e os líderes políticos que lhes seguiram nos haviam prometido, como consequência da adesão à Europa, uma convergência progressiva com os padrões de vida dos países da União. Os últimos números do Eurostat (abaixo), envolvendo nomeadamente os três anos de aplicação do programa da troica, mostram-nos que isso está cada vez mais longe de acontecer: o PIB português em 2014 ainda foi inferior ao de 2011. Eu bem sei o quando poderá parecer desagradável estar a diagnosticar o mal sem propor soluções alternativas. Há contudo as vantagens de, apresentando o problema como aqui o faço, a) não dar por alternativas soluções que já eram caducas há 40 anos; b) notar que o problema da comunicação social, de quem, nocionalmente, se esperaria uma atitude moderna mais distanciada, permanece essencialmente o mesmo, engajado ideologicamente e afiliado às fontes de poder; e c) dar a possibilidade de chamar a atenção, pela analogia, que de não vale a pena adiar a questão política da União Europeia com tecnicidades: lá chegará o tempo em que a situação se tornará tão insustentável que os candidatos a reformadores - esses hipotéticos Gorbachevs da União Europeia - também já não chegarão a tempo de a salvar da desagregação.

MAS DEPOIS HÁ VEZES EM QUE ELE NÃO FICA: FAZ UM INTERVALINHOS...

Em contraste, reconheça-se que houve também aquela outra vez em que anunciou que era para se ir (irrevogavelmente) embora mas acabou por ficar. Sem Portas a política portuguesa arrisca-se a perder uma boa dose daquela aldrabice circunspecta que a todos nos anima e que não pode ser colmatada só com as improvisações de Marcelo a partir de Belém. Embora eu esteja em pulgas para descobrir como este último vai fazer Portas engolir a vychissoise...

18 janeiro 2016

«...AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT» (3)

Tantas serão as preocupações do jornalismo que se toma por mais sofisticado em fazer a opinião, que já nem se percebem as lacunas de certos artigos publicados nas páginas dos jornais que a fazem (à opinião...). Será o caso do artigo apresentado abaixo, que consiste numa descrição benevolente da guinada que Assunção Cristas se dispõe a fazer dar ao CDS/PP sob a sua liderança, mas onde falta um pertinente preâmbulo de apresentação no jeito dos que fazia John Cleese (acima) nos Monty Python. Lembremo-nos da coerência deste novo discurso com o que estivemos habituados a ouvir nos últimos quatro anos e meio, quer da parte do CDS/PP, quer da ministra da Agricultura...

SOBRE A SÍRIA SÓ SEI QUE POUCO SEI

Os complexos mapas que vão sendo publicados sobre a situação militar na Síria são suficientemente elucidativos quanto à dificuldade em identificar as facções em confronto, quais as suas posições e as regiões que estão militarmente em disputa. Mas, melhor que esses na expressão da complexidade da situação, que já transbordou para o Iraque, só mesmo um gráfico que foi apresentado pela revista The Economist já há vários meses, onde cruzou as atitudes entre si dos diversos actores do conflito: são 14(!) actores, apesar de todas as simplificações ali feitas (os Estados Unidos e os vários países da União Europeia estão emparelhados, por exemplo, e o mesmo acontece com a Arábia Saudita e os vários países da Liga Árabe - ora isso não é propriamente verdade...). Claro que o potencial militar no terreno e o peso político daqueles 14 actores variarão enormemente, mas apercebemo-nos pelo panorama geral de como a constituição de dois blocos antagónicos, confederando por negociação os objectivos em dois polos rivais, se afigura mais do que problemática. Ao contrário do enredo clássico de um filme do Oeste, não existem apenas dificuldades para que os bons se ponham de acordo: os norte-americanos não vão deixar de embirrar com Assad e o seu governo e os russos não vão deixar de o defender; os maus do fundo do gráfico, a Al-Qaeda e o Daesh, antagonizam praticamente todos os outros actores, mas não será por isso que deixarão de rivalizar entre si quanto à supremacia de ser o pior. Sinceramente, acho que a maioria das notícias que nos chegam da Síria são assertivas demais para a situação que o esforçado gráfico da The Economist procurou sintetizar.

17 janeiro 2016

A PROPÓSITO DE DOIS HOMENS QUE DISPARAM MAIS RÁPIDO DO QUE A PRÓPRIA SOMBRA

A maior diferença que existirá entre um dia típico do Oeste de Lucky Luke e um dia normal da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa é que o primeiro cansa-se e, em chegando a noite, precisa de repousar numa boa cama (abaixo) enquanto que ao segundo lhe bastará uma sesta nocturna assim mais prolongada...