17 janeiro 2016

A FEITURA DA OPINIÃO

(Paulo Baldaia, 22 de Setembro de 2015 sobre as eleições de 4 de Outubro...)
Por ocasião da sua recente saída da direcção da TSF Paulo Baldaia informa-nos que continuará «a ser jornalista no grupo Global Media» e que continuará «a fazer opinião na TSF, no DN e na SIC-Notícias». Algures durante estes últimos anos e quiçá por influência da língua inglesa (onde se consagrou a expressão opinion maker), alguns jornalistas da geração de Baldaia convenceram-se de que são uma elite, deixaram de formar a opinião para passar a fazê-la. Azar o deles que isso tivesse acontecido numa época em que, com a internet, a opinião publicada deixou de ser um exclusivo da classe. Porque, no meio deste seu pedantismo despropositado, nem se incomodam a aperceberem-se pelas caixas de comentários que conceito é que essa nova opinião publicada tem formado sobre a opinião que estes convencidos jornalistas fazem.

16 janeiro 2016

EVELYN NESBIT

É em fotografias como esta que a fotografia consegue mostrar as suas capacidades mágicas de preservar e tornar eterna a estética de um momento. A fotografada chama-se Evelyn Nesbit e o fotógrafo norte-americano Rudolf Eickemeyer, Jr. A pose languida, mesmo sensual, como este último captou o seu modelo não é nada comum para a época em que a fotografia foi tirada. O leitor surpreender-se-á ao descobrir que quando isso aconteceu reinava em Portugal El-Rei D. Carlos I (que reinou de 1889 a 1908). Estava-se nos primórdios do Século XX. Na verdade Evelyn Nesbit, aqui fotografada no final da sua adolescência, nasceu no dia de Natal de 1884 e era quatro anos e meio mais velha do que pessoas como Hitler ou Salazar (nascidos os dois com oito dias de diferença em Abril de 1889), que nos habituámos a considerar como o paradigma de quem nunca foi jovem. Esta beleza fresca de Evelyn Nesbit representaria para a sociedade nova-iorquina dos primórdios do Século XX aquilo que no final do mesmo virão a ser as supermodelos, embora numa versão mais ingénua e necessariamente mais puritana. Cobiçada por um milionário (Stanford White), desposada por outro (Harry Kendall Thaw), a beleza de Evelyn teve o (duvidoso) condão de ter desencadeado um homicídio: em 25 de Junho de 1906, Harry Thaw, o marido legítimo, então com 35 anos, assassinou por ciúmes o (pretenso) amante Stanford White com 52 no terraço do Madison Square Garden. Evelyn tinha então apenas 21 anos. O caso fez estrondo: abaixo podem-se ler os cabeçalhos de um jornal nova-iorquino do dia seguinte. O julgamento do caso foi considerado pelos jornalistas o julgamento do século. Já então os jornalistas não faziam a mínima ideia do que era um século...

BARDAMERDA...

Se, a princípio procuravam ser cuidadas, já me habituei a que as sempre engraçadas galerias de imagens e fotografias que costumam ser publicadas pelo Observador contivessem gradualmente, à medida que os autores mudavam, cada vez mais calinadas nas legendas. Então as que vão surgindo a propósito das eleições presidenciais passadas têm sido um verdadeiro mimo de falta de rigor (na foto abaixo, há uma grande confusão naquela legenda entre os resultados de Otelo em 1976 e 1980, donde resulta que o que lá está escrito está praticamente tudo trocado, tanto o lugar como a percentagem de votos). Mas esta última galeria (de 15 de Janeiro), envolvendo os cartazes de campanhas passadas (acima), cartazes assumidamente gamados do blogue Ephemera de José Pacheco Pereira, conseguiu superar o que já havia sido (mal) feito até aqui, tornando-se até caricato: é que para tomar um cartaz em que Pinheiro de Azevedo surge em caricatura, com os olhos vesgos e a dizer bardamerda como um cartaz genuíno da sua candidatura à presidência da República é preciso ser-se particularmente estúpido e incompetente...

15 janeiro 2016

«FELIZMENTE HOUVE A LUAR»

A LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) ainda hoje deixa saudades. Durante o PREC, período em que pulularam e prosperaram vanguardas revolucionárias para todos os gostos, a LUAR pode ufanar-se te ter cunhado um branding distintivo das demais. E Deus sabe quanto a concorrência era feroz e imaginativa! Mas a LUAR combinava o estatuto de vanguarda esclarecida leninista (que era comum a quase toda a concorrência), com o prestígio da existência e actuação anterior ao 25 de Abril (como o PCP ou o MRPP), com o charme do secretismo de se reclamar uma organização que preconizara e praticara a luta armada (como o PRP-BR). Na notícia referente ao seu I Congresso que se realizou em Fevereiro de 1975 (abaixo) está lá a cenografia de tudo isso: o secretismo, com uma primeira parte a decorrer em sessões restritas (mas há algum segredo que pudesse ser preservado com (sic) 500 participantes?); a sobranceria de não ter convidado qualquer formação política rival para o Congresso; o respeito que se adivinha pelos actos eleitorais («Não é com eleições que o Socialismo será implantado em Portugal»); e, em contrapartida, um certo desconhecimento da LUAR entre a opinião publicada: Camilo Mortágua é repetidamente tratado pelo jornalista encarregue de cobrir o evento por Cândido... 
Numa conferência de Imprensa, a L.U.A.R. divulgou o programa do seu I Congresso que decorre, desde ontem, em sessões restritas no Coliseu dos Recreios, em Lisboa encerrando com uma sessão aberta, amanhã.
O Congresso terá a presença de cerca de 500 delegados dos núcleos organizados no país e vai debater, democraticamente, problemas tácticos, estratégicos e estruturais, a fim de encontrar as respostas políticas necessárias, e eleger os órgãos directivos. Nele participarão representantes das organizações revolucionárias estrangeiras, mesmo aquelas que operam na clandestinidade, o que impede que sejam divulgados os seus nomes. Aqueles que agem em liberdade serão apresentados na sessão final do Congresso.
Na reunião, não só Palma Inácio como Cândido
(sic) Mortágua e Fernando Marques explicaram as linhas gerais que regem a L.U.A.R., segundo as quais não é com eleições que o socialismo será implantado em Portugal, pois o socialismo nunca foi implantado por decreto, e só uma informação junto das massas trabalhadoras do campo, das fábricas e do mar pode criar um esclarecimento que leve ao verdadeiro socialismo.
Relativamente à sessão de encerramento, Palma Inácio esclareceu que «para essa sessão não foram convidados os partidos políticos» acrescentando que «isso não significa que sejamos isolacionistas ou sectaristas, mas o que nos preocupa realmente é encontrar bases unitárias de trabalho. Para isso convidamos todas as comissões de trabalhadores existentes no país».
Quanto à possibilidade ou não de, nas próximas eleições, votarem os militantes da L.U.A.R., Cândido
(sic) Mortágua esclareceu que tal posição só será definida no Congresso, mas que os militantes da Liga eram, «acima de tudo, trabalhadores».
Mas há que reconhecer que a segunda sessão, a aberta, do dito Congresso terá sido um verdadeiro sucesso, não tanto político, mas sobretudo musical. Por se ter realizado precisamente no Coliseu dos Recreios, há que reconhecer hoje, de um ponto de vista capitalista, que a LUAR reuniu revolucionariamente naquele palco um cartaz (Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Carlos Alberto Moniz, Vitorino) de cantores de intervenção que seria capaz de fazer as invejas de qualquer empresário de espectáculos...
Todavia, mais do que satisfazer a esquerda melómana, ser-se militante da LUAR parece ter adquirido outras possibilidades mais específicas em termos de atitude revolucionária para aqueles militantes de esquerda que tivessem o hobby das armas. Seria o equivalente de uma licença de porte de arma revolucionária, como se deduz por esta notícia de Agosto de 1975, de um acontecimento bizarro ocorrido na margem sul. Toda a notícia está, aliás, muito mal contada, há ali uma prontidão de meios e de reacções que é completamente inverosímil ocorrer às 3 da manhã, mas o que importa realçar do episódio é o envolvimento (a meu ver, demasiado casual) dos comunistas do PCP no assunto e o recurso à invocação, por parte dos seus adversários, da LUAR como alibi para justificar a posse das armas. Ora, quem viveu aqueles tempos, não está a imaginar ninguém a justificar quaisquer duas granadas que levasse no bolso por se ser do MES, da UDP ou da LCI... Por se prestar a essas desculpas, a LUAR era, de facto, diferente. Não sei é se foi uma felicidade tão grande ela ter existido...
Seis indivíduos armados que se faziam transportar num automóvel estrangeiro, de matrícula parisiense, foram detidos a meio da madrugada de hoje na Moita por fuzileiros navais.
Segundo conseguimos apurar esses indivíduos tinham-se dirigido cerca das 3 da manhã a um café na Baixa da Banheira onde exibiram armas (uma delas metralhadora) e amedrontaram e insultaram alguns indivíduos que aí se encontravam a jogar à batota. O alarido e a circunstância de tais indivíduos estarem armados despertou a atenção de militantes do P.C.P. cujo centro de trabalho fica muito próximo do referido café. Do centro saíram para a rua imediatamente vários militantes daquele partido.
Atemorizados com o número de pessoas que surgiam de vários lados os indivíduos puseram-se em fuga não sem terem feito dois disparos um dos quais atingiu uma das portas do centro de trabalho do P.C.P. O estranho comportamento dos fugitivos motivou uma mobilização imediata em toda a zona da Baixa da Banheira, Alhos Vedros e Moita por elementos afectos ao P.C.P.
Entretanto os fuzileiros avisados imediatamente apareceram e juntamente com a G.N.R. cercando-os perto do cemitério da Moita.
Conduzidos ao Alfeite, para averiguações, os detidos intitularam-se membros da L.U.A.R. Entretanto, continua-se a proceder ao apuramento de todos os pormenores que permitam a sua perfeita identificação, pois tudo leva a crer que as suas declarações são falsas.
Em contacto esta manhã com um porta-voz da L.U.A.R., ele afirmou-nos desconhecer o ocorrido tendo, no entanto, manifestado dúvidas de que tais indivíduos pertençam à organização. Disse-nos mesmo que é frequente aparecerem indivíduos vangloriando-se de tal.

14 janeiro 2016

«NICE SUIT»


Momento memorável de Alan Rickman em Die Hard: Nice suit.....John Phillips, London.... I have two myself.... Rumour has it Arafat buys his there (Belo fato... John Phillips, Londres... Eu próprio tenho dois... Consta que o Arafat é lá cliente....). De uma penada, como se fosse um comentário ameno numa viagem de elevador, o sequestrador exibe-se como tendo um estatuto equivalente ao do sequestrado (apesar de este ser um quadro superior de uma corporação japonesa), denunciando no processo as verdadeiras intenções dos líderes do terrorismo político internacional.

LUTOS EXCESSIVOS

Apesar de ser um apreciador de David Bowie (ou talvez por isso mesmo...), parece-me que estará a haver talvez uma exuberância excessiva nas múltiplas manifestações de pesar pela sua morte. (72 canções?!) Não há nada como o tempo - 40 anos no caso do camarada Mao - para relativizar (e, quando caso, ridicularizar) os lutos excessivos.

13 janeiro 2016

SE A COREIA DO NORTE NÃO É UMA DEMOCRACIA, SERÁ A IMPRESA UMA MERITOCRACIA?

O que vale é que todos sabemos como a empresa de Balsemão é gerida profissionalmente e está recheada daqueles quadros formados dentro da própria Impresa de que se fala no Observador e no poste anterior. O resto são coincidências...

PRELÚDIOS PARA OFERECER UM ORDENADO DE MERDA

Num mundo de que nos orgulhamos estar sempre em evolução ele há coisas que parecem que não mudam. Entre os pormenores da formação que adquiri há várias décadas, alguns deles sem ser em qualquer grande empresa mas aprendidos à própria custa, contava-se a certeza de que quando o entrevistador para um emprego adoptava um discurso prévio como o que está transcrito acima - gabando a sua empresa como escola de formação de quadros, etc. - ir-se-ia seguir a proposta de um ordenado que era uma merda. Era o tempo em que ainda não era politicamente incorrecto comparar aquele discurso ao da conversa de um cigano a vender um burro. O que eu não me lembro era de ler os jornais a endossar o discurso por verdadeiro como agora se lê neste artigo do Observador... Lembro-me do homem da Regisconta (abaixo) mas isso como publicidade assumida... É que eu até posso aceitar que as organizações sem fins lucrativos (militares, policiais, de assistência social, etc.) se utilizem daquele engodo da experiência que fornecem em troca de ordenados miseráveis. É uma fraude, mas absolvível. Agora, a Novabase, a EDP, a Sonae?...

12 janeiro 2016

QUANTO MAIS CONHEÇO...

Quanto mais conheço o rigor do que é publicado na internet mais eu prefiro confiar na informação das outras fontes. Esta ideia acima, por exemplo, que aparece repetida num mesmo site, é atribuída, com alterações de pormenor, sucessivamente ao filósofo e matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), ao escritor e historiador português Alexandre Herculano (1810-1877) e ao (até aqui para mim inteiramente desconhecido) cantor e compositor brasileiro Raul Seixas (1945-1989). Considerado o padrão de que a ideia se repete reinventada por alguém a cada século que passa, decerto alguém também terá dito algo envolvendo homens antipáticos e bichos simpáticos durante o Século XVIII. O kdfrases.com é que ainda não sabe quem terá sido... E a ideia reapareceu esplendorosa também neste nosso Século XXI, manifestada agora a múltiplas vozes e sentida de forma pró-activa, nesta era em que todos dispomos de voz e de sentimentos para gastar em quem merece. Nas páginas de facebook. Nas petições on-line. Na forma como exprimimos a nossa comiseração os animais agora tendem a igualar, senão mesmo a superar merecidamente os humanos, como desabafavam os pensadores antigos e como muito bem se retrata neste sketch da Porta dos Fundos.

Os meus agradecimentos a quem me enviou este precioso vídeo acompanhado da sugestão.

HÁ PRECISAMENTE CEM ANOS...

Depois de finalmente derrotado pelas invasões conjugadas da Áustria, Alemanha e Bulgária (setas vermelhas) numa campanha que durara pouco mais de dois meses (entre Outubro e Dezembro de 1915), o exército sérvio - recorde-se que fora nos Balcãs e por causa da defesa da Sérvia que começara a Primeira Guerra Mundial - acabou por retirar para a Albânia (tracejado laranja), país neutral no conflito. Segundo as Leis Internacionais, os combatentes sérvios deveriam ter sido desarmados e deveriam ter permanecido internados na Albânia até ao fim do conflito. Mas não foi propriamente isso que se passou...
A 12 de Janeiro de 1916 começaram os embarques dos cerca de 150.000 soldados sérvios no porto albanês de Durrës (que a Itália ocupara preventivamente no ano anterior...) numa frota de navios fretados por franceses, britânicos e italianos para os transportar (seta laranja) para a ilha grega de Corfu (assinalada a branco), onde seriam reequipados para os reengajar no combate contra as Potências Centrais, pela libertação do seu país ocupado. Vale a pena acrescentar que também a Grécia era então um país neutral, embora as potências aliadas tivessem disposto da ilha ignorando por completo a soberania grega.
Estes são aqueles episódios das grandes guerras que se tornam esquecidos mas não apenas por não terem grande relevância para a sua evolução e desfecho. Esquecem-se e/ou são citados superficialmente porque demonstram o quanto, nessas situação de conflito, os beligerantes tendem a não se preocupar com princípios morais. Só a História do conflito (a ser escrita posteriormente) irá distinguir os atropelos à legalidade de cada uma das partes, evidenciando os praticados pelos vencidos, esquecendo convenientemente - é o caso - os dos vencedores. O Direito Internacional é um conceito tão relativo que chega a ser pertinente perguntar se existe...

11 janeiro 2016

OPERAÇÃO «BABYLIFT» : A FOTOGRAFIA COM IMPACTO E A SUA VERDADEIRA HISTÓRIA

Entre 51 fotografias pouco conhecidas do Século XX que o Observador seleccionou para exibir recentemente, conta-se esta acima, que considero muito interessante, a que acrescentou a legenda explicativa: 1975. Vários bebés são transportados depois da Guerra do Vietname os ter deixado órfãos. Conhecia-a, mas tinha pejo em usá-la por insuficiência daquilo que pretendia representar. Mesmo compreendendo as limitações explicativas de qualquer legenda, há que dizer que a fotografia pode induzir conclusões que estão erradas e injustas. Houve de facto um esforço dos norte-americanos para evacuar crianças vietnamitas de tenra idade (e não apenas bebés...) para virem a ser adoptadas nos Estados Unidos (...mas também em França, no Canadá e na Austrália - 40% delas). Designaram-no por Operação Babylift. Mas essa Operação Babylift foi desencadeada ainda decorria a Guerra do Vietname, e foi-o na sua fase final, quando o Vietname do Norte invadiu militar e ostensivamente o Vietname do Sul, seguro de que os Estados Unidos não regressariam ao Vietname do Sul para o defender, e quando as forças armadas e o governo deste último país colapsaram em pouco mais de três meses. Outro aspecto em que a fotografia se prestará a induzir em erro, são os meios aéreos que foram afectos para a realização da tal operação: a grande maioria das evacuações foram realizadas em aparelhos militares de transporte e não aviões civis, como o que aparece na fotografia. O que aconteceu foi que os privados, compreensivelmente, fizeram muito mais publicidade às suas iniciativas. Aliás, sintomático da proporção de aviões militares envolvidos, foi um C-5 Galaxy, o maior cargueiro militar da USAF de que várias unidades haviam sido mobilizadas para a Operação, que infelizmente se veio a despenhar perto de Saigão em Abril de 1975, causando a morte de 78 crianças e 35 adultos que nele viajavam. Finalmente, um dos aspectos mais controversos da Operação tem a ver com o facto de, das cerca de 3.300 crianças evacuadas (repete-se, não eram apenas bebés), não existirem apenas órfãos de guerra mas também uma significativa minoria que não o eram, antes crianças renegadas por resultarem de ligações episódicas de mulheres vietnamitas com militares norte-americanos que haviam estado destacados no Vietname. O fenómeno comprovava-se pela incidência de crianças embarcadas evidenciando traços físicos euro ou afro-asiáticos. Mas também é possível argumentar, por outro lado, que a ascendência caucasiana dessas crianças facilitaria a sua posterior adopção nos países de destino... Esta é uma daquelas situações em que tendo a não concordar com aquele aforismo que estabelece que uma imagem vale por mil palavras. Concordo que se podem escrever mil palavras acerca do que a fotografia inicial nos mostra. Mas será que, apenas pelo que ela nos mostra, isso nos permite perceber tudo o que aconteceu? Pelos vistos, parece que não...

10 janeiro 2016

«GHOSTBUSTERS ELEITORAL» ou «É O DELÍRIO EM ALVALADE!»

Depois da enumeração dos apoiantes, da mobilização dos simpatizantes e da nomeação dos mandatários será que nos preparamos para assistir agora à invocação dos fantasmas para a dinamização das campanhas eleitorais? Depois de sessões de esclarecimento teremos agora as sessões espíritas? Eu bem sei que João Soares sobraça neste governo a pasta da Cultura, o que é um salvo conduto para a liberdade criativa, mas que diabo?! Invocar o voto da mãezinha lá do outro mundo? Como escreve um amigo meu, quando o disparate se torna tão grande que ultrapassa a nossa capacidade de ironizarmos à sua custa torna-se o delírio em Alvalade! (Hoje, pelos vistos, foi)

UM COMENTÁRIO MUITO OPORTUNO... QUE TANTAS VEZES EU JÁ QUIS FAZER AO COMENTADOR

Segundo li numa das redes sociais, nesta Sexta-Feira, por ocasião das celebrações do 15º aniversário da SIC Notícias, ocasião para a qual a estação convidou os candidatos à presidência da República, ter-se-á travado o seguinte diálogo entre o candidato Tino de Rans (Vitorino Silva) e Ricardo Costa, o director do Expresso:

- É um bocadinho difícil de (sic) perceber o que é que você está aqui a fazer. (Ricardo Costa)
- Eu estou aqui porque fui convidado pela SIC. (Tino de Rans)
E vai-se ao requinte de adicionar a hora em que este delicioso pedaço de diálogo foi travado (23H54). (Haja quem tenha a possibilidade e a disposição de o afixar num sítio público como o You Tube; se houve quem recentemente tivesse recuperado o saudoso - de há muito desaparecido - Assim Não de Marcelo (e da Elisa) dos tempos do referendo do aborto e que catapultou para a celebridade Ricardo Araújo Pereira).

Independentemente da malícia (quiçá involuntária) da resposta do candidato, o que me impressionou foi a pertinência da observação de Ricardo Costa e da pena que me dá que eu não a possa fazer, tão pertinente quanto ela, ao mesmo Ricardo Costa quando ele aparece naquela mesma SIC Notícias a comentar tudo e um par de botas. É um bocadinho difícil de perceber o que ele anda para ali a fazer. Costa é, com um grupo restrito de jornalistas de que escolho para exemplo apenas mais outro nome, o de Paulo Baldaia, um especialista em dizer umas generalidades sobre o assunto do momento que bem podiam ser ditas por uma de 300 outras pessoas em alternativa - talvez mesmo até o Tino... O problema é que, quando esses especialistas das trivialidades chegam às ocasiões em que, à informação há que adicionar formação, estudo e/ou cultura, espalham-se ao comprido como tive ocasião, de resto, de demonstrar há uns dias com um texto precisamente de Ricardo Costa a respeito do ensaio nuclear norte-coreano. Nisso, Ricardo Costa ou Paulo Baldaia ou aquele punhado de comentadores sempre de serviço irmanam-se em serem uns NPPN (Não Percebem de Porra Nenhuma) e nem têm a modéstia de reconhecer os riscos do ridículo a que se expõem quando isso acontece. Há tópicos em que é um bocadinho difícil de perceber o que é que eles andam para ali a fazer...

ARDENAS 1944

Mesmo tendo-se tornado num dos nomes consagrados no género (acabou especializando-se nas grandes batalhas da Segunda Guerra Mundial), Antony Beevor é um autor cujos livros, na minha opinião, alcançam resultados muito díspares que podem ir do muito bom, como o da batalha de Estalinegrado ou então o sobre Paris Após a Libertação (1944-49), ao banal com alguns erros pouco aceitáveis como A Segunda Guerra Mundial, até ao absolutamente maçudo, como o é o da batalha de Creta. As críticas que fui lendo indiciaram-me que este Ardenas 1944, sobre a batalha das ditas e publicado em 2015, pertenceria mais ao segundo grupo e decidi-me a aguardar pela publicação da versão portuguesa. Fiz bem. Não é um livro marcante mas também não é livro que deslustre numa colecção de livros dedicados à Segunda Guerra Mundial. Apesar do subtítulo da edição portuguesa (a última jogada de Hitler), creio que lhe falta um bom enquadramento da situação estratégica. Como costuma ser explicado repetidamente para o caso de Napoleão em Waterloo 129 anos e meio antes, naquela mesma Bélgica mas em 1815, também a posição de Hitler era desesperada e apenas a vitória tactica lhe poderia interessar; o empate tactico - que foi o desfecho alcançado tanto pelos ingleses em Waterloo como pelos norte-americanos nas Ardenas - representaria a derrota estratégica para qualquer dos dois ditadores aspirantes a dominar a Europa, atendendo à desproporção das suas forças em relação às coligações com que se defrontavam. Do ponto de vista estritamente militar, o interesse (de qualquer) da(s) batalha(s) é mediano; do ponto de vista da sua promoção com intuitos políticos é fundamental para as hegemonias sobre o continente que se seguiram (a britânica em 1815, a norte-americana em 1945). São muito boas algumas das fotografias inclusas no livro. Esta abaixo, onde aparece um enfatuado Bernard Montgomery a suportar um desdenhoso olhar de Dwight Eisenhower, é um interessante símbolo da tensão das relações entre Aliados e não seria fotografia para tornar pública enquanto a guerra durasse, mas para guardar para um futuro momento de arrefecimento nas relações anglo-americanas.

09 janeiro 2016

O «DISTINTOR» E O DISTINGUIDO

Nesta fotografia de princípios de 1945, o general Courtney Hodges, um dos principais comandantes do Exército norte-americano na Europa, condecora com a Silver Star um dos seus subordinados, o general Robert Hasbrouk que, no comando da sua divisão blindada, se distinguira durante a Batalha das Ardenas. A questão que dá interesse à fotografia é que o próprio Courtney Hodges é que não se distinguira propriamente durante essa mesma Batalha, mas, por razões que agora não vêm ao caso, mas que têm a ver com a rivalidade anglo-americana, os seus compatriotas (nomeadamente o comandante supremo, o general Dwight Eisenhower) não se mostravam dispostos a reconhecê-lo. Daí a importância da promoção desta fotografia, em que o alvo da promoção não é quem aparenta ser. Isto acontece muito mais vezes do que se pensa. Ainda recentemente foi notícia que um desconhecido Prémio Vasco Graça Moura - Cidadania Cultural havia sido atribuído a Eduardo Lourenço. Com 92 anos, a carreira que se lhe reconhece e os reconhecimentos que já lhe foram prestados, é simpático que o galardoado reaja com modéstia à sua concessão, mas há que constatar que não é o ensaísta que acaba mais distinguido do que já o é, são os jurados do tal Prémio Vasco Graça Moura - que está a ser concedido pela primeira vez - que estão descaradamente em busca de promoção para o prémio.

«O INDEPENDENTE»

É livro para recomendar. Todos aprendemos com ele. Quem não viveu a época que o livro abrange, os anos de apogeu do cavaquismo (1987-1995), aprende naquele sentido estrito de ficar a saber o que aconteceu; quem a viveu aprende percebendo agora aquilo que se passava nos bastidores. E, como foi o meu caso, de como muitas opiniões que na época formámos estavam inquinadas pelas manobras de que O Independente era o agente visível. Os autores do livro - que estão de parabéns - dão um enorme ênfase ao que denominam por projecto anti-Cavaco de Paulo Portas, mas o que se percebe com a clarividência da distância temporal é que, não fora precisamente Cavaco Silva e o cavaquismo e a história do jornal teria sido inteiramente diferente, porque as fontes (algumas delas identificadas) que o alimentaram por anos dos casos que o popularizaram, só o faziam dada a hegemonia da maioria absoluta do PSD, circunstância que os obrigava a travar as suas guerras políticas em surdina via cabeçalhos de imprensa - e O Independente ( indiscutivelmente por mérito da dupla de criadores) era o preferido. E como uma boa história com moral, também não falta o episódio em que a criatura acaba por escapar ao controle (pelo menos de um) dos criadores do jornal. E por falar neles, ou melhor num deles, Miguel Esteves Cardoso, que fez uma recensão muito simpática, porém irónica, ao livro, vale a pena acrescentar que o livro tem aquelas 300 páginas (na verdade 320...) que se afiguram óptimas para uma leitura escorreita que se lê numa tarde (versão do próprio Esteves Cardoso), ou então nas duas horas de uma qualquer viagem de avião (versão do embaixador Seixas da Costa). Eu confesso que demorei um pouco mais...

08 janeiro 2016

DEBATES E OUTRAS FORMAS DE CONFRONTAÇÃO POLÍTICA

O debate que ontem opôs Sampaio da Nóvoa a Marcelo Rebelo de Sousa foi muito interessante. Revelou um Marcelo Rebelo de Sousa surpreendentemente incomodado não só pelo contraditório como sobretudo pelas evidências das contradições do que foi dizendo em televisão - e assim registadas... - ao longo dos anos que leva de comentador televisivo. Sampaio da Nóvoa foi nitidamente superior. Resta verificar se aquela prestação que tanto animou as hostes dos que se opõem pela esquerda a Marcelo Rebelo de Sousa - Maria de Belém está hoje obrigada a fazer tão bem ou melhor que Sampaio da Nóvoa ontem - terá tido também impacto significativo entre os outros, aqueles que se mostravam dispostos a votar em Marcelo antes do debate. Este é aquele que considero o jogo limpo, saudável da Democracia. Depois há o jogo sujo (acima) e a insistência que tenho visto em vários sítios das redes sociais em colar Marcelo ao padrinho homónimo (Marcello Caetano). Mais por pedagogia dissuasória, gostaria de ver qual a reacção de quem o pratica (a esse jogo sujo), quando confrontado com um tratamento equivalente dado a Sampaio da Nóvoa, conhecida a sua militância na LUAR (abaixo). É que os pergaminhos democráticos maculados de um, por escrever cartas ao padrinho há mais de 40 anos, equivalem-se ao do outro alguns anos depois, quando militava em organizações que pugnavam pela extinção de uma Assembleia Constituinte que até fora eleita democraticamente. É que houve muita gente que só se converteu à Democracia com o 25 de Abril, mas também houve muita gente que só se converteu à Democracia com o 25 de Novembro...
E claro, embora não se tratando de qualquer destes dois candidatos, há aqueles que, respeitando-lhe as regras, ainda hoje não se converteram à Democracia...

41 DIAS DE INEFICÁCIA GOVERNAMENTAL

Com o beneplácito de serem publicadas no Observador (jornal que tem a virtude de temperar as indignações e os eventuais ataques à sua fidedignidade por parte dos apoiantes da antiga maioria), apreciem-se estas duas notícias, justapostas, separadas temporalmente pelo mês e meio (entre 24 de Novembro de 2015 e 6 de Janeiro de 2016) de governo socialista. Hugo Soares foi o deputado que, da parte do PSD, ficou encarregue destas mais recentes acusações. Foi só pretexto para que das bancadas adversas voassem contra-acusações jocosas por tudo aquilo que o PSD (e o CDS) deixaram feito enquanto por lá andaram. Foi iniciativa que não ilustra colectivamente nenhum dos blocos parlamentares como também não ilustra individualmente o deputado Hugo Soares a quem entregaram o disparatado frete (que calham sempre aos totós mais novinhos das respectivas bancadas). A troca de acusações, onde já se percebeu não haver inocentes, deprecia ainda mais a classe política e, a extrair-se alguma conclusão, só aquela, irónica, que já li por aí. A de que a malta da maioria antiga era aparentemente muito mais eficaz que a actual já que conseguiu despachar num só dia ⅔ das nomeações de que agora acusa o governo ter demorado 41 dias a fazer... Se não fosse a inércia socialista, por esta altura já poderia haver mais 4.000 nomeações governamentais.

Adenda já sem ironia: Que, ao menos, se mantenha um certo tipo de escrutínio sobre a prática das nomeações, como aqui se faz.

07 janeiro 2016

O PONTO DE VISTA DE OUTRO JORNAL, MAS AGORA SEM O DIRECTOR

 

Ao contrário do que acontece com Ricardo Costa e com o Expresso que salta destemidamente para a praça e lida o touro dispensando o auxílio dos capinhas que pudessem dominar a matéria técnica sobre a qual discorre e evitar-lhe alguma baboseira mais evidente, o seu homólogo David Dinis no Observador mostra-se de outra geração e adopta um estilo mais resguardado, dando à notícia uma redacção mais sóbria, blindando-a das críticas com o material gráfico que as agências de notícias internacionais (no caso a France-Press) foram entretanto disponibilizando para os seus associados. Azar o deles, os do Observador, que neste caso a AFP se tenha prestado a um daquelas raras omissões que, com os erros, acontecem a todos o que por cá andam. O lapso é que , no local onde se vê inserta aquela setinha vermelha (clicar em cima do gráfico para o aumentar, a grande bola é a bomba Tsar a que já aqui me referi neste blogue) ficou a faltar assinalar o primeiro ensaio nuclear da Índia, que teve lugar em Maio de 1974 (abaixo). Teste subterrâneo baptizado de Buda Sorridente, terá sido um dos ensaios nucleares a quem deram um nome mais poético talvez para compensar as fotografias que pouco teriam de espectacularidade dado tratar-se de um ensaio subterrâneo; infelizmente e por contraste, do ponto de vista técnico terá sido até aí a mais desapontadora estreia de uma potência na era nuclear. Previsto para que a explosão desencadeasse uma potência presumivelmente superior, ela ter-se-á ficado pelas 8 kton de equivalente de TNT (o equivalente a ½ a ⅔ da bomba de Hiroxima). O que, por coincidência, se aproxima dos valores que estão a ser estimados para os últimos ensaios nucleares realizados pela Coreia da Norte (6 a 9 kton). Poderá não servir de grande consolo desconfiar que os norte-coreanos estarão em dificuldades para progredir na potência destrutiva do seu armamento nuclear, substituindo-as por retórica. Mas creio que é preferível assim do que o contrário. Tanto mais que, como se pode ver pelo gráfico acima da AFP, na próxima vez que a Índia realizou o próximo ensaio nuclear em 1998, dessa vez detonando uma verdadeira (mas pequena) bomba H, a potência do engenho que ensaiou, quintuplicara para as 40 kton...

06 janeiro 2016

O PONTO DE VISTA DE UM DIRECTOR DE JORNAL

A respeito de uma das mais importantes notícias do dia, o ensaio nuclear realizado pela Coreia do Norte, surpreendi-me a ler a seguinte passagem de Ricardo Costa no Expresso:

Para quem pense que isto tem pouco a ver com o resto do mundo, aconselho estas pequenas contas:

a) Uma bomba de hidrogénio (ou Bomba H) é uma bomba termonuclear incrivelmente superior (até 4000 vezes) à bomba de Hiroshima (sic) e a tudo o que já foi usado em qualquer guerra.

b) A Coreia do Norte está a tentar construir uma ogiva que consiga ser colocada no míssil balístico Taepedong-2, que tem um alcance potencial de 6700 km, atingindo o Alasca, o Canadá ou a Costa Leste dos EUA…
 
Mesmo passando por cima do detalhe de quem, não percebendo nada do assunto e desenhando, por assim dizer, à vista, até transcreve mal o nome do ameaçador míssil balístico (é Taepodong-2 e não Taepedong...), registe-se a selecção que Ricardo Costa faz dos alvos passíveis de ser atingidos com essa arma do arsenal norte-coreano (Alasca, Canadá e até a Costa Leste dos EUA). Comparemo-la com a informação do mapa acima, onde, entre tantas outras metrópoles ameaçadas, identificamos cidades como Moscovo, Nova Deli ou Jacarta. Não ficarão dúvidas de quais serão as fontes de inspiração exclusivas do pensamento estratégico de Ricardo Costa (se existir...). E de que, quando ele se refere ao resto do mundo, se está a referir específica e (também) limitadamente à perspectiva dos Estados Unidos. Um engajamento que, não sendo um predicado em quem pretenda fazer qualquer análise estratégica global, torna-se num defeito em quem a faz, como neste caso, em nome de um jornal.

Acrescentar informação à informação disponível implicaria os conhecimentos técnicos que Ricardo Costa não tem - ele é um dos campeões das generalidades. Importaria esclarecer que a dimensão do terremoto artificial gerado pela detonação (4,9 a 5,1 na escala de Richter) torna improvável que a bomba fosse um engenho termonuclear como proclamado. O efeito relativamente limitado situará a potência estimada do engenho nuclear entre os 6 a 9 kton de TNT, potências equivalentes à registadas pelo testes já realizados pela mesma Coreia do Norte em 2009 e 2013, onde se registaram abalos sísmicos equivalentes. Trata-se de potências que, apesar de respeitáveis em absoluto, são pequenas em termos de armamento nuclear: por exemplo, trata-se de uma potência equivalente a 50/75% da da bomba detonada em Hiroxima em 1945. Na verdade, por detrás da retórica, avaliando exclusivamente pelos resultados, a pesquisa norte-coreana parece ter estagnado, sem conseguir ultrapassar os problemas técnicos para a construção de armamento nuclear mais poderoso. Escrever isso não ajuda a alarmar mais as pessoas e a vender mais jornais, reconheço.