21 agosto 2016

EURO - como é que uma banal moeda ameaça o futuro da Europa

O Euro tornou-se o grande pomo de contenda capaz de dilacerar a Europa. E Joseph Stiglitz é um daqueles Nobel (Paul Krugman é outro...) que adora dizer coisas que se escutam com a amplificação derivada de ter recebido o prémio. Acabou de publicar o livro acima. E a revista The Economist fez do livro a recensão que se pode ler abaixo. Não é demasiado elogioso mas acaba dando-lhe razão no essencial: Sem uma revisão do que existe, o Euro parece garantido ao fracasso e que um divórcio amigável seria preferível à situação actual, que já está a colocar em risco tudo o que foi alcançado até agora em termos de integração europeia. Já que estes livros nunca são para ler, mas apenas para se dizer que se leram, neste caso ao menos que se tome em linha de conta estas duas conclusões...

Aqueles que estejam em busca de um antídoto para as ansiedades que advêm do voto britânico pelo abandono da União Europeia devem evitar o último livro de Joseph Stiglitz. O tópico é o Euro, que tem sido a maior fonte de preocupações para a Europa e que, a crer na sua análise, vai continuar a sê-lo. É um assunto robusto, adequado a ser tratado por um economista que ande nas bocas de toda a gente. Stiglitz é um dos laureados com o prémio Nobel, é um dos economistas cabeça de cartaz do Banco Mundial e já escreveu alguns livros com a sua dose razoável de presciência, nomeadamente “Globalisation and Its Discontents”, publicado em 2002.

O argumento principal do seu livro mais recente é que, pela evolução corrente das coisas, o Euro vai tornar-se um fracasso – e que, de facto, estava fadado para isso desde o seu início. Está associado a taxas de câmbio e de juro fixas para o conjunto dos países membros que adoptassem a moeda, o que significa que eles têm que abdicar da opção da desvalorização em tempos difíceis. Para compensar, os arquitectos do Euro deviam ter criado outras mecanismos tais como títulos emitidos em conjunto, um apoio recíproco aos depósitos bancários ou um fundo comum para financiar o desemprego, para que os custos de rectificação de cada economia fossem compartilhados pelas outras. Em vez disso, o fardo recai em cada país individualmente através de políticas austeritárias como a subida de impostos e a redução de salários. Os resultados foram os piores na Grécia, onde o rendimento nacional se reduziu em um quarto desde 2007 e onde a taxa de desemprego é de 24%. Joseph Stiglitz pensa que ainda se vai a tempo de corrigir isso. Mas um divórcio amigável seria preferível à situação actual, que já está a colocar em risco tudo o que foi alcançado até agora em termos de integração europeia.

Um grande bocado do livro é dedicado a criticar os decisores políticos e a forma como têm tentado resolver a crise do Euro. Joseph Stiglitz contesta correctamente a análise de culpar-a-vítima pelo fracasso do Euro, que é a que se costuma ouvir correntemente na Alemanha. Os superavits comerciais persistentes da Alemanha e os amplos deficits da Espanha, Portugal e da Grécia são dois lados de uma mesma moeda. Na realidade, numa circunstância em que a procura agregada escasseia, a contenção parcimoniosa dos alemães, longe de ser virtude, acaba por se tornar na maior razão para o fracasso, na opinião de Stiglitz. Ele defende o remédio que foi pela primeira vez proposto por John Maynard Keynes de forçar as economias credoras a ajustarem-se tributando os seus superavits comerciais. Mas na correcção dos desequilíbrios, Stiglitz dá demasiada pouca importância aos erros cometidos pelos países em crise. O livro tem outras deficiências. O tom estridente e as auto-referências em excesso vão cansar muitos leitores. Se as frases contendo as palavras “eu” ou “meu” fossem apagadas o livro tornar-se-ia substancialmente mais fino. Há passagens em que parece que as misérias da zona Euro derivam de sinistras forças corporativas e não de um idealismo desconchavado. Argumentos similares repetem-se em vários capítulos, o que é irritante e também sintoma de uma má estruturação global do livro.

Joseph Stiglitz não é o primeiro economista a apresentar perspectivas sombrias sobre o devir do Euro, embora seja evidente que ele favoreça o seu sucesso. Uma avaliação mais alargada das responsabilidades pela confusão em que se encontra a zona Euro não iria contrariar os principais argumentos do autor; pelo contrário, reforçá-los-ia. Ajusta-se que no final ele apresente a história do Euro como uma tragédia: “Foi criada com a melhor das intenções por líderes visionários cujas visões estavam nubladas por uma compreensão imperfeita do que seriam as implicações de uma união monetária”. É pena que este tom tão desapaixonado não conste dos capítulos iniciais da obra. Joseph Stiglitz está no seu melhor quando da sua frieza analítica e é do mais cansativo quando ajusta contas pessoais. Porém, no essencial, tem certamente razão. Sem uma revisão do que existe, o Euro parece garantido ao fracasso.

20 agosto 2016

GOA A DOURADA

Cinquenta anos depois da incorporação na Índia, este mapa que mostra, segundo o censo de 2011, a proporção de cristãos existente nos vários subdistritos (taluka) do estado indiano de Goa, constituirá um bom auxiliar para evidenciar alguns aspectos da presença portuguesa de 450 anos (1510-1961). A percentagem de cristãos em Goa tem vindo a decrescer sustentadamente, desde os 34% contados no censo de 1971 (o primeiro a ser realizado sob a égide da Índia - e que, ao contrário de Portugal, não teria qualquer razão para empolar o número de cristãos) até aos 25% que foram apurados neste último censo de 2011. Note-se porém a heterogeneidade da distribuição, de como as cores mais carregadas coincidem com as talukas junto à costa e próximas do estuário combinado do Mandovi e do Zuari. Em geral, correspondem às Velhas Conquistas, aquelas que foram realizadas originalmente no Século XVI por Albuquerque e os seus sucessores imediatos. Se o Império português no Oriente chegou a ser enorme por causa das rotas comerciais que controlava, constata-se que nem mesmo ao redor da sua capital, Goa, a Dourada (como era então apelidada), os portugueses tinham os recursos humanos, os meios materiais ou a vontade política para se expandirem territorialmente de forma significativa. As velhas conquistas são menos extensas que o menor dos distritos portugueses. Coisa outra foi o esforço alocado, pela evangelização, na aculturação dos habitantes. Notável nesse aspecto, é ainda hoje o caso da taluka de Salcete - cuja capital é Margão. Ao longa da costa do Malabar, é a unidade administrativa em que a proporção de cristãos é mais elevada, chegando os cristãos a constituir a maioria absoluta da população. Essa proporção de cristãos ainda é mais acentuada (75%) nas áreas rurais, numa demonstração de como o cristianismo permanece enraizado naquelas paragens.

MUITA FRUTA FRESCA, MAS SOBRETUDO O KIWI

...Abacate, abrunho e pêra francesa, romã, framboesa, kiwi... (sobretudo o kiwi...)

Recorde-se que Dina, a voz do kiwi, é também a voz do hino do CDS/PP

19 agosto 2016

BEIJOS DE GUERRA

O autor das fotografias até é o mesmo - Alfred Eisenstaedt - e o período em que foram captadas é também o mesmo - o da Segunda Guerra Mundial, a fotografia da esquerda data de 1943, a da direita de 1945 - mas tudo o resto as diferencia, mostrando como os beijos que se trocaram durante a guerra, por muito repetidos que fossem, também tiveram as suas nuances. Um deles é casto (na testa) e contido, o outro descarado (na boca) e exuberante. Talvez porque o primeiro assinalasse o retorno à Guerra (estava-se em 1943), e o outro o fim dela (Agosto de 1945). Há uma cumplicidade no casal da esquerda que não é evidente que exista no da direita. Também haverá as diferenças sociais a explicar outras diferenças, sobretudo na forma de se estar: o soldado parece ser um oficial (não só pelo boné mas também pelo jornal que leva debaixo do braço...) enquanto que o marinheiro, pela ausência de distintivos na manga, não passará de um simples marujo. A fotografia da direita tornou-se muito mais popular do que a outra, mas uma boa fotografia, tem sempre qualquer coisa interessante para nos contar, desde que tenhamos o tempo e o engenho de a saber ver.

PORTUGAL vs. AUSTRÁLIA (como o preconceito combinado com a ignorância cria disparates indestrutíveis nas redes sociais)

Já há alguns anos que subsiste nas redes sociais esta comparação descabida entre as dimensões da representação parlamentar em Portugal e na Austrália. Hoje tornei a dar com ela no facebook, quiçá preparada para uma nova (e irritante) ressurgência. Vou ser apenas mais um de uma interminável série que tem tentado argumentar ingloriamente contra este disparate desde as aparições anteriores. Vamos a ver se um quadro (abaixo) ajuda. Onde se explica que, na verdade e ao contrário da nossa que é unicameral, a representação parlamentar australiana tem duas câmaras, uma com 150 representantes e a outra com 76 senadores e que, a haver comparação a esse nível, é o somatório dos membros das duas câmaras que se deve comparar com os 230 deputados portugueses. Como se vê, os números equivalem-se nos dois países (226 e 230). Mas não é tudo, nem o principal. O que também há que contar, e que faz a diferença substancial são os parlamentos estaduais, que são fundamentais no caso australiano, já que o país é uma federação de seis estados e dois territórios. No caso português esses parlamentos só existem nos casos das duas regiões autónomas. A esse nível haverá naturalmente seis vezes mais representantes na Austrália do que em Portugal (614 e 104). E é por isso que no computo global o número de representantes australianos é afinal duas vezes e meia superior aos portugueses. Devia bastar. Mas, pelos comentários indignados e concordantes que se seguem à corrente republicação daquela coisa lá em cima, quando os preconceitos se combinam com a ignorância, constata-se que tais disparates parecem tornar-se indestrutíveis para a eternidade.

18 agosto 2016

A ESSÊNCIA DO JORNALISMO OLÍMPICO

Há um par de dias assisti a uma entrevista televisiva deste atleta olímpico de taekwondo a um punhado de sopés de microfone sôfregos por medalhas e, pelo menos nessa disciplina de corrigir, moderar e refutar imbecis, ganhou para mim uma medalha virtual, porque lhes deu uma merecidíssima tareia - houve mais (e não melhores) perguntas do que a que é feita neste vídeo. Mas, por causa disso, também não seria difícil desconfiar que a sua popularidade entre a comunidade jornalística a cobrir os jogos do Rio pudesse ser não muito elevada. Como acima se comprova por esta apreciação à sua participação que foi feita por um cretino qualquer que escreve no jornal Record. Deu-lhe a medalha de lata... Eu não vi o combate, não aprecio taekwondo e estou-me cagando para o Record (lamento, mas não há outra expressão que traduza com igual rigor aquilo que penso da informação dita desportiva portuguesa). Mas quem não se devia estar cagando para o Record é quem lá trabalha. Porque os tempos mudam e a continuarem a adoptar esta atitude eles correm o risco de perderem o sítio onde trabalhar. Porque a essência da coisa e o que lhes convirá mais, é os jornalistas fazerem com que nós gostemos dos atletas olímpicos, não que fiquemos a detestar os jornalistas que fazem a cobertura dos eventos onde esses atletas participam.

PRESENÇA E PROPAGANDA DA ALEMANHA DURANTE OS ANOS DE GUERRA (1939-1945)

O local seleccionado pela Alemanha para sedear a loja que promovia a sua causa durante os anos da Segunda Guerra Mundial - a esquina entre o topo da Rua do Carmo e o início da Rua Garrett - ainda hoje é um local comercialmente muito valorizado do centro da capital. Era como se se tratasse de outra embaixada, que o prestígio da causa do Reich perante os portugueses também estava em jogo.
Curioso também apreciar a sua propaganda, que nos exemplos que aqui se incluem nos aparece mais interessada em denegrir os britânicos - aqui designados, à boa maneira coloquial portuguesa de então, por ingleses - do que propriamente em promover as hipotéticas vantagens comparativas dos alemães.
E quando se realçam essas vantagens comparativas (futuras), como acontece no exemplo acima (onde o contraste é entre a Inglaterra e não a Alemanha, mas o Continente), a argumentação pró-Eixo de há 75 anos tem ressonâncias que nos fazem lembrar a causa actual da União Europeia.

ESPECULAÇÕES INCONFESSÁVEIS

Se calhar, a função até poderia ter sido desempenhada pelo João Almeida ou pela Isabel Galriça Neto. Se calhar foi mera coincidência que a representação do CDS ao congresso do MPLA tivesse recaído em Hélder Amaral, mas esta minha maldosa associação de ideias não se impediu de especular que, fosse a representação ao congresso do partido do dito (congresso)*, e será que a coincidência não recairia no já octogenário Narana Coissoró?...

* Com quem o CDS também teria, obviamente, imensos "pontos em comum".

17 agosto 2016

VLADIMIR ILITCH POLIGLOTA

Tallin, capital da Estónia. O ano é 1973, numa data próxima do 1º de Maio, pelo que se vê na parede do fundo da outra sala, aquela onde o par dança, talvez ensaiando. Nesta parede mais próxima, V. I. Lenine anuncia, numa dos quinze idiomas soviéticos - estónio - que eles são o partido do futuro, embora o futuro pertença aos jovens. Suspeito é que o I de Ilitch já tenha caído antes da chegada do futuro. A fotografia é de Henri Cartier-Bresson.

OS POLÍTICOS QUE SUBVERTEM O ESPECTRO TRADICIONAL

Já terá dado para perceber pela forma como aqui me refiro a ele o quanto admiro Charles de Gaulle. Mesmo estando afastado do poder por metade desse tempo, a História de França nos 25 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1945-70) não consegue ser contada sem a sua pessoa. Em contraste (mas não surpreendente), para a pequena história, os relatos são unânimes quanto ele terá sido alguém insuportável de aturar no trato pessoal. Ainda recentemente tive oportunidade de recordar mais uma vez no livro de memórias de Frederick Forsyth o quanto de Gaulle era cabeçudo, não via literalmente a ponta de um corno (a meio metro de distância...) sem os óculos, mas recusava-se a pô-los por ocasião das suas famosas conferências de imprensa (abaixo uma paródia a elas feita por Goscinny e Uderzo), o que originava um conjunto de peripécias derivadas do facto de de Gaulle ter de decorar as respostas (as perguntas dos jornalistas eram, obviamente, ensaiadas) e da memória de um septuagenário poder já não estar (e não estava...) à altura dos acontecimentos. As peripécias podem ser hoje evocadas com bonomia mas, na época, deviam desesperar a entourage do general.
Em contraste com os pormenores dessa caricatura, a gravitas adquirida pelo general de Gaulle nessa França sublimada que se segue ao fim da Segunda Guerra Mundial, conferiu-lhe uma gravidade tal que se pode dizer que distorcia o espaço político e ideológico adjacente, tal qual as configurações explicativas da física espaço-temporal (veja-se a montagem mais acima). O gaullismo era o que de Gaulle pensava e, a essa luz, apesar do termo se ter perpetuado na política francesa por muitas décadas após a sua morte (mesmo até hoje), a essência do gaullismo terá morrido em 1970 com de Gaulle. Porém, são muitas as explicações do gaullismo que remetem mais para aquilo que foi a prática dos seus herdeiros (sobretudo Jacques Chirac) do que para o que eram as intenções do fundador. Esquece-se que a cova gravitacional cavada por de Gaulle atraía gaullistas de esquerda e que, entre os inimigos de estimação do gaullismo, a par dos comunistas, se contavam várias correntes profundas da direita francesa - a tradicionalista (como de Gaulle) mas colaboracionista de Vichy, a pró-colonial que pugnava pela continuidade da permanência da França na Argélia ou a liberal que se opunha ao dirigismo económico que sempre foi imagem de marca do gaullismo (veja-se abaixo).

«...Assim, nós fizemos a nossa escolha, que consiste em abrir as portas à liberdade mas, nós rejeitamos absolutamente o laissez-faire, laissez passer e queremos que, neste nosso século (XX), seja a República quem conduz a evolução económica da França...» De Gaulle foi um fenómeno específico da política francesa capaz de subverter as classificações e arrumações clássicas do espectro político. E é esse o assunto que aqui me traz: quando outro dia me surpreendi a ler um opinion-maker do lado esquerdo civilizado do espectro a simpatizar com, e mesmo a defender, Marcelo Rebelo de Sousa nas suas efusões, enquanto simultaneamente uma jornalista opinativa da direita pura-e-dura-como-todos-nós-gostamos troçava desse mesmo estilo populista de Marcelo, dei por mim a perguntar se Marcelo Rebelo de Sousa, no seu estilo muito pessoal que pouco se assemelhará ao populismo de de Gaulle, não estará também a encurvar o espaço político à sua volta a ponto de se poder vir a dar no futuro um outro nexo à palavra marcelismo, distinto daquele que o padrinho homónimo de Marcelo cunhara há quase cinquenta anos na vida política portuguesa.

16 agosto 2016

ELES ESCREVEM, ESCREVEM, ESCREVEM...

«Contactada pela agência Lusa, a administração da Efacec diz ter identificado “a necessidade de proceder a um conjunto de intervenções indispensáveis à optimização da produção industrial e actividade comercial da empresa, com vista à obtenção de ganhos efectivos de produtividade, competitividade e sustentabilidade”, mas assegura o respeito pelas “melhores práticas laborais e sociais”, tendo “as estruturas sindicais e todas as pessoas envolvidas” sido informadas “com a máxima antecedência possível”.

Estas intervenções estão integradas nos programas de melhoria operacional de 2013 e 2016 que prevêm medidas de redução de custos com fornecimentos, fundamentalmente de custos indiretos”, afirmou num comunicado enviado à Lusa, esclarecendo que o “ajustamento” em curso “da competitividade salarial dos seus colaboradores” está a ser feito “de acordo com as atuais condições do mercado de trabalho” e “também passa por aumentos salariais”.»

Pelo destaques da notícias, em que se cita o comunicado de resposta emitido pela Efacec, percebe-se claramente que, ao lado daqueles que falam, falam, falam, mas não se vêem a fazer nada (outrora popularizados por Ricardo Araújo Pereira, abaixo), há os que escrevem, escrevem, escrevem, mas em que já se percebeu tudo, pelo cuidado em evitar esclarecer a matéria de facto. A ideia é mesmo irem aos bolsos dos engenheiros.

Mas este é apenas um lado da questão. É curioso ver como a Efacec parece servir em toda a notícia apenas como um pretexto para alvejar Isabel dos Santos. É a sua fotografia que aparece a dominar a mesma notícia sendo publicada tanto no Observador, como no Jornal de Negócios, no Sol, n'A Bola, etc. A prática parece-me bizarra, porque discriminatória, a violar uma espécie de entendimento tácito: nem Jornal de Negócios, nem mesmo o Correio da Manhã (esse pasquim!) pespegam a fotografia de Francisco Balsemão quando os cortes de pessoal e as reduções de regalias acontecem na SIC e na Impresa...

EM CIMA DO RISCO

Há quase precisamente 96 anos, dia por dia, a separar as duas fotografias: duas vitórias olímpicas arrancadas em cima da meta recorrendo a processos menos convencionais... mas legais. Em 16 de Agosto de 1920, o atleta norte-americano Charles Paddock alcançou a celebridade ao vencer a corrida de 100 metros dos Jogos Olímpicos de Antuérpia cruzando a meta num salto voador que lhe permitiu bater os seus rivais. E em 15 de Agosto de 2016 no Rio de Janeiro foi a bahamiana Shaunae Miller que recorreu também a um expediente inusitado na corrida dos 400 metros, atirando-se em voo sobre a meta. O que eu já não posso investigar é se a imprensa de outrora se terá indignado com o expediente de Paddock com a mesma veemência como alguma o faz actualmente em relação ao de Miller: o que se lê no Washington Post é um exemplo (não aleatório...) do que, conhecendo-se as regras (desportivas e jornalísticas), se pode fazer escudando-se por detrás das opiniões das redes sociais. É um daqueles casos muito específicos em que, mais do que ter pena por em 1920 ainda não haver redes sociais, tenho pena é que em 2016 as haja...

ACTRIZES DE HITCHCOCK

Pela ordem tradicional da leitura e seguindo a cronologia de alguns filmes do realizador, Madeleine Carroll (Os 39 Degraus - 1935 - Os 4 Espiões - 1936), Joan Fontaine (Rebecca - 1940 - Suspeita - 1941), Carole Lombard (O Sr. e a Sra. Smith - 1941), Ingrid Bergman (A Casa Encantada - 1945 - Difamação - 1946 - Sob o signo de Capricórnio - 1949), Anne Baxter (Confesso! - 1953), Grace Kelly (Chamada para a Morte - 1954 - A Janela Indiscreta - 1954 - Ladrão de Casaca - 1955), Shirley MacLaine (O Terceiro Tiro - 1955), Doris Day (O Homem que Sabia Demais - 1956), Vera Miles (O Falso Culpado - 1956), Kim Novak (A Mulher que Viveu Duas Vezes - 1958), Eve Marie Saint (Intriga Internacional - 1959), novamente Vera Miles (Psico - 1960), Tippi Hedren (Os Pássaros - 1963 - Marnie - 1964), Julie Andrews (Cortina Rasgada - 1966) e Dany Robin (Topázio - 1969). A partir da década de 1950, acompanhando a progressiva notoriedade do realizador, nota-se cada vez mais acentuadamente a sua preferência por um certo tipo físico, a loura de aspecto frio e ar misterioso - que vieram a ser classificadas colectivamente por Hitchcock Blondes.

15 agosto 2016

CADEIRAS DE LONA À BEIRA MAR NO CALÇADÃO

Este é um daqueles casos raros em que o fotógrafo (Elliot Erwitt) escolheu apresentar a sua ideia de uma forma compósita e sequencial, ao jeito dos dípticos antigos. A fotografia data de 1975, tirada em Cannes, a famosa estância turística francesa, o ambiente de descontração é-nos sugerido pelo mar que surge em fundo, numa luminosidade de fim de tarde, acompanhada pela brisa da mudança de maré que enfuna as cadeiras de lona quando desocupadas. Terão sido sobretudo elas (mas também o resto) que me fizeram associar o par de fotos ao discurso de fim de tarde de ontem de Pedro Passos Coelho na festa do Pontal. Parece-me que, por ora e por aquelas bandas, há ali um problema de quem se senta e de quem se deveria sentar nas cadeiras. Não estar lá ninguém a fazer peso (à frente do PSD) daria o mau aspecto estético da fotografia de baixo...

ARTES OLÍMPICAS

É um facto quase completamente desconhecido que houve várias edições dos Jogos Olímpicos (mais precisamente os que se realizaram entre 1912 e 1948) onde, simultaneamente com as competições desportivas, decorreram competições artísticas em que o tema era obrigatoriamente o desporto. As categorias desdobravam-se pela arquitectura, literatura, música, pintura e escultura. Na fotografia acima podemos apreciar, conjuntamente com as crianças apreciadoras, a pintura que valeu a medalha de ouro para a Suécia e para o pintor David Wallin (1876-1957) na edição dos Jogos Olímpicos de 1932, que decorreram em Los Angeles. Intitulava-se Vid Arilds strand (pela beira-mar de Arild - as praias da Suécia são horríveis, a temperatura das águas torná-las-á insuportáveis, mas inspirarão pinturas belíssimas). Na edição dos jogos de 1912 (Estocolmo), havia sido o próprio barão Pierre de Coubertin (1863-1937), considerado o fundador dos modernos Jogos Olímpicos, que ganhara a medalha de ouro na categoria de literatura (embora concorrendo incógnito, segundo se diz) com uma Ode ao Desporto escrita em dois idiomas: francês e alemão. Tudo isso para descambar cem anos depois na intelectualidade não muito aprofundada de Michael Phelps...
Esses tempos ingénuos foram depois, na segunda metade do Século XX, cuidadosamente esquecidos. As competições artísticas deixaram de ser consideradas como eventos olímpicos pelo próprio Comité Olímpico Internacional e as medalhas então atribuídas deixaram de ser contabilizadas para as estatísticas. Renegar ainda mais essa parte do passado olímpico seria, não apenas mais difícil, como se tornaria mesmo indecoroso. Mas ontem, diante da transmissão televisiva das provas de atletismo dos Jogos do Rio, surpreendi-me a pensar se as artes olímpicas não terão subsistido desde sempre e agora estão de retorno, mais pujantes que nunca, embora noutras categorias mais conformes aos nossos tempos, como a interpretação cénica. É que tecnicamente a grande proeza atlética da jornada de ontem foi - a grande distância! - o record do mundo nos 400 metros que foi alcançado pelo sul-africano van Niekerk com 43,03 (acima). E contudo, o vencedor mediático da jornada, já que correu a seguir a Niekerk, foi indiscutivelmente o jamaicano Usain Bolt (abaixo), vencedor dos 100 metros mas com um resultado desapontante (para ele) de 9,81. Bolt venceu, e nesse aspecto merecerá uma outra medalha de ouro suplementar em expressão dramática, não só por causa da exuberância histriónica como celebrou a vitória como também por causa da cor dourada das sapatilhas...

14 agosto 2016

AQUELAS COISAS DESAGRADÁVEIS QUE TÊM QUE SE DIZER

Portugal é um dos países em que, pela sua História, mais facilmente explicará de forma legítima e natural a diversidade étnica dos seus selecionados, mormente os de ascendência africana. Já há 50 anos e em futebol, a equipa dos Magriços contava com 4 em 11: Coluna, Eusébio, Hilário e Vicente. A descolonização e a globalização apenas tornaram o processo mais complexo, recupere-se o caso emblemático, agora já no atletismo, de Nelson Évora, que nasceu na Costa do Marfim e cujos pais são oriundos de Cabo Verde e que veio a adoptar a nacionalidade portuguesa com a qual se sagrou campeão olímpico no triplo salto. Ontem descobri mais um(?) desses casos, através da publicidade dada à participação da atleta portuguesa Lorène Bazolo na corrida de 100 metros, do atletismo olímpico. Não sei é se o caso será assim tão análogo. Note-se que o atletismo é uma disciplina acossada por cada vez mais estranhas mudanças de nacionalidade, casos embaraçosos de notoriedade mundial são, por exemplo, os dos fundistas africanos de países como o Quénia ou da Etiópia que subitamente descobrem vocações pátrias por nações como a Turquia ou por países do Golfo Pérsico como o Bahrein ou o Qatar. Exemplo maior dessa cada vez superior mobilidade das pessoas será o caso de Wilson Kipketer, campeoníssimo dos 800 metros, atleta dinamarquês, nascido no Quénia e patrioticamente residente no Mónaco por razões fiscais.
Não sei é em que é que o caso de Lorène Bazolo se diferenciará em utilidade destes últimos. Lorène Bazolo tem já 33 anos e, até Maio passado, era congolesa. Segundo se lê na Wikipedia, estava em Portugal com o estatuto de refugiada política desde 2013 onde, desde 2014, compete pelo Sporting. Num artigo que a apresenta de princípios de Junho deste ano, queixa-se de descriminação tribal no seu país de origem (...perseguida pelo facto de pertencer a uma tribo diferente das pessoas que passaram a mandar lá). É um discurso pouco compatível com o facto de ela ter tido a honra de ter sido a porta-bandeira da delegação congolesa na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012 (como se vê na fotografia inicial). Nesse mesmo artigo, e isso já não será culpa dela mas antes do jornalista que o escreve, acrescenta-se a descrição de um futuro prometedor de hipotéticas medalhas para Portugal, nos campeonatos europeus e nos jogos olímpicos, que as realidades infelizmente vieram a desmentir. Eu bem sei que os tempos modernos já não se caraterizam pela rigidez dos patriotismos de outrora, mas tenho que confessar que esta transumância de nacionalidades se pode tornar chocante. Há que traçar uma fronteira deontológica entre o que é aceitável e o que o não é. E posso assegurar que o número de medalhas conquistadas pelos transumantes é indiferente para essa separação - por alguma razão há várias modalidades desportivas que restringem as condições da representação do mesmo atleta em mais do que uma selecção nacional...

13 agosto 2016

ENTRADAS GASTRONÓMICAS DE EFEITO EXTASIANTE


Poder-se-á designá-la prosaicamente por entrada, mas appetizer dar-lhe-á o retoque de requinte que a combinação merece, uma metade fresca de pêssego em calda à qual se adiciona uma pasta de atum com fry sauce, rematada em cima por uma alcaparra. O efeito - acabei de o comprovar na expressão de uma provadora - é extasiante, a fazer lembrar o ar deliciado do bombeiro acima, mas dispensando a inalação do psicotrópico.

RIO DE JANEIRO 2016 (em modalidade não olímpica)


RAP DAS ARMAS
Originalmente criada em 1995, a canção popularizou-se internacionalmente ao fazer parte da banda sonora do filme Tropa de Elite (2007)
(Estou sempre pronto a aprender com o dinamismo do português do hemisfério Sul: qual é o significado de «dar o maior conceito para os amigos meus»?)

parapapapapapapapapa
paparapaparapapara clack bum
parapapapapapapapapa

fé em Deus, dj
vamo lá

parapapapapapapapapa
paparapaparapapara clack bum
parapapapapapapapapa

morro do dendê é ruim de invadir
nois, com os alemão, vamo nos divertir
porque no dendê eu vou dizer como é que é
aqui não tem mole nem pra DRE
pra subir aqui no morro até a BOPE treme
não tem mole pro exército civil nem p'rá PM
eu dou o maior conceito para os amigos meus
mais morro do dendê também é terra de Deus

vem um de AR-15 e outro de 12 na mão
vem mais um de pistola e outro com doizoitão
um vai de uru na frente escotando o camburão
tem mais dois na retaguarda mas 'tão de glock na mão
amigos que eu não esqueço nem deixo p'ra depois
lá vem dois irmãozinho de sete meia dois
dando tiro pro alto só p'ra fazer teste
de ina-ingratek, pisto-uzi ou de winchester
é que eles são bandido ruim e ninguém trabalha
de AK-47 e na outra mão a metralha
esse rap é maneiro eu digo pra vocês,
quem é aqueles cara de M-16
a vizinhaça dessa massa já diz que não aguenta
nas entradas da favela já tem ponto 50
e se tu toma um pá, será que você grita
seja de ponto 50 ou então de ponto 30
mas se for alemão eu não deixo pra amanhã
acabo com o safado dou-lhe um tiro de pazã
porque esses alemão são tudo safado
vem de garrucha velha dá dois tiro e sai voado
e se não for de revolver eu quebro na porrada
e finalizo o rap detonando de granada

parapapapapapapapapa, valeu
paparapaparapapara clack bum

parapapapapapapapapa
paparapaparapapara clack bum
parapapapapapapapapa

NÃO SE DISCUTE COM EDNA

Ontem a luz só foi apagada lá por volta das 03H00 da manhã, por causa das emoções múltiplas que nos chegavam via TV dos Jogos Olímpicos, mas hoje de manhãzinha um carinhoso pequeno almoço aguardava-nos pelas 08H30 e já se sabe como são estas coisas: Não se discute com Edna... Morris & Goscinny, pois claro.

12 agosto 2016

COMO O PRÓPRIO TANTO GOSTA DE CITAR: «O PASSADO É UM PAÍS ESTRANGEIRO»


Para quem se dispuser a passar uma meia hora bem passada e mais arguta que as trivialidades do costume, o exercício que proponho é o de ouvir (ou reouvir) esta entrevista dada por José Pacheco Pereira a Maria Flor Pedroso em finais de Abril de 2011, já há mais de cinco anos, entre o chumbo do PEC4 e as eleições de Junho que levariam Pedro Passos Coelho e Paulo Portas ao poder, ainda nem os comuns mortais (como nós) cheiravam o que constaria do memorando de entendimento da troica. Mostrando a consistência do entrevistado, haverá muito pouca coisa que ele tinha dito naquela altura de que ele hoje se possa eventualmente arrepender, o inimigo principal (a abater) era Sócrates, mas o mais impressionante da entrevista é a demonstração da sua total ignorância dos limites económico-sociais até onde os seus companheiros do PSD estariam dispostos a chegar.