18 agosto 2014

OBRIGADO

Numa consulta ao Sitemeter que regista as estatísticas dos visitantes a este blogue encontro alguém anónimo que ontem à noite passou quase três horas lendo o que se escreve por aqui. Discretamente, ao longo de mais de quarenta páginas e sem deixar um daqueles comentários finais inócuos em estilo mija-de-cão, para se tornar notado que passou por cá. Obrigado a ele e a outros como ele.

17 agosto 2014

OS GODZILLAS DO MARXISMO-LENINISMO

Ainda a propósito da entrevista de Ruben de Carvalho ao Expresso julguei apropriado recuperar esta outra passagem:

Ruben de Carvalho: - (…) Em rigor, a derrota (no 25 de Novembro de 75) não foi nossa, e isso dá-me uma grande força moral. A história que se conta sobre o papel do PCP é falseada. Porventura leu um pequeno volume que se chama “Verdade e Mentira na Revolução Portuguesa”, de Álvaro Cunhal? 

Ana Soromenho (entrevistadora) - Não.
Ruben de Carvalho: - Mas devia ler. Está lá tudo muito bem explicado.

O trecho da entrevista mostra-nos o quanto a entrevistadora é tenrinha nas mãos de um sabidão veterano forjando um argumento de autoridade. Quem é que realmente se dispõe a ler actualmente as obras de Álvaro Cunhal? Desde quando é que Cunhal pode ser fonte idónea para nos esclarecer sobre aquilo que aconteceu no 25 de Novembro? Como protagonista dar-nos-á a sua visão, agora procurar usar aquilo que escreveu como matéria de fé para comprovar a tese revisionista da História de que o PCP não saiu derrotado dos acontecimentos daquela data só ocorre mesmo aos comunistas e de uma certa geração. Que, mais do que propriamente dinossauros, parecem comportar-se mais como godzilas do marximo-leninismo, saídos ocasionalmente do fundo do mar e vindos à cidade para fazer estragos no discurso transmutado que o PCP usa na actualidade. Ruben de Carvalho é um daqueles monstros do passado que são capazes de recordar com a sua presença, apenas pela sua existência, que o PCP já foi o mais internacionalista dos partidos portugueses face à União Soviética e que, depois de uma reviravolta de 180º, hoje se consagra como o campeão do patriotismo face à União Europeia… A propósito sabiam, pela fotografia abaixo de 1976 em que aparece a ler o Pravda, que ele parecia ser fluente em russo?... Hoje há muito menos gente a precisar de mostrar saber russo.

OS PRETOS E A POLÍCIA

Aquilo que está a acontecer nos Estados Unidos, dias consecutivos de protestos nas ruas por causa de uma morte controversa devida a uma intervenção policial na pequena e esquecida cidade de Ferguson (21.000 habitantes) no Missouri afigura-se-me ser apenas mais um daqueles recorrentes episódios que sociedades complexas como a norte-americana aparecem dispostas a suportar para manter as suas complexas regras de funcionamento. Para quem observa os acontecimentos de fora, é até possível admitir – como me aconteceu – que as autoridades poderão estar com alguma razão no caso concreto que detonou estes protestos mas reconheça-se que aquilo que os Estados Unidos mostram de si no que concerne a actuações policiais e relações raciais, acaba por (n)os colocar naturalmente ao lado dos contestatários.

Programas televisivos como Cops e aparentados, que serão produzidos para as audiências domésticas com o propósito de dissuasão e de transmitir tranquilidade, funcionam de forma inversa quando são transmitidos no estrangeiro: torna-se assustador imaginarmo-nos a cair nas mãos despóticas de um agente da lei norte-americano… O único cuidado que se extrai daquelas situações acaba por resultar irónico (daí o título deste poste) por causa da hipocrisia consubstanciada na forma de tratamento: não se tratam os negros por pretos mas arreia-se-lhes com uma sem cerimónia surpreendente... nos africano-americanos. Deixem-me antecipar-vos que creio que estes motins terminarão por si, como aconteceu anteriormente em Watts (1965) ou em Los Angeles (1992). A fotografia inicial é de Elliot Erwitt, data - premonitoriamente - de 1950.

Adenda1: Nem de propósito, para evidenciar as distinções entre cá e lá, numa notícia local lê-se que cinco GNR se deixaram ferir quando se dispunham a dispersar uma rave party no Alentejo, assim ficando com o papel de vítimas perante a opinião pública. No Missouri é diferente: agride-se (e chega a matar-se) os civis para que sejam eles a ficar com o capital da vitimização...
Adenda2: Há que reconhecer que, com seis tiros no corpo, dois dos quais na cabeça, conforme constará do relatório da autópsia, torna-se bastante mais difícil dar alguma razão à conduta policial...

16 agosto 2014

«DESPIERTA NIÑO»


A canção é de Patxi Andión (1947- ) e data de 1974, embora este vídeo resulte de uma montagem feita cerca de 20 anos depois para uma série televisiva documental espanhola intitulada La transición. António José Seguro (1962- ), que nos diz ter sempre seguido atentamente a situação política espanhola através da TVE, é capaz de a ter conhecido... E espero que a tenha continuado a acompanhar, nomeadamente aquilo que tem acontecido no PSOE.

Despierta Niño. Arriba, que llega el alba.
Despierta Niño. Arriba, que espera España.
Que espera España, sí, te está esperando
y el tiempo es tu aliado, y se está acabando.

Levántante y comienza la soldadura
entre la España quieta y la del hierro,
entre la de los llanos, la de la altura,
entre la del taller y la del rezo.

Levanta, que te espera la del arado,
la del pasado viejo, la del ungüento.
Una te hará sudor grave y callado
y otra te hará palabra que lleva el viento.

Hay una España cierta y otra callada.
Una que espera y calla y otra que clama.
Una que es vanidad y otra obcecada.
Una que te esclaviza y otra es esclava.

Levanta, Niño, el sueño como una maza.
Como una maza, sí, tus cinco dedos.
Cincuenta mente esparce tus anhelos.
No mires donde marcas ni lo que alcanzas.

Levanta tu estatura abiertamente.
Reclama espada y yunque, montaña y nieve.
Reclama sitio y viento si es conveniente.
No remedes, no cedas, no tiembles.

Levanta, carga, suena, osculta y salva,
escribe, canta, cuenta, potencia y anda
que hay una España gris que se nos muere
y otra que resucita como de nieve.

Despierta Niño. Arriba con la esperanza,
que la España del chiste hay que enterrarla.
Que está cantando el gallo la madrugada
y hay una España nueva que te reclama.
y hay una España nueva
que te reclama.

«THE SPEECH»


Londres, Câmara dos Comuns, 20 de Novembro de 1990. Depois de dois dias antes ter falhado uma vitória clara numa eleição entre os deputados conservadores, Margaret Thatcher anunciara ao princípio do dia que se iria demitir do cargo de primeira-ministra, enquanto a oposição aproveitara as divisões entre as hostes conservadores para apresentar uma moção de censura. Aquele que seria o último grande discurso de Thatcher nos Comuns é aqui recuperado neste pequeno extrato, numa ocasião em que o deputado liberal Alan Beith lhe pergunta se ela tenciona continuar a sua luta pessoal contra a moeda única e um banco central europeu depois de abandonar o cargo. Num aparte que gera gargalhadas por toda a câmara, o deputado trabalhista Dennis Skinner anuncia que o que ela vai ser mesmo é a futura governadora desse banco europeu...

A resposta de Thatcher, além de ironizar com o dichote (Que grande ideia! Nem tinha pensado nisso.) é uma diatribe – que hoje se revela quase profética – contra o perigo de nesse processo se alienar a soberania dos países membros transferindo-a para uma estrutura federal através de formas indirectas e não sufragadas com mecanismos como a moeda única, uma política monetária, taxas de juro comuns. (A moeda única é uma Europa federal dissimulada). Mas o que torna a passagem do discurso verdadeiramente memorável é a forma como a remata, de uma forma que, mais do que hipócrita, é uma dissimulação tipicamente feminina contrastante no mundo dominado por homens como são os Comuns, um trejeito desafiador cobrindo um coração que se sabe destroçado pelas manobras de bastidores: Mas onde é que nós íamos? Estou mesmo a gostar disto!

Entre os comuns pedidos de Ordem! que o speaker Bernard Weatherill emite e que são mais ou menos acatados, há ainda um deputado, não apenas da bancada de Margaret Thatcher mas dos seus – Michael Carttiss – que lança um aparte e um desafio para que ela resista aos adversários: Bem podia limpar o chão com essa malta! – referindo-se à guerra civil que se desencadeara na bancada tory. Mas, depois de ter estado mais de dez anos no poder, a atitude entre as grandes figuras do partido era já outra como se percebe pela circunspecção dos potenciais sucessores de Thatcher sentados na primeira fila junto à primeira-ministra, entre os quais o mais fácil de identificar é John Major, que lhe viria a suceder dali por uma semana. Nunca fui apreciador de Thatcher durante o tempo em que esteve activa, mas estas imagens já são outra coisa, já são História.

15 agosto 2014

A DIALÉCTICA DA PROCRIAÇÃO

Não teve filhos. Primeiro porque podia a todo o momento ter de passar à clandestinidade, depois porque não houve tempo. Completou no mês passado 70 anos…

Transcrito da entrevista que Ruben de Carvalho dá hoje ao Expresso. Acentue-se que o entrevistado exerce os seus direitos às mais amplas liberdades democráticas quando decidiu não ter filhos e nem precisa de se justificar por isso. O que seria escusado é associar as vicissitudes de uma vida de militante comunista a essa decisão. Primeiro porque aqueles cenários de ter de passar à clandestinidade deixaram de se pôr com o 25 de Abril de 74, contava na época Ruben de Carvalho apenas 30 anos, e depois porque há que contar os que se seguiram: passaram-se 40 anos sem ter tido tempo para os ter. Hoje, em dias de crise de natalidade, pode tornar-se politicamente incorrecto assumir certas opções, mas chateia-me ler estes recursos à dialéctica para as disfarçar.

A CARCAÇA

Não que Ricardo Salgado precise de manifestações da nossa simpatia, ele lá estará acolitado pelos profissionais que o estão a ajudar a cuidar da imagem – além de Miguel Sousa Tavares, amigo do seu amigo, que, tivesse-se ele decidido a gostar de Adolf Hitler, e seria dos que teriam ficado com o Führer no bunker da chancelaria até ao fim, com a mesma razoabilidade com que escreve crónicas de bola. Mas o ambiente prevalecente à volta dos Espírito Santo é de um unanimismo consensual tal que, mesmo que justificado, acaba por se revelar entediante numa forma em que quem acaba por ficar mal na fotografia já não é a carcaça mas os que a disputam. A fotografia é de Fabrice Balossini.

14 agosto 2014

O COSMOPOLITA DE PENAMACOR

Ao referir-me abaixo a Pablo Abraira num daqueles sucessos musicais que nos entrava casa dentro pelas pantalhas (pelo menos se estivéssemos em regiões raianas) nos idos da década de 70, lembrei-me de um trecho significativo de uma entrevista que António José Seguro deu recentemente à revista Visão onde o secretário-geral do PS recordava que via a televisão espanhola, mais do que a RTP. Vi a chegada ao poder de Felipe Gonzalez e Alfonso Guerra, no PSOE, trinta e poucos anos cheios de garra. Em Espanha, a política era feita com muita alegria. Para memória passada, convêm aqui inserir um vídeo breve (menos de três minutos) daquilo que era a televisão espanhola, a TVE, no ano da chegada dos socialistas espanhóis ao poder (1982), quando Tó Zé Seguro tinha 20 anos. Pobre rapaz, não terá sido decerto por ali, a ver o naranjito do Mundial de Futebol, que os seus horizontes se terão rasgado por aí além. Percebe-se que à época tenha ficado com essa ilusão, o que não se percebe é que a tente preservar mais de trinta anos depois.

UMA MENSAGEM SICILIANA?

Há uma famosa cena em O Padrinho em que o filho mais velho (e substituto interino) de Don Vito Corleone recebe um estranho embrulho em casa: um par de peixes embrulhado num colete pára-balas. E quando pergunta aos circunstantes qual o propósito daquilo, há um dos lugares-tenentes do pai que o esclarece lugubremente: - É uma mensagem siciliana. Quer dizer que Luca Brasi (o dono do colete) foi «dormir» com os peixes. Ele há mensagens que são propositadamente crípticas para melhor intimidar o destinatário e pergunto-me se não estamos a assistir a algo do género quando recentemente se tornou notícia a colocação por cunha do filho de Durão Barroso no Banco de Portugal. Apercebemo-nos do quanto Barroso poderá ter vários podres a explorar e haverá quem os conheça e se disponha a torná-los públicos para o derrubar caso ele persista nas suas ambições presidenciais. Terá ficado o aviso, porque não estou a imaginar a decisão da contratação de Luís Durão Barroso a ser revertida, ninguém a defendê-la publicamente, especialmente nos modos de favor em que a contratação terá sido realizada, nem ninguém do banco a ser futuramente sancionado como responsável por ela. É especulação minha mas este meu enredo é apropriado a uma história de mafias: não há bons, apenas maus e péssimos.

«GAVILÁN O PALOMA»


Este sucesso musical espanhol da década de 70 (os arranjos musicais não enganam…) tem a curiosidade acrescida de também ter tido alguma notoriedade também deste nosso lado da fronteira, o que não era muito frequente. Se por cá o 25 de Abril de 1974 e o PREC haviam dado lugar a uma revolução do panorama musical português, em Espanha a morte de Franco (1975) e a Transição também haviam aberto os caminhos para uma outra renovação musical. Os dois maiores sucessos musicais de então de Pablo Abraira (1949- ), o Gavilán o paloma (Gavião ou Pomba) acima, que se sucedera a O tú o nada (Ou tu ou nada), seguem uma linha romântica e tinham por alvo preferencial o público feminino mas, mesmo assim, têm letras surpreendentes (clicar em cima do título traduzido) para o machismo que se considerava então prevalecente na sociedade espanhola.

13 agosto 2014

AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO

Princípios são fundamentais mas uma correcta avaliação prévia da situação é indispensável para identificar quando, onde e por que hierarquia eles se devem aplicar, como se constata nesta singela prancha de Calvin & Hobbes.

GRANDES E PEQUENOS DETALHES DAS CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS DA TURKISH AIRLINES


Ainda a respeito de Turquia, mas agora da sua companhia aérea de bandeira, a Turkish Airlines, ela bem se pode exibir para o Mundo com anúncios televisivos de estrelas universais destinados a audiências globais. Porém, para os clientes deste centro comercial (e aqui não posso deixar de realçar a ironia de que, com as decorações estandartizadas que os centros comerciais exibem em todo o Mundo, este também se assemelha a um que frequentemos…) especialmente aos clientes que se tornarem utentes da escada rolante da fotografia abaixo, onde a Turkish Airlines é incapaz de transmitir uma outra sensação que não a de uma profunda insegurança…

12 agosto 2014

DEMOCRACIA NA TURQUIA

A vitória do primeiro-ministro conservador Recep Erdogan nas eleições presidenciais turcas foi noticiada de forma nitidamente tépida por toda a comunicação social ocidental, demonstrando (se tal fosse necessário) o quanto ele não goza da sua simpatia nem da da maioria dos dirigentes políticos ocidentais. Mas, na sua evolução histórica, dividida entre as heranças culturais do Ocidente e do Oriente, há que aceitar que a maioria da população turca se tem expressado maioritária e democraticamente em favor da segunda e do consequente reforço da islamização da sociedade. Enquanto as regras do jogo político parecerem permanecer justas – Erdogan venceu com uns competitivos 51,8% dos votos – só existem razões para que se adopte quanto à Turquia o comportamento mais nobre de um verdadeiro democrata quando derrotado: aceitar a vontade da maioria dos cidadãos. Embora deva (continuar a) constatar o quanto a geografia eleitoral turca tem uma configuração arreigada com estranhas parecenças com fronteiras muito antigas, datando do Século XII.
Resultados eleitorais das eleições de domingo passado, de um referendo constitucional de 2010 a que já aqui me referira neste blogue e às do Império Romano do Oriente e do Sultanato turco de Icónio por volta de 1180.

A MORTE DE ELVIS PRESLEY RELEMBRADA PELA DE ROBIN WILLIAMS

Robin Williams (1951-2014) é o exemplo daquele actor simpático de que todos teremos pena pelo seu falecimento. Mas, por ter morrido nesta altura do ano, é possível que a cobertura noticiosa do acontecimento tenda a tornar-se desproporcionada na atenção dedicada à sua vida e obra, o que me fez lembrar imediatamente o precedente de Elvis Presley que, falecido em plenas férias veranis a 16 de Agosto de 1977, entupiu o fluxo noticioso nos dias que se seguiram. Acima, anunciava-se que o Rei morrera, embora a minha geração (dos Beatles) se perguntasse: quem o entronizara?

Suportando uma opinião publicada que não era a minha, uma canção de homenagem (pirosa como tudo) materializou-se, vinda não se sabe donde, e trepou pelas charts até atingir o top de vendas de discos. Tão bizarra terá parecido então a ideia de facturar à conta dos falecimentos alheios que o tema serviu de inspiração a André-Paul Duchateau para uma aventura de Ric Hochet aparecida no ano seguinte, intitulada Operação Cem Biliões, em cuja história um cantor popular forjava a sua própria morte enquanto lançava uma bem-sucedida operação de revalorização da sua imagem e obra.

11 agosto 2014

A QUEDA DO BES TAMBÉM ESTARÁ A AFECTAR A COMISSÃO DE UTENTES DA VIA DO INFANTE?


Todos os anos e especialmente por esta altura, os protestos da Comissão de Utentes da Via do Infante tornam-se um must noticioso, com eventos à porta de casa do presidente, da do primeiro-ministro, da festa do PSD do Pontal, acontecimento último esse que é, de resto, o pretexto para o vídeo acima - feito o ano passado (2013) mas referindo a tradição. E poder-se-á apostar com segurança que este ano a trupe há-de lá estar - as duas trupes, de resto, a do PSD e a outra, que embora designada por comissão de utentes, é encabeçada pelo responsável regional algarvio do Bloco de Esquerda... Mas os anos passam e algo muda, ainda que devagar e se calhar porque o Bloco já passou de moda: este ano o jornalismo tornou-se rigoroso e deu em evidenciar o número dos que figuravam no evento: meia dúzia. Que terá provocado esta diminuição catastrófica na afluência dos manifestantes a esta tradicional expressão do desagrado dos algarvios? Ou eles já eram muito poucos há muito tempo? A culpa desta redução à sua expressão mais simples será também dos Espírito Santo? São estes lampejos de lucidez e as possibilidades de investigação que deles surgem que me fascinam na nobre tarefa de informar...

FISCHLER-o-NAVEGADOR e MOEDAS-o-PRONTO-PARA-TUDO

Não sei (na verdade nem quero saber) se Jean-Claude Juncker (1954- ) estará de férias, mas de férias estará certamente a curiosidade em acompanhar os seus esforços para a constituição da comissão a que virá a presidir. Pensando nelas, nos problemas da formação das comissões europeias e em composições que algumas delas tiveram no passado, permitam-me apresentar acima a figura inolvidável de Franz Fischler (1946- ), um austríaco que por lá passou entre 1995 e 2004, notabilizado por um dos pelouros que deteve, o dos Assuntos Marítimos e das Pescas, preocupação notável quando vinda de alguém que era oriundo de um dos poucos países interiores da União, sem um centímetro de costa marítima… É evocando casos desses que se percebe que a distribuição de pelouros pelo colégio de comissários pode permitir verdadeiros momentos surreais mas há que ter confiança no empenho multifacetado de Carlos Moedas…

10 agosto 2014

SÓ DE DEDO ERGUIDO…

O tempo corre propício a radicalismos e a mor parte deles não costuma precisar de elaboradas estruturas formais. Claro que se precisa de um símbolo. Acima aparece a minha proposta para um que possa expressar cabalmente tudo aquilo que possa ir na alma daqueles que estão preocupados em mostrarem-se militantemente os campeões da indignação desencadeada com os recentes acontecimentos do BES.
Gente de acção, a densidade argumentativa não costuma ser a preocupação principal desses que preferem superar-se exibindo-a - à indignação. Por causa deles e para hino, recuperado de sensações similares do nosso passado sugiro usar-se uma canção velha de 40 anos, a que é apenas preciso rectificar o pormenor anatómico do punho pelo dedo. Leia-se a letra mais abaixo no formato do dedo erguido e confira-se o quanto ela pode ser intemporal…

«OBAMA: ON IRAQ»

Quando Niall Ferguson escreveu Colossus, o Preço do Império da América em 2004 (já há dez anos…), chamou a atenção para os três défices (p. 290) que já então perturbavam e que cada vez perturbariam mais a projecção do poder dos Estados Unidos à escala mundial: progressiva exiguidade de recursos financeiros, diminuição de recursos humanos e aquele que considerava o mais difícil de superar e que designou por défice de atenção: a (in)capacidade da opinião pública norte-americana em lidar com problemas que, pela complexidade da sua resolução, superem os ciclos eleitorais internos dos Estados Unidos (4/8 anos de um ou dois mandatos na presidência).

Raras vezes essa ultima limitação se tem tornado tão visível quando ontem, por ocasião do discurso de Barack Obama a respeito da situação no Iraque e da iniciativa de desencadear uma operação aérea. Arranjara-se umas vítimas convenientes para salvar, os yazidis, que quase ninguém sabe que existiam antes de evocados, salvavam-se os bons, castigavam-se os maus. Mas, por muito que o presidente produza um discurso naquele estilo profissionalmente composto que lhe conhecemos, percebe-se o quanto o Iraque (assim como o Afeganistão) é para Obama um conflito antigo, uma herança de George W. Bush, que lhe merece uma atenção apenas relutante, face aos conflitos seleccionados pela sua administração, como as revoltas nos países árabes (Egipto ou Síria) ou a desforra que os russos têm desencadeado na Ucrânia.
Depois de mais de dez anos de um generosamente financiado programa de nation building, a evidente incapacidade do regime iraquiano em suster a ameaça de fundamentalistas islâmicos ressuscita, naqueles que ainda se lembram, os fantasmas de um colapso como o do Vietname do Sul na Primavera de 1975. Acentuando o paralelo, os mapas de guerra (acima) mostram-nos que já existe uma ampla mancha de infiltração das forças dos fundamentalistas islâmicos (assinalada a rosa). Um pormenor final de uma manipulação que é recorrente: note-se a sugestão na rota dos aviões, fazendo-os originários do mar como aviação embarcada. Mostrando-os operados a partir de porta-aviões os Estados Unidos mostram ter uma autonomia que de facto não existe. Parte dos aviões envolvidos operaram obrigatoriamente a partir de bases aéreas localizadas nos países vizinhos, mas nos vídeos divulgados pelo Pentágono as descolagens são SEMPRE de porta-aviões.

A fotografia inicial é de Al Satterwhite.

09 agosto 2014

OS «BOLINHOS» DE CALAMITY JANE

Gostaria de evocar Martha Jane Cannary (1852-1903), tornada numa lenda do Oeste norte-americano sob o nome de Calamity Jane, uma verdadeira mulher de armas empreendedora e destemida que o argumentista René Goscinny (1926-1977) veio a redesenhar posteriormente nas aventuras de Lucky Luke com um pequeno calcanhar de Aquiles: a sua necessidade de querer ser reconhecida pelas suas virtuosidades na cozinha, uma cena que, para empregar uma expressão corrente, verdadeiramente não a assistia…

08 agosto 2014

A BANDA SONORA DA FOTOGRAFIA


À porta de um fim-de-semana exibe-se uma fotografia de uma paisagem nocturna e indistinta, algures no passado e provavelmente nos Estados Unidos, a sugerir repouso mas a precisar descaradamente de uma banda sonora que a torne tão mais verídica quanto relaxante. Descobri neste processo que há quem tivesse colocado no You Tube vídeos de oito horas de sons naturais da floresta para meditação zen!