18 junho 2024

DIA DO CARNAVAL CONTRA O CAPITAL

(Republicação)
18 de Junho de 1999. Coincidindo com a abertura da 25ª Cimeira do G8, que iria começar nesse dia em Colónia, Alemanha, é convocado um conjunto de manifestações anti-capitalistas e anti-globalização para terem lugar em cerca de trinta cidades do Mundo. O título que foi escolhido para as designar - Dia do Carnaval contra o Capital - ainda hoje resulta mobilizador, embora, como é costume neste género de eventos, a identidade dos organizadores continue a permanecer um pouco difusa, permitindo a especulação quanto às suas intenções, para além da contestação pura e simples a um modelo político, económico, social que há vinte e cinco anos parecia não se deparar com alternativas ideológicas sérias. Quanto às manifestações propriamente ditas, onde a de Londres terá sido uma das maiores, senão mesmo a maior, ela terá juntado cerca de quatro mil pessoas (dados policiais), um número insignificante que terá tentado superar esse handicap com a abordagem carnavalesca dos protestos (fotografia intermédia).
Mas aquilo que terá constituído uma revelação na dita jornada de protesto mundial foi a rapidez como a comunicação social mundial se precipitou para lhe dar atenção a partir do momento em que os protestos se tornaram violentos (fotografia abaixo). Parecia ser isso que se esperava que eles - os manifestantes - fizessem e, a partir do momento em que o fizeram, as manifestações ganharam muito mais cobertura mediática do que a que alcançariam se eles se portassem bem. Estava estabelecido um padrão para o século XXI. Uma manifestação anti-qualquer-coisa garantiria cobertura mediática robusta só se os manifestantes começassem a escaqueirar o que tinham à frente e a confrontar-se com a polícia: foi o que aconteceu dali por seis meses na reunião da OMC de Seattle; foi o que aconteceu na cimeira de Praga do FMI e do BM em 2000; foi o que aconteceu na 27ª Cimeira do G8 de Génova em 2001; é aquilo que tem vindo a acontecer, finalmente, embora num contexto nacional e não mundial, com os protestos dos coletes amarelos em França, que se perpetuam sem que se perceba para quê, a não ser deixar as televisões de notícias entretidas ao fim de semana, quando faltam tópicos de que se fale.
E, no entanto, de quando em vez, percebe-se qual é o verdadeiro poder das manifestações de rua quando elas expressam uma verdadeira opinião popular significativa, como o que acabou de acontecer em Hong Kong.Quando cerca de 5% da população vem para a rua manifestar-se contra uma medida legislativa indesejada, não é preciso que os manifestantes partam nada, nem baterem-se contra ninguém, para aparecerem nos telejornais. O acontecimento tem um significado político, não é apenas um espectáculo para passar na televisão, é a sério e os poderes políticos percebem o recado.

17 junho 2024

A PERSEGUIÇÃO A O.J. SIMPSON

(Republicação)
17 de Junho de 1994. Como principal suspeito pelo assassinato da ex-mulher, uma antiga estrela de futebol americano, O.J. Simpson (até aí relativamente desconhecido na Europa), é perseguido pela polícia ao volante do seu jeep pelas auto-estradas de Los Angeles, enquanto os helicópteros das várias estações de TV faziam a cobertura em directo da perseguição. Foram mais de duas horas e quase 100 quilómetros de um nada informativo, mas que, ainda assim, terá alcançado uma audiência de 95 milhões de telespectadores. Satisfeita a curiosidade mórbida do auditório norte-americano, com a rendição do foragido O.J. Simpson (para onde haveria ele de ir, com 95 milhões de compatriotas a segui-lo?...), o episódio só teve ressonância nos Estados Unidos, e a repercussão fora dele foi quase nula. O fim da Guerra Fria determinara que desaparecesse uma preocupação anterior, de décadas, de mostrar uma sintonia de interesses entre americanos e o resto do Mundo por certos temas mediáticos, como seriam os casos de acontecimentos desportivos como os Jogos Olímpicos ou então a chegada do primeiro homem à Lua. Ao contrário do que acontecera com a comoção como fora acompanhado o assassinato de John F. Kennedy, ele havia coisas dos americanos que interessavam apenas aos americanos e não ao resto do Mundo, e o contrário também era verdade. Por exemplo, naquele mesmo dia 17 de Junho de 1994 começava em Chicago o Campeonato Mundial de Futebol (com a presença do próprio Bill Clinton), mas os americanos, nem por curiosidade, atribuíram ao evento uma importância comparável à que haviam dedicado a esta perseguição a Simpson. A maior audiência doméstica que o torneio veio a gerar foram 11 milhões de telespectadores para um jogo entre o Brasil e os Estados Unidos a 4 de Julho (e porque era dia feriado).

16 junho 2024

O ASSASSINATO DO GOVERNADOR-GERAL DA FINLÂNDIA RUSSA

16 de Junho de 1904. Nikolay Bobrikov, que era o governador-geral da Finlândia sob domínio russo é assassinado a tiro em Helsínquia por um finlandês de ascendência nobre e pertencente à minoria sueca chamado Eugen Schauman. Bobrikov ocupava o cargo desde 1898 e era o ápex local de uma política de russificação forçada da Finlândia. E impopularíssimo por causa disso. O assassino disparou três tiros sobre o governador e guardou um último para si próprio. O atirador morreu de imediato. Mas, como estes acontecimentos são repletos de ironias, ao governador, o primeiro tiro roçou-lhe apenas o pescoço, o segundo atingiu-o na colecção de medalhas que se podem apreciar acima e ressaltou e foi apenas a última bala que acabou por o vir a atingir, ainda que indirecta mas gravemente, já que embateu na fivela do cinto e foi esta que lhe perfurou o abdómen. Operado de imediato, Bobrikov não resistiu à cirurgia. Schauman veio a tornar-se um herói nacional, primeiro de uma forma clandestina, depois de forma oficial depois da independência do país em 1918. É importante relembrar estes acontecimentos nesta altura, para se perceber porque é que os finlandeses não gostam dos russos e se apressaram a pedir o ingresso na NATO na sequência da invasão russa da Ucrânia.

UMA VIAGEM AO PASSADO FALANDO SOBRE CONSPIRADORES PROFISSIONAIS REVOLUCIONÁRIOS

Muito me surpreenderá se houver um leitor do Herdeiro de Aécio que reconheça a pessoa do retrato acima. A Wikipedia resolve o problema: trata-se de Filippo Buonarroti (1761-1837), que a página respectiva descreve como um «revolucionário e teórico socialista italiano radicado em França». Quanto ao retrato, a Wikipedia não esclarece, mas ele foi pintado por Philippe Auguste Jeanron (1808-1877). A acção predominante de Buonarroti foi, porém, em França, onde ele se tornou conhecido por ser um dos activistas mais radicais no período mais dinâmico da Revolução Francesa (1791-1797), é considerado alguém muito próximo do proto-comunista François Noël Babeuf (1760-1797), que veio a morrer na guilhotina em resultado de uma conspiração - conhecida pela Conspiração dos Iguais - intentada contra o governo do Directório. Apesar de envolvido na conspiração, Buonarroti sobreviveu com uma pena de desterro e é como teórico - mas sempre conspirador - que ele se vem a tornar famoso, quando publica em 1828 o livro acima: Conspiração para Igualdade dita de Babeuf. Repare-se o pormenor que o livro foi editado em Bruxelas, que fazia parte então do Reino dos Países Baixos e onde Buonarroti estava então exilado. A obra foi muito bem acolhida, nomeadamente por teóricos revolucionários de gerações posteriores, os casos mais notáveis de Marx, Engels, Bakunin e Trotsky, todos eles produziram textos com referências elogiosas a Buonarroti. Preso por uma última vez ainda em Paris, em Outubro de 1833, aos 72 anos, Buonarroti vem a falecer cego na mesma cidade em 1837. Com esta história de vida, é considerado o percursor dos conspiradores profissionais que sacrificaram toda a sua vida pela luta por uma causa. Mas, remetido para aquela categoria implacável e talvez simplista de socialista utópico com que estes precursores vieram a ser mimoseados pelos conspiradores profissionais revolucionários do século seguinte, estes últimos esqueceram Buonarroti por completo.
O que é uma excelente deixa para apresentar esta outra fotografia, que foi tirada num dos anos finais do século XX (1997/8?) pelo fotógrafo Eduardo Gageiro. Trata-se de uma fotografia de conjunto dos dirigentes históricos do Partido Comunista Português (PCP). Sentados e da esquerda para a direita: António Dias Lourenço (1915-2010), Álvaro Cunhal (1913-2005), José Vitoriano (1917-2006), Joaquim Gomes (1917-2010) e Octávio Pato (1925-1999). Detrás, de pé e pela mesma ordem: Jaime Serra (1921-2022), Sérgio Vilarigues (1914-2007) e Fernando Blanqui Teixeira (1922-2004). Para os mais rigorosos e mais interessados, o elenco congrega não apenas os quatro membros eleitos para o Secretariado do Comité Central (CC) do PCP em 4 de Maio de 1974 (Cunhal, Gomes, Pato e Vilarigues), como também oito dos dez membros da Comissão Política desse mesmo Comité Central que foram eleitos nessa mesma altura, conforme se pode ler num documento da autoria de um dos presentes, Joaquim Gomes, que foi publicado em 1999 e de onde tomei a liberdade de retirar a lista que se pode apreciar mais abaixo, onde se dá conta de como ficou a composição do CC do PCP logo depois do 25 de Abril. Os nomes dos presentes na foto acima estão sublinhados. E nota-se aplicação e método na enumeração feita por Joaquim Gomes. Cada nome aparece acompanhado da antiguidade como militante, como funcionário do partido (i.e., trabalhando em exclusivo na actividade política clandestina), os anos de prisão, e também a antiguidade do militante como membro do CC. Estranhamente, o que ficou por nomear foi a idade de cada um. Assim, em 1974 aquela vanguarda mais esclarecida dos comunistas portugueses que nos aparece mais acima tinha uma idade média de 56 anos, estivera preso quase 10 anos, era militante há 37 anos, funcionário do PCP há um pouco mais de 29 anos e integrava o CC desde há 24 anos e meio.
Embora seja um pouco forçado este processo de sintetizar todos aqueles números acima evocados num retrato-robot da elite dos militantes comunistas quando da queda do Estado Novo, a verdade é que aqueles dados nos podem dizer muita coisa: todos eles se haviam tornado militantes muito novos, aos 19 anos em média (i.e. 56-37 anos) e tinham-se profissionalizado também muito cedo: cerca dos 27 anos (56-39) haviam-se passado a dedicar exclusivamente ao partido. Uma profissão que comportava muitos riscos: 10 anos de prisão da PIDE em média. Mas, precisamente por causa desses riscos, mas também por se considerarem uma vanguarda de cunho quase sacerdotal, não se pode dizer que eles pudessem compartilhar a vivência do povo que tanto invocavam. Na época ainda não se inventara a expressão «viver numa bolha» mas era precisamente o que acontecia com eles, discípulos longínquos de um Buonarroti, conspiradores profissionais dedicados à causa da revolução. A que surgiu em Abril de 1974, era-lhes favorável, mas ainda não era a revolução deles. E felizmente nunca foi a revolução deles. É precisamente isso e o que aconteceu depois do 25 de Abril no Portugal democrático que eu gostaria de enfatizar e que me levou a escrever este poste, baseando-me na fotografia de 1997/98, que foi tirada quase 25 anos depois do 25 de Abril. A fotografia mostra-nos que esse quarto de século em que Portugal passou a viver em Democracia, mesmo que essa circunstância tivesse feito desaparecer as ameaças que pendiam sobre os membros do CC nos 37 anos precedentes de militância comunista, parece não ter tido qualquer influência profissional na actividade de qualquer um deles veio a exercer. Haviam sido funcionários do partido antes de 1974 e aqui vêmo-los reformados de funcionários do partido. Precisamente, como agora se diz, na mesma «bolha».
Uma última nota para acrescentar esta outra fotografia com os mesmos, que foi provavelmente feita na mesma altura, mas onde a sua ordem é diferente. Octávio Pato mudou-se da extrema direita para a extrema esquerda sentada, desalojando Dias Lourenço que foi para a extrema direita levantada, enquanto Blanqui Teixeira ocupou o lugar sentado que fora o de Octávio Pato. Os outros ocupam os mesmos lugares. Nesta versão da foto, a debilidade física de Octávio Pato é notória e isso torna-se mais evidente pelo olhar que lhe dedica José Vitoriano (ao centro). Apesar de ser o mais novo dos oito, Octávio Pato será o primeiro a falecer, em Fevereiro de 1999.

15 junho 2024

VINTE E TRÊS DIAS

Para os preguiçosos e/ou distraídos assinalo o facto que decorreram 23 dias (mais de duas semanas) entre a notícia de cima e a de baixo. Em rigor, o título da notícia original deveria ter sido escrito: «António Gandra d'Almeida (há de ser) o novo dire(c)tor executivo do SNS», tal o tempo que demorou a nomeação. 23 dias para concretizar algo que fora ostensivamente anunciado, para mais quando em cima de outros 29 dias que já mediavam entre o anúncio de 22 de Maio e o anúncio da demissão do director executivo anterior, dão uma imagem que a celeridade não parece ser atributo dos novos dirigentes do ministério da Saúde, descontando os seus motoristas...

AINDA SOBRE A GENEROSIDADE COMO SE ESTÁ A ATRIBUIR O TÍTULO DE «JORNALISTA» A QUEM DESEMPENHA OUTRAS ACTIVIDADES

O erro continua insistentemente a persistir por aí, para mais avalizado por opinion makers como João Miguel Tavares ou Ricardo Araújo Pereira. O erro consiste em dar a alcunha de jornalistas a quem se notabiliza por - e se limita a - emitir opiniões sobre política. Jornalismo é uma outra coisa: quando vemos acima Bob Woodward e Carl Bernstein a assistir ao discurso de resignação de Richard Nixon, como corolário do Caso Watergate, aquilo que estava a acontecer já ia muito para além do que fora o seu trabalho jornalístico. E é por isso apenas apropriado que eles apareçam naquela foto acima como testemunhas distanciadas do acontecimento. E isso não quer dizer, antes pelo contrário, que não tivessem «vigiado» a acção do presidente. Ora no caso e pelo conceito de jornalismo de João Miguel Tavares, teria sido indispensável que Woodward e Bernstein também tivessem ido à televisão em 8 de Agosto de 1974 para dizer umas coisas, formular palpites, dar opiniões sobre a actualidade política norte-americana. Ora essa é toda uma outra actividade, o comentadorismo profissionalizado, que, só por insistência cega e conveniência de nomenclatura, pessoas como João Miguel Tavares ou Ricardo Araújo Pereira designam também por jornalismo.

Agora o que é desagradável é que, por causa de estarmos a designar duas actividades diferentes, se escrevam disparates como o que aparece assinalado mais acima: como é que João Miguel Tavares quer que comentadores encartados vigiem a acção dos políticos? Em animados bate-bocas televisivos?...

O 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA UEFA

15 de Junho de 1954. Fundação em Basileia, na Suíça, da União das Associações Europeias de Futebol, que costuma ser designada pelo acrónimo da organização em inglês: UEFA. Actualmente a organização é composta por 55 associações, algumas das quais constituem cedências políticas à geografia, já que não se localizam total ou parcialmente na Europa. É o caso de Chipre, Israel e Cazaquistão pela totalidade e da Rússia e da Turquia parcialmente. Também a classificação como europeus dos três países caucasianos (Arménia, Azerbaijão e Geórgia) é passível de discussão. Outros países, mesmo que indiscutivelmente europeus, estão inscritos com mais de uma associação, caso do Reino Unido com cinco associações (Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Gibraltar) e da Dinamarca com duas (Dinamarca e ilhas Faroé). Outro caso peculiar é o da associação do Kosovo, região que goza de um estatuto político algo indefinido, reconhecido por alguns países, mas não por outros. Futebol, geografia e política constituem uma mistura pouco coerente.

14 junho 2024

O VIZINHO QUE FALA ALTO DEMAIS NO CAFÉ...

Que a situação na Saúde se tornou rapidamente um dos calcanhares de Aquiles do novo governo afigura-se patente. Trata-se de uma herança de uma pasta delicada, mas o perfil da nova ministra, mais a sua capacidade inata para despertar a antipatia mediática não os ajuda nada. Considerado isto, o que também não faz qualquer sentido é a CNN ir desencantar o comentador Pedro Tadeu para nos dizer precisamente o mesmo nos ecrãs da televisão (mais alongado: em seis minutos e meio e com a coreografia de alguém parecer interessado no que ele tem para nos dizer). Mas, ainda que mal pergunte: o que é que qualifica precisamente Pedro Tadeu para nos vir falar sobre assuntos da política da Saúde? O que é que ele tem de mais do que aquele nosso vizinho que vai para o café falar alto demais de tópicos avulsos de política, para que todos o ouçamos? Será a legitimidade de se arranjar alguém para lhe fazer antes as perguntas, para que a ocasião não fique com o mau aspecto dos monólogos no café do vizinho, de que formamos a impressão de que fala assim só porque é um solitário e gosta de se ouvir? É que, mesmo sabendo que posso mudar de canal e também vir-me embora do café, só de começar a ouvir qualquer dos dois parece-me um acto impingido com a mesma falta de pertinência. Ou melhor: o desbocado do café dos últimos decénios foi promovido para os ecrãs para encher o tempo dos canais de informação.

O MASSACRE DE KUTA RÉ

14 de Junho de 1904. No decurso de uma das denominadas campanhas de pacificação que, neste caso, as tropas coloniais holandesas estavam a efectuar na ilha de Samatra (actual Indonésia), ocorre o massacre de Kuta Ré, quando um destacamento dessas tropas comandado pelo tenente-coronel van Daalen - 12 oficiais e sargentos holandeses, 200 soldados de origem javanesa e 450 carregadores - atacaram e mataram quase todos os habitantes de uma povoação que procurara resistir à implantação da soberania holandesa. Na acção registaram-se 563 mortos, 2 soldados entre os atacantes, e 313 homens, 189 mulheres e 59 crianças entre os defensores. Terão sobrevivido 51 ou 61 pessoas (apenas mulheres e crianças). Na semana seguinte - a 20 de Junho - noutra operação semelhante de submissão de uma outra povoação foram abatidas mais 432 pessoas e ainda outros quatro dias passados, foram mais 654 mortos. No computo global, a campanha de cinco meses do tenente-coronel van Daalen saldou-se por um registo de 2.902 aldeões abatidos, entre os quais 1.159 mulheres e crianças. Mas o que o episódio de há precisamente 120 anos tem de particular e que o destaca do resto do morticínio, são as fotografias (acima e abaixo) que foram tomadas nesse dia pelo médico militar da coluna, o tenente Neeb. Nessas fotografias, e porque a arte fotográfica ainda estava na infância, podem ver-se as pilhas dos mortos contrastando, na de cima, com os militares vitoriosos do lado esquerdo da foto. A história revisitada dos acontecimentos pretende actualmente - os holandeses costumam ser muito habilidosos em escondê-la e reescrevê-la* - que as fotos chegaram aos Países Baixos onde terão sido objecto de muitas críticas no parlamento. Na realidade, van Daalen acabou sendo nomeado governador da província de Achém de 1905 a 1908 e veio a ser promovido a oficial general, assumindo o comando do exército colonial de 1910 até 1914, quando se reformou e regressou à Europa. Não é a carreira de alguém que foi sancionado pela sua conduta, por muito que tentem dar agora a volta ao texto e, pior, quando dos Países Baixos se põem a tentar dar lições de moral sobre colonialismo a outras potências coloniais como Portugal.
* Exemplos: (1) a história pouco conhecida de Dirk de Geer, o primeiro-ministro dos Países Baixos invadidos pela Alemanha em Maio de 1940, que fugiu e se exilou no Reino Unido, mas que, pela sua germanofilia, acabou por ser demitido, tendo regressado aos Países Baixos ocupados pela Alemanha; (2) as tradicionais simpatias germanófilas dos comandantes militares daquele país, tanto durante a Primeira como nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o que até levou à substituição forçada deste último, Izaak Reijnders; (3) o curioso facto de que, entre as inúmeras nacionalidades dos pilotos que se engajaram a lutar em aviões da RAF durante a Batalha de Inglaterra, não havia holandeses. Ao contrário de polacos, checos ou belgas, os alemães haviam ocupado o seu país mas os pilotos militares holandeses não manifestavam disposição de combater do outro lado.

A TOMADA DE POSSE DE THABO MBEKI

(Republicação)
14 de Junho de 1999. Com a tomada de posse como presidente de Thabo Mbeki terminava aquilo que se poderia denominar por fase experimental da transição na África do Sul. Aos oitenta anos, Nelson Mandela, que fora o garante dessa transição, afastava-se para dar lugar a uma nova geração - Mbeki era 24 anos mais novo. As duas principais comunidades sul-africanas davam mostram de boa vontade e pareciam procurar acomodar-se uma à outra, mas a falta de à vontade é patente no vídeo acima (por volta do 01:00), quando Mbeki mostra não saber muito bem como se comportar diante da chefe da guarda de honra, que, ainda por cima, depois tem que se fazer discreta e pequenina, para que madame Mbeki também caiba nas fotografias. Mas, embora caricatural, este ainda era o lado benigno do ANC. A degradação estava guardada para daí a dez anos, com a chegada ao poder de Jacob Zuma.

13 junho 2024

POLÍTICO(A)S QUE SÃO OBRIGADOS A PASSAR DESAPERCEBIDO(A)S QUANDO HÁ ELEIÇÕES PORQUE «ENXOTAM» O ELEITORADO...

Durante o mês de Maio passado e até às eleições de dia 9 de Junho, a deputada socialista Ana Catarina Mendes distinguiu-se por ter feito os maiores esforços para passar desapercebida. E estará de parabéns por ter conseguido. Ninguém a foi incomodar, apesar de ela ter sido apresentada como o terceiro nome da lista que o PS apresentou para o parlamento europeu. Que contraste com Marta Temido! Pelos vistos, dará para especular se, lá pelo Largo do Rato, não devem ter considerado que, enquanto a cabeça de lista se esforçava por cativar os eleitores, dois lugares atrás na lista, Ana Catarina Mendes os enxotaria ao estilo Tânger se abrisse a boca... Daí as (presumíveis) instruções para que estivesse quietinha. Mas foi um esforço, já que Ana Catarina Mendes adora dizer coisas manhosas e trauliteiras para aquecer as hostes dos socialistas indefectíveis, numa função de cheerleader do partido! Nem foi preciso esperar muito dias, aqui a temos, três dias depois das eleições e removida a mordaça, a retomar as tradicionais merdas que até já nos habituámos a ouvir dela - (1) (2) (3) (4). Por um lado, é um prémio à mediocridade, mas, por outro e porque já não há pachorra para a aturar, ainda bem que Ana Catarina Mendes foi despejada em Bruxelas. Que vá para lá facturar umas massas pelos seus bons e leais serviços ao QG do Largo do Rato!

FRANÇOISE HARDY E A «ARTE» DE «VENDER VINHO E CARVÃO» UNS AOS OUTROS

Em consequência do anúncio anteontem da morte da cantora francesa Françoise Hardy, e em complemento às notícias necrológicas da comunicação social tradicional, ocorreu ontem uma espécie de epidemia nostálgica nas redes sociais, com imensas publicações a respeito, embora raras se destacassem pela imaginação: o mesmo tema e evocado por todo o lado da mesma forma. O ambiente de concorrência fez-me lembrar esta passagem de O Escudo de Arverne de Astérix. Andamos todos a vender vinho e carvão uns aos outros. É por isso que Goscinny era um génio.

Esclareça-se que também eu, noutro tempo oportuno, aqui evoquei Françoise Hardy e a mais do que previsível canção «Tous les garçons et les filles» por ocasião do 60º aniversário da sua estreia televisiva em 1962. Mas, para contrariar aquelas publicações expectáveis por ocasião agora da sua morte, recorde-se que, com ela e com as pessoas da sua geração, é uma memória de uma certa Europa que desaparece: ela própria já não teria memória disso, mas, quando Françoise Hardy nasceu em Paris, em 17 de Janeiro de 1944, a cidade ainda estava ocupada pelos alemães...

E os russos ainda haviam de chegar a Berlim...

AS ELEIÇÕES EM TRIESTE (MAS SÓ NA ZONA A)

(Republicação)
13 de Junho de 1949. Realizam-se eleições municipais no território livre de Trieste, região encravada entre a Itália e a Jugoslávia, mas na zona que era administrada pelos Aliados (Zona A). Trieste, cuja história do Século XX já aqui foi contada neste blogue. Na notícia do jornal, a vitória dos partidos italianos é apresentada como se eles se tivessem apresentado conjuntamente, o que não é verdade: os 63% que se mencionam resultam da adição da votação da Democracia Cristã (39%), Socialistas (6%), Neo-Fascistas (6%), Republicanos (5%), Liberais (5%), etc. De qualquer maneira, a maioria que exprimira a sua opção por uma futura reunião com a Itália era significativa, ainda que a eleição em si fosse meramente simbólica: a maioria das decisões administrativas pertenciam ao governo militar. Mas para os países ocidentais, a organização de eleições era um imperativo, na esperança que isso forçasse o padrão do comportamento dos ocupantes soviéticos, que nos países do Leste da Europa se actuasse da mesma forma. Mas não: é verdade que havia eleições, mas não livres. Quanto ao caso particular de Trieste, a situação veio a ficar resolvida em 1954 com a anexação da Zona A pela Itália e da Zona B pela Jugoslávia. Actualmente, os territórios que haviam pertencido a esta última Zona estão divididos, por sua vez, entre a Eslovénia e a Croácia.

12 junho 2024

O JURAMENTO DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

«Não acredito, não sou membro, nem sou apoiante de qualquer partido ou organização que acredite, advogue ou promova o derrube do Governo dos Estados Unidos pela força ou por quaisquer métodos inconstitucionais ilegais»

Conforme se podia ler na primeira página do New York Times de 12 de Junho de 1949, a Universidade da Califórnia passaria a partir de então a adoptar um juramento para os 4.000 membros do seu corpo docente e funcionários administrativos. A explicação para aquele gesto também constava do artigo: para fazer face àquilo que o porta-voz da Universidade, assistente do reitor, denominava por «histeria da guerra-fria». Embora o texto do juramento se refira abstractamente a organizações que promovessem e advogassem o derrube das instituições por meios ilegais, e não mencione qualquer organização em particular, o título da notícia é inequívoco em identificar o alvo: os comunistas, filiados ou apenas simpatizantes. Por isso os jornalistas o baptizam naquela altura por juramento anti-vermelho.
Quer a ironia da História que, nestes 75 anos entretanto decorridos, a ocasião em que «o Governo dos Estados Unidos» esteve mais próximo de ser «derrubado pela força ou por quaisquer métodos inconstitucionais ilegais» (a 6 de Janeiro de 2021, fotografia acima), o vermelho empunhado por quem assim agiu nada tinha a ver com os comunistas, antes pelo contrário...

11 junho 2024

SE A REFERÊNCIA FOR ESTES DOIS ABAIXO, ENTÃO SER-SE JORNALISTA É MESMO UMA ACTIVIDADE MUITO «ABERTA»

No programa Isto é gozar com quem trabalha de ontem, Ricardo Araújo Pereira recebeu como convidados Ana Sá Lopes (Público) e Miguel Pinheiro (Observador) que ele apresentou como sendo jornalistas. Eu não acompanho o que se publica e radiodifunde no Observador com a mesma intensidade como sigo o que aparece no Público mas, quanto a Ana Sá Lopes, não tenho memória alguma de ler uma notícia sua nestes últimos anos. O que a vejo fazer é mandar opiniões, sobretudo sobre política nacional. E desconfio que o mesmo acontecerá com Miguel Pinheiro, pelo pouco que o ouço. Deparamo-nos com o mesmo equívoco que há sete semanas levou João Miguel Tavares - que também se deve considerar a si próprio jornalista - a classificar Sebastião Bugalho como colega de profissão. O conceito original de jornalista parece estar ultrapassado. A responsabilidade da produção das notícias parece agora assentar nas agências noticiosas. Toda esta gente acima citada e tantos outros que também se alcunham por jornalistas, aquilo que fazem é darem opiniões. E, por isso mesmo, é sempre complicado questioná-los quanto ao que os qualificará para possuírem o estatuto de serem eles a falar e os outros a ouvir. Quando se lhes faz a pergunta, não gostam. Porque as explicações são tão curtas quanto a definição do que são os profissionais é abrangente. O que desqualifica a profissão e o profissional. Tanto é assim, que aqueles que tiveram outra vida mas que agora também vivem de aparecer a dar opiniões querem continuar a ser conhecidos por aquilo que foram, não por se terem tornado jornalistas na terceira idade; exemplos assim mais conhecidos da televisão, há o do advogado José Miguel Júdice, o major-general Agostinho Costa ou o embaixador Seixas da Costa, que poderiam, por esta liberalidade, ser tratados também por jornalistas, já que eles fazem a mesma coisa que os outros: dão opiniões. Mas desconfio que qualquer deles se sentiria insultado se lhes disséssemos que agora estão a fazer trabalho de jornalistas...

UM «CHEIRINHO» DA VELHA GUERRA FRIA

(Republicação)
11 de Junho de 1999. Nesse dia terminava a Guerra do Kosovo. Com a entrada em vigor do cessar fogo, fora previsto que uma força conjunta de manutenção de paz, composta por unidades militares de países da NATO e também russas, se instalassem na antiga região autónoma jugoslava. Os russos haviam querido um sector independente, mas os Estados Unidos, assim como os restantes países europeus da NATO, haviam rejeitado a ideia, com receio que isso predispusesse os russos a dividirem o Kosovo em duas regiões, uma menor de maioria sérvia a norte e a restante, de maioria albanesa, uma espécie de mini Alemanha Oriental balcânica, que esses bons velhos hábitos nunca saem de moda. Mesmo que não fosse essa a ideia dos russos, a sua posição negocial parecer-lhes-ia demasiado frágil na conjuntura da substituição das forças combatentes (sérvios e albaneses), e os russos decidiram-se a um golpe sujo: pela calada da noite de 11 de Junho, pegaram num destacamento seu estacionado na Bósnia vizinha, e mandaram-no percorrer os 600 km que os separavam da capital do Kosovo para ocuparem o aeroporto local, tudo isso sem passar cartão a ninguém da NATO. Apesar de comandado por um general, o destacamento russo era pequeno: cerca de 200 homens e umas 30 viaturas, sem grande potencial de combate. Mas isso seria irrelevante. Aquela era uma guerra para ser travada à frente das câmaras de televisão (acima). Quando as unidades da NATO encarregues dessa mesma missão chegaram, o aeroporto estava ocupado pelos russos, a CNN também já lá estava, ninguém se dispôs a facilitar a vida aos outros, e começava a crise. Era uma coisa nova, depois de dez anos (1989-1999) em que os russos haviam sido nossos amigos. Recorde-se que a Rússia de então era ainda dirigida por um sujeito pachola, permanentemente embriagado que dava pelo nome de Boris Yeltsin (Vladimir Putin só apareceu um ano depois). Mas a gestão de todo o incidente serviu também para exibir outras fracturas, não só as entre o Ocidente e o Leste, como também as entre a América e a Europa, dentro do Ocidente e da NATO. À atitude mais bélica do comando supremo americano da operação, contrapôs-se uma aproximação bem mais pragmática do comando militar britânico que estava no terreno. Apesar daquilo que parecia estar a acontecer na CNN, os 200 russos estavam isolados e impedidos pela aviação da NATO de serem reforçados e de se reabastecerem sequer. O único perigo da situação era ela detonar acidentalmente. Para a NATO, o tempo encarregar-se-ia de solucionar a questão. Foi o que aconteceu: os russos acabaram por ter que ser abastecidos de água e comida pela logística das unidades da NATO que eles não queriam deixar entrar no aeroporto. O impasse durou duas semanas, a Rússia acabou por salvar a sua face politicamente, e o susto passou.

10 junho 2024

INICIATIVA LIBERAL: ISTO ARRISCA-SE A CORRER MAL

Se estes são os melhores sorrisos que lhes conseguimos arrancar numa noite em que o partido alcançou um excelente resultado eleitoral, então há que encarar o futuro do ambiente interno da Iniciativa Liberal com toda a circunspecção.

HÁ POR AÍ IMENSA GENTE A DAR A SUA OPINIÃO, MAS...

...ainda não dei por ninguém que tivesse comentado o resultado do ADN. Depois de ter recebido 100.000 votos nas eleições legislativas, que foram atribuíveis pela opinião publicada a questões de analfabetismo funcional e que foram mesmo pretexto para manifestações do síndrome de Calimero pelos simpatizantes da AD, o ADN torna a surpreender os comentadores políticos três meses depois ao recolher 54.000 votos, superando mesmo a votação do PAN. Reconheço que as opiniões se podem dividir para o que aconteceu: há quem possa defender que o analfabetismo persiste e que nem todos (cerca de metade) terão aprendido com o engano de há três meses; mas também haverá quem possa defender que este resultado se deva à projecção mediática da cabeça de lista da formação, Joana Amaral Dias, que, como é seu estilo, realizou uma campanha muito incisiva. De qualquer maneira, fica o registo objectivo que, a ter sido esta última a explicação, a incisividade da cabeça de lista teve mais repercussões nos distritos da Guarda e de Bragança, onde a votação do ADN chegou a rondar os 2%.
Também ainda não dei por ninguém que se tivesse referido ao número de votos em branco, tema esse, de resto, normalmente esquecido. Mas vale a referência, já que os 47.000 votos em branco representam um mínimo de sempre em eleições europeias, apenas aproximado com o valor de 49.000, registado em 1994. Estes valores de ontem contrastam significativamente com os registados nas últimas três eleições: 166.000 em 2009, 145.000 em 2014 e 141.000 em 2019. Em qualquer dessas eleições o número de votos em branco foi superior a 4% e foi também superior ao coeficiente de votos que elegeu os últimos eurodeputados para o Parlamento Europeu. Ainda bem que os votos em branco não elegem um não-deputado (ou seja, um lugar vazio), porque se isso acontecesse, teria havido uma cadeira vazia em Bruxelas por conta dos portugueses que foram votar mas não a favor de alguém. A boa notícia de ontem é que o número daqueles que votam por dever cívico mas que acabam por não fazer qualquer escolha se reduziu a ⅓ daquilo que era costume nas eleições europeias, sintoma que as opções disponíveis estão agora mais ao gosto dos portugueses.
Em contrapartida, vale a pena referir por fim aquilo que eu li referido, mas que me parece assentar num equívoco, quiçá por algum entusiasmo engajado excessiva de quem analisa os resultados eleitorais, como parece ser o caso acima de uma expectativa de que o Livre pudesse alcançar quase naturalmente representação no Parlamento Europeu. Era uma questão de mais ou menos pedalada. Mas a verdade é que, quem se tivesse dado à curiosidade de projectar os resultados das eleições legislativas de Março passado numa hipotética distribuição dos 21 lugares de eurodeputado, aperceber-se-ia que tanto o PCP quanto o Livre partiriam em desvantagem. O PCP conseguiu em última instância: o seu eurodeputado foi o penúltimo (20º) a ser eleito. O Livre falhou: teria sido preciso haver 23 eurodeputados...

O 80º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE ORADOUR-SUR-GLANE

10 de Junho de 1944. Ocorre o massacre de Oradour-sur-Glane. Creio que não há nada a acrescentar ao texto que aqui publiquei depois de lá ter passado, no Verão de 2008.
Oradour-sur-Glane (há três povoações na região do Limousin que têm o mesmo nome de Oradour, distinguindo-se pelo curso de água que lhes passa próximo) é uma aldeia francesa situada a cerca de 25 km a Noroeste da cidade de Limoges. O destino dos seus habitantes durante a Segunda Guerra Mundial é um episódio cada vez mais esquecido, mas que permanece, ainda hoje, como um testemunho eloquente das consequências não só dessa Guerra, como de todas as guerras. Vale a pena contar aqui a sua História...

No seguimento do desembarque aliado na Normandia (6 de Junho de 1944) e do apelo dos Aliados à Resistência francesa para que esta dificultasse a progressão das unidades alemãs, um desses grupos clandestinos de guerrilheiros (conhecidos quando operavam em zonas rurais como maquis), organizou um golpe de mão em 9 de Junho em que se apoderou do Sturmbannführer SS (Major) Kämpfe e correu a notícia – que chegou naturalmente aos alemães – que os captores o pretendiam executar numa cerimónia pública.
A notícia, incluindo o local da suposta execução (Oradour-sur-Vayres, que fica a 28 km a Sul-Sueste de Oradour-sur-Glane) era falsa porque, como se veio depois a descobrir, Kämpfe fora executado pelos resistentes imediatamente depois da captura. Contudo, o oficial que ficou encarregue de investigar o caso, o Sturmbannführer SS Adolf Diekmann, pertencente à mesma unidade de elite de Kämpfe (a 2ª Divisão Blindada SS Das Reich - acima), acabou por confundir as duas localidades e conduziu o seu batalhão até Oradour-sur-Glane.

Estava-se a 10 de Junho de 1944, era um Sábado, fazia Sol, servia-se o almoço nos dois hoteis do centro da aldeia, o Hotel Abril e o Hotel Milord. Alguns citadinos, vindos de Limoges, andavam às compras daquelas provisões que tanto escasseavam naqueles tempos de racionamento. Mas, deixo o resto da descrição do que se passou a seguir para o trecho de introdução dos documentários da série O Mundo em Guerra (com a locução de Laurence Olivier):
Vindos desta estrada, num dia soalheiro de 1944… os soldados chegaram. Agora, ninguém cá vive. Ficaram apenas por umas horas. Quando partiram, a comunidade que aqui vivera por mil anos… morrera. Isto é Oradour-sur-Glane, em França. No dia em que os soldados chegaram, os habitantes foram reunidos. Os homens foram levados para garagens e celeiros, as mulheres e crianças foram levadas por esta estrada… e conduzidas… para esta igreja. Aqui ouviram os tiros enquanto os seus homens eram mortos. Então… também elas foram mortas. Algumas semanas depois, muitos dos que haviam matado tinha sido mortos por sua vez em combate. Nunca se reconstruiu Oradour. As suas ruínas são um memorial. O seu martírio representa os milhares e milhares de outros martírios na Polónia,… Rússia,… Birmânia,… China,… num Mundo em Guerra...*
O massacre fez 642 vítimas, com idades compreendidas entre os dezoito dias e os oitenta e cinco anos. Sobreviventes houve sete: uma mulher, cinco homens e uma criança. Valha a verdade que o episódio foi severamente condenado entre os alemães: o superior hierárquico de Diekmann, o Standartenführer (Coronel) Stadler mandou abrir contra ele um processo judicial. Mas a morte de Diekmann 19 dias depois do massacre, a derrota das tropas alemãs na Normandia e o veto de Hitler conduziram os resultados desse processo a nada. Só oito anos e meio depois do massacre (em Janeiro de 1953) é que o caso veio a ser julgado em tribunal, em Bordéus. Dos cerca de 150 a 200 participantes apenas 21 estavam no banco dos réus (abaixo). Além da ausência daqueles que haviam entretanto morrido (especialmente durante a Guerra), tanto a Alemanha Federal como a Alemanha Democrática haviam-se recusado a extraditar os seus nacionais envolvidos nos acontecimentos. E de uma forma que se revelava completamente paradoxal, dos 21 réus, havia 14 que eram franceses!
Tratava-se de franceses originários da Alsácia, a região que havido sido francesa desde os tempos de Luís XIV até 1871, que se tornara alemã entre 1871 e 1918, voltara a ser francesa de 1918 a 1940 e que novamente fora anexada pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Os seus naturais (que habitualmente até falam um dialecto germânico) tinham-se tornado dessa forma cidadãos do Reich e foi assim que muitos se viram incorporados nas unidades militares alemãs – os chamados malgré nous**. O julgamento assumiu assim um carácter político de confronto entre duas regiões de França, com o Conselho de Guerra a pronunciar em Março de 1953 duas condenações à morte (uma de um alsaciano) e ainda doze penas de trabalhos forçados, seguidas de um enorme clamor de protesto na Alsácia, seguidas de discretos despachos administrativos comutando as penas, seguidos de outro enorme clamor de protesto no Limousin... Até aos últimos actos, o massacre de Oradour-sur-Glane nunca se libertou das suas contradições.
Ao contrário de Auschwitz, com cuja escala nem se compara, Oradour-sur-Glane é um memorial que pode transcender a evocação da Segunda Guerra Mundial. É que massacres como aquele podem ter tido lugar em muitos outros locais – quem se recordará hoje do que aconteceu em Kragujevac (Sérvia), Marzabotto (Itália) ou Kortelisy (Ucrânia)? – e em quase todas as Guerras: não poderão os próprios soldados franceses ter procedido posteriormente de uma forma idêntica em alguns locais da Indochina ou da Argélia? Em Oradour-sur-Glane, conhecendo-se a sua História, trata-se da guerra em todo o seu absurdo. Começando por questionar se aquela operação de rapto de um mero oficial superior, quando foi desencadeada pelos maquis, valeria militarmente o risco das previsíveis retaliações alemãs?... Continuando pela troca dos nomes das povoações feita por Diekmann que acabou por massacrar a aldeia errada… E terminando tudo com um processo de apuramento de responsabilidades que teve que ser suavizado por razões superiores de Estado…
* Down this road, on a summer day in 1944. . . The soldiers came. Nobody lives here now. They stayed only a few hours. When they had gone, the community which had lived for a thousand years. . . was dead. This is Oradour-sur-Glane, in France. The day the soldiers came, the people were gathered together. The men were taken to garages and barns, the women and children were led down this road . . . and they were driven. . . into this church. Here, they heard the firing as their men were shot. Then. . . they were killed too. A few weeks later, many of those who had done the killing were themselves dead, in battle. They never rebuilt Oradour. Its ruins are a memorial. Its martyrdom stands for thousands upon thousands of other martyrdoms in Poland, in Russia, in Burma, in China, in a World at War... ** A tradução da expressão, não literal, será apesar da nossa vontade. Note-se contudo que no total dos 642 mortos em Oradour-sur-Glane, se contam 9 pertencentes a 3 famílias alsacianas que ali se tinham refugiado por causa da guerra.

09 junho 2024

«ERAM P'RAÍ OITO E PICOS, NOVE E COISA, DEZ E TAL...»

Como se pode ler acima, o automóvel onde viajava a ministra da Saúde esteve envolvido num acidente, de onde a própria saiu com uma fractura de um braço. Mas o que mais terá entusiasmado os jornalistas foram as inexplicáveis imprecisões que acompanharam a divulgação do acontecimento: tão depressa o despiste ocorrera na auto-estrada A8, como na A10, o local onde ocorrera precisamente também variou, o INEM e os restantes serviços de urgência terão - ou não terão - sido accionados, mas eles não terão encontrado a viatura onde seguia a ministra, a assessora e respectivo motorista. As duas primeiras terão depois dado entrada na urgência do hospital de São Francisco Xavier, dispensando no percurso os hospitais de Vila Franca de Xira, Loures e Santa Maria, unidade hospitalar que, por sinal, a ministra dirigiu até há cinco meses. Em suma: as confusões associadas ao acidente acabaram por justificar, hoje, a publicação de uma nota explicativa do ministério.
Mas tanta confusão levou-me a recordar este grande sucesso musical popular de há 60 anos do conjunto António Mafra, cuja letra, por coincidência, tem várias passagens que parecem ser propositadamente alusivas ao acidente da ministra: «...foram dar com o chófer a dançar com a criada, dizia-lhe ela baixinho: na prise és bestial» ou «...foi dançar a bossa nova, escorregou no soalho, caiu, foi p'ró hospital...» mas sobretudo o refrão, por causa da confusão com as auto-estradas (A8? A10?): «...Eram pr´aí oito e picos, nove e coisa, dez e tal