Esta fotografia de Janine Nièpce conta-nos uma história: a de uns pais de classe média, presumivelmente franceses, preocupados em dar cultura a um filho seu. Tirada num dia que deduzimos festivo (o do aniversário?), vemos o seu quarto cheio de amigos e uma parede forrada de referências culturais, desde um cartaz de promoção do filme A Flauta Mágica (1975) do realizador sueco Ingmar Bergman (uma referência que cai sempre bem citar...) até um outro a seu lado referente ao pós-impressionismo. Sentado, um dos amigos lê uma das aventuras de Lucky Luke, uma que envolve os Dalton, mas é a réplica – muito pouco cultural – de uma Winchester que concita a atenção e a cobiça generalizadas. Todos adivinhamos que, ao crescerem, os protagonistas terão perdido aquela espontaneidade, como acontece de resto com os 21 políticos portugueses que se dispuseram a nomear as suas leituras de férias para o Observador. O meu destaque positivo vai para Nuno Magalhães do CDS que ali confessou com o mesmo despojamento juvenil da fotografia acima que vai ler predominantemente A Bola. Entre os 20 restantes há alguns que se tornam dolorosos pelo pretensiosismo: como quem vai refrescar a memória com História do povo na revolução portuguesa, de Raquel Varela (uma frescura certamente); ou então irei seguramente regressar ao D. Quixote, de Cervantes em espanhol (será no castelhano setecentista original?); e ainda um terceiro que vai ver se me lanço na empreitada do Ulisses de Joyce, que comecei a ler há uns tempos (não haverá aqui um certo tom de expiação?).
16 julho 2014
15 julho 2014
ANSIEDADE TELEVISIVA EM EXCESSO
O abandono em directo de um programa televisivo por Rui Reininho, que ontem fora notícia de jornal e objecto de transposição para o you tube, hoje já deixou de o ser, com o próprio protagonista a explicar-se publicamente: teve um ataque de ansiedade. Considerando-se pessoa excessiva a quem não podem exigir a chamada normalidade, pergunto a mim mesmo se o mesmo não se passará também comigo, excessivo que serei, quando o que verdadeiramente apreciei do vídeo acima, instantâneo em directo do pretenso ataque de ansiedade, foi um plano da assistência onde aparece um espectador que parecia estar a compartilhar totalmente a ansiedade de Rui Reininho… Falta só especular se a bebera ou se a inalara...
MOMENTO SEMINAL EM «O PADRINHO»
O momento parece casual no meio do funeral de uma antecipada morte de Don Corleone (Marlon Brando), mas a verdade é que a fotografia regista o momento de O Padrinho em que Tessio (Abe Vigoda) trai e estende a armadilha que Michael Corleone (Al Pacino) havia antecipado que os seus inimigos lhe lançariam. Michael previra a traição, só não sabia quem seria o traidor e está a descobri-lo naquele momento. Abe Vigoda, apesar de medir apenas 1,83 é um daqueles grandalhões desproporcionados que dão a impressão que são maiores do que são por causa disso, o que acentua a diferença de alturas para o 1,70 de Al Pacino. Contudo, não havia nada de pessoal naquilo que se iria passar a seguir, eram estritamente negócios…
14 julho 2014
A PEQUENA HISTÓRIA DO PARAQUEDAS DE NYLON
A História da Segunda Guerra Mundial é feita predominantemente de protagonistas masculinos mas, duvido que mesmo aqueles que se dedicam à procura delas seleccionassem Adeline Gray para constar duma galeria das heroínas esquecidas daquele conflito. Contudo em 1942, aquela jovem norte-americana de 24 anos do Connecticut foi a primeira pessoa a ensaiar um paraquedas feito em nylon. Haviam-se passado seis meses após o ataque japonês a Pearl Harbor, Adeline era a única mulher a possuir o brevet de paraquedista no estado e, com os homens mobilizados, terá sido escolhida só pela dificuldade em encontrar um paraquedista homem.
O nylon fora descoberto nos laboratórios da DuPont norte-americana em Fevereiro de 1935. Fora a primeira fibra têxtil a ser sintetizada artificialmente mas os anos subsequentes foram dispensados mais a descobrir aplicações para o seu emprego do que propriamente a responder às solicitações que a nova descoberta suscitara. Até à entrada dos Estados Unidos na guerra, o produto em nylon mais popular eram... as meias de senhora. Porém, um dos produtos que passou a estar em falta com a guerra foi a seda, produzida sobretudo na Ásia que se encontrava sobre controlo japonês, e que era matéria-prima indispensável para a feitura de paraquedas.
A aprovação do paraquedas em nylon da DuPOnt pelas autoridades militares em consequência do sucesso do teste de Adeline Gray (acima) desbloqueou não apenas o problema logístico da escassez de seda para o feitura dos paraquedas para os pilotos de aviação mas também deu um outro potencial à dimensão das operações aerotransportadas: a Operação Overlord que veio a ter lugar em 6 de Junho de 1944 iniciou-se com o lançamento simultâneo de 16.500 paraquedistas aliados sobre a Normandia. Note-se que, por coincidência, o teste de Adeline tinha tido lugar a 6 de Junho de 1942, uns escassos (mas precisos) dois anos antes da Operação…
Mas em todas as fotografias da propaganda Aliada publicadas naquela altura (como a de cima), não há nenhuma pista que nos indique como no princípio da cadeia daquele alinhamento de soldados garbosos haverá uma moça corajosa que se dispusera a ensaiar um paraquedas feito num tecido sintético que até aí só fora testado com bonecos atirados de um avião em voo…
CHIC SAISON 2014
Só olhando para uma daquelas intermináveis listas de parabéns que
qualquer usuário tende a reunir no facebook no dia de anos, é que me apercebi do
potencial de chiqueza que pode ter a atitude de quem este ano removeu da sua página
a data de nascimento para con(sta)tar quem são os verdadeiros amigos, aqueles
que ainda se lembram da sua data do aniversário sem o auxílio de uma cábula tão corriqueiramente
plebeia.
13 julho 2014
OVNILOGIA
No vídeo acima, recuperado de uma notícia do Diário das ditas, realce-se que Raquel Varela começa por nos esclarecer que não conhece a crise do PS e que nem tem conseguido ler nada que a ajude a entendê-la mas, mesmo assim, arrisca classificá-la como uma coisa que se está a passar na sociedade portuguesa de forma intensa (podia lá ser de forma suave…): Já não há dinheiro para dividir por todas as facções da burguesia portuguesa. E a pensadora continua pensando que talvez, talvez estas lutas em torno dos bancos aparentemente não tenham nada a ver com as lutas dentro do PS e possam ter mais a ver com o que nós pensamos, uma explicação no mínimo ambígua, mesmo para os nós que pensamos. Elaborando um pouco mais: começa a haver uma escassez de recursos para repartir o bolo pelos de cima, chamou-lhes assim, e isso começa a ter um reflexo dentro dos partidos políticos que ´tão mais ligados ao poder. Provas? Nenhuma. Explicações como o conclui? Muito menos. Raquel Varela sustenta-se num feeling parecido com aquele que postula que, com tantos milhões de estrelas no Universo, tem de haver civilizações mais avançadas que a nossa que, por causa desse avanço, conseguem nos visitar com regularidade. Já vieram de Marte mas, por causa do nosso avanço, já deixaram de vir daí...
Como notícia não existe. Como opinião é inane. Como piada falta-lhe a punch line. E pensar que o jornalista responsável por este disparate será um dos sobreviventes da purga que recentemente teve lugar naquele jornal… Não lhe ocorreu ir recolher também a opinião do Emplastro?
MANHÃS DE VELUDO
É saboreando uma verdadeira manhã de veludo que se pode perceber melhor quanto este sucesso musical de Demis Roussos de há muito (uns 40 anos…) foi erroneamente baptizado. Tanto que a canção rapidamente perdeu o título oficial e original de Velvet Mornings para ser conhecido pelos fãs do cantor por versões abreviadas do refrão, um Triki, triki, triiiiiki, triiiki, triki, mana mou, triki, triki, triki, triiiiii de significado misterioso, porém tudo menos aveludado…
A DECREPITUDE DA MODERNIDADE
Há fotografias que se tornam perfeitas reproduções de ambientes que outrora nos marcaram. A Cidade das Águas Vivas (La Cité des Eaux Mouvantes no original) era uma aventura de BD de ficção científica que, publicada há mais de 40 anos, me impressionou fortemente por decorrer numa Nova Iorque pós-apocalíptica em que quase tudo o que fora moderno e sofisticado se tornara decrépito. A fotografia abaixo, que tem por tema central umas escadas rolantes tais como as que aparecem no último quadro da prancha acima, foi feita naquilo que outrora foi um centro comercial em Banguecoque na Tailândia, agora transformado num improvisado aquário para piscicultura.
12 julho 2014
O SONSO E OS SONSOS
Comecemos por deixar bem claro que considero Cavaco Silva um sonso. Os esclarecimentos que prestou a propósito dos investimentos que realizou enquanto depositante do BPN são equívocos, a ponto da versão que construiu o fazer passar por estúpido: não viu nada de anómalo numa valorização de 140% das acções que detinha?! Contudo, ou bem que o criticamos por ser sonso, ou o criticamos por não ser. Abaixo, recorda-se a opinião que Carlos do Carmo exprimiu publicamente sobre Cavaco Silva. Apesar de Carlos do Carmo não ter propriamente projecção social pelo seu posicionamento político, ultrapassemos rapidamente os preâmbulos desnecessários defendendo o direito do fadista ter direito à sua opinião e à sua liberdade de a exprimir em público. Obviamente tem-nos e exerceu-os. O que não se pode, como o faz uma boa parte da comunicação social, é sugerir que aquelas atitudes públicas não têm de ter depois o seu preço: a antipatia de Cavaco Silva é recíproca e manifesta-se... pelo silêncio. Um cidadão naquele cargo tem que mostrar ética mas não tem que se lhe exigir ser feito de pau. Uma atitude contrária de Cavaco Silva seria tão convincente quanto a sua incapacidade em detectar a inverosimilhança num negócio com rentabilidades da China. Por esta vez os dois intervenientes estão inocentes: os sonsos da história são mesmo os jornalistas…
11 julho 2014
MILEX 2014
Não foi por pacifismo, apenas por distração que só hoje, dia do encerramento, assinalo aqui a realização em Minsk, na Bielorrússia de uma Exposição denominada MILEX 2014. Um certame interessantíssimo dedicado à promoção de armamento e artigos correlacionados como se comprova pelas fotografias anexas: não é em qualquer lugar que se tem o privilégio de apreciar todo um sortido de granadas para as mais diversas funções, unidas no propósito de incomodar quem se manifeste…
…ou então uma vitrine repleta de munições com uma variedade e um colorido a fazer lembrar mostruários de perfumaria, lacas ou maquilhagem embora a dimensão dos frascos e a presença do dispersor por perto modere a nossa disposição a submetermo-nos a tais tratamento de beleza. Apesar do tema, ou talvez mesmo por causa dele, a presença feminina é sempre encorajada e destacada, como a proprietária destes calções camuflados que promove o evento na sua coxa.
«APRÉS MOI, LE DÉLUGE…»
Ao passar por uma página com os sucessos editoriais do momento apercebi-me subitamente o que distinguia o caso do BPN dos restantes da banca portuguesa. Oliveira e Costa é apenas um escroque porque qualquer banqueiro que se preze não assiste ao descalabro da instituição que dirigiu sem se fazer acompanhar ao menos da devida biografia…
O VALOR SOCIAL DO TRABALHO ou O FERRARI DO POLÍCIA DE GIRO
Tem vezes que uma notícia prosaica, quase um fait-divers, tem um potencial tremendo de reflexão ideológica: há um polícia anónimo, a quem a fortuna teria bafejado com um prémio multimilionário do Euromilhões, que preferiu prosseguir a sua carreira profissional em vez de usufruir dos rendimentos. Como se pode ler mais abaixo, a notícia só se tornou notícia porque a mãe, que foi a pessoa realmente contemplada, resolveu presentear o filho com duas viaturas de alta cilindrada e topo de gama, muito para além das aparentes capacidades financeiras de qualquer polícia. O episódio despertou suspeitas que houve que desfazer. O valor de uma carreira terá sempre um valor intangível mas neste caso concreto e para este polícia que prefere continuar anónimo a valoração parece ser bastante alta, consideradas as opções.
O episódio torna-se tanto mais significativo quando o relacionamos com a destruição de emprego que tem vindo a ter lugar em Portugal nestes últimos anos e, mais do que com essa destruição, com a atitude sobranceira como ela tem vindo a ser tratada pelo poder político e pela entourage académica que o suporta, atapetada por velhas filosofias recuperadas como a da destruição criativa do economista austríaco Joseph Schumpeter. Com este exemplo de um (previsível) Ferrari do polícia de giro português parece provar-se concretamente que haverá pessoas comuns avessas às virtudes da destruição, que conseguem demonstrar na prática, e sem quaisquer pretensões de filosofar por outros, que para elas ter um emprego e prosseguir uma carreira, pode equivaler a muitos milhares…
10 julho 2014
PODER AUTÁRQUICO
Aquilo que tendemos a desprezar nos que qualificamos genérica e displicentemente por políticos começa por aqueles que muitas vezes nem consideramos como tal e que até convivem proximamente connosco. Na placa acima, mais de metade do espaço foi dedicada a identificar quem fez: o Executivo. O resto realça aquilo que foi feito: as Realizações. Mas parece não ter sobrado espaço para uma singela referência ao nome da autarquia e/ou aos munícipes, sonhadores em nome dos quais o executivo realizou o sonho…
O COMPACTADOR
Apesar de faiscante, nunca vira este anúncio (com o indispensável antes e depois) com a atenção que ele merece, que os efeitos do produto são deveras surpreendentes: não propriamente o mais do que previsível desaparecimento das rugas que fazem a avó de 70 anos parecer ter 40, mas a compactação que o crânio da avó mostra depois da aplicação do produto… Além da banal remoção das rugas, tratar-se-á de um produto excelente para quaisquer utilizadores das modernas redes sociais (o facebook ou o twitter, por exemplo), onde a expressão e a apreensão de ideias assim mais extensas e desenvolvidas é fortemente desencorajada. E é provável que um crânio compacto seja mais propenso a trabalhar com raciocínios compactos.
09 julho 2014
O COMPLEXO DO ALEMÃO
Pensei que não ficaria bem ser um português a gozar com o trocadilho entre um afamado bairro do Norte do Rio de Janeiro (famoso por se encontrar sob controle total das mafias de traficantes de droga e pelas operações militares que é preciso desencadear para que as forças da ordem nele entrem), e as consequências generalizadas da derrota de 7 a 1 infligida ontem pela seleçcão alemã em Belo Horizonte à sua homóloga brasileira. Descobri porém que um humorista anónimo já me precedera na página da wikipedia referente ao bairro e que escrevera o seguinte preâmbulo:
O Complexo do Alemão, é o nome de uma condição psicológica debilitante, em tudo semelhante ao stress pós traumático e que afecta toda a população brasileira, sendo resultado da humilhante derrota da selecção nacional, frente à selecção germânica, por sete bolas a uma. Também pode ser um bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro no Brasil, mas que será rebaptizado por respeito aos milhares de afectados. É evidente (e é pena) que esta bem-humorada introdução será futuramente apagada pelos sorumbáticos que gerem a wikipedia.
Resta-me preservá-la (e ao seu espírito) aqui no blogue e procurar complementá-la com uma banda sonora apropriada: o Rap das Armas em evocação dos vencidos e o Horst Wessel Lied em evocação de uns impávidos vencedores, sobranceiros às ondas de choque que destruiram o ego de 200 milhões de brasileiros. É que não se trata apenas do complexo do alemão, há também os complexos dos alemães…
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PUTIN O MAU: LÁ SE ESTRAGOU UMA PARTE DO ENREDO…
Há três meses e meio, havia quem consultasse especialistas em separatismo(...) para identificar outras regiões adjacentes à Rússia que, através do efeito dominó, poderiam seguir o exemplo da Crimeia: Transnístria, Nagorno-Karabakh, Ossétia do Sul ou Abcásia. O presidente Vladimir Putin, qual novo Adolf Hitler do Século XXI, encarnava nos media a figura do revisionista de fronteiras capaz de pôr em causa perigosamente a ordem internacional. Entretanto a Ucrânia reagiu militarmente às ameaças secessionistas que ameaçavam o seu território, e parece estar em vias de as jugular. Há líderes separatistas russófonos a acusar Putin de lhes dar esperanças para depois os abandonar. Sabe-se quanto o homem tem uma má reputação, como ele tem cara de pessoa que não inspira confiança, mas em função destes últimos desenvolvimentos há partes do enredo noticioso que precisam de ser reacertadas: ou se faz eco das críticas por ele apoiar os separatismos das vizinhanças ou se faz eco das críticas por ele não os apoiar…
08 julho 2014
«POR QUEM NÃO ESQUECI»
Já comparada a Calamity Jane, Teresa Leal Coelho parece representar politicamente nesta legislatura algo mais que um dos seis vice-presidentes do PSD. Ela tem sido a vice-presidente omnipresente para todas as ocasiões em que o partido e governo pretendem dar porrada a sério nos adversários políticos. Um dos segredos de polichinelo no meio (menos conhecido pela opinião pública) é que Teresa Leal Coelho é casada com Francisco Ribeiro de Menezes, outrora o letrista e membro dos Sétima Legião (daí a propriedade do título e da banda sonora que acompanha este poste) mas, mais recente e pertinentemente, também o chefe de gabinete do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Esta conexão tem conferido às prestações assertivas de Teresa Leal Coelho o beneplácito implícito de serem consideradas por avalizadas pelo chefe do governo. Entretanto foi notícia, mais discreta do que a importância do facto mereceria, que Francisco Ribeiro de Menezes vai abandonar o seu actual cargo até ao fim deste ano, para reatar a sua carreira diplomática ocupando o honrosíssimo cargo de embaixador em Madrid. Diz-me quem sabe que nomeações destas e nestas circunstâncias raramente escapam à maledicência da corporação, mas o que mais me interessa do devir da progressão da carreira de Ribeiro de Menezes é descobrir se a relevância político-mediática da sua embaixatriz se manterá deste lado da fronteira.
O QUE SE QUER E QUANDO
Entre as manifestações que varreram a América dos finais dos anos 60 contam-se as que contestavam a guerra do Vietname, onde a cenografia era os manifestantes responderem às perguntas-palavras de ordem do organizador que empunhava um megafone: - What we want? Peace!¹ – respondiam as senhoras da foto acima com aquele ar de poucos amigos. - When we want it? Now!¹ Pelo seu ar percebe-se que elas não estavam ali para brincar em serviço. A gramática estabelecida ao longo daquela década de contestação estabeleceu que o que se vinha exigir para a Rua tinha que ser sempre premente. Se não o fosse, a cobertura noticiosa aborrecia-se e mudava-se para outro assunto, quiçá a próxima reivindicação.
A visita a Portugal de Filipe VI – a segunda do monarca, depois da do Vaticano, significativo da importância pelo menos protocolar que se atribui ao nosso país – foi pretexto para eu me recordar como há coisa de um mês havia um momento que se anunciava imparável nas ruas das cidades espanholas (acima) exigindo um referendo à monarquia. Hoje, a consulta às datas das referências a esse assunto nas páginas da informação espanhola do Google demonstra que, pelo menos nesse meio, o referendo praticamente terá saído da agenda. Ou seja, quase cinquenta anos transcorridos, verifica-se que os princípios acima enunciados se mantêm. E que, para os contrariar, até António José Seguro conhece tais princípios…
¹ O que é que nós queremos? A Paz! Quando é que a queremos? Agora!
07 julho 2014
O RELÓGIO DO CALIFA
Ao exporem publicamente os seus líderes, os movimentos subversivos transitam para um outro campo de batalha, o mediático. Os insurrectos islâmicos sunitas que têm feito perigar o regime iraquiano correram esse risco quando apresentaram este vídeo com a pregação do seu califa Abu Bakr al-Bagdadi (أبو بكر البغدادي). O regime iraquiano reagiu de forma convencional, levantando dúvidas de que a pessoa que aparece no vídeo é quem pretende ser. Porém, uma outra forma mais imaginativa de o(s) contra-atacar foi concentrar-se na opulência do relógio (Rolex? Omega?) do orador quando em contraste com o conteúdo do seu discurso. Mas substantivamente, as notícias que circulam no Ocidente a respeito do novo califa nem sequer se dão ao trabalho de tentar especular sobre quais as possíveis razões para a adopção daquele nome de Abu Bakr,…
...o mesmo do primeiro califa sucessor de Maomé (632-634), figura respeitável mas que teve um reinado demasiado curto (ao contrário, por exemplo, do seu sucessor Omar, o verdadeiro fundador do império árabe) para que a adopção do seu nome pretenda representar algo mais do que uma mera intenção de retorno à simbologia primitiva do Islão. É nesse sentido que o relógio ou a ventoinha que o refresca podem revelar-se interessantes armas de arremesso. Apesar das ambições norte-americanas para a região, percebe-se uma profunda incompreensão recíproca entre povos, simbolizável por esta fotografia de Abril de 2005, onde vemos George W. Bush a passear de mão dada com Abdallah, então ainda o príncipe-herdeiro saudita, num significativo gesto de amizade nos países árabes, com um significado equivocamente diferente nos Estados Unidos...
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SENHORA DO ALMORTÃO
Teresa Salgueiro não desaprendeu de cantar. Apenas terá saído de moda e caído no esquecimento. E a moda em geral e a musical em particular parece ter expressões favoráveis e desfavoráveis que constituem um mistério insondável.
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