30 agosto 2016

A POLÍTICA NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

A interminável crise governamental da Espanha é para ser acompanhada com uma atenção cada vez mais displicente e com um indefinível sorriso irónico nos lábios: ainda ontem houve mais um episódio, onde Sánchez do PSOE deixou dito que a reunião havida era «perfeitamente prescindível», ao que Rajoy do PP, enxofrado, respondeu que «o diálogo por Espanha nunca é prescindível, muito menos na situação actual». No meio de todas estas proclamações de urgência e de importância que se acumulam desde há meses, mormente proferidas por Mariano Rajoy, o que ainda não se ouviu foi manifestações de disponibilidade dos protagonistas, especialmente do mesmo Mariano Rajoy (mas também dos outros parceiros), para se afastarem do centro das negociações por forma a que não se assaque a razões meramente pessoais (sobretudo de antipatia pessoal...), as causas pelas quais a Espanha permanece neste impasse governativo desde há quase um ano. Isso sim, mais do que as proclamações tonitruantes, mostraria por um gesto concreto uma grande capacidade de sacrifício dos protagonistas pelo bem maior da governabilidade de Espanha! Mas desse género de alternativas negociais não se tem ouvido falar...
Atravessamos tempos bizarros de um predomínio acentuado da política conjugada na primeira pessoa do singular. Também do lado de cá da fronteira e num dos seus discursos deste fim de semana podemos ler que «Passos (Coelho) diz que principal objectivo do Executivo é proibir o PSD de governar». Como Mariano Rajoy mais acima, também Pedro Passos Coelho parece confundir-se a si mesmo entre o que será a sua pessoa e o que é a organização política que dirige. Não tenho quaisquer dúvidas que, por muito que o executivo actual se esforce em o impedir, o PSD há de voltar a governar Portugal no futuro; assim como não tenho quaisquer dúvidas que, a não ser que o executivo actual se empenhe em governar particularmente mal, esse retorno do PSD ao poder nunca irá ser protagonizado por Pedro Passos Coelho... O que cimenta a geringonça é a memória dos tempos de poder de Pedro Passos Coelho, de Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, de Miguel Relvas e de Carlos Moedas... Não é por esses tempos de extrema-direita no poder não serem referidos por essa designação, que se altera a percepção de uma maioria de portugueses de que vivemos algo de muito dramático e que, se vem comprovando agora, foi desnecessariamente brutal e radical para os (parcos) resultados produzidos.

29 agosto 2016

O REPÓRTER, SEMPRE «EM CIMA» DO ACONTECIMENTO... E SEMPRE «ATRÁS» DA VERDADE

Exemplo canónico do que pode ser o jornalismo dinâmico que se pratica hoje em dia (Jornal de Notícias), através do encadeado das notícias cobrindo um caso de uma agressão aparentemente fatal numa rixa entre jovens. Um jovem morreu após ter sido agredido com uma soqueira. Felizmente, logo nessa notícia inicial se dissiparam dúvidas prementes, porque numa primeira versão ele fora agredido com uma faca quando estava acompanhado de uma amiga. Porém, estabelecida a retificação que fora uma soqueira o instrumento da agressão, logo aparece a necessidade de outra, porque afinal a amiga que o acompanhava era mais do que amiga, era namorada, e os ciúmes terão sido a causa da agressão. Mas o assunto parece ainda longe de esclarecido porque o defunto afinal não morreu: está em estado grave no hospital. Constatada em 36 horas, a arma do crime, a causa do crime e até mesmo a ressurreição da vítima e a consequente despromoção do homicida a agressor, só se lamenta que o tópico em si seja trágico, porque no resto é cómico...

UMA FOTOGRAFIA BANAL, NÃO FORA...

Não haverá nada de anómalo na fotografia acima, a não ser para quem simultaneamente saiba ler cirílico e seja pessoa anormalmente atenta e inquisitiva. Só alguém assim se disporia a ler aquele certificado que é empunhado pelo campeão para se aperceber que afinal o campeão... é uma campeã - o nome que lá se lê é Natalia Ogryzko, que descobrimos ser uma russa que é imbatível em halterofilia (abaixo). Não consta que tenha estado presente nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro; lembrar-se-iam dela...  

A COR DO SUCESSOR

Angola, 21 de Setembro de 1979. Dos três homens que aparecem na fotografia, José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara e Henrique Teles «Iko» Carreira, há só um deles e pelas razões à vista (...) que podia suceder ao recém falecido Agostinho Neto (cuja fotografia ampliada preenche a parede que lhes está por detrás) à frente dos destinos da República Popular de Angola. Momento irónico das contradições do discurso político do MPLA. O racismo que tanto se criticara aos portugueses perpetuava-se, agora expresso em sinal contrário, porque era completamente impossível conceber um mulato como Lara ou Carreira, candidatos à sucessão mais qualificados, à frente dos destinos de um país da África negra. O slogan do MPLA era: A Luta continua(va), a Vitória é(ra) certa....mas a hipocrisia também e não apenas nas questões da cor da pele, porque, não se antecipando então, José Eduardo dos Santos iria perpetuar-se no poder pelos 38 anos seguintes,  

28 agosto 2016

HÁ CEM ANOS A ITÁLIA DECLARAVA GUERRA À ALEMANHA

Há precisamente cem anos, a Itália declarava finalmente guerra à Alemanha. A Grande Guerra começara já há dois anos (Agosto de 1914) e a Itália entrara nela quase um ano depois (Maio de 1915), ao declarar guerra ao império austro-húngaro, com o qual fazia fronteira e do qual cobiçava certas regiões. Mas não se pronunciou quanto à Alemanha. Seguiu-se mais de um ano de operações infrutíferas em mais uma frente de batalha que se abriu e que permaneceu essencialmente estática (abaixo), enquanto a Itália preservava esse equívoco diplomático (como o designa acima a Gazeta do Povo) que o desenrolar dos acontecimentos mostrava cada mais improvável vir a dar quaisquer frutos para a Itália: aquilo que a Alemanha estava disposta a forçar a Áustria-Hungria a ceder à Itália para a neutralizar, era muito menos do que o mínimo que a Itália estava disposta a aceitar como recompensa. A um ritmo lento que hoje nos parece impensável o realinhamento estratégico da Itália concluíra-se.

AGORA SEM AVÉ MARIAS E SEM PELOUROS

E com muitas avé marias e pelouros, nos fomos a eles e os matámos todos num credo.
A fotografia é do Líbano de 1976, em plena guerra civil, tirada por Ferdinando Scianna. A decoração mariana da coronha da M-16 identifica a confissão do combatente mas não a facção pela qual combate. Quarenta anos depois parece que, por aquelas mesmas paragens, eles continuam a morrer, muitos, sem necessidade de um pelouro ou de um credo, de uma avé maria ou de um padre nosso que, para morrer, as orações entoadas pelo padre ou os Allah hu Akbar do muezzin são indiferentes para os mortos...

27 agosto 2016

OS RUSSOS EM PALMIRA E A GUERRA DAS IMAGENS

É inegável que a presença dos soldados russos na Síria tem sido um tremendo golpe de propaganda a que os norte-americanos não conseguem ripostar de forma equivalente. Uns vão em apoio dos seus aliados locais, os outros apenas fornecem o material e as palavras de encorajamento. A fotografia acima é de duas sentinelas que guardam o edifício onde estava sediada a administração de Palmira, agora recapturada. O aviso pintado na coluna do lado direito (Мин нет) informa-nos que o local já foi desminado e desarmadilhado. Mas nem tudo poderão ser sucessos nesta guerra de imagens, atente-se a esta fotografia abaixo de algum material de guerra - no caso, granadas de morteiro - que foi capturado aos radicais islâmicos quando da reconquista.
Ultrapassando a imaginação (limitada?) do fotógrafo russo, pode imaginar-se ver ali a oração conjunta, no preciso momento em que os fiéis se prostram de cabeça no chão, os bojos das granadas a equivalerem-se aos rabos e costas dos fiéis, comparem-se as duas fotografias abaixo... De uma certa forma, e numa certa liberdade interpretativa, fica a parecer que até o próprio material de guerra se havia convertido ao islão...

OUTRAS VISÕES

Para além da luz visível há outras formas alternativas de visão, algumas delas popularizadas pelos filmes de acção, como é o caso desta famosa cena acima com Arnold Schwarzenegger vista em raios X, no filme Total Recall de 1990. Outros processos, como a termovisão que é empregue no caso abaixo, não servirão tanto para os filmes de acção porque não ajudarão a identificar o armamento escondido, mas serão perigosamente intrusivas de uma outra maneira, perceba-se aquilo que acontece com a senhora em primeiro plano que, para além de ligar o telemóvel, está a fazer mais outra coisa...

26 agosto 2016

VIVA O BENFICA!

Ele há certas crónicas em que se sente como o jornalismo político deste país pode estar tão atrasado quando em comparação com o do futebol. Muito longe vão já os anos em que ainda havia a ousadia de pôr Leonor Pinhão, só por ser jornalista, a escrever sobre um jogo em que participasse o Benfica. Era proverbial a sua falta de objectividade, certo e sabido que, em caso de mau resultado, o Benfica havia de ter saído prejudicado (grosseiramente) pela arbitragem - à antiga - porque os roubos vinham desde sempre. Mas, mesmo que já não se faça disso no futebol e essa função demagógica tenha sido entretanto assignada ao paineleiro radical do programa do dia seguinte (estatuto a que, não por acaso, Leonor Pinhão foi entretanto promovida), no jornalismo político ainda se vive a hipocrisia de fingir não querer perceber quem é que é - e não consegue deixar de ser... - do Benfica, do Porto ou do Sporting. É neste contexto que se devem apreciar alguns textos recentes que Helena Garrido tem vindo a publicar no Observador a respeito da CGD, em que a indignação que ela manifesta com as deficiências das soluções para a resolução do problema da Caixa tem sido manifestamente superior à indignação que ela manifestara originalmente quando da eclosão desse mesmo problema. Ou seja, aparentemente, para ela é pior estar a tentar resolver (ainda que mal) um grande problema, do que tê-lo causado. Não terá lógica mas, se no futebol nada é para ter lógica, este género de discussão política também estará repleta de outras certezas parecidas: a de que os nossos defesas nunca cometem faltas para grande penalidade. Na verdade, intriga-me porque é que os textos de Helena Garrido aparecem na páginas de Economia do Observador, eles nem sobre política são - Viva o Benfica!

O MERGULHADOR

A fotografia é de Nino Migliori (1951) e tem a oportunidade do momento político actual: já vai sendo altura, depois das pressões lá de fora se terem dissipado em parte, de Mário Centeno proceder a algumas rectificações no orçamento sob pena de vir a dar um grande chapão quando chegar à água... Se o ministro for um genuíno olhanense saberá muito bem que um mergulho deste estilo dado do cais da Armona dói comó caraças...

FOTOGRAFIA DE MODA

A fotografia de moda é uma arte, mas pode ser cruel para quem está do outro lado da objectiva. Um bom profissional deste lado tem por missão realçar o produto que envolve o manequim, embora para isso tenha que despojar o modelo de qualquer personalidade, preservando-lhe a beleza. A modelo desta montagem é a mesma (Judy Dent) assim como o fotógrafo (Frank Horvat). Mas nesta sequência que aqui apresento (1960/61), acaba por se tornar indiferente para com Judy ver-mo-la coberta de roupa, com um vestido ligeiro ou mesmo sem roupa alguma, a nudez trivializa-se como se nem fosse íntima, como se se tratasse de um manequim de montra apanhado a fumar...

25 agosto 2016

A BATALHA DE RANDENIVELA (25 de Agosto de 1630)

Perdido bem no interior do Sri Lanka, o monumento da esquerda assinala a vitória do exército do reino cingalês de Kandy sobre um exército português comandado pelo governador Constantino Sá de Noronha na batalha de Randenivela que ocorreu há precisamente 386 anos. Num retoque irónico, quem celebra a vitória são os cingaleses, mas quem melhor descreve a batalha são fontes portuguesas e é a elas que a propaganda nacionalista cingalesa hoje recorre para detalhar como foi o feito das suas armas. Pelas descrições, as forças portuguesas seriam um clássico exército colonial, com uns 400 a 500 europeus (que seriam na sua esmagadora maioria portugueses) a enquadrar uns 13.000 soldados locais. Do outro lado, os efectivos do exército de Kandy são estimados em 40.000 (os números podem estar empolados porque por uma questão de reputação os portugueses nunca perderiam batalhas em que não defrontassem um inimigo numa desproporção inferior a 1 para 3...). Encurtando a história da batalha, terá havido traições de algumas unidades ao serviço dos portugueses mas a razão principal para a derrota portuguesa dever-se-á ao acaso. Terá sido a chuvada torrencial inesperada que lhes retirou a superioridade tecnológica das armas de fogo, ensopando-lhes a pólvora. E no entanto, os relatos da campanha são consequentes em reconhecer a competência e a experiência de Constantino Sá de Noronha, que até escolhera o mês mais seco (veja-se o quadro meteorológico abaixo) para entrar em operações. Mas, com um dos antagonistas desprovido do seu poder de fogo, os efectivos superiores e o poder de choque do outro terão pesado decisivamente no desfecho da batalha.
A batalha terminou com o aniquilamento total do exército português e com a morte de Constantino Sá de Noronha. Há nos relatos dos momentos finais uma semelhança marcante com Alcácer Quibir, que acontecera 52 anos antes. Também aqui no Sri Lanka, como acontecera em Marrocos, o desfecho da batalha pode ser assinalado como um dobre de finados das ambições portuguesas em constituir uma possessão com profundidade territorial na ilha de Ceilão, diferente das feitorias e praças-fortes (Goa, Malaca, Ormuz, Macau) que então constituíam o esteio do império marítimo português no Oriente. 25 de Agosto de 1630 poderá ter sido um dia negro para as armas portuguesas, mas parece-me um daqueles casos em que nos devemos orgulhar, nem que seja ao descobrir até onde alguns de nós foram na busca - mesmo por vezes inglória - do sucesso...

O RESTAURANTE DO FIM DA RUA E AS CLASSIFICAÇÕES SUPERLATIVAS DISPARATADAS

Havia uma história antiga que descrevia certa cidade onde o sector da restauração era não só bastante disputado mas onde havia também a particularidade dos concorrentes se concentrarem todos numa mesma rua. A uma esquina da rua, um dos concorrentes proclamava-se em cartaz o melhor restaurante da cidade, para alguns metros adiante um seu rival se proclamar o melhor restaurante do país, seguido de um outro que os batia na imodéstia de se considerar o melhor restaurante do Mundo até que se chegava ao do fundo da rua, que apostava no impacto psicológico dos superlativos dos rivais a que fora submetido o potencial cliente e que procurava pôr senso na escalada, assumindo-se simples e prosaicamente como o melhor restaurante desta rua...
Os superlativos têm isso: se lhes pregarmos uma rasteira, eles estatelam-se. Quando a BBC convocou 177 críticos para escolher o melhor filme do século e anuncia que "Mulholland Drive" assim foi considerado, põe-se um evidente problema de aritmética que nada tem a ver com o número - robusto - de críticos - decerto competentes - a que a BBC pediu a opinião. É que o século XXI ainda não completou 16 anos, o que corresponde a menos de 1/6 da duração normal de um século. Será talvez prematuro dispormo-nos a estas classificações seculares; o filme de David Lynch não sairia rebaixado se, como o restaurante do fim da rua, fosse reclassificado como o melhor mas apenas dos últimos 16 anos. Afinal o século XXI ainda nos reserva mais 84 anos de produção cinematográfica...
E que bem pode superar a que foi produzida até agora. Atendendo ao precedente do século XX, analisando este calhamaço que recomenda os 1001 filmes para ver antes de morrer (publicado em 2003 e ao qual, confesso, nunca prestei demasiada atenção...), verifica-se que só 5 deles foram feitos até 1916...

24 agosto 2016

O drama, a tragédia, o horror... - PARA LÁ DE NEPTUNO (2)

Há precisamente dez anos, a assembleia da União Astronómica Internacional estava ao rubro. Até parecia uma rede social... Defrontavam-se duas concepções distintas para a reclassificação dos planetas. O problema impusera-se com a descoberta encadeada durante os primeiros anos do século XXI de vários corpos celestes com dimensões próximas, mesmo superando, as de Plutão, o último dos planetas clássicos a ter sido descoberto (1930). Havia uma concepção democrática, a que aparece no quadro acima e que estaria aparentemente predestinada a vingar, que se prepararia para alargar o estatuto planetário a outros corpos celestes (12).
E havia uma concepção aristocrática, a do segundo quadro, que pretendia reduzir esse estatuto aos grandes planetas complanares canónicos (8). Na votação, que teve lugar a 24 de Agosto de 2006 e envolveu cerca de 2.500 membros do organismo, acabou por vingar esta segunda tese. Mas já então, mais importante que as razões que haviam levado a privilegiar uma solução em detrimento da outra, o que se impôs na comunicação social foi a vacuidade de anunciar tragicamente que o planeta Plutão fora despromovido do seu estatuto. Isso é que poderia interessar as pessoas! Na descrição ímpar de Artur Albarran: o drama, a tragédia, o horror...

SARKOZY ANUNCIA RECANDIDATURA ÀS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS

É uma pena que tenha de ser assim, porque eu até simpatizo com Sarko, mas outra coisa tem de ser a avaliação das condições políticas para que recomeçasse a carreira. Se outro indício não lhe bastasse, esta rapidez (de 24 horas!) com que alguém pagou e publicitou uma sondagem que dá uma maioria esmagadora de franceses contra a sua candidatura, devia dar-lhe uma dimensão precisa da sua (im)popularidade mas também das antipatias que gerará entre as forças vivas da nação francesa. Depois dos exemplos mais próximos de Passos Coelho e de Mariano Rajoy sucede-se mais este caso de políticos cimeiros que não se conseguem conceber fora de prazo...

23 agosto 2016

O ATLETA HIPERSENSÍVEL, O PÚBLICO SAFADO E O JORNALISTA QUE NÃO PERCEBE PORRA DO ASSUNTO

Há algumas histórias olímpicas que, mais do que o facto de eu não acreditar nelas, tornam-se-me antipáticas para além da inverosimilhança. Foi o caso das lágrimas de Renaud Lavillenie, o saltador com vara francês (acima, à direita, a chorar durante a cerimónia protocolar de atribuição das medalhas e enquanto se escutava o hino brasileiro), que perdeu o concurso da disciplina num último salto de sorte do seu rival brasileiro Thiago Braz que se veio a sagrar campeão olímpico. O que terá provocado as lágrimas, e que foi pretexto para inúmeros artigos condenatórios na imprensa, terá sido a hostilidade da assistência brasileira, que o vaiava, e que o próprio chegou a comparar à que fora manifestada em Berlim em 1936 contra Jesse Owens: «desde aí nunca vimos mais nada assim». É muita ignorância, a par de tanta sensibilidade, a do francês. Nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 e na mesma disciplina do salto com vara, a grande disputa final travou-se entre o russo Volkov, que jogava em casa, e o polaco Kozakiewicz. E o público russo portou-se para com este último da mesma maneira antidesportiva como o brasileiro o fez agora no Rio de Janeiro com o atleta francês. A substancial diferença é que foi Władysław Kozakiewicz o vencedor e campeão olímpico. E o que distinguiu tal final de tantas outras finais olímpicas da mesma disciplina foi o gesto - tornado famoso e que Lavillenie, se não conhece, deveria conhecer... - como o novo campeão olímpico saudou na hora da vitória o público que o vaiara (abaixo): com um descomunal manguito - ora aí está quem não chora! As peripécias não acabaram por aí. Já contei a história aqui no blogue. Os soviéticos queriam que o atleta fosse punido, os polacos defenderam-no dizendo que aquilo não passara de um espasmo muscular... Para o que interessa, não me restam dúvidas que, Lavillenie tivesse sido o campeão olímpico, e suspeito que a sua hipersensibilidade dificilmente se teria manifestado e tantas críticas ao comportamento do público brasileiro ficariam por contar. Embora os jornalistas, que tanto opinaram sobre este episódio, fossem obrigados a saber como Renaud Lavillenie é até pessoa de lágrima fácil: ainda há três anos isso já acontecera, só que aí fora a protestar contra a decisão dos jurados... Não só parece mau perder, até faz lembrar a Linda de Suza.

O «MILAGRE ECONÓMICO» DA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO DE 2015

Foi só há precisamente um ano, mas na opinião pública já se terá desvanecido aquela sensação que se sentiu na segunda quinzena de Agosto de 2015 que no país se vivia um Milagre Económico... O crescimento económico (1,5%...) estabilizara, a dívida pública caíra, até se ventilava devolver a sobretaxa de IRS... O Diário Económico passava as mensagens todas. Constata-se quanto um ano pode ser muito tempo, porque fora precisamente um ano antes, em Agosto de 2014, que o banco Espírito Santo explodira e sobre a evolução dessa situação e sobre a situação da banca portuguesa em geral, nesse radioso mês de Agosto de 2015, a pouco mais de um mês das eleições, parecia não haver grande coisa que o governo quisesse que fosse dita...
Um ano depois desse milagre gorado, este outro governo a esses costumes nada tem dito. Concentra-se na banca, o enorme buraco que havia permanecido semi-escondido. Mas os indicadores económicos e financeiros permanecem medíocres, piores que os herdados, o que mudou substancialmente foi o teor da cobertura noticiosa desta tal imprensa da especialidade. Este cenário vai implicar significativos desvios na execução orçamental. Agora já se vai tarde para rectificar seja o que seja. Os outros sempre tinham razão quando insistiram com o actual governo para rectificar as contas públicas, porém o que os outros não têm é moral para se fazerem obedecer depois da benevolência que deram mostras para com os exercícios do governo anterior...

22 agosto 2016

AS CONTAS DO COSTUME

Todas as olimpíadas, de quatro em quatro anos, lá vem o quadro recalculando a atribuição das medalhas com o lirismo - e a ignorância - do costume. O exemplo canónico é o da União Europeia, cujos atletas agregados no Rio de Janeiro terão ganho quase o triplo das medalhas da equipa dos Estados Unidos. Também existe uma outra versão, igualmente lírica mas mais nostálgica, que é a de somar as medalhas alcançadas pelos atletas dos países da antiga União Soviética. Também aí, o resultado hipotético, com as 142 medalhas conquistadas, seria superior ao dos Estados Unidos. É um cálculo engraçado, mas quem conheça um mínimo de regras olímpicas, sabe que quaisquer conclusões que se queiram extrair do exercício, arriscam-se a ser um disparate. O busílis está nas condições de acesso aos jogos. Se concorressem unificadas, a União Europeia ou a União Soviética, como acontece com os Estados Unidos, apenas poderiam apresentar uma selecção por cada modalidade. A selecção da União Europeia até poderia ganhar o torneio de andebol masculino mas não poderia conquistar simultaneamente as medalhas de ouro (Dinamarca), prata (França) e bronze (Alemanha). A acrescer a isso, cada modalidade limita o número de atletas de cada equipa que podem competir em cada evento desportivo: são, por exemplo, três no atletismo, dois na natação, um na vela. Assim, a disputa travar-se-ia muito mais acirradamente na pré-selecção para os jogos (que é o que acontece com a equipa norte-americana) e dificilmente, apenas para concretizar a ideia, os seis (que aí já poderiam ser apenas três) concorrentes soviéticos à categoria de 105 kg da halterofilia masculina poderiam ter o aspecto sortido daqueles que foram os medalhados: um usbeque (ouro), um arménio (prata) e um cazaque (bronze). Em suma, nessas simulações não se comparam dados semelhantes. Uma hipotética equipa olímpica da União Europeia ou da União Soviética ressuscitada não teriam tido condições de alcançar os mesmos resultados que o somatório das equipas nacionais. Os ciclos olímpicos passam, as contas repetem-se, prestam-se estas mesmas explicações, e o que ainda não descobri se será por ignorância ou por malícia que nunca vejo esta ressalva assinalada...

21 agosto 2016

AS DUAS LEGENDAS POSSÍVEIS PARA UMA CENA DA HIPERACTIVIDADE DE MARCELO

Tanta tem sido a hiperactividade demonstrada pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa que esta fotografia se pode prestar a duas legendas alternativas e distintas (e acredito convictamente que, se o próprio Marcelo nos ler, ele próprio sugerirá uma terceira...):
 
a) ou Marcelo há-de se deitar na cama que fizer com esta sua actividade frenética;
b) ou então é Marcelo a fazer a cama a um outro vulto da política portuguesa.
 
Acrescente-se, para o primeiro caso, que a cama é de casal, alimentando os novos rumores veranis da imprensa cor-de-rosa; e para o segundo caso, que, se a cama estiver a ser feita para Pedro Passos Coelho, a solidariedade de pertencerem ao mesmo partido mereceria a atenção de Marcelo deixar lá um chocolatinho em cima da almofada...

ZIKA OLÍMPICO

Agora que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro se aproximam do seu fim, adivinhe-se o que vai acontecer neste futuro próximo à densidade das notícias e fotos que apareceram publicadas a respeito do vírus Zika. Quantos fotografias de bebés afectados pela microcefalia teremos oportunidade de continuar a ver nestas semanas que se seguem, agora que a dinâmica noticiosa demonstra que os haverá por toda a parte, incluindo em cidades civilizadas? Ou querem ver que tanta preocupação com a saúde pública tinha um outro objectivo, o Rio de Janeiro, um objectivo bem preciso e razões completamente diferentes?!...