12 agosto 2016

IGREJA «DRIVE-IN»

Se, como se costuma ouvir, os caminhos do Senhor costumam ser insondáveis, este, o de motorizar a assembleia dos seus fiéis, foi um dos que Ele escolheu não trilhar, apesar do visionarismo da América do pós guerra. A fotografia data de 1951 e é da autoria de Ernst Haas.

11 agosto 2016

GOOGLAR ETIÓPIA

Desde há uma semana que tem havido um encadeado de manifestações contra o regime etíope. Têm passado mediaticamente desapercebidas, apesar de terem provocado largas dezenas, quiçá mesmo uma centena, de mortos. Tivessem essas mesmas manifestações ocorrido na Turquia e imagine-se o quão diferente teria sido a cobertura noticiosa. Mas não é só, que o episódio acaba rematado pelo ridículo. Quem googlar agora a palavra Etiópia é capaz de descobrir que a notícia dominante a respeito daquele país é a de um nadador gordinho que ontem fez uma daquelas figuras tristes nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Público, Observador ou Diário de Notícias estão em cima do figuraço daquele que adquiriu rapidamente a alcunha Robel, a Baleia, mas ainda não arranjaram espaço nem tempo para noticiar o que está a acontecer no país da Baleia. Que raio de informação, que raio de sociedade é esta?...

O ABRAÇO DO PRESIDENTE

Seria impensável a um qualquer comum mortal abraçar assim Eanes - sempre severo, ficaria o temor de ainda receber umas descompostura por estar a chorar. Em contraste, Soares só se disporia a deixar que isso acontecesse se o próprio Soares estivesse em campanha - quando até um anão terá beijado. Ainda num contraste suplementar e distinto, ninguém conceberia alguém ir chorar para o ombro de Sampaio, o inverso é que seria provável, da parte do presidente que se estava sempre a emocionar. E sobre Cavaco, e porque as memórias são frescas e as sínteses prematuras, o melhor é não fazer considerações. Mas não, nem a Cavaco Silva nem a nenhum dos seus predecessores se está a imaginar uma fotografia genuína com esta expressividade e com esta intimidade, que não se percebe abusadora, do governado no seu governante. Há o lado humano da fotografia mas também não nos podemos esquecer do impacto propagandístico desta photo-op, porque nada do que nos é dado ver, ainda que de quanto em vez caricato, pode ser levado apenas por inocente. Ainda não se passaram seis meses depois da posse, mas eu, sempre troçando, não antevejo até onde nos pode conduzir este estilo marcelista de exercer a função presidencial. Mas, seja qual for o desfecho, parece indiscutível que Marcelo é one of a kind. A fotografia é de João Porfírio.

NOSTALGIA OLÍMPICA

Quando se assiste agora às transmissões olímpicas da RTP e à indispensável especialização dos comentadores conforme a modalidade, não me consigo esquecer de Montreal 1976 e do memorável desdobramento de José Galvão. Durante as transmissões, as modalidades iam mudando mas o comentador era (quase) sempre ele. O que o qualificava para comentador desportivo era o facto de ter sido atleta do Benfica, competindo como lançador de peso (acima, à direita), enquanto trabalhava na RTP, originalmente como operador de câmara. Naquele Verão de 1976 e arrastando ainda consigo o espírito improvisador-revolucionário do PREC, de que as coisas se iam fazendo, fazendo-se (vocês ocupam as terras e depois esperam que saia a lei, nas palavras inolvidáveis de um oficial do MFA), José Galvão comentou de tudo o que fosse modalidade olímpica que aparecesse na pantalha, secos ou molhados, desde o judo ao remo e aos saltos para a água.

10 agosto 2016

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM CURSO ERA ASSIM...

No Agosto quente de 1975, pela primeira vez desde há largos anos, como se podia ler numa das páginas do Diário de Lisboa de então, duas listas apresentavam-se às eleições para o sindicato dos jornalistas. Uma delas (A) tinha por mote Por uma Informação em Defesa das Massas Populares e dos Trabalhadores, Contra a Manipulação Partidária e o mote da outra (B) era Por um jornalismo ao serviço do Povo. Podiam parecer dois motes entusiasmados (embora a primeira lista usasse muito mais palavras com maiúscula que a segunda), mas, adoptando uma tradição que se iria consolidar futuramente entre a classe, ao narrarem as suas disputas político-profissionais, os jornalistas mostravam-se relutantes, mesmo depois das Liberdades de Abril, em explicar aos seus leitores nos órgãos de comunicação social onde trabalhavam como eram esses bastidores no seu sindicato. A notícia acima (clicar em cima para a ler melhor) é exemplar dessa relutância em se exporem. O texto pretende-se anódino e distanciado, embora as simpatias da direcção do jornal se percebam literalmente à distância: das quatro colunas dedicadas à notícia, 2¾ eram dedicadas à primeira lista - que não divulgara ainda, naturalmente, o seu programa... - a tal que se propunha, entre outros propósitos louváveis, combater a manipulação partidária... Na realidade, o leitor do Diário de Lisboa que estivesse mesmo interessado em aprofundar quem era quem em tal disputa, ter-se-ia que socorrer de uma habilidade, daquelas que todos os leitores de jornal da época haviam desenvolvido até 24 de Abril e que teimava em não cair em desuso: a de saber ler nas entrelinhas. Só isso, a que era necessário adicionar um conhecimento das simpatias políticas de alguns dos membros das listas, lhe permitiria classificar a lista A como mais próxima do status quo político daquele momento, então representado pelo V Governo provisório de Vasco Gonçalves, e a lista B como uma aliança de circunstância envolvendo simpatias que iam desde os socialistas até aos maoistas do MRPP. Isto eram as opções que se deparavam à classe dos jornalistas portugueses em pleno apogeu do PREC: era-lhes possível escolher entre duas listas de esquerda, uma próxima dos comunistas e do poder revolucionário e uma outra que arrebanhava todos os que eram contra isso. Como creio que o leitor apreciará que esta história seja contada até ao fim, adiante-se que foi a Lista B - Por um jornalismo ao serviço do Povo que ganhou as eleições de 12 de Agosto de 1975, talvez numa antecipação da reversão que o PREC iria sofrer. Mas uma reflexão sobre os números envolvidos numa disputa que felizmente se travou nas urnas e que se apresentava como importantíssima, também são motivo de reflexão de como as batalhas políticas da altura se disputavam numa escala limitadíssima: a lista B venceu com 196 votos contra 158 da lista A, mais sete votos nulos (361 participantes). Um desabafo só compreendido por uma geração que viveu esses tempos: ele deve ter havido dezenas de RGAs mais participadas do que isto...

09 agosto 2016

AINDA E SEMPRE AS MAIS AMPLAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS


Dmitri Shostakovich morreu neste dia 9 de Agosto de 1975, há precisamente 41 anos. Por cá, estávamos tão entretidos com o PREC e as possibilidades de sobrevivência do V Governo provisório (que fora empossado no dia anterior), que ninguém terá prestado grande atenção ao facto. E todavia, Shostakovich era considerado um dos maiores expoentes musicais de uma das facções que então se disputavam cá por Portugal, aquela que pugnava pelas mais amplas liberdades democráticas. Muitos anos depois os factos mostram quão relutante e em que bases frágeis assentava o expoente e quão ilusivas seriam as tais amplas liberdades democráticas:

Quando Dmitri Shostakovich atendeu o telefone num certo dia de Março de 1949, disseram-lhe para aguardar: o camarada Estaline queria falar-lhe. Estaline mostrava-se surpreendido por Shostakovich ter declinado um convite para ir a uma conferência cultural pela paz em Nova Iorque. Shostakovich respondeu-lhe que tinha andado enjoado. Estaline fingiu acreditar na história e sugeriu-lhe que fosse ao médico. Mas o enjoo de que padecia devia-se ao facto de que a sua música, assim como a dos seus colegas Sergei Prokofiev e Aram Khatchaturian, ter sido banida na União Soviética há mais de um ano.
Silêncio do outro lado da linha. De um lado o ditador, do outro o artista. O primeiro condescendeu. Disse que desconhecia que os artistas haviam sido censurados e que teria que corrigir os camaradas que haviam dado essa ordem ilegal. No dia seguinte os infelizes censores foram castigados. E Shostakovich seguiu para Nova Iorque.

Esta é uma transcrição traduzida do inglês de um trecho de um livro que foi publicado originalmente em 1979 em russo pelo musicólogo soviético Solomon Volkov. Mais recentemente o mesmo tema foi recuperado, e em Junho deste ano foi publicado entre nós O Ruído do Tempo, a tradução de um romance de Julian Barnes, baseado na vida do compositor. Não o li mas foi-me bastante recomendado. Para que não se apague a Memória.

NÃO HAVIA NECESSIDADE... AS ATLETAS SÃO UMAS BOAS ATLETAS, OS MINISTROS É QUE NEM TANTO...

A primeira vez que me lembro de uma cena parecida, foi há vinte anos, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, a medalhada foi Fernanda Ribeiro e o ministro mandatado para se ir encostar ao sucesso o inconfundível e estimável Jorge Coelho. A cena em si permanece memorável: as câmaras de TV a aproximarem-se do encontro entre a atleta e o ministro, a conversa que havia naturalmente morrido depois da troca das (poucas) palavras de circunstância e um Jorge Coelho que se sente obrigado a ressuscitá-la (à conversa) por causa da aproximação das televisões com um muito pouco convincente sim senhor, sim senhor... Tiago Brandão Rodrigues afigura-se um sucessor digno de Jorge Coelho na falta de jeito... olímpico para lidar com a mesma cenografia. Acredito que Tiago Brandão Rodrigues seja genuinamente o entusiasta que as notícias proclamam que é que já há quatro anos ele havia acompanhado os jogos de Londres como adido local da comitiva portuguesa. Mas as circunstâncias não se podem, não se devem, nem se conseguem repetir. Como acontecia outrora com Jorge Coelho, ele agora é o ministro com a tutela do desporto e não pode (nem poderia mesmo que tentasse) passar desapercebido. Depois do azar de ser notícia por ter sido assaltado na rua, ainda conseguiu estragar ainda mais os efeitos da desdita, com a sua tentativa assaz desastrada de minorar o incidente: Aconteceu tudo de uma forma muito natural..., como se, por implicação, fizesse parte dos roteiros turísticos cariocas sofrer um assalto na rua, qual complemento a uma visita ao Corcovado*. Agora, quem trata da imagem do ministro, quis descrevê-lo tenso durante o combate da atleta Telma Monteiro que culminou com a obtenção por esta última da medalha de bronze, quiçá a tensão que o ministro não tinha experimentado enquanto era (naturalmente) assaltado... Não sei se esta operação de imagem será mesmo assim tão importante, mas o ministro põe-se a jeito e, como diria o diácono Remédios: não havia necessidade...
* Helena Matos usou o mesmo artigo da Visão a que aqui me refiro para colecionar um prontuário de eufemismos que se usaram para descrever o assalto e os desenvolvimentos.

08 agosto 2016

OS EXTREMOS DA ÉTICA REPUBLICANA

A pretexto da história das viagens pagas pela GALP parece ser oportuno fazer o contraste entre os chefes de Estado que terão representado as posições mais extremas quanto ao entendimento do que seria razoável como usufruto das prerrogativas de função. De um lado estará Francisco Craveiro Lopes, presidente entre 1951 e 1958, que se revelaria um maníaco da probidade. A página da Wikipedia que lhe é dedicada narra um episódio em que, nem mesmo numa situação extraordinária e estando em causa a saúde da sua nora grávida, o presidente se terá disposto a disponibilizar uma viatura de função. Também uma biografia do actual presidente Marcelo Rebelo de Sousa começa precisamente por uma descompostura recebida de Craveiro Lopes por seu pai, então membro do governo, por ter levado o filho - Marcelo - para a tribuna durante uma cerimónia. Já se passaram mais de cinquenta anos (o actual presidente era então uma criança) e a prática estará esquecida, mas o comportamento presidencial induziu a que tivesse existido uma espécie de moda de exibir um certo ascetismo por parte dos membros da administração do Estado durante a década de 1950. Do outro lado, a uma distância de 35 anos, estará Mário Soares, a quem se reconhece um entendimento bastante lato do que seria a razoabilidade do usufruto das prerrogativas da função presidencial. Ao contrário do presidente anterior, a página que lhe é dedicada na Wikipedia não se alarga muito sobre as pequenas histórias que ele foi protagonizando durante as 145 viagens ao estrangeiro que realizou durante os dez anos em que ocupou o cargo, mas fotografias como aquela em que aparece a cavalgar uma tartaruga gigante durante uma visita às Seicheles são o paradigma do despesismo da sua presidência - as Seicheles são um país-arquipélago do Índico com a mesma população que o concelho de Paredes. Emblemático da confusão genética da presidência de Mário Soares sobre o que será seu e o que será do Estado, é o facto de haver imensas peças que lhe foram oferecidas quando das visitas de estado e que hoje estão à guarda da Fundação com o seu nome, em vez de o estarem na presidência da República. Os tempos vão de feição a que tenha que se dizer o óbvio: que aquilo lhe foi ofertado por ele ser presidente da República, não por ser o Mário Soares.

Pessoalmente, tenho alguma dificuldade em compreender como é que se confunde uma coisa com outra mas reconheço que, feita essa confusão, é quase automático que quem assim pensa, se iluda que convites como os feitos pela GALP, recentemente denunciados, foram motivados pela amizade e estima dos convidantes pelos convidados... Em jeito de esclarecimento final, diga-se que considero que Mário Soares vale politicamente várias vezes Craveiro Lopes, mas isso é toda uma outra história.

07 agosto 2016

«SCHEIßE MIT REIS (UND CORIANDER)»

Se as identidades de alguns que aceitaram e de alguns que recusaram os convites da GALP estão a ser libertadas selectivamente para a comunicação social, seria natural que o grande furo jornalístico seria obter a lista completa dos convidados que se deslocaram a França para assistir aos jogos da selecção portuguesa a expensas daquela empresa - os que foram e os que não quiseram ir. Mais: não terei sido certamente o único a pensar nisso, nem o único céptico quanto às probabilidades que essa interessante lista venha a ser conhecida em tempo mediaticamente útil, com ou sem o consentimento oficial da GALP - há o jornalismo de investigação e há as realidades portuguesas. Será por situações como esta que há a percepção que o jornalismo parece ter sido completamente capturado pelos interesses económicos e pela política deles dependente, deixando de desempenhar as funções (teóricas, de escrutínio) que dele se esperariam.

Estas situações fazem-me lembrar uma expressão improvável do alemão: scheiße mit reis, à letra merda com arroz. Se a analogia de comparar a política com merda já vem entre nós de tempos antigos (na política, a merda é sempre a mesma, só as moscas é que mudam - ditado popular) e se o arroz sempre foi um acompanhamento que vai bem com tudo, não me parece descabido fazer equivaler a comunicação social ao dito arroz no seu esforço (vão) de querer tornar tragável aquilo que não o é. Para o fazer melhor, juntou-se ao conjunto nos últimos anos aquilo que desempenhará o papel dos coentros (und coriander) na mistela: um retoque de tempero, que aromatiza com alguma argumentação aquilo que normalmente até é transparente: são as chamadas agências de comunicação - que neste caso devem estar a aconselhar a sua cliente GALP a tentar passar o mais desapercebida possível e não é a deixar fugir a lista de convidados que isso acontece...

06 agosto 2016

A ARMA SECRETA DO EXÉRCITO EGÍPCIO

Não sei qual a consideração dispensada pelos profissionais dos mesmos ramos à arma de infantaria, à de engenharia ou mesmo à força aérea do Egipto. Isso será um segredo dos serviços de informações de todo o Mundo. Mas tem sido do domínio comum saber-se qual a reputação operacional em que são tidas as suas bandas de música: verdadeiramente execrável. Os músicos das forças armadas egípcias tem-se notabilizado por, não sendo concebidos exactamente para isso, serem uma arma de destruição... selecta, pela desafinação atroz como tocam hinos alheios e com isso desencadear incidentes diplomáticos que a diplomacia do país tem tentado depois afanosamente compor.

O ano passado aconteceu diante de Vladimir Putin em visita oficial ao Egipto. Ao escutar os acordes do hino do seu país, a fisionomia do presidente russo tornou-se marginalmente ainda mais rígida do que é o costume. Pensou-se: ainda bem que o Egipto não tem fronteiras comuns com a Rússia. Uma banda ucraniana não se teria atrevido a tocar assim... E já em Abril deste ano calhou a vez a François Hollande e nesse caso os observadores qualificaram a sua fisionomia de estoica. Não estivessem os franceses escaldados da sua intervenção recente na vizinha Líbia e os tratos de polé dados ali à Marselhesa seriam mais do que justificação para uma reedição da aventura do Suez.

Se nós tivéssemos um presidente banal não me atreveria a sugeri-lo, mas porque o nosso presidente Marcelo é fora de série e adora fazer coisas, porque é que ele não faz uma visita ao Egipto só para descobrirmos a que é que soará a Portuguesa depois de uma orquestração à maneira? Estivessem à vontade, que nós não os invadiríamos, mas nós, depois de sermos campeões europeus de futebol, não somos menos que a Rússia e a França, pois não? Adenda: Alguém me sugeriu que Marcelo, na sua hiperactividade, ainda era bem capaz de fazer como o antecessor de Putin, Boris Yeltsin, e seria muito bem capaz de se pôr a dirigir a orquestra e de lhes dar o lá, para os afinar... (sóbrio, é claro)

CAMISOLAS ESTAMPADAS

Suponho que esta camisola serviria de boa ilustração ao artigo de opinião que Fernanda Câncio publica esta semana no Diário de Notícias e de que recomendo a leitura. A indulgência para com as mentiras e as calinadas grosseiras tornaram-se uma marca da sociedade actual. As notícias estão cheias das primeiras e as caixas de comentários, quando existem, repletas das segundas. A camisola da fotografia acima até é de uma estética impecável, menos boa será a acuidade geográfica da estampagem, mas que importará isso para quem a envergue se não se preocupar por passar por calino em geografia? E, por falar em estampagem, apreciem-se as notícias que explicam o facto dos nomes das camisolas dos jogadores da nossa selecção olímpica de futebol terem caído durante o jogo: A corrente no Brasil era demasiado baixa para permitir que a máquina de estampagem aquecesse o suficiente... E assim ficámos. O que querem dizer com a expressão uma corrente demasiado baixa? A selecção estagiou num sítio tão rupestre que nem havia luz? Ou querem ver que houve alguém da FPF que não sabia que no Brasil era preciso usar adaptador de corrente?

05 agosto 2016

SE CALHAR, JÁ NEM AS COISAS SÃO EM FORMA DE ASSIM

Para se constatar como é assim que as coisas se dissolvem no ar, ainda há três dias apareciam duas notícias ribombantes no noticiário nacional: a) que o IMI passava a contemplar a vista e a exposição solar dos imóveis: b) que havia um juiz que o ministério da Educação solicitara que fosse substituído por parcialidade no contencioso que mantem com os colégios privados. No primeiro caso, veio-se a descobrir que não era bem assim, que os coeficientes para o cálculo do imposto se mantinham e que o que fora legislado havia sido uma alteração da ponderação de um desses coeficientes. Já há muito que o sol entrava para os cálculos do IMI. No segundo caso também não era bem assim, o juiz que seria pai da tal criança que estudava num dos colégios envolvidos pela sua sentença afinal não tinha lá nenhuma filha. O juiz podia ser faccioso, mas não o seria por causa da filha. E porque a melhor defesa nestas coisas assim é o contra-ataque, no dia seguinte lá se desenterrou do meio do contencioso uma outra juíza que ajuizara de forma antagónica, e que se descobria ter sido dirigente socialista. Assim se encerram as grandes controvérsias da actualidade. Hoje ninguém que saber delas. Dois juízes acusados de parcialidade parecem anular-se se a parcialidade for antagónica e, depois das ironias que se leram sobre ter o Sol a pagar imposto, ninguém parece interessado em elaborar que, se o IMI é um imposto autárquico, os autarcas dos partidos críticos tem os instrumentos para não refletir as alterações promulgadas no contribuinte. Hoje já se está noutras coisas (as viagens pagas para ir ver o euro estão a ter muita saída), mas pergunto-me se as coisas que outrora, há mais de trinta anos, Alexandre O'Neill concebera poeticamente em forma de assim, ainda hoje têm essa mesma forma, ou se já passaram a ser só assim, desformatadas...

04 agosto 2016

O REGIME DE QUATRO DE AGOSTO E A LIÇÃO DO QUE NÃO SÃO AS DIREITAS EUROPEIAS

Há precisamente oitenta anos (4 de Agosto de 1936), o general Ioannis Metaxas declarou o Estado de Emergência e a Lei Marcial na Grécia, criando uma ditadura que viria a ser conhecida pelo dia da sua fundação - o Regime de Quatro de Agosto. A fotografia acima sintetizará muitas das suas características: os soldados, o padre (de costas), o género de saudação de braço estendido e a quem essa saudação é dirigida - Metaxas aparece no centro, de chapéu na mão. O discurso do regime evocava uma terceira civilização helénica, depois da da Grécia clássica da Antiguidade e da Romana/Bizantina medieval, sediada em Constantinopla. Da primeira, o regime recuperava as virtudes (sobretudo espartanas) do militarismo, abnegação e disciplina enquanto à segunda ia buscar as virtudes do centralismo político e da uniformidade religiosa (cristianismo ortodoxo). Embora copiasse alguns dos aspectos mais histriónicos do fascismo italiano - Metaxas era o Protos Argotis (primeiro agricultor) e o Protos Ergatis (primeiro operário) e também se deixava tratar por Arkhigos (o líder) - as características do regime grego iam-se inspirar mais ao figurino do Estado Novo português - inspirador de várias ditaduras europeias desse tempo.
Uma das suas designações oficiosas era precisamente Neon Kratos (Novo Estado). O Neon Kratos desapareceu em 1941, alguns meses depois da morte prematura de Metaxas. E acabou destruído pelo fascismo italiano e, posteriormente, pelo nazismo alemão, quando ambos os exércitos invadiram a Grécia no quadro maior da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do internacionalismo proletário à esquerda, a própria essência ideológica dos nacionalismos de direita faz com que cada um deles fosse muito mais egoísta e muito menos coordenado com os seus congéneres do resto do continente. Berlim ou Roma nunca tiveram o mesmo ascendente sobre partidos irmãos e outros países do que Moscovo. E como Salazar saberia bem demais no caso do vizinho Franco, à direita, a afinidade ideológica nunca impediu uma agressão militar. Hoje em dia baralha-se tudo, pretendem-se formar confederações da direita europeia como se se tratassem de partidos de esquerda (abaixo, da esquerda para a direita, Andrej Danko, Eslováquia, Frauke Petry, Alemanha, Marine Le Pen, França, Geert Wilders, Holanda, e Viktor Orbán, Hungria). É um disparate como mostra este exemplo histórico da Grécia (entre outros): a direita autoritária nunca funcionou em bloco apenas pela sua ideologia...

360º ou MUDAR MAIS DO QUE O ACESSÓRIO PARA QUE O SUBSTANTIVO SEJA O MESMO

Para modificar a reputação de um programa de TV há que fazer mais qualquer coisa do que substituir o pivot que o apresenta. Reconheça-se que, quando quiseram fazer isso com o 360º da RTP 3, a sobriedade de Ana Lourenço seria capaz de captar uma outra audiência, diferente da captada pelo histrionismo de José Rodrigues dos Santos, o que seria preferível para os objectivos de reputação do programa e dos seus autores.
Mas essa mudança não será tudo. Nos temas, que são dominados obrigatoriamente pela actualidade, não se poderá mexer muito. Tão pouco se pode fazer muito quanto é a pivot que se descontrai e lança a sua opinião para o ar. Mas a escolha dos convidados - o elenco mas sobretudo a rotatividade com que aparecem - contarão muito para essa reputação. E, já agora, a memória da equipa de produção quando os convida, também.
Que me desculpem o preâmbulo, mas assisti ontem a um trecho do 360º onde se falou da situação impossível em que se colocou o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, ao tornar-se público que aceitara o convite da GALP para ir assistir a dois jogos da selecção nacional. A crítica parece amplamente maioritária, os dois convidados do 360º assemelharam-se, no consenso condenatório, à dupla dos velhos dos Marretas. Pode ver-se aqui nesta ligação, a partir dos 36 minutos. Assunto encerrado não fora o caso de um dos velhos da dupla ser... José Manuel Fernandes. O antigo director do Público era e continua a ser um dos convidados mais frequentes daquele programa. Se formos ver o 360º de há precisamente seis meses (4 de Fevereiro de 2016), lá está ele, a comentar o orçamento do PS e a permanência de Pedro Passos Coelho à frente do PSD. José Manuel Fernandes percebe de tudo. Mas o que ele não pode pretender é, como ontem tentou alegar de espírito solto, dar exemplos de deontologia a propósito destas formas controversas de aliciamento a alvos. E é aí que a produção do 360º devia ter memória: foi há precisamente dez anos, no Verão de 2006, que José Manuel Fernandes foi cobrir in loco a invasão israelita do sul do Líbano. Mas do lado de Israel e a expensas do governo israelita. O facto era assumido e isso para José Manuel Fernandes fazia toda a diferença, conforme explicava nas suas crónicas: não era segredo.
Claro que todas as crónicas que José Manuel Fernandes enviava de Israel se ressentiam em parcialidade em favor dos donos do porta-moedas que lhe pagava as despesas como se pode perceber pelo cabeçalho acima. Será uma maneira peculiar de ver o jornalismo, que me faz lembrar a isenção dos enviados especiais de A Bola ou do Record, quando em jornadas europeias, iam cobrir os jogos de equipas portuguesas contra equipas estrangeiras. Só que aí a parcialidade era patriótica. No caso de José Manuel Fernandes em Israel, a parcialidade seria ideológica, à qual se poderia acrescentar a agradabilidade de ser tilintante. A culminar, quem acompanhou a guerra através do que José Manuel Fernandes ia escrevendo dificilmente terá chegado a uma conclusão sobre o desfecho do conflito. E por muito mais do que uma questão de discordância ideológica (ou tilintante) do jornalista. Dez anos depois e com o reforço das conclusões de uma comissão de inquérito israelita, é consensual que Israel não conseguiu grande coisa do que se propusera ao desencadear a operação. Há quem conteste que tenha sido uma vitória do Hezbollah, mas não há quem defenda que se tenha tratado de uma vitória israelita. Embora acredite que José Manuel Fernandes seja pessoa para defender até isso! Adiante. O que importa é que, por esta conduta, Fernandes não tem alicerces para dar lições de deontologia seja a quem for sobre o tema dos convites subreptícios. Mas a minha maior crítica nem é para ele: é para quem lhe dá sucessivos ecrãs para que ele os aproveite pregando moral aos outros...

03 agosto 2016

A AVIAÇÃO E AS ENERGIAS ALTERNATIVAS

A propósito destes sucessos recentemente anunciados de aviões propulsionados por formas de energia alternativas, convém recordar que as pesquisas e mesmo o recurso a essas mesmas energias alternativas na aviação podem remontar quase cinquenta anos, no exemplo abaixo no Japão.

EXPRESSÕES TERRESTRES DE CIVILIZAÇÕES EXTRATERRESTRES

De um dos vulcões mais activos do Mundo, o Kilauea nas ilhas Hawai, uma equipa de vigilância recolheu ontem umas imagens engraçadas quando, dentro do cone, apareceu desenhada na lava um smiley. Quando estes episódios de antropomorfismo ocorrem no nosso planeta tendem a ser tratados com a ligeireza brincalhona que a situação merecerá, é apenas a nossa propensão natural (conhecida por apofenia) para identificar padrões que nos são familiares onde não os há. Mas quando o mesmo acontece longe da Terra, como é o caso de Marte (fotografia abaixo) ou da Lua, pode tornar-se apetitoso material para umas teorias bem mais elaboradas...

02 agosto 2016

O HOMEM DE CARTOLINA

Há quase quarenta anos o realizador polaco Andrzej Wajda celebrizou-se pela autoria de dois filmes muito críticos do que era então a sociedade polaca e, por extensão, do que eram as sociedades ditas socialistas do Leste da Europa. Tinham (e têm...) o título de O Homem de Mármore (1977) e de O Homem de Ferro (1981). Pensando no peso desses títulos e naquilo em que consistiu a transição da Rússia depois do colapso do império soviético sob a liderança de Boris Yeltsin (1991-99) com a consequente constituição da oligarquia russa, quando me deparei com esta fotografia só me ocorreu baptizá-la, creio que apropriadamente, de O Homem de Cartolina. A fotografia é de Gennadiy Mikheev.

HOMENS DE ACÇÃO COM BONÉS RIDÍCULOS

Montagem inspirada a partir do boné multicolorido que é envergado por Bruno Brazil na sua aventura O tubarão que morreu duas vezes (1967) desenhado por William Vance e escrito por Louis Albert (Greg). Em rigor, há que confessar que o boné de Pedro Passos Coelho não é encimado pelo mesmo pompom vermelho que dá um requinte adicional ao agente secreto e que, politicamente, o tubarão Pedro Passos Coelho ainda não morreu duas vezes, só uma (e tudo por culpa de uma geringonça...), mas a continuar a conduzir-se como até aqui, a sua segunda morte política é certa...

01 agosto 2016

«EMPIRES AT WAR»

A conclusão mais importante que extraí da leitura deste livro não tem a ver, directa e curiosamente, com o seu conteúdo. Trata-se da mudança subtil como o noticiário internacional se tem vindo a transformar durante os últimos 20 a 25 anos. Nesses tempos era quase garantido que os países mesmo mais discretos, caso do Lesoto ou do Suriname, tinham direito a umas duas ou três pequenas notícias por ano, anunciando mortes de chefe de estado e/ou mudanças de governo. As notícias, naturalmente sintéticas, eram a prova de vida da existência desses países remotos de que nunca se fala, e eram também os pequenos momentos de reconforto para os maduros que sabiam de cor onde se localiza Manágua ou Bujumbura. Podia não se saber detalhes, mas tinha-se uma ideia geral de como estava a situação no Níger. Actualmente, tem que cair um avião cheio de passageiros no Laos ou haver um terramoto na Papua Nova Guiné para que esses países mereçam a atenção, ainda que célere, da comunicação social. Pior: o pouco que é reportado pelas notícias, quando não se trata de uma catástrofe natural ou outra, não passa de um flash fotográfico de uma situação que depois não se explica mais detalhadamente. Foi por isso que me apercebi, através da leitura deste livro, que perdera muitos episódios significativos daquilo que acontecera depois do fim da Guerra-Fria em países asiáticos como a Malásia, a Coreia do Sul e mesmo o Japão. Não que aprecie particularmente as opiniões de Francis Pike, o autor. Basta dizer que se trata de uma daquelas pessoas que interiorizou que a solução para o desenvolvimento económico assenta axiomaticamente na entrega do maior número possível de actividades ao sector privado. Como o slogan das ovelhas de Orwell em versão século XXI, privado é bom, público é mau. Claro que isso o força, quando diante de situações em que o axioma não se confirma (por exemplo, quando se fala dos crescimentos económicos da Índia, da Coreia do Sul ou até mesmo da Malásia que têm sido impulsionados, em certas circunstâncias e sectores, pelo estado), a reduzir as certezas da doutrina com a caixa de velocidades, a fazer a curva da narrativa derrapando por cima dos factos. Mas há que reconhecer que os factos continuam lá e é por isso mesmo os livros deste teor, apesar da falta de objectividade, se tornam tão importantes para suprir as lacunas daquilo que o noticiário internacional deixou de cobrir. Por exemplo, e mesmo num país com a importância e com um acompanhamento cuidado como é o Japão, o noticiário internacional dá-nos a imagem da instabilidade política que ali se vive? É que desde 1989, data da ascensão ao trono do imperador Akihito, o Japão já teve 23 governos (Portugal teve 11) chefiados por 16 primeiros-ministros diferentes (7). Outro exemplo: compare-se a notoriedade do voo MH370 da Malaysia Airlines com a do primeiro-ministro daquele país. Creio que o leitor já terá ouvido falar quase certamente do voo misterioso, mas saberá o leitor, por acaso, como se chama o primeiro-ministro malaio?... Em suma, se outrora livros deste género eram úteis para quem quisesse acompanhar a situação internacional, a degradação que se processou nesse sector da informação parece-me tê-los tornado mais indispensáveis que nunca.

COMO UMA PÁGINA DE UM LIVRINHO ILUSTRADO DE ANEDOTAS

Sem Palavras