08 agosto 2014

CAVACO E O BES (1): A DISCRIÇÃO DO PRESIDENTE

Depois do recato de férias que tem dado mostras, será melhor que Cavaco Silva não se disponha a sair desse recato durante este mês de Agosto para felicitar por mensagem um qualquer atleta que acabe de ganhar a medalha de bronze nuns hipotéticos campeonatos europeus de taekwondo. O agrado da federação portuguesa da modalidade não se comparará à severidade de quem compare esse género de gestos, que são tão frequentes nele nesta pausa estival, com o silêncio inaceitável que dedicou até agora à questão crítica do BES.

MEIA TAREFA

A quem possa interessar, é assim que eu avalio prudente e metaforicamente a solução adoptada para a resolução da situação do BES: uma pintura apenas encetada e muitas nuvens a prometer chuva lá ao longe. A fotografia é de Joel Meyerowitz. E, sobretudo, convém deixar claro que não me sinto qualificado para opinar se esta, a adoptada, será ou não a melhor solução para a crise financeira. Ele há ocasiões em que a prudência e a modéstia nos aconselharia, mesmo – ou sobretudo – diante das necessidades das televisões, a fazer como o José Severino e a reconhecer: – Eu é mais bolos, não é?

07 agosto 2014

OS SAPATOS DO TABI

Permitam-me descrever-vos previamente o Tabi, sujeito baixote com um ar (defensivamente) convencido, professor de inglês (medíocre), a quem todos nós adorávamos atormentar numa tradição que ainda hoje é evocada por respeitáveis ex-alunos do Colégio Militar. Se estiverem mesmo interessados peçam, por exemplo, a este comentador que, na sua próxima aparição televisiva, substitua a sua mais do que previsível análise política por algumas histórias divertidas – ele é um bom narrador – dos gozos de que o Tabi foi vítima e de que ele foi tanto testemunha quanto protagonista. Enfim, para o que interessa, certo dia o Tabi apareceu para dar aulas com uns sapatos novos. E não uns sapatos quaisquer: lindos, mas não discretos, numa cor amarela esverdeada biliosa que os franceses designam por caca d’oie (ou seja, caca de ganso – o que nós teríamos dado para saber isso na altura!…). Sendo o Tabi o Tabi e os tempos os do PREC, ali estava um pretexto excelente para que a aula viesse a ser sistematicamente boicotada, com sucessivos comentários ironicamente apreciativos e perguntas a respeito da beleza, qualidade, proveniência ou preço dos referidos sapatos, a ponto de o Tabi ter explodido indignado a meio do interrogatório intempestivo: Oh meninos! Que é isto?! Que é que vocês têm a ver com a minha vida? Infelizmente, sem que o desabafo tivesse conseguido atenuar sequer o massacre inquisidor que tinha por alvo os preciosos sapatos. Desnecessário dizer que tais sapatos nunca mais foram vistos, nem naquela sala de aula, nem nas contíguas das outras turmas a que o Tabi dava aulas, nem em qualquer outra sala das milhentas que existem por todo o Colégio Militar. Sendo este último uma excelente escola formadora de caracteres, retirei – e ainda hoje guardo – do episódio a lição de vida de que muito mal irá a coisa para alguém quando a sua reputação gira à volta da discussão de um par de sapatos…
Foi isso mesmo que eu considerei aqui há coisa de cinco meses, quando, por ocasião de uma visita a uma feira internacional de calçado, o ministro da economia Pires de Lima foi metaforicamente apanhado descalço: depois de elogiar amplamente a qualidade da produção nacional, numa daquelas perguntas casuais (mortíferas: lembram-se da colocada por Ricardo Costa a Guterres a respeito da quantificação das despesas com a saúde?) veio a reconhecer que estava a usar sapatos estrangeiros. Obviamente devia ter mentido. Ao contrário de nós, que nunca mais deixámos de vigiar o calçado do pobre Tabi, não estou a imaginar nenhum jornalista a cometer a indelicadeza de ir puxar as calças ao ministro para verificação de uma asneira tão irrelevante, mas de palmatória: calçar sapatos importados enquanto se elogia a indústria nacional. Muito se fala de Frei Tomás, mas esquece-se que o frade não era político nem precisava de dar o exemplo a paroquianos, mas as reputações de quem precisa da imagem tendem a sofrer com cenas destas. Para mais, quando os assessores a ressuscitaram – à cena – mês e meio depois para lhe tentar dar um twist cómico: acho que ninguém riu, quem se esquecera recordou e quem ainda se lembrava da cena, não ia esquecer por causa do sorriso - falhado, ainda por cima... A pasta continua ingrata e caricata mesmo depois da partida do Álvaro (Santos Pereira) e a reputação de Pires de Lima andará de companhia com os sapatos (não interessa a nacionalidade…): junto ao chão. E é por isso que, quando vejo artigos de jornal dando destaque às ilusões do ministro (abaixo), me permito o trocadilho fácil mas apropriado de que artigos daqueles, conhecendo-lhe a agenda, parecem ter sido plantados de calçadeira…
Adenda: A demissão de Henrique Granadeiro, o objectivo mais evidente desta expressão pública dos seus estados de alma já Pires de Lima conseguiu. O que nos desconforta é a ignorância a respeito de quais serão os outros objectivos deste ministro tradicionalmente considerado tão próximo de Paulo Portas.

A SALVAÇÃO

Entre os quase desaparecidos no turbilhão do colapso do BES conta-se ainda Vítor Bento, apresentado a certa altura como o economista filósofo, uma competência consensual, o homem para a situação mas que pareceu ter sido também ultrapassado pelos acontecimentos, a fazer lembrar agora, modesta e oportunamente, as imorredouras palavras também filosóficas de Almada Negreiros que, quando nascera, já tinham sido inventadas todas as frases que podiam salvar a humanidade, só faltava mesmo salvá-la.

06 agosto 2014

FOTO - OPORTUNIDADES HISTÓRICAS DE TÓ ZÉ SEGURO

Se bem se recordarão, apesar de se ter mostrado a ir falar com o governador do Banco de Portugal, António José Seguro consegue sair deste episódio do Banco Espírito Santo tão encornado como o português médio…

FRASE A RETER QUE LI ESCRITA POR AÍ

Macroeconomia é política mascarada de álgebra. Daqui. Lido aqui.

BRILHANTE E OS ASSESSORES

Retrospectivamente, e corrijam-me se estiver enganado em relação ao encadeamento da apresentação à opinião pública da resolução do problema do BES, pareceu-me que houve inicialmente um comentador (Marques Mendes) que anunciou em primeira mão quais seriam as resoluções do executivo, uma pessoa (Carlos Costa) que intermediária e formalmente anunciou o que já todos sabiam, a que se sucederam depois alguns membros do executivo (Paulo Portas ou Maria Luís Albuquerque) comentando as medidas que os próprios haviam tomado mas que preferiram não anunciar que haviam tomado. Entretanto, quem dirige o executivo (Pedro Passos Coelho) diz-nos que só se tivesse sido necessário interromperia as férias, ficando contudo por esclarecer se a interrupção seria para tomar decisões - como se deduziria implicitamente no início - ou para comentar as decisões tomadas - como fizeram os seus colegas do executivo. Quem preside ao país (Aníbal Cavaco Silva) também está de férias, mas esse não as interrompeu, nem sequer para nos esclarecer em que circunstâncias as interromperia - pelos vistos, o assunto do BES não se reveste das características de excepcionalidade que merecessem qualquer sinal seu. E também de férias estará o líder da oposição (António José Seguro), mas esse está uma espécie de férias grandes enquanto faz campanha para a liderança do partido proferindo aqueles lugares comuns (BES não pode transformar-se num novo BPN), tão substantivos quanto a violência das abstenções que certa vez preconizou, enquanto deixa as críticas verdadeiramente violentas aos seus adjuntos (Brilhante Dias), quando este qualificou de clandestino o conselho de ministros em que se aprovara a legislação específica para o caso BES. Os assessores governamentais vieram dar razão à crítica à posteriori quando se apressaram a requalificar esse conselho de ministros dominical de electrónico. Tem piada porque nem há quinze dias o conselho de ministros fora presidido por José Pedro Aguiar-Branco porque ninguém se lembrara ainda de o realizar electronicamente... Enfim, de todo este cafarnaum os que estiveram melhores foram mesmo Brilhante e os assessores.

05 agosto 2014

O NADIR DO CICLO NOTICIOSO

Tão previsível quanto um calendário astronómico, o do ciclo anual das notícias também atinge por esta época o seu nadir e, não fosse este ano ter aparecido o caso do BES, toda a comunicação social estaria a ter que recorrer às efemérides do costume: a tradicional de ontem é a do aniversário da batalha de Alcácer Quibir (436º); a de hoje costuma ser o da morte de Marilyn Monroe (52º); e a de amanhã é a incontornável Bomba de Hiroxima (69º).

BUM BADABUM

O humor negro tem os seus cultores mas não será propriamente muito popular. Porém, torna-se-me irresistível  recorrer a ele diante de um quadro que nos mostra a evolução do índice bolsista PSI20 no último ano (acima). Perante a configuração, impõe-se a evocação de uma música hoje totalmente esquecida, concorrente monegasca ao Festival da Eurovisão de 1967 e que dava pelo título apropriadíssimo de Boum-badadoum. Intérprete e autor serão irrelevantes, mas note-se o rigor onomatopaico da queda (bum!) nos princípios de Julho e da outra (o badabum…) no final do mês, ambas devidas ao BES. Nestes episódios há sempre os espertos que se desenfiam assegurando que tudo continua bem. Haja comunicação social para os corroborar.

OS SONHADORES DE STALINEGRADO

Não há nenhuma outra cidade soviética a ser exibida nas suas ruínas de Segunda Guerra Mundial com a mesma intensidade como Estalinegrado. Mas deve ser por isso mesmo que é contrastante como depois disso a cidade deixou de ser fotografada, já reconstruída e em paz. A dupla Nina Sviridova e Dimitri Vozdvijensky (a que já aqui me referi) é a autora desta rara fotografia de Stalinegrado de 1960, uma perspectiva inusitada da mesma cidade, com um grupo de crianças olhando para Leste, para a outra margem, agora deserta, e para o curso já então tranquilizado e tranquilizador do rio Volga. No ano seguinte a cidade mudou de nome para Volgogrado. Em 2015 estará previsto um referendo local para saber por qual nome a cidade deve optar. Os referendos russos são conhecidos por ser muito pouco imprevisíveis...

04 agosto 2014

ABAIXO DE BUSH

Que me perdoem os que me lêem e que não sabem o inglês suficiente para compreenderem do que trata o discurso acima, mas esclareço apressadamente que ele foi proferido por George W. Bush a partir da Casa Branca (como se observa atrás) em 24 de Setembro de 2008, nove dias depois da falência do Banco Lehman Brothers e no auge da crise financeira que se seguiu ao colapso do quarto maior banco de investimento norte-americano. E mesmo esses que não acompanham o teor do discurso podem deduzir o que Bush estará a dizer a respeito dos esforços que estará a desenvolver para combater a crise, em conjunção com o secretário do Tesouro Hank Paulson ou o presidente do Banco da Reserva Federal Ben Bernanke. E depois é natural que os leitores, tanto os fluentes como os não fluentes em inglês, perante a menção do nome de Bernanke façam a associação com o discurso que foi proferido ontem por Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, a respeito da operação de recuperação do Banco Espírito Santo. É verdade que por esta altura, as agências de comunicação que cuidam da imagem do governo já terão posto a circular um punhado de razões ponderosas para que os membros mais destacados do nosso poder político não se tivessem disposto a aparecer envolvidos na questão do BES. Porque Cavaco Silva só costuma acompanhar os assuntos, mesmo quando se trata de broncas deste jaez – aí acompanha com mais atenção. Porque Passos Coelho está de férias – na Manta Rota. Porque é mais fácil apanhar uma enguia besuntada de azeite do que o vice Paulo Portas – nomeadamente em qualquer coisa que remotamente prejudique a sua imagem. E porque até nos esquecemos de perguntar onde raio pára Maria Luís Albuquerque – a homóloga de Hank Paulson, se ainda nos recordarmos do discurso proferido acima por Bush. No serão de ontem, a responsabilidade pela resolução daquela que parece ser a maior crise do sector bancário em Portugal pareceu ter ficado aos ombros do homólogo de Ben Bernanke: Carlos Costa. Hoje já se percebeu que, apesar das aparências (e até da falta de experiência de Costa para aparecer diante das televisões), a solução engendrada para o BES precisou de muito mais do que apenas do âmbito técnico que justificaria a delegação da solução do problema nele: afinal houve que criar legislação específica, que foi aprovada pelo governo e promulgada pelo presidente em período record… Assim sendo, percebe-se que, mesmo não o querendo mostrar aos olhos da opinião pública, presidente e governo tiveram que se atravessar com as suas assinaturas e a ausência dos ecrãs são uma mascarada. Longe vão os tempos em que os responsáveis políticos iniciavam discursos dizendo: Franceses, tenho coisas graves a dizer-vos. (Philippe Pétain, 12 Agosto de 1941) Hoje, pelos vistos, quando as coisas a dizer são graves delega-se e subdelega-se hierarquia abaixo, a ponto do poder político português actual conseguir neste episódio perder em dignidade para uma figura tão caricata quanto foi George W. Bush. Recuperando a expressão abaixo de cão, neste caso presidente e governo terão tido um comportamento, como se confirma pelo vídeo inicial, abaixo de Bush…

O ANTHRACITE DA POLÍTICA PORTUGUESA

É sempre um prazer discutir a política portuguesa com quem complementa esse gosto pelo da BD clássica. Foi através de um criativo brainstorming que concluímos quanto José Manuel Durão Barroso merece ser comparado por diversas razões a Anthracite, aquela pérfida ratazana das histórias de Raymond Macherot, que abaixo se aproxima furtivamente do gabinete presidencial embora deixando estupidamente que se perceba a enorme silhueta das suas ambições estampada na parede…

EM TEMPOS DE «SILLY SEASON» SÃO PERMITIDOS «TROCADALHOS DO CARILHO»

Hoje o Benfica também reabre só com os sócios, o estádio e a designação de Novo Clube… No clube antigo ficam a SAD, o Vieira e Jorge Jesus que tem um ordenado quatro vezes superior ao de Ricardo Espírito Santo.

03 agosto 2014

O IMPÉRIO DOS HOMENS PELUDOS

Quando se aprecia um mapa-mundo com a riqueza da distribuição pilosa entre os homens da nossa espécie (acima) e se constata a concentração dos mais abundantemente guarnecidos nas regiões ao redor do Mediterrâneo e o confrontamos depois com um outro mapa com as fronteiras do que foi o Império Romano no seu apogeu do Século II d.C. (abaixo), constata-se que este último bem poderá receber na História Universal o epíteto de ter sido o maior Império dos homens peludos…

OS COURACEIROS DE AGOSTO

Este título é uma alusão ao de um famoso livro de Barbara W. Tuchman, Os Canhões de Agosto, que, apesar de datado (recebeu o Prémio Pulitzer de 1963), continua tão bem escrito quanto capaz de explicar a crise que conduziu ao eclodir da Grande Guerra de forma talvez mais escorreita do que a maioria de tudo aquilo que recentemente se editou a respeito do assunto, aproveitando o centenário. Mas, quanto a armamento, as grandes descobertas dos princípios do mês de Agosto de 1914, ao contrário do que sugere a metáfora de Tuchman, nada tiveram a ver com a artilharia. Os couraceiros franceses (acima - cuirassiers no original) partiram para a guerra em Agosto de 1914 sob os encorajamentos da população parisiense, envergando uniformes que praticamente não haviam evoluído desde os tempos de Napoleão Bonaparte. E essa tradição centenária era simultaneamente a evocação da época da glória militar maior da França e de uma certa concepção táctica da guerra, consubstanciada no Plano XVII. Mas as realidades da frente de batalha não sobreviveram a essas concepções estratégicas assentes em intangibilidades: o aumento do alcance, da acuidade, do ritmo e da potência do fogo do armamento individual moderno transformara os couraceiros em alvos fáceis para qualquer soldado de infantaria inimigo. Mesmo ainda na fase de reconhecimento, um batedor podia ser ferido (abaixo) por um qualquer soldado da infantaria inimiga transviado com uma facilidade de carreira de tiro...

02 agosto 2014

OTÁRIO

Ainda a propósito do processo que culminou com a escolha de Carlos Moedas para ocupar um dos cargos de comissário em Bruxelas, não sei quantos ainda se lembrarão de que há coisa de três semanas António José Seguro foi recebido com pompa e circunstância em São Bento a pretexto de participar nesse processo. Acima, além do diploma que ele merece que lhe seja outorgado pelo seu papel naquela encenação, estão passagens das declarações que então prestou, de onde se realçava a prioridade dada à discussão das pastas que o futuro comissário poderia receber. Ora o encerramento do processo deixou claro que Jean-Claude Juncker só se mostrou interessado no género do(a) comissário(a) e que nunca se dispôs a discutir quaisquer pastas com Pedro Passos Coelho… Assim sendo, o que é que António José Seguro lá andou a fazer na reunião? Não poderia ter antecipado a armadilha de se dispor a avalizar um assunto que nem sequer seria discutido? E de que é os dois (ele e o 1º ministro) poderão ter falado - a havê-los - nos contactos posteriores? Convença-se Tó Zé Seguro que os ferrinhos e o quico abaixo podem não ser por si só ridículos: são-no quando se tornam simbólicos das figuras que ele tem estado a fazer à frente do partido socialista e da oposição.
ET: Em contraste, a Paulo Portas é que ninguém pode acusar de ingenuidade após esta notícia que o torna retroactivamente apoiante de uma escolha de Jaime Gama em vez de Carlos Moedas, mas a impunidade opinativa que a inverosímil notícia tem recebido, deixa perguntar se o jornalismo político já terá ido todo de férias para o Algarve?…

A INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE METROPOLITANO

Nina Sviridova e Dimitri Vozdvijensky são a designação da autoria associada de um casal de fotógrafos russos com uma colecção de fotografias interessantíssimas começadas a partir da época soviética. Este par, que é apenas uma amostra da riqueza da colecção, mostra-nos momentos significativos da inauguração de uma estação de metropolitano durante os anos iniciais da Era Brejnev (1964-1982).
Pela cronologia da construção, provavelmente tratar-se-á de uma das estações daquela que é conhecida por Linha 7 do sistema moscovita. Na fotografia acima, na extrema-esquerda, o omnipresente Lenine enfeita a frente da primeira carruagem do comboio inaugural, enquanto abaixo é a proliferação de Brejnevs que nos poderá levar a perguntar, mais do que a sua função na paisagem, qual seria o critério como os cartazes eram distribuídos para serem empunhados pela assistência: Voluntariado? Sorteio?
Ou o partido fazia depois uma atençãozinha aos que se dispusessem a acartar com a pancarta durante a cerimónia?... Estas imagens conseguem captar perfeitamente, no estático, aquela solenidade ridícula das cerimónias do socialismo real que, por exemplo, o checo Milos Forman conseguiu captar dinamicamente tão bem no filme O Baile dos Bombeiros, realizado na mesma época destas fotografias (1967).

01 agosto 2014

DELÍRIO

Tirando a própria, que a questão era muito mais complexa do que apenas a imodéstia, ninguém de senso pôde levar a sério a hipótese de Maria João Rodrigues ser apontada pelo governo português para o cargo de próxima comissária europeia. Mesmo assim, uma pessoa precavida como Teresa de Sousa reserva-lhe um parágrafo (acima) no artigo que dedicou ao processo que conduziu à escolha de Carlos Moedas para o cargo. Não me sinto qualificado para comentar o que possa ser o delírio em psiquiatria, mas parece demonstrável que nalgumas situações políticas e com a cobertura de um certo género de jornalismo pode ser compensador quando a intenção for regressar às bocas do mundo…

UMA BOA NOTÍCIA

Mesmo antes de se conhecer qual o pelouro que virá a ocupar, considero esta escolha de Carlos Moedas para o cargo de comissário europeu uma boa notícia. Suponho que haverá quem se lamente que o próximo representante português na comissão seja o arquétipo de uma linha negocial submissa aos interesses exteriores. Concordaria com o lamento se considerasse detectar dentro das estruturas europeias uma preocupação reformista provocada pelas eleições que elegeram um bloco de 30% de eurodeputados que, invocando pretextos nacionais diversos, se opõem das formas mais variadas ao actual figurino da União Europeia. Mas as vitórias, ainda que moderadas mas mediaticamente exuberantes, da FN em França ou do UKIP no Reino Unido parecem ter sido menorizadas se atentarmos à coreografia que temos visto associada à formação da nova comissão Juncker. Finge-se não perceber que as principais fronteiras da confrontação política entre os países-membros e as formações do parlamento europeu terão deixado de ser dentro do sistema entretanto erigido para incluírem o próprio sistema. Assim sendo, não vale a pena investir em Bruxelas enquanto no Berlaymont não se aperceberem que há uma enorme crise de confiança dos povos na construção europeia. Por eles, afigura-se que a coisa até funcionaria por inércia, sem consultas à vontade dos povos. Entretanto, enquanto a casa não vem abaixo de uma forma que se deseja não torne impossível a sua reconstrução em moldes mais apropriados, a memória consola-nos sempre com a lembrança de excelentes comissários indicados por Portugal (abaixo, um deles, João de Deus Pinheiro) com pelouros importantíssimos¹, que a nossa comunicação social sempre nos informou terem desenvolvido um trabalho notável… Um desafio apropriado para Carlos Moedas: ele merece e nós também merecemos mandá-lo para Bruxelas, para descansarmos dele. E do susto da hipótese de o vermos a sobraçar a pasta das Finanças.
¹ O retratado João de Deus Pinheiro ocupou, por exemplo, os importantes portfolios das Relações com o Parlamento, a Cultura e o Audiovisual (1993-95) e seguidamente o das Relações com os países de África, Caraíbas e Pacífico (1995-99).

QUANDO DEIXA DE IR TUDO BEM PARA PASSAR A IR TUDO MAL

Estarei a ser demasiado sarcástico se vos informar que, após cuidada investigação (não supervisionada…), apurei que o guarda desta história de Robin da Mata se poderia chamar Carlos Costa?