Retrospectivamente, e corrijam-me se estiver enganado em relação ao encadeamento da apresentação à opinião pública da resolução do problema do BES, pareceu-me que houve inicialmente um comentador (Marques Mendes) que anunciou em primeira mão quais seriam as resoluções do executivo, uma pessoa (Carlos Costa) que intermediária e formalmente anunciou o que já todos sabiam, a que se sucederam depois alguns membros do executivo (Paulo Portas ou Maria Luís Albuquerque) comentando as medidas que os próprios haviam tomado mas que preferiram não anunciar que haviam tomado. Entretanto, quem dirige o executivo (Pedro Passos Coelho) diz-nos que só se tivesse sido necessário interromperia as férias, ficando contudo por esclarecer se a interrupção seria para tomar decisões - como se deduziria implicitamente no início - ou para comentar as decisões tomadas - como fizeram os seus colegas do executivo. Quem preside ao país (Aníbal Cavaco Silva) também está de férias, mas esse não as interrompeu, nem sequer para nos esclarecer em que circunstâncias as interromperia - pelos vistos, o assunto do BES não se reveste das características de excepcionalidade que merecessem qualquer sinal seu. E também de férias estará o líder da oposição (António José Seguro), mas esse está uma espécie de férias grandes enquanto faz campanha para a liderança do partido proferindo aqueles lugares comuns (BES não pode transformar-se num novo BPN), tão substantivos quanto a violência das abstenções que certa vez preconizou, enquanto deixa as críticas verdadeiramente violentas aos seus adjuntos (Brilhante Dias), quando este qualificou de clandestino o conselho de ministros em que se aprovara a legislação específica para o caso BES. Os assessores governamentais vieram dar razão à crítica à posteriori quando se apressaram a requalificar esse conselho de ministros dominical de electrónico. Tem piada porque nem há quinze dias o conselho de ministros fora presidido por José Pedro Aguiar-Branco porque ninguém se lembrara ainda de o realizar electronicamente... Enfim, de todo este cafarnaum os que estiveram melhores foram mesmo Brilhante e os assessores.
06 agosto 2014
05 agosto 2014
O NADIR DO CICLO NOTICIOSO
Tão previsível quanto um calendário astronómico, o do ciclo anual das notícias também atinge por esta época o seu nadir e, não fosse este ano ter aparecido o caso do BES, toda a comunicação social estaria a ter que recorrer às efemérides do costume: a tradicional de ontem é a do aniversário da batalha de Alcácer Quibir (436º); a de hoje costuma ser o da morte de Marilyn Monroe (52º); e a de amanhã é a incontornável Bomba de Hiroxima (69º).
BUM BADABUM
O humor negro tem os seus cultores mas não será propriamente muito popular. Porém, torna-se-me irresistível recorrer a ele diante de um quadro que nos mostra a evolução do índice bolsista PSI20 no último ano (acima). Perante a configuração, impõe-se a evocação de uma música hoje totalmente esquecida, concorrente monegasca ao Festival da Eurovisão de 1967 e que dava pelo título apropriadíssimo de Boum-badadoum. Intérprete e autor serão irrelevantes, mas note-se o rigor onomatopaico da queda (bum!) nos princípios de Julho e da outra (o badabum…) no final do mês, ambas devidas ao BES. Nestes episódios há sempre os espertos que se desenfiam assegurando que tudo continua bem. Haja comunicação social para os corroborar.
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OS SONHADORES DE STALINEGRADO
Não há nenhuma outra cidade soviética a ser exibida nas suas ruínas de Segunda Guerra Mundial com a mesma intensidade como Estalinegrado. Mas deve ser por isso mesmo que é contrastante como depois disso a cidade deixou de ser fotografada, já reconstruída e em paz. A dupla Nina Sviridova e Dimitri Vozdvijensky (a que já aqui me referi) é a autora desta rara fotografia de Stalinegrado de 1960, uma perspectiva inusitada da mesma cidade, com um grupo de crianças olhando para Leste, para a outra margem, agora deserta, e para o curso já então tranquilizado e tranquilizador do rio Volga. No ano seguinte a cidade mudou de nome para Volgogrado. Em 2015 estará previsto um referendo local para saber por qual nome a cidade deve optar. Os referendos russos são conhecidos por ser muito pouco imprevisíveis...
04 agosto 2014
ABAIXO DE BUSH
Que me perdoem os que me lêem e que não sabem o inglês suficiente para compreenderem do que trata o discurso acima, mas esclareço apressadamente que ele foi proferido por George W. Bush a partir da Casa Branca (como se observa atrás) em 24 de Setembro de 2008, nove dias depois da falência do Banco Lehman Brothers e no auge da crise financeira que se seguiu ao colapso do quarto maior banco de investimento norte-americano. E mesmo esses que não acompanham o teor do discurso podem deduzir o que Bush estará a dizer a respeito dos esforços que estará a desenvolver para combater a crise, em conjunção com o secretário do Tesouro Hank Paulson ou o presidente do Banco da Reserva Federal Ben Bernanke. E depois é natural que os leitores, tanto os fluentes como os não fluentes em inglês, perante a menção do nome de Bernanke façam a associação com o discurso que foi proferido ontem por Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, a respeito da operação de recuperação do Banco Espírito Santo. É verdade que por esta altura, as agências de comunicação que cuidam da imagem do governo já terão posto a circular um punhado de razões ponderosas para que os membros mais destacados do nosso poder político não se tivessem disposto a aparecer envolvidos na questão do BES. Porque Cavaco Silva só costuma acompanhar os assuntos, mesmo quando se trata de broncas deste jaez – aí acompanha com mais atenção. Porque Passos Coelho está de férias – na Manta Rota. Porque é mais fácil apanhar uma enguia besuntada de azeite do que o vice Paulo Portas – nomeadamente em qualquer coisa que remotamente prejudique a sua imagem. E porque até nos esquecemos de perguntar onde raio pára Maria Luís Albuquerque – a homóloga de Hank Paulson, se ainda nos recordarmos do discurso proferido acima por Bush. No serão de ontem, a responsabilidade pela resolução daquela que parece ser a maior crise do sector bancário em Portugal pareceu ter ficado aos ombros do homólogo de Ben Bernanke: Carlos Costa. Hoje já se percebeu que, apesar das aparências (e até da falta de experiência de Costa para aparecer diante das televisões), a solução engendrada para o BES precisou de muito mais do que apenas do âmbito técnico que justificaria a delegação da solução do problema nele: afinal houve que criar legislação específica, que foi aprovada pelo governo e promulgada pelo presidente em período record… Assim sendo, percebe-se que, mesmo não o querendo mostrar aos olhos da opinião pública, presidente e governo tiveram que se atravessar com as suas assinaturas e a ausência dos ecrãs são uma mascarada. Longe vão os tempos em que os responsáveis políticos iniciavam discursos dizendo: Franceses, tenho coisas graves a dizer-vos. (Philippe Pétain, 12 Agosto de 1941) Hoje, pelos vistos, quando as coisas a dizer são graves delega-se e subdelega-se hierarquia abaixo, a ponto do poder político português actual conseguir neste episódio perder em dignidade para uma figura tão caricata quanto foi George W. Bush. Recuperando a expressão abaixo de cão, neste caso presidente e governo terão tido um comportamento, como se confirma pelo vídeo inicial, abaixo de Bush…
O ANTHRACITE DA POLÍTICA PORTUGUESA
É sempre um prazer discutir a política portuguesa com quem complementa esse gosto pelo da BD clássica. Foi através de um criativo brainstorming que concluímos quanto José Manuel Durão Barroso merece ser comparado por diversas razões a Anthracite, aquela pérfida ratazana das histórias de Raymond Macherot, que abaixo se aproxima furtivamente do gabinete presidencial embora deixando estupidamente que se perceba a enorme silhueta das suas ambições estampada na parede…
EM TEMPOS DE «SILLY SEASON» SÃO PERMITIDOS «TROCADALHOS DO CARILHO»
Hoje o Benfica também reabre só com os sócios, o estádio e a designação de Novo Clube… No clube antigo ficam a SAD, o Vieira e Jorge Jesus que tem um ordenado quatro vezes superior ao de Ricardo Espírito Santo.
03 agosto 2014
O IMPÉRIO DOS HOMENS PELUDOS
Quando se aprecia um mapa-mundo com a riqueza da distribuição pilosa entre os homens da nossa espécie (acima) e se constata a concentração dos mais abundantemente guarnecidos nas regiões ao redor do Mediterrâneo e o confrontamos depois com um outro mapa com as fronteiras do que foi o Império Romano no seu apogeu do Século II d.C. (abaixo), constata-se que este último bem poderá receber na História Universal o epíteto de ter sido o maior Império dos homens peludos…
OS COURACEIROS DE AGOSTO
Este título é uma alusão ao de um famoso livro de Barbara W. Tuchman, Os Canhões de Agosto, que, apesar de datado (recebeu o Prémio Pulitzer de 1963), continua tão bem escrito quanto capaz de explicar a crise que conduziu ao eclodir da Grande Guerra de forma talvez mais escorreita do que a maioria de tudo aquilo que recentemente se editou a respeito do assunto, aproveitando o centenário. Mas, quanto a armamento, as grandes descobertas dos princípios do mês de Agosto de 1914, ao contrário do que sugere a metáfora de Tuchman, nada tiveram a ver com a artilharia. Os couraceiros franceses (acima - cuirassiers no original) partiram para a guerra em Agosto de 1914 sob os encorajamentos da população parisiense, envergando uniformes que praticamente não haviam evoluído desde os tempos de Napoleão Bonaparte. E essa tradição centenária era simultaneamente a evocação da época da glória militar maior da França e de uma certa concepção táctica da guerra, consubstanciada no Plano XVII. Mas as realidades da frente de batalha não sobreviveram a essas concepções estratégicas assentes em intangibilidades: o aumento do alcance, da acuidade, do ritmo e da potência do fogo do armamento individual moderno transformara os couraceiros em alvos fáceis para qualquer soldado de infantaria inimigo. Mesmo ainda na fase de reconhecimento, um batedor podia ser ferido (abaixo) por um qualquer soldado da infantaria inimiga transviado com uma facilidade de carreira de tiro...
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02 agosto 2014
OTÁRIO
Ainda a propósito do processo que culminou com a escolha de Carlos Moedas para ocupar um dos cargos de comissário em Bruxelas, não sei quantos ainda se lembrarão de que há coisa de três semanas António José Seguro foi recebido com pompa e circunstância em São Bento a pretexto de participar nesse processo. Acima, além do diploma que ele merece que lhe seja outorgado pelo seu papel naquela encenação, estão passagens das declarações que então prestou, de onde se realçava a prioridade dada à discussão das pastas que o futuro comissário poderia receber. Ora o encerramento do processo deixou claro que Jean-Claude Juncker só se mostrou interessado no género do(a) comissário(a) e que nunca se dispôs a discutir quaisquer pastas com Pedro Passos Coelho… Assim sendo, o que é que António José Seguro lá andou a fazer na reunião? Não poderia ter antecipado a armadilha de se dispor a avalizar um assunto que nem sequer seria discutido? E de que é os dois (ele e o 1º ministro) poderão ter falado - a havê-los - nos contactos posteriores? Convença-se Tó Zé Seguro que os ferrinhos e o quico abaixo podem não ser por si só ridículos: são-no quando se tornam simbólicos das figuras que ele tem estado a fazer à frente do partido socialista e da oposição.
ET: Em contraste, a Paulo Portas é que ninguém pode acusar de ingenuidade após esta notícia que o torna retroactivamente apoiante de uma escolha de Jaime Gama em vez de Carlos Moedas, mas a impunidade opinativa que a inverosímil notícia tem recebido, deixa perguntar se o jornalismo político já terá ido todo de férias para o Algarve?…
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A INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE METROPOLITANO
Nina Sviridova e Dimitri Vozdvijensky são a designação da autoria associada de um casal de fotógrafos russos com uma colecção de fotografias interessantíssimas começadas a partir da época soviética. Este par, que é apenas uma amostra da riqueza da colecção, mostra-nos momentos significativos da inauguração de uma estação de metropolitano durante os anos iniciais da Era Brejnev (1964-1982).
Pela cronologia da construção, provavelmente tratar-se-á de uma das estações daquela que é conhecida por Linha 7 do sistema moscovita. Na fotografia acima, na extrema-esquerda, o omnipresente Lenine enfeita a frente da primeira carruagem do comboio inaugural, enquanto abaixo é a proliferação de Brejnevs que nos poderá levar a perguntar, mais do que a sua função na paisagem, qual seria o critério como os cartazes eram distribuídos para serem empunhados pela assistência: Voluntariado? Sorteio?
Ou o partido fazia depois uma atençãozinha aos que se dispusessem a acartar com a pancarta durante a cerimónia?... Estas imagens conseguem captar perfeitamente, no estático, aquela solenidade ridícula das cerimónias do socialismo real que, por exemplo, o checo Milos Forman conseguiu captar dinamicamente tão bem no filme O Baile dos Bombeiros, realizado na mesma época destas fotografias (1967).
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01 agosto 2014
DELÍRIO
Tirando a própria, que a questão era muito mais complexa do que apenas a imodéstia, ninguém de senso pôde levar a sério a hipótese de Maria João Rodrigues ser apontada pelo governo português para o cargo de próxima comissária europeia. Mesmo assim, uma pessoa precavida como Teresa de Sousa reserva-lhe um parágrafo (acima) no artigo que dedicou ao processo que conduziu à escolha de Carlos Moedas para o cargo. Não me sinto qualificado para comentar o que possa ser o delírio em psiquiatria, mas parece demonstrável que nalgumas situações políticas e com a cobertura de um certo género de jornalismo pode ser compensador quando a intenção for regressar às bocas do mundo…
UMA BOA NOTÍCIA
Mesmo antes de se conhecer qual o pelouro que virá a ocupar, considero esta escolha de Carlos Moedas para o cargo de comissário europeu uma boa notícia. Suponho que haverá quem se lamente que o próximo representante português na comissão seja o arquétipo de uma linha negocial submissa aos interesses exteriores. Concordaria com o lamento se considerasse detectar dentro das estruturas europeias uma preocupação reformista provocada pelas eleições que elegeram um bloco de 30% de eurodeputados que, invocando pretextos nacionais diversos, se opõem das formas mais variadas ao actual figurino da União Europeia. Mas as vitórias, ainda que moderadas mas mediaticamente exuberantes, da FN em França ou do UKIP no Reino Unido parecem ter sido menorizadas se atentarmos à coreografia que temos visto associada à formação da nova comissão Juncker. Finge-se não perceber que as principais fronteiras da confrontação política entre os países-membros e as formações do parlamento europeu terão deixado de ser dentro do sistema entretanto erigido para incluírem o próprio sistema. Assim sendo, não vale a pena investir em Bruxelas enquanto no Berlaymont não se aperceberem que há uma enorme crise de confiança dos povos na construção europeia. Por eles, afigura-se que a coisa até funcionaria por inércia, sem consultas à vontade dos povos. Entretanto, enquanto a casa não vem abaixo de uma forma que se deseja não torne impossível a sua reconstrução em moldes mais apropriados, a memória consola-nos sempre com a lembrança de excelentes comissários indicados por Portugal (abaixo, um deles, João de Deus Pinheiro) com pelouros importantíssimos¹, que a nossa comunicação social sempre nos informou terem desenvolvido um trabalho notável… Um desafio apropriado para Carlos Moedas: ele merece e nós também merecemos mandá-lo para Bruxelas, para descansarmos dele. E do susto da hipótese de o vermos a sobraçar a pasta das Finanças.
¹ O retratado João de Deus Pinheiro ocupou, por exemplo, os importantes portfolios das Relações com o Parlamento, a Cultura e o Audiovisual (1993-95) e seguidamente o das Relações com os países de África, Caraíbas e Pacífico (1995-99).
QUANDO DEIXA DE IR TUDO BEM PARA PASSAR A IR TUDO MAL
Estarei a ser demasiado sarcástico se vos informar que, após cuidada investigação (não supervisionada…), apurei que o guarda desta história de Robin da Mata se poderia chamar Carlos Costa?
31 julho 2014
SEMPRE CHEGARAM A SABER ONDE FICAVA A GUINÉ-EQUATORIAL?
Eu bem sei quanto o género da piada é recorrente, mas torna-se irresistível quando ouvi tantas opiniões indignadas, emitidas sem vacilação sobre uma Guiné Equatorial de expressão portuguesa que nesta rápida semana que entretanto passou desapareceu (como viera) dos escaparates. E desta vez o meu sarcasmo é elaborado em jeito de pergunta: quantos, dos opinadores que predominaram sobre a opinião publicada portuguesa nas críticas da adesão do país à CPLP, chegaram a saber realmente onde é que se localizava a Guiné-Equatorial? Ela continua a existir...
A EXPRESSÃO DA INTELECTUALIDADE DE PONTA NA ÉPOCA BALNEAR 2014
O Capital no Século XXI é o livro que está a dar nesta época balnear 2014, para aqueles que representam em intelectualidade o equivalente à categoria de peso-pesado em pugilismo. Tinha reparado outro dia que a FNAC ousou importar logo as duas versões: a original francesa, marginalmente mais barata e mais detalhada (950 páginas) e a tradução em inglês, mais compacta, com menos de 700 páginas. Para os assumidamente preguiçosos, já há mesmo versões Reader’s Digest com 40 ou 120 páginas. Mas o efeito a acompanhar a toalha de praia, no areal ou à borda da piscina, consegue-se melhor com as originais e aí, a versão francesa, com esta tarja vermelha de onde ressalta o nome do autor, Thomas Piketty, concede uns pontos de sofisticação adicionais, para que a vizinhança ilustrada se aperceba que ali vai alguém que se preocupa com matérias densas e que, ainda por cima, ainda é um dos de velha estirpe, daqueles que lê originais em francês numa época em que a familiaridade com o idioma está em decadência.
30 julho 2014
FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO VASCO
Sempre que leio notícias que insistem naquele aspecto supérfluo dos notáveis que apoiam não sei quem nas candidaturas, apetece-me recuperar estes dois exemplos do passado, para amostra e para lição de quem hiperboliza tais inutilidades. Quem é que, de facto, arrasta votos consigo? O exemplo de cima, deliberadamente maldoso mas mais para o chocarreiro, foi retirado de uma capa do hoje desaparecido jornal 24 Horas de Julho de 2004; o de baixo, absolutamente linear na origem mas muito mais venenoso considerando os desenvolvimentos posteriores e/ou os trocadilhos que se possam vir a fazer entre velhos e novos(…), foi usado na campanha autárquica da coligação lisboeta PS/PCP de Novembro de 2001.
28 julho 2014
BANDA SONORA PARA UM CÉU SILENCIOSO
Da varanda do quarto de hotel que ocupo o céu aparece dominado pela estrela polar e pelas suas duas guardas, luminosas numa noite demasiado silenciosa para os meus ouvidos habituados a bandas sonoras quase indispensáveis. É por isso que me ocupo instintivamente a ocupar o silêncio com algo adequado à placidez do céu, com temas celestiais, uma evocação a um anjo.
SOBRE ALMOÇOS E OUTROS SERVIÇOS GRÁTIS
Quando se está no Alentejo profundo é quase imperioso perdermo-nos. Explicar-nos como se chega ao local que buscamos é função que o alentejano médio desempenha não apenas com zelo mas até com volúpia. Que um Milton Friedman, Nobel da Economia mas na sua ignorância de falta de Mundo, tenha querido explicar o funcionamento deste último com a famosa frase da inexistência de almoços grátis, levo-o à conta do desconhecimento do que é o Alentejo. É tolerância que não estendo caridosamente - caridade cristã, entenda-se... - a João César das Neves, que utiliza a mesma expressão para título das suas crónicas jornalísticas e que não precisa de se esforçar muito para perceber que no seu país há quem preste serviços graciosamente sem o incentivo de umas moedinhas...
27 julho 2014
AFRO
Numa época em que, por causa da insubmissão dos outros membros da CPLP na questão da admissão da Guiné-Equatorial, alguns dos nossos instintos tutelares neo-coloniais parecem ter reaparecido à superfície (no pressuposto de que ninguém interpreta a moralidade do que deve ser a CPLP melhor do que nós, lídimos detentores originais da língua portuguesa), nada melhor que esta exibição de uma africanidade exuberante para a parodiar. E para mostrar apenas um exemplo de como as antigas metrópoles bem cedo perderam o controlo deste género de organizações, na Conferência da Commonwealth de 1961 (de há 53 anos!), já a Índia e a Malásia pediam a expulsão da África do Sul por causa da sua política de apartheid e, apesar de uma feroz hostilidade britânica para com o governo cipriota do arcebispo Makarios III, que conduzira uma campanha de atentados terroristas contra as autoridades coloniais antes da independência (1960), Chipre foi admitido na Commonwealth com os votos da esmagadora maioria dos restantes membros. Não há nada como uma boa ignorância da História para robustecer as indignações alheias, apelando a uma moralidade de um Mundo que nunca existiu…
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