11 agosto 2008

EM INGLÊS PARA O MUNDO

Houve um cartaz do regime do Estado Novo que foi no seu tempo muito gozado por se inserir na campanha de erradicação do analfabetismo e onde, creio, se fazia um apelo a que os analfabetos deixassem de o ser. Quanto à eficácia do cartaz, como se dizia na anedota a seu respeito daquela época: não houve nenhum analfabeto que tivesse deixado de o ler! O cartaz da fotografia que enfeita um artigo do Público de hoje, sobre os rostos do jihadismo é do mesmo quilate: trata-se de um cartaz tipo faroeste (encimado com o tradicional Wanted), redigido em inglês e onde se pedem informações e se oferece uma recompensa (10 milhões de dólares) pelo já falecido Mussab al-Zarqawi (cartaz parecido com o de cima). Aproveitando a piada: também naquele caso não deve ter havido iraquiano que não o tivesse deixado de o ler… Mais a sério, é evidente que o alfabeto corrente nos países árabes é o alfabeto árabe (acima) assim como o idioma. E sempre que temos direito a eventos em inglês adequados a que os possamos compreender naquelas paragens é uma atitude elementar desconfiar estarmos perante uma encenação destinada a consumo externo. Por exemplo, tornaram-se famosas as enormes discrepâncias entre os discursos em árabe e em inglês que eram proferidos por Yasser Arafat, o líder da OLP. Nos grandes problemas mundiais, como que se criou uma espécie de gramática política em inglês, especialmente vocacionada para o exterior. Um dos factores que confere uma identidade nacional forte à Geórgia, o que é uma indiscutível vantagem perante os seus dois grandes vizinhos (russos e turcos) é o seu idioma e o seu alfabeto próprio, cujas raízes datam do fim da Antiguidade, da época da evangelização do país (Século V d.C.). Embora se perceba perfeitamente as razões porque o faça, não deixa de me ser desconfortável assistir aos vários discursos do Presidente da Geórgia que passam nas televisões internacionais (Mikhail Saakashvili - acima) onde ele aparece sempre a falar inglês. Embora a sua causa nos seja simpática (trata-se do fraco contra o forte), lembra Arafat, e levanta-me a dúvida se aquilo que diz ao seu povo é igual ao que diz ao Mundo...

10 agosto 2008

DEPOIS DA QUEDA DE ROMA

Há menos de um mês António Vilarigues escreveu na caixa de comentários de um poste deste blogue*, e praticamente quase me ia convencendo, que o Partido Comunista Sul-Africano (SACP) vive uma relação de proximidade estreita, praticamente de beijo na boca, com o partido no poder (ANC) na África do Sul. Faz uns três dias, foi Vítor Dias que escreveu no seu blogue um poste**, onde saúda efusivamente mais um episódio de uma justa luta dos trabalhadores ocorrido naquele mesmo país, tratando-se de uma greve geral que foi patrocinada pela Central Sindical (COSATU) e por aquele mesmo partido comunista, contra o governo daquele mesmo ANC com quem o SACP viveria aquela relação matrimonial descrita pelo seu camarada. Diante desta contradição só me resta concluir que o sector intelectual do PCP parece viver dias de descoordenação: ou o SACP desenvolve uma actividade de reforço do governo ou de liderança da oposição…
Conhecendo-se a tradição do que deveria ser a disciplina de um verdadeiro partido leninista é caso para perguntar o que é feito dos controleiros destas duas distintas figuras da blogosfera nacional? Que é feito do centralismo democrático para definir a doutrina oficial do partido a este respeito? Que é feita da tradicional preocupação em não baralhar os camaradas? Que é feito daqueles bons tempos onde beijo na boca não era figurado? Com contradições destas parece que bordejamos o limiar do verdadeiro fraccionismo!! Já não basta que, depois da queda de Roma, os romanos sejam forçados a olhar agora para o Imperador do Oriente (sedeado em Pequim e não em Constantinopla…), em busca de uma nova inspiração, como se assiste a estas inaceitáveis vacilações e contradições, demonstrativas da degenerescência acelerada das virtudes romanas… Parece ser mesmo o fim da Antiguidade…
* Factos e só factos:
1. O
ANC ENGLOBA o Partido Comunista da África do Sul;
2. O Presidente do
SACP foi eleito no último congresso do ANC seu secretário-geral;
3. Vários membros da Comissão Política do
SACP pertencem ao Comité Executivo do ANC;
4. O mesmo se aplica a vários militantes do
SACP dirigentes da COSATU (confederação sindical) e igualmente membros do Comité Executivo do ANC;
5. Vários dirigentes do
SACP são ministros e secretários de estado no governo da África do Sul;
6. Por último, mas não menos importante, convém recordar que o sucessor designado de Nelson Mandela, Chris Hani, era o secretário-geral do
Partido Comunista. Por isso mesmo foi assassinado em 1993...

** (...) o significado desta greve geral e destas declarações é tanto maior quanto mais presente estiver que a central sindical COSATU integra, com o ANC e o Partido Comunista da Àfrica do Sul, o bloco político-social que, desde o fim do regime do apartheid, tem apoiado os sucessivos governos sul-africanos liderados pelo ANC.

¡¡ARRIBA EL BENFICA!!

As massas associativas costumam ser de uma perspicácia e memória idênticas às de um rebanho de ovelhas mas acredito que ainda haverá por aí alguns benfiquistas que se lembram dos saudosos tempos da presidência de João Vale e Azevedo, quando a sua equipa de futebol era treinada por um senhor escocês chamado Graeme Souness. Entre outras virtudes* o senhor era um descalabro de relações públicas ao recusar-se a falar uma palavra de português que fosse, sendo a dificuldade contornada pelo prestimoso Martim Cabral (esse mesmo, o da SIC Notícias...), sempre disposto a traduzir de e para Souness nos momentos solenes.
Pois suspeito que, como no ditado, aqueles que esquecem o passado estão destinados a repeti-lo… Mudemos o idioma de inglês para castelhano e a proveniência correspondente dos jogadores de reforço e tudo parece estar a repetir-se porque, ao contrário de Camacho, que sempre se esforçou por falar num portunhol embora arrepiante, este tal de Quique Flores nem lições de língua portuguesa parece estar a receber… E a manada (de jornalistas) escuta-o impávida e serena sem se insurgir – a TVI até passa as declarações do treinador do Benfica sem legendas, que o bom portuguesinho sempre se desenrascou a perceber o espanhol…
Claro que a função principal de Flores é a de estar ali para explicar aos outros como hão-de jogar à bola e não declamar poesia de Pessoa... Mas estes sinais, como outrora aconteceu com Sauness, normalmente não enganam, porque costumam ser os sintomas da desorganização que grassa dentro do clube. Por acaso e circunstancialmente os resultados desportivos poderão não ser afectados mas, num campeonato, que é uma prova de regularidade, é praticamente impossível impedir as suas consequências. Com a vantagem para o presidente que, nesta época, Luís Filipe Vieira até tem um Rui Costa atrás do qual se irá certamente esconder…

Enfim será para a outra época (2009-10), espero que dessa vez no idioma certo...

* Quem não se lembra dessas verdadeiras lendas do Benfica que davam pelos nomes de Brian Deane, Dean Saunders, Gary Charles, Mark Pembridge, Michael Thomas, Scott Minto ou Steve Harkness?

09 agosto 2008

O TOGO ALEMÃO (1884-1914)

A partir de uma pequena faixa costeira de 56 km onde, além do porto de Lomé, que seria a futura capital da colónia, se contava um outro porto com o nome de Porto Seguro (hoje Agbodrafo), herança toponímica da presença portuguesa naquela região, começaram os alemães a partir de 1882 a estruturar a sua colónia africana equatorial do Togo. Ao contrário das outras potências da época (como o Reino Unido ou a França) e das não potências (como os Países Baixos ou Portugal) a história da presença alemã naquelas paragens de África era escassa e não fora muito brilhante…
Quando se cunhou o ouro resultante dos primeiros negócios realizados na feitoria prussiana da Costa do Ouro, que fora mandada fundar por Frederico Guilherme, o Grande Eleitor (1620-1688), duzentos anos antes, em 1682, verificou-se que o ouro valia apenas cerca de metade daquilo que custara a expedição! O clima ainda era mais cruel, se possível, para aqueles europeus setentrionais e, além disso, a concorrência era feroz: em 1717, a colónia foi abandonada e em 1721 os seus direitos vendidos aos holandeses. Pelos próximos 160 anos ninguém na Alemanha quis ouvir falar em aventuras africanas…
Quando os alemães regressaram ao Golfo da Guiné nos finais do Século XIX haviam-se produzido modificações importantes que lhes prometiam possibilidades de sucesso. Modificações científicas: o quinino fora introduzido em larga escala como medicamento profilático contra a malária, doença que fora tradicionalmente uma das maiores causas de mortalidade dos europeus em África. Modificações políticas: desde 1871 que a Alemanha se unificara num Império sob a égide da Prússia. Modificações estratégicas: a gramática da época exigia que as grandes potências mostrassem o seu poder além-mar…
É assim que ocorre a Corrida para África, onde as regras acordadas pela Conferência de Berlim, e não por acaso, favorecem os recém-chegados (como a Alemanha) em detrimento dos históricos (como Portugal). É no quadro dessas regras favoráveis que, a partir da sua secção de 56 km de costa, os alemães avançaram para o interior usando simultaneamente as artes da diplomacia e da força (com as unidades constituídas maioritariamente por tropas nativas) para conseguir a submissão das autoridades tradicionais e foi assim que o Império Alemão adquiriu a sua colónia do Togo.
O território assim adquirido, depois de regulamentadas as suas fronteiras com as potências detentoras das colónias adjacentes, o Reino Unido, presente na Costa do Ouro (agora o Ghana) e a França, no Daomé (hoje o Benim), acabou por ficar com uma área de 87.200 km² (é sensivelmente a dimensão de Portugal), embora escassamente povoada, porque, entre o Século XVII ao XIX, a região fora uma das principais fontes de abastecimento dos escravos exportados para a América. Com uma população rondando o milhão de habitantes nos princípios do Século XX, os europeus eram só cerca de 400.
Ao contrário dos países que historicamente sempre haviam tido interesses em África, as colónias alemãs nunca tiveram grande relevância económica* para a Metrópole. No caso do Togo, a colónia foi aproveitada incentivando-se sobretudo a cultura do algodão pelos nativos, mas a preocupação principal da administração era política: a de demonstrar a superioridade do colonialismo alemão sobre os rivais. Em 1905 foi inaugurada o primeiro troço de via-férrea, para escoamento do óleo de palma, seguindo-se outros troços para escoamento do cacau e do algodão. Em 1913, já havia 330 km de ferrovias (abaixo).
Outro aspecto que se cuidava era o do desenvolvimento da colónia aparentar ser auto-sustentado com as exportações (matérias primas, onde predominava o algodão, o cacau, o óleo de palma ou o marfim) a quase se equivalerem em valor às importações, mantendo-se a aparência de uma balança comercial equilibrada (10 e 11,4 Milhões de Marcos em 1912). Mas a imagem que se procurava transmitir era algo artificial: por exemplo, para manter o valor das exportações de marfim, uma das matérias-primas mais valiosas, em menos de vinte anos os elefantes foram caçados até quase à sua extinção.
A Primeira Guerra Mundial travou-se no Togo entre 12 e 26 de Agosto de 1914. As tropas coloniais togolesas não tinham condições de enfrentar simultaneamente as colunas britânicas saídas de Oeste e as francesas saídas do Leste para as atacar. No Togo localizava-se um dos raros e verdadeiros objectivos estratégicos da altura: a então novíssima estação de rádio de Kamina (abaixo) que permitia as comunicações directas com Berlim e permitiria a coordenação do esforço marítimo alemão no Atlântico Sul. Cercados, os alemães destruíram-na em 25 de Agosto e renderam-se no dia seguinte.
O Togo foi então ocupado pelos dois vencedores e repartido em duas zonas de administração, uma divisão que se manteve depois do fim da Guerra (1919), com a parcela maior (Togo, com 56.800 km²) a caber à França e a restante (Togoland, com 30.400 km²) aos britânicos. Através de um referendo realizado em 1956, esta última veio a ser integrada no que veio a ser o Ghana independente (1957). O restante Togo também se tornou independente da França em Abril de 1960. Em homenagem ao passado, foi convidado para a cerimónia o último governador alemão do Togo, o Duque de Mecklenburg-Schwerin, então com 87 anos…
*A única pequena excepção à regra terá sido o Sudoeste Africano (Namíbia) e as suas minas de diamantes, para onde emigraram na época cerca de 10.000 alemães.

08 agosto 2008

… E ESTES JOGOS OLÍMPICOS

As fotomontagens (em baixo) e os cartoons podem ser prodigiosos de imaginação na denúncia do desrespeito que o regime chinês tem professado pela liberdade e pelos direitos humanos. E há quem manifeste essa sua opinião de uma forma militante, anunciando que, por essa causa, se irá recusar a seguir os Jogos Olímpicos de 2008…
Só que do outro lado da questão está, não só o tradicional pragmatismo e realismo político de quem governa (pelos vistos, quase todos os chefes de estado dos países de vulto irão estar presentes na cerimónia de inauguração dos Jogos…), como também o que pensa a opinião pública local e mundial (vejam-se os dois quadros abaixo).
Pode-se observar nos quadros (retirados daqui e daqui) os resultados dos trabalhos de sondagem do Pew Global Attitudes Project, uma organização norte-americana de sondagens, quer sobre o que os chineses pensam dos Jogos Olímpicos e do seu regime, quer sobre o que a população de vários países seleccionados pensa sobre eles.
Se era de esperar que os chineses se mostrassem satisfeitos (86%) com o seu governo (o que está longe de ser a opinião dominante entre nós), vale a pena reflectir sobre a conclusão que as opiniões negativas sobre a realização dos Jogos Olímpicos na China só se tornam significativas entre os habitantes dos países ocidentais e ricos.
Embora não o costumem reconhecer, esta versão moderna militante dos defensores dos direitos humanos, pela sobranceria que demonstra dos valores culturais ocidentais em relação aos alheios parecem-me ser o que mais se assemelha aos missionários cristãos de outrora, quando na sua intrépida missão civilizacional de evangelizar os outros…

07 agosto 2008

OUTROS JOGOS OLÍMPICOS

Em 1936, o regime alemão aproveitou as circunstâncias da cidade de Berlim ser a anfitriã dos Jogos Olímpicos para organizar uma grandiosa auto-promoção, que era para ser percebida também como uma afirmação do regresso das ambições da Alemanha (a derrotada da Primeira Guerra Mundial) à supremacia na Europa.
Em 1980, provavelmente lembrando-se do exemplo acima, com a realização dos primeiros Jogos Olímpicos num país do Bloco Leste (em Moscovo), os norte-americanos, receosos dos beneficios que os rivais soviéticos pudessem obter com o sucesso do evento, boicotaram-no, no que se veio a revelar uma manobra desastrada.
Desastrada porque uma boa parte dos seus aliados não acompanharam na altura os Estados Unidos no boicote, mas sobretudo porque os soviéticos e os restantes países desse Bloco tiveram ocasião de retaliar de imediato, ao boicotarem por sua vez os Jogos Olímpicos seguintes (1984) que se realizaram em Los Angeles.
Com os três acima mencionados, estes próximos Jogos Olímpicos que começarão amanhã em Pequim (2008) contar-se-ão entre os mais carregados de significado estratégico, da expressão da afirmação mundial do país que os promove. É uma disputa, onde quase que se sente a ambição da China, tanto como o receio norte-americano.
Mas os Estados Unidos não quiseram repetir o erro cometido há 28 anos. Aproveitaram foi a sua máquina informativa que ainda é a predominante na comunicação social mundial, e as notícias que vêm de Pequim, como a da censura à Internet ou a dos problemas da poluição do ar são um permanente incómodo para anfitriões preocupados em que tudo corra bem…

06 agosto 2008

SOBRE A ETIQUETA PRESIDENCIAL

Sempre julguei que havia uma espécie de gentlemen´s agreement* entre ex-Presidentes da República e aquele que está em exercício segundo o qual os primeiros se absteriam de comentar de forma transparentemente crítica e publicamente as acções do incumbente. Afinal, pareço estar enganado: ou tal acordo tácito nunca existiu ou Mário Soares esqueceu-se da boa educação e teve mais um daqueles seus famosos momentos menos gentleman. No passado, lembremo-nos de qual foi a sua reacção após a derrota na corrida para o lugar de presidente do Parlamento Europeu no Verão de 1999, quando qualificou de discurso de dona de casa o pronunciado pela sua rival vencedora, Nicole Fontaine. Ou, ainda mais recentemente, o seu comportamento durante a cerimónia de posse de Cavaco Silva, quando a abandonou logo após os discursos, sem sequer cumprimentar o empossado**.

Se me intriga se poderá ter havido algum propósito oculto na pré-promoção excessiva associada à comunicação presidencial do passado 31 de Julho, não tenho dúvidas quanto à dispensabilidade do artigo que Mário Soares ontem publicou no Diário de Noticias, onde nada acrescenta às críticas entretanto feitas a Cavaco Silva e ao que já fora dito a esse respeito. Como contrapeso, ficou-lhe aquilo que pode ser qualificado como a deselegância do gesto, pondo-se a jeito para apanhar com as inevitáveis acusações de mau perdedor (das eleições presidenciais) além das de incoerência, com Mota Amaral a relembrar como Soares anunciou o veto do Estatuto dos Açores em Setembro de 86 com o mesmo espavento televisivo que agora critica ao sucessor... A coerência nunca foi, de facto, o forte de Soares e agora, que ele está longe da área do poder, tende cada vez mais a ser julgado sem qualquer indulgência pelos seus actos…

* Acordo de Cavalheiros, cumprido por eles mas não lavrado por escrito.
** De referir que é uma guerra sem inocentes e que Cavaco se tem desforrado…

Adenda de dia 9 de Agosto: Depois de Mário Soares, mas com muito menos espavento que ele, foi a vez de Ramalho Eanes se pronunciar sobre a comunicação presidencial, discutindo a forma, mas concordando com o conteúdo. Estas coisas só levam a situações caricatas, como que esperando a opinião de Jorge Sampaio para desempatar, houvesse um conselho sombra de ex-presidentes...

A ARTE DE SE SER ESPIRITUOSO NO LOCAL E À HORA ERRADA

Eu tivera um enfarte no dia anterior e, depois de internado, passara o dia na Enfermaria de SO para doentes cardíacos admitidos nas mesmas condições; pela primeira vez sentira-me deveras um daqueles pacientes de hospital de filme americano, com uma profusão de soros dependurados canalizados para as minhas veias e mais outra catrefa de sensores de máquinas onde os ecrãs mostravam números e emitiam avisos sonoros variados. Nos filmes, os doentes costumam morrer quando o apito passa a contínuo…

Apesar do susto, talvez a analogia com o cinema americano me tenha ficado no subconsciente, pois, ao acordar na madrugada seguinte, uma solarenga madrugada de Julho, dia de Verão, dei por mim com os lençóis totalmente manchados de sangue (resultado da agulha dos soros ter saltado durante o sono) e enquanto me destapava gradualmente para avaliar os estragos dei por mim a resmungar: - Agora, o que faltava mesmo era descobrir uma cabeça de cavalo aos pés da cama*…
Depois, fiquei dividido entre a satisfação de me sentir a recuperar a força anímica depois de ter tido o enfarte e a decepção de ter malbaratado aquela excelente piada perante um auditório (os restantes doentes da Enfermaria de SO) que não estava visivelmente nada interessado nos meus ditos espirituosos matinais. Ainda concebi a hipótese de um milagre, mas entre as enfermeiras que chegaram dali a pouco, nem uma me pareceu, remotamente, com pinta de cinéfila…

* Alusão a uma famosa cena do filme O Padrinho.

05 agosto 2008

SOBRE A SEIVA DE CERTAS ÁRVORES

Lembro-me como, nos momentos mais altos das dissidências do PCP, quando Álvaro Cunhal era questionado frequentemente pela comunicação social sobre esse assunto, num assomo metafórico nada frequente nele, que eu classificaria quase mesmo de maoista, recorreu à imagem de comparar os que então abandonavam o partido a folhas secas enquanto convidava os jornalistas a concentrarem-se nas outras folhas daquela grande árvore que era o Partido Comunista Português… e dá para imaginar o desenvolvimento e o resto da resposta…
Esta classificação vem a propósito do destaque que quero fazer a apreciação de uma dessas folhas secas sobre Alexander Soljenitsin, que foi publicada no Público por ocasião do falecimento recente do escritor russo. Numa expressão que parece tipicamente recuperada dos manuais do partido, Carlos Brito recusou conceder uma avaliação positiva pessoal ao galardoado com o Prémio Nobel da Literatura de 1970. Nisto concordo absolutamente: mesmo laureado com um Nobel, é sempre um bom princípio fazer uma distinção entre o escritor e a pessoa…
E, no geral, também concordo com Carlos Brito: apesar do carácter de denúncia dos crimes do regime soviético feito pelos seus livros, Soljenitsin era um péssimo exemplar para ser empregue como peão norte-americano nas disputas ideológicas da Guerra-Fria. Tudo o que mostrou depois de estar em liberdade no Ocidente acabou por dar-nos uma imagem de um russo profundo, retrógrado, verdadeiro apreciador da autocracia, que acabou discretamente esquecido pela máquina de propaganda ocidental que preferia dissidentes mais conformes.
Entre outras coisas, Soljenitsin não se manifestava contra o imperialismo russo, apenas o contrariava que lhe chamassem soviético. E nesta nova Rússia o velho escritor tornou-se pela primeira vez em excelente activo de propaganda (acima). Gostaria de saber que opinião terão os outros, as folhas verdes, mas, da grande árvore de Cunhal e dos seus discípulos, das folhas verdes que ele lá terá deixado, por estes tempos de estio e sobre esse assunto Soljenitsin, até agora apenas se escuta um silêncio que até deixa ouvir o cantar das cigarras…

Óbitos podem ser ocasiões para homenagens e reflexões. Creio que neste caso do de Soljenitsin também pode ser um bom pretexto para uma reflexão sobre tudo o que aconteceu no passado no mundo socialista, e será muito mais do que ironia, ou poderá ser apenas a questão mais elementar, perguntar afinal, ainda socorrendo-nos da metáfora de Cunhal, qual daqueles dois lados serão os secos e qual serão os viçosos?…

04 agosto 2008

ALCÁCER QUIBIR (4 de Agosto de 1578)

Neste blogue não sou muito adepto da comemoração de efemérides, mas suponho que não haverá grande concorrência na blogosfera portuguesa à evocação que hoje se completam precisamente 430 anos que se travou a Batalha de Alcácer Quibir, que o corpo expedicionário português a perdeu e que o Rei Sebastião I (1554-1578) de Portugal morreu.

Penso já ter escrito neste blogue que na época, entre as pessoas devidamente informadas, nunca houve quaisquer dúvidas sobre a sua morte. A notícia da derrota demorou cerca de uma semana a chegar a Lisboa, e fez-se ainda um compasso de espera para que os acontecimentos se tornassem menos confusos, mas o sucessor, Henrique I (1512-1580), foi jurado Rei em 28 de Agosto.

Ora, a adopção desse gesto – em vez da criação de uma regência – é inequívoco quanto à certeza que então já se teria de ter sobre qual fora o destino do anterior monarca. Não seria por precipitação que o Reino de Portugal passaria pelo que então seria considerado um descomunal vexame internacional de possuir dois reis titulares...

IMAGENS DE MARCA DE MARCAS NACIONAIS

Para mim, é sempre um prazer aprender. Apesar de lhe apreciar a estética, ainda hoje me fica a dúvida em que livro Fernando Pessoa estaria a pensar no início do seu famoso poema Liberdade*, para saber se compartilharia o seu prazer…
Ainda recentemente descobri que a Foster´s, a cerveja australiana de maior projecção mundial, originária de um país que é o quarto maior consumidor per capita de cerveja no Mundo, afinal não é particularmente apreciada na sua própria terra de origem…
Pensando melhor, nada disso me devia surpreender, se nos lembrarmos como no nosso país quase ninguém bebe ou aprecia o Mateus Rosé, porventura a marca de vinhos portuguesa mais fortemente implantada no Mundo. Consequências da globalização…
*Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
(…)

03 agosto 2008

TROCAR O BOLO PELO IOGURTE

Quero desejar que entre os que lêem este blogue com regularidade haverá quem se sinta transportado para um certo passado quando eu descrever como era uma festa entre a malta quando se sabia que o lanche era bolo e iogurte… Já não sei precisar a regularidade com que isso acontecia, mas seria escassa, porque as celebrações eram entusiasmadas, quando nalgumas tardes no Colégio Militar se anunciava que o lanche iria ser verdadeira bolama!

A tradição gastronómica do Colégio Militar parece-me sólida, como todas as tradições ligadas àquela casa, mas assente em alguns mitos, como o amarelo de carne (acima - que nunca apreciei particularmente) e o arroz doce, que sempre teve uma consistência equivalente à das tradições colegiais (podia virar-se a travessa de pernas para o ar que o arroz não caía…). Mas não quero hoje tratar de gastronomia, e sim de comércio, do comércio que se gerava nesses dias em que o lanche era bolo e iogurte.
Porque se havia uma esmagadora maioria que se regalava com o bolo e o iogurte respectivo, havia sempre quem procurasse fazer trocas, especialmente trocar o iogurte pelo bolo. Como seria de esperar, dentro dessa minoria, eram muito mais os que queriam comer dois bolos do que os casos raros (bizarros?) dos que preferiam ficar com dois iogurtes. E assim, as trocas eram poucas, porque a nossa imaginação económica nada tinha dos avanços de alguns bloguistas modernos que são verdadeiros visionários.

Mas, apesar do negócio ser, logo à partida, improvável, numa demonstração de malícia imbecil, ainda havia uns patetas que o tentavam viciar, tornando a tapar o copo do iogurte depois de o comer e anunciando que estavam dispostos a trocá-lo pelo bolo. Era facilmente visível que o copo estava vazio e não creio que alguma vez alguma dessas fraudes tenha tido sucesso, o que não impedia que as tentativas se repetissem com uma regularidade pouco abonatória da inteligência dos autores.
O QI dos autores daquelas cartas que recebo no e-mail* propondo-me esquemas vários que, invariavelmente, irão fazer de mim um homem rico não deve andar longe desses meus antigos colegas de Colégio Militar. As histórias são verdadeiramente inverosímeis e pergunto-me quantos operadores daqueles esquemas haverá e quantos deles terão tido realmente sucesso em tropeçar em alguém na Internet que tivesse um QI abaixo do seu… Será o sucesso que os motiva ou, como outrora, é um exercício inócuo do que consideram inventividade?

Mais do que o gesto, chega a incomodar observar tanta estupidez…

* Como as que me anunciam que ganhei um prémio na lotaria ou que alguém quer fazer de mim seu testamenteiro como a do exemplo abaixo, recém-recebida:

I am khalid mahmoud from Bahrain,I have been diagnosed with esophageal cancer.It has defied all forms of medical treatment,I have few months to live. I havedecided to give alms to charity organizations. I cannot do this myself becauseof my health. I have Eighteen Million dollars ($18,000,000,00) with a securitycompany abroad. Can you help me collect this deposit and dispatch it to charityorganizations? You will take 20% for your assistance.I WOULD WANT YOU TO REACH ME VIA MY PRIVATE EMAIL IFYOU ARE WILLING TO ASSIST ME. ( khalidmahmoudd@hotmail.com )

02 agosto 2008

O QUE É REALMENTE IMPORTANTE – 2

Os quatro aviões que foram desviados a 11 de Setembro de 2001 pertenciam a voos transcontinentais norte-americanos que, saindo de cidades da costa Atlântica (2 de Boston, 1 de Washington e 1 de Newark), tinham por destino cidades da costa do Pacífico (3 iam para Los Angeles e 1 para São Francisco). Sendo voos domésticos estavam sujeitos a um regime de segurança menos apertado, mas o seu destino longínquo fazia com que os aviões estivessem atestados de combustível, o que aumentava o seu poder destrutivo, conveniente para os propósitos dos assaltantes.
Mas, se chamei a atenção para aquele facto foi para destacar como a simultaneidade de tantos voos nos dá a indicação, depois de há dois postes atrás ter aqui escrito sobre a ligação ferroviária transcontinental norte-americana, de como essas rotas serão das mais importantes e das mais disputadas do Mundo em termos de transporte aéreo. E são voos surpreendentemente longos: se um passageiro nova-iorquino demora entre 6 a 7 horas a chegar a Londres, cruzando todo o Atlântico, também demora entre 5 a 6 horas a chegar a Los Angeles, atravessando quase todos os Estados Unidos.

Tanto quanto captar o segmento de luxo dos voos transatlânticos, um dos objectivos inconfessáveis do avião comercial supersónico Concorde era o de captar o mesmo segmento nos voos domésticos norte-americanos de uma costa a outra. Os benefícios da rapidez do Concorde (que iriam reduzir a duração dos voos para metade da duração convencional) far-se-iam sentir tanto num caso como noutro. Contudo, a prudência mandava que os europeus não alardeassem esse objectivo de vender aeronaves às companhias aéreas norte-americanas, porque o lóbi das suas construtoras aeronáuticas é fortíssimo.
Inicialmente, os construtores aeronáuticos norte-americanos não temiam a competição porque, se os programas franco-britânico (Concorde) e soviético (TU-144) de um avião comercial supersónico estavam mais avançados ao longo da década de 1960, o projecto do seu correspondente norte-americano (Boieng 2707) tinha a pretensão de os ultrapassar à posteriori em capacidade de transporte (o dobro dos passageiros) e rapidez. Mas, enquanto os protótipos seus rivais começaram a voar no final da década, o programa norte-americano cada vez mais se atascou em insolúveis problemas necessitando de dispendiosíssimas soluções técnicas.

Claro que um fiasco destes não se proclama, e a justificação que passou para a imprensa foi a preocupação ecológica associada às consequências no solo do estampido que seria desencadeado pelas ultrapassagens da velocidade do som. Recorde-se, para se ajuizar da plausibilidade deste argumento, que se estava em 1971 e que isto se passava nos Estados Unidos, país que nem hoje é propriamente conhecido pelas suas preocupações ambientais… Aliás, no mesmo país, nunca tal problema fora, foi ou veio a ser sequer invocado para condicionar as pesquisas aeronáuticas para a aviação militar (abaixo - um F/A-18 a passar a barreira do som)…
Mas a verdadeira vantagem para as construtoras aeronáuticas norte-americanas desta preocupação ecológica precoce, para além de distrair as atenções públicas do fiasco do projecto do Boeing 2707, era o de bloquear também a viabilidade para que os Concorde fossem vendidos às companhias de aviação dos Estados Unidos para que elas posteriormente os usassem nos seus voos domésticos, nomeadamente no disputadíssimo mercado das viagens transcontinentais. Se com o Concorde o voo transatlântico diminuia a duração de quase 7 para 3 horas e meia, num voo transcontinental ela também diminuiria em metade as tradicionas 6 horas de duração.

Mas isso não estava destinado para acontecer… Costuma referir-se que o Concorde terá fracassado porque fora concebido para níveis de consumo de combustível comuns antes do choque petrolífero de 1973. É uma explicação que fará algum sentido, mas não todo nem o principal: lembremo-nos do segmento de mercado de luxo a que as viagens em avião supersónico se destinavam e como, pela mesma altura, marcas como a Rolls-Royce ou a Bentley passaram pela mesma crise, para lhe sobreviver. Pior e verdadeiramente crucial, foi a limitação administrativa imposta pelas autoridades norte-americanas aos destinos do aparelho.
As rotas do Concorde ficaram limitadas para percursos muito especiais, transoceânicos, essencialmente os voos entre Londres ou Paris e Nova Iorque, e mais alguns casos marginais. A animosidade que o Concorde sempre gozou do outro lado do Atlântico ainda se pôde constatar na cobertura que a média americana deu ao primeiro desastre da aeronave em Julho de 2000, 30 anos depois do seu primeiro voo (acima). Como o afundamento do Titanic em 1912 (um navio britânico) ou o incêndio do Hindenburg em 1937 (um dirigível alemão), parece sempre haver um interesse especial nas catástrofes de transportes que envolvam tecnologias alheias…

Mas, a grande conclusão que se constata de toda esta história resulta na conjunção dos interesses corporativos norte-americanos que, invocando as causas que mais convieram naquela altura, bloquearam uma solução técnica que teria colocado Los Angeles a uma comodíssimas três horas de distância de Nova Iorque já há mais de trinta anos… Foi desta conclusão que me lembrei ao ler, numa entrevista recente, o incómodo manifestado por Rui Moreira pelas deslocações que realiza entre Lisboa e o Porto e pela poupança de tempo (que ele calcula em cerca de uma hora) que se realizaria com a construção do TGV…
Reconheço que a analogia é um pouco difícil. Nos Estados Unidos, Rui Moreira seria um pequeno lobista perdido entre milhares; em Portugal, ele até poderá passar por grande porque, em querendo, até parece que pode dar entrevistas todas as semanas. Mas suponho que poder-se-á comparar o princípio por ele enunciado da premência da comodidade das suas deslocações como inscritas numa espécie de prioridade nacional e regional. Pena que na América nunca tenham pensado assim, e tenham abdicado dos transportes supersónicos de costa a costa para pouparem as pessoas assim viajadas como ele e os empresários que defende…

Mais a sério, e mesmo não tendo Portugal uma tecnologia concorrente como acontecia no caso do Concorde na América, vale a pena reflectir, sobretudo com bastante menos deslumbramento, se os benefícios associados a certos modelos de transporte que os seus construtores nos propõem para o futuro, justificam os custos a eles associados. Mesmo em termos sociais, parece-me desajustado que passemos por mais exibicionistas de uma certa riqueza supérflua do que os norte-americanos, o país reputado pelas suas limousines compridas....

01 agosto 2008

A IMPORTÂNCIA DE SE SER DOMINGOS ABRANTES

Há um trocadilho intraduzível no título da famosa peça cómica de Oscar Wilde The Importance of Being Earnest entre o sentido A importância de se ser honesto e A importância de se chamar Ernesto. Também nas organizações da esquerda, mas apenas nas da verdadeira esquerda, há um trocadilho intraduzível para as de direita na expressão A importância de se ser Domingos Abrantes, porque nas organizações de direita não há um equivalente a um Domingos Abrantes que patrulhe zelosamente os desempenhos daqueles que foram eleitos em nome da organização, procurando corrigi-los de desvios.
O Bloco de Esquerda pode ser uma esquerda plural (é Louçã que o diz), mas, mesmo com o alegado caviar, é uma esquerda quand même*. Não se apreciam os desvios, e há sempre quem se disponibilize a zelar por corrigi-los, como parece ser o caso de Luís Fazenda, a faceta hardcore da organização, ao lado da de pastor presbiteriano de Francisco Louçã, da de avô cantigas de Fernando Rosas, ou da de adolescente inquisitiva de Ana Drago… Com Fazenda vê-se que a organização means business*. No grupo, ele faz lembrar o Animal – o baterista, que tocava sempre acorrentado... – da saudosa banda do Dr. Teeth nos Marretas.
A vítima de Luís Fazenda (ou o desviado, para empregar a terminologia ortodoxa), tem sido José Sá Fernandes, o vereador da Câmara de Lisboa. Entenda-se, eu tenho da actuação daquele vereador um entendimento muito peculiar: ele é o maior responsável pela popularização do instrumento jurídico do conservadorismo congénito português que dá pelo nome de providência cautelar. Uma providência cautelar serve para que não se faça nada; por exemplo, ao escolher o Almirante Américo Thomaz para a Presidência da República em 1958, o Professor Salazar interpôs uma enorme providência cautelar com duas pernas…
Mas sempre há que reconhecer que José Sá Fernandes foi eleito como independente na posição de cabeça da lista do Bloco de Esquerda às eleições e, embora não conheça o conteúdo do contrato então firmado entre as duas partes, costuma ser normal nestes casos que lhe assista uma maior liberdade de acção do que aconteceria se o lugar fosse ocupado por um militante. Em suma, a haver mau da fita na história, ele será Luís Fazenda. Dá mesmo para perguntar se José Sá Fernandes não poderá interpor mais outra providência cautelar que impeça Fazenda e a rapaziada da concelhia de o aborrecer com ortodoxias?
* Sendo um poste dedicado à esquerda caviar era natural que lha adicionasse alguns estrangeirismos caviar.