
O que é costume dizer-se é que, por detrás de um
Grande Homem, está sempre uma
Grande Mulher. Contudo, na fotografia abaixo, a
Grande Mulher (
Raísa) aparece adiante e não atrás do
Grande Homem (
Mikhail Gorbachev). Aliás, é ela que ainda acena enquanto o marido já está a pôr o chapéu e a preparar-se para entrar no avião. Como em muitos outros aspectos da vida política tardia deste último Secretário-Geral do
PCUS¹, também esta fotografia parece ser uma
subversão das
tradições herdadas, tradições essas (abaixo) para as quais, qualquer
bom comunista sempre tivera que mostrar uma devoção
religiosa…

Mikhail Gorbachev conseguiu romper aquele entendimento tácito entre a Informação do Leste e do Ocidente que impedia a divulgação daqueles pormenores de personalidade que tornassem
simpáticos os dirigentes soviéticos aos ocidentais mas que, ao mesmo tempo, pudessem ser tidos a Leste como sinais de uma certa cedência ideológica (
veja-se este poste). E Raísa adaptou-se com gosto (e proveito) àquela lógica norte-americana de dar um destaque informativo desmesurado aos cônjuges dos reais protagonistas. Apareceu um novo campo de disputa – o da fotogenia – na rivalidade global da
Guerra-Fria…

Pela primeira vez, no meio das costumeiras proclamações de amizade pessoal (já em 1973
Nixon convidara Brejnev para a sua própria casa…), os soviéticos
iam à luta e não se saíam nada mal do confronto, como se observa pela fotografia acima. Conhece-se o resto da história. O sucesso dos Gorbachev no estrangeiro não foi acompanhado de um sucesso doméstico equivalente. As políticas de reforma (
Perestroika) lançadas pelo dirigente soviético vieram a revelar-se um fiasco e os próprios fundamentos do império soviético começaram a vacilar acabando com a
implosão da União Soviética em 1991.

Tendo contribuído para o fim da
Guerra-Fria, Mikhail Gorbachev não é um dos
Grandes Homens consensuais do nosso tempo, como um Nelson Mandela, por exemplo. Uma ampla maioria dos russos e os comunistas
ortodoxos filo-russos de além fronteiras detestá-lo-ão, porque ele encarna o desmoronamento do império e a exposição das suas insuficiências. Vale a pena rematar que foi Raísa, por uma última vez, a responsável pela criação de umas
tréguas na hostilidade da opinião pública russa para com o marido quando faleceu prematuramente com leucemia em Setembro de 1999, aos 67 anos (acima).
¹ A afirmação não está totalmente correcta. Durante o famoso Golpe de Agosto de 1991 que pretendeu derrubar Gorbachev, por cinco dias o cargo foi ainda ocupado por Vladimir Ivashko, para depois ser extinto.
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